segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Twitterítica XVII

Nâo dá uma certa aflição pensar que o segundo mês do ano já acabou?

We belong together

Vinte vezes indicado ao Oscar — e nem um pouco modesto em relação a isso —, o compositor, arranjador, cantor e pianista estadunidense Randy Newman (Randall Stuart Newman, 67) levou o seu segundo Oscar na noite de ontem, o de melhor canção original por "We belong together", de Toy Story 3. A láurea anterior fora obtida em 2002, graças a Monstros S.A. Era o preferido.
O terceiro e melhor filme da vitoriosa franquia da Pixar/Disney (por sinal indicado na categoria principal) confirmou o favoritismo também no quesito melhor longa de animação e saiu da festa com as estatuetas mais previsíveis.
Pelo que vi, a canção mais bonita, contudo, era "If I rise", de 127 horas, com seus ares espirituais, exatamente do jeito que não vence jamais. Prevaleceu a animação e a mensagem bonitinha, que compartilho com os amigos:


Don't you turn your back on me,
Don't you walk away.
Don't you tell me that I don't care,
Cause' I do.

Don't you tell me, I'm not the one,
Don't you tell me, I ain't no fun,
Just tell me you love me, like I love you.
You know you do.

When we're together,
Clear skies are clear, oh.
And I'll share them, till where I'm less depressed.
And it's sincerely, from the bottom of my heart,
I just can't take it when we're apart.

We belong together,
We belong together.
Yes, we do,
You'll be mine, forever.

We belong together,
We belong together.
Oh, it's true,
It's gonna stay this way, forever,
Me and you.

If I could really talk to you,
If I could find a way.
I'm not shy,
There's a whole lot I wanna say,
Oh of course there is!

Talk about friendship, and loyal things.
Talk about how much you mean to me.
And I'll promise, to always be by your side,
Whenever you need me.

The day I met you,
Was the luckiest day of my life.
And I bet you feel the same.
At least I hope you do.
So don't forget,
If the future should take you away,
That you'll aways be part of me.

We belong together,
We belong together.
Wait and see.
Gonna be this way, forever.

We belong together,
We belong together.
Honestly,
We'll go on this way, forever,
Me and you.
You and me...

Para você começar bem a semana.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Letras que se vão

Enquanto nós, paraenses, lamentamos o passamento do grande filósofo Benedito Nunes, de 81 anos, um dos maiores intelectuais que esta terra já produziu (e, sem nenhum favor, que este país já produziu)...

...o Rio Grande do Sul lamenta a partida de Moacyr Scliar, aos 73 anos, por falência múltipla dos órgãos, como consequência de um acidente vascular cerebral sofrido no último dia 16 de janeiro. Na página da Academia Brasileira de Letras você encontra maiores informações sobre o óbito e sobre a trajetória do escritor.

Este domingo foi muito duro para as letras e para a intelecualidade deste país, que tanto precisa de gente aguerrida para valorizar a cultura e as humanidades.

Multiatropelamento

Minha esposa não quis acreditar que um simples automóvel pudesse atropelar mais de cem pessoas numa só oportunidade. Disse-lhe que não havia nenhuma dificuldade para isso. Somente depois fiquei sabendo que as vítimas eram ciclistas e aumentou a minha indignação ao saber que o atropelador surtou porque se aborreceu com a rua interditada. O episódio se deu na última sexta-feira, em Porto Alegre.
As "bicicletadas" são eventos que acontecem em vários lugares e costumam convidar para um estilo de vida mais saudável, onde o indivíduo, ao mesmo tempo em que se exercita, deixa um pouco de lado o automóvel e todos os contratempos que este causa quando vai para a rua. Tudo bem que interditar uma rua aparentemente no centro da cidade, numa sexta-feira, deva ser um transtorno e tanto, mas a reação do maluco foi completamente desproporcional.
Doenças da vida moderna ou destempero puro e simples? Talvez fiquemos sabendo nos próximos capítulos. Mas vale lembrar que houve dolo de causar lesão corporal. Existe o risco de algum promotor de justiça mais malvado decidir que houve dolo eventual quanto a homicídios. Aí a situação do atropelador se complicará consideravelmente. E olha que, com cento e tantos ciclistas para indenizar, já é uma situação complicada o bastante.

Acréscimo em 28.2.2011:
Foi só entrar um advogado na parada, começou a criatividade. E sabe por que digo criatividade? Porque legítima defesa é a "mãe de todas as teses", sempre invocada quando o agente não pode negar a autoria do fato. E nesse caso específico também porque a suposta defesa não parece nem um pouco proporcional à pretensa agressão.

