segunda-feira, 31 de maio de 2010
Defensoria Pública no Pará
Confesso ter ficado muito surpreso por saber que até hoje não existe Defensoria Pública nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Goiás, muito embora a Constituição de 1988 disponha, em seu art. 134, acerca de sua necessária atuação em defesa dos necessitados, em todos os graus de jurisdição. A Defensoria Pública deveria funcionar em todos os Estados e Distrito Federal, além da União. Mesmo assim, num Estado como São Paulo (pasme), sua criação foi recente. Até então, a defesa dos necessitados era feita por um setor da Procuradoria Geral do Estado.
No site do Consultor Jurídico, encontrei um artigo mencionando a existência de um programa de apoio às vítimas de escalpelamento em nossos rios, demonstrando uma oportuna preocupação com um aspecto grave de nossa realidade e que precisa ser enfrentado de modo eficaz e humano.
Aos detratores do Pará, saibam que aqui estamos à frente de outras respeitáveis unidades da federação. E isso não é discurso vazio.
Para conhecer melhor a Defensoria Pública do Estado do Pará, veja o seu site institucional.
Juventude sem família

domingo, 30 de maio de 2010
O desenvolvimento da linguagem
Já acompanhei, dentro de casa, o desenvolvimento de duas crianças desde o nascimento delas. Contudo, a mais nova delas hoje está prestes a completar 14 anos. Se hoje eu sei bem pouco sobre a mente humana, avalie aquela época! Mas hoje, pelo menos, sou um curioso pelo assunto e ja li alguma coisa decente a respeito. Por isso, através da Júlia, pude me encantar com o desenvolvimento de seu raciocínio. Recordo-me dela olhando perdida para uma bola que desaparecia atrás de um objeto e, tempos depois, concluindo sozinha que bastaria afastar o tal objeto para rever a bola. Aprendera a noção de continuidade, de permanência dos objetos que não podem ser vistos.
Incontáveis exemplos poderiam ser fornecidos. Fico com um de hoje, porém.
Eu estava dentro d'água e ela, da borda da piscina, me pediu um brinquedo que flutuava atrás de mim.
— Qual? — perguntei, apontando para o brinquedo flutuante. — Este aqui?
— É, aquele.
Aprendemos nas aulas de Língua Portuguesa que este, esse e aquele são pronomes que indicam uma relação de proximidade entre o indivíduo e o objeto. Perto de quem fala, perto do interlocutor e longe de ambos. Ao me responder, esta manhã, Júlia demonstrou compreender, de algum modo, que o brinquedo estava longe dela. Conversei com Polyana e nenhum de nós sabe explicar como Júlia pode ter alcançado essa percepção. Não é algo que tentássemos fazê-la entender. Fiquei encantado com o raciocínio dela, mas não encontro nenhuma explicação para a aprendizagem dessa minúcia. Não pode ter sido apenas um copiar o nosso jeito de falar, porque esses pronomes, para variar, são mal empregados pela maioria das pessoas.
Obviamente, o correto a dizer seria "esse" e não "aquele". Mas aí também você já quer demais, não?
Apaixonado pelo idioma, continuarei a perscrutar esse instigante processo de aprendizagem da habilidade de comunicação, em geral, e da língua, no particular.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Ode ao bigode











