domingo, 31 de outubro de 2010

Minha Língua Portuguesa

Digo, sem falsa modéstia, que sempre fui um bom aluno de Língua Portuguesa. Minha paixão por nosso idioma se revelou muito cedo, talvez como consequência do hábito da leitura que pratiquei tão intensamente, imitando meu irmão, quase cinco anos mais velho, a quem serei sempre grato por me ter inspirado tão valioso vício. Acho que só me envaideço de verdade de duas coisas na vida e uma delas é, justamente, o bom uso que faço da lingagem oral e escrita.
A intimidade me fez um ótimo aluno nas aulas de Língua Portuguesa e dono de uma facilidade natural para empregar a norma culta. Mas aí eu mesmo observava um aspecto curioso: embora eu normalmente me expressasse da forma correta, muitas vezes não tinha a menor ideia de por que as coisas eram como eram. Conhecia as regras, mas apenas em sua aplicação. Muitas vezes, aplicava as regras sem as conhecer. Sabia distinguir o certo do errado, mas desconhecia as razões.
A última vez que estudei Português foi em 1991, na preparação para o vestibular. Lá se vão quase duas décadas. De lá para cá, continuei a me esforçar pela expressão impecável, mas as regras que conhecia, os termos técnicos, os detalhes, foram-se apagando de minha mente. Isso me inquietou. Comecei a desejar uma volta aos livros, intento cuja realização, para variar, adiei por alguns anos. Na última quarta-feira, contudo, desencavei o velho projeto e comprei uma gramática. O propósito? Estudá-la de ponta a ponta, aprimorar a minha capacidade comunicacional.
Após examinar algumas opções, escolhi a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos de Azeredo, editado pela Publifolha. O autor se apresenta como professor de Língua Portuguesa em universidades públicas, por um tempo que agora beira os quarenta anos.
Minha franca predileção pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, corroborada por matéria que li onde ele era citado como o melhor dicionário publicado no Brasil, por ser mais técnico, preciso, variado e até poético1, faz com que eu veja com bons olhos qualquer obra do Instituto Antônio Houaiss. Mas minha eleição não foi determinada apenas por isso; pesou, também, ver que antes do estudo técnico propriamente dito, a obra dedica algumas dezenas de páginas à justificação do estudo da gramática, sua história no Brasil e à ideia de que a língua é um traço cultural e histórico muito mais complexo do que se costuma pensar. Ou seja, o estudo técnico ganhou uma dimensão humana que me encantou.
O mais surpreendente, para mim, é que Azeredo critica um pecado (o termo é meu) do qual eu próprio sou culpado: a insistência em preservar uma tal norma culta, um purismo de linguagem que mais não é do que a expressão de elites sociais. E eu, que detesto elites, deveria ser contra isso, também. Mas sempre repudiei os maneirismos da chamada linguagem coloquial e precisei de uma gramática para me alertar sobre o tamanho do meu erro.
Veja algumas assertivas do livro:

"A língua é a soma de todas as suas possibilidades de expressão, e só existe nas variedades de uso que a concretizam como meio de intercompreensão de seus falantes" (p. 27).

"A criatividade linguística é inerente ao conhecimento da língua, pois seus usuários não são meros repetidores de frases prontas" (p. 30).

"Na verdade, o mundo que nos cerca, o que sentimos, pensamos ou imaginamos não circula entre os homens e se transfere de um indivíduo a outro senão pelo filtro da palavra, que não é um condutor neutro de conteúdos, mas um gerador e modelador de sentidos" (p. 48).

"A linguagem verbal é o mais abrangente, elaborado e adaptável recurso de criação, assimilação, circulação e transmissão de representações do conjunto de nossas experiências da realidade. Mais que isso, ela é o próprio espaço simbólico que torna possíveis essas representações. Sua diversidade de formas e de usos não é, portanto, um fenômeno periférico e acidental nas relações humanas: ela é a própria expressão dessas relações" (p. 50).

"Uma língua é como é por causa de seu caráter simbólico e interacional: ela incorpora a cultura no homem à medida que o incorpora ao meio sociocultural" (p. 52).

A explicação mais precisa, todavia, talvez seja esta:

"Outra ideia muito difundida no passado, também hoje superada, é que as línguas 'evoluem para um estado de perfeição', ilustrado na maneira como a praticam seus grandes oradores e poetas, e que, atingido este estágio, elas precisam ser defendidas 'da corrupção daqueles que a utilizam mal', e, portanto, de toda mudança que as afaste daquele ideal de perfeição. Sabemos hoje que, no papel de meios correntes de expressão e de comunicação, todas as variedades de uma língua são dotadas de estrutura complexa em qualquer fase de sua existência histórica, funcionalmente adequadas aos objetivos interacionais de seus usuários, e permanentemente adaptáveis às novas necessidades de expressão da comunidade" (p. 61)

Creio ter aprendido que não devo mais implicar que certas variações na colocação pronominal, na concordância, na regência, etc. Mas é preciso identificar uma intencionalidade naquele que deseja comunicar-se. Se o indivíduo fala errado por pura ignorância, é imperioso educá-lo. Não necessariamente com a tal norma culta. Mas educá-lo, sob pena de renunciarmos ao progresso não apenas da sociedade, mas do próprio indivíduo.

1 Para justificar esta alegação, o autor da matéria recorreu ao vocábulo "saudade", que, dentre outras, recebe do Houaiss uma acepção comovente: "sentimento mais ou menos indefinível de incompletude".

Em tempo:
Não havia nenhuma intenção política nesta postagem, muito menos político-partidária. Mas ligado ao livro que leio e ao noticiário, não pude deixar de encontrar um exemplo importante das ideias de José Carlos de Azeredo no momento vivido por nosso país.
Há algum tempo, a imprensa elitista que nunca perdeu a oportunidade de menosprezar Lula passou a atacá-lo, furiosamente, por sua renitência em dizer que Dilma Rousseff seria a primeira presidenta do Brasil. Ora, seu ignorante, o vocábulo "presidente" não possui flexão de gênero! Estava provado, mais uma vez, que Lula não seria mais do que um bronco.
Será?
Aprendam, senhores, que sendo a linguagem um fenômeno social e histórico — ao contrário de uma rocha, que é dura porque essa é, de fato, sua condição na natureza —, o fato de um governante ser chamado de presidente é determinado por incontáveis fatores, que poderiam ter engendrado uma outra palavra completamente diferente. Assim como no século XIII se chamava giolho o que hoje é joelho, presidente poderia ser prasidente, presidante, presidinte, preposto, prepúcio, pitombas.
Por conseguinte, se o momento histórico pede que se proclame aos quatro ventos a importância de haver, pela primeira vez, uma mulher no comando do país, então presidente passa a ser, sim, uma palavra com flexão de gênero e as presidentas passam a ser uma realidade viva do mundo. Como as imperatrizes e as imperadoras.

Formação do professor

"A formação de um professor é construída mediante a soma de pelo menos três coisas: o que lhe ensinam, o que ele passa a saber em virtude de seu empenho e curiosidade, e, principalmente, o que aprendeu no ato de tentar ensinar."
José Carlos de Azeredo1

1 In: Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 2ª edição, São Paulo: Publifolha, p. 26.

sábado, 30 de outubro de 2010

Despertar

Acordar num dia em que ainda podemos permanecer na cama. Ver aquela criaturinha se aproximar, abraçando-nos calorosamente e dizendo "Bom dia, papai. Você é muito importante para mim." Ficar surpreso com a inesperada declaração.
Ah, se todos os dias começassem assim!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma lei

Após 36 dias, surgiu uma nova lei no Brasil. Foi publicada ontem, no Diário Oficial da União, a Lei n. 12.336, de 26.10.2010, que alterando legislação vigente "dispõe sobre a prestação do serviço militar pelos estudantes de Medicina, Farmácia, Odontologia e Veterinária e pelos médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários".
Os estudantes dessas áreas da saúde, do sexo masculino, hão de se interessar pela inovação legislativa, que lhes toca muito de perto.
De minha parte, entendo ser essencial acabar com o serviço militar obrigatório. Já passou da hora de fazer isso.