Acréscimo em 1º.3.2011:
Contra a tese de legítima defesa, surge um perfil nada favorável para o atropelador.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ocupado e disperso

O blog andou em marcha lentíssima nos últimos dois dias. Trabalho, claro, ainda mais considerando que atuo em duas frentes distintas, o que implica não somente em uma grande quantidade de tarefas, como também no ônus adicional de pensar em coisas completamente diferentes. Some-se a isso uma série de questões nas quais venho pensando e, de tanto pensar nelas, fiquei um tanto disperso. É hora de parar e de me reorganizar. Afinal, o segundo mês do ano está acabando e, daqui por diante, o ritmo só se intensifica.
Há umas tantas coisas sobre as quais gostaria de escrever mas, curiosamente, não acho que possa ou deva no momento. Coisas, p. ex., ocorridas recentemente, sobre as quais gostaria de falar em caráter abstrato, mas que poderiam ser interpretadas como comentários com destino certo. Assim, para prevenir mal entendidos e melindres, ficarão para outra oportunidade.
A semana de trabalho está finalmente terminando, o que vem em boa hora. Desejo a todos um ótimo final de semana. Qualquer hora dessas volto por aqui.

PS - Postagenzinha dispersa, não?

Tempestades



É de impressionar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Conflito de interesses

Acabou de acontecer na cidade de Altamira. Um menino de dois anos de idade foi internado em estado grave, com anemia crônica, diarreia e desnutrição. Precisava de uma transfusão de sangue, mas o pai se opôs, por ser testemunha de Jeová. A mãe da criança e outros familiares intervieram, pediram o apoio do Conselho Tutelar e o caso acabou na Vara da Infância e Juventude daquela cidade. O juiz autorizou a transfusão, que foi realizada e, agora, a criança passa bem. Ficará duas semanas em observação.
O conflito entre os objetivos de tratamento de saúde e as convicções desse segmento religioso é um tema altamente debatido no Direito. Há documentos em profusão a respeito mas, desconfio, boa parte deles possui um cunho mais religioso do que propriamente jurídico. De um lado, temos o direito à vida e, de outro, a liberdade de crença. A balança pende em favor do primeiro, mas as implicações disso não são digeridas por quem professa religiões restritivas das ações de seus fieis.
Por coincidência, ontem chegaram a minhas mãos duas publicações, que a Comissão de Ligação com Hospitais para as Testemunhas de Jeová estão divulgando. São dois pareceres, o primeiro subscrito pelo famoso processualista Dr. Nelson Nery Júnior, sob o título "Escolha esclarecida de tratamento médico por pacientes testemunhas de Jeová como exercício harmônico de direitos fundamentais". Trata-se de uma consulta encomendada pela Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová, que termina em 33 quesitos, todos respondidos exatamente de acordo com os interesses da consulente.
O segundo parecer é subscrito pelo Prof. Dr. Álvaro Villaça Azevedo, contratado por aquela mesma instituição. O documento, intitulado "Autonomia do paciente e direito de escolha de tratamento médico sem transfusão de sangue mediante os atuais preceitos civis e constitucionais brasileiros", aborda um aspecto que o primeiro omite: o que fazer em relação aos filhos dos religiosos. Suas conclusões:

30. Têm os pais o direito fundamental1 de tomar as decisões médicas em favor de seus filhos menores, mesmo quando isso envolve escolher um tratamento médico em detrimento de outro?2
Resposta: Os pais têm direito fundamental de tomar as decisões médicas relativamente a seus filhos menores, mesmo quando for o caso de escolher um tratamento médico em substituição a outro.
Isso acontece, principalmente, em decorrência do poder familiar que abrange a escolha de tratamento de saúde por parte dos pais e cuidados de saúde. Além disso, os pais são representantes legais de seus filhos menores.3


31. O exercício pelos pais da escolha de tratamento médico para a criança sob sua guarda e responsabilidade, diferentemente de um padrão médico4, caracteriza abandono, maus tratos ou extravio, à luz do ECA e demais disposições normativas?
Resposta: O exercício pelos pais da escolha de tratamento médico para a criança sob sua guarda e responsabilidade, diferentemente de um padrão médico, não caracteriza abandono, maus tratos ou extravio, à luz do ECA e demais disposições normativas.
Quando os pais exercem esse direito de escolha, ou expressam a própria vontade do menor com discernimento dos fatos, estão procurando o melhor para seus filhos, exercendo, no lugar deles, os direitos reconhecidos pela legislação em geral, em favor desses menores, nos moldes de sua dignidade, respeitando os seus direitos de personalidade e sua liberdade de crença professada por sua família.5
Além disso, o  pai que leva o filho ao hospital e acompanha de perto os procedimentos e tratamentos a que será submetido não o está abandonando, mas tão somente, conforme dito, cumprindo seus deveres/direitos inerentes ao  poder familiar nos melhores interesses do direito à vida e à saúde de seu filho.

