domingo, 30 de setembro de 2007

Quando sair setembro

Daqui a meia hora, acaba o domingo, o dia e o nono mês do ano. Ninguém entenderá o que vou dizer, nem estou disposto a explicar. Apenas farei um arremedo de inconfidência: o dia de hoje (antes do teatro) foi um pouquinho do que a vida poderia ter sido. Os rumos foram completamente outros, mas hoje foi como se as coisas tivessem permanecido no seu lugar.
Mas o que veio quase subitamente, rapidamente se foi. E tudo voltou ao que era.
Boa noite. E um feliz outubro para todos.

Um domingo no teatro

Ver meu irmão em cena pode ser uma experiência contraditória. Afinal, nem tudo que ele faz me agrada e não são os nossos vínculos familiares e espirituais que me levarão a gostar de todos os seus trabalhos. Mas ele não gosta quando eu não gosto. Paciência. Hoje, contudo, felizmente para ambos, eu gostei muito. E pelo que pude perceber, a aprovação foi geral.
O homem do princípio ao fim, segundo ele, não foi montado como espetáculo, e sim como produto de uma oficina de qualificação de atores. Eu não sei a diferença (talvez o Edyr Proença me esclareça), mas havia um cenário, um figurino, cinco atores e dois músicos, dois diretores e um texto delicioso. É espetáculo suficiente para mim.
Lamento que a despretensão da companhia não tenha permitido sequer maior divulgação. Basta ver que eu mesmo só publiquei a respeito hoje a tarde. Culpa de meu irmão, atribuo.
Resta esperar que a companhia aceite a sugestão que demos eu e outras pessoas. Remontem a encenação, desta feita como espetáculo.
As pessoas adorarão assistir. Inclusive você.

***

Renato Russo. Que peça emocionante! Pelo cartaz, já tínhamos visto a semelhança física entre Bruce Gomlevski e o homenageado. Os trejeitos de palco, exagerados, eram bastante peculiares. Quando ele se virava de costas, parecia estarmos diante de um fantasma. Um fantasma que nos provocava doces emoções.
A peça se autodefine como um musical. Nela, várias canções são interpretadas ao vivo, com o apoio da ótima banda Arte Profana. Gomlevski sabe tocar e canta. Mal, é verdade, mas Renato Russo cantava mal. E quem se importava? Ele pôs nas nossas bocas alguns dos versos mais belos e poderosos da música brasileira. O público acompanhava tudo quase como se estivesse num show de música.
Não posso avaliar se a peça é boa ou não. Como já disse outras vezes, não sou crítico, graças a Deus. Pode ser que tenha havido um certo didatismo e que o final tenha sido piegas, mas toda a montagem me passou uma sinceridade profunda, como se aquelas palavras realmente tivessem partido de Renato Russo. Para mim, é o que basta. Não fui lá escolher o melhor espetáculo do ano para alguma premiação. Fui apenas reviver um aspecto importante de minha juventude. Acho que a grande maioria do público também, em que pese haver uns tantos idosos — bem idosos — presentes.
Saímos todos felizes.

***

Foi uma delícia este domingo de teatro. Pronto: finalmente um domingo que não foi chato.

Olha a revisão!

Em sua coluna no Diário do Pará de hoje, o jornalista Mauro Bonna publicou isto:

BOMBATrês pérolas do último Enem: "O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas"; "O problema ainda é maior em se tratando da camada Diozanio!"; "Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele", e "O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes". Credo!

Notaram? O texto anuncia "três pérolas", mas lista quatro, ostensivamente, já que entre aspas. Erros de contagem não seriam pérolas também? Isso sem falar na imperdoável mania de escrever siglas com letra minúscula, como se fosse uma palavra normal. É ENEM e não Enem. Para quem tem na escrita boa parte de sua vida profissional, tá maus.
Será que ele também escreve siglas assim? Tipo Pa em vez de PA?

Renato Russo

O já comentado Circuito Cultural Banco do Brasil termina hoje em Belém, apresentando a peça Renato Russo, um monólogo de Bruce Gomlevski contando a vida de um dos maiores ícones da música e poesia brasileira. Merecidamente. Tive a felicidade de crescer escutando as palavras corajosas e verdadeiras da Legião Urbana, imorredouras. Tanto é verdade, que permanecem mais atuais do que nunca. Quer uma prova? Então toma:

Nas favelas
No Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?

Lamentei profundamente quando Renato se foi, meio que se entregando ao desalento de viver provocado pela AIDS e pela depressão. De certa forma, como era um poeta romântico, viveu e morreu como os poetas românticos de nossas aulas de Literatura: viveu pouco, amou intensamente, teve vícios e acabou abatido pelo mal do século, imerso num contraditório gosto pelo sofrimento.
E viverá para sempre conosco.
Ora, Renato, onde está você além de aqui, dentro de mim?

O homem do princípio ao fim

A Companhia Teatral Nós Outros exibirá logo mais, em duas sessões, às 18 e às 20 horas, o espetáculo O homem do princípio ao fim, baseado na obra de Millôr Fernandes, misturando textos originais aos de autores consagrados, como Shakespeare, Brecht, James Joyce, Gonçalves Dias, Guimarães Rosa e outros. Trata-se do resultado do trabalho de qualificação de atores feito pela companhia, que se prepara para encenar A comédia dos erros, do bardo inglês, projeto esse já contemplado com o Prêmio Myriam Muniz de Fomento ao Teatro, da Fundação Nacional de Arte, com previsão de estréia para março de 2008.
A encenação ocorrerá no Teatro Waldemar Henrique e a entrada é franca.
Prestigie!

E no dia 1º de dezembro estreia O glorioso auto do nascimento do Cristo-Rei — Quarto crescente.

sábado, 29 de setembro de 2007

Desencannes — espetacular!

Sem dúvida, a publicidade é uma grande arte, que admiro muito. Afinal, num segundo ou numa única imagem, o publicitário precisa transmitir uma mensagem completa. Não é para qualquer um.
Sempre me perguntei como seriam as reuniões de publicitários, para montar suas campanhas. As ideias que surgem, as loucuras, os excessos. E eis que, enfim, alguém decidiu matar minha curiosidade e criou o Desencannes - As pérolas da propaganda que não chegam nem ao atendimento. Os criadores se autodefinem nestes termos:

Durante o processo de criação de uma campanha, muitas vezes acabam surgindo idéias absurdas que nunca foram e nunca poderiam ser veiculadas. Imagine quantas dessas peças já foram criadas e ninguém nunca as viu. No Desencannes, são essas as peças que valem. Um espaço para exposição de idéias que na maior parte das vezes ficam restritas aos criativos da agência.
Aqui, ninguém julga se a peça funcionaria. O que vale é o humor inteligente, a sacadinha, a propaganda impublicável. Pode-se criar, comentar, discordar, defender. Mas o que importa é a idéia pela idéia. Um lugar onde as peças mais extravagantes são premiadas, e concursos com briefings de produtos imaginários são constantes, para o livre exercício da criação. É a fantasia do “Já pensou se sai uma campanha assim?”.
Isso é o Desencannes. A propaganda que não existe. Imaginária. Engraçada. Absurda. Sem compromisso. A publicidade fazendo humor de si mesma. Para brincar e se divertir.

Fiz uma visitinha ao sítio e me acabei de rir. Eles fazem até um festival anual para selecionar o melhor do pior e, recentemente, foi lançado um livro com uma síntese dessas seleções — As impublicáveis pérolas da propaganda — agora publicadas.
Reproduzo nas duas próximas postagens algumas das pérolas da campanha deste ano, mas sugiro que você gaste um pouco do seu precioso tempo com essa inutilidade boa que só.

Desencannes — pérolas do festival 2007

Agrupadas nas categorias ouro, prata e bronze, além do Xote List, as pérolas são realmente inteligentes, exigindo algum refinamento na percepção do observador...



...ou apelando para o humor negro, que adoro.

No humor negro, às vezes se exige certa sofisticação do público.

Com algumas pérolas, você acaba se obrigando a concordar...

...e outras são provocações diretas — afinal, os publicitários se sentiram prejudicados pelo prefeito de São Paulo.

Algumas mexem com certos brios.

Não podia faltar a baixaria pura e simples (playboy)

ou o fundo do poço em matéria de mau gosto.


Enjoy it!


Desencannes — a pérola das pérolas

No festival deste ano, o prêmio de Grand Pérola foi para a publicidade de lançamento do DVD do filme Brokeback Mountain. Sem comentários.



Primeiro questionamento do sábado

Com a abertura da XI Feira Panamazônica do Livro, o trânsito nas imediações do Hangar ficará bastante tumultuado. Logo, precisará de fiscalização. Contudo, não havia um só agente de trânsito no local, hoje, pela manhã ou no começo da tarde. Mas na confluência da Brigadeiro Protásio com a Júlio César, havia — o mesmo sujeito, nos dois horários. Calmamente postado à sombra de árvores no canteiro central da Júlio César.
Quando passei pela última vez por ali, há cerca de uma hora e meia, ele estava multando* um motorista que, com certeza, avançou o sinal fechado para converter da Júlio César no sentido Hangar. Claro, todos os motoristas fazem isso o tempo inteiro. Botar fiscalização ali é certeza de milhares de multas.
Como é feita a distribuição de agentes de trânsito pela cidade? Quem decide o ponto exato onde devem ficar? Por que diabos não havia ninguém orientando o tráfego no ponto em que isso seria mais necessário?

* Multando ou negociando.

Segundo questionamento do sábado

O que fazia uma viatura da Polícia Militar, às 12h55, com dois castrenses uniformizados dentro, conversando e rindo, saindo do Motel Antares, na Av. Júlio César?
Diligência para conferir a presença de menores no motel, eu duvido, pois quem faz isso é a Delegacia de Atendimento ao Adolescente, que não usa viaturas de policiamento comum. Será que tem alguma coisa a ver com o fato de que comida de motel é boa e barata*?