Tropa de elite 2

Demorei quatro dias para rascunhar estas linhas sobre Tropa de elite 2 porque sentia a necessidade de refletir melhor sobre o filme e suas provocações. Acima de tudo, face a minha condição de professor de Direito Penal, preciso lidar com temas como criminalização secundária, segurança pública, violência policial, sistema penitenciário, ressocialização, política criminal e tantos outros que podem ser objeto de reflexão a partir do filme.
Como educador, cumpro uma função que, antes de simplesmente contribuir para a formação técnica dos acadêmicos, pode influenciar o caráter dos mesmos e por isso faço minhas escolhas — dogmáticas, políticas, éticas, filosóficas —, que me conduzem a abraçar referenciais humanitários, hoje chamados (com uma boa dose de desprezo pelos desinformados) de garantistas, devido à teoria de Luigi Ferrajoli, mas que podemos encarar, simplesmente, como a aplicação do Direito Penal com base nos fundamentos, princípios e regras dispostos na Constituição de 1988.
Não à toa, tive que rir quando, logo na abertura do filme, a narração em off feita pelo (agora) Coronel Nascimento apresenta o personagem Fraga, ativista dos direitos humanos, como "intelectualzinho de esquerda filho da puta". Antes mesmo de a projeção começar, já sorrira ante a advertência de que a obra, apesar de "coincidências com a realidade", era de ficção. Maliciosa prudência dos realizadores, que parecem ter construído o roteiro com base nas pautas jornalísticas dos últimos anos, já que você reconhece nele fatos e personagens reais, escândalos e imoralidades bem vivas em nossas mentes.
Com efeito, lá está Fortunato (André Mattos), apresentador do programa policial que é um verdadeiro lixo, servindo apenas para que um personagem travestido de dono da verdade e última reserva moral do mundo bosteje a visão da classe média sobre a sociedade, o crime e os papeis do Estado. Vagabundo esse que se vale da popularidade, alcançada por discursos-clichê e atitudes ridículas (os passos largos e a dancinha), junto às massas não-pensantes, para fazer carreira política e, eventualmente, enriquecer às custas do crime que jura combater.
Lá está também a corrupção entranhada em todos os níveis do poder público, desde o policialzinho mal remunerado e violento, que extorque a mesada dos bandidos com a maior naturalidade, até os altos escalões do governo e, se preciso, o próprio governador.
Os dois Tropa de elite são vivamente amados por uns e tão odiados quanto, por outros. Somente por isso já se pode reconhecer o seu sucesso. É curioso como ele recebe críticas ferozes de forças sociais que se digladiam na vida real, a demonstrar que, ao contrário do que possa parecer, ele não vende uma ideologia necessariamente de direita ou de esquerda. Mesmo assim, é usualmente rotulado como fascista, pela mensagem que supostamente tenta transmitir.
Honestamente, não estou convencido de que a equipe de Padilha tenha a intenção de passar mensagem alguma. É provável que eles apenas queiram induzir um debate, sem nos impor suas opiniões pessoais. Querem ver o circo pegar fogo e colher os louros artísticos e financeiros disso, sem a pretensão de, tal qual o mala sem alça do Caetano Veloso, irrogar-se uma condição de corregedor geral do Brasil.
Nascimento comanda a desastrada operação na penitenciária,
que vai "mudar a história do Rio de Janeiro"
O principal porta-voz da equipe, o agora Tenente-Coronel Nascimento, é mesmo um fascista? Eu o encaro como um pit bull: sempre pronto a destroçar quem for preciso, mas no fundo a culpa é do sujeito que criou o cachorro, aproveitando-se de suas inclinações ao ataque.
Obviamente, não teria a leviandade de minimizar os seus atos, que pratica por livre escolha. Mas ele foi criado por um sistema, que agora é seu inimigo mas que, pelo visto, não tem como ser derrotado.
Acredito que Tropa de elite preste um serviço ao Brasil. Num nível menor, por nos colocar ombro a ombro com os filmes de ação estrangeiros no quesito qualidade técnica. Num maior, por levar todo mundo a discutir questões essenciais para a nossa sobrevivência como sociedade, inclusive a sempre acomodada classe média, que reclama das mazelas sociais de frente para a TV de 42 polegadas, no ar refrigerado e, no máximo, faz uma passeata contra a violência aqui, outra ali, e volta para o condomínio.
As críticas que li sobre o filme, até aqui, tratam mais sobre os aspectos propriamente cinematográficos da obra. Continuo esperando as análises de mérito, de todos os tipos. O meu alento é ver a sociedade provocada, agitada, emitindo opiniões. Talvez assim, quem sabe, consigamos subir um pouquinho o nível do debate.

Direitos humanos e competência da Justiça Federal

Por meio da Emenda Constitucional n. 45, de 2004, foi instituída no país a possibilidade de deslocar a competência, da Justiça Comum para a Federal, do julgamento de crimes relacionados à violação de direitos humanos. Eis a norma:

Art. 109. (...)
§ 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.

Esta norma foi controversa desde o primeiro momento. Não se sabia ao certo que parâmetros deveriam ser utilizados para interpretar essa tal "grave violação" de direitos humanos, seja pelo uso de vocábulos juridicamente indeterminados, assaz valorativos, seja porque boa parte dos crimes viola direitos humanos. Em última análise, qualquer homicídio, qualquer lesão corporal, qualquer estupro viola direitos humanos, sendo certo que não era disso que tratava o poder constituinte derivado, senão de agressões particularmente graves.
Quanto ou de que forma, continuamos a especular. Não à toa, num país como o Brasil, em que a violação de direitos humanos é a tônica, quase seis anos se passaram até que o STJ decidisse, pela primeira vez, federalizar um julgamento. Aquela corte já decidiu incidentes do gênero antes, inclusive no que respeita ao assassinato da freira Dorothy Stang, aqui no Pará. Mas sempre em sentido negativo. Agora, contudo, determinou a federalização do julgamento de um homicídio ocorrido na Paraíba em 2009, tendo como vítima o ativista de direitos humanos Manoel Mattos.
Vamos aguardar a publicação do acórdão, cuja leitura nos permitirá entender melhor como está sendo construída a jurisprudência sobre o tema.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sombras

Conheça a arte de Kumi Yamashita.

Obscurantismo

Do Consultor Jurídico:

Vivemos uma campanha obscurantista
Por Wadih Damous (presidente da OAB-RJ)

A vinda do juiz espanhol Baltasar Garzón ao Brasil, onde recebeu a justa solidariedade da OAB do Rio de Janeiro contra a nefasta perseguição da extrema direita movida contra ele em seu próprio país, faz-nos refletir sobre a perigosa capacidade de setores obscurantistas têm de semear o preconceito e o temor à verdade.

Garzón, responsável por levar a julgamento ditadores sanguinários, como o chileno Augusto Pinochet, tem atuado destemidamente no combate ao narcotráfico, ao crime organizado e ao terrorismo em diversos países, com amplo reconhecimento internacional. Mas, ao investigar os crimes da ditadura franquista em sua pátria, viu-se na situação absurda de ser processado pelas organizações às quais não interessa a investigação, por seu possível envolvimento na morte e desaparecimento de milhares de civis.
Na democrática Espanha, tal como no Brasil, ainda se faz sentir a resistência de setores da direita ao conhecimento de sua própria História e dos fatos que a mancharam no período das sombras. Simplesmente para que se dê às vítimas direito à justiça e à reparação que permitam a verdadeira reconciliação nacional à luz da verdade, e não do silêncio imposto.
Garzón veio ao Brasil no momento em que vivemos uma campanha à Presidência da República na qual os obscurantistas de hoje tentam, no bojo do processo eleitoral, sabotar o Plano Nacional de Direitos Humanos corajosamente proposto pelo ministro Paulo Vannuchi. Não querem a instalação da Comissão da Verdade no Congresso Nacional. Também recusam a proposta para que o aborto seja tratado como tema de saúde pública — distante de concepção de caráter religioso. Buscam, em seu propósito, confundir a opinião pública misturando Estado com Igreja. separados desde a primeira Constituição republicana, em 1890.
*Artigo publicado no jornal O Dia, 21 de setembro de 2010

Meus rumos na música brasileira

Não me lembro quanto tempo fazia que eu não comprava um CD. Antes, eu era um consumidor desse produto, mas com o tempo fui parando. Já faz um tempo que só escuto os discos que copiei para formatos digitais (copiei discos que já havia comprado, ok?), enquanto dirijo. Perdi completamente o hábito, inclusive por falta de tempo, de ficar à toa, só ouvindo música. Mas sinto falta e já andava cansado do repertório repetitivo. No último sábado, comprei dois CD, ambos às cegas.
Zeca Baleiro (44) é um dos meus cantores favoritos. Aprecio, sobretudo, o seu talento como compositor. Belíssimos versos da música brasileira contemporânea saíram de sua pena e podem ser encontrados, p. ex., em seu melhor trabalho, Líricas (do qual recomendo, sobretudo, "Brigitte Bardot"). Mas ou eu mudei (e fiquei mais chato, talvez) ou o maranhense de Arari anda há bastante tempo numa fase nebulosa, no mínimo controversa, de sua capacidade criativa.
Quando gosto de um cantor, compro o CD só de saber de sua existência, sem me dar ao trabalho de me informar a respeito previamente. Fiz muito isso com Marisa Monte, até ela me encher o saco de vez. E Zeca Baleiro encheu meu saco de vez. Comprei seus trabalhos anteriores, O coração do homem bomba, em dois volumes, e achei muito, muito chatos, opinião compartilhada por parentes que gostam do cara tanto quanto eu. Seu último lançamento, Concerto, justamente o que comprei no sábado, se pretende um trabalho autoral, uma obra caprichosamente gravada ao vivo, mas que me deu um sono danado. Tentei gostar, juro, mas achei um tédio total. Duas faixas ensaiam ser mais palatáveis, mas não salvam o conjunto. Vou parar e escutar de novo, com mais calma, mas não sei se a opinião mudará.
Felizmente, o segundo CD comprado valeu a pena.
Há algum tempo vinha escutando elogios sobre Roberta Sá, mas como não ouço rádio e só assisto na TV uma progração restrita e direcionada, desconhecia totalmente o seu trabalho. Sabia apenas que se tratava de um novo nome do samba. Dia desses, escutei a canção "Laranjeira" pela primeira vez, gostei e, quando me deparei com o CD Que belo estranho dia para se ter alegria, passei a mão.
A primeira impressão que se tem ao escutar a potiguar de 30 anos é de encantamento com sua belíssima voz, obviamente treinada a sério ao longo do tempo. Uma voz comovente, arrebatadora mesmo. Confesso até um certo constrangimento em saber, somente agora, que o primeiro disco da moça (Sambas e bossas) foi lançado em 2004. Azar o meu que demorei a conhecê-la. Mas seu CD passou dois dias no tocador do carro e agora vou atrás dos outros.
Se gostar da boa música brasileira, confira.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

TV money

Brasileiro, até hoje, tem mania de menosprezar manifestações artísticas, como se não fossem atividades profissionais tão respeitáveis como quaisquer outras. Os estadunidenses, ao contrário, valorizam o espetáculo, por isso normalmente investem pesado na música, no teatro, na dança, etc. O mais triste é que, a despeito desse desprezo pelas diferentes manifestações culturais, brasileiro acha normal que esse bando de inúteis que batem bolinha ganhem fortunas astronômicas.
Um dos principais produtos de consumo da indústria do entretenimento são os seriados. E quem participa deles pode obter um retorno financeiro espetacular, o que ajuda a explicar a curiosa separação entre ator de cinema e ator de TV. Normalmente, eles não se misturam.
Em um blog especializado, você encontra uma lista dos atores mais bem pagos da TV americana. O campeoníssimo é o problemático ator Charlie Sheen, que fez carreira no cinema e se salvou do obscurantismo graças ao seriado Two and a half man. O rapaz recebe a bagatela de um 1.250.000 dólares por episódio. Para se ter uma ideia, o segundo colocado é Jon Cryer, que interpreta o irmão de Sheen no dito seriado e recebe apenas 550 mil dólares por episódio. Mas isto porque estamos falando das comédias, que são mais rentáveis, haja vista que não falta no mundo gente disposta a desligar o cérebro como condição para se divertir.
Na área das séries dramáticas (a meu ver, as únicas que contam), o mais bem pago é Hugh Laurie, o protagonista de House, com módicos 400 mil dólares por episódio. O terceiro nome da lista é o de David Caruso, o Horatio Caine de CSI: Miami, que já foi apontado como o programa de TV mais visto no mundo (suponho que programa de entretenimento). Ele ganha 375 mil dólares por episódio, para interpretar o maior de todos os canastrões que a TV já viu, sempre tirando e colocando os óculos escuros e falando sem olhar para o interlocutor, com aquela voz cavernosa. Mas até que nos divertimos com ele.
No link acima, você encontra a lista detalhada.