O caráter tendencioso do parecer fica ainda mais evidente nas duas perguntas seguintes, quando o autor afirma que o menor de idade, que seja maduro e tenha discernimento para tomar decisões, compreendendo suas consequências, deve ter respeitada sua vontade de receber tratamento médico sem utilização de sangue alogênico, aplicando-se o "consentimento informado". Mas em momento algum há menção, por mais breve que seja, do direito desse mesmo menor de optar por receber a transfusão, caso queira.
Eu defendo a autonomia da vontade. Penso que cada pessoa deve decidir o que é melhor para si, se isso não afeta direitos de terceiros. Admito, inclusive, o direito de morrer. Por conseguinte, respeito a decisão da testemunha de Jeová que rejeite tratamento médico de qualquer tipo. Respeito a decisão de qualquer pessoa, quanto a rejeitar tratamento por qualquer motivo, em relação a si mesmo. A decisão nunca pode ser tomada em relação a terceiros, inclusive filhos. Por isso, devem os médicos e as autoridades encarregadas de proteger crianças e adolescentes, como conselheiros tutelares, intervir no caso, para fazer prevalecer outro mandamento constitucional: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão" (art. 227).
Eu sei que quem pensa diferente possui uma resposta veemente para tudo, na ponta da língua. Mas é minha opinião que religião alguma deve expor a perigo a segurança de uma pessoa, a menos que esta seja uma decisão consciente dela mesma. E quanto a isso vale mais a realidade do que a formalidade: pais representam seus filhos, mas qual seria realmente a preferência da criança? Continuar vivendo, talvez?

Notas:
1 Observe a retórica: o parecerista faz questão de destacar o caráter de "fundamental" do direito dos pais de decidir em relação a seus filhos.
2 A pergunta desvia para uma questão de escolher entre alternativas. Em momento algum se evidencia o que realmente importa: escolher um tratamento que represente riscos para o paciente ou, ao menos, prolongue o tratamento, impondo-lhe sofrimentos evitáveis.
3 Como se vê, mesmo na resposta, a questão é toda tratada em termos de autoridade e legitimidade. Nada se considera em termos de riscos.
4 De novo, a retórica. A pergunta faz parecer que os médicos estabelecem padrões por conveniência, e não porque seja o melhor para o paciente, de acordo com o atual estado de desenvolvimento científico.
5 A resposta é meramente idealista e tenta nos convencer de que a vontade da criança está sendo respeitada. Sintomático, entretanto, a menção à crença professada pela família. Afinal, do ponto de vista do desenvolvimento psicológico e mesmo neurológico, aos dois, quatro, seis anos, a criança realmente professa uma religião?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"Fazer amigos é um instinto. É mais forte do que você"

Trecho da reportagem de capa da edição deste mês da revista Superinteressante (n. 288):

Ter amigos só traz benefícios. Quanto mais, melhor. Mas há um limite. Um estudo feito na Universidade de Oxford comparou o tamanho do cérebro humano, mais precisamente do neocórtex (área responsável pelo pensamento consciente), com o de outros primatas. Ele cruzou essas informações com dados sobre a organização social de cada uma das espécies ao longo do tempo. E chegou a uma conclusão reveladora: 150 é o máximo de amigos que uma pessoa consegue ter ao mesmo tempo.
Para que você mantenha uma amizade com alguém, precisa memorizar informações sobre aquela pessoa (desde o nome até detalhes da personalidade dela), que serão acionadas quando vocês interagirem. Por algum motivo, o cérebro não comporta dados sobre mais de 150 pessoas. Os relacionamentos que extrapolam esse número são inevitavelmente mais casuais. Não são amizade. Outros pesquisadores foram além e constataram que, dentro desse grupo de 150, há uma série de círculos concêntricos de amizade: 5, 15, 50 e 150 pessoas, cada um com características diferentes.

DO PEITO
5 AMIGOS- São os íntimos, com quem você mais fala - e não hesitaria em ligar de madrugada ou pedir dinheiro emprestado. Para Aristóteles, 5 era o número máximo de amigos verdadeiros.

