quarta-feira, 30 de junho de 2010

Fada do pipo (1ª parte)

Crianças são indivíduos de hábitos. Dê a eles uma rotina previsível e segura e eles ficarão bem. A Juju tem uma rotina estável e por isso é uma criança boazinha. Obviamente que sua personalidade influencia bastante.
A história da fada do pipo começa há cerca de duas semanas, quando a Júlia caiu no chão de boca e machucou feio o dente. Nada quebrado, mas tinha muito sangue e ficaram cortes nos lábios. Eu não estava em casa, mas estes foram os relatos do papai e da tia Jose. No dia seguinte eu percebi que ela não conseguia morder o pão. Mas passaram mais dois dias e ela voltou a se comportar normalmente em relação às comidas e nós esquecemos.
Na quinta passada percebemos que o dente (incisivo central, que azar) estava ficando escuro. Aí bateu o desespero, pensei em um monte de coisas, na autoestima dela, numa possível cirurgia para corrigir, na anestesia, no choque anafilático (o Yúdice pensou logo que o dente pudesse cair, mas confesso que quando ele me disse fiquei chocada, porque nem tinha passado pela minha cabeça essa possibilidade, vai saber como funciona cabeça de mãe, o choque anafilático é bem pior, mas minha filha sem dente nem faz parte do meu mundo).
Depois de uma consulta à odontopediatra (cujos detalhes não vou comentar, porque não é o foco deste post), descobrimos que o dente estava ficando mole e, para não piorar a lesão ela teria que largar o pipo. Naquela noite.
Sabem, eu sou uma pessoa perfeccionista. Fico tempos imaginando como fazer determinadas coisas, como proceder em momentos cruciais da vida da Júlia, e é claro que já tinha pensado em como faríamos a retirada do pipo. Mas ainda assim a notícia me pegou desprevenida, e me deixou muito angustiada. Faltavam somente algumas horas para a hora de dormir (que é a única hora do dia que a Juju chupava pipo), e o que eu faria? Como conversaria com ela? Que artifícios usaria?

Momento cultural: de todos os objetos de sucção que a criança pode usar, entre mamadeira, pipo, dedo, pano, o menos danoso à formação dos dentes e estabelecimento da oclusão correta é o pipo. Isso, claro, se for um pipo ortodôntico (minha preferência é a marca NUK), que é arredondado em cima e achatado embaixo, para imitar o formato que o seio da mãe toma dentro da boca da criança. Sugar realmente faz parte da vida do bebê nos primeiros anos (fase oral) e, se houver necessidade, é melhor usar o pipo para que ele se acalme do que acostumá-lo a fazer isso no seio da mãe, o que pode causar distúrbios alimentares futuros, pela associação de comida com conforto. O melhor momento de descontinuar o uso do pipo é por volta dos dois anos, quando a criança já consegue construir para si outras maneiras de se acalmar e quando qualquer má colocação dos dentes ainda pode voltar sozinha para o lugar. Depois disso, uma vez dentuça, a criança ficará dentuça.
Bem, a Juju já está com 1 ano e 11 meses, e pensamos em tirar o pipo na volta da viagem a Floripa, ou seja, em agosto. Mas houve esta mudança de planos e precisávamos lidar com ela.
Sorte a nossa termos visto, alguns dias antes da visita à odontopediatra, um episódio do seriado Supernanny (o original britânico) em que ela mostrava a dinâmica da fada do pipo. A idéia é fazer com que a própria criança dê seu pipo à fada, que o levará para nenéns pequenos que ainda precisam de pipo. No dia seguinte, semelhantemente à técnica da fada do dente, a fada do pipo deixa um brinde para a criança que conseguir dormir a noite toda sem pipo.
Então fomos ao shopping e compramos uma boneca que parecesse uma fada, e alguns bonequinhos do Toy Story. Pedimos à tia Tércia que costurasse um saquinho que serviria para guardar os pipos e posteriormente os prêmios. E começou o diálogo, mais ou menos assim:
Filha, hoje recebemos uma visita especial! A fada do pipoooo!
Fada do pipo? (pergunta ela com uma carinha de desconfiança)
É, ela veio pedir seus pipos para levar para os nenéns pequeninos, que ainda precisam de pipo. Você não precisa mais, porque já é mocinha, né? Olha, lá vem ela (e mostramos a fada, segurando o saquinho)
(ela pensa um pouco) ... ééé....
Então você dá todos os seus pipos para a fada, tá bom? (e, com voz da fada:) Vou levar os pipinhos para um neném bem pequeno! Você me ajuda?
No momento que a Juju coloca o primeiro pipo na sacola, sacudo a fada e digo: êêêêê!!!!! E a cada pipo eu repito a sacudida e a comemoração. Ao final, eu digo com voz de fada:
Tenho vários pipos para levar, eu estou muito feliz!
E qual não foi a minha surpresa quando a Júlia começa a pular na cama:
Eu também!!!
Colocamos então a fada na estante e fomos para o quarto dela dormir. Devo dizer que ficamos muito satisfeitos com o resultado da primeira noite. A Júlia demorou mais para dormir, perguntou algumas vezes do pipo (e toda vez eu explicava o que ela tinha acabado de fazer), mas não chorou. E, depois que dormiu, dormiu a noite toda.
Fomos dormir pensando: bendita hora que decidimos parar pra ver aquele episódio. Mas a aventura estava só começando...

Dominus litis

O advogado criminal fica extremamente aliviado quando, após a instrução processual, o Ministério Público conclui pela inocência do réu ou, ao menos, pela insuficiência de provas de sua culpabilidade, terminando por pedir a absolvição do mesmo. A consequência esperada dessa atitude deveria ser a efetiva absolvição do réu, mas nem sempre é assim. Às vezes, mesmo quando o dominus litis abdica da punição, o juiz condena, em um veredito bastante controverso.
Advogados, obviamente, sustentam que a manifestação ministerial deveria vincular o Judiciário. Os juízes, por sua vez, aferrados ao seu poder decisório e a sua condição de última palavra sobre tudo, provavelmente pensam que adotar essa tese lhes seria um amesquinhamento.
Pessoalmente, sempre concordei com a primeira posição. Posicionamento que foi acolhido pela 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em julgamento realizado em 13.10.2009 que ensejou um acórdão lapidar (veja o link ao final da matéria):

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - PRONÚNCIA - ABSOLVIÇÃO DOS REUS DECRETADA - PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO APRESENTADO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO EM ALEGAÇÕES FINAIS - VINCULAÇÃO DO JULGADOR - SISTEMA ACUSATÓRIO.
I - Deve ser decretada a absolvição quando, em alegações finais do Ministério Público, houver pedido nesse sentido, pois, neste caso, haveria ausência de pretensão acusatória a ser eventualmente acolhida pelo julgador.
II - O sistema acusatório sustenta-se no princípio dialético que rege um processo de sujeitos cujas funções são absolutamente distintas, a de julgamento, de acusação e a de defesa. O juiz, terceiro imparcial, é inerte diante da atuação acusatória, bem como se afasta da gestão das provas, que está cargo das partes. O desenvolvimento da jurisdição depende da atuação do acusador, que a invoca, e só se realiza validade diante da atuação do defensor.
III - Afirma-se que, se o juiz condena mesmo diante do pedido de absolvição elaborado pelo Ministério Público em alegações finais está, seguramente, atuando sem necessária provocação, portanto, confundindo-se com a figura do acusador, e ainda, decidindo sem o cumprimento do contraditório.
IV - A vinculação do julgador ao pedido de absolvição feito em alegações finais pelo Ministério Público é decorrência do sistema acusatório, preservando a separação entre as funções, enquanto que a possibilidade de condenação mesmo diante do espaço vazio deixado pelo acusador, caracteriza o julgador inquisidor, cujo convencimento não está limitado pelo contraditório, ao contrário, é decididamente parcial ao ponto de substituir o órgão acusador, fazendo subsistir uma pretensão abandonada pelo Ministério Público."


Merece elogios a decisão mineira, cujos precisos fundamentos dão pouco espaço a comentários meus. Mas é certo que sedimentar essa tese ainda demandará tempo e uma necessária e salutar mudança de concepção sobre o papel do Judiciário, tanto como aplicador do Direito quanto, principalmente, como poderoso instrumento de intervenção social.

Até para isso


Como se não bastasse todo o resto, cães podem ser treinados para perceber a mudança do cheiro do corpo de diabéticos, avisando-os através de latidos que o nível de açúcar no sangue caiu ou subiu a níveis perigosos. É o que faz Shirley, a cadela da raça labrador que aparece na imagem ao lado de Rebecca, a quem protege.
Cães são mesmo maravilhosos. Vá pedir algo assim para um gato...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Não comi; apenas dei para o cachorro


Sem o fascínio aterrorizante de um Hannibal Lecter, célebre personagem do escritor Thomas Harris, imortalizado nas telas por Anthony Hopkins, os casos de crimes envolvendo canibalismo costumam despertar particular repugnância na sociedade.
Clicando no link, você pode encontrar uma lista com 10 casos altamente escabrosos de canibais, todos oriundos da mais pura realidade. Um breve destaque para o cozinheiro britânico que cozinhou a carne de seu amante com ervas e azeite de oliva, mas jogou fora porque o paladar não lhe agradou. Pelo visto, era um gourmet até nessas horas.
Sem trocadilhos, os casos são de embrulhar o estômago.