Você sabe com quem está falando?


O epíteto autoproclamado do Superior Tribunal de Justiça é "o Tribunal da Cidadania". Mas o que dizer dessa pretensão depois do repugnante episódio em que o Ministro Ari Pargendler, presidente daquela corte, humilhou gratuitamente um estagiário, dispensando-o sumariamente?
O episódio, trazido a lume pelo Blog do Noblat, mostra uma nova faceta de uma autoridade que, até aqui, parecia merecedora de admiração. Mas, pelo visto, o sucesso sobe mesmo à cabeça de todos. E não se pode, sequer, minimizar a conduta do magistrado, atribuindo o destempero a um dia ruim, porque a sua decisão de não se manifestar sobre o episódio, mesmo após ser insistentemente procurado para fazê-lo, sugere que o ministro não se sente nada arrependido. Com a repercussão negativa, no mínimo, deveria readmitir o rapaz, dando mostras de uma virtude que poucos sabem ter: a capacidade de reconhecer os próprios erros — e não apenas no discurso.
Nessa luta de um Davi estudante contra um Golias ministro de tribunal superior, não parece que haverá moral da história, a nos fazer aprender uma lição de valor, de caráter, de humanidade. Parece que as coisas funcionarão como funcionam no cotidiano. A vítima continuará sendo apenas uma vítima e, daqui a pouco, terá caído no esquecimento.
Como todas as outras.

Atividade paranormal 2

Pela lógica do capitalismo, se o projeto deu certo, isto é, se rendeu bons lucros, devemos explorá-lo um pouco mais. Assim é que, no cinema, surgem as continuações de obras que, talvez, guardassem melhor lugar na história se permanecessem como são. Continuações são sempre uma expectativa. A maioria delas decepciona. Neste caso específico, é possível que muitos gostem mais do que do original. Outros podem achá-lo pior.

A simpática cadela Abby e Hunter, o bebê que fez
muitas mulheres terem aversão especial pelo filme
 Observando o que escrevi sobre o projeto original, constato que a segunda incursão da ideia de simular cenas reais, gravadas pelos próprios interessados e trazidas a público após uma tragédia, modifica a nossa compreensão sobre o universo criado pela equipe. Sabemos, agora, que Katie possui uma irmã, Kristi, protagonista da segunda parte. Portanto, causa maior estranheza que Katie, nem no auge de seu desespero, tenha feito qualquer referência à família. Mas, pelo visto, elas não tinham outros parentes.
O grande defeito da parte 2 é que repete e aprimora a bobagem que é a distinção entre fantasmas e demônios. E se valendo de Ali, uma adolescente, incorre no pecado de tentar explicar a causa de tanto mal e sofrimento. A explicação é de uma babaquarice lastimável, mas que podemos relevar considerando que a menina faz o que todo mundo faz hoje em dia: busca respostas na Internet e acredita em qualquer bobagem que lê. Assim, podemos dizer que, oficialmente, não há explicações para o drama. Contudo, fica claro que o roteiro realmente investe nessa explicação tosca.
A linguagem do filme permanece igual: ambientes escuros e soturnos são mostrados, sem que nada de anormal aconteça. Isso cria a ansiedade. Aos poucos, fenômenos de menor monta aparecem. Vêm os primeiros sustos. Algumas explicações racionais são buscadas, como no caso do limpador da piscina. Até que se chega a um momento onde não é mais possível negar a presença de um mal dentro da casa. Sem sangue, sem gosma, usando como recurso previsível apenas os sustos proporcionados pelos efeitos físicos e barulhos, Atividade paranormal 2 vai minando o espírito do espectador, fazendo-nos detestar nossas casas. Por melhores que sejam, sempre possuem um canto estranho, umas áreas escuras, um espaço meio abandonado e propício a acumular seres que não deveriam estar ali.
O filme funciona e tem o mérito de, com o seu encerramento, solidificar o roteiro, já que a trama se funde com a antecedente, expandindo a história. Apesar disso, ele denuncia seu jeitão de blockbuster. Se tentarem uma parte 3 (e há gancho para isso), é muito possível que o resultado seja tétrico. Minha opinião, vá ver correndo, antes que alguém lhe conte os lances mais emocionantes.

Paranormal activity 2, dir. Todd Williams, roteiro de Michael R. Perry, EUA, 2010

Estreia do cinema

Na noite de sábado, conheci internamente o Cinépolis. Fui à tarde comprar os ingressos. Havia três guichês funcionando, dos quatro disponíveis. Os funcionários ficam por trás de um balcão, sem proteção de vidro, como existe no Moviecom, o que nos impede de esganar aqueles funcionários mal educados. Havia uma fila pequena, mas um pouco lenta. Quando fui atendido, não resisti e comentei de minha satisfação com a chegada do novo cinema, já que odeio o Moviecom.
— O senhor não é o primeiro a me dizer isso — disse a moça, sorrindo.
— Lógico — respondi. — Não fui o único que eles trataram mal.
Voltei à noite, para o filme. Observei que os funcionários são jovens e parecem tensos. Quantos deles não estarão em seu primeiro emprego? Mas são atenciosos e querem atender bem. A impressão que me ficou é que eles recitam os textos que aprenderam durante o treinamento. O importante, contudo, é a educação e a boa vontade.
As salas são muito boas, claro que superiores às da concorrência. O Cinemark continua no topo da minha preferência, mas uma coisa de cada vez. Penso que as poltronas poderiam ser um pouco mais largas, mas são confortáveis, notadamente pela leve inclinação do encosto. A qualidade das imagens e o som também correspondem às expectativas.
A boa impressão é reforçada pelo fato de que está tudo novo, limpíssimo, das paredes às roupas dos funcionários. Duro é pensar que logo vai começar a depredação, mas isso é culpa de uma parte do público, que parece ter prazer em destruir aquilo que utiliza.
Por não ter utilizado, nada posso dizer sobre os serviços de alimentação. Mas um amigo me contou uma engraçada história sobre uma atendente que, ao trazer-lhe um cachorro quente, escorregou e estatelou-se no chão, mas levantou a mão e disse:
— Não se preocupe, senhor! Eu salvei seu cachorro-quente!
Os próprios colegas riram e brincaram, dizendo para pegarem o vídeo com as cenas da queda, que meu amigo sugeriu mandar para as "videocassetadas". Parece que o clima anda bom lá, entre os novos empregados da cidade.
Bem vindo, Cinépolis. Não mude!!!

sábado, 23 de outubro de 2010

Debatendo o tráfico de pessoas

A última atividade da X Semana Jurídica do CESUPA, que encerrou ontem no princípio da noite, foi uma mesa redonda sobre o tema "Tráfico de pessoas". De mero espectador, interessado pelo tema, tornei-me participante da mesa, devido a um imprevisto que atingiu uma colega. Para mim, um feliz imprevisto, porque me permitiu tomar parte ativa de uma tarde produtiva e muito agradável.
A mesa foi presidida pela Profa. Mônica Hagedorn, nossa colega de casa, e contou com a presença do Procurador da República Ubiratan Cazetta, que sempre colabora conosco; de Milene Matos, coordenadora pedagógica da ONG Sodireitos, que nos brindou com uma visão prática e muito humana das pessoas vitimizadas por esse crime tão nefando, com o enfoque voltado para a realidade de Belém do Pará; e deste que vos escreve.
Descortinando como se desenrola o drama que vitimiza tanta gente e como essas pessoas se sentem, quando acontece de voltar para suas casas (abordagem de Milene); tratando das dificuldades e deficiências do poder público, bem como do nó que é obter cooperação internacional em qualquer área (abordagem de Cazetta); e criticando a legislação vigente e o mercado consumidor da exploração sexual, normalmente formado por cidadãos exemplares perante toda a sociedade (minha abordagem), conclamos os acadêmicos a aprofundar pesquisas sobre o tema, escrever a respeito e, inclusive, aderir a ações concretas, seja através de grupos de extensão universitária, seja através de organizações não governamentais.
Pela segunda tarde consecutiva, ficamos com a sensação não apenas de dever cumprido, mas de termos ao menos plantado uma boa semente em alguns corações e mentes. Para mim, foi um privilégio participar. E foi extremanente benfazejo ver tantos estudantes acompanhando, com real atenção, e fazendo perguntas, deixando suas mensagens.
Por essas e outras, sempre repito que se há um lugar em que gosto de estar, é na academia. Esse é o meu lar.
Cumprimentos finais, reiterados e entusiasmados às professoras Bárbara Dias e Luciana Fonseca pela organização do evento tão bem sucedido.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CESUPA — 20 anos