*Refiro-me, é claro, aos bons moteis.

Drink chave de cadeia

Que tal ir a um bar para espairecer, pedir um drink e receber uma dose de desinfetante de pinho? E pior: no embalo, virar a bebida goela a dentro? Pois foi o que aconteceu em Melbourne, na Austrália.
A garçonete Emily Craig, 23 anos e agora desempregada, alegadamente para fazer uma brincadeira com um cliente, serviu-lhe desinfetante. Mas a brincadeira infeliz teve péssimos resultados, a começar por ulcerações na pele.
Craig agora responde a quatro ações penais, sendo acusada de lesão corporal dolosa.

Não sei porque quatro ações, já que o crime é um só, mas analisando o caso à luz do Direito Penal brasileiro, a imputação está correta. Lesão corporal, tecnicamente, é qualquer alteração no organismo de alguém, seja ela anatômica ou funcional. O simples fato de embriagar uma pessoa pode ser corretamente classificado com crime de lesão corporal. E o dolo está presente, pois somente uma pessoa muito imbecil poderia desconhecer a probabilidade de danos, ainda que leves, no organismo de alguém que ingerisse um produto químico desse tipo. E duvido que uma garçonete, acostumada a ver o efeito de substâncias químicas nos consumidores, fosse tão idiota assim.
A cretina se expôs, ainda, à possibilidade de matar o cliente, o que lhe renderia uma acusação de lesão corporal seguida de morte (ainda segundo a legislação brasileira). Isso se o Ministério Público, sempre ávido por tirar o couro de todo mundo, não a acusasse de homicídio quadruplamente qualificado. Afinal, nossos promotores de justiça odeiam o conceito de culpa consciente e acham que tudo é dolo eventual.
Considerando que a divulgação de notícias escandalosas estimula o comportamento de copiadores, eu, se fosse você, tomaria mais cuidado quando fosse encostar em algum canto para tomar um traguinho.

Uma breve comparação

Do Repórter Diário de hoje:

Passeata com cerca de 500 pessoas percorreu as ruas de Breves, ontem, para protestar contra a escalada da violência na cidade. O estopim do movimento foi o assassinato, na porta de um dançará, de dois estudantes, um de 16 e outro de 21 anos. Segundo a população local, o que torna a situação mais grave é a ausência da Justiça e da Polícia. Para se ter uma idéia, os dois rapazes foram mortos por volta da meia-noite, mas a família só conseguiu encontrar um policial para fazer a ocorrência às 10h30 do dia seguinte. Os bandidos foram presos, mas escaparam do flagrante e podem ser liberados a qualquer momento.

Enquanto isso, na capital, a Justiça, a Polícia, o Ministério Público e outras instituições realizam a operação "Cadê seu filho?", provocando uma queda abrupta nos casos de delitos envolvendo menores. E a grita é geral. Que tal perguntarmos à família do adolescente assassinado o que eles achariam de a operação ter sido realizada em Breves também?
Não posso deixar de pensar no alienista de Machado de Assis. Aqui, na província, reclama-se da ausência das autoridades. Quando elas comparecem, reclama-se também. Vai entender.

Começou!

Há algumas horas, foi oficialmente aberta a XI Feira Panamazônica do Livro, reconhecida como a quarta maior feira literária do Brasil, que vai durar 10 dias. Este ano, o país homenageado é Cuba — o que me obriga, simplesmente me obriga a fazer o trocadilho: será que veremos Cuba lançar muitos livros???
Baixarias à parte, agora é conferir a programação e agendar as visitas onde gastarei muito dinheiro. Sim, porque livro é a única coisa que eu realmente gosto de comprar. Aliás, não é gasto e sim investimento. Além disso, como o livro é a síntese da cultura, a feira também é um espaço para escutar música legal (e quem não se sacoleja com uma boa música cubana?), ver pessoas interessantes (com ou sem segundas intenções) e, se conseguir entrar, assistir às palestras dos autores convidados. Foi assim que fiquei encantado com a simpatia de Ariano Suassuna (e descobri que Pasquale Cipro Neto tem um temperamento difícil).
Enfim, vamos atrás dos lançamentos. E boa leitura!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Breve esclarecimento

Meus caros e gentis leitores, obrigações docentes muito absorventes me forçam a reduzir um pouco o ritmo das postagens, bem como a demorar para responder aos seus comentários, coisa que sempre gosto de fazer. Deve piorar um pouco, considerando que entrarei na fase de elaborar, aplicar e — suprema agonia! — corrigir provas. Mas farei o possível para deixar ao menos um postagenzinha por dia e publicar seus comentários.
Como diria aquelle famoso político: Meu povo, não me deixe só!!

Cena de Belém: total abandono


O Palacete Faciola, belíssima e centenária edificação, em plena Av. Almirante Barroso. Abandonada, foi desapropriada pela Prefeitura de Belém em 2002, na gestão de Edmilson Rodrigues, que começou a reformá-la para ali instalar a Casa de Atenção à Saúde Mental, uma das boas iniciativas de seu governo. Ela se destinaria ao abrigo e tratamento de portadores de transtornos mentais. A reforma custaria R$ 910.416,09 e foi interrompida ainda no início de 2004.
Como outras iniciativas daquela época, porém, não foi concluída. E a partir de 2005, quando o caos chegou à Administração municipal, foi cancelada de vez, sob a alegação de irregularidades administrativas. Supostamente, as obras seguiriam adiante, com recursos municipais e não mais com verbas do Ministério da Saúde. A proposta foi objeto de uma reunião em 17.4.2006, segundo informa a própria prefeitura. Mas o resultado aí está: na principal avenida da cidade, em pleno bairro do Marco — hoje o principal de expansão da cidade, ergue-se o prédio de expressão ruinosa e cadavérica. Parece uma mansão mal assombrada, aspecto piorado pelas tábuas apodrecendo nas janelas.
O imóvel, de grande valor histórico, como mostra a fotografia tirada ontem, está tomado por pichações e é um criadouro ideal para o mosquito da dengue. A única utilidade que ainda oferece é servir de depósito para os ambulantes da área, que invadem a propriedade pública para guardar seus pertences e sabe-se lá o que mais fazer.
Há algum tempo, cidadãos denunciaram o perigo representado pelo desabamento dos antigos andaimes, expondo a vida de quem passa pela calçada em frente, mormente porque ali existe um ponto de ônibus. Veja as pessoas na imagem.
O pior é que já houve várias reportagens sobre o assunto, feitas pela imprensa comum. Nelas, sempre aparece gente implorando pela inauguração da casa, mas sem resultado. Na gestão petista, o serviço de assistência à saúde mental chegou a funcionar e era considerado muito bom. Interrompido, é de se compreender a angústia de quem precisa dele. A segunda fotografia mostra melhor uma parte do grande anexo que chegou a ser construído, para servir de abrigo aos doentes.
Esta é mais uma prova contundente de que, no governo municipal, não existe o menor respeito pelo patrimônio público, pelo espaço urbano, pelo cidadão e pela saúde.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cena de Belém: descaso

Para a abertura da Av. Brigadeiro Protásio, ligando a Duque de Caxias à Júlio César, a propriedade do Aeroclube foi dividida e, no perímetro que chega à Almirante Barroso, restou uma enorme área ociosa. Para não ficar tão ociosa, o governo do Estado, na época, montou galpões provisórios que se tornaram o espaço para grandes eventos, enquanto se esperava a inauguração do Hangar. Ali, p. ex., ocorreram as últimas edições da Feira Panamazônica do Livro.
Para que esses eventos ocorressem, contudo, era imperioso assegurar a refrigeração dos galpões. Assim, foram instaladas neles imensas centrais de ar. Não faço a menor ideia de quanto elas custam, mas tenho certeza de que não é pouca coisa.
O Hangar só foi inaugurado este ano, já pela gestão Ana Júlia. A partir de então, a área a que me refiro ficou real e totalmente ociosa. No entanto, os galpões continuam lá e, neles, as ditas centrais de ar. Sem nenhuma utilidade, expostas às intempéries. Que me conste, tais equipamentos se estragam simplesmente pela falta de uso. Pior ainda se não sofrerem manutenção alguma. As fotos abaixo, tiradas hoje, mostram a situação atual das máquinas.



Constitui um enorme descaso com o dinheiro público abandonar um equipamento tão caro. É um vilipêndio às pessoas que esperaram alguma mudança no trato da coisa pública. Num Estado de povo tão pobre, ver-se dinheiro se estragando é um acinte.
O governo do Estado deveria, urgentemente, dar uma destinação digna a esse equipamento. E ao nosso dinheiro.

Um sincero desabafo

Ontem, ao final da aula da noite, uma aluna se aproximou de mim e soltou seu desabafo: "Não aguento mais essa violência em Belém! Alguém precisa fazer alguma coisa!"
Os motivos da irresignação: cinco membros de sua família já sofreram sequestro-relâmpago e, ontem mesmo, pela manhã, ela e seu pai assistiram ao assalto à mão armada de um motorista que conduzia o carro parado bem na frente do deles.
Imagine o pânico dessa moça, presenciando a cena e se sentindo ela mesma ameaçada. Já passei por algo semelhante, parado num sinal fechado, quando vários policiais militares cercaram uma dupla, numa motocicleta. Eles haviam acabado de assaltar a Cairu da Oliveira Belo e foram alcançados na Generalíssimo Deodoro com José Malcher, onde eu estava calmamente, começando o meu dia. É realmente assustador. Quando dei por mim, eu estava com as mãos para o alto, dentro do carro, num patético apelo para não atirarem em mim.
Está bastante claro que o cidadão comum se sente, realmente, inseguro diante do atual estado de coisas. E impotente. A conclusão óbvia é de que, por enquanto, nenhuma medida de segurança pública foi eficaz no combate ao crime. Talvez a imprensa esteja divulgando menos, porém a incidência não parecer ter caído. Aliás, a julgar pelo que me disse um dos meus orientandos de TCC, que está pesquisando sobre segurança pública e teve acesso a dados estatísticos da Polícia Civil mais atualizados do que os divulgados no final do primeiro semestre, os números são de fato maiores do que pensamos.
Se o governo não está sendo eficiente, qual será o papel da sociedade civil? Reivindicar? Protestar? Mas quem fará isso? Apenas as vítimas da violência, como o Movimento Viva Lauande? Como tirar o cidadão comum de sua cadeira para agir, antes que ele mesmo se torne uma vítima?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Notícias que vão mudar o mundo — 11ª edição

"George Michael será homossexual promíscuo em série de TV"

Ué, e na vida real ele é o quê?
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u331207.shtml

PS — Eu gosto muito do cara, ok? Só achei meio irônica a notícia.