GRUPO DE EMPATIA
15 AMIGOS- São pessoas bastante importantes para você - se algumas delas morresse amanhã, você ficaria muito triste. Este grupo pode incluir gente do trabalho ou amigos de amigos.

NÚMERO TÍPICO
50 AMIGOS- É o número de amizades mantidas pela maioria das pessoas, e também o tamanho médio dos agrupamentos humanos primitivos (como bandos de caça).

LIMITE
150 AMIGOS- Máximo que o cérebro consegue administrar ao mesmo tempo. São as pessoas cujos nomes, rostos e características você consegue memorizar e acionar caso seja necessário.

É inegável que a matéria assume as informações destacadas de maneira obtusa, quase como um dogma. Como tudo em ciência, as afirmações acima devem ser recebidas com senso crítico e as devidas valorações. Creio que tenho mais do que 5 amigos do peito (mas acho que não devemos pedir dinheiro emprestado para ninguém!) e, com certeza, as perdas que me afetariam excedem em muito o número 15. Mas considero valiosas pesquisas como estas, ao menos como parâmetro para entendermos melhor o mundo em que vivemos e como agimos nele.
No final das contas, ter amigos é maravilhoso e, comprovadamente, faz bem à saúde.

A pobre flor do Lácio

O apresentador de um desses programas sensacionalistas locais, não me recordo qual, costumava repetir o bordão "Tem que haver seleção!", quando queria dizer que alguma coisa precisava melhorar. E, para melhorar, claro, dependia de pessoas mais qualificadas.
Acabei de me recordar do dito bordão ao me deparar com esta manchete, no portal de um dos nossos jornalões, logo na home page:

Não sei você, mas eu fiquei bastante decepecionado.

Monitoria

Fui monitor da disciplina Direito Penal por dois anos consecutivos, quando acadêmico da Universidade Federal do Pará, sob a orientação do Prof. Hugo de Oliveira Rocha. Decidi me submeter à seleção porque, aos 19 anos, já sabia que minha destinação era a docência e via naquela oportunidade um treinamento para a carreira com que sonhava. A vida foi generosa comigo e me permitiu consumar meu objetivo, tornando-me professor, em setembro de 1999, e a partir de fevereiro de 2000, assumindo a cadeira justamente de Direito Penal.
Fica fácil perceber que a monitoria significa muito para mim. Dou um valor enorme a essa atividade acadêmica, que serve não apenas para aqueles que têm pendores para a docência. Mesmo quem não pretende seguir tal carreira, mas gosta de estudar, pode utilizar a monitoria para aprofundar seus estudos, fazer pesquisas, treinar a oratória, vencer a timidez, dentre outras utilidades. O mais das vezes, contudo, a monitoria é procurada por quem considera a docência como opção pessoal. Vou abstrair a particularidade do desconto na mensalidade, porque esse é um aspecto digno de nota, mas certamente menor.
No começo deste ano, o CESUPA lançou o edital da monitoria de 2011. A procura foi enorme, o que me deixou muitíssimo satisfeito. No que tange ao curso de Direito, único do qual me atrevo a falar, foram 90 as inscrições deferidas (portanto, a procura foi ainda maior). Mas a comemoração termina aí.
Dos 90 candidatos, apenas 30 compareceram para fazer a prova escrita. Ignoro os motivos. Só sei que dá pena ver tantos FF na lista, o que me leva a especular se não teria faltado um pouco de reflexão na hora da inscrição. O aluno precisa pensar com cuidado se realmente deseja a monitoria e se está em condições de se submeter à seleção. E deve, ainda, dedicar horas para a preparação, posto que a cara e a coragem não são boas aliadas nessa hora.
Tantas desistências são um sintoma e devemos nos preocupar com ele. Ainda mais porque o processo seletivo começa com uma avaliação de histórico escolar e muitos dos desistentes possuíam notas elevadas nesse quesito.
Por fim, dos 30 alunos que efetivamente realizaram as provas, apenas 9 lograram aprovação. 30%. Um índice baixo e preocupante. Duas disciplinas ficaram desguarnecidas. Precisamos extrair desses dados conclusões pragmáticas para o futuro, a fim de preparar melhor nossos alunos, inclusive, quanto a deixá-los mais conscientes sobre fazer ou não essa opção.
Sendo possível que algum dos candidatos reprovados tome conhecimento deste texto, faço questão de deixar claro que não lhes faço nenhuma crítica, nem julgo comportamentos ou razões. Ao contrário, dou-lhes meus parabéns pela tentativa e externo uma preocupação institucional, bem como o meu desejo de que possamos crescer a partir daqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O caso da escrivã nua