Ontem à noite, o Centro Universitário do Pará  CESUPA realizou sessão especial para comemorar os seus 20 anos de existência. Na oportunidade, assistimos à palestra intitulada “A educação Superior no Brasil: um salto para o futuro?", proferida pelo Prof. Paulo Barone, doutor em Física, da Universidade Federal de Juiz de Fora (ei, Ana, é teu vizinho!!). Barone integra o Conselho Nacional de Educação, do qual atualmente é vice-presidente, mas que já foi presidido por ele. Simpático e informal, apaixonado pela condição de professor, ele nos falou sobre os impactos trazidos pela tecnologia, com os desafios consequentes sobre os processos educacionais.
Após a palestra, a solenidade se tornou uma homenagem ao nosso reitor, Prof. João Paulo do Valle Mendes, doutor em Medicina e com uma década de serviços prestados ao Conselho Nacional de Educação, pelos 80 anos que completa hoje. Para quem não sabe, o CESUPA é uma instituição familiar que tem pai e filhos na administração superior e a presença constante dos demais familiares nos eventos acadêmicos. Por isso, mesmo se tratando, em princípio, de uma solenidade acadêmica, sempre existe aquele clima familiar, que torna genuínas as emoções. Estas não precisam ser declaradas, porque são vividas e compartilhadas.
Estou no CESUPA há 11 anos, 1 mês e 13 dias. Portanto, um pouco mais da metade de sua trajetória. E me sinto muito feliz por isso, porque vi a instituição crescer, sob diversas perspectivas: a física, a oferta de cursos, as linhas de atuação, os serviços à comunidade, etc. Sem perder de vista o objetivo de oferecer serviços educacionais que não cabem nas propostas mercantilistas usualmente relacionadas ao ensino privado. De longe, o CESUPA já informa: aqui é o caminho das pedras. Portanto, a estratégia para o sucesso acadêmico é aquela mesma: estudar. Não tem saída pela tangente. E não tem mesmo, como posso afiançar, na condição de professor havido por rigoroso, que sempre encontrou na instituição respaldo para as iniciativas sérias.
Sou casado com uma professora da instituição e, tendo ambos tantos amigos lá, nossa filha de certo modo nasceu na casa, uma dentre as tantas crianças nascidas de membros daquela fertilíssima instituição, que chamamos de "geração CESUPA". Assim, também nos sentimos em família lá dentro.
Registro aqui as homenagens que externei pessoalmente, ontem, ao Dr. João Paulo, cuja honorabilidade é notória em meio a todos quantos conhecem a história da educação no Pará e mesmo fora dele. E quanto à instituição que ele conduz com sabedoria e bondade, uso uma expressão recorrente entre os amigos da blogosfera: Vamos em frente!

Sobre a criminalização dos movimentos sociais

Quando um Estado não atende as necessidades de seu povo — p. ex, a respeito de saúde, moradia, emprego, etc. —, descumpre as finalidades para as quais foi constituído. Afinal, a razão por que as pessoas abdicam de seus poderes naturais em favor de um soberano é que este, dotado de poderes especiais e superiores, promova o bem comum. Um governo que se desvie desse objetivo se torna tirânico e, como tal, pode ser combatido. Isto porque existe uma reserva de direitos tão particular que permite a cada indivíduo resistir ao próprio Estado, em prol da satisfação de suas necessidades. Esta é a justificação do direito de desobediência.
Se você é um classe média típico ou fabricante de notícias sobre política e sociedade da maioria dos grandes veículos de comunicação deste país, ao ler o parágrafo anterior, deve ter esbravejado. As ideias acima pertencem a algum sem-terra comunista, vagabundo e f..., certo?

Não, este não!

Sim, este!
 Errado. As ideias acima foram desenvolvidas pelo filósofo inglês John Locke (29.8.1632-28.10.1704), um dos maiores ideólogos do liberalismo, em seu Segundo Tratado sobre o Governo. E o liberalismo, como até nosso crítico hipotético deve saber, é uma das bases da Revolução Francesa, que levou ao poder a burguesia, aquela mesma que, duzentos anos mais tarde, fedia e não deixava haver poesia.
A filosofia lockeana foi o referencial teórico adotado pelo Prof. Ivanilson Raiol, ontem à tarde, durante a nossa mesa redonda sobre "Criminalização dos movimentos sociais". Fiquei feliz de ver que o Ministério Público, instituição usualmente aferrada a cânones de legalidade radicais e até obsoletos, possui em seus quadros uma alma tão libertária, devidamente respaldada em anos de muito estudo e preparação.
Depois dele, recorri ao meu guia jurídico-espiritual, Eugenio Raúl Zaffaroni, para relacionar a ideologia reinante sobre os movimentos sociais (por quem está fora deles) à teoria do Direito Penal do inimigo. E entre nós dois, minha muito querida Profa. Ana Cristina Darwich Leal, trouxe-nos enfoques sociológicos sobre a questão. Já na fase dos debates, a Profa. Bárbara Dias trouxe provocações sobre as contradições nos discursos dos críticos e sobre o papel da imprensa brasileira.
Ficamos todos muito satisfeitos com a tarde de ontem. O auditório estava cheio e o público realmente ficou para fazer perguntas. A essa altura, claro, muita gente começa a sair, mas mantivemos um grupo atento até o efetivo encerramento dos trabalhos. Pelo conteúdo e pelo retorno que nos foi dado pelos alunos, sentimo-nos altamente recompensados.
A X Semana Jurídica do CESUPA termina hoje. E esta tarde voltarei à mesa, mas como debatedor, na mesa sobre o tema "Tráfico de pessoas", com o Procurador da República Ubiratan Cazetta.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Debatendo sobre movimentos sociais

Esta tarde, às 15 horas, em meio às atividades da X Semana Jurídica do CESUPA, participarei de uma mesa redonda sob o tema "Criminalização dos movimentos sociais".
A mesa será presidida pela Profa. Ana Cristina Darwich Leal e contará com a presença, ainda, do Prof. Ivanilson Raiol, Promotor de Justiça. Será a segunda vez que terei o prazer de dividir a mesa com Raiol, após termos falado sobre segurança pública no ano passado. Já com a minha querida Ana, que também possui formação em Sociologia, será uma estreia e uma grande oportunidade para eu aprender um pouco sobre tema tão espinhoso, numa perspectiva interdisciplinar.
Em decorrência de minha preparação espiritual para o evento, não haverá mais postagens hoje.
Um abraço e até amanhã.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Hora do papai noturna

Um dos aspectos positivos de ser professor é que, dependendo da maneira como sejam dispostos os horários de aula, ficamos com algum tempo livre durante a semana. Cientes disso, há dois semestres eu e Polyana temos reservado as noites de quarta-feira, bem no meio da semana, para ficar com nossa filha, reduzindo os efeitos de nossa ausência, que ela sente e expressa através de um aborrecimento progressivo, que passa quando podemos nos dedicar a ela.
Há algum tempo, o programa das noites de quarta tem sido algo que, em princípio, não poderia esperar-se de mim, mas que acabou acontecendo por ser, Belém, uma cidade de poucas opções, notadamente para quem tem uma criança. Refiro-me ao shopping, onde se pode encontrar uma ou duas opções de lazer infantil e alimentação, com segurança e acesso a banheiros, fraldário, etc.
Hoje, uma reunião no trabalho impediu que Polyana estivesse conosco. Para não frustrar as expectativas da pequena, acabamos tendo uma hora do papai noturna, ou seja, um momento de passeio só para pai e filha. Mas esta noite, ao chegarmos ao nosso destino habitual, deparei-me com esta novidade:



Hoje foi a apresentação do Cinépolis Belém para convidados e imprensa. Este registro foi feito um pouco antes de as lonas serem descerradas. Mais tarde, na passagem do guichê de pagamento do estacionamento, quando o espaço já fora completamente descortinado e a festa corria solta, não resisti e dei uma subidinha para conferir.
Os novos cinemas de Belém são guarnecidos por um saguão muito bonito e requintado, com a predominância de uma elegante cor azul que agradará bastante os fãs daquele time sem série, sem estádio e sem onde cair morto. Só falta, claro, conhecer as salas por dentro, sobretudo a sua qualidade. Mas o público só poderá fazê-lo a partir da próxima sexta-feira. Eu, sabe Deus.
Enquanto isso, eu e Júlia permanecemos em nossa rotina de jantarzinho e, após ele, um sorvetinho.



Júlia adora sorvete de goiaba mas, por alguma razão, ele parece restrito à Cairu da Estação das Docas. Ausente o sabor predileto, encarou um de milho, que tive o prazer de dividir com ela. Depois, fomos buscar a mãe.
E assim se passou mais uma quarta-feira em nossa rotina.

Há mais homens ou mulheres no mundo?

Segundo a Organização das Nações Unidas, o sexo que vence a contagem possui 57 milhões de indivíduos a mais que o outro.
Mas na América Latina, o sexo predominante é justamente esse outro.

Absolvida mulher que matou o estuprador do filho

Não é a primeira vez que um caso desses acontece. Tenho notícia de um semelhante, no Município de Salinópolis. Mas aqui me refiro a um caso ocorrido no Município paulista de São Carlos.
Maria do Carmo Ghislotti soube que seu filho, então com 3 anos de idade, fora sexualmente abusado por um adolescente de 15. Então se dirigiu à Delegacia de Defesa da Mulher, onde o agressor estava, e lhe enfiou uma faca no pescoço. Apesar do socorro recebido, ele não resistiu à gravidade dos ferimentos.
Maria do Carmo foi denunciada por crime de homicídio qualificado. O Ministério Público entendia ter havido vingança. Mas cinco dos sete jurados a absolveram, entendendo que ela agira sob violenta emoção e em defesa do filho. Inconformado, o MP recorreu e conseguiu anular o julgamento. Mas eis que no segundo julgamento ela foi novamente absolvida. E dada a confirmação do veredito absolutório, não cabe mais recurso.
Maria do Carmo é uma mulher livre. Se tivesse sido julgada por um juiz de carreira, dogmático, acostumado a autos processuais olvidando os seres humanos que estão por trás deles, teria sido condenada a uma pena elevada. Mas ela foi julgada pelo tribunal do júri, a controvertida instituição que chama membros da sociedade para julgar um seu igual, como forma de humanizar o exercício da jurisdição. Há quem ame, há quem odeie.
Tribunal do júri é isso.

Fonte: http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2010/10/20/acusada-de-matar-suspeito-de-abusar-do-filho-absolvida-pela-2-vez-em-sp-922826960.asp

Do Coronel Moura

"O casamento é uma instituição moderníssima. Hoje, nada mais obriga duas pessoas a estarem juntas, a não ser o amor. E ser pai é um barato muito grande, né, cara? Não dá nem para explicar."
Wagner Moura, ator,
numa ternura muito diferente do seu mais famoso personagem

PS Sim, Wagner: nem dá para explicar.

PS2  Você sabia? Segundo a Wikipédia, o nome completo do rapaz é Wagner Maniçoba de Moura? Maniçoba, mano?! Que coisa mais paraense!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Desconstruindo o voto consciente

1 - À cada nova eleição vem à tona o discurso do “voto consciente”. Na mídia, não são raros os articulistas que clamam por consciência na hora do voto e se lamentam daqueles que desvalorizam um dos mais fundamentais instrumentos da democracia. De alguma forma, é sempre importante discutir parâmetros para apreciar o valor do voto, seja lá o que isso signifique. Os problemas começam quando, inconscientemente, o discurso do “voto consciente” acaba por criar duas categorias de eleitores.