Ministro Vinícius

Lula sanciona lei que promove Vinicius de Moraes
Por Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy
O presidente Lula sancionou a Lei 12.265, de 16 de junho de 2010, que promoveu post mortem o diplomata Vinicius de Moraes a Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Assegura-se aos atuais dependentes de Vinicius os benefícios de pensão correspondentes ao cargo para o qual se fez a promoção.
Vinicius entrou para a carreira diplomática após disputadíssimo concurso, em 1943. Em 1946, serviu em Los Angeles, seu primeiro posto. Vinicius foi exonerado do Itamaraty em 1969. Atingido pelo Ato Institucional 5, conta-se que, no dia da notícia — Vinicius estava em Portugal —, salazaristas portugueses tentaram atingi-lo com bravatas. Vinicius enfrentou os agitadores. O confronto lhe rendeu aclamações de jovens liberais e de sensíveis e apaixonados estudantes, que ofereceram as becas para que o poeta sobre elas caminhasse. Passaram-se quatro décadas para que se fizesse a necessária correção histórica.
Há notícias de que, em 1979, o presidente Lula teria convidado Vinicius para a leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Fato ou versão, não importa, 40 anos depois, anfitrião e convidado se reencontram de modo inesperado.
O convidado que leu os poemas no sindicato já não mais está entre nós. Morreu em 9 de julho de 1980, de edema pulmonar, no Rio de Janeiro. Legou-nos uma obra poética inigualável. É o poeta da paixão. Cantou os perigos desta vida, para quem tem paixão principalmente. O anfitrião do episódio do sindicato venceu preconceitos, afirmou-se, elegeu-se presidente da República, é celebridade internacional. Aquiesceu com a justa homenagem e com a necessária reparação, comprovando que humanismo e altivez de espírito não são adereços que adornam apenas diplomados e formalmente letrados.
Vinicius de Moraes substancializou a carreira diplomática naquilo que a nobre atividade tem de mais marcante: a sensibilidade. A dissociação entre diplomata e poeta é mero acidente de interpretação, típico de quem apenas encontra na burocracia a disposição para a afeição ao carimbo, à forma, à mesmice. Não que a inusitada aproximação entre ofício e arte transforme o homenageado no campeão das causas diplomáticas. Menos. É que o entorno burocrático também acena com enigmas da existência, que também compõem um conjunto de anseios e de receios, que afugentam e norteiam habilidades e aptidões.
E Vinícius também simboliza o diplomata na inteligência, na multiplicação de interesses culturais, no gosto pela generalidade, no rigor com a verticalidade naquilo que se faz, no amor e no apego para com a existência. Construiu asas. Não se conformou com raízes. Diplomata, poeta, compositor, jornalista, crítico de arte, estudioso da cultura, Vinícius era um polímato. A sua produção intelectual é um patrimônio nacional. A sua sensibilidade, incomensurável, um referencial universal. A integridade para com as causas que defendia, entre elas a mais altaneira de todas, o amor, é o símbolo de uma existência concomitantemente irrequieta e tranquila, se é que esta aproximação seja possível.
Espremido por uma época que antagonizou duas únicas vias para a construção da sociedade, Vinicius não titubeou e não se comprometeu. Acima das lutas cá da terra, viveu a inconstância do amor, comprovando que a existência tomada de um modo metafísico e inquestionável apenas torna o homem mais um dos descontentes da civilização, em seu sentido freudiano. A luz dos olhos de Vinicius recorrentemente precisava se casar. E se casaria tantas vezes quanto necessário fosse, na blague atribuída a uma resposta que Vinicius dera a Tom Jobim.
Vinicius de Moraes anunciou no Soneto da Fidelidade uma nova concepção de tempo, conformando-nos com a mortalidade, mas tornando a existência infinita, enquanto durasse o viver, que é longo, se bem vivido, ainda que o seja por um instante finito. Vinicius invertia e subvertia o andar das horas: poetou que de manhã escurecia, de tarde anoitecia e de noite ardia...
A vida é boa, inegavelmente. Vinicius bendizia o amor das coisas simples. Poeta em estado natural, na lembrança de Drummond, Vinicius inquietava-se com o mistério da morte, que sublimava na paixão da vida. Católico na origem (fez a primeira comunhão em 1923), Vinicius aproximou o sentido soteriológico de todas as religiões na comunhão absoluta no amor pela vida. Seu catecismo era a perseguição do sublime. Seu mantra, a realização absoluta dos desejos nos quais se fundamenta a existência, desprezando-se um mero sentido utilitarista, típico de um pragmatismo que certamente desprezava.
A lei sancionada pelo presidente Lula provoca em todos nós a lembrança de um excerto de Vinicius para quem, depois de tantas retaliações, tanto perigo, eis que ressurgiria no outro o velho amigo, nunca perdido, sempre reencontrado. Comprova-se, definitivamente, que depois de idas e vindas, triunfam o ardor, a persistência e a paixão de todos quantos enfrentamos e vivemos intensamente os perigos desta vida.

Salve geral


Lúcia se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Tornou-se professora de piano. Enfrenta com ares depressivos as perdas em sua vida, com mais paciência do que seu filho Rafael, 18 anos, revoltado com a perda das comodidades financeiras. Uma noite, Rafael mata uma pessoa e acaba condenado a uma pena (por sinal módica) de 8 anos de reclusão. Vai parar numa penitenciária do Estado de São Paulo, dominada pelo Primeiro Comando da Capital, e acaba enredado nos eventos traumáticos do dia das mães de 2006, quando a maior mobilização criminosa do país não apenas deflagrou rebeliões em mais de 20 prisões quanto gerou atentados a delegacias de polícia, quarteis de bombeiros e contra civis, notadamente através do incêndio de ônibus. Nesse meio tempo, Lúcia vai se transformando: movida pelo único objetivo de resgatar seu filho, ingressa em atividades criminosas que rejeita moralmente, mas que executa com a convicção dos que possuem objetivos claramente delimitados.
Esta é a minha sinopse do filme Salve geral (dirigido por Sérgio Rezende, 2009), a que assisti ontem. Trata-se de uma obra interessante, mostrando uma Andréa Beltrão sofrida, mas forte, em mais uma convincente atuação. Contudo, algo me incomodou durante toda a trama: tudo parece muito limpo, asséptico, organizado. Os diálogos parecem muito corretos, enxutos. O filme não passa verossimilhança, sendo todavia uma boa reconstrução artística da realidade. Uma versão romanceada, como fica claro, sobretudo em cenas como aquela em que Lúcia, numa delegacia limpíssima, vazia e silenciosa, é atendida por um policial que pode ser considerado atencioso e que chama o jovem preso em flagrante de homicídio de "menino". "Traz o menino aqui". Fala sério.
Alguns dos líderes do PCC, também, são articulados demais, falam corretamente e organizam ideias num nível sofisticado. Sabemos que existe gente assim nesse meio, como Marcola. Mas não se pode generalizar a exceção. O discurso de Pedrão, anunciando os planos do PCC e advertindo os demais detentos que participar não é uma escolha, soa altamente artificial. A carga ideológica é compreensível, mas os termos não. Um juiz (federal?) sendo assassinado na rua, enquanto dirige sozinho um carro oficial, após se expor na rua sem qualquer segurança, também não me soou plausível.
Vendo o filme, porém, um adjetivo se fixou em minha mente: didático. Salve geral é didático para comunicar o que pretende. Ele mostra como um jovem de classe média (ainda que empobrecido), e portanto considerado pelo ideário coletivo como bem nascido, bem educado e cheio de oportunidades, se transforma em um criminoso num único e brevíssimo momento de irreflexão e sangue quente, o que talvez seja a mensagem mais profunda que me ficou, pois mostra como, de fato, qualquer pessoa, sem exceção, pode vir a tornar-se autora de um delito grotesco.
Mostra como a corretíssima e comedida Lúcia passa a representante do "partido", tornando-se emissária de recados que podem levar pessoas à morte, introduzindo celulares na prisão, participando de atividades para financiar a organização criminosa e até se apaixonando por um dos líderes do movimento (este um dos momentos mais artificiais da trama, eis que o tal líder, o "Professor", culto e bem falante, apaixona-se também).
Mostra um sistema contaminado até a raiz, com corrupção aguda e com bizarros acertos entre a polícia e os criminosos, estes últimos ajudando o sistema a "mostrar serviço" e aparecer com uma falsa imagem de eficiência perante a opinião pública.
Não há muito o que dizer sobre Salve geral. Assista. Ele funciona como um modo de apresentar, às pessoas que jamais pensaram no assunto, um pouco do trágico universo que é o sistema penitenciário. E pode conduzir a reflexões sobre questões cruciais para a sobrevivência da sociedade brasileira. Mas o filme não faz estas reflexões. Nós é que precisamos ter a sensibilidade para chegar até elas.
Quem sabe, em sala de aula.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nem tudo é safadeza

Uma notinha maldosa foi publicada na imprensa, hoje: "O Senado Federal brasileiro é considerado o paraíso por alguns políticos. E é. Nesta semana, segundo o site Contas Abertas, a instituição empenhou quase R$ 150 mil para a compra de 576 mil preservativos não lubrificados." A malícia segue fazendo uma piadinha relacionada a Viagra, mas pelo menos esclareceu o que precisava ser esclarecido.
É que as tais camisinhas foram adquiridas para uma finalidade perfeitamente republicana: o serviço médico da casa legislativa precisa delas para a realização de exames de ecografia (mais conhecido como ultrassonografia) transvaginal. Conferindo diretamente na página do Contas Abertas, constata-se que os autores da matéria, num tom mais profissional, advertem: "Portanto, as piadas param por aí..."
Quem não se desse ao trabalho de examinar com mais atenção a notícia, ficaria apenas no limiar da piada. E em se tratando de Senado, Congresso Nacional, haveria fartos motivos para suspeitar do pior. Veja-se o meu caso: o meu primeiro impulso foi pensar que, considerando o que o Congresso costuma fazer conosco, é ao menos um alívio saber que eles usam camisinha.
Abstraindo a pilhéria e eventual leviandade, observei entretanto que os números estavam por demais superlativos. O jornal local falava em quase 150 mil reais para comprar 576 mil camisinhas. Já o Contas Abertas fala em R$ 149,76 por 576 camisinhas. Saem os milhares. O que é muito mais realista. Afinal, se fossem mesmo 576 mil camisinhas, seria exame que não acaba mais! E aí sim seria o caso de investigar a operação...
Menos, caro conterrâneo. Menos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Destruição da sede da UNE

"Art. 2º O Estado brasileiro reconhece sua responsabilidade pela destruição, no ano de 1964, da sede da UNE, localizada na Praia do Flamengo, nº 132, no Município do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, e, em razão desse reconhecimento, decide indenizá-la."