Um dos assuntos mais comentados no país, atualmente, é o da ex-excrivã de polícia civil que teve as roupas arrancadas, na presença de vários homens e com as imagens sendo gravadas, por suspeita de crime de concussão. O caso ocorreu há um ano e meio, mas somente agora veio a público, com a divulgação das imagens pela Internet.O delito imputado à ex-escrivã, está previsto no art. 316 do Código Penal, sob a redação "exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida". A pena é considerável: reclusão de 2 a 8 anos e multa. Mas como se pode constatar, as penas são de natureza prisional e pecuniária. Não existe na lei — e nem poderia haver, por óbvia e gritante contrariedade à Constituição — nenhum permissivo para que o condenado (e menos ainda o mero acusado) seja humilhado, ofendido em seu pudor e ainda por cima submetido a exposição pública.
Não tendo assistido ao vídeo que anda fazendo sucesso no mundo-cão graças ao YouTube, até onde sei a suspeita não se recusou à revista, apenas exigiu seu direito de ser revistada por outra mulher. E se trata de direito expressamente consignado em lei: o art. 249 do Código de Processo Penal: "A busca em mulher será feita por outra mulher, se não importar retardamento ou prejuízo da diligência."
No caso sob comento, havia uma policial e uma guarda municipal presentes, mas ninguém recorreu a elas. Parece que os homens no recinto estavam muito desejosos de executar a diligência pessoalmente.
A conduta dos policiais configura o tipo de abuso de autoridade, na forma "submeter pessoa sob sua guarda ou custódia a vexame ou a constrangimento não autorizado em lei" (Lei n. 4.898, de 1965, art. 4º, "b"). Infelizmente, a lei em apreço é antiga e não está à altura dos abusos cometidos hoje em dia. Ela prevê sanções administrativas (da advertência à demissão a bem do serviço público), civil (indenização) e penal (multa, detenção de 10 dias a 6 meses e perda do cargo, com inabilitação para o exercício de qualquer outra função pública por 3 anos). Policiais civis ou militares podem ser ainda condenados à inabilitação para o exercício de funções policiais por 5 anos.
Nada obsta que os agentes sejam punidos, em concurso, também pela ofensa ao pudor da vítima.
Não sei como as imagens, que deveriam instruir uma investigação sigilosa, acabaram na Internet. Mas hoje em dia esse é o destino de tudo, não? O fato é que as cenas, repugnantes mesmo para mim, mero telespectador, são altamente promissoras para uma boa indenização. A ser paga pelo contribuinte, claro.

Entrevista com a ex-escrivã: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/02/e-uma-dupla-humilhacao-diz-ex-escriva-sobre-video-que-caiu-na-net.html

Uma sugestão em relação ao Sr. Amazonino Mendes

Na verdade, a sugestão é para o Ministério Público do Estado do Amazonas e para a Sra. Laudenice Paiva.

Código Penal
Art. 140. Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa.
(...) § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: Pena - reclusão, de 1 a 3 anos, e multa.

PS - Para quem ainda não sabe, o motivo é este.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Quem disse foi ele

A cena se deu na noite do último sábado e eu acompanhei o diálogo.
Cidadão chega para evento que transcorria na garbosa sede campestre da Assembleia Paraense, ali na Av. Almirante Barroso, que de campestre não tem nada. Como todos sabemos, em dia de eventos no local, as calçadas, as faixas de rolagem, o ponto de ônibus, tudo vira estacionamento. E eis que o cidadão percebe uma providencial "vaga" sobre a calçada, bem ao lado do portão do clube. Alvoroçado, o flanelinha lhe acena. Preocupado, o motorista baixa o vidro e pergunta se não corre o risco de ter seu veículo guinchado.
— Pode ficar tranquilo! — garante o flanela. — Deste poste para cá, não tem guincho. É por isso que nós cobramos 10 reais: para dar a ponta da CTBel. Aí colocamos esses cones e mais tarde a CTBel passa aí e nós damos 50, 60 contos para eles.
E o recém chegado então subiu na calçada, não sem antes disputar espaço com um segundo interessado, pagou os 10 reais antecipados e foi curtir sua festa. Se a história do flanelinha era verdadeira; se alguma viatura da CTBel passou por ali; se existe acerto eu não sei nem vi. Como já dizia João Grilo, só sei que foi assim.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A segunda colação