2 - Não se pretende aqui defender um relativismo no que concerne aos fatores que impelem um eleitor a votar em um ou outro candidato. Mas fazer a crítica a um tipo específico de “voto consciente”, aquele que povoa o senso comum e parece, por vezes, reforçar alguns estigmas anti-democráticos da sociedade brasileira. O discurso do “voto consciente” ao qual nos referimos está geralmente associado a três fatores que o identificam 1) O voto bem informado 2) O voto em pessoas honestas 3) O voto em pessoas inteligentes, com boas propostas para o país.

3 - À primeira vista, estes parâmetros pareceriam adequados, ainda que não suficientes, para avaliar o valor do voto, não fosse pelas dificuldades implícitas na verificabilidade dessas proposições e na ambigüidade que elas carregam consigo. O que significa estar bem informado em um país onde a mídia é dominada por pequenos grupos e oligarquias francamente comprometidos com uma agenda específica para o país? Qual seria o grau de informação ou o “tipo” de informação necessária para avaliar um “voto consciente”? Quanto à honestidade, não há dúvidas de que ela deveria figurar como requisito para todo o homem público. Mas em meio a um sistema com problemas institucionais profundos, a moralidade política aparece por vezes no cenário político como um slogan de efeito catártico no eleitorado, não raro proferido por aqueles sabidamente comprometidos com interesses escusos. No entanto, para certa parcela deste mesmo eleitorado, parece valer o lema de Pompéia: “o mais importante é parecer honesto”. Sobre reforma política, nem uma palavra. Aliás, este é um tema muito complicado para o eleitor “consciente”.

4 - Talvez fruto de nossa herança tecnocrática, é corrente ainda o pensamento de que a democracia deva ser gerida por um grupo de notáveis, homens inteligentes, em contraposição aos ignorantes que nada sabem sobre os problemas do país. Não raramente, líderes sindicais, políticos oriundos de movimentos sociais ou simplesmente de origem humilde são inclusos neste último grupo, como se pessoas munidas de certos conhecimentos específicos, tivessem por si a titularidade ou a capacidade de resolver os problemas políticos melhor que os próprios interessados, a despeito dos interesses que representam e de seu comprometimento com a causa pública. Fundamentado nesta crença, para “eleitor consciente”, a consagração do apedeuta (a exemplo do Tiririca) causa mais indignação e preocupação do que a reforma agrária, o lucro dos bancos ou o trabalho infantil.

5 - A grande contribuição das revoluções burguesas do século XVIII foi eliminar, ao menos no campo formal, as diferenças entre os homens por motivo de nascimento e de classe social, sob o lema de que todos nascem iguais em direitos e deveres. Porém, até hoje, parece que não conseguimos eliminar um outro tipo de desigualdade: aquela que não é fruto do nascimento, mas das ditas desigualdades naturais entre os homens. Como se alguns, por méritos educacionais ou morais, merecessem ter mais direitos que outros.

6 - O discurso do “voto consciente” não raro tem sido utilizado para avalizar desigualdades entre os cidadãos, desqualificando o voto dos humildes, como se o “voto mal” ou a ignorância política fosse sempre associado ao eleitorado mais pobre, mesmo diante de todas as relações promíscuas que as classes dominantes sempre mantiveram com o Estado e mesmo diante das informações limitadas que condicionam o voto de todo o cidadão. A deliberação pública, por outro lado, valor garantidor e qualificador da democracia, aberto a todos, ricos ou pobres, não entra no cálculo do eleitor dito “consciente”. Ele está imerso em seu próprio mundo.

7 - Em nossa história política, confundindo o direito à educação com legitimação para hierarquização de cidadãos, confundindo formação política com informação técnica, confundindo ser honesto com parecer honesto, criamos e recriamos a nós mesmos à imagem e semelhança do Alienista, o tecnocrata de Machado de Assis. O problema é que, ao contrário do personagem, parece que não nos damos conta de nosso próprio ridículo.

David Carneiro é um jovem extremamente inteligente. Em uma breve conversa já é possível perceber que seus pensamentos transitam num nível mais sofisticado de elaboração. E somando a inteligência aos valores que nossa sociedade deveria cultivar, ele é também um humanista. Não só de discurso, mas também de ação.
Neste ensaio, covardemente afanado por mim de seu blog, Tribuna do Davi, que pede uma visita, pode-se perceber um pouco do que falo.
Como diria Chico Anysio, queria ter um filho assim!

A volta da diversão, espero

Foram anos de espera, de profundos aborrecimentos, externados através de várias postagens aqui no blog. Mas, enfim, na próxima sexta-feira Belém voltará a ter cinema.



O Cinépolis anuncia oficialmente, em sua página, a inauguração de suas salas em Belém, no Boulevard Shopping.
Segundo texto que está sendo veiculado na imprensa local (Pará Online a Ache Belém), as setes salas (sendo duas com tecnologia 3D) abrirão suas portas no dia 22 de outubro, ou seja, daqui a três dias. A mídia corporativa promete uma "nova experiência em cinema". Veremos. De minha parte, só o fato de ser reinstituída a concorrência no mercado já é um alento.
Aos interessados, eis os preços:

Salas tradicionais

Sex., sáb., dom. e fer.: R$ 17,00 (matinê) e R$ 19,00 (noite)
Seg., ter. e qui. (exceto fer.): R$ 13,00 (Matinê) e R$ 15,00 (noite)
Qua. (exceto fer.): R$ 12,00 (dia inteiro)

Salas 3D
Sex., sáb., dom. e fer.: R$ 24,00
Seg., ter. e qui. (exceto fer.): R$ 19,00
Qua. (exceto fer.): R$ 18,00

O lado ruim é a previsível perda de uma certa tranquilidade que ainda se tem naquele shopping, em alguns horários. Podem me chamar de preconceituoso o quanto quiserem, mas na minha idade já me permito uma dose maior de sinceridade. O fato é que os cinemas atrairão levas e levas de meninotes, que por razões inexplicáveis não conseguem comunicar-se em níveis humanos de decibeis e precisam gritar e rir o tempo inteiro, provocando aquele ruído de fundo que, após um certo tempo, costuma nos enlouquecer. Sem falar que estacionarão na pequena praça de alimentação e criarão raízes nas cadeiras, mesmo que nada consumam, prejudicando os lojistas e os bestas que chegarem depois, à procura de um  lugar.
Mas a hora é de comemorar a chegada do Cinépolis. O resto a gente vê como fica.

Inflação em baixa

Não, eu não me refiro aos preços ao consumidor, e sim à inflação legislativa.
Vocês já devem ter percebido que acompanho a produção legislativa brasileira, o que rende postagens de vez em quando. E devido ao meu hábito de acompanhar as publicações oficiais, posso lhes afirmar que 2010 foi um ano em que a válvula de cuspir leis esteve mais fechada do que em outros momentos. Decerto que o Congresso Nacional esteve muito mais ocupado com outros assuntos. Afinal, o year after Lula que será 2011 tem provocado muita mobilização.
A última lei publicada neste país foi a de n. 12.335 e se limita a criar cargos em comissão no Ministério da Fazenda. Isso foi em 22 de setembro. Há 27 dias nada acontece no ementário de legislação brasileira.
Normal. A eleição ainda não acabou.

Ah, moleque!

[Vez em quando, este blog faz concessões à banalidade do mundo. Ninguém é de ferro. Hoje, um impulso me obrigou a escrever esta bobagem postagem.]

50% da massa deste menino canadense
é constituída por cabelo
Tudo bem, eu admito o meu preconceito. Em minha opinião, um sujeito que usa um penteado desses merece umas boas palmadas. Sei que ele é artista e precisa ter estilo, presença, originalidade, mas esse penteado emo me provoca maus sentimentos.
O cantorzinho imberbe tem recebido frequentes menções na imprensa, por conta de aspectos, digamos, pitorescos de sua biografia. Por sinal, embora tenha apenas 16 anos, ele já lançou uma biografia! Imagino que há muito o que contar...
A mais nova é uma notícia tão pungente que chega a ser poética. Após lançar uma linha de esmalte de unhas, Bieber foi reprovado no teste teórico de direção. E chorou. Segundo a notícia da eBand, após a reprovação, o menino "se recusou a entrar no carro de sua mãe após não ter passado no teste e foi embora andando na chuva". Aqui, uma lágrima me escorre. O que escrevi acima sobre emos, mesmo? Mas vamos relevar porque, afinal, se eu ganhasse uma Range Rover e não pudesse dirigi-la, também choraria!
Peço aos eventuais comentaristas que evitem, por favor, comentários maliciosos sobre este fato. Do contrário, correm o risco de sofrer uma acusação de bullying homofóbico. Mas quem pensaria numa coisa dessas, não é, Luan?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Anote aí

Primeiro, conheça a história de Dawn Smith.


Agora vai o meu palpite: daqui a seis meses, d. Dawn trocará Mark por Charles, o lhasa apso de quatro anos do próprio Mark.

PS Segundo estudos sei lá se confiáveis, o lhasa apso é a raça canina menos inteligente que existe, daí a sua escolha para esta postagem. Perdoe a piada sexista.

Comemore com os alunos

Do comentarista Roberto Barros, sobre a postagem "Dia do professor" deste ano:

Em países nos quais o professor é valorizado, o dia do professor é comemorado na escola e com os alunos. Neste dia o professor é homenageado e se relaciona de uma outra maneira com os estudantes. No Brasil, onde temos a tendência de simplificar e banalizar tudo para o pior, tornar o dia do professor feriado apenas deprecia a significação do educador e da educação. Com respeito a esta, o Brasil está na contra mão de todos os países que lucram com ela. Nossas escolas não ensinam (Por exemplo outro idioma ou o nosso mesmo) e o vestibular banaliza todo o aprendizado, transformado-o em algo pragmático no pior sentido. Com isso somos pouco competitivos mundialmente, pois produzimos reprodutores e não criadores (algo como ler e repetir artigos da constituição e não saber os seus fundamentos teóricos, históricos etc...). Daí a nossa dependência técnica e cultural e grande parte da nossa desvantagem. Tudo isso sem falar no círculo vicioso da má qualidade do ensino: Professor mal remunerado = profissão desinteressante = concorrência de baixa qualidade = maus alunos se tornam professores, devido a baixa concorrência e assim as exceções não são suficientes. Há muita gente por aí que se diz professor, mas que apenas vê a educação como fonte de renda e não como responsabilidade social. O resultado disso é o Brasil, com milhões de ináptos. Com ou sem diploma.