Só o fim

Vinha eu no carro, escutando meu CD de canções nacionais quando começou a tocar um antigo sucesso da banda Camisa de Vênus, sucesso nos gloriosos e sempre lembrados anos 1980.
A banda surgiu em Salvador no ano de 1982, tendo como integrantes Marcelo Nova (voz), Gustavo Mullen e Karl Hummel (guitarras), Robério Santana (baixo) e Aldo Machado (bateria). A proposta era fazer punk rock, o que não deixava de ser uma ousadia naqueles tempos finais da ditadura, ainda permeados por censura, sem falar que o estilo destoa da música brasileira até então produzida.
Recordo-me dos antigos bolachões da banda, que adorávamos escutar em casa porque algumas faixas eram censuradas, devido a suas letras explícitas. Proibida a radiodifusão e execução pública da faixa tal. Quem não se lembra da Silvia? O gostinho de proibido era sedutor. A letra que lhes deixo, contudo, não é dessas pesadas e certamente tem muito a ver com o clima reinante no país naquela época. Com vocês, Só o fim:

Se o chão abriu sob os seus pés
E a segurança sumiu da faixa
Se as peças estão todas soltas
E nada mais encaixa
Oh, crianças, isso é só o fim
Isso é só o fim
Isso é só o fim
Algo que você não identifica
Insiste em lhe atormentar
Você que implora por proteção
Não sabe como vai acabar
Oh, crianças, isso é só o fim
Isso é só o fim
Isso é só o fim
Esse calor insuportável
Não abranda o frio da alma
A vida já não é tão segura
E nada mais lhe acalma
Oh, crianças, isso é só o fim
Isso é só o fim
Isso é só o fim
Sempre acorda angustiado
E apressado vai à rua
Mas mesmo assim acordado
O pesadelo continua
Oh, senhoras, isso é só o fim
Isso é só o fim
Isso é só o fim
Oh, senhores, isso é só o fim
Isso é só o fim

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Irã

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã e macho


Nenhum homossexual é torturado ou corre risco de morte no Irã porque não existem homossexuais no Irã. Já ditadores, torturadores, violadores de direitos humanos...

Paráfrase: No Brasil, nenhum político corrupto é punido porque, aqui, não existem corruptos.

O caso PAGRISA

Enquanto políticos — essa classe insuspeita — aqui no Pará e até em Brasília batem-se pela comprovação de que não existiu trabalho em condições análogas à escravidão na empresa Pará Pastoral e Agrícola S.A. — PAGRISA, em Ulianópolis — e, mais do que isso, tentam desqualificar e desacreditar as ações do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho —, a Justiça Federal dá andamento à Representação Criminal n. 2007.39.04.000812-4, movida pelo Ministério Público Federal contra os proprietários da empresa, Murilo, Marcos e Fernão Vilella Zancaner.
A denúncia ofertada contra eles foi recebida no dia 20 último, embora somente agora ganhe divulgação, pela Juíza Federal Carina Cátia Bastos de Senna, titular da Vara Única de Castanhal. O recebimento da denúncia significa, tecnicamente, que a Justiça reconheceu a existência de indícios suficientes de materialidade do crime (o fato existe) e autoria. Com isso, os irmãos Zancaner são oficialmente réus. Na denúncia, eles são acusados dos seguintes crimes, todos previstos no Código Penal:
1) Perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132), que tem pena cominada de 3 meses a 1 ano de detenção;
2) Redução à condição análoga à de escravo (art. 149): 2 a 8 anos de reclusão e multa;
3) Frustração de direitos assegurados por lei trabalhista (art. 203): 1 a 2 anos de detenção e multa.
Não havendo anormalidades, o passo seguinte será designar uma data para que os réus sejam interrogados e ofereçam defesa prévia. Em seguida, começa a instrução processual (fase de coleta de provas).

Advogado é obrigatório em processo disciplinar

"É obrigatória a presença de advogado em todas as fases do processo administrativo disciplinar.”

Esse é o conteúdo da mais recente súmula do Superior Tribunal de Justiça, de n. 343. Apesar de não ter efeito vinculante, ela será de grande valia para os servidores públicos em geral, especialmente os militares. Atualmente, a lei prevê que todo servidor acusado de alguma falta funcional seja obrigatoriamente defendido, mas a defesa pode ser feita por um colega designado ad hoc, sendo que esse colega não precisa ter formação jurídica. Com isso, sem dúvida a defesa acaba comprometida.
Entre os militares a situação é pior. Inebriados pelo discurso da hierarquia, ainda hoje, mesmo com a Constituição a dez dias de completar 19 anos, princípios elementares como o contraditório e a ampla defesa continuam sendo cotidianamente ignorados e pisoteados. Na caserna, grita mais quem tem patente. Se um oficial não gosta de um subordinado, faz e acontece e o sujeito que se lasque, pois as relações ainda são mais presididas pelo medo e pela ameaça do que pela legalidade. Agora, com a obrigatória intervenção de advogado, os poderosos terão mais dificuldades para impor seus desatinos. Considerando que a súmula não é vinculante, pode ser que muitos insistam em conduzir processos disciplinares sem advogado, mas já se sabe, de antemão, que tais processos serão anulados no STJ, inclusive através de habeas corpus. Os responsáveis poderão ser punidos, por abuso de autoridade (que é crime), ou acabar condenados ao pagamento de indenizações.
Só fica uma grande dúvida no ar: se o advogado é obrigatório e o acusado não dispuser de recursos para custear um, como fica? As instâncias administrativas terão que disponibilizar uma espécie de defensoria pública, a exemplo do que já ocorre no âmbito judicial? Ou simplesmente adotarão os serviços existentes, que sabidamente já padecem de excesso de trabalho?
A ideia é excelente, mas não está claro quem vai pagar a conta.
A notícia oficial está aqui.

"Cadê seu filho?"

Convenhamos, só existe polêmica em torno da operação "Cadê seu filho?", das polícias e instituições de assistência à infância e juventude, porque o Brasil é a terra do oba-oba, onde as pessoas têm a mania de exprimir a vida na perspectiva da malandragem, da farra, do samba, suor e cerveja. E o Pará leva isso bem longe.
Mas essa operação, se inaugura alguma novidade, é apenas a forma de enfrentar um problema sério. Porque a legislação que a embasa, nomeadamente o Estatuto da Criança e do Adolescente, é de 1990, ou seja, há nada menos que 17 anos ações desse gênero deveriam ter sido iniciadas. Se tivessem, é provável que os índices de criminalidade envolvendo menores, nos polos ativo ou passivo, fossem menores.
Claro que não falta quem seja contra. A começar pelos adolescentes, que precisam curtir a vida. E a vida só pode ser aproveitada nos bares, casas noturnas, pegas automobilísticos e na experimentação de álcool e outras drogas — além de beijar muuuuuuuuito. Beijos e o que se segue.
Os donos desses estabelecimentos também são contrários e nem preciso dizer o motivo.
Quem caça a meninada na noite, a fim de acabar nos motéis e escurinhos da cidade, também é contra. Afinal, isso diminui as oportunidades de sexo casual. E de aliciamento, prostituição, estupro, etc.
Até o presente momento, não vi um só argumento contra a operação que pudesse ser, ainda que remotamente, considerado sério e honesto. Até aqui, e a menos que me provem o contrário, está contra quem lucra algo com a situação de risco dos jovens, consoante a nomenclatura consagrada.
Pode até ser que os números da operação não sejam tão positivos e que haja um certo hiperdimensionamento deles, para valorizar a ação e reduzir resistências, bem como para ser usado em favor do governo. Pessoalmente, porém, acredito que as ocorrências tenham mesmo caído em 66%, como oficialmente declarado pelo delegado responsável. E mesmo que tivessem caído em 2% ou 3%, já teria valido a pena.
Faço votos de que a operação vire mesmo uma campanha permanente e produza tudo de bom que pode nos oferecer.
Uma provocação final: sabe o que pode ser mais impactante nessa operação? Se os adolescentes não puderem estar nas ruas após as 22 horas, sem um responsável, as famílias serão acionadas para lhes proporcionar diversão e bem estar. E este é um dos grandes dramas atuais: a incapacidade de relacionamento das famílias. É como aquela metáfora: se a TV não funciona, isso significa que teremos que conversar uns com os outros?
Qual será o maior legado da operação "Cadê seu filho?" As famílias olharem para si mesmas?