quinta-feira, 27 de maio de 2010
Juliana, Simão, a banana e o abuso de autoridade
Processo 2009.209.015972-4
SENTENÇA
Trata-se de ação de indenização proposta por JULIANA COUTO PAES em face de EMPRESA FOLHA DA MANHÃ S.A., devidamente qualificados, objetivando a autora a condenação da ré para que se abstenha/excluir de seu site, referências e matérias acerca de sua imagem, sob pena de multa diária, bem como ao pagamento de valor a ser arbitrado pelo Juízo a título de danos morais. Como causa de pedir alegou a parte autora, em síntese, ser atriz famosa da emissora Rede Globo, sendo certo que, desde fevereiro de 2009, a ré vem publicando na coluna do jornalista José Simão e na internet, textos ofensivos à sua moral, denegrindo sua imagem, bem como a de sua família.
A inicial de fls. 02/18 veio acompanhada dos documentos de fls. 19/33. Às fls. 38, não foi acolhida a antecipação da tutela.
Contestação de fls. 76/93, alegando que o notório jornalista José Simão limita-se a exercer regularmente a atividade crítica e de imprensa de um modo geral, agindo com animus jocandi. Sustenta que a autora é pessoa pública de grande destaque na mídia, sendo certo que os textos questionados pela autora são de natureza humorística, não podendo ser considerados como ofensivos. Entende a ré ter exercido regularmente o direito constitucional de atividade crítica de imprensa. Por fim, defendeu ter inexistido dano moral a presente hipótese. Réplica de fls. 152/156. Decisão de fls. 160, em que o juízo indeferiu o pedido da autora de reunião de ações por não se tratar de hipótese de conexão. Instadas as partes a se manifestarem em provas, a ré e a autora apresentaram as petições de fls. 275/276 e 277, respectivamente. Audiência de conciliação de fls. 280, na qual as partes não alcançaram acordo.
É o relatório. Decido.
O presente feito comporta o julgamento antecipado da lide, visto que a matéria nele versada é unicamente de direito, em consonância com o inciso I do artigo 330 do CPC, sendo desnecessária a produção da prova oral pleiteada. Com efeito, o cerne do presente litígio consiste em perquirir se a notícia veiculada pelo réu, através do Jornalista José Simão, apresenta ou não cunho ofensivo à honra da autora. A questão suscitada acerca da existência de conexão entre esta demanda e outra ajuizada perante o Juizado Especial Cível já fora decidida às fls. 160, a qual não fora objeto de recurso.
Não há preliminares a serem examinadas, razão pela qual passo ao exame do mérito:
No mérito, o que se observa do teor desta demanda, bem como dos documentos juntados aos autos, é que o réu, na hipótese em questão, apenas permitiu a veiculação de notícias ou de ´brincadeiras´ que envolviam a autora, no período em que esta estava em exposição pública na novela ´Caminho das Índias´, sendo certo que as ´gozações´, ´zombarias´, ets. foram feitas com correlação a sua personagem ´Maya´, ainda que se referindo ao seu próprio nome ´Juliana´, posto que não é possível se desvencilhar absolutamente os atributos de mulher bonita e sensual de ´Juliana Paes´ com os de sua personagem.
Desta forma, entendo que o réu não abusou no exercício do seu direito de informação e liberdade de expressão jornalística/humorísitca. Sustenta a autora ter sido ofendida em sua honra ao ser mencionado seu nome e não o de sua personagem nas passagens a seguir: ´Juliana Paes não é nada casta! Juliana Paes é da casta das nada castas!´Juliana Paes se casa com uma bananeira!; ´Juliana Paes, quero descascar a minha banana! E você prefere a Juliana Paes na India ou na Playboy' Na Playboy por que o bumbum da Juliana é um abuso de autoridade! E assim vai... Todavia, o que se constata das narrativas de ambas as partes é que tais fatos e atributos, igualmente, já foram amplamente divulgados por outros meios de comunicação, como revistas sensuais e ´Playboy´, na qual a autora se despiu e mostrou todo o seu corpo, sem qualquer informação ou aspecto de constrangimento.
Ora, independentemente da escolha e do respeito à autora, este Juízo se limita a verificar a contraposição de interesses predominantes, quais sejam, liberdade de expressão e veiculação x Direito à intimidade e privacidade.
Neste contexto, o segundo aspecto (privacidade) há muito já fora afastado pela própria autora, na medida em que, em virtude de sua aparição constante em novelas e programas de televisão, inclusive naqueles em que se têm notícias e declarações feitas pessoalmente em relação a sua vida pessoal, sua vida com seu marido, gravidez, etc, se expõe, acabando por transformar a sua vida em fato notório e público. Ademais, a autora não apenas aparece na mídia em nome dos seus personagens como também em seu próprio nome e em exposição de seu corpo como ´Juliana´, como no exemplo citado pelo réu, a propaganda de uma cerveja famosa- ´A boa´, na qual se enfatiza a beleza e a sensualidade da autora para estimular o público, em geral, a consumir o produto anunciado.
Portanto, a autora, até mesmo por que faz parte de sua vida artística, se vale do fato de ser uma pessoa bonita, sensual, articulada e inteligente para se manter em exposição. Sendo assim, muito embora os termos utilizados possam ser fortes não o foram relatados com ânimo de ofensa, visto que se referem a fatos públicos, notórios e relacionados às cenas protagonizadas por sua personagem ´Maya´, que tanto influenciou o povo, mormente diante de cenas, consideradas por nós absurdas, porém tidas como importantes para aquele povo, como é o caso da cena em que Maya se casa com uma bananeira.
Evidente que diante daquela cena muitas ´brincadeiras´ e ´piadas´ iriam surgir, ainda mais quando protagonizadas pela autora, sempre alvo de busca de notícias, em razão de sua popularidade e simpatia. Não se pode duvidar, ainda, que é da essência dos meios de comunicação relatar fatos e realizar comentários, sejam eles verdadeiros ou não, acerca de pessoas famosas, em busca de ibope.
É de conhecimento geral o excessivo número de ações que envolvem artistas e jornais, revistas, fotógrafos e profissionais do ramo, sob o fundamento de veiculação de notícias ou imagens não autorizadas, as quais, quase sempre, são fadadas ao insucesso, em virtude de alegações ligadas ao ramo de atividade do artista. Todavia, não há como se considerar tais questões como invasão à intimidade ou privacidade destes artistas, ante a sua opção de vida social e profissional em evidência. Os fatos, inequivocadamente, ofensivos e mentirosos serão reprimidos com veemência pelo Poder Judiciário, o que não é o caso dos autos. Aqui, se constata o ânimo humorístico das notícias e não de caráter ofensivo à autora ou a sua família. Em suma, as notas veiculadas não contêm qualquer expressão ofensiva à honra da autora, seja considerada isoladamente ou não, tratando-se apenas de técnica da balizada linguagem jornalística/humorísitca, empregada com vistas a aguçar o interesse e a curiosidade do público ouvinte e leitor.
Desta forma, não se vislumbrando abuso da empresa ré no exercício de seu direito de informação e de caráter humorístico, não há que se falar em obrigação de indenizar. Neste sentido, a Jurisprudência: ´0000532-12.2009.8.19.0209 - APELACAO - 1ª Ementa DES. MAURICIO CALDAS LOPES - Julgamento: 24/02/2010 - SEGUNDA CAMARA CIVEL Ação ordinária. Danos morais. Imprensa. Notícia veiculada que imputa à autora dependência econômica de sua nora, famosa atriz, que a teria retirado do subúrbio carioca para residir na Barra da Tijuca, custeando seus alugueres. Sentença de improcedência. Apelação da autora insistindo em que o episódio teria, efetivamente, lhe exposto e comprometido a honra, tanto mais quando nunca necessitara da ajuda financeira de sua nora. Liberdade de imprensa e direito à privacidade em aparente antinomia. Em aparente rota de colisão. Técnica da cedência recíproca. Avaliação da hipótese fática, em desfavor da apelante que, valendo-se da repercussão do casamento de seu filho com famosa atriz, intentara tornar-se pessoa pública, sem atentar talvez que o bônus da popularidade tem como contraponto o ônus do interesse e acesso da mídia a sua vida particular. Dano moral que, no caso, não resultando in re ipsa, dependia de prova contundente a respeito da lesão a direitos da personalidade da autora, em ordem a demonstrar a repercussão social negativa da notícia em sua vida ou, ao menos, a falsidade de seu conteúdo -- ônus de que, entretanto, não se desincumbiu a autora. (CPC, artigo 333, I.) Notícia veiculada de conhecimento público e notório, que não se demonstrou ser falsa, desprovida, ademais, de qualquer conteúdo ofensivo. Ausência de lesão extrapatrimonial. Recurso não provido´.
Isto posto, JULGO IMPROCEDENTES os pedidos formulados pela autora. Condeno a autora ao pagamento das custas e honorários advocatícios que fixo em 20% (vinte por cento) sobre o valor da causa. Transitada em julgado, dê-se baixa e arquivem-se. P.R.I. Rio de Janeiro, 24 de maio de 2010.
BIANCA FERREIRA DO AMARAL M. NIGRI
Juíza de Direito.
[Os grifos do texto foram por mim apostos.]
Mais uma vez, a discussão em torno do direito à privacidade das chamadas pessoas públicas. Esta sentença, particularmente, deixa nítida a compreensão de que o artista, devido a sua busca por exposição e popularidade, bem como pelos proveitos econômicos daí decorrentes, abdicou tacitamente de sua privacidade, não de todo, mas na plenitude que é reconhecida a nós, meros mortais ignotos.Veja-se que, no precedente citado, o Tribunal de Justiça afirmou ostensivamente que quem procura os "bônus" da fama deve aceitar os "ônus" da perda da privacidade, salvo casos de dolo manifesto em prejudicar. Interpretação dura essa, não? Mas o público que consome, com uma avidez louca, produtos relacionados à esfera íntima de artistas, decerto que concordarão que estes se tornaram escravos da fama. Pessoalmente, não penso assim, mas pelo visto estou com a minoria.
Talvez alguém veja, nesta sentença, um ataque à mulher. Sempre aparecem esses xiitas das causas A ou B. No caso, a juíza — ressalte-se que foi uma mulher — afirmou que Juliana Paes, deliberadamente e para ganhar dinheiro, explora a própria sensualidade, inclusive já tendo posado nua. Assim, tem que aceitar que línguas ferinas manifestem o desejo de lhe lamber o traseiro ou, ao menos, de fazer troça disso. Aqui, devo dizer, concordo com a juíza. Já pensou se um dos membros daquela antiga banda, Planet Hemp, quisesse processar alguém que o chamasse de "maconheiro"? Fala sério...
Enfim, com certeza este não é um caso encerrado. Não me refiro ao recurso de Juliana Paes, mas à aparentemente interminável discussão sobre os limites da privacidade frente a essa liberdade complicadíssima, que é a de imprensa, absolutamente necessária, mas fonte cotidiana de males terríveis.
PS — Vale lembrar que a sensualidade da atriz já foi explorada várias vezes pelo Casseta & Planeta: Urgente, sem oposição. Claro, haja vista que o programa é da emissora da qual ela é contratada. Mas não deixa de ser um aspecto a considerar.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
O meu fim de Lost
André, você descreveu tão maravilhosamente meus próprios sentimentos sobre Lost que me abstenho de escrever um post sobre o seriado, como queria inicialmente. Vou emendar no seu comentário.
Depois do The end, eu pensei em várias possibilidades para entender o que vi. Primeiro pensei que eles morreram já no desastre de avião, e que o seriado todo foi post mortem. Mas isso não faria muito sentido, considerando vários pontos do que você falou. Depois, pensei que eles talvez estivessem mortos ao explodir a bomba em 1977, mas, se assim fosse, qual o sentido de haver uma divisão de consciências? Ninguém consegue viver em dois lugares ao mesmo tempo.
Por fim, acho e acredito que a "realidade paralela", como ficou conhecida, representava o lugar para o qual todos foram depois de morrer, morrer em tempos diferentes, uns mais cedo (Shannon, Libby, p. ex., Jin, Sun) e outros bem mais tarde do que Jack (como Hurley, Sawyer, Kate). Todos em estado de negação, pela intensidade da experiência que viveram, sem acrditar que morreram, e sem conseguir lidar com as experiências vividas depois da queda do Oceanic 815. E esta necessidade coletiva de resgate recriou a viagem para LA, o último resquício de "vida normal" na vida de todos eles. Eles apareceram lá com vários dos defeitos de antes, pois ainda eram eles mesmos, mas com algumas diferenças, Jack mais maduro (representado na "criação" de seu filho), Kate inocente, Claire mais apegada a idéia de ficar com seu bebê, Sun mais corajosa ao ter o caso com Jin e este mais doce com ela, enfim, cada um deles recriando sua persona com algumas alterações tendo em vista tudo o que viveram após a queda na ilha, cada um deles modificados por estas experiências.
Quanto aos personagens "secundários" (Miles, Charlotte, Faraday) que não faziam parte daquela "família", mas estavam lá também: acho que eles não estavam realmente lá, eram parte do cenário, tentativas que o cérebro faz para tecer a teia da realidade e tornar tudo compreensível para a nossa psique. Por isso, não estavam na igreja.
A ilha? Acho que continuou existindo e ainda existe um Jacob para cuidar dela, escolhido por Hurley quando ele não mais podia ficar no cargo, mas sem um monstro de fumaça, só a luz, a ser protegida do resto do mundo.
Ji Yeon cresceu sem os pais e talvez Aaron tenha crescido com duas mães. Walt continuou sua vida com a avó sem saber o que houve com o pai. Aliás, ficamos sem saber porque afinal ele era especial. Mas, a sério, quem liga? Eu sabia que haveria perguntas sem resposta e mais perguntas do que eu esperava foram respondidas, então eu estou feliz.
As imagens dos rostos felizes dos personagens na cena da igreja ainda estão em minha mente. E ficarão por um bom tempo, até que eu e Yúdice decidamos comprar os boxes e assistir tudo novamente, daqui a um tempo. Eu sei que verei. E sei que vou curtir novamente a jornada. e o fim.
Lost: desejar a liberdade
Atenção: spoilers!