Carta para Luiza e Eduardo

Luiza Montenegro Duarte, que agora talvez tenha um novo sobrenome, entrou em minha vida virtualmente, como tantos amigos que tenho feito através da Internet, por conta de uma postagem que escrevi sobre sua festa de formatura, onde estive como convidado de um outro formando. Intermediada ainda por uma amizade comum, começou a frequentar o blog e, tempos depois, criou o seu próprio. Hoje, nós nos fazemos visitas recíprocas.
Nesse meio tempo, pudemos identificar nossas afinidades, mas só nos encontramos uma única vez, casualmente, enquanto ela comprava um sorvete da Cairu da Estação das Docas e eu apenas passava por ali. Cumprimentei-a como se a conhecesse de longa data, tanto que nem parei para uma conversa, atitude displicente de quem considera a coisa mais normal do mundo encontrar aquela pessoa e sabe que isso acontecerá de novo. E só aconteceu no plano virtual.
Nos últimos tempos, a querida Luiza esteve envolvida em uma missão altamente grandiosa: os preparativos de seu casamento. Agora, ela é uma jovem senhora casada e responsável pelo próprio lar. E ao longo desse processo, compartilhou conosco alguns sentimentos em seu blog. Agora, quero compartilhar com ela e seu marido, também, um pouco de sentimento.
Casei-me no dia 13 de janeiro de 2005, numa cerimônia religiosa em Santarém, terra natal de minha esposa. Dois dias depois, tivemos uma cerimônia civil aqui em Belém. Por isso, quando a juíza que nos casou (minha grande amiga Ana Patrícia Fernandes) perguntou se era meu desejo formalizar a união, respondi "Sim, de novo", provocando risos na plateia.
Os cinco anos, nove meses e cinco dias que se passaram não dissiparam de minha memória os sentimentos extremados daquela época. Nem o desejo de construir uma vida ao lado de Polyana, nem a lembrança do carinho de nossos amigos, que nos cobriram com tanto amor que, nem que quiséssemos, poderíamos sentir solidão. E agora, em seus textos, Luiza se afirma, também, cercada de amor por todos os lados. Sim, isso é uma bênção, qualquer que seja o sentido que se dê a esse vocábulo.
Embora cada experiência pessoal seja única e intransferível, acredito saber, quanto possível, como o jovem casal se sente neste instante. No que tange às expectativas de futuro e ao prazer de ver consumado o projeto de união, o projeto de amor, que é sempre um precipitar-se no vazio, no segundo mais arrojado bungee jump que podemos realizar (o primeiro é a paternidade).
Virá a rotina, virão os problemas, as preocupações, mas é impressionante como se pode atravessar tudo isso com uma tranquilidade imensa, se nos sentimos amparados pelo parceiro. E se assim é, a tranquilidade é tão espontânea que não nos falta a fé e a disposição para cuidar do lar, desde as torneiras gotejantes até às grandes reviravoltas. E quando as tensões nos fragilizam, porque o próprio casal se sente pequeno para o tamanho do que tem a enfrentar, aí entram a família e os amigos, o suporte sem o qual a vida não vale a pena. E de novo somos conduzidos para o rumo que precisa ser tomado.
Eu lhes desejo que, daqui a cinco anos, quando suas vidas já estejam substituindo as urgências da paixão pela serenidade do conhecimento recíproco, vocês estejam em paz para externar votos de felicidades para os amigos que estejam se casando nesse momento. E que possam dizer "sejam felizes como temos sido e ainda mais". Porque felicidade demais não enjoa.
Deus os abençoe.

Direito Penal na prática

Esta postagem é direcionada a estudiosos do Direito Penal e só faz sentido se, antes, você ler esta matéria.
Sucintamente:

1. A tese sustentada pelo atirador é de legítima defesa putativa. Face a motivos concretos (vários assaltos anteriores no local), ele supôs que haveria mais um e precisou reagir, ou melhor, antecipar-se. O art. 25 do Código Penal admite repulsa a agressão iminente.

2. Contra a tese, temos a ausência de confirmação mínima acerca do possível roubo. O atirador agiu sem se acercar das mínimas cautelas sobre a situação que pretendia arrostar e era exigível que o fizesse. Afinal, mesmo que se tratasse mesmo de um ou mais de um assaltante, ainda seria necessário verificar a presença de um inocente, antes de atirar. Houve excesso e este é punível.

3. Entendo que o excesso é culposo. Não me parece, no contexto, que o atirador tivesse, ao menos indiretamente, a intenção de lesionar pessoas inocentes. O excesso é culposo porque o agente, nas circunstâncias em que se encontrava, com um pouco mais de diligência, poderia evitar o dano. Em consequência, deve o atirador responder pelo crime de lesão corporal culposa, mas não me surpreenderei se lhe imputarem tentativa de homicídio. Afinal, raciocínios de força são corriqueiros, ainda mais em se tratando de vítima criança.

Quem tiver uma segunda opinião, por favor compartilhe conosco.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sub-liminar e espontâneo

Esta eu presenciei.
Ao ver na Internet a notícia do confronto entre um pai e uma mãe de estudantes que estariam envolvidos em um processo de bullying, sendo que o homem espancou covardemente a mulher, em público, o rapaz soltou esta:

"Égua, ele bateu numa mulher que nem era a dele!"

A estupefação tomou conta da sala. Começamos a ponderar que a frase não tinha sido lá muito feliz. Perguntei se bater na mulher dele não seria um problema, então. Para se defender, o rapaz emendou assim:

"Não sendo mulher dele, é pior, né?"

Cai o pano.

Curta a Cena

Nos dias 15, 16 e 17 de outubro, sempre às 20 horas, A Casa da Atriz promove o Curta a Cena III, um festival de performances que variam de cinco a dez minutos em diversas linguagens teatrais.

Em cena artistas de diferentes grupos interpretam textos de Shakespeare, Chico Buarque e Ruy Guerra, Marton Maués, Hudson Andrade, Caio Fernando Abreu, Gero Camilo, Hilda Hilst, entre outros.


No programa:

DEPOIS DA TEMPESTADE, A BONANÇA, com Adriano Furtado
A MORTE DE OFÉLIA, com Andréia Resende
MOTIVO?, com Hudson Andrade
A CRISE DAS AMEBAS, com Mariana Barroso
CLEIDE, com Leoci Medeiros
JÁ TENS ÁGUA DEMAIS, com Belle Paiva
DO DESEJO, com Luciana Porto e Juliana Porto
ARTISTAS DA FÉ, com Alessandra Nogueira

A Casa da Atriz fica na Rua Oliveira Belo, 95, entre Generalíssimo e D. Romualdo de Seixas. Lá, além da cultura, você também pode degustar tacacá, bolo de macaxeira e outras iguarias.
O ingresso é livre. O público assiste ao espetáculo e decide quanto quer pagar.

Pela ressocialização

Presas deixam contêineres e ganham celas coloridas
Cerca de 300 mulheres deixaram o convívio com os ratos em vagões de metal por carceragens mais dignas
ERCÍLIA WANZELER

Daqui a pouco mais de um ano, Roberta Monteiro, 26 anos, vai ganhar a liberdade. E já faz planos para quando sair do Centro de Reeducação Feminino (CRF), onde está presa há quatro anos e onze meses. “Estou terminando meus estudos e tenho planos de fazer faculdade de direito”, conta.


Até ontem, Roberta era uma das 307 internas que viviam presas em contêineres. A realidade do lugar assusta. Pequenas celas, ambiente escuro. “Mostra aqui que tem muito rato”, pediam as detentas, apontando os espaços próximos às celas. “Lá é um lugar muito quente e sujo. Não dá pra viver. A gente sobrevive mesmo, é como se estivéssemos em uma selva, perdida, não sabendo pra onde ir”, afirma Roberta.
Justiniano Neto, superintendente do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), anunciou ontem que o espaço “condenado por todos” seria desativado. “Estamos pondo fim ao contêiner feminino”, disse. Para isso, as internas começaram a ser transferidas para um novo espaço, batizado de “Primavera”. O local tem capacidade para 480 internas. “É uma maneira mais humanizada de cumprir pena, ter outra opção de vida”.
As oito unidades prisionais com contêineres serão desativadas. De acordo com o superintendente, os contêineres serão destruídos e o ferro será doado para ações de instituições de caridade. Um sistema de vídeo-audiência também foi inaugurado, que possibilitará a realização de audiências judiciais virtuais. O processo é possível por meio de um link diretamente ligado a uma sala no Tribunal de Justiça do Estado (TJE).
Esse sistema de vídeo possibilita uma maior agilidade nos processos, já que as detentas não precisarão se deslocar para o julgamento. “Por que não utilizar a tecnologia? Assim o Judiciário pode ser atendido na urgência que merece”, afirmou Geraldo Araújo, secretário de Segurança Pública do Estado.


PRIMAVERA
O novo espaço tem uma área de 2.340 m² e custou R$ 1.494.760,96. O local é dividido em dois módulos com quatro blocos carcerários. Cada um possui capacidade para 120 internas. Cada bloco possui dez celas com doze lugares e todas possuem lavatório.


CORES
O espaço foi pintado de lilás, rosa e verde, cores escolhidas pelas próprias detentas. “Optamos por essas cores por ser mais feminino, deixa o lugar mais decente e arejado”, conta Roberta.
Enquanto a liberdade não vem, ela diz que tenta aproveitar as oportunidades que surgem. “Tenho consciência que preciso cumprir a minha pena e sei que tudo na vida tem um tempo determinado. Faço parte do grupo de dança e de violão e quero sair daqui bem encaminhada, vendo a vida de outro jeito”.

Reportagem do "Diário do Pará" de hoje (caderno A8). Fotografia de Anderson Coelho.