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Ágio e fila de espera


Amanheci chateado hoje, com a reportagem do Bom Dia Brasil dando conta de que, devido ao aumento da procura, os preços dos helicópteros têm aumentado e já existe uma fila de espera bastante inconveniente. Face a isso, a demanda por aeronaves usadas também aumentou e, em alguns casos, os preços chegam a ser superiores aos das zero quilômetro, sendo o ágio motivado pela pronta disponibilidade. Um absurdo.
Como não gosto de comprar produtos de segunda mão, tenho que me sujeitar a uma espera inaceitável dessas. E o pior é que o problema atinge todos os fabricantes.
É de chatear qualquer um, não? Mormente considerando todas as despesas — salário do piloto (R$ 5.000,00) + impostos + licenças + aluguel do hangar + construção de helipontos + combustível, etc.
Enquanto espero, consolo-me com a imagem aí ao lado, prelibando o bom uso que farei do meu futuro brinquedo.

Do mal

A revista Mundo Estranho deste mês, em sua sessão "Contando ninguém acredita", conta a história de um psicoterapeuta alemão que tratou uma paciente com um raro e grave caso de múltipla personalidade. Mas ao invés de ajudar a moça a se livrar das três personalidades distintas, ele preferiu transar com a primeira, convencer a segunda a fazer compras para ele e obrigar a terceira a financiar suas viagens de férias.
Claro que um negócio desses acabaria descoberto mais cedo ou mais tarde e a vítima percebeu o que estava ocorrendo. Mas quando o sujeito é safado, ele é safado. Por isso, ao ser chamado à razão, o escroque explicou à própria vítima que não podia revelar o que fazia por razões éticas, em nome da confidencialidade com cada uma das personalidades!
A justificativa, contudo, não convenceu as autoridades. O psicoterapeuta está sendo processado por se locupletar às custas da paciente e pode ser condenado a 5 anos de prisão.

PS — A meu ver, ele também pode ser processado por estupro.

domingo, 23 de setembro de 2007

Tá abusando sim

No caderno de negócios do Diário de Pará de hoje, as duas páginas centrais — espaço nobre e caro — ostentam uma publicidade nada paga sobre o megaultrahiperextremeprojeto Portal da Amazônia, da Prefeitura de Belém. Há fotos mostrando os 700 metros de aterro hidráulico já pronto e as indefectíveis maquetes eletrônicas, hábito que o malsinado sedizente herdou de seus padrinhos tucanos. Um amplo destaque é dado ao fato de que enquanto a macrodrenagem da Bacia do Una consumiu mais de 10 anos em trâmites burocráticos, o superprefeito conseguiu resolver tudo em menos de um ano. Sinal de eficiência administrativa, certo?
Por sinal, pelo menos uma vez por semana O Liberal publica uma notinha dizendo que o indigitado chegou de Brasília com mais dinheiro para seus projetos. Sabemos que ele vive em Brasília, mas que seja para conseguir financiamentos e sempre ser bem sucedido, lá isso fica com a imprensa.
Na matéria de hoje, não faltou um box com pessoas do povo declarando por que confiam que a obra ficará pronta. Comovente. Essas pessoas não devem saber que o Pórtico Metrópole está mofando há cerca de dois anos e dele só existe uma placa enorme, na frente do Shopping Castanheira. Também não devem saber que os recursos para o projeto menina dos olhos do sedizente não estão garantidos e que há inúmeras críticas a ele, sérias, no sentido de que a obra não pode ser tratada como uma simples intervenção turística, e sim uma verdadeira intervenção urbanística e ambiental.
Quando me sentei na frente do computador para escrever sobre isto, deparei-me com uma postagem no blog do Fred Guerreiro, mostrando até onde vai a cara de pau do sedizente, dessa feita por meio de uma reportagem comprada à revista IstoÉ, aquela que uns poucos meses atrás me surpreendeu quando encontrei numa banca, pois eu sinceramente achava que não existia mais. Leia a postagem e ria conosco.
Ria, que é melhor do que infartar de ódio.

PS — A imprensa se presta a tudo, não? Pagando bem, que mal que tem?

Indecência

O jornalista Mauro Bonna, em sua coluna do Diário do Pará, hoje, informa que a estadia de Edir Macedo, líder da Igreja Universal, foi custeada pelas prefeituras de Belém e de Ananindeua. Se for verdade, é o caso de perguntar: qual o interesse público que justifica tal gasto? Em que interessa aos Municípios de Belém e Ananindeua a presença de um religioso, seja ele de que religião for?
Ando cada dia mais cansado dessa indecência de usar dinheiro público para subvencionar religiões, o que viola frontalmente a Constituição Federal, na medida em que esta veda toda e qualquer forma de subvenção a quaisquer legendas religiosas. A medida é inconstitucional, ilegal e imoral, pois contenta uma fração da população, em detrimento da obrigatória isonomia que deve existir entre cada cidadão.
Nunca vi o Estado — lato sensu — subvencionar espíritas, judeus, umbandistas ou adeptos do Santo Daime, pelo menos não por estas bandas. Muito menos eventos de agnósticos e ateus. Então acredito que estou no meu direito de protestar.
O Ministério Público tem a obrigação de investigar em que bases gastos pessoais de um líder religioso foram custeados pelos cofres públicos. Não o fazendo, é mais uma omissão criminosa.

Só mais duas horas

Os moradores da Tv. Piedade estão sem água desde a última quarta-feira. E sem explicações, também. Telefonando para a irrepreensível COSANPA, queixosos ouviram que o problema seria resolvido em duas horas. Como não ocorreu, ligaram de novo e a resposta foram mais duas horas. De duas em duas, mais de três dias se passaram.
Além dos óbvios aborrecimentos, os prejuízos se acumulam. Naquele logradouro há um pet shop que costumo visitar. Ontem estive lá e um dos sócios me explicou que a falta de água praticamente os inviabiliza. Cirurgias em animais foram canceladas, aumentando a angústia nos doentes e em seus donos. E uma das atividades mais lucrativas, o banho, simplesmente não pode acontecer.
Como não basta interromper o serviço, a COSANPA ainda os faz de bestas. Lá pelas tantas, um atendente informou que haveria um problema de baixa pressão no encanamento, que poderia ser resolvido regulando uma válvula. Para tanto, pediu que a loja fosse aberta para que um técnico tivesse acesso a tal válvula, na manhã de sábado. Pois bem, um funcionário chegou ao pet às seis horas da manhã e esperou. Estive lá às três da tarde e ninguém aparecera.
Será que os moradores da Tv. Piedade poderão sonhar com água em suas torneiras nesta segunda-feira?

sábado, 22 de setembro de 2007

Dos antigos ditadores

O ex-presidente peruano Alberto Fujimori, após uma batalha judicial travada no Chile, finalmente foi extraditado de volta ao Peru, em cujo território já se encontra, para ser apresentado às autoridades locais e enfrentar os processos decorrentes das acusações de violação a direitos humanos e corrupção.
Inevitável pensar na última vez em que o mundo assistiu a um acontecimento do gênero. O nefasto general Pinochet, preso na Inglaterra, também foi alvo de um complicado processo de extradição. Retornando por fim ao país de origem, o mesmo Chile que agora está do lado oposto, foi recebido por uma legião de vítimas de seus crimes e, ao mesmo tempo, por outra legião, de admiradores. Nunca falta quem sinta saudade de assassinos de Estado — o que também ocorre no Brasil, claro, em relação aos ditadores de três décadas recentes.
Mas o caso de Pinochet deve servir de advertência a quem espere justiça. Afinal, as autoridades chilenas tanto demoraram para conduzir as ações criminais contra um réu idoso e doente, coitadinho, que o desgraçado acabou morrendo. Está no inferno, sem dúvida, mas não respondeu ao seu país nem à humanidade pelas atrocidades que cometeu.
Fujimori pode ir em caminho semelhante. Em 28 de julho de 2008, o ex-ditador completará 70 anos e, segundo as leis peruanas, em caso de condenação, teria direito a cumprir pena em prisão domiciliar, uma resposta mínima à gravidade dos desatinos que cometeu. Mas parece ser o destino dos monstros, esse de sempre acabar mais ou menos impunes. Dos matadores brasileiros, quem foi punido? Não se pode sequer tocar no assunto que o oficialato sobe nas tamancas e exige que o assunto seja esquecido, fala em perdão, etc.
Todo ditador é um cínico em nível máximo.
Enquanto velhas mães de filhos mortos acendem velas, Keiko Fujimori, a filha, membro do Congresso peruano, reclama em favor do pai tratamento de chefe de Estado. Nada de detenções ou algemas. Os advogados só precisam procrastinar o processo. É a procuradoria de justiça que está com a corda no pescoço, para conseguir uma condenação em no máximo nove meses.
Boa sorte. O mundo merece assistir a um canalha ser punido por seus crimes. Essa é uma exigência da esperança — aquela que é impossível perder e prosseguir vivendo.