Ontem, acabou para mim o ciclo de colações de grau deste começo de ano. Mais uma turma partiu definitivamente, em uma festa grandiosa que teve algo diferente e muito agradável: os pais foram convidados a subir ao palco e participar de perto das solenidades desde o primeiro momento. Gostei disso, porque valorizou o papel das famílias no momento vivido por aqueles jovens.
Desta vez, era uma "Turma Prof. Clementino Rodrigues" — mais uma, porque esse rigoroso colega adora levar homenagens do gênero —, paraninfada pela Profa. Loiane Verbicaro. As honras foram ainda compartilhadas comigo e com os colegas Isaac Bentes e Bruno Brasil.
Aproveitei a oportunidade para dar alguns bons abraços de despedida e pedir, como de hábito, que esses meninos e meninas mandem notícias. Afinal, sempre queremos saber de suas vidas — que são, para nós, um pouco do que pudemos construir de bom nas nossas.
Vão com Deus. Sucesso e felicidade, sempre.

A melancia e a princesinha

Formalmente, publicar um anúncio de prostituição é crime. Todavia, lá pela década de 1990 essa prática se popularizou nos jornais (refiro-me a Belém; não sei quando o fenômeno aconteceu em outros lugares). Foi quando surgiu, no caderno de classificados, a oferta de "amizades". Um rótulo mimoso para dissimular a boa e velha atividade profissional mais antiga do mundo.
Sempre me diverti com esses anúncios. Volta e meia os leio e encontro alguns detalhes pitorescos. No jornal de hoje, um amigo que nos visitava apontou estes:

A MELANCIA SABOROSA. Quero ver vc comer até o caroço sou gulosa quero rebolar e te fazer pirar rosto lindo cob. negros longos olhos puxados 1 bela tatoo.

A PRINCESINHA. Braquinha linda, 18 anos, olhos claros, corpo bem provocante. Não sou mecânica. td depende de vc.

Meu amigo gargalhou com a melancia, mas eu gostei mesmo desse "não sou mecânica". Que provocação sem vergonha, não? Tudo depende de você. De certa forma, é uma publicidade bem pensada. Se o programa não satisfizer, a culpa é do cliente, não dela. Nada de pretender desconto.

PS - Não publicarei os números de telefone por razões óbvias: comecei dizendo que isso formalmente é crime, certo? Além do mais, jabá gratuito só para os amigos! Ahahahahahahah

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Alguém se ofendeu?

Um conhecido comunicador de nossa cidade fez, outro dia, uma piadinha (ou uma provocação, sei lá) em relação à senadora Marinor Brito. Questionou se ela realmente fora eleita.
Provavelmente devido ao fato de que o rapaz trabalha (ou tem relações profissionais, sei lá) para a empresa de comunicação de Jader Barbalho, justamente a pessoa que perdeu a vaga no senado para Marinor (já que Flexa Ribeiro teve mais votos do que todos), alguns comentaristas responderam ao chiste. Eu, inclusive. E à exceção de um comentarista dissidente (até este momento), as respostas foram veementes.
Deem uma lida na caixa de comentários da postagem.

Apologia de crime? Sério?

Professor de matemática é suspeito de apologia ao crime em Santos

Exercícios dados citam tráfico, prostituição, roubo e uso de arma. Caso foi denunciado à polícia por mãe de uma aluna de 14 anos.

Um professor de matemática de uma escola estadual de Santos, no litoral de São Paulo, é suspeito de fazer "apologia ao crime" por passar aos alunos do primeiro ano do ensino médio seis problemas que citam temas como tráfico de entorpecentes, prostituição, roubo de veículos, assassinato e uso de armas de fogo. Nas questões, o professor pergunta, por exemplo, qual a quantidade de pó de giz que um traficante deverá misturar para ganhar 20% na venda de 200 gramas de heroína ou quantos clientes cada prostituta deverá atender para que o cafetão compre uma dose diária de crack.