Observação minha:
Pequenas coisas, algumas aparentemente insignificantes, como a cor das paredes, podem exercer um efeito altamente benéfico sobre a autoestima de detentos, reforçando o propósito de retomar uma vida honesta quando retornarem ao convívio social.
As detestáveis celas improvisadas em contêineres já vão tarde. Não podemos nos esquecer que o governo do Estado só fez esse investimento porque formalmente enquadrado pelo Ministério Público e Judiciário. Finalmente, essas 307 mulheres ganharão um pouco mais de dignidade. Agora só falta todo o resto da população carcerária.

Dia do professor

Quando se mantém um blog por alguns anos, certos temas podem se tornar repetitivos. Comemorações anuais, p. ex. A certa altura, pode ser que não nos inspiremos para escrever a respeito. No caso específico do dia do professor, faço questão absoluta de deixar registrada alguma impressão. Não se trata de noticiar um fato conhecido de muita gente. Trata-se, na verdade, de firmar uma posição política, relacionada à permanente, urgente e indispensável necessidade de valorizar a figura dos educadores.
Para fundamentar o meu texto, acessei o Oráculo Supremo (mais conhecido como Google) e digitei "dia do professor" como expressão de busca, na expectativa de encontrar um texto inteligente, crítico ou emocional para me fornecer um norte. Mas não encontrei. O que havia lá era a indicação de sítios que mandam mensagens ou coletâneas de frases alusivas ao evento. Um pouco de mercantilismo, um pouco de fofura, mas nenhuma reflexão. Havia alguns links para explicações sobre a origem da data comemorativa e alguns materiais para uso em educação infantil. E havia um link de matéria dizendo que, neste dia, Dilma e Serra falam sobre educação. Como se eles estivessem preocupados com isso...
Pode ser mania de perseguição, mas fiquei frustrado. Tomei isso como um sintoma de que nossa profissão é tão desvalorizada que não merece, sequer, uma breve crônica ou modesta resenha desses tantos jornalistas, articulistas e quetais, que passam a vida falando dos políticos, das celebridades, dos criminosos, dos mineiros soterrados, mas que não se lembraram de tirar ao menos esta sexta-feira para falar desta categoria de trabalhadores.
No final das contas, o ofício do professor é matéria muito discutida, mas apenas interna corporis. E justamente por conta dessa limitação, muito do que se fala vem imbuído de preocupações imediatistas com remuneração, condições de trabalho, bullying, etc. Falta visão de longo prazo. Falta uma política centrada na educação.
Não deixarei, porém, de deixar o meu grande abraço a todos os professores, de todos os níveis da educação. Vocês merecem, meus queridos. A sociedade muito lhes deve. Mas muito, mesmo.

PS Interessante. No dia do professor ganhamos uma folga do trabalho. Do trabalho em sala de aula, bem entendido. No ano passado, eu estava corrigindo provas. Hoje, o mesmo. Com efeito, o trabalho nunca termina!

Antecedentes:

Frase do dia

"A desgraça quer companhia."

PS Não me aconteceu nada de ruim. Apenas vi, ontem, um personagem de seriado soltar esta e registrei, para não esquecer. Quem sabe quando poderá ser útil?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um aspecto até óbvio e bastante delicado

Há dois dias, escrevi uma postagem sobre o filme Julgamento de Nuremberg, de 1961. Não destaquei isso em meu texto, mas uma faceta muito importante para o desenvolvimento do roteiro é a discussão sobre o quanto certos setores da sociedade apoiaram o regime nazista. O tema é trazido ao centro da discussão, eis que os quatro réus são juízes que, em sua defesa, alegam ter-se limitado a cumprir as leis então vigentes no país, ainda que isso envolvesse mandar esterilizar pessoas. Numa importante cena, vê-se o esforço do advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell), em demonstrar que a testemunha, esterilizada por ordem judicial, não sofrera tal medida como represália por se opor ao regime, e sim por ser débil mental ou filho de uma débil mental. Ou seja, perseguir adversários não pode, mas impedir a reprodução de pessoas mentalmente inferiores pode.
A cena é excelente e Montgomery Clift dá um show ao interpretar um sofrido e humilhado Rudolph Petersen, que exibe a todos uma foto da mãe e pergunta, aos gritos: "Vocês podem me dizer se ela era débil mental?!"
Outra cena, mais delicada porém até mais eloquente, mostra uma conversa entre o juiz Haywood (Spencer Tracy), presidente do tribunal, e seus dois serviçais, o casal Halbestadt (Virginia Christine e Ben Wright). Claramente temerosa da interpretação que poderia ser dada a suas palavras, a mulher se sente pressionada pelo juiz e acaba admitindo que nem tudo que Hitler fez foi ruim. Cita a estrada, que gerou muitos empregos. Mas faz questão de destacar que ela e o marido são gente simples, que não sabia do que se passava nos campos de concentração e que jamais aprovaria tais atrocidades. Enquanto ela fala, o marido fica visivelmente amedrontado.
O medo do casal Halbestadt expressa um sentimento que ainda não morreu. E sugere o reconhecimento de um fato que, a esta altura, já é óbvio: Hitler não chegaria onde chegou sem o amplo apoio da sociedade alemã. Líder carismático e populista, lutou contra a fome e a humilhação do povo alemão e lhes prometeu um futuro glorioso, tendo dado alguns passos concretos nesse rumo. Como poderia o alemão comum não o apoiar?
Esse é o foco da exposição "Hitler and the germans — Nation and crime", que será aberta amanhã em Berlim, permanecendo até 6 de fevereiro. Como tudo que envolve o nazismo e o Holocausto, a polêmica está fervendo. A comprovar que as feridas permanecem abertas, os responsáveis pela mostra são acusados de não criticar explicitamente a política do Führer. Ou seja, só se pode tocar no assunto se ficar claro, desde logo, que somos frontalmente contrários ao nazismo. Em vez disso, os curadores insistem que não pretendem ofender ninguém, mas apenas favorecer uma reflexão sobre o comportamento da sociedade à época e que, como organizadores, mantiveram um "distanciamento crítico". Tal atitude, por sinal, bastante correta.
O fato é que existe o medo de grupos neonazistas transformarem a exposição em centro de peregrinação e culto a Hitler e ao nazismo. Engraçado os curadores lembrarem que neonazistas não constituem público de museus. Verdade, não é o nível deles. Mas se houver um pretexto... Quem disse que a intenção seria refletir sobre alguma coisa?

A Rede CELPA é um lixo (todo dia)

Havia prometido não tornar a este assunto, mas abro uma exceção diante do excesso que o problema da vez representa.
Ontem, por volta das 16 horas, tivemos no bairro uma interrupção parcial do fornecimento de energia elétrica. Minha residência tem instalação trifásica e percebemos o problema porque parte da casa parou de funcionar. Mais do que algumas tomadas e lâmpadas que não funcionam, o que é um aborrecimento menor, a grande questão é que a parte da casa afetada me deixa sem telefone no andar superior, sem acesso à internet e — problema superlativo — com a cozinha inoperante. A esta altura, minha geladeira está desligada há nada menos do que 17 horas. Quando amanheceu o dia e constatei que a pane persistia (claro!), recomendei a quem ficou em casa que a ligasse em uma tomada que funcionasse. Mas eis que a energia acabou de vez. Supostamente, isso é necessário para que o fornecimento seja restabelecido de vez. A má notícia é que isso pode durar dez minutos, três horas, dois dias...
Ontem à noite, aborrecimentos para conseguir uma ligação para o nefando 0800 091 0196, da Rede CELPA. Quando consegui, registrei minhas reclamação e soube que havia vários pedidos da mesma área. A equipe técnica estaria na rua, tentando resolver (diz que).
Esta manhã, nova tentativa de ligar. Foram sete tentativas, durante quase uma hora, até conseguir contato. Uma atendente bem mais cretina do que a de ontem me informou que havia vários pedidos da mesma área e que a equipe técnica estaria na rua, tentando resolver. Contabilizei as horas de prejuízo e ela, claro, do alto de sua superioridade, respondeu que a "rede estava congestionada" na cidade toda e que havia outras pessoas sem energia há tanto tempo quanto eu. Ou seja, eu que sou um bosta por não entender o problema dos outros.
Claro, o errado sou eu. Por muito pouco não errei mais ainda, dizendo à moça o que ela deveria fazer com o "bom dia" que me deu.
Irrita-me profundamente que o povo brasileiro, babaquara que só ele, só saiba se mobilizar em torno de futebol. Fôssemos franceses, estaríamos na rua queimando contas de energia. Aliás, queimando carros. Sempre fui contra esse tipo de barbaridade, mas confesso que ando meio bolchevista ultimamente. Afinal, não há quem aguente ser sacaneado pela companhia de energia elétrica, pela de água, pela de telefone, pela de internet, além de já ser sacaneado por todos os níveis de governo, serviços públicos, etc. Ser brasileiro é exaustivo.