Caro Yúdice, antendendo aos seus apelos, venho me manifestar a respeito de Lost. Vou dividir esse comentário em duas partes. Na primeira, tentarei relativizar sua afirmação, feita na postagem Lost: O Fim, da última sexta, 21 de maio de 2010, de que os rumos tomados pelas últimas temporadas do seriado haviam sido decepcionantes em vista das expectativas criadas nas primeiras temporadas; na segunda, tentarei expressar a minha compreensão acerca de The End, o intrigante e surpreendente episódio final do seriado. Como se pode pefeitamente adivinhar, os comentários que seguem são recheados de spoilers para quem ainda não viu os episódios a que eles se referem.
PRIMEIRA PARTE
Um dos pontos que mais me chamou atenção positivamente na sua postagem foi o uso que você fez, de modo bastante prudente, de marcadores de subjetividade, como "eu esperava que" e "eu cheguei a pensar que", pois eles indicam que seu referencial de comparação do rumo que a série tomou é o rumo que você, pessoalmente, esperava e gostaria que ela tivesse tomado. Desde já destaco que, se o seu parecer final de que "Lost é isso. Decepcionante" for expressão apenas de sua frustração pessoal com a série, no sentido de que o que veio à tela não foi o que você mais teria gostado, ele é, enquanto tal, irrefutável. O que tentarei, sim, refutar é a ideia de que aquilo que veio à tela é decepcionante. E isso me parece expresso na sua postagem quando você fala que "abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás". Nisso me parece claro que a opção dos produtores por um viés religioso fez com que, aos seus olhos, a série abdicasse do que a fazia "inteligente", no sentido de intelectualmente provocativa, e abraçasse uma via "clássica e singela", no sentido de clichê e maniqueísta. Disso discordo frontamente, pelos motivos que vou elencar agora:
i) A estratégia inicial dos produtores de Lost para atrairem o enorme interesse de uma massa de telespectadores com as mais diversas preferências televisivas e visões de mundo foi plantar no seriado um conjunto de personagens e elementos tão variados que desse margem para todos os tipos possíveis de expectativas de desfecho para a trama de mistério. Entre os vários temperos postos na receita do seriado, estava o elemento científico das estações, dos números e da Dharma Iniciative. Mas, ao lado desse elemento, sempre estiveram presentes muitos outros. Sempre esteve presente o elemento romântico de casais existentes e possíveis; o elemento dramático da ilha como possibilidade de redenção para pessoas cujas vidas eram fracassadas em algum ponto relevante; o elemento filosófico de como é possível a convivência entre os diferentes numa situação de escassez de recursos e de ausência do Estado; e também o elemento místico, de um assustador e inexplicável monstro de fumaça que ameaçava os losties, de uma possível configuração do destino que havia reunido todas aquelas pessoas, de uma ligação mais íntima com a ilha da parte de John Locke. Mas essa vasta abertura do início não poderia ser mantida até o final a não ser sob o preço de não resolução dos mistérios principais, alternativa que, em vez de satisfazer a todos, provavelmente despertaria fortes sentimentos de frustração e traição e não satisfaria a ninguém. Para darem alguma resposta final, os produtores tinham que fazer alguma escolha entre os diversos rumos possíveis que a trama poderia seguir. Era preciso algum fechamento.
ii) A escolha que os produtores fizeram pelo elemento religioso não trai, portanto, a proposta inicial do seriado. Não trai porque esse elemento sempre esteve presente na trama como um dos vieses possíveis de abordagem da história. Quando os produtores dão ao primeiro episódio da segunda temporada o nome de Man of science, man of faith, encarnando os dois pólos nas personagens de Jack e Locke, fazem uma clara indicação dos dois caminhos que eram possíveis para o seriado dali por diante. As duas célebres frases daquelass personagens no episódio: "Everything happened for a reason" e "I think you are mistaking coincidence for fate" anunciam desde ali os dois possíveis desfechos da narrativa. Assim, não se pode alegar que Lost se "desviou" daquele que era o seu espírito inicial, nem que "enganou" aqueles que esperavam por respostas científicas, muito menos que nunca acenou desde o início com a possibilidade pela qual acabou optando em seu final. E mais: Sempre houve os expectadores que eram "men of science", como Jack, você e eu, e sempre houve os que eram "men of faith", como Locke. Esses grupos tinham expectativas radicalmente opostas sobre o destino do seriado e, qualquer que fosse esse destino, as expectativas de pelo menos um desses grupos de expectadores seria frontamente contrariada. Era inevitável.
iii) O motivo pelo qual os produtores optaram pela visão do "man of faith" foi exposto em inúmeros epidódios, mas eu gostaria de destacar a sequência de episódios-chave centrados na personagem Desmond Hume: "Flashes before Your Eyes" (S3E8), "The Constant" (S4E5) e "Happily Ever After" (S6E11), que construíram a ideia de que havia, sim, um destino, de que o que era capaz de manter a unidade de cada personagem ao longo do tempo era a presença de uma constante para cada um e de que essa constante era uma pessoa amada (O fato de que a constante do descobridor da ideia de constantes, Daniel, capaz de despertá-lo da ilusão da realidade paralela, fosse, ao contrário do que ele supunha, Charlotte, e não Desmond, como anotara em seu caderno, confirma isso). Tudo isso apontava que Lost era no fundo uma série sobre amor, coisa que se confirmou em The End, como depois vou defender. E o que tem isso a ver com o elemento religioso? Tem a ver, porque os produtores optaram pela via que lhes permitiria passar uma mensagem sobre o que é essencial na vida no fim das contas. Proteger a ilha é apenas uma forma de proteger as pessoas, e isso volta a se expressar na frase de Ben para Hurley para lhe dizer como defender a ilha: "I think you have to do what you do best: protect people". Vou desenvolver melhor essa ideia ao falar de The End.
iv) Penso que o viés religioso adotado pelo seriado a partir da quinta temporada também não pode ser acusado de desinteligente, clichê e singelo. E lembre-se que eu sou ateu e tive as mesmas expectativas que você no início de Lost. Primeiro, Jacob não era inteiramente bom, nem seu irmão era inteiramente mau. Ambos eram produtos opostos da educação de uma mãe problemática, que se tornou perturbada, manipuladora e assassina pelo peso do fardo de guardiã da ilha. A lição de Across the Sea não é de que o segredo da ilha é uma luz dourada no fundo de uma caverna misteriosa, e sim de que Jacob e seu irmão são, no fundo, apenas pessoas, momentos da história da ilha, uma história que nem começa nem termina com eles. Por que a mãe dos dois diz "Thank you" ao filho que a matou em Across the Sea? Pelo mesmo motivo por que Jacob não resiste ao ataque de Ben em The Incident: Ele queria se livrar do fardo de seu cargo. Por que a mãe sequestra os dois filhos da náufraga que ela depois mata? Pelo mesmo motivo por que Jacob visita e toca cada um dos futuros losties: Ele precisava de candidatos para substituí-lo, sem o que ele seguiria com seu fardo. Jacob também é manipulador, também é fraco e também é solitário e arrependido do que fez a seu irmão. Ele não é messiânico, mas apenas heroico na sua capacidade de autosacrifício como guardião da ilha, um cargo que ele procura honrar, embora se ressinta de não ter podido escolher, pois lhe foi imposto. Seu irmão não é mau. Ele é apenas um "men of science", que acredita na liberdade, que quer conhecer o que existe fora da ilha e que está disposto a tudo para livrar-se do triste destino que as escolhas de sua mãe acabaram por impor-lhe. Não há nada de satânico nele. Se há nele algo de intrinsecamente mau, é apenas sua inescrupolosidade diante de mentir, enganar, manipular, ameaçar, ferir e matar para atingir seus objetivos, algo que se viu, em maior ou menor medida, também em outras personagens, como Ben, Sawyer e Michael. Não há uma oposição "singela" entre bem e mal, e sim uma oposição complexa entre desejo de liberdade a quase qualquer preço e missão de proteção a quase qualquer preço.
Lost: encontrei o que eu buscava
Agora sobre o intrigante The End. Fixando em primeiro lugar que, a julgar pela conversa final entre Jack e Christian, a realidade na ilha era uma realidade em vida, mas a realidade paralela era uma realidade post mortem, disso algumas coisas precisam ser extraídas. A primeira é que, então, Lost não era um seriado sobre como as personagens entenderiam ou protegeriam o segredo da ilha, mas sim sobre como elas se conectariam umas com as outras de modo significativo, conexão essa que se revela, portanto, como o verdadeiro "segredo" da ilha. Isso porque, na realidade paralela, como disse Desmond, "Nothing of this matters": Não há mais ilha, homem de preto, avião, Dharma, os Outros, nem nada do tipo. Só o que há são as pessoas e as conexões essenciais que elas estabeleceram entre si. A segunda coisa é que não houve "happy endings" em Lost. O fato de que os casais ideais só se reencontram na realidade post mortem mostra que, em vida, nenhum deles pôde ter uma longa e duradoura convivência com seu parceiro, mas a curta convivência que tiveram na ilha bastou para marcar suas vidas e converter um na constante do outro, capaz de despertá-los todos de sua não lembrança. A cena final de Lost é trágica ao estilo grego: O heroi, deitado no solo da cena inicial do seriado, prestes a morrer em autosacrifício, sozinho a não ser pela tocante companhia do cachorro Vincent, contempla no avião que passa no céu o cumprimento de seu destino de salvar a ilha para assim salvar as pessoas, sem, no entanto, ser bem sucedido em salvar-se a si mesmo, a não ser no sentido simbólico de uma redenção martírica. A mensagem dos produtores: Em vida, se alguma felicidade há, ela está na ligação entre as pessoas, que geralmente é curta e precária, mas que tem chance de ser tão significativa a ponto de que, se algum destino houver para depois da morte, tenhamos razão para esperar que seja ao lado desses que conseguiram tocar nosso coração e dar sentido a nossa existência. E isso para mim foi puro Lost: No fim, os mistérios eram desimportantes, importantes eram as pessoas, suas vidas, suas experiências e seus encontros. E isso dá a Lost um desfecho e um sentido que são completamente diferentes daqueles que eu tinha esperado e que eu teria escolhido, mas que a tornam a maior série de TV de todos os tempos e merecedora eterna do respeito e da admiração de todos que gostem de um drama humano inspirador e bem construído. E, se a série teve que me frustrar para tornar-se eterna, considero a minha frustação apenas mais um dos sacrifícios necessários que a ilha demandou. É essa a minha opinião.
Adendo:
Na minha opinião, um dos motivos pelos quais o herói-mártir é Jack, e não Locke, é representar justamente a transição do "man of science" para o "man of faith", que aponta, por sua vez, para a esperada transição das expectativas e pontos de vista daqueles que estavam ao lado de Jack para se converterem, aos poucos, para o lado de Locke. A série convida o "man of science" que está assistindo a fazer a mesma mudança de horizontes do protagonista da história, pois importante não é apenas que existam aqueles que, como Locke, já naturalmente creem no que é essencial, mas sim também que aqueles que, como Jack, inicialmente não creem tenham a chance de perceber o que estão deixando de lado. A série foi se construindo de modo a levar gradativamente para o "Nothing of this matters" de Desmond. Tudo que no início chamava a atenção, despertava a curiosidade, inflamava o entusiasmo foi aos poucos se descolorindo para deixar, em primeiro plano, a verdade última: "Live together for you not to die for nothing and not to die alone".
No final das contas, isto deve provar que sou mesmo um homem de ciência: esperei tanto que o episódio final me fornecesse um motivo para continuar apaixonado pelo seriado, mas não encontrei esse motivo nele. Fui encontrá-lo aqui, nesta bela racionalização feita pelo André, em tudo superior a uns outros textos que li pela Internet e que nada tinham de profundo, muito menos de convincente.
Convencido, posso agora dizer que, como eu esperava, tenho motivos reais para fazer de Lost a minha série favorita. E considerando a legião de adversários que ela possui, digo mais: quem não viu, perdeu.
PS - Agradeço, ainda, a profunda generosidade do André, que poderia ter publicado este texto em seu blog e me mandar apenas o link, mas que ofereceu a sua obra a mim, reproduzindo-a em seu próprio blog. Um desprendimento notável, pelo que lhe rendo mais esta homenagem.
A educação liberta
Lei n. 12.245, de 24 de maio de 2010
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Art. 1º O art. 83 da Lei n. 7.210, de 11 de julho de 1984 – Lei de Execução Penal, passa a vigorar acrescido do seguinte § 4º:
“Art. 83. (...)
§ 4º Serão instaladas salas de aulas destinadas a cursos do ensino básico e profissionalizante.” (NR)
Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Um país se faz com...
Lei n. 12.244, de 24 de maio de 2010
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Art. 1º As instituições de ensino públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País contarão com bibliotecas, nos termos desta Lei.
Art. 2º Para os fins desta Lei, considera-se biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura.
Parágrafo único. Será obrigatório um acervo de livros na biblioteca de, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo ao respectivo sistema de ensino determinar a ampliação deste acervo conforme sua realidade, bem como divulgar orientações de guarda, preservação, organização e funcionamento das bibliotecas escolares.
Art. 3º Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos, respeitada a profissão de Bibliotecário, disciplinada pelas Leis nos 4.084, de 30 de junho de 1962, e 9.674, de 25 de junho de 1998.
Art. 4º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
O que aconteceu, aconteceu
Na semana passada, falei de minhas frustrações com o seriado e manifestei minha esperança de que, em seu finale, ele revelasse algo capaz de consolidar minha compreensão e meus sentimentos a respeito. Ontem, assisti ao episódio final. E, honestamente, não sei o que pensar. Ainda preciso de tempo para digerir o que vi. Por isso, não esperem nenhuma posição minha.