O caso foi denunciado à polícia na quarta-feira (16) pelos pais de uma aluna de 14 anos da Escola Estadual João Octávio dos Santos, no morro do São Bento, periferia da cidade. Na última segunda-feira (14), a adolescente comentou com a mãe que não havia conseguido responder um exercício com seis questões aplicado em sala de aula pelo seu professor de matemática. Ao ver as questões no caderno da filha, a mãe se surpreendeu com o conteúdo do texto e decidiu procurar a diretoria da escola.
Na escola, de acordo com o boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (DISE) de Santos, o professor foi chamado à sala da diretora, que também estava surpresa com o conteúdo dos exercícios e confirmou que havia aplicado tais questões, escrevendo-as na lousa, mas sem esclarecer sobre os motivos que o levaram a formular o exercício.
O professor disse ao padrasto da vítima que como a jovem não havia respondido as questões em sala de aula como fora orientada não era mais necessário respondê-las.
De acordo com o delegado titular da DISE, Francisco Garrido Fernandes, que instaurou inquérito para apurar a ocorrência, o professor e a diretora da escola já foram intimados e deverão prestar depoimento na próxima segunda-feira (21).
Caso seja condenado por "apologia ao crime", o professor poderá receber punição de três a seis meses de detenção. "É um delito de menor potencial ofensivo e se o juiz condenar pode aplicar pena de prestação de serviços." Ele diz não ter conhecimento da existência de criminosos na cidade com os apelidos de "Zaróio", "Biroka", "Jamanta", "Rojão", "Chaveta" e "Pipôco", que foram utilizados como personagens nas questões.
Em nota, a Secretaria Estadual de Educação afirma que, após receber as informações da ocorrência da direção da escola, determinou, nos termos da lei, a instauração de procedimento preliminar para apuração de responsabilidades e também o afastamento do docente.
"Enquanto não houver a conclusão desse procedimento, a administração não dará mais informações sobre o caso, pois terá de atuar como instância de decisão, não podendo, portanto, correr o risco de caracterizar prejulgamento", afirma o comunicado.

Fiz questão de copiar a matéria no próprio texto da postagem porque fiquei realmente impressionado.
Tenho um sentimento (e é nada mais do que isso, mesmo: um sentimento) de que o professor não quis fazer apologia de coisa alguma; quis apenas chocar seus alunos. Ou "causar", como se diz hoje em dia. Ele lida com adolescentes e, ministrando uma das disciplinas mais temidas pelo alunado, deve sentir muita dificuldade para cativar o corpo discente. Então decidiu uma manobra radical. Fazendo estardalhaço, conseguiria atenção e, talvez, ativar a memória dos garotos.
Se for o caso, ele não está errado nesse particular. Chama-se mnemotécnica aos procedimentos destinados a estimular a memória. E eles funcionam, porque o cérebro gosta de hierarquia e de padrões. Se a informação é associada a algo marcante para o indivíduo, a tendência é que ele se lembre dela. Por isso o Prof. Pachecão ficou famoso no cursinho pré-vestibular (e depois foi imitado por não sei quantos) devido a suas canções temáticas. O aluno não se lembraria da fórmula da aceleração da gravidade, mas se lembra de como se divertiu na aula em que foi cantada uma canção sobre ela, que ele memorizou e agora se recorda da fómula. Talvez para sempre.
Que pais fiquem incomodados com as escolhas do professor, compreendo perfeitamente. Mas que isso gere um procedimento policial, preocupa-me profundamente. Porque me preocupa tudo que cheire a Estado policial, que é onde vivemos se somos suspeitos pelas mínimas coisas.
Tudo bem, admito que o caso me chamou a atenção também porque meus exercícios e provas são almanaques de sangue, violência e depravações de todo tipo. Mas eu sou professor de Direito Penal!!! Espero não ter que responder, no futuro, pelas criancinhas que os criminosos da família Mangabeira(*) já despacharam para o lado de lá.

(*) Se o seu sobrenome é Mangabeira, relaxe: isto não significa nada. É apenas o patronímico dos personagens desviados de minhas atividades avaliativas, há uma década. E por que Mangabeira? Bem, deixa pra lá.

Ela em todo o seu poder

Estou há seis horas dentro da faculdade onde lecionou. Por causa disso, não tenho a menor ideia de como estão as coisas lá fora, em termos de trânsito, alagamentos, confusão. Mas estou muito preocupado. Quando cheguei aqui, chovia fraco, mas depois veio um temporal legitimamente belenense. E após um período de chuva um pouco mais fraca, ele retornou com gosto. A precipitação continua e acabei de ler que deve prosseguir pela madrugada.
Esta é a Belém que conheço: a cidade das águas. Seria bonito se fosse apenas uma questão de ver a chuva cair, sentir um friozinho gostoso, tomar algumas pequenas precauções. Mas a realidade é bem outra e envolve o desespero de muita gente que, esta noite, não dormirá tentando manter sua casa a salvo. E quanto aos que nem casa têm?

Confluência da Almirante Tamandaré com a São Francisco, agora à noite
(imagem do Portal ORM)
Só nos resta fazer como o Francisco Rocha: acreditar e agradecer.

Chamando os Dominantes...