Curto circuito cultural

Uma das queixas frequentes de quem vive em Belém é a falta de opções de lazer. Nesta cidade, praticamente só se sai para comer e/ou beber, daí o sucesso de bares e restaurantes. A atividade local de cantores e de teatro aumentou nos últimos anos, mas ainda não se vêem grandes espetáculos com a frequência desejada. Nossos festivais de ópera já estão no calendário nacional, mas atendem a um público específico. Assim como, a seu turno, boates, micaretas e shows musicais de brega & cia. também atendem a um público bem específico, ainda que vasto.
Em meio a insatisfações mais ou menos justificadas, o fato é que Belém tem uma vida cultural monótona para pessoas de gosto mais refinado — creiam-me, não quero ser antipático ao afirmar isso — ou que buscam diversidade.
Por isso, o Circuito Cultural Banco do Brasil chega como uma bênção para quem deseja ver, numa só iniciativa, artistas da boa música (quantos belenenses sabem quem é Mônica Salmaso?), teatro profissional, dança (que não sejam os alunos das escolas locais) e artes plásticas, como agora temos a oportunidade de ver a obra de Di Cavalcanti.
Mas alegria de pobre dura pouco. O Circuito é aberto ao grande público, mas não funciona exatamente assim. Há algum tipo de tratamento privilegiado aos clientes do Banco do Brasil, ou sei lá a quem, que compromete a correta oferta de ingressos. Um conhecido comeu o pão que o diabo amassou para conseguir ingresso para um dos eventos (não me recordo agora qual). Acabou comprando de um cambista mas, ao chegar ao espetáculo, havia lugares de sobra. Para onde então foram os ingressos? Quem compra não desperdiça, então quem está desperdiçando? E por que não há controle de cambistas?
Hoje estive no Theatro da Paz para comprar ingressos para as peças de teatro. Desisti de ver Eu sou minha própria mulher porque só havia vagas no Paraíso (que para mim deveria chamar-se Inferno). Contentei-me em comprar ingressos para o meu real objetivo — a peça Renato Russo —, que entretanto deve ser o objetivo de meia Belém: restavam pouquíssimas vagas. Comprei em camarotes de segunda, quase em cima do palco, ou seja, aquelas porcarias de onde não se enxerga quase nada — que na bilheteria são eufemisticamente chamadas de "visão parcial". Sei que vou me aborrecer, mas esse é o meu esforço para prestigir o teatro brasileiro, ainda mais porque o tema me interessa.
Uns dois ou três anos atrás, vi uma peça que o Circuito trouxe, muito boa (A vida é cheia de som e fúria, com Guilherme Weber, o Toni da novela Da cor do pecado), por isso não quis perder a oportunidade.
Enfim, será que os produtores culturais, chegando em Belém, fariam o favor de abrir as suas portas de verdade ao grande público, permitindo que os amantes da cultura pudessem adquirir seus ingressos sem problemas? Duvido que essa situação tenha sido causada por vendagem em tempo recorde. Tem coelho nesse mato. E graças a ele vamos ficando para trás.
Por que será que eventos originados em entidades públicas não podem acontecer direitinho? Se alguém puder me esclarecer, ou mostrar que na verdade estou errado, agradeço.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Polêmica de elite

Ok, eu já estou ansioso por ver o filme Tropa de elite. Foco de várias notícias pela imprensa há alguns dias, provavelmente iniciadas quando o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, admitiu ter visto a película, através de uma cópia pirata, o filme está mexendo com os brios de muita gente. Afinal, a obra de José Padilha retrata os policiais cariocas do Batalhão de Operações Policiais Especiais — BOPE de modo duro e sem maquiagem. Segundo um colega de trabalho, que já assitiu ao seu piratex, a história mostra uma corporação que não conversa: mata, extermina.
Integrantes do BOPE ingressaram em juízo com uma ação tentando proibir a exibição do filme, que denegriria a sua imagem. O pedido foi negado porque, segundo entendeu a juíza Flávia Viveiros de Castro, da 1ª Vara Cível do Rio, em serena decisão, o filme não ataca as instituições e sim o sistema, que é um conceito altamente indeterminado. Para essa magistrada, censura nunca mais.
Ontem, ela negou um novo pedido, desta feita para autorizar os requerentes a participar da sessão de lançamento oficial do filme. Afinal, não compete ao Judiciário impor convidados em um evento privado.
Pelo visto, restará aos queixosos aguardar, assistir à obra, tirar as suas conclusões e tomar as providências que entenderem cabíveis.
Eu, que não fomento a pirataria, esperarei a estreia nos cinemas, pagarei o meu ingresso, prestigiarei o cinema nacional e, depois, darei minha opinião. Minha curiosidade é grande.

Esculhambação geral, irrestrita e oficializada

Indignado, o amigo Fred Guerreiro publicou em seu blog a postagem "Vence a minoria", que transcrevo na íntegra, do jeitinho gritado que ele utilizou:

PERDOEM-ME MEUS LEITORES POR QUEBRAR O DECORO AQUI NO BLOG. DESTA VEZ FOI DEMAIS.
O SECRETÁRIO DE ECONOMIA DO MUNICÍPIO DE BELEM ACABA DE CONFIRMAR QUE A PREFEITURA NÃO PRETENDE RETIRAR OS CAMELÔS DAS CALÇADAS DO CENTRO, MAIS PRECISAMENTE DA AV. PRESIDENTE VARGAS E DA TRAV. PADRE EUTÍQUIO. ESCUDOU-SE EM UM TERMO DE AJUSTE DE CONDUTA (AQUELE ACORDOZINHO QUE O SOLICITADO NUNCA CUMPRE), PARA 'AVISAR' AOS CAMELÔS QUE ELES AGORA TÊM UM DIREITO ADQUIRIDO E PODEM IR SE ARRUMANDO NAS CALAÇADAS QUE A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA MUNICIPAL DÁ UM JEITINHO DE PROVIDENCIAR UMA BARRAQUINHA PADRONIZADA, ÀS CUSTAS DO CONTRIBUINTE. COVARDE!!!
BELÉM ACABOU! O PEDESTRE QUE SE LIXE E O INTERESSE PÚBLICO QUE VÁ ÀS FAVAS! AH, NÃO? ENTÃO DIGA AÍ QUEM É MAIORIA ENTRE PEDESTRES E CAMELÔS?
A CALÇADA É DE TODOS! EXISTE PARA GARANTIR A CIRCULAÇÃO DE PESSOAS. NÃO O INTERESSE ECONÔMICO DE UMA ÚNICA CLASSE.
POR OUTRO LADO, PARA QUE SERVE O ESTATUTO DAS CIDADES E O CÓDIGO DE POSTURAS DO MUNICÍPIO? E NÃO ME VENHAM COM ESSA DE QUE CAMELÔ É UM PROBLEMA SOCIAL, PARA JUSTIFICAR TODO SORTILÉGIO DE DESRESPEITO ÀS LEIS. INVENTEM OUTRA.
ENQUANTO BELÉM PODERIA SER A PORTA DE ENTRADA DO TURISMO NA AMAZÔNIA, A PREFEITURA FECHA AS PORTAS PARA UM MEIO AMBIENTE URBANO PROPÍCIO AO SEU DESENVOLVIMENTO. AFINAL, QUE DIABO DE TURISMO VEM ALGUÉM FAZER NUMA CIDADE AVACALHADA? TURISMO AGORA SÓ SE FOR DE CONTRABANDISTAS E TRAFICANTES. AFINAL, UMA CIDADE SEM AUTORIDADE E AVACALHADA É O HABITAT NATURAL DESSAS ESPÉCIES.
SOMOS CONTEMPORÂNEOS DO GOVERNO MUNICIPAL MAIS BURRO E FRACO DE TODA A HISTÓRIA! É ISSO MESMO! NÃO HÁ TERMOS MAIS APROPRIADOS.
ESTOU REVOLTADO COM O SEDIZENTE QUE SÓ SERVE PARA APARECER NA TEVÊ COMO SE FOSSE O MELHOR PREFEITO QUE ESTA INFELIZ CIDADE JÁ TEVE. O 'CARA' AINDA GANHOU PRÊMIO DO MINISTÉRIO DAS CIDADES!!!
ALGUÉM AÍ ME RESPONDA COMO É QUE PODE UM GOVERNO ELEITO PELA MAIORIA DEDICAR-SE AOS INTERESSES DE UMA MINORIA?
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Meu comentário para ele:
Quando me dizias, Fred, que nós "melhoramos um pouquinho", eu sabia que um dia, lúcido que és, mudarias de opinião. Nem demorou tanto, certo?
Ratifico inteiramente tuas palavras. Já escrevi a respeito algumas vezes em meu blog e por isso sabes que meu pensamento é exatamente igual ao teu, especialmente quando afirmas que este é o pior (des)governo municipal de todos os tempos. E é.
Fica até difícil comparar com gestões anteriores, na medida em que o orçamento municipal vem crescendo ano a ano. Lembro-me de um certo alarde quando, ainda na gestão Edmilson, o orçamento bateu em meio bilhão de reais. Todavia, a atual "administração" sempre trabalhou com mais dinheiro do que isso, sempre teve ampla maioria naquela bodega chamada Câmara Municipal e ainda contava com o apoio do governo estadual tucano. Todas as condições lhe eram favoráveis. Em suma, se não fez foi porque não quis. Foi incompetência e safadeza.É nosso dever tornar isso público, para esclarecer o máximo possível de pessoas. Afinal, falta um pouquinho mais de um ano para as eleições que podem nos livrar, definitivamente, desse falso prefeito.

O mesmo assunto comparece no Flanar, em duas postagens, a primeira de um dos donos do blog, e a segunda a partir de um comentário do nosso ombudsman, Francisco Rocha Jr. Vale a pena ler.