Por enquanto, posso dizer apenas que foi uma belíssima experiência. Embora eu não saiba ao certo a natureza dela.
Como era de se esperar, Lost acabou e continuamos perdidos. Decerto que essa era a intenção dos autores, desde o primeiro momento. E conseguiram, com muita elegância.
Leituras interessantes sobre o encerramento da série podem ser encontradas aqui:
— http://colunas.tv.globo.com/lostinlost/2010/05/25/the-end-nossa-grande-odisseia/#more-5093 (o deleite de um dos maiores admiradores do seriado)
— http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/05/g1-seleciona-os-15-misterios-de-lost-que-nao-foram-respondidos.html (com direito a um excelente infográfico sobre os mistérios não revelados da série)
— http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/lost-e-sem-querer-a-criacao-mais-genial-da-tv-20100525.html (um oportuno ensaio sobre porque o seriado, independentemente de seu conteúdo, mudou a forma como se vê televisão)
— http://diversao.terra.com.br/tv/noticias/0,,OI4447395-EI12993,00-Nao+se+desespere+entenda+o+final+de+Lost.html (uma razoável tentativa de explicar alguns mistérios da série)
Raciocínio lógico
— Aqui não tem barba.

— A barba do papai cresce até aí, minha filha — expliquei. — Mas eu raspo porque não sou lobisomem para ter pelo no meio da cara.
— O papai não é lobisomem... — Ela parecia digerir a informação nova. Nem sei se ela já escutara antes a palavra "lobisomem". Talvez sim, por causa das histórias da turma do Penadinho.
Continuamos a conversar. Júlia, tocando o próprio rosto, comentou que ela não tinha barba.
— Você sempre terá esse rostinho macio, filha — disse. — Porque você é menina e meninas não têm barba.
— É, menina não é lobisomem!
Notaram o raciocínio lógico? Se você já teve a oportunidade de assistir a uma aula de Filosofia, em algum momento de sua vida, é provável que o professor lhe tenha dito que todo homem é mortal; Cícero é homem; logo, Cícero é mortal. O bom e velho silogismo.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Funcionando contra a saidinha
Finalmente.
Malhação onírica
Tudo bem que a coisa não aconteceu espontaneamente: é resultado de hipnose. Mas se o método funciona, mesmo, os hipnotizadores estão prestes a ficar ricos. Até eu já penso em me candidatar.
PS - Sim, esta postagem é uma demonstração de que o dia, hoje, não está propício ao blog. Qualquer hora dessas, tento publicar algo útil.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Nada de sonho
Se uma certeza sempre nos foi dada pelos produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, foi a de que a tese de que Lost mostrou apenas um sonho, um delírio, ou que talvez os personagens houvessem morrido — a tese "Caverna do Dragão", que chegou a ser publicamente comentada pelo mestre do horror literário pop americano, Stephen King — não era verdadeira. Agora, entretanto, chega-se à conclusão de que King talvez estivesse correto. Pelo menos é uma das interpretações possíveis.