Essa é a norma mais importante do texto da Lei n. 12.260, de 21.6.2010, em vigor desde o dia seguinte, quando publicada. Ela institui uma comissão composta por representantes de seis órgãos do governo federal, sob acompanhamento de representantes do Senado e da Câmara dos Deputados, que no prazo de 30 dias deverá estabelecer o valor e a forma da indenização devida.
O movimento estudantil crescia e se organizava no Brasil até que, em 31.3.1964, eclodiu a ditadura militar. Com a resistência dos estudantes a um governo ilegítimo e cerceador das liberdades, o movimento caiu na ilegalidade e passou a ser duramente perseguido. Para fins de intimidação, a sede da União Nacional dos Estudantes UNE foi incendiada e vários líderes estudantis foram presos, além de outras medidas extremas, como invasão da Faculdade Nacional de Direito, com direito a cerco garantido por tanques de guerra e a uma tentativa de incendiar o prédio com os estudantes dentro. Na época, o presidente da UNE era o atual candidato à presidência da República, José Serra (por increça que parível).
O prédio em questão fora doado à UNE por Getúlio Vargas, que em 1942 reconheceu a entidade como representativa dos estudantes brasileiros.
Apesar de a lei só referir a UNE, o edifício também abrigava a sede da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas UBES, responsável pela faixa que, apesar de ilegível, pode ser vista no topo. Ela continha a mensagem: "A UBES repudia a marcha dos golpistas."
Penso que o revisionismo histórico e a efetiva reparação (quanto possível) dos danos materiais, físicos e morais provocados pela ditadura militar (já que a punição dos culpados era e é uma utopia), além dos prejuízos inestimáveis à democracia e ao desenvolvimento político do país, inscrevem-se na longa lista de itens que o governo Lula prometeu e não cumpriu a contento. Mais uma vez, passaram a mão na cabeça dos militares e nem os autores daqueles mais deploráveis comentários foram enquadrados, como deviam. Mas sou forçado a reconhecer que saímos da estaca zero e, ao menos, um pouco de reparação foi oferecida.
Falta, agora, enfiar na cabeça das pessoas que não, a ditadura militar não trouxe nada de bom para o Brasil. Nada.

Fontes:

Tucanos aos paraguaios

O brinquedo aí ao lado é um T-27 Tucano, fabricado pela mundialmente respeitada EMBRAER, na imagem com a caracterização da Força Aérea Brasileira.
O projeto foi desenvolvido em 1980. São aeronaves desse modelo que compõem a Esquadrilha da Fumaça, como informa a página dessa aguerrida equipe de aviadores.
Trata-se de um monoplano de asas baixas, monomotor turboélice, "biplace em tandem" (seja lá o que isso significa...), que voa até 2.112 quilômetros, a uma velocidade máxima de 457 Km/h e a uma altitude máxima de 9.936 metros.
Devidamente autorizado através da Lei n. 12.271, de 24.6.2010, o governo brasileiro, através do Ministério da Defesa, doará três aeronaves desse modelo para a República do Paraguai. Elas vão de uma Força Aérea a outra, no estado em que se encontram e com todas as despesas correndo por conta dos paraguaios.
O Brasil está com tudo: doa aeronaves, empresta dinheiro para FMI, abdica de usinas em favor da Bolívia...
PS Fique claro que não estou criticando a doação. A cooperação internacional é salutar e deve ser estimulada, ainda mais entre países latinoamericanos.

Ney

Há uma semana, sexta-feira passada, compareci a um jantar na casa do professor constitucionalista Ney Sardinha, que nesta cidade qualquer pessoa que tenha passado por um curso de Direito sabe quem é.
Grande em tudo — professor, amigo, anfitrião —, ele nos proporcionou uma noite memorável, sobre a qual fiquei com grande vontade de escrever, mas não o fiz para não levar uma bronca dele, que é avesso a homenagens, a ponto de se perguntar porque a ele, especificamente, o Centro Universitário do Pará CESUPA decidiu honrar por ocasião da IX Semana Jurídica do nosso curso de Direito, associado a um seminário internacional, em maio do ano passado.
Inspirado em uma postagem do Arthur Homci, e sabedor de que minha audácia chegará ao conhecimento do Ney através de sua filha Aline e genro Ramon (eu vou mandar as fotos, juro!), que gentilmente leem este blog, decidi correr o risco e publicar este texto. Posso ser recriminado inclusive pelas demais pessoas que têm suas imagens estampadas aqui, naturalmente sem autorização (não adianta reclamar, Ana Amélia!). Espero que entendam ser uma manifestação de carinho a cada uma delas.
Como escrevi em comentário para o Arthur, podemos identificar um mestre de verdade quando ele influencia nossas vidas concretamente, muito além de ensinamentos em sala de aula, mas nos atingindo em nossa forma de ver o mundo e em nossas escolhas. Eles se tornam parte de nossas vidas porque as pessoas em que nos transformamos são em alguma medida influenciadas por eles — e disto estamos conscientes e por isso somos gratos.
Não fui aluno do Ney, mas tive ao menos o privilégio de usufruir de sua companhia na sala dos professores, escutar suas histórias, compartilhar experiências. E assim vamos aprendendo, porque o conhecimento — o conhecimento sobre a própria vida — exala pelos poros dos sábios. Mas posso testemunhar que não são poucos os alunos que agradecem pela oportunidade de aprendizado com ele, mesmo com todas as enquadradas que volta e meia aconteciam. Elas, afinal de contas, também tinham o seu charme especial.
Que Ney não se esqueça do que lhe disse certa vez: se eu chegar a 30 anos de docência, quero ser com ele. Só não sei se consigo...
A hora dos registros para a posteridade:


Da esquerda para a direita: Arthur Homci, João Paulo Mendes Neto, Paulo Rabelo (no alto!), Luiz Rocha, Adelvan Olivério, Ney Sardinha, Eduardo Lima Filho, Bruno Brasil, Denis Verbicaro e, mais à frente, Michel Ferro e Silva, eu e João Carlos Pereira.

Da esquerda para a direita: Polyana Nascimento, Aline Bentes, Paula Ferro e Silva, Ney Sardinha agarrado por Bárbara Dias, Emília Farinha, Loiane Verbicaro (com Sophia), Karen Rocha, Ana Amélia Miranda e, à frente, Lia Maroja.

Ney ladeado pela filha Aline e pelo genro Ramon.

Felicidade ao Ney. Sempre!

Tem também a Manuela

Bom, meus povos e minhas povas, a esta altura, com o retorno de Polyana às postagens, vocês já podem perceber que este blog ganhou um novo perfil, centrado em discussões sobre maternidade e desenvolvimento infantil, aquilo que muitos chamam de puericultura — termo que pessoalmente me incomoda, porque me remete de modo mais imediato à produção de legumes e à criação de animais, ao passo que, aqui, precisamos considerar a consciência e a individualidade de um ser humano. Admito que essa minha prevenção possa ser apenas tolice e desinformação mas, por enquanto, não gosto de pensar que sou um puericultor, e sim apenas um pai.
Para aqueles que se interessarem pelo novo temário, recomendo também o blog Manuela, nome de uma coisinha mais linda que é filha da editora, Gilda Ribeiro, uma paraense ora radicada em Curitiba. No blog, que você pode acessar clicando aqui ou através da lista à direita, atualmente o assunto mais visado é a alimentação infantil. Contudo, remontando ao passado do blog, você encontra a maravilhosa aventura da gestação, pela ótica dessa jovem mãe que abraçou, de corpo e alma, essa função.
Aproveite a troca de experiências.

Bem a propósito, dê uma olhada nesta simpática relação de sete indícios de que seu filho ama você.

Os torcedores

Às 10h30, era grande o tráfego de veículos em direção aos bairros e à saída da cidade, consequência do jogo iminente, que para tudo, mobiliza (quase) todos. Independentemente do motivo, é interessante essa dinâmica incomum na cidade.
Pergunto-me o que estarão fazendo agora os 11 acadêmicos de Direito que, daqui a pouco mais de três horas, estarão à minha frente, defendendo a sua última chance de gol. Não vale uma classificação, mas uma aprovação. E nesse caso não existe prorrogação nem pênaltis. À noite, mais oito estudantes terão a mesma experiência.
Depois que essas provas foreem corrigidas e entregues, férias!
Estou precisando.

Estudando para ser mãe

Tenho uma amiga que diz que eu estudei pra ser mãe. Bem, de certa forma é verdade. Eu li muita coisa sobre gravidez, mas antes de entrar no terceiro trimestre já estava lendo sobre os bebês fora do útero. Além do mais, minha irmã é fonoaudióloga e me deu muitas dicas sobre ouvido, desenvolvimento da fala, alimentação, amamentação (futuramente faço um post só sobre isso). Minha tia é pediatra, meu primo é fisioterapeuta, tenho uma amiga dermatologista e outros com outras especialidades. Estive cercada de pessoas competentes para tirar minhas dúvidas e fazer elucubrações sobre o bebê que chegava.
Mas nenhum deles me ajudou tanto quanto Tracy Hogg.