Só vendo para crer

As práticas da esmola e da comercialização de produtos em ônibus do transporte urbano são pribidas há muitos anos e, mesmo assim, sempre foram praticadas livremente. Segundo consta, desta vez sofreram um baque e tanto. Atualmente, câmeras de TV estão sendo instaladas nos coletivos, originalmente por motivo de segurança, mas o SETRANSBEL também quer aproveitá-las para monitorar o que se passa nos veículos — para azar dos cobradores que adoram flexibilizar a passagem pela roleta, para ficar com uns trocadinhos. Dentre as condutas a observar, está justamente a aceitação, pelo motorista, de pedintes e vendedores.
A par disso, a Justiça do Trabalho publicou uma instrução normativa há dois meses, proibindo a entrada de menores nos coletivos, para vender mercadorias. Como os empresários não vão querer multas, terão todo o interesse em cumprir a ordem.
Não estou otimista como o Diário do Pará de hoje, que em sua coluna nobre afirma que esse comércio móvel acabou, mas acredito que ele será sensivelmente afetado, até que, com o tempo, comece a parecer inviável para os próprios interessados. Já não era se em tempo. Por vezes, uma simples viagem em transporte público podia converter-se num verdadeiro show de horrores, com mendigos exibindo suas ulcerações para comover o público. Já vi gente descer de ônibus com ânsias de vômito por causa disso.
As vendas não têm a mesma carga negativa, mas são um grande incômodo, principalmente quando os vendedores são insistentes. E de fato expõe crianças a perigos. Lembro-me de uma noite, há muitos anos, em que uma menina entrou no ônibus vendendo bombons. Eu e meu irmão recusamos e ela nos mostrou a língua, irritada. Em seguida, um sujeito a chamou e, com uma expressão que me pareceu lúbrica, sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido. A menina pareceu surpresa e depois, encolhida, fez que não com a cabeça e se afastou.
Já passou da hora de acabar definitivamente com tais práticas no transporte público. Não se trata de falta de solidariedade, mas de uma medida preventiva que, para ter pleno sucesso, precisa passar por uma recolocação desse exército de pedintes — no mercado de trabalho ou na escola.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

1:3,17

Se algum deputado estadual quiser lançar mão da prerrogativa que lhe foi concedida e nomear seus 45 assessores, ele terá 1 assessor para cada 3,17 Municípios, eis que o Pará possui 143 deles. Deve ser isso que o líder do governo, Airton Faleiro, quis dizer ao afirmar que a medida reforça a atuação dos parlamentares, principalmente no interior.
Legal. Imagino que, com isso, o desenvolvimento regional será imenso.
Mas agora falando sério — coisa que nossos representantes, locais ou federais, não sabem fazer —, alguém me responda: qual é a atuação que os deputados têm no interior? Só conheço uma: garimpar votos para as próximas eleições. Qualquer movimentação que realizem é para impressionar, jogar para a plateia, como se diz, e parecer engajado o suficiente para garantir um novo mandato. E se assim for, esses 45 assessores estarão sendo pagos, com o nosso dinheiro, para pavimentar a campanha do respectivo deputado, ou seja, mais uma das habituais privatizações da coisa pública.
Se ninguém informar a este desinformado e tosco blogueiro em que os deputados estaduais atuam no interior, vou achar que a coisa se resume ao que escrevi aqui.
"Atuação". Essa é boa. Só se for teatro.

Melhorou um pouquinho

Há um ano e seis dias, escrevi uma postagem sobre o programa conhecido como Cred Livro, do governo do Estado, então na gestão tucana. Agora, já sob o governo Ana Júlia, posso constatar que, ao menos aparentemente, o programa ficou melhor.
O primeiro motivo é a extensão do benefício aos técnicos em educação. Deveria ser óbvio que não apenas os professores, mas os orientadores educacionais e, enfim, outros profissionais que não trabalham em sala de aula, mas pertencem à rotina das escolas, igualmente precisam de reciclagem e aperfeiçoamento. Em bom português, precisam estudar, para cumprir bem as suas missões.
O segundo motivo tem a ver com a acessibilidade ao benefício. Se os R$ 150,00 forem depositados em conta, fica mais fácil chegarem aos seus reais destinatários e, pelo que entendo, os livros poderão ser comprados fora da vindoura Feira Panamazônica do Livro, transformando a medida em efetiva, ao contrário do ano passado, quando era apenas fachada. Só recomendo que se fiscalize o bom uso do dinheiro, pois seria imoral — e merecedor de boa punição — o servidor receber o dinheiro e desviá-lo.
Como diria o amigo Fred Guerreiro (mas não sobre o mesmo assunto), melhoramos um pouquinho. Isto é... espero não estar enganado.

Contra a troca de bebês

A Câmara Municipal de Belém — aquela que ora é presidida por uma iguaria à base de farinha*, ora por um criador de pintos** — aprovou ontem um projeto de lei, proposto pela vereadora Elcione Barbaaaaaaaaaalho, cuja finalidade é obrigar as maternidades públicas e privadas do Município a implementar medidas de identificação dos bebês nelas nascidos, dificultando trocas (acidentais ou dolosas) e seqüestros. A proposta é que as pulseiras e grampos umbilicais colocados nos infantes sejam numerados.
A ideia me pareceu simpática, porque — confesso-lhes — sempre tive um estranho medo de ter meu filho trocado na maternidade. Digo estranho porque eu já tinha esse medo desde criança, sabe-se lá a razão. Então, ao ver a matéria, experimentei um curioso alívio. Gostaria que os amigos médicos emitissem sua abalizada opinião, a fim de sabermos se a proposta é viável economicamente e se teria o poder que lhe foi atribuído.

* Trocadilho infame alusivo à alcunha do vereador Zeca Pirão. Mas, convenhamos, infame é um sujeito se apresentar desse jeito. Acima de tudo, infame é essa pouca vergonha em que se transformou a gestão do parlamento municipal, coisa que jamais acontecera antes da era Dudurudú.

** O vereador Nemias (ou Nehemias) Valentim — nunca soube como se escreve o nome dele mesmo tendo trabalhado na CMB — tinha (ou tem, sei lá) um projeto social de criação de pintos, que eram doados à comunidade. Era assim que ele esperava sensibilizar o eleitorado. Sem dúvida, está dando certo. Os edis tiravam uma onda com a cara de Valentim, que eu considero uma pessoa muito gentil, fazendo trocadilhos com pintos. Mas ele defendia a sua causa e entrava em plenário usando uma gravata com pintinhos amarelinhos! Um horror. Ninguém pode negar, contudo, que ele tem personalidade.

Provisório brasileiro

Corria o ano de 1997 quando me formei e me tornei mais um trabalhador deste imenso Brasil varonil. Àquela altura eu já tinha conta bancária, mas uma conta universitária, por onde passava apenas o meu salário mínimo de bolsa de monitoria. Por isso, a minha sensação é de que a CPMF sempre existiu, pois simplesmente não me recordo da vida bancária sem ela. Longínquos tempos aqueles, em que eu emitia cheques para pagar a comissão de formatura e não havia o imposto sobre eles. Mas naqueles tempos também não existia cartão de débito automático, sem o qual a minha vida hoje seria quase impossível.
A contribuição provisória sobre movimentação financeira existe há 11 anos e, pelo andar da carruagem, ganhará sobrevida por mais 4. Afinal, o governo vence todas. O anterior, também. E assim por diante, nos Estados. O governo sempre vence. Nem poderia ser diferente, já que para obter votos dos parlamentares são vendidos cargos e liberadas verbas. E olha que, oficialmente, compra de votos é crime...
Sentado na frente da TV, eu via o povo brasileiro ser mais escorchado com a carga tributária, a partir de uma decisão que não se mede pelo interesse público, e sim pelo interesse espúrio do partido ou pessoal do parlamentar, em amealhar vantagens para as próximas eleições.
Essa é a democracia brasileira. Provavelmente, a democracia é a única contribuição verdadeiramente provisória que a Nação dá a seus filhos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Amigos baratos e um texto comovente

O grande Edyr Augusto, em seu blog, traça um painel sobre o universo da Presidente Vargas e seu entorno, com as criaturas que ali vivem ou fazem a vida. Um belo texto sobre humanidade, que merece ser lido.

Gargalo

A prosperidade da economia brasileira já levou multidões aos aeroportos, onde passaram horas ou até dias de humilhação. A primeira parte é a versão do ministro Guido Mantega.
A mesma prosperidade está enchendo as ruas de carros, num ritmo crescente. Os preços são altos, mas há facilidades, através de financiamentos e consórcios. Nestes, os prazos estão sendo ampliados para 80 meses. Quem tem mais dinheiro, troca de carro mais cedo, levando a oferta de usados a aumentar e, por conseguinte, a manter preços convidativos.
Tudo isso implica em que, se hoje as coisas já estão difíceis, dentro de mais um ano estarão muito piores. Pense na dificuldade para estacionar, nos engarrafamentos, nos acidentes. E ontem, com a interdição da Almirante Barroso por três horas, para o conserto de uma passarela, o caos. O trânsito desviado para a Pedro Álvares Cabral gerou um congestionamento monstro. Na Júlio César, p. ex., os carros não andavam.
Quer prova mais contundente de que Belém não pode continuar com praticamente uma só via de acesso? Dentre em breve, estaremos presos em nós mesmos. Sombrios prognósticos...

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Tipo novelinha

O diretor e os atores são estrelas globais. Dois deles, inclusive, atualmente no ar, na novela do horário nobre. Olhando de longe, Primo Basílio, de Daniel Filho, parece um autêntico fruto do jeito Rede Globo de fazer dramaturgia. E é. Mas, por favor, não tomem isso como uma crítica destrutiva pois, afinal, sou um consumidor da teledramaturgia global e já postei aqui no blog a minha defesa das novelas, o tipo de entretenimento mais bem sucedido no país.
Primo Basílio (creio que a omissão do artigo foi uma deliberada medida de individualização da obra) é um bom filme, mas nada além disso. Fui assistir porque, como escrevi ontem, valorizo o cinema nacional. E considero valioso que emissoras de TV invistam no cinema e ajudem a alavancar essa importante área da cultura.
Com meu olhar leigo, posso dizer apenas que Débora Falabella está adorável como sempre, mas esta observação não se estende à personagem. Fábio Assunção não surpreende e suspeito que o tipo cafajeste não é novidade para o bonitão. Reynaldo Giannechini é aquilo mesmo e o seu sotaque irritante lembra um pouco o mecânico Pascoal. Glória Pires, que é maravilhosa, estava insossa. A cena do atropelamento (não disse de quem) foi bem ruinzinha. Merece especial menção Simone Spoladore (mais destacada no cinema que na TV), atriz valorosa com um papel pequenino (coisas de cinema global), que ao final do filme solta um olhar de tristeza realmente comovente.
O jeitão novela está lá, com suas cenas curtinhas gravadas em estúdio. E considerando que, ao contrário das novelas, não existem milhões de personagens e tramas paralelas, o picotamento da trama central causa um certo desconforto. Algumas cenas eram muito escuras. Terá sido uma metáfora do diretor mostrar os personagens imersos em sombras?
O destaque é que, finalmente, uma produção brasileira mostra uma rua com mais do que dois carros antigos de uma só vez!
O som sempre foi um problema no cinema nacional, mas ontem fomos prejudicados pela porcaria que é o Moviecom, essa empresinha ordinária que praticamente monopoliza o setor em Belém. Durante toda a projeção, o som esteve abafado, em meios a estalos que alternavam os canais em funcionamento. Com isso, às vezes só ouvíamos ruídos de fundo; às vezes, só a música, com as falas dos personagens sussurradas ao longe. Deixei de entender pelo menos 30% dos diálogos. Mas naquela joça, reclamar a quem?
Enfim, se quiser ver Primo Basílio, vá. E divirta-se. Mas que Saneamento básico, o filme é muito melhor — mesmo sendo difícil comparar, face à diferença de estilos —, lá isso é.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Só 24?