Por isso, apenas como brincadeira deve ser tomada a frase que Bart Simpson escreveu na lousa de sua sala de aula, no episódio de ontem do mais famoso seriado de animação de todos os tempos. "Foi tudo um sonho do cachorro."

Inclusive porque o labrador Vincent foi outro personagem a que Lost deu evidência para, depois, não o levar a lugar algum, exceto até o seu ressurgimento no episódio final, com direito à participação na comovente última cena.
O dia do touro

domingo, 23 de maio de 2010
Computação Amostra
O segundo projeto consiste em uma pequena conceituação de Realidade Aumentada (definida como a sobreposição de objetos virtuais sobre uma imagem real, normalmente em tempo real - imaginem a visão do Terminator) por um grupo de alunos que faz parte de um projeto maior do grupo de robótica computacional. Eles mostraram algumas novidades na área de RA e mostraram alguns modelos tridimensionais que fizeram durante seu aprendizado com o software em questão. A imagem abaixo é de uma das aunas, manipulando um marcador que se transforma na personagem Hermione da série Harry Potter (aliás, Harry e Hermione são os nomes dos dois robôs que temos no projeto).
Bem, esta postagem é para dizer que estou orgulhosa dos meus alunos, que se saíram muito bem e têm grandes idéias. Espero ainda ter muita história pra contar deles aqui, e do grupo de robótica computacional também.sexta-feira, 21 de maio de 2010
Que novidade...
Detalhe: esta notícia é oficial e se origina no próprio Ministério Público Federal no Pará.
Vou dizer mais uma vez: não foi falta de aviso...
Lost: o fim
Há alguns dias, li uma ótima resenha sobre o seriado Lost, que encontrará o seu destino, qualquer que ele seja, depois de amanhã — domingo, dia 23 — nos televisores dos Estados Unidos. A resenha falava sobre como os fãs da série se tornaram reféns dela, tornando-se-lhes impossível deixar de assistir, não importa o que aconteça. Ou seja, continuamos a assistir, mesmo eventualmente não gostando.
A sexta e última temporada foi frustrante para mim. Contudo, a esta altura, já não posso desistir do chamamento que a trama me faz. E faço isso na expectativa de que, ao menos no último capítulo, invada-me a sensação de graça, de glória, de que o provavelmente mais instigante (não escrevi "melhor"; escrevi "instigante", no sentido da capacidade de mexer com as emoções de fãs e adversários, além de provocar acalorados debates) seriado já produzido foi, de fato, tudo o que se esperava dele.
Definitivamente, o grande segredo de Lost não é o que eu esperava. Talvez essa fosse a maior aposta dos criadores da série. Com efeito, qualquer um poderia gostar ou não da verdade, quando ela surgisse. Pena para mim estar, neste momento, no grupo dos que desaprovaram.
Apaixonado por ciência e questões comportamentais, as duas primeiras temporadas do seriado me ofereceram muito para que eu me deixasse seduzir. Cheguei a acreditar em algumas das incontáveis especulações feitas à época.

Na teoria que me pareceu mais sedutora, os números malditos seriam elementos de uma "equação do fim do mundo", criada por um matemático que, com base nela, sopesando elementos como população e consumo dos recursos naturais, previra a data em que a humanidade entraria em colapso. Na tentativa de salvar a espécie humana, um megaprojeto científico, a Iniciativa Dharma, teria fincado bases na ilha para desenvolver uma série de linhas de pesquisa ligadas à sustentabilidade. Pesquisava-se, p. ex., a adaptação de espécies animais a habitats diferentes dos originais (lembra-se do urso polar morto por Sawyer? e dos tubarões com a logo da Dharma na pele?).
A ID seria, também, um esforço para se alcançar a autossuficiência na produção de alimentos. Por isso, absolutamente tudo que se consumia na ilha, inclusive cerveja, era produzido pela própria ID, exceto os chocolates Apollo.
E havia, também, os experimentos comportamentais, que eu acreditei serem pesquisas para adaptar os seres humanos às novas condições de vida no planeta. Por isso o botão que precisava ser apertado a cada 108 minutos, a existência de uma estação de onde se monitorava, por TV, o que acontecia nas demais estações, e as cartas que as cobaias escreviam para suas famílias, mas que nunca eram enviadas para lugar algum.