Li os dois livros acima e posso dizer que eles me ajudaram a acreditar que eu podia ser mãe. À medida que o fim da gravidez ia chegando, eu (perfeccionista que sou) ficava ansiosa diante da possibilidade de não saber o que fazer ou de causar algum dano (seja ele físico, psicológico, emocional, cognitivo) à minha filha.
Com o livro Os segredos de uma encantadora de bebês, apendi com Tracy que a rotina de um bebê pequeno é na verdade muito simples, se seguirmos o mesmo plano sempre. Ela me ensinou a criar uma sequência de acontecimentos cíclica para que o bebê sempre saiba o que esperar depois (a rotina EASY: Eat, Activity, Sleep, You ou seja, Comer, Brincar, Dormir, Tempo para você). O acrônimo é, obviamente, uma maneira rápida de memorizar a sequência e também passar a sensação de que é fácil. Bem, não é tão fácil quando ela diz, mas certamente é bem mais fácil do que ficar sem saber o que fazer quando o bebê chora enlouquecidamente. Devo dizer que nunca consegui identificar os choros da Juju como os que ela descreve no livro (sim, tem uma tabela com as caracterísitcas de cada tipo de choro), ou pelo menos não conseguia fazer isso conscientemente. Depois de um tempo, só sabia.
Aprendi a adaptar a rotina às necessidades dela, ao seu crescimento, a entender o que ela podia estar pensando e sentindo, e foi muito, muito bom. Tanto que até hoje dou o livro de presente para todas as minhas amigas que ficam grávidas.
Com o segundo livro, A encantadora de bebês resolve todos os seus problemas (problema pra mim foi comprar este livro com título absurdo, com a maior cara daqueles livros de auto-ajuda furrecas), aprendi a lidar com detalhes da vida de um bebê mais velho, como tirar fraldas, birra, terrores noturnos, comer sozinha, etc.
Duas coisas foram muito importantes: "comece do jeito que pretende continuar", uma frase que a Tracy usa muito para dizer que devemos acostumar a criança desde cedo com a rotina que pretendemos. Sabe aquele papo de que a criança é muito novinha para dormir sozinha, ah, vamos aconchegá-la no colo até ela dormir, depois ela aprende a dormir sozinha. Ou então a velha máxima de dormir junto com papai e mamãe na cama e depois querer que ela aprenda a dormir no berço sozinha. Ou ainda ensinar a criança que é muito bom adormecer enquanto mama ao seio da mãe para depois dizer a ela que tem que adormecer sem esse aconchego. Enfim, são várias as coisas que os pais fazem de um jeito porque o bebê "é muito novinho" e depois, quando ele pesa 15Kg (pesado demais pra carregar durante meia hora até adormecer) ou rola por cima da gente na cama ou morde o peito, decidem que é hora de mudar. Graças a esse conselho, a Juju aprendeu a adormecer no berço (antes com canções, hoje com histórias de ninar), a mamar acordada, a guardar os brinquedos, a dizer por favor e obrigada.
A outra coisa importante: "seu bebê é uma pessoa". Muita gente adora dizer que criança não tem querer, que não entende o que a gente diz. Tracy me fez ver que minha filha merecia meu respeito desde o dia 1. Desde o seu nascimento, converso com ela como se ela pudesse compreender tudo o que digo, falo sem tentar simplificar demais as frases, explico o que vai acontecer, mesmo que fosse só uma troca de fraldas, banho ou mamar (lembro que nos primeiros dias me sentia boba dizendo a ela "filha, agora a mamãe vai levantar suas perninhas pra colocar a fralda, e agora vou passar pomada..."). Eu passava o dia conversando com ela, explicava tudo com a maior paciência. Se o que vamos fazer era algo inegociável (dormir, comer, tomar banho), eu digo "é hora de dormir!". Mas se é algo maleável, sempre pergunto (e respeito) a opinião dela. Se a gente pergunta "quer tomar banho?" e a criança diz "não", então devemos respeitar a vontade dela e esperar mais um pouco até propor novamente. Senão, porque perguntou? Tracy me ensinou que quando perguntamos algo à criança e ela expressa a sua vontade, mas logo depois fazemos o contrário do que ela pediu, ela só aprende que sua vontade não vale de nada e se sente desrespeitada. O que é diferente de uma ordem, como "é hora do banho", em que ela precisa entender que não tem aquela escolha. Além de tudo, tentarmos ser sempre honestos com ela, sem mentir sobre se a vacina vai doer ou se vamos mesmo assistir àquele desenho depois do almoço. Graças a Tracy, a Júlia é uma criança que sabe receber uma ordem de parar de brincar para comer, tomar banho ou ir embora do parque. A Juju também sabe que pode perguntar o que quiser que responderemos, e sabe esperar pelo que prometemos, pois sabe que vamos cumprir. Acredito que ela é menos ansiosa por causa disso, mais obediente e tranquila.
Se você acha que tudo o que eu disse é bobagem, que a maneira de criar os filhos é a mesma desde seus pais, eu digo, acredite na ciência. Ela evolui para tudo. Criar os filhos hoje da exata maneira como fomos criados é repetir uma fórmula com trinta anos de defasagem, e jogar no lixo tudo o que se estudou de lá pra cá.
Até hoje continuo "estudando" para ser mãe. Assisto aos programas do tipo Supernanny, leio matérias sobre maternidade. E observo minha filha. Creio que estou fazendo o melhor que posso para torná-la uma criança tranquila e feliz. E agradeço muito a todas as pessoas que me deram conselhos, orientações (profissionais ou não), e a Tracy. Ser uma mãe curiosa é sempre melhor.

Chamem o Charles Eppes

Para quem não sabe, Charles Eppes (interpretado pelo ator David Krumholtz) é um gênio da Matemática que ajuda o FBI a desvendar os mais variados crimes, no ótimo seriado Numb3rs.
Pelo visto, as autoridades brasileiras precisarão apelar para a ficção, a fim de conseguir provas dos crimes atribuídos ao insuspeito banqueiro Daniel Dantas. Isto porque os discos rígidos apreendidos pela Polícia Federal no apartamento do boa praça, por ocasião da "Operação Satiagraha", estavam protegidos por um sofisticadíssimo sistema de criptografia que os peritos do Federal Bureau of Investigation - FBI não conseguiram quebrar, mesmo após um ano de tentativas. Derrotado, o FBI devolveu os equipamentos ao Brasil.
Infelizmente, a vida real é menos justa que a ficção.
Mas o episódio não deve surpreender. Afinal, um esquema criminoso superlativo, enraizado nas entranhas de governos, só funciona se graudíssimos peixes da República fizerem parte dele. Por isso, há muita coisa em jogo. Muita gente que com certeza mama nas tetas da viúva há mais tempo do que eu estou na Terra. E que pretende prosseguir na ativa.
Espero que outras provas apareçam. E que adiante alguma coisa...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Apenas um passo contra o trabalho escravo

O juiz do trabalho e blogueiro José de Alencar nos dá uma informação que é valiosa para todos quantos se sentem repugnados com o trabalho em condições análogas à de escravidão, essa vergonha superlativa que o poder público brasileiro titubeia em criar mecanismos mais poderosos de combate, porque os amigos dessa forma de bandidagem, notadamente no Congresso Nacional, não permitem.
Um passo tímido, mas importante, que eu espero seja o primeiro de muitos outros.

Novo procedimento contra a obesidade

Interesso-me muito pelos avanços científicos na área de saúde, porque me importo com o bem estar e a qualidade de vida das pessoas — inclusive a minha, claro, já que meus hábitos sedentários não são lá muito saudáveis.
Foi com satisfação, portanto, que tomei conhecimento de uma pesquisa brasileira, realizada na Universidade de São Paulo, que pretende combater aquele que é frequentemente citado como um dos grandes problemas médicos deste século: a obesidade.
A manga endoscópica, como está sendo chamada, é uma prótese que diminui a absorção dos alimentos, o que provoca efeitos similares a tê-los ingerido em menor quantidade. Tudo isso sem os ônus da cirurgia bariátrica, o que torna a técnica muito menos perigosa. O que não significa, contudo, que seja um procedimento simples. No atual estágio das pesquisas, não se conhecem sequer os riscos que o implante pode trazer.
Mas a ciência se justifica por isso: criar condições para que as pessoas possam viver melhor, embora nem todos os caminhos se revelem seguros, no final das contas. Mas sem pesquisar, não há como saber.
Sucesso aos pesquisadores. Que possam ter boas notícias tão brevemente quanto possível.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Como é aniversariar em junho

Segunda feira foi meu aniversário, e como sempre acontece conosco nesses dias pensamos nos rumos que a vida toma. Quando eu era criança, sempre tive meu aniversário comemorado junto com meu pai. E não podia ser diferente, já que nasci no mesmo dia em que ele aniversaria. Em Santarém, minha cidade natal, o dia seguinte (22/6) é aniversário da cidade, e portanto, feriado. Logo, a minha festinha sempre podia acontecer no dia D. Isso era bem legal, pois a gente se sente diferente no aniversário. Sei lá, como se todo mundo estivesse nos olhando diferente. Mais ou menos como quando descobri que estava grávida. Eu tinha certeza que as pessoas me olhavam diferente, mesmo quando ainda não tinha contado pra ninguém. Acho que, na verdade, é a gente que se olha diferente no aniversário. O tema, obviamente, eram 90% festas juninas. Não lembro exatamente quando, mas depois de um tempo isso me aborreceu. Claro que hoje até faria uma festa junina se fosse comemorar em maior estilo, mas só porque já faz muito tempo que não é assim. Sempre tinha tacacá, vatapá, tarubá, aluá, maniçoba, bolo de milho e de mandioca, bolo podre e todos os quitutes que minha mãe-mãos-de-fada sabe fazer. Sempre tinha uma sessão de fogos, que o papai adora e as crianças idem. Sempre tinha bandeirinha e balão cheio de doces. Sempre tinha quadrilha. É, era legal. Mas às vezes eu queria uma festa só pra mim. Sabe, ser A aniversariante.
Hoje eu sou professora e meu aniversário sempre cai em época de provas finais. É uma correria, muita coisa pra corrigir, elaborar, ajeitar calendário, ouvir chororô dos alunos. Normalmente, quando ganho um parabéns, ele vem acompanhado de algo do tipo já-que-é-seu-aniversário-aproveita-e-dá-10-pra-todo-mundo. Os presentes que ganho são, no máximo, um aluno que não esperava que passasse me surpreender e se sair bem. Mas eu gosto. Fico muito cansada, e todo fim de semestre me pergunto se vou aguentar isso de novo no próximo. Sempre aguento, e sempre chego empolgada no próximo semestre. É, é legal. Mas às vezes eu queria que todos passassem direto, pra eu me lembrar de como era ficar de férias mais cedo.
Hoje eu também sou mãe, e em junho já estou pensando na festa da minha filha. Acabo nem comemorando. Este foi meu primeiro aniversário em que minha filhinha já sabia que era meu aniversário. O presente dela foi acordar às 6h10 (fazia tempo que ela não fazia isso) e, antes de eu sair pra trabalhar, dizer pela primeira vez: "não vai trabalhar, mamãe, brinca com a Juju!". Doeu. Porque eu queria mesmo ficar, mas obviamente não fiquei, tinha provas pra passar. Júlia cantou parabéns pra mim de manhã e quando cheguei em casa, ela já dormia. Dói não estar com ela tanto quanto eu gostaria, mas a vida moderna é assim. Juro que se pudesse seria só mãe. Ser mãe, é, é muito legal. E pronto.

P.S.: fiquei bastante tempo sem escrever justamente por causa da etapa final no Cesupa, mas tentarei manter contato maior agora. Este post foi só pra matar a vontade de escrever.