O jornal O Liberal de hoje publica matéria sobre a atuação do Ministério Público Federal em relação a titulares ou ex-titulares de mandatos eletivos. Somente neste ano de 2007, 24 inocentes e perseguidos por adversários foram denunciados pela Procuradoria da República no Estado. São eles:

1. Gervásio Bandeira Ferreira, ex-prefeito de Breves
2. Violeta de Monfredo Borges Guimarães, ex-prefeita de São Sebastião da Boa Vista
3. Rafael de Loureiro Reis, ex-prefeito de Maracanã (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
4. Raimundo Luiz de Moraes, ex-prefeito de Marapanim
5. Bernardino de Jesus Ferreira Ribeiro, ex-prefeito de Ponta de Pedras
6. José de Sales Coutinho Aguiar, vereador de Capitão Poço
7. Miguel Santana de Castro, ex-prefeito de Afuá
8. Elzemar da Silva Paes, ex-prefeito de Abaetetuba
9. Raimundo Nogueira Filho, ex-prefeito de Anajás
10. Noé Xavier Rodrigues Palheta, ex-prefeito de Vigia
11. Raimundo José Pereira dos Santos, ex-deputado federal (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
12. João de Deus da Silva Bastos, ex-prefeito de Colares
13. Raimundo Celso Rodrigues da Cruz, ex-prefeito de Santo Antônio do Tauá (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
14. Francisco Osmildo Santiago, ex-prefeito de Placas
15. Josué Bengston, ex-deputado federal
16. Raimundo Zoe de Jesus Saavedra, prefeito de Ourém (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
17. Maria Ortência dos Santos Guimarães, ex-prefeita de Muaná (requerida indisponibilidade dos bens)
18. Antônio Armando Amaral de Castro, prefeito de Marituba (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
19. José Antônio Fausto da Silva, ex-prefeito de Curuá
20. Jonas Pereira Barros, ex-prefeito de Tracuateua (requerida indisponibilidade dos bens, com seu consequente sequestro e o bloqueio de contas bancárias até o montante que assegure ressarcimento dos danos)
21. João de Deus da Silva Bastos, ex-prefeito de Colares (requerida indisponibilidade dos bens, com seu consequente sequestro e o bloqueio de contas bancárias até o montante que assegure ressarcimento dos danos)
22. Benedito Augusto Bandeira Ferreira, ex-prefeito de Irituia (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
23. Ranulfo Teixeira Cavalcante, ex-prefeito de Quatipuru (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal)
24. Elquias Nunes da Silva Monteiro, ex-prefeito de Portel (requerida indisponibilidade dos bens, quebra de sigilo bancário e fiscal.)

Mais importante do que denunciar é ter a denúncia recebida pelo Judiciário, o que indica a efetiva instauração da ação penal. Por isso, considero a reportagem incompleta, pois deveria apresentar os nomes de todos os políticos que já são efetivos réus, para nos dar o prazer de ver o nome daquele que se diz Prefeito de Belém. Afinal, recentemente, a denúncia contra ele foi recebida.
Eu não me esqueci nem deixo ninguém esquecer.

Inglês no Ver-o-Peso

Quando tomei conhecimento do convênio entre a prefeitura de Belém (temos prefeitura, embora não prefeito) e a Universidade da Amazônia, para que os feirantes do Ver-o-Peso recebam aulas de inglês, achei a medida interessante, mas talvez inoportuna. Meu argumento: há necessidades muito mais prementes em nosso maior cartão postal, que vive um cotidiano de absoluta desorganização e grande insegurança. Os feirantes e as adoráveis vendedoras de ervas, falando inglês, não atrairão mais turistas. Não há condições de o turismo se desenvolver num ambiente caótico. Basta ver que, para visitar a feira, os turistas se reúnem em grupos e passeiam cercados por uma rede de segurança. Convenhamos, é uma lástima.
Todavia, minha opinião mudou um pouco. Procurei informações sobre o convênio na página da Prefeitura, mas não encontrei nada — apenas notícias elogiosas ao sedizente. Então acessei o sítio da UNAMA e, ali sim, a notícia aparece. Foi quando topei com um artigo da Profa. Amarílis Tupiassú, comentando uma carta que algum leitor conseguiu ver publicada no jornal O Liberal. Não li a carta e desconheço seu conteúdo. Fiquei apenas com a visão da mestra, mas suas palavras lúcidas foram suficientes para me influenciar.
Ainda acho que feirantes falando inglês são um paliativo de pouco impacto, mas agora entendo que a iniciativa deve ser levada adiante e torço para que surta todos os efeitos esperados. Ainda mais porque a coordenadora do projeto é a competente e dedicada Profa. Lourdes Nogueira, minha colega, que tem os pés firmes no chão e conhecimento da vida e do mundo, aspectos que certamente contribuirão para que as aulas de inglês não sejam apenas aulas de inglês, mas uma forma de atuar positivamente na vida dos feirantes e suas famílias.
Sucesso a todos os participantes do projeto.

Saneamento básico


À vista do cartaz, recheado de estrelas globais, a comédia Saneamento básico, o filme pode passar por mais uma bobagem do florescente cinema brasileiro. Tem Fernanda Torres (maravilhosa, fora do estigma de Vani), Wagner Moura e Camila Pitanga (ele, enternecedor; ela, com ótima veia cômica, em nada lembrando o casal mais famoso da atual novela das nove), Bruno Garcia (na dose certa), Lázaro Ramos (o atual ator-mor brasileiro), os consagrados e adoráveis Paulo José e Tonico Pereira. Fechando o elenco, Janaína Kremer — a única desconhecida do grande público, perfeita no papel na servidora pública empenhada em usar bem uma verba federal.
O filme é absolutamente despretensioso, mas tem elementos que o tornam um produto sofisticado. Primeiro, sai do eixo Rio-São Paulo. A história se passa no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, uma região exuberante que você sai da projeção querendo conhecer. O enredo retrata pessoas simples (que nem sequer sabem o que é "ficção"), mas nem de longe o foco está na miséria ou nas desgraças sociais, que ao lado da ditadura militar constituem o clichê número 1 do cinema nacional.
Segundo a sinopse do sítio oficial do filme, a história mostra uma pequena vila de descendentes de colonos italianos na serra gaúcha afetada pela poluição de um arroio. Mobilizados, tendo à frente Marina Mandera (Torres), descobrem que a prefeitura não dispunha de recursos para saneamento básico, mas havia uma verba federal para produção de um curtametragem de ficção. "Os moradores da Linha Cristal passam então a fazer um vídeo de ficção que, segundo interpretações, é um filme de monstro, ambientado nas obras de construção de uma fossa, com o único objetivo de usar a verba para as obras. O que eles não esperavam é que a produção do vídeo fosse se tornando cada vez mais complexa e interessante."
Sem exageros destinados a provocar hiperuremia de riso, o filme é leve e nos leva a rir dos olhares, das indecisões, das gags. Destaque para a cena em que dois operários — um deles Lúcio Mauro Filho — fazem figuração e soltam um texto macarronicamente decorado. Aliás, todos os "atores" são de uma dureza cênica impagável. Fabrício (Garcia), p. ex., fala "ista" em vez de "está". O único que parece estar à vontade é Joaquim (Moura), que na pele do monstro chega a fazer uma dancinha ridícula quando mata suas vítimas.
Como não sou crítico de cinema nem de nada, graças a Deus, apenas sugiro que você assista ao filme. E preste atenção em Paulo José, que dispensa apresentações, soltando um enérgico improviso na cena do cientista que concebe uma teoria apocalíptica sobre monstros, e em Camila Pitanga, a Silene Seagal (sim, de Steven Seagal), recitando um belo poema sobre cabelos, que pode ser encontrado no sítio do filme.
Eu prestigio o cinema nacional. E fico encantado quando encontro pela frente um produto tão adorável, que dá vontade de ver de novo, junto com as crianças.

domingo, 16 de setembro de 2007

Brincante



Antônio Nóbrega é desses artistas que valorizam a verdadeira cultura brasileira. Compositor, instrumentista e cantor (rabequeiro de mão cheia), bebe no folclore de seu Estado natal, Pernambuco, a inspiração para uma carreira que não pode ser acompanhada pelas rádios nem pelos programas de variedades ou de entrevistas que passam cotidianamente. Eu mesmo jamais ouvira falar dele quando vi sua entrevista ao Jornal Liberal de um sábado há cerca de quatro anos, promovendo o show que faria no Teatro da Paz, claro em única apresentação. Como meu irmão é ator e adora essas pessoas que correm por fora do circuito, convidou-me. Fui por ter simpatizado com o tipo e qual não foi a minha surpresa ao assistir a um dos maiores espetáculos musicais de minha vida — e eu não conhecia absolutamente nada do repertório!
O teatro estava cheio e quem foi, amou. Para vocês terem uma noção, após esbanjar vitalidade, dançando frevo com seus mais de 50 anos de idade, com mais de uma hora de apresentação ele ainda levou uma moça da plateia para o palco, onde dançaram, e convidou todos nós para acompanhá-lo. Deixamos a sala de espetáculos e acabamos no saguão do teatro, de mãos dadas, numa imensa ciranda — o artista juntinho de seu público, interagindo inclusive fisicamente.
Saí do teatro de alma lavada, com aqueles sorrisos que grudam na cara e não saem mais. Lamento dia e noite ele não ter vindo mais aqui. Compramos, eu e meu irmão, um CD cada um. O meu, Lunário Perpétuo, que baseou o espetáculo em questão. E é nesse CD que está a linda canção Carrossel do destino, cuja letra lhes ofereço em homenagem a esta aborrecida mas esperançosa tarde de domingo.