A luta para salvar a humanidade da destruição! Isso seria lindo. Mas, no final, Lost não era nada disso. "Os outros", que tanto medo causaram nas duas primeiras temporadas, revelaram-se como personagens de somenos importância. Aliás, a Iniciativa Dharma também não tinha importância. Tudo aquilo aconteceu não se sabe por quê. Talvez tenha sido apenas um inocente compartilhamento de espaço físico. Porque no final das contas os protagonistas, as vítimas do voo Oceanic 815, não foram atraídas para a ilha para tomar parte, voluntariamente ou não, dessas misteriosas experiências, à semelhança do que aconteceu com a adorável Juliet, médica especializada em fertilidade humana, recrutada por Richard Alpert e que acabou à mercê de Benjamin Linus, que supúnhamos um poderoso vilão, mas que acabou como um homem desesperado, cheio de culpa, joguete nas mãos de todo mundo e com a cara mais socada do que os personagens de filmecos de porrada.
E mesmo o tema das viagens no tempo, que dominou a quinta temporada e que prometia tanto, simplesmente não disse a que veio. Nem dirá, pelo visto.
E por que o voo Oceanic 815 caiu na ilha, então?
No final das contas, abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás, porque sua saída da ilha implicaria no fim do mundo (pelo menos o fim do mundo voltou) e porque, em sua luta por ir embora, submete diversas pessoas a tentações, prometendo inclusive a ressurreição dos mortos (como prometeu a Sayid Jarrah).
Nesta temporada final, as respostas pelas quais tanto ansiávamos, foram sendo soltas a contagotas. Algumas já haviam sido dadas no ano passado, mas tudo muito secundário.
Soubemos que os números malditos, no fundo, não significavam nada. Eram apenas os números a que estavam associados os nomes dos candidatos a substitutos de Jacob. Que coisa mais besta...
Soubemos quem era Jacob, sua função na ilha e o que ele está protegendo: uma caverna cheia de luz — uma luz que todo ser humano carregaria consigo e que, por cobiça, sempre quer mais. Por isso, somente os protetores conseguem enxergar a tal caverna. Por isso ela precisa ser defendida, a todo custo, do inimigo. Um inimigo que já esteve dentro dela e, por esse motivo, foi condenado a uma espécie de danação eterna, transformando-se no monstro de fumaça.
E é isso. Jacob atraiu um monte de gente para a ilha, provocando a morte de quase todos, direta ou indiretamente, para no final das contas testar uma meia dúzia de "candidatos" e oferecer-lhes uma escolha. A opção que ele mesmo não teve, de se tornar o guardião. Agora ele pode sumir de vez, porque morto já está, enquanto seu substituto tenta achar um meio de matar o inimigo, para acabar de vez com o perigo.
Lost é isso. Decepcionante.
Abaixo, algumas imagens dos episódios 15 e 16 da sexta temporada, onde alguns mistérios foram revelados:
O misterioso Richard Alpert, que foi humanizado neste fase final e se tornou um dos personagens mais bonitos da trama, é atacado (ele era imortal, mas talvez isso significasse não morrer naturalmente nem poder matar a si mesmo) pelo monstro de fumaça. Se morresse, esse homicídio nos levaria para onde?

Um catatônico Benjamin Linus mata o seu arquirrival, Charles Widmore. Não havia entre eles uma ordem de não agressão, à semelhança da que havia entre Jacob e seu irmão sem nome?

Tratado como o protagonista desde o primeiro momento, no final os roteiristas optaram pelo previsível e fizeram Jack aceitar a missão de substituir Jacob. O "pastor", que passou de homem de ciência para homem de fé, aceita o que ele mesmo acha ser seu destino.

A iniciação mística é acompanhada a certa distância pelo três últimos remanescentes vivos da queda do voo Oceanic 815: Sawyer, Kate e Hurley.

O suposto representante do Bem, Jacob, ataca o suposto representante do Mal, seu irmão de nome ignorado, em vingança ao assassinato da mãe adotiva, em frente à caverna de luz, coração da ilha, a razão de ser de tudo.

Sinceramente, não sei mais o que esperar. Sobre a trama, nada mais espero. Tenho apenas um sentimento, o de esperança de que, no capítulo final, duplo, os roteiristas tirem da manga aquela surpresa que me deixará sem fôlego e profundamente grato pela experiência que me proporcionaram.
Independentemente do que acontecer, valeu a pena. Lost, sem dúvida, não é entretenimento para todos.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Intromissão perigosa e indevida sobre a privacidade
A iniciativa representa perigosa intromissão do poder público numa relação de privacidade, que é a delicada relação médico-paciente. Ademais a filmagem por si só é inóqua quanto a evitar erro médico. Por outro lado, no que tange, a constituir prova seria outro problema. Em nada acresceria aos métodos consagrados e obrigatórios de auditagem do ato médico, quando questionado quanto a imperícia.
Se a Câmara ou a Assembléia Legislativa pretendem laborar com mérito sobre o assunto, há outros caminhos que trarão maior segurança para médicos e pacientes, como por exemplo jornadas extenuantes de trabalho, baixos salários, má formação e a organização do sistema de saúde. Mas, por favor, se decidirem fazê-lo evitem a tentação de querer tirar o coelho da cartola, rebaixando a complexidade do problema; chamem quem entende do assunto para ajudar na elaboração da lei.
E bem a propósito: a filmagem do ato médico é objeto de parecer (1999) do Conselho Federal de Medicina, que faculta a (o) paciente solicitá-la em comum acordo com a equipe cirúrgica.
"Medida agressiva aos pacientes"
A instalação de câmeras, além de invadir a privacidade dos pacientes, em nada irá contribuir para reduzir a incidência de erro médico. E como médico, devo dizer que ao menos sob um ponto de vista, nada tenho como profissional, contra a instalação de câmeras. Muito ao contrário, seria mesmo muito interessante tê-las por lá para mostrar o comportamento de todos. Médicos, pacientes e familiares. Mostrar também, muitos momentos onde a acusação de "erro médico" é fácil, vingativa, improcedente, e compreensivamente emotiva.
Mostrar inclusive, o mal comportamento e atitude arrogante de muitos, nas portas de hospitais e UTIs, onde a culpa pelo abandono de muitos a seus entes queridos, é vomitada por alguns imbecis de carteirinha, em cima dos médicos.
Sob este único aspecto, gostaria de ter as câmeras sim. Mas como meu zelo profissional pelo paciente é definido no CEM*, e motivo mais nobre de minha profissão, acho a medida agressiva aos pacientes (travestida do sofisma que reduziria erros médicos), e inócua.
Ou seja, vamos avançar na privacidade dos doentes, sem garantir-lhes nada em troca. Nada.
Finalizando, um erro médico não é erro médico, só porque fulano ou sicrano acham que é erro médico.
Um furto, não é furto só porque beltrano acha houve um furto. Enfim, estamos no estado democrático de direito. E quem quiser "achar" alguma coisa, até poderá fazê-lo. Mas para afirmar com todas as letras, terá que provar nos tribunais. Ou arcar com a responsabilidade da injúria e difamação, além da dor da perda irreparável que porventura tenha sofrido.
Algo a ser pensado com muita cautela, antes de partir para atos irresponsáveis.
* Código de Ética Médica, recentemente reformulado.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Um detalhe no campo cirúrgico
Concordo que, devido à histeria punitiva contra os médicos dos últimos anos, seja compreensível a preocupação em evitar campanhas de execração pública. Mas enquanto médicos e políticos resolvem, em seus gabinetes refrigerados, como proteger seus interesses, lembro que no meio disso tudo há um detalhe, quase insignificante, que eles esqueceram e que se chama o paciente. Gostaria que a ilustre vereadora fosse a público dizer, aos seus representados, se ela gostaria de ser vista em condições adversas — doente, ferida, sangrando, sofrendo, sentindo dor, etc. — e, ainda por cima, com tudo sendo registrado.
Imagine-se dando entrada numa emergência após um acidente, p. ex., tendo os médicos a necessidade de rasgar suas roupas para ter acesso ao local da intervenção. Imagine as suas feridas expostas. Ou talvez seus genitais. Imagine o close na sua mulher parindo. Imagine-se peladão, numa UTI, sendo asseado, com as partes todas de fora. E imagine o melhor dos mundos: as imagens gravadas sendo guardadas com zelo e respeito. Ainda assim, algum técnico pode assistir ao que lhe pareceu interessante. Que pode ter sido a sua filha adolescente...
Meu amigo, vou dizer com toda a aspereza possível: no dia que eu entrar num hospital, seja lá para o que for, não quero ser filmado porra nenhuma!
Será que ninguém se lembra do princípio da dignidade humana, da intimidade, da privacidade, direitos fundamentais do indivíduo, segundo aquela tal de Constituição? Será que ninguém pensa que o mal estar do paciente em se saber filmado pode prejudicar o atendimento?
Alguém mais acha que esse projeto de lei é uma imbecilidade ou eu sou o único?
terça-feira, 18 de maio de 2010
Se foi milagre, não sei