Sigam os suecos!

Sinceramente, não botei muita fé nos argumentos desta pesquisa. Mas gostaria muito que suas conclusões fossem seguidas no Brasil. E não por interesse pessoal, já que não pretendo ter outro filho.
Mas porque devemos lutar pela qualidade de vida dos brasileiros. Dos que estão aí e dos que ainda virão.

Todo mundo mudando

Vocês por acaso repararam que os blogueiros paraenses entraram numa onda de mudar o leiaute (odeio esta...) de seus blogs? Já tão acostumado ao aspecto daqueles que visito habitualmente, de repente me deparo com uma novidade todo dia. O que é bom, porque gosto de novidades.
Mas o fato puxa outra implicação: a grande maioria dos blogueiros é composta por meros usuários das plataformas, tais como Blogger, Wordpress e outras. Desconhecem recursos de programação para a Internet e, como eu, ficam reclusos às ferramentas que as plataformas disponibilizam. Afinal, quem vai gastar dinheiro para mandar alguém construir um modesto blog pessoal?
Nos últimos tempos, o Blogger (falo do que conheço) ofereceu novos recursos, de fácil utilização, permitindo até aos zerados, como eu, testar mudanças. Parece que a moda pegou.

O novo cenário do trabalho (I)

Uma aluna me contou, ontem à noite, ter sofrido um assalto na última sexta-feira. Enquanto lhe apontava uma arma, o ladrão observou que ela carregava livros de Direito Penal. Então partiu para o deboche:
— Se isso aí funcionasse mesmo, eu não tava aqui nesse meu trabalho!
Felizmente, o assalto terminou sem maiores violências e a jovem saiu da situação íntegra, embora com os abalos inevitáveis de passar por uma experiência do gênero. E ontem, diante do professor que os leva ao mundo do crime (sob a perspectiva acadêmica, claro), mencionou o fato e enfatizou a ironia do assaltante.
Sugeri a ela que não se deixasse impressionar com a retórica do sujeito. Afinal, ela era efeito da arma em punho, que provoca nos delinquentes uma espécie de catarse. Há pessoas que brilham quando se casam, quando têm um filho, quando passam no vestibular ou se formam, quando fazem uma viagem importante... Coisas assim. E há pessoas que alcançam o seu momento de glória quando rendem outras com uma arma de fogo. Para elas, esse pode ser o único instante em que deixam a invisibilidade que os caracteriza no cotidiano, tornando-se protagonistas da própria história — e da história de outros. É o único instante em que ninguém pode ignorá-los.
— Pense — aconselhei minha aluna — que, hoje, você já está numa situação muito melhor do que a dele. E daqui a cinco anos estará melhor ainda. Ao passo que ele, se estiver vivo, já será lucro.
Ela pareceu concordar e fez sua prova. Pareceu-me que estava bem.

O novo cenário do trabalho (II)

O episódio de ontem e outros dos quais tomei conhecimento recentemente me provocam uma inquietação. Não é a primeira vez que assaltantes se referem à atividade criminosa como o trabalho deles. Um amigo que, em companhia de duas outras pessoas, sofreu um sequestro-relâmpago há poucos dias, relatou que os criminosos aprovaram a obediência das vítimas e, em reconhecimento, permitiram-se algumas gentilezas, tais como devolver os documentos e pedir desculpas "por qualquer coisa". Sabe como é, esse é o nosso trabalho...
As pessoas, em geral, tomam essas frases como simples deboche dos criminosos. Mas eu conto com outra possibilidade, por sinal, bem mais grave: a de eles realmente acreditarem nisso!
São tantas as loucuras neste mundo, que há muito tempo perdemos referenciais que antes nos pareciam até óbvios sobre certo e errado, bem ou mal. Assim como jovens ditos "bem nascidos" não veem problema algum em queimar seres humanos que dormem na rua, a título de brincadeira, ou espancar mulheres que supõem ser prostitutas; assim como grupos se reúnem para trocar socos na rua e encaram isso como lazer; assim como molecotes se aproveitam dos bailinhos de debutantes para disputar quem toma o maior porre; há pessoas que, num cenário de total falta de oportunidades, de descrédito generalizado da sociedade neles e vice-versa, podem realmente ser levados a crer que o crime é uma carreira, dentre as tantas disponíveis. Sabem que não é uma atividade normal, mas é uma atividade possível. E numa sociedade que cada vez mais se afunda na competitividade e mede o sucesso pessoal por critérios quantitativos, monetários, o importante é o quanto você lucra, sem interessar qual a origem do dinheiro.
E aqui chegamos a uma diferença essencial: esse pensamento está entranhado nas classes altas e baixas. Só que, nas altas, o sujeito pratica sofisticadas operações fraudulentas, sonegação tributária, evasão de divisas; envolve-se em negociatas governamentais, corrupção, tráfico de influência e diversos crimes de colarinho branco. Além de explorar o trabalho alheio, sem a devida contraprestação. Ficam riquíssimos às custas de todo tipo de chicana, mas são homenageados naquelas festinhas onde se pode comprar um título de qualquer coisa do ano, em outdoors, em colunas sociais e em seus meios de convivência. São o crème de la crème da sociedade, mesmo que se saiba como chegaram ali.
Já nos níveis de baixo, a mesmíssima filosofia é empregada, só que se materializa em condutas acessíveis a indivíduos grosseiros, de baixa ou nenhuma instrução e sem acesso a recursos diversos. São crimes violentos, sangrentos, que chamam muito mais a atenção. Para estes, é feita a censura que deveria ser feita também aos primeiros.
No final, conscientes desses dois pesos e duas medidas, o sujeito se defende como pode e como acha que deve. Aí ele vai à luta. E como em qualquer guerra, a bomba explode em cima de quem não tem nada ou quase nada a ver com a história.

Delirantes realidades do futuro




Reciclagem de capas de CD, imensa cobertura de lâmpadas LED, estrutura representando os pixels de uma imagem. Nunca se duvidou da criatividade humana, mas agora, com os avanços tecnológicos, as mais estapafúrdias concepções começam a virar realidade, para glória dos arquitetos.
Verdadeiras obras de arte, eu diria. E caríssimas, como qualquer obra de arte.

Twitterítica XIV

0h44.
Meu pequeno amor dorme. E eu morrendo de vontade de abraçá-la!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Um modesto 32º lugar

Com todo o respeito aos matonenses, moradores da cidade em questão, você já ouviu falar do Município paulista de Matão? Nem eu.
Mas sabe o que ele tem muito melhor do que Belém, a tão decantada metrópole da Amazônia? Um saldo positivo de empregos no mês de maio bem melhor, ao menos em números absolutos.
Enquanto Belém é a 32ª colocada, Matão ostenta o 13º lugar. Sim, eu sei que a verificação diz respeito a um único mês, que inúmeros fatores influenciam os resultados e que estes flutuam bastante. Mas não deixa de ser sintomático que uma pequena cidade paulista consiga ser muito mais eficiente do que uma capital — e uma capital que não está entre as menores — dentro do período analisado. Vamos esperar o resultado do ano de 2010.
Matão (B), a cerca de 300 quilômetros da capital (A), foi fundada em 1898 e possuía menos de 80 mil habitantes em 2008, segundo o IBGE. Possui um cenário de cerrado e mata atlântica e sua economia se beneficia tanto da agropecuária quanto da indústria.

Quem tiver sugestões

Continuo fiel a minhas leituras diárias, mas ando com vontade de expandir o meu círculo de blogs amigos. Quero conhecer mais pessoas, sobretudo de outros lugares do país ou mesmo do mundo. Vez por outra alguém chega por aqui e deixa um comentário, mas é difícil saber se tal pessoa retorna e se ela própria está deixando seus relatos no mundo virtual.
Uma ferramenta útil para conhecer gente, a Rede Paraense de Blogs infelizmente saiu do ar, o que me retirou essa possibilidade de conhecer melhor novos articulistas. Portanto, lanço mão dos gentis leitores que me visitam e lhes pergunto: de quais blogs vocês gostam? O que há de interessante neles? Por que vale a pena visitá-los?
Notem que isto não é uma pesquisa de simpatia interna, por isso não adianta recomendar alguém que já aparece na minha lista à direita muito menos o Flanar, onde também escrevo. Procuro páginas novas, que meus amigos decerto podem indicar. Aguardo, agradecido.

Quem será esse fulano?

Esta vai como uma homenagem a minha querida Luiza Duarte, do Sobre o mundo e etc., que tem um carinho especial por tipos como o abaixo retratado.


Inconformada com a repercussão da morte do escritor José Saramago no Twitter, a modelo Solange Gomes provocou seus seguidores, questionando seus conhecimentos culturais. "Pergunta que não quer calar...rs, será que aqui todo mundo sabe quem é Saramago? Ou foram correndo falar com o Tio Google?", escreveu a morena, perguntando se as pessoas precisaram consultar algum site de pesquisa para obter informações sobre o escritor português.
Após ser criticada por algumas pessoas, que não receberam bem os questionamentos da modelo e a provocaram sobre seus conhecimentos literários, ela retrucou: "Gente, nem de ler eu gosto... aprendo com a vida!", finalizou.
Em tempo: Solange Gomes é "modelo/atriz/apresentadora", conhecida por desfilar nos carnavais de Rio de Janeiro e São Paulo (seminua) e posar para revistas masculinas (nua).
(Terra, com informações do Diário Online)

Este episódio não merece maiores comentários. Direi, no máximo, que se tivesse morrido algum ex-BBB, a modelo-atriz-apresentadora provavelmente estaria penalizada. Mas não podemos criticá-la. Afinal, ela pelo menos foi sincera, além de que um sujeito que se dá ao trabalho de seguir esse tipo de figura no Twitter bem merece levar na cara a pergunta que ela fez.
No mais, sempre acho curiosa essa afirmação de que "aprendo com a vida". Algo semelhante foi dito anos atrás por Adriane Galisteu, quando lamentou não ter cursado faculdade. Não por causa do curso em si, porque ela aprende com a vida, e sim por causa das amizades acadêmicas que ela deixou de fazer.
Enfim, no tempo dos meus avós, "eu aprendo com a vida" era coisa que moça de família não diria...