Acréscimo em 15.10.2010:
Ontem, pouco antes da meia noite, adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo, faltou energia novamente, na mesma fase!
Peguei o celular (o telefone fixo para de funcionar) e liguei para o maldito 0800. Para meu espanto, consegui atendimento logo na primeira ligação. Registrei o meu queixume e ouvi o blá blá blá de sempre. Ao acordar esta manhã, contudo, a pane persistia, claro. Duvido que alguma equipe técnica atue de madrugada, se não for um caso de interrupção total do fornecimento. E suspeito que o bairro afetado também influencie.
Liguei novamente para o 0800 e consegui atendimento (dá para acreditar?). A cidadã, burocrática e seca, porém mais elucidativa que as colegas, informou que o sistema estava sobrecarregado em vários pontos da cidade (isso eu já sabia); que havia mais de 600 pedidos de reparo e, por isso, as equipes tinham dificuldade em resolver. Prometeu que hoje (que tal?) o problema será resolvido, mas disse ser impossível precisar a hora (esta parte eu também já sabia).
Mais informações, a mesma falta de soluções. Felizmente, uma extensão resolveu o problema da geladeira desligada.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os 33

"Este inferno está me matando. Tento ser forte mas, quando durmo, de repente sonho que estou em um forno e quando acordo me encontro nesta escuridão eterna."
Victor Segovia, um dos 33, em carta à família

O mundo acompanha com grande interesse o drama cinematográfico dos 33 mineiros presos a 622 metros de profundidade, no Chile. Os motivos do interesse, decerto, são os mais variados. Muitos devem motivar-se apenas na morbidez, mas quero crer que a maioria se vê enredada numa teia de solidariedade. Afinal, ser enterrado vivo é um terror clássico no imaginário humano. Para mim, o atrativo é uma curiosa empatia, pois tenho lá a minha claustrofobia e, de me imaginar vivendo situação semelhante, sinto a mudança do ritmo cardíaco. Não sei se o pânico me permitiria sobreviver a isso. Daí que tenho me comovido com sinceridade desde que soube do caso.
Para a imprensa, o filão é tão bom que várias emissoras estão trasmitindo o resgate ao vivo, sem parar. São mais de mil jornalistas no entorno da mina San José.
Tragédias já renderam diversos filmes. Nem todos com a projeção do ótimo Mar em fúria (The perfect storm, dir. Wolfgang Petersen, EUA, 2000), p. ex. Alguns só servem mesmo para sessão da tarde e olhe lá. Mas o acidente da mina San José, pelo número de vítimas, duração e complexidade do resgate, além do fato de atrair a atenção do mundo inteiro com as facilidades trazidas pelas tecnologias de comunicação, tem potencial de gerar uma boa representação cinematográfica. Claro que isso já foi cogitado. Suspeito que o projeto já tem até título: "Os 33".
Só espero que os abutres da notícia deem tempo aos mineiros de respirar e de estar com suas famílias. Que se lhes respeite o momento. Há tempo para ganhar dinheiro depois.
Neste instante, anuncia-se que o 16º homem chegou à superfície. Quase a metade do trabalho foi feita. Felizmente, tudo transcorre bem, sem nenhum dos incidentes cogitados. Já se especula sobre a possibilidade de concluir o resgate ainda hoje. Tomara. Já prendi demais a respiração pensando nisso. Eles, então, nem se compara.

Ver: http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2010/10/13/para-psicologos-mineiros-terao-dificuldades-de-se-readaptar-vida-normal-922771540.asp

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Menina mutilada

Se é verdade que a vida imita a arte, isso tanto pode implicar em imitações belas quanto terríveis. Frequentemente, quando navego pelos portais de notícias, fico com a sensação de que todo o mundo é um teatro onde dramaturgos grotescos encenam, sem cessar, versões de carne e osso de O poço e o pêndulo, celebérrimo conto de Edgar Allan Poe.

Veja-se este caso da jovem Aisha, agora com 18 anos. Vendida pelo pai aos 12, como quitação de uma dívida, tornou-se escrava de um talebã. Bem se pode imaginar a rotina de torturas físicas e sexuais, além da exploração do trabalho. A reificação absoluta de um ser humano, a quem não se reconhece sequer o direito de fugir.

No final das contas, terminou severamente mutilada e abandonada. Tremo em pensar que ela teve "sorte", porque sobreviveu e pode encontrar pessoas que, agora, trabalham pela reconstrução de seu rosto e de sua autoestima.

E como somos todos sensíveis à beleza, não nos passa despercebido o quanto essa menina é bela.
Folgo em saber que ela está tendo a sua segunda chance. Boa parte das vítimas não tem sequer a primeira, ainda mais no contexto de guerras que não terminam jamais.

Pedro enraivecido

Temos visto que este ano de 2010 não tem sido de muitas chuvas. Ao contrário, o serviço de meteorologia falou em uma tal onda de calor, recentemente. Sem dúvida que eles, como especialistas, devem saber o que estão falando. Mas eu, como leigo, acho que essa onda de calor sempre existiu por estas bandas. Há dias em que sofremos um tanto mais; dá um certo desespero de tanto calor, mas isso sempre existiu. Há os dias ruins e os piores.
De onde para hoje, contudo, voltamos aos velhos tempos. Ontem, uma tarde chuvosa, com quatro pancadas diferentes, chegou a me surpreender. Foi uma borrasca digna de Belém do Pará. E hoje veio água de novo, por menos tempo, porém com uma impressionante quantidade de trovões. A certa altura, comecei a me preocupar com a possibilidade de acidentes.
Agora, contudo, a tarde declina suavemente. Daqui de onde digito, escuto os passarinhos, o que é sempre reconfortante. E penso que, segundo anunciado, as chuvas começarão para valer em dezembro. Será?

Julgamento de Nuremberg versão 1961

Acabei de ver, com um retardamento de um ano, nove meses e nove dias em relação ao que já era atraso1Julgamento de Nuremberg, Oscar de melhor filme de 1961, dirigido por Stanley Kramer.
Existe uma tendência, que poderia classificar simplesmente como mania, de classificar obras antigas como superiores aos remakes ou releituras posteriores, como se em nossos dias não se fizesse mais nada bom ou, pelo menos, nada à altura do passado. As afirmações de que este filme de Kramer seria superior à versão de 2000 é no mínimo ingênua, a começar pelo fato de que as duas obras não são versões de um mesmo roteiro, apresentando-se como projetos absolutamente distintos entre si.
Para entender a diferença, é preciso saber que não houve um julgamento de Nuremberg, como uma leitura apressada do título pode sugerir (aliás, perceba-se como o título original é mais eficiente do que o nacional: o julgamento aconteceu na cidade de Nuremberg; em português, parece que a cidade foi submetida a julgamento!). Na verdade, houve uma série de julgamentos, separados não apenas por réus nominalmente individualizados, nem mesmo por categorias de criminosos. A distinção mais importante tem relação com a própria constituição do órgão jurisdicional que realizou o polêmico acontecimento histórico.
Num primeiro momento, o Tribunal Militar Internacional foi constituído para julgar 24 militares alemães que, por sua proeminência entre os nazistas, foram apontados como os maiores criminosos de guerra daquele período, que seriam executores ou mandantes diretos das maiores atrocidades registradas pela História recente. Entre eles o maior destaque era Hermann Göring, nada menos que o n. 2 na hierarquia do III Reich, abaixo apenas do Führer. Esta fase durou de 20.11.1945 a 1º.10.1946. O telefilme de 2000 reconstitui o primeiro julgamento, com cinco réus, à frente Göring.
Posteriormente, houve a fase dos "processos de guerra de Nuremberg", a cargo do Tribunal Militar Americano (a supremacia dos vencedores!), abrangendo não somente militares, como também cidadãos comuns que, no exercício de suas funções ou profissões, teriam dado apoio ao regime genocida dos nazistas. Médicos, por exemplo (caso 1, de 9.12.1946 a 20.8.1947). E juízes (caso 3, de 17 de fevereiro a 14 de dezembro de 1947). É este o evento histórico retratado pelo filme de Kramer.
Neste, havia quatro réus. Da esquerda para a direita, na imagem: Werner Lampe (Torben Meyer), Emil Hahn (Werner Klemperer), Friedrich Hoffstetter (Martin Brandt) e Ernst Janning (Burt Lancaster), este último um dos maiores luminares do Direito alemão da época, professor universitário, autor de vários livros e até então reconhecido, segundo percebo, como um humanista. Isso fica claro na passagem em que uma testemunha menciona que ao defender, como advogado, um judeu acusado de manter relações sexuais com uma ariana, acreditou na absolvição do réu porque o juiz era Janning. Mas no final sobreveio a condenação.
Tais condenações envolviam esterilizações compulsórias e envio para os campos de concentração, barbaridades que, consoante o entendimento do tribunal, não teriam respaldo nem mesmo no sistema legal então vigente na Alemanha. Entendimento que, claro, desperta intermináveis controvérsias. Depois de ver o filme e matutar a respeito, e considerando não ter nenhum conhecimento decente sobre aquele momento histórico ou sobre o processo, cheguei à conclusão de que absolveria os réus, como por sinal entendeu um dos três juízes, que acabou vencido, mas fez questão de fundamentar a sua divergência. A meu ver, os réus, sendo juízes e não legisladores, cumpriram as leis vigentes num regime ditatorial. Seu maior crime, talvez, tenha sido decidir horrores contra a própria consciência, mas isso a depender de se resolver se, no final das contas, eles estavam mesmo contra a política de Hitler. Janning estava, ou passou a estar, e sua alma torturada é um dos aspectos mais bonitos do filme. Ele admite a culpa e, na última oportunidade de conversar com o juiz que o condenara, Dan Haywood (Spencer Tracy), reconhece que seu veredito foi justo.
Tenho razões para preferir o telefilme de 2000. A meu ver, ele é bem mais didático para quem, como eu, lança um olhar jurídico sobre o tema. As razões estão enunciadas na postagem anterior, cujo link já coloquei acima. Aqui, fiquei com a sensação de que o enfoque dado ao julgamento e as diversas passagens em que se mostrava a vida dos personagens (com ênfase para Frau Bertholt, interpretada por Marlene Dietrich) serviram para criar um clima algo romanceado, mais favorável ao tom moralista dado ao roteiro, que assume contornos nítidos durante o discurso do juiz Haywood, que culmina com o anúncio da condenação dos réus à prisão perpétua (não reclame de spoilers: são fatos históricos!). Tenho por justa a crítica porque o filme é de 1961, apenas 16 anos após o final da guerra, quando as feridas ainda eram muito mais sangrantes do que em fins do século XX. E também porque a Guerra Fria atormentava o mundo com todo o vigor, dando a receita para que um elenco estelar hollywoodiano contribuísse com a ideologia do governo daquele país.
O filme, sem dúvida, é muito bom, devendo-se tributar às limitações técnicas da época os efeitos sonoros esquisitos e as horríveis montagens sempre que aparecia alguém dirigindo. Quanto à linguagem arrastada, o interesse em destacar amenidades e a descrição pontual de aspectos factuais secundários do julgamento (testes de fones de ouvido, p. ex.), tributa-se a um temperamento mais sereno dos cineastas daquele tempo, cientes de que o seu público não tinha a urgência que hoje nos domina, obrigando-nos a objetivar, resumir, priorizar tudo, porque não há tempo nem vontade de pensar em detalhes. Quanto mais em causas e consequências.

1 A contagem se refere ao tempo que levei para ver o filme de 1961, após ter visto o telefilme de 2000.