Queria que fosse tão simples...
Houve pessoas que, seja por raiva, seja por um desejo sincero de me fazer evoluir, tentaram porque tentaram me mostrar que eu estava errado. Que astrologia e afins são sérias, têm bases científicas e, enfim, funcionam mesmo. Mas quando me dou ao trabalho (e que trabalho!) de ler uma pérola como esta aqui, mal me resta o que dizer. O sujeito acaba consigo mesmo.
Fiz minhas contas e observei o seguinte:
a) A placa do meu primeiro carro não possuía nenhum dos números malditos, o que não me livrou de, parado num sinal fechado, ser atingido por uma pilantra embriagada, que destruiu a traseira do sedã. Ele precisou ser serrado e ganhou uma traseira nova.
b) A placa do segundo igualmente estava livre de más vibrações, mas mesmo assim o veículo tinha um chama para motocicletas e bicicletas, que insistiam em lhe amassar a lataria, sem falar em outras pequenas avarias.
Quiseram os astros que os números da placa do meu terceiro carro somem 16, um dos que atraem energias do mal. Até o presente momento, ele está íntegro. Mas deve ser por causa desse 16 que a sujeira insiste em grudar no esmalte verde do pobre...
"Tendência a acidentes graves". Que medo...
PS - Quer dizer que se eu rabiscar uma letrinha quase ilegível na placa todos os meus problemas se resolvem? Fantástico! Não sei como ainda existem guerras no mundo...
Contos de fadas




Uma palavra final sobre o tema
Gostaria de registrar dois aspectos sobre o dia de ontem. O primeiro é positivo: minha mãe foi toda elogios para os médicos que a atenderam, assim como para as funcionárias da clínica. Considerou todos gentis e bastante atenciosos. O segundo, infelizmente, é uma crítica, que eu espero seja tomada como construtiva, porque de fato esta é a minha intenção.
A clínica onde foi realizado o cateterismo (não me interessa declinar nomes) é muito pequena e isso traz uma série de inconvenientes. Para começar, há apenas seis cadeiras na sala de espera, de modo que a atendente faz uma triagem já na porta. Fiquei com a impressão de que eles atendem seis pacientes por turno (ou, por coincidência, havia apenas seis nomes na agenda da manhã).Quaisquer outras pessoas, inclusive acompanhantes, ficam do lado de fora, onde não há senão o chão para você se sentar.
A clínica pede que o paciente leve um acompanhante, cujo nome por sinal é registrado na chegada. Entretanto, pela falta de espaço físico, o acompanhante não pode ficar! Ou seja, é um acompanhante que não acompanha! Terminado o procedimento, o paciente passa as horas de repouso sozinho, o que não é nada agradável para nós, familiares.
Mais grave: a clínica se comprometeu a fornecer um lanche. Só que este lanche foi um copinho plástico, daqueles de cafezinho, com suco de laranja e três bolachas cream cracker. Como não recebemos instruções, não tínhamos providenciado nada. Saímos na hora para comprar umas frutas, iogurte, coisas simples, porque era proibido entrar no recinto com refeições. O resultado dessa situação foi que, à tarde, minha mãe passou muito mal. Hipoglicemia. Afinal, pacientes de cateterismo ficam sem se alimentar desde a véspera. Detalhe: minha mãe é diabética.
Sozinha, fraca e com a vista turva, minha mãe pediu ajuda. Foi prontamente atendida, inclusive por sua cardiologista, mas não era preciso chegar a esse ponto, certo? Essa parte me irritou bastante, quando soube. A hipoglicemia aumentou o tempo de observação e minha mãe foi liberada mais de uma hora depois de previsto. Relatou que um senhor brigara com as atendentes, pois queria sopa. Tinha vindo do interior, pelo SUS, e estava com fome. Não tinha como se virar sozinho.
Ontem foi um dia complicado na clínica. Um homem infartou na sala de espera e saiu de lá para a UTI. Uma mulher, que ficou perto de minha mãe, sentia muitas dores. Precisava de uma angioplastia, que o plano de saúde — anote aí: Bradesco Saúde — não queria liberar. O médico disse que precisou pegar ele mesmo o telefone e "desarrumar" com o plano. Finalmente conseguiu a autorização, mas até as 17 horas a paciente continuava sofrendo.
Com um cenário desses, não é à toa que o sujeito dá graças a Deus quando recebe alta... Se é para ficar desconfortável, que pelo menos seja em casa.
Em suma, ainda precisamos avançar muito em humanização do atendimento. A velha tecla, que nunca se resolve. Neste caso, pelo menos, os responsáveis pela clínica não pareciam por seus interesses econômicos acima da segurança dos pacientes, como já vi pessoalmente em vários lugares. Mas precisam repensar rotinas, comunicação com o público e a própria infraestrutura. Felizmente, ganharam boas notas no quesito mais importante.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Por cima do Berg

Tudo bem
Mas o importante é que nosso maior anseio foi consumado. Neste momento, minha mãe está em repouso, porque o cateter foi introduzido pela artéria femural, de modo que ela precisa ficar com a perna em repouso por seis horas. Depois disso, uma semana de repouso em casa. Essa será a parte mais difícil. Não sei se será preciso amarrá-la à cama, acorrentá-la ou dar com a "Lei Maria da Penha" nela. Se vocês a conhecessem, saberiam o motivo...
Graças a Deus, tudo em paz.
Nós
Eu escuto um monte de tipos de música. Ela quase não se interessa, mesmo vindo de uma família de músicos.
Ela é alucinada por sushi. Eu penso que peixe bom é assado, cozido ou frito; jamais cru.
Eu adoro dirigir. Ela não quer aprender.
Ela toma banho quente. Eu acho inadmissível banho quente no calor de Belém.
Eu tenho aversão absoluta a comédias americanas. Ela assiste.
Ela fala enquanto dorme. Eu acordo por causa disso.
Eu acredito na palmadinha evangélica. Ela considera um escândalo.
Ela toma sorvete de chocolate. Eu só aceito de frutas e, no máximo, um romeu e julieta.
Eu gosto de bolonhesa. Ela, de molho branco.
Ela lê os manuais. Eu peço para ela fazer os eletrônicos funcionarem.
Eu quero ver o mar, as montanhas, a imensidão. Ela aceita passar o dia na frente da TV a cabo.
Ela tende a ser impulsiva. Eu, hesitante demais.
Eu sou professor. Ela também.
Ela cata os camarões e me dá. Eu deixo de descansar para levá-la ao trabalho.
Eu me aborreço quando ela não presta atenção. Ela se aborrece quando mudo repentinamente de assunto.
Ela adora o Harry Potter. Eu me irrito com esse cara.
Eu tenho acessos de raiva. Ela me apazigua.
Ela quer que eu fale menos palavrão. Eu acho que lhe faria bem mandar certas pessoas à merda, de vez em quando.
E com todas essas diferenças, além das tantas outras de que não me recordei neste momento, dividimos a mesma cama há mais de cinco anos, dividimos vários gostos e, há quase dois anos, a mesma filha. Vamos levando cada dia, um por vez. E, a partir de agora, dividimos também um blog.
Como diria o Lulu Santos, a gente vive junto e a gente se dá bem; não desejamos mal a quase ninguém.
Não sei se ela deseja o mal de alguém. Mas eu desejo o suficiente por nós dois. Sinceramente, não sei como ela me aguenta. Mas se soubesse, talvez não tivesse a mesma graça.
Bem vinda, Polyana.