Excesso de prurido

O Tribunal Superior do Trabalho, acolhendo voto do relator, o ministro paraense Walmir Oliveira da Costa, rejeitou um recurso e, aplicando uma previsão legal, mandou riscar dos autos expressões "injuriosas" que teriam sido assacadas pelo advogado contra a corte que dera a decisão recorrida. Além disso, mandou oficiar a OAB Seção de Santa Catarina, a fim de que averigue possível transgressão ética na conduta do profissional, que tem, por lei, o dever de manter a "elegância e a urbanidade" no processo.
Mas, afinal, quais foram as palavras utilizadas pelo advogado, que geraram essa pouco frequente e tão contundente reação do TST? Terá ele recorrido aos tabuísmos? Terá ele feito insinuações sobre a profissão da mãe de alguém? Terá ele questionado a probidade da parte adversa ou de algum magistrado?
Nada disso. A expressão que atingiu tão a fundo a intimidade dos ministros do TST foi esta:

que a decisão é ultrapassada, que a decisão é paupérrima, os argumentos da decisão são paupérrimos e ultrapassados

Com todo o respeito ao ministro, nosso conterrâneo, que desde os meus tempos de advocacia trabalhista ali no fórum da Praça Brasil eu já respeitava, me compre um bode!
Eu já escrevi coisas mais ríspidas do que "ultrapassada" e "paupérrima". E note que os adjetivos se dirigem à decisão, não ao julgador. Para que toda essa suscetibilidade, então? Acaso o juiz não precisa ter serenidade para julgar?
Honestamente, minha experiência na advocacia e no serviço público me levam a crer que a magistratura leva a níveis superlativos o senso de autoestima de muita gente. Mesmo os mais serenos, com o tempo, vão se deixando entranhar por um sentimento de pundonor bem peculiar. De um lado, ofendem-se com uma facilidade extrema. Mas por outro, não valorizam a respeitabilidade alheia na mesma medida. Já fui destratado e já assisti a chiliques terríveis, contra advogados, testemunhas e partes. Já vi, inclusive na Justiça do Trabalho, que se autointitula a Justiça do povo, tratamentos indignos aos reclamantes, pessoas paupérrimas e sem instrução, das quais se exigia respeito incondicional a ritos e salamaleques que eles sequer podiam compreender.
Na advocacia criminal, o que se vê é uma simpatia indevida entre o Judiciário e o Ministério Público. Embora o MP seja parte e deva ser tratado isonomia em relação ao advogado de defesa, o advogado espera do lado de fora da sala de audiência, mas o promotor fica lá dentro, confraterniza-se com os serventuários, bate papo com o juiz, toma cafezinho. Há uma evidente e inegável consciência de que tanto o juiz quanto o promotor são Estado, são sistema, e o advogado está do lado oposto. E é tratado como tal. Não raro, isso descamba para conflitos perfeitamente evitáveis se cada um ficasse na sua.
Lamento a decisão do TST, a menos que o advogado tenha usado expressões que não chegaram a ser mencionadas na matéria. Mas do jeito que a coisa está posta, só posso dizer que elegância, urbanidade e serenidade são exigências que recaem sobre todos os envolvidos no teatro forense. E lembro que o dever de fundamentar decisões judiciais, imposto pela Constituição, frequentemente é menoscabado nos processos de todo tipo, através de decisões que são paupérrimas, para dizer o mínimo. Acaso não podemos mais nos defender delas?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Inverno

Às 8h28 de hoje, começou oficialmente o inverno no hemisfério sul. Isto, claro, para as pessoas que têm a ventura de viver em regiões onde as estações do ano são definidas. Segundo vi ontem na TV, a previsão é de um frio dentro do normal em julho. Porém, nos meses seguintes, a sucessão de nada menos que quatro massas polares vai rachar os lábios de muita gente. Por aqui, não notaremos isso.
Este ano, contudo, terei ao menos duas semanas fora do comum, visitando a cidade que considero minha segunda casa: Florianópolis. Um oásis de frio em meio a um inferno interminável de calor! Vamos ver o que a pequena Júlia achará dessa experiência inédita para ela.
Mas antes que o frio chegue, ainda resta muito trabalho a fazer. E a previsão do tempo para amanhã, em Belém, é de sol com aumento de nebulosidade pela manhã e pancadas de chuva à tarde e à noite, além de temperaturas variando de 24ºC a 33ºC. Só não se esqueça que a sensação térmica é sempre muito pior, especialmente se você estiver dentro de edifícios construídos com materiais inadequados ao calor e mal ventilados, ou perto do asfalto ou junto a uma profusão de carros e seus escapamentos. Boa sorte.

Camisinha assassina

Inventora distribui camisinha antiestupro na África do Sul durante a Copa

Não é a primeira vez que ouço falar do assunto e continuo com a mesma opinião: camisinhas destinadas a inviabilizar o coito podem ser úteis para impedir o proveito sexual perseguido pelo agressor, mas elas não impedem a violência. Afinal, o sujeito só terá o pênis aprisionado na peça após penetrar a vagina da vítima. Vale dizer: o crime aconteceu. A violência aconteceu. O trauma aconteceu. Apenas se tem a sensação de que o crime não compensará.
Minha maior preocupação é que o agressor, frustrado pela inviabilização de seu propósito nefando, e acima de tudo sentindo a dor e a humilhação das lesões provocadas, tenderá a canalizar sua violência para uma agressão não sexual, porém violenta, podendo mesmo chegar ao homicídio. As consequências do uso desse invento podem não ser nada boas. A expectativa de efeito preventivo é, a meu ver, mera especulação. E nada impedirá que uma arma apontada para a cabeça convença a mulher a despojar-se do artefato.
Enfim, não me convence. A interminável luta contra o estupro só faz sentido na perspectiva de valorizar a mulher, na sociedade, em casa, em nossas relações pessoais.

Por que nossos humoristas são imbatíveis


Assim fala Paulo Salim Maluf, novamente candidato a deputado federal, pelo Partido Progressista de São Paulo. Na imagem ao lado, o dito cujo conta o dinheirim que ganhou num bolão sobre jogo da copa de semana passada, o que deve explicar a sua fortuna. O anão do orçamento João Alves de Almeida não enriqueceu porque Deus o ajudou e ele ganhou na loteria algumas centenas de vezes? Pois é, Maluf acerta bolões de quatro em quatro anos. Azar o meu, que não arrisco. E olha que, como sou o único a apostar na derrota do Brasil, teria boas chances de levar o prêmio sozinho...
Paralelamente a suas contumazes frases de efeito, Maluf possui condenações, por atos de improbidade administrativa e por crimes, confirmadas em segunda instância. Ou seja, ele é atingido pela "Lei da ficha limpa" e deve ter a sua candidatura impugnada. A bravata de Maluf não esconde um risco inédito, que recai também sobre outra figuraça pra lá de conhecida: Joaquim Roriz, que já está na mira do Ministério Público Federal do Distrito Federal. Os advogados de Roriz, claro, muito bem pagos, já afirmaram haver uma perseguição sobre seu constituinte e que, se preciso for, defendê-lo-ão perante o Supremo Tribunal Federal, para restaurar a Constituição!
Veremos no que vai dar.
Mas o que eu realmente gostaria de ver seria o povo mandando ver nas urnas. Isto sim é um sonho distante. Mas seria a única solução definitiva para essa cambada.

Feliz aniversário

Nesta segunda-feira, 21, minha esposa Polyana está no berço. Deixo registradas, aqui, em um formato mais social, as minhas homenagens, a minha gratidão por ter aceitado ser minha companheira de jornada, o que decerto não foi uma escolha simples — se bem que também não foi um mergulho no escuro para nenhum de nós.
Pena que o dia se passará em meio a provas e um monte de pendências a resolver. Mas eu e Júlia deixamos o nosso beijo e o nosso amor.

Como eu temia...

Dois acidentes, envolvendo aparentemente cinco veículos, dentre eles um ônibus, provocaram o primeiro engarrafamento de que tenho notícia no Complexo Viário Júlio César. Quando passei por lá o trânsito já fluía um pouco melhor: menos que um engarrafamento, havia apenas lentidão de tráfego.
Acidentes, por definição, são acontecimentos imprevistos. Os riscos podem ser minimizados, mas você não pode evitá-los, no sentido mais preciso da palavra. O problema, assim, passa a ser a falta de fiscalização do trânsito. Talvez confiando na fluidez que o complexo viário sempre proporcionou, ou talvez por inoperância pura e simples, não havia um só agente de trânsito no local, o que deixa os condutores inseguros e compromete ainda mais o deslocamento, além de aumentar o risco de novos acidentes.
Além disso, nas pétalas que dão acesso ao elevado, havia pelo menos três veículos em pane. Havia um quarto, mas este talvez estivesse dando suporte a um dos prejudicados.
Segunda-feira começando difícil para uns tantos...
Espero que para você não. Boa semana.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O mundo de Saramago

"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário."
José Saramago, dezembro de 2008,
por ocasião do lançamento de "As Pequenas Memórias"

Adeus, Saramago

Saramago em Madri, novembro de 2009, por ocasião do lançamento
de seu último (e polêmico) romance: "Caim"

E o meu escritor favorito se foi na manhã de hoje, 18 de junho, em sua casa na ilha de Lanzarote (Ilhas Canárias, Espanha), aos 87 anos (nasceu em 16.11.1922, em Azinhaga, norte de Lisboa, Portugal).
José Saramago morreu ateu e "comunista libertário", com uma enorme fama de turrão (algo desfeita em lágrimas por ocasião da versão cinematográfica de "Ensaio sobre a cegueira"), após uma profícua carreira literária e política, defendendo seus ideais e a Península Ibérica e disparando contra seus objetos de aversão, notadamente a religião, que retribuiu a gentileza: foi perseguido por católicos após o lançamento de "O evangelho segundo Jesus Cristo" (1991), o que contribuiu para trocar Portugal pela Espanha, e mais recentemente por causa de "Caim" (2009), que contém uma passagem na qual se refere a Deus como "filho da puta".
Foi mais do que um dos maiores nomes da literatura mundial. Foi um bom homem, também. Doi-me pensar que não teremos mais seus livros. Mas esse é o ciclo natural. Chegou a morte, assim mesmo, com letra minúscula. Porque da Morte verdadeira ninguém vai querer saber.