PS — Saiba também sobre o Teatro Brincante, do qual Nóbrega faz parte.

Deixo os versos que escrevi,
As cantigas que cantei,
Cinco ou seis coisas que eu sei
E um milhão que eu esqueci.
Deixo este mundo daqui,
Selva com lei de cassino;
Vou renascer num menino,
Num país além do mar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Enquanto eu puder viver
Tudo o que o coração sente,
O tempo estará presente
Passando sem resistir.
Na hora que eu for partir
Para as nuvens do divino,
Que a viola seja o sino
Tocando pra me guiar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Romances e epopéias
Me pedindo pra brotar
E eu tangendo devagar
A boiada das idéias.
Sempre em busca das colméias
Onde brota o mel mais fino,
E um só verso, pequenino,
Mas que mereça ficar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.

sábado, 15 de setembro de 2007

Seis furos de enganação

Uma pequena obra na casa de minha mãe: a construção de uma lavanderia. Tijolos comprados, a comparação entre eles e os tijolos usados em uma pequena parede, há cerca de 10 anos, e que agora foi demolida, revela como somos roubados por todos os lados, o tempo inteiro. Os tijolos atuais são 4 centímetros menores, 2 centímetros mais baixos e ligeiramente mais finos. Basta olhar e se percebe. Antigamente, vistos de lado, os tijolos eram retangulares; hoje, são praticamente quadrados.
O resultado óbvio de tamanha safadeza é que a quantidade de 1.600 tijolos que precisei comprar para a nossa obra poderia ser significativamente reduzida se o tamanho fosse preservado. Além de nos obrigar a comprar muito mais peças para cobrir uma mesma área, aumenta o trabalho do pedreiro e isso, é claro, repercute no custo da mão-de-obra. Perdemos duplamente.
Em suma, brasileiro é isso. Adoramos falar mal dos políticos, mas o fato é que presidentes são safados, senadores são safados, deputados são safados. Ao lado deles, fabricantes de material de construção são safados. A loja que nos vendeu um milheiro com 22 peças faltando pertence a um safado. O funcionário que jura de pés juntos ter contado direito é um safado.
De safado em safado, perde-se dinheiro e a paciência; afunda-se a esperança de um país melhor. Nestas terras, para enganar e prejudicar o semelhante se precisa de somente uma coisa: uma oportunidade.

De que adiantou?

O trânsito no Entrocamento, neste exato instante, está caótico. Cerca de uma hora atrás, fiz o trajeto saindo da Augusto Montenegro (lenta às proximidades da rotatória) para converter na BR-316, estrangulada até o semáforo em frente ao Castanheira. A partir daí, o fluxo se normaliza.
Em meu retorno, há poucos minutos, passei da BR para a Pedro Álvares Cabral e a situação estava muito pior. Entrar na rotatória quase me custou um abalroamento numa motocicleta que brotou do nada ao meu lado. A fila de carros, ônibus e caminhões, enorme, contornava 50% da rótula. Vencer aquele trecho foi realmente perigoso, principalmente devido às motos, bicicletas e pedestres, caminhando na beira da rua por causa da feira. O menor descuido e alguém acaba ferido. Um horror.
Enfim, a verdade é que o Complexo Viário do Entroncamento não cumpriu a sua missão. Nem de longe. Não digo nenhuma novidade, suponho, mas confesso ter-me impressionado hoje, já que nunca passo pelo local nesse dia e horário. Mas como sei que, durante a semana, na hora do rush, a confusão é grande, só posso concluir que a obra — que não acredito inútil — está sendo inútil até este momento. A conclusão mais prática é que, enquanto o semáforo do Castanheira não for suprimido, teremos pelo menos dois quilômetros de engarrafamento, aborrecimentos e prejuízos.

PS — Uma sugestão mais audaciosa: construir passagens de nível para retornos, na BR-316. Os veículos sairiam da rodovia e passariam por baixo dela, acessando dessa forma as ruas adjacentes ou voltando à própria rodovia. Entre as pistas inferiores, uma calçada para pedestres, que assim poderiam atravessar sem riscos de atropelamento. Em cima, a supressão dos semáforos faria o tráfego fluir sem problemas.
Parece-me uma solução eficiente. Mas imagino que os custos, nesta terrinha de ninguém, sejam proibitivos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Em riste contra a corrupção


O dedo médio em chamas e em riste, que se vê na imagem acima, é um protesto contra a corrupção. Mas não foi no Brasil.

A doença do brasilianismo

Esta eu surrupiei do blog do Hiroshi Bogéa. Trata-se de um texto de Wanderley Guilherme dos Santos, filósofo e doutor em Ciência Política (ênfase em teoria da democracia), membro da Academia Brasileira de Ciências.

Democracia e o vírus do brasilianismo
Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido com apoio e votos às políticas sociais do governo.
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.
Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.
Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.
Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.
E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.
Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.
Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.
Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.
Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.
Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.
Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.
Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.
Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.
O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.
A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.
O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.
A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.

Linha de produção

Há alguns dias, uma aluna foi expulsa de um cursinho preparatório para o exame de Ordem — e não foi gentilmente. Numa sala com cerca de 70 alunos, foi-lhe dito apenas "vá embora do meu curso". E "passe na secretaria e pegue seu dinheiro de volta".
A jovem em questão foi uma de minhas melhores alunas, reunindo à seriedade e compromisso com os estudos um caráter forte e um temperamento respeitoso e digno. Não é, de modo algum, alguém que mereça censura pública. Seu pecado foi questionar o professor, após o final de uma aula e portanto já sem a presença da turma, sobre explicações que ele dera confusamente. Ele se contradizia. Além disso, segundo as palavras da moça, ela aprendera comigo e outros professores da faculdade a procurar soluções diversas para os problemas. Agora, no cursinho, o professor só tinha uma verdade: ou era do jeito dele ou estava errado. E o jeito dele, pelo que vi em anotações de aula, ontem à noite, confirmadas por três pessoas, continha uns tantos equívocos.
Após ser admoestada na aula por estar conversando, segundo alegado pelo "ofendido", a moça enfim questionou a animosidade. E, para justificar estar sendo perseguida, argumentou que todos os alunos haviam recebido suas peças processuais corrigidas, exceto ela. As peças que ela produziu simplesmente desapareceram. Foi nesse momento que o professor a expulsou. A meu ver, ao ser publicamente acusado de um ato de má fé do qual não podia defender-se, porque realmente não devolvera nenhum trabalho corrigido daquela aluna, deu o bote. Ficou tão nervosinho que mandou embora, também, a amiga da jovem, que saíra atrás dela.
Eu e meu colega professor de Direito Processual Penal achamos que a nossa aluna deveria processar o cursinho, perante um Juizado Especial Cível. Afinal, aplicam-se ao caso as regras do Código de Defesa do Consumidor. E um professor, que não revela o equilíbrio necessário para uma atividade que exige doses maciças de paciência, não pode afrontar dessa forma um aluno (e contratante de serviço), apenas porque — talvez seja esse o motivo — se sente amparado pelo seu altíssimo cargo público.
Não leciono em cursinhos preparatórios de nada. Já me convidaram — por sinal esse mesmo cidadão. Mas recusei, porque anteriormente já aceitara um convite de outra pessoa, para um curso de duas semanas. Cumpri o contrato e constatei o que já imaginava: detesto cursinhos. Jamais voltei a um deles.
Sem qualquer crítica aos cursinhos, por si mesmos, que podem ser realmente muito bons, o problema deles é a (i)lógica dos concursos: passar a qualquer custo. E como esses concursos começam com provas objetivas imbeciloides, a ânsia dos alunos é quantitativa: absorver o máximo possível de informações, para acertar o máximo possível de questões e passar à etapa seguinte. É o ensino linha de produção. Ou, como disse ontem outra aluna, que faz o mesmo curso e presenciou tudo, o McDonald's do Direito.
Amo o magistério porque posso parar uma aula convencional, conteudista, e instituir um debate sobre algum assunto polêmico e passar uma hora inteira só ouvindo o que os alunos têm a dizer, mesmo que nem seja uma abordagem jurídica. Posso pedir-lhes que imaginem uma situação que jamais foi pensada antes. Posso sugerir que especulemos como uma triba indígena solucionaria, p. ex., um crime violento envolvendo seus membros. Posso levar duas aulas apenas fazendo um histórico, a fim de compreenderem como e por quê as coisas são hoje como são. Isso seria impossível num cursinho, onde a abrangência é substituída pela urgência.
A docência é isso: ensinar a pensar. Enfiar informações na cachola é, apenas, linha de produção. Para isso, não me convidem.
E se você for se matricular em algum cursinho preparatório, não seja tolo de ir atrás do único discurso que os comerciantes do saber usam: tantos por cento de aprovação! Dados, por sinal, nunca muito confiáveis. Procure informar-se sobre os métodos empregados no curso e, até mesmo, sobre o temperamento dos professores. Preocupe-se com qualidade. Afinal, é a sua vida que precisa seguir em frente.