domingo, 16 de maio de 2010
Ser mãe
Quem é mãe pode estar em qualquer lugar, mas começa no mesmo lugar: naquele em que você ouve seu filho a primeira vez. Fisicamente, este é o lugar da sala de parto, ou da creche da adoção, ou qualquer outro onde uma mãe encontre o seu filho pela primeira vez. Mas o lugar em que a mãe está não é mais aquele. É o lugar em que a mãe aprende a ver com naturalidade seu coração fora de si. É aquela sensação inexplicável de que algo muito maior está acontecendo, que um presente e uma responsabilidade imensa estão sendo colocados no colo que será o lugar preferido daquele bebê. Este lugar é denso, às vezes sufoca e não dá pra respirar, mas só porque quase não sobra pra mãe de tudo o que ela quer dar ao filho.
Há dois anos estou nesse lugar. Há dois anos o centro da minha vida não sou mais eu. Há dois anos a minha vida se dividiu em antes e depois de ser mãe. E o lugar onde estou agora já é muito maior do que aquele em que eu passei o resto da minha vida antes de ser mãe. Se você não tem filhos, acredite no clichê: você não sabe até viver. Se você tem filhos, aceite estas minhas emocionadas palavras como uma homenagem à toda a fantástica experiência que temos vivido desde que nossos filhos nasceram.
Há dois anos estou neste lugar. Mas eu esperava por ele há muito mais que isso. E é um lugar lindo. Um lugar chamado Júlia.
Vida de pós-cinéfila
Tive um blog há muito tempo atrás, quando era estudante. Chamava-se Vida de Cinéfila, e eu assinava pelo meu codinome, Cher (sim, por causa da atriz e cantora). Enquanto escrevia este post de apresentação, fiquei curiosa para ver se ainda havia algum resquício dessa experiência na internet. Fiz a busca e encontrei isto: "Você gosta de cinema? É cinéfilo? Conheça os relatos da minha Vida de Cinéfila, minhas experiências com a sétima arte. Filmes, criticas, astros, livros, poesia, música..." e um link para cher.weblogger.com.br que não funciona mais. Como é fácil perceber, escrevia sobre cinema, fazia minhas críticas dos filmes que via e dos assuntos afins, numa época em que cinema era minha principal diversão, em que podia ir ao cinema três ou quatro dias por semana.
Não sei se sou cinéfila ainda, embora goste muito da sétima arte. Por causa dos compromisssos da vida de adulta eu agora passo semanas, às vezes meses sem ir ao cinema. Mas este será um tema de meus posts, com certeza.
Além de admiradora do cinema, também sou mãe da Júlia e dos meus alunos. Sou apaixonada pelo meu marido e pelo que ele representa na minha vida. Não sei usar tão bem as palavras quanto ele, mas prometo fazer meu melhor que meu cérebro de ciências exatas permitir.
Acho fantástico o número de pessoas que o Yúdice cativou com suas palavras (eu, claro, sempre fui atraída por elas) e não tenho a pretensão de conseguir o mesmo. Só espero me divertir escrevendo aqui e diverti-los enquanto me lêem.
De quantas pessoas você poderia dizer o mesmo?
m relativo sucesso.Na época em que foi exibido por estas bandas, pôs-me num conflito: deveria eu assistir? Pelo fato de adorar cachorros, fiquei tentado. Mas sempre fui do tipo que defendeu a pena de morte para todos os responsáveis por esses filmes de bichinho deprimentes, que jamais deveriam ter sido feitos, mas que foram e pululam nas sessões da tarde da vida. Eu sabia que a perspectiva era um pouco mais séria, porém entrou em cena um outro fator aversivo: os protagonistas, dois atores — Owen Wilson e Jennifer Aniston — que me despertam enorme antipatia e desconfiança, considerando a filmografia de ambos, que vale por uma verdadeira folha de antecedentes criminais.
Como me recuso a desligar o cérebro para ir ao cinema, a aversão aos dois prevaleceu e não fui ao cinema. Mas o tempo passou e o filme acabou gravado aqui em casa, à minha disposição. E ontem paramos, eu e Polyana, para ver. Devido a um pequeno contratempo no sono da Júlia, só terminamos esta manhã.
Enfim, admito que o filme é adorável. Mas veja bem: somente para quem ama cães. Não necessariamente para quem gosta deles, mas para quem ama e realmente se importa com esses animais.
A história é extremamente singela e mostra apenas a vida de um casal, o seu cotidiano, o crescimento no emprego, a mudança de casa, o nascimento dos filhos, as dificuldades conjugais, as pequenas alegrias. Nada que rendesse um filme, se não fosse a presença do pior cachorro do mundo, um labrador incontrolável batizado em homenagem a Bob Marley. Mas, como sempre, cachorro incontrolável significa dono sem juízo. E os protagonistas sempre deixaram o cachorro fazer tudo o que ele queria. O resultado só podia ser desastroso. Ainda mais em se tratando de um animal de 45 quilos, destruidor, mastigador e com pavor de tro
vões.Imagino, porém, que Frankel — mais conhecido por seus trabalhos para a TV, mas que dirigiu outro filminho popularesco, O Diabo veste Prada (2006) — parece ter captado a profissão de fé do autor do livro e produziu uma história de amor muito doce de se assistir. Piegas, sim. Principalmente a etapa final. Mas as histórias de amor intrafamiliares são basicamente isso: acontecimentos comuns, em vez de tramas rocambolescas das novelas globais; emoções à flor da pele, independentemente das censuras dos críticos de cinema ou de ocasião.
Por isso, Marley e eu é um filme dramaticamente simples e que só toca o sentimento daqueles que se sintam capazes de interagir com um animal do jeito que os personagens fazem. Nesse sentido, destaco a abertura do filme, falando sobre a emoção da criança de começar a conviver com o primeiro cachorro. E, nos minutos finais, os discursos dos três filhos do casal e a última cena, com a reflexão do protagonista.
Caímos, aqui, no velho clichê de que cachorros são muito melhores do que muita gente. Eles não se importam com casas grandes ou carrões. Basta-lhes um graveto. Não se importam se você é rico ou pobre, inteligente ou burro. Se você lhes der o seu coração, eles farão o mesmo. De quantas pessoas você poderia dizer o mesmo?
Proteste o quanto quiser, mas me diga, de coração: acaso não é verdade?
Segunda-feira diferente
O procedimento em questão é considerado simples e será realizado em local devidamente preparado, por profissionais respeitáveis. Além disso, d. Jacimar está em boas condições de saúde. Mas para nós, que somos leigos e família, como é óbvio, sempre fica toda uma gama de preocupações. Por isso, na tarde de hoje incomodei o querido amigo Carlos Barretto, que me tranquilizou, ao mesmo tempo que respondeu como honestidade à pergunta que lhe fiz: o que devemos temer?
A resposta: O diagnóstico.
Explico: a lesão pode ser pequena o suficiente para ser completamente resolvida com o cateterismo. Ou pode ser do tipo que exigirá uma angioplastia. Neste caso, o procedimento cresce e será preciso instalar o famoso stent. Surge, daí, um novo questionamento, que neste instante não estou apto a responder: terá o plano de saúde autorizado o procedimento na íntegra, inclusive eventual angioplastia, ou serão os médicos obrigados a encerrar a intervenção sem resolver nada, colocando nossa mãe nas mãos dos burocratas para, posteriormente, começar tudo de novo?
Esta segunda hipótese, capitalista e desumana (aliás, os dois termos não são sinônimos?), implica em submeter o paciente a um procedimento médico invasivo (ainda que leve) inútil, para depois permitir-lhe o idôneo. Nesse meio tempo, ele que lide com todas as implicações, inclusive com seus medos pessoais. E medo é algo que minha mãe sente em excesso, de tudo.
Ao raiar desta segunda-feira, estarei de terno, gravata e conhecimentos jurídicos em frente à equipe, pedindo esclarecimentos. Até porque minha mãe sofre de insuficiência renal e não pode usar contraste comum, o que me obriga a me certificar de que eles usarão o produto adequado, que é mais caro. Sempre as restrições impostas pelos planos de saúde...
Sabendo a mãe que tenho, agradeço por todas as boas vibrações que os amigos puderem nos enviar nesta segunda-feira.
Uma boa semana para todos.