Leia De como o personagem foi mestre e o autor seu aprendiz.

Previsão legal do monitoramento eletrônico de presos

Monitoramento eletrônico de presos. A medida é controversa, mas apenas por conta dos excessos de uma parcela de juristas, que veem violação aos direitos humanos em tudo e por tudo. Eu parto do pressuposto de que a cadeia é muito pior, por isso devem ser estimulados os mecanismos e procedimentos que possam evitar o encarceramento.
Em discussão no país há bastante tempo, o monitoramento eletrônico de presos finalmente ingressou no ordenamento jurídico brasileiro.
A Lei n. 12.258, de 15.6.2010, entrou em vigor há dois dias, alterando a Lei de Execução Penal.
O projeto de lei alterava também o Código Penal, mas as disposições foram vetadas, sob o argumento de que “A adoção do monitoramento eletrônico no regime aberto, nas penas restritivas de direito, no livramento condicional e na suspensão condicional da pena contraria a sistemática de cumprimento de pena prevista no ordenamento jurídico brasileiro e, com isso, a necessária individualização, proporcionalidade e suficiência da execução penal. Ademais, o projeto aumenta os custos com a execução penal sem auxiliar no reajuste da população dos presídios, uma vez que não retira do cárcere quem lá não deveria estar e não impede o ingresso de quem não deva ser preso.”
É compreensível. As medidas citadas nas razões do veto foram originalmente concebidas para funcionar de acordo com o senso de responsabilidade do condenado. Assim entendendo, as inovações da lei substituiriam a disciplina pela vigilância. Seria bom para a eficácia, talvez, mas não para a ética, base da ressocialização do indivíduo.
De acordo com as mudanças na LEP, o monitoramento eletrônico ficou restrito às autorizações de saída, concedidas ao preso de bom comportamento, para gozar da convivência familiar em certas datas comemorativas, ou para que o mesmo possa, nos casos em que a lei admite, frequentar cursos profissionalizantes ou de ensino médio ou superior. Devido às carências de infraestrutura e investimento no setor, que inviabilizam o acompanhamento humano dos liberados, as tornozeleiras são uma forma de tornar as saídas mais seguras.
A nova lei disciplina o uso do equipamento, as obrigações do liberado e as consequências de ele tentar frustrar a medida.
Aos poucos, muito aos poucos, o Brasil avança.

Auxílio e bolsa

Os dependentes de dezoito militares brasileiros mortos no terremoto do Haiti, em janeiro deste ano, receberão auxílio especial no valor de 500 mil reais, por militar. Esse valor será rateado entre todos os dependentes, classificação que alcança o cônjuge; o companheiro ou companheira designada ou que comprove união estável como entidade familiar; os filhos e o menor sob guarda ou tutela até os 21 de idade ou até 24, se estudantes em curso de nível superior; os filhos inválidos, desde que a invalidez seja anterior à maioridade.
Não havendo cônjuge nem filhos inválidos, o pagamento será feito à mãe e ao pai do militar. E para receber não é preciso comprovar a efetiva dependência econômica ou outros critérios constantes da legislação militar.
Além disso, será assegurada uma bolsa especial de educação, no valor de um salário mínimo, ao dependente estudante até 18 anos, se no ensino fundamental ou médio, e até os 24, se no superior. O benefício fica condicionado à comprovação de matrícula, frequência e rendimento escolar.
Naturalmente, os demais direitos já previstos na legislação militar ficam preservados.
Os direitos acima estão previstos na Lei n. 12.257, de 15.6.2010, em vigor desde o dia seguinte.

Desumano

TJ mineiro autoriza aborto de feto anencéfalo

Por considerar desumana a continuidade de gravidez em que feto é portador de anencefalia, a 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais autorizou, nesta quinta-feira (17/6), que uma gestante faça um aborto. A interrupção da gravidez havia sido negada pelo juiz Marco Antônio Feital Leite, auxiliar da 1ª Vara Cível de Belo Horizonte. Os desembargadores Alberto Henrique (relator), Luiz Carlos Gomes da Mata e Francisco Kupidlowski determinaram a expedição imediata de alvará para a realização do procedimento.

O presidente da Câmara, desembargador Francisco Kupidlowski, ressaltou a urgência do caso e sua repercussão diante da sociedade e da imprensa nacional. O desembargador Alberto Henrique, relator do processo, destacou que o pedido de interrupção de gravidez foi instruído com pareceres médicos, todos recomendando o procedimento.

O relator enfatizou que a anencefalia é uma patologia sem cura e que o feto com a doença “não possui nenhuma expectativa de vida fora do útero materno”. Para ele, “não é justo que à mãe seja imposta a obrigação de continuar com essa gravidez-sacrifício” e que seria um martírio levá-la às últimas consequências. Nesse caso, “as convicções religiosas devem ser deixadas de lado”, defendeu.

Para o desembargador Luiz Carlos Gomes da Mata, o tema é tormentoso, envolvendo o direito à vida e a dignidade da pessoa humana. Para ele, “diante da absoluta ausência de perspectiva de vida do feto, não há como negar o pedido de autorização para a prática terapêutica recomendada pelos médicos que acompanham a gestante”. Segundo o desembargador, trata-se de um “fardo” que não se pode impor à mesma.

“Como a morte do feto logo após o parto já está prognosticada, não dispondo a medicina de meios para salvá-lo, toda preocupação deve ser voltada ao casal, que de forma corajosa, destemida e exemplar, bate às portas do Poder Judiciário em busca de uma solução jurídica”, finalizou.

O desembargador Francisco Kupidlowski, ponderou que, diante da comprovação por laudo médico de que o feto não possui calota crânio-encefálica e, portanto, sem expectativa de vida após o parto, seria desumana a manutenção da gestação.

Com informação da Assessoria de Imprensa do TJ-MG.

Assino embaixo. De parabéns o Judiciário mineiro, ainda que numa decisão que não nos deve dar nenhuma alegria. A medida tomada era apenas necessária. Por isso o elogio.

Retomando

Ontem encerrei um ciclo no semestre letivo que, enfim, anunciou o pouso iminente. Entreguei o último lote de provas do segundo bimestre, um calhamaço de papeis que me deixaram exausto. Hoje, começa a nova rodada de provas mas, felizmente, já para um número bem reduzido de pessoas.
Mas o que acabou ontem foi bem mais do que um processo avaliativo. Terminou, também, um longo ciclo de convivência com duas turmas muito queridas, que agora passam à categoria de grandes lembranças ainda próximas, já que têm mais dois anos e meio de curso pela frente. Foram dois anos de convívio no total contínuos, para uma delas, e com uma interrupção de um semestre, para a outra. Seja como for, dois anos é bastante tempo, sobretudo considerando que corresponde a dois quintos do curso inteiro.
Penso que tivemos uma trajetória bonita e estou satisfeito com o modo como as coisas terminaram. Ontem foi uma noite de confraternizar, de rir muito, até ficar com os músculos faciais cansados. Foi uma noite feliz.
E o blog, devagar, começará a retomar sua rotina.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Que dia...

O de hoje está candidato a pior dia do ano. Postagens qualquer hora dessas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ainda vou postar

Só para esclarecer, ando atarefada com as provas de fim de semestre, mas ainda vou postar algo materno este mês.
Abraços.

Fantasma ou histeria coletiva

Somente ontem tomei conhecimento do estranho caso, ocorrido no início deste mês, das sete estudantes, entre 12 e 19 anos, que passaram mal, na Escola Municipal Eduardo Barbosa, área rural de Itatira, interior do Ceará (a 221 Km de Fortaleza), após terem supostamente recebido a visita do Espírito de um colega falecido há sete anos, o qual teria até falado com elas. Em eventos posteriores, outras pessoas teriam experimentado sintomas desagradáveis — dores musculares e de cabeça, palidez, calafrios, náusea, paralisia muscular, aumento dos batimentos cardíacos e pressão alta —, chegando-se a um total de 25 vítimas, incluindo pais de alunos.
As aulas chegaram a ser suspensas. Não faltaram pessoas propondo a ocorrência de um transe, mas o médico da cidade vizinha, que recebeu as sete primeiras alunas, foi categórico ao falar em características de histeria.
Com efeito, o aparentemente assustador episódio está sendo explicado por um psiquiatra, uma psicóloga e um padre-parapsicólogo como sendo um caso de histeria coletiva. O sítio PsiqWeb, que sempre costumo recomendar, porque possui conteúdo psiquiátrico acessível a leigos, possui um artigo muito interessante sobre histeria.
Claro que as pessoas prefeririam uma explicação transcendental. O Espiritismo explica detalhadamente essas manifestações. Materialização, psicofonia, mediunidade, tudo isso pode ocorrer. Contudo, um espírita que se preze considera todas as possíveis explicações convencionais, digamos assim, antes de defender categoricamente que se trata, mesmo, de um fenômeno espiritual. Para mim, o que temos ali é nada mais do que disseram os especialistas: histeria coletiva, seguido talvez de simulação pura e simples, que pessoas poderiam realizar para fomentar o clima de terror.
Resta saber qual foi o fato gerador de uma reação tão extrema. Esta sim parece ser a grande questão que a comunidade de Itatira tem a enfrentar. Por que seus jovens não estão felizes?

Padrinhos mágicos... de Brasília


Fazia muitos meses que eu não acessava o sítio de humor Charges.com. Ontem à noite passei por lá e me deparei com mais esta ótima criação da série "Desenhos que seus filhos não devem ver".
Assista. Mutatis mutandis, por aqui dá tudo no mesmo.

Belenambulando durante os jogos

Todo mundo já deve saber da minha aversão a futebol, que não muda em nada em tempos de copa do mundo ou antes, até se intensifica. Por isso, quando ocorrem os jogos do Brasil, entro no carro e saio pela cidade, desfrutando dos encantos da cidade que nunca vemos porque, no cotidiano, precisamos nos defender da morte no trânsito local.
Na última copa, este blog ainda não existia. Por isso, este ano eu pretendia sair pela cidade em todos os jogos do Brasil, fotografando seus cenários vazios. Mas a correção das provas não me permitiu fazer isso ontem. E depois do que fez o genial Wagner Okasaki, titular do Belenâmbulo, não tem para mais ninguém.
Dê uma olhadinha no que ele fez.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Festival

Como ando antenadíssimo com o que ocorre no mundo, para não dizer o contrário, e faz tempo que abdiquei de acompanhar o cenário musical vigente, sequer tomei conhecimento de um festival de música chamado "Conexão Vivo", que reuniu vários estilos entre os dias 11 e 13, agora, na Casa das 11 Janelas.
O evento ganhou destaque em portal nacional, como se pode ver pelo print de uma fração da página.
O evento, prioritariamente voltado às massas, teve a felicidade de incluir um momento erudito, através da apresentação da Orquestra Juvenil de Violoncelistas da Amazônia (ainda que com um repertório mais pop: questão de sobrevivência). Mas como era de se esperar, a imagem que ficou foi outra:

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Interpretar o texto

Sempre gostei de estudar Língua Portuguesa e Literatura. A primeira porque sempre foi essencial, para mim, falar e escrever de maneira irrepreensível; a segunda, por adorar ler e ter um gosto especial por poesia. Embora num primeiro momento preferisse literatura estrangeira, poesia para mim, de longe, é melhor que seja brasileira, embora tenha grandes paixões entre poetas alienígenas. Isso sem falar de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, que também escreviam em português.
Mas eu tinha dificuldade em um aspecto dessas aulas: interpretação de texto. Tenho uma suspeita quanto ao motivo.
Comecei a estudar muito cedo. Era sempre o mais novo da turma (o que só mudou na universidade). Levava uma vidinha insípida e sem maiores experiências, que me permitissem o élan de mergulhar na mente frenética de um escritor. Hoje, quero acreditar, eu me sairia bem melhor.
No entanto, a interpretação de texto continua sendo uma pedra no meu sapato, só que agora estou do outro lado do balcão. Explico: refiro-me às minhas provas, sempre construídas sob a forma de casos concretos, o mais das vezes hipotéticos, porém baseados em fatos reais. Sendo professor de Direito Penal, faço do noticiário a minha fonte de pesquisa, até porque nenhuma mente criativa consegue ser tão poderosa (e terrível) quanto a realidade.
Os estudantes, em geral, têm dificuldades ingentes para interpretar os enunciados das questões. Não se trata de desconhecer o Direito Penal, mas de tropeçar no próprio texto, para compreender os fatos ali narrados e sua possível significação, sobretudo dos detalhes. O resultado é que, mesmo havendo uma advertência ostensiva no preâmbulo da prova, de que a interpretação faz parte da avaliação e que não devo ser consultado, o alunado faz questão absoluta de ignorar solenemente a ordem. Confesso que em algumas ocasiões isso me irrita, porque dá a entender que o aluno procura facilidades indevidas, como se eu tivesse a obrigação de esmiuçar o caso para que ele apenas aplicasse o Direito.
Na vida, contudo, não é assim. Quando os autos chegam às nossas mãos, com variadas versões de uma mesma história, não há ninguém para explicar nada (só para confundir). Nós é que precisamos analisar e valorar tudo, para chegar a uma conclusão.
Já disse antes e insisto que os ensinos fundamental e médio estão caindo pelas tabelas, inclusive o prestado nas escolas ditas de primeira linha, nesta cidade. Com isso, os acadêmicos nos chegam com enormes fragilidades, inclusive para compreender o português mais elementar.
Imagine uma frase como esta: "Haroldo, cujo irmão Heitor era médico..." Aí vem um aluno e pergunta qual dos dois era médico. Não dá!
Precisamos de cursos de capacitação em interpretação de texto já! Mas já ajudaria se algo muito simples e elementar fosse feito desde a infância: ler. Ler muito e sempre. Já faria toda a diferença.

domingo, 13 de junho de 2010

Crítica ao bom menino

Você provavelmente nunca ouviu falar de George Savalla Gomes. Entretanto, é quase certo que ouviu falar de seu personagem, o Palhaço Carequinha, que chegou a ser muito famoso no cenário do entretenimento infantil brasileiro, com direito a programas na TV entre as décadas de 1950 e 1960. Voltou à TV nos anos 1980 e chegou até a participar de uma novela. Em 2005, fez seu último trabalho televisivo numa participação em Hoje é dia de Maria. Também se envolveu com cinema e diversos produtos licenciados com a sua marca.
Como não poderia deixar de ser, enveredou pela seara musical, chegando a gravar 26 discos. Minha memória consegue reter um de seus maiores feitos na área, a canção "O bom menino".
Aposto que você nunca pensou nisso, mas "O bom menino" é um manifesto ideológico terrível, embora seja compreensível que espelhe o tempo em que foi composto. Estou certo de que foi composta com uma honesta finalidade educativa, mas nem por isso fica isenta de crítica. Vamos à letra:

O bom menino não faz pipi na cama
O bom menino não faz malcriação
O bom menino vai sempre à escola
E na escola aprende sempre a lição

O bom menino respeita os mais velhos
O bom menino não bate na irmãzinha
Papai do céu protege o bom menino
Que obedece sempre, sempre a mamãezinha

Por isso eu peço a todas as crianças
Muita atenção para o conselho que eu vou dar

(falado)
Olha aqui.
Carequinha não é amigo de criança que passa de noite da sua cama pra cama da mamãe
E também não é amigo de criança que roi unha e chupa chupeta.
Tá certo ou não tá?
Táaaaaaa

Eu obedeço sempre a mamãezinha
Então aceite os parabéns do Carequinha.

O bom menino...

(falado)
Olha aqui.
Carequinha só gosta de criança que respeita mamãe, papai, titia e vovó
E seja amigo dos seus amiguinhos
E também que coma na hora certa, e durma na hora que a mamãe mandar.
Tá certo ou não tá?
Táaaaaaa

Eu obedeço sempre a mamãezinha
Então aceite os parabéns do Carequinha.
Viva o bom menino
Vivaaa


A despeito de algumas sugestões sensatas, a letra prima pelo maniqueísmo e reduz as situações consideradas como inconvenientes a uma simples questão de escolha pessoal da criança. Exatamente o que a sociedade não reflexiva de hoje faz em relação aos criminosos. Sobre ir para a cama dos pais e chupar chupeta, p. ex., vai uma culpa bem maior dos pais do que da criança. Mas me concentrarei na estrofe inicial. Vejamos.
O controle da micção é uma das habilidades que a criança precisa aprender e que, segundo me sopra minha esposa ávida leitora de livros sobre desenvolvimento infantil, começa pelo controle do cocô noturno e se completa com o controle do xixi noturno. Ou seja, não fazer xixi na cama é a parte mais difícil desse aprendizado. Além disso, justamente porque dorme e está com a musculatura relaxada, a criança não se alivia na cama apenas por mau caratismo. Outros fatores influenciam, de fundo emocional sobretudo. E aqui a responsabilidade ou a culpa, se quisermos um termo mais veemente pode ser deslocada para os pais. Uma família desorganizada, com pais em conflito ou que exijam demais da criança, pode levá-la a atitudes como urinar na cama, inconscientemente, para chamar a atenção.
Longe de ser um indício de transgressão, a micção noturna pode ser um pedido de socorro, que somente pais amorosos e dispostos a educá-la para a autonomia seriam capazes de identificar e trabalhar, com vistas a uma solução tranquila e definitiva. Talvez o Palhaço Carequinha não soubesse disso.
Outro absurdo é o desempenho na escola. Note que a canção não diz que o aluno é responsável ou interessado, que se esforça, que tem mérito. Ela diz que ele "aprende sempre". E segundo o draconiano modelo educacional da época, o aprender era medido única e exclusivamente mediante critérios quantitativos, expressos numa nota ou num conceito. Assim, uma nota baixa indicava que o aluno não aprendeu e, somente por isso, não era um bom menino.
Não se levam em consideração, por óbvio, os mais diversos fatores que influenciam o processo de ensino-aprendizagem. Nada se disse sobre as escolas depauperadas, sem carteiras suficientes para todos os alunos, sem giz, com goteiras ou banheiros ruins. Nada se disse sobre barrigas vazias. Nada se disse sobre a carência de professores ou a sua má formação. E mesmo que quiséssemos nos concentrar em escolas sofisticadas, de excelente infraestrutura e capacidade de investimento, nada se disse acerca dos professores descompromissados com a educação, viciosos, preguiçosos e que se escondiam atrás da docência para dar vazão a desejos mais ou menos inconscientes de tiranizar pessoas vulneráveis. Nada se disse, acima de tudo, sobre o modelo educacional então vigente, deturpado em sua própria concepção, porque fundado em uma premissa de simples memorização e, para piorar, com conteúdos fortemente influenciados por vertentes religiosas ou ideologias governamentais, tais como a submissão da mulher pelo homem, a leniência com a violência intrafamiliar (desde que cometida pelo macho adulto branco, aquele que está sempre no comando), o culto obrigatório do catolicismo com punições morais sobre os dissidentes, o combate ao comunismo e a adoração cega ao governo, notadamente no período da ditadura militar. Daí surgiram disciplinas imbecilizantes como Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e o ápice da patuscada: Educação Moral e Cívica, de que os estudantes a partir da década de 1990 tiveram a sorte de escapar. Para que tenham uma ideia do que se tratava, imagine o seu bisavô centenário, heroi de guerra (???), auxiliado por uma beata há muitos anos viúva, ensinando como você deve se portar, dentro de casa e na vida pública, de acordo com os saudáveis padrões da moral, dos bons costumes e do amor à pátria.
Era mais ou menos isso, só que pior. Inclusive porque você podia ficar reprovado.
Carequinha não era um homem mau. Tomo-o apenas como um representante do seu tempo, defendendo o ideário de sua época, da qual ele próprio era fruto. Mas ele que gostava de se apresentar para os presidentes da República, de Getúlio Vargas a FHC, passando portanto por todos os militares poderia ter ido além e ajudado a formar uma geração de crianças mais competentes e independentes sem abdicar, é claro, dos valores da disciplina e do respeito.
George Savalla Gomes morreu em 5 de abril de 2006, quase aos 91 anos, ainda na ativa. Carequinha, é claro, não morrerá jamais.
Tá certo ou não tá?