Desde que minhas atividades profissionais voltaram à carga total, eu ainda não chegara a um final de semana tão cansado, e mesmo depauperado, como hoje. Além do cansaço pelo acúmulo de atividades, inclusive algumas fora da rotina, há uma noite mal dormida e um grande mal estar físico, decorrente de minha prolongada doença. Hoje eu aceitaria, de bom grado, pular dentro de um buraco e que alguém jogasse terra por cima.
Reduzindo um tanto o drama, já me será de grande valia pular na cama e me esquecer de tudo até de manhã. Mas, infelizmente, isso só deve acontecer daqui a mais de duas horas, lá pela meia-noite.
Enquanto isso, que me ajudem os Dominantes...

Como foi o seminário

Como anunciei em postagem da quarta-feira, foi realizado ontem, no auditório do Fórum Cível de Belém, o I Seminário sobre a Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, evento do Núcleo de Prática Jurídica de Proteção Internacional dos Direitos Humanos do CESUPA.
Em que pese a presença de professores convidados, a nossa função ali era debater e não palestrar, exceto a Profa. Nadine Borges, que explicou como funciona o Sistema Interamericano de Proteção de Direitos Humanos, partindo de um reconhecimento duro e verdadeiro: ninguém conhece essa temática. Mas o objeto do seminário esteve, de fato, a cargo da equipe de acadêmicos-pesquisadores, que inclui alunos do terceiro semestre, circunstância que muito nos encanta, pois demonstra empenho e compromisso acadêmico desde cedo, criando condições para uma carreira diferenciada, ainda dentro, mas sobretudo posteriormente à graduação.
Foram expostos três casos julgados pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, cada um dividido em três partes: contextualização dos fatos, direitos violados e decisão da corte. Após a explanação, os debatedores comentavam aspectos que lhes haviam chamado especial atenção. Por exemplo: acerca do caso Gomes Lund e outros vs. Brasil, relacionado à Guerrilha do Araguaia, o Prof. Sandro Simões falou sobre o direito à memória e à verdade. Já no que tange ao caso Escher e outros vs. Brasil, falei sobre como um episódio de interceptação telefônica ilegal tornou-se um sintoma da criminalização dos movimentos sociais e, o que é pior, promovido por instituições públicas.
Por ter que ministrar aulas nas quais haveria atividades de avaliação, não pude permanecer para assistir à última exposição, o que lamento muito. Mas pelo menos posso assistir à gravação, depois.
Destaco, ainda, a receptividade do público, que em sua maioria estudantes, compareceu ao evento e ficou para assistir a cada uma de suas etapas. Não apenas os organizadores e pesquisadores estão de parabéns, mas também cada uma das pessoas na plateia.
Espero, por fim, que o encontro tenha não apenas instruído, mas também despertado paixões.

Moderação, gente!!

Hoje é sexta-feira. As pessoas costumam sair para se divertir e, nessa, sempre acabam consumindo álcool. Aí vêm as inconveniências, os segredos revelados, os ataques de ciúme, os amores destruídos, os acidentes de trânsito, pais de família mortos ou aleijados, processos, corrupção, sofrimento e só quem lucra é a maldita indústria cervejeira.
Por isso, eu lhes suplico: se forem beber, tomem apenas uma latinha de cerveja.


Algumas pessoas podem ficar meio chocadas comigo por esta postagem mas, por favor, entendam: estou me sentindo tão mal hoje, tão mal, que eu achei que uma piadinha politicamente incorreta podia ser desculpada.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Astressina-B

Por que esses inocentes camundongos aí ao lado podem se tornar um marco da ciência?
Eles estavam participando, na pior condição, de uma pesquisa na Universidade da Califórnia, em virtude da qual lhes foram provocadas alterações genéticas. Para tratar as implicações gastrointestinais, foi-lhes ministrado um composto chamado astressina-B, que acarretou um efeito inesperado: os pelos do dorso dos animais, que caíram também em decorrência da manipulação genética, voltaram a crescer. Bingo! Está descoberta mais uma possível opção de tratamento para um dos maiores sofrimentos da humanidade: a calvície!
Infelizmente, o tempo da ciência é muito dilatado. Não existe nenhuma pesquisa com seres humanos nessa linha e, se alguma começasse hoje, não poderíamos estimar em quantos anos poderia ser criado um tratamento realmente eficaz, que estivesse pronto para ser lançado no mercado. É uma pena que demore tanto assim, pois o tempo de milhões de homens pelo mundo afora, eu incluído, escoa a passos largos (ou, para não perder o trocadilho, escapa pelo ralo!).
Tomara que tenhamos boas notícias o quanto antes.

Fonte: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/02/novo-tratamento-para-calvicie-pode-ter-sido-descoberto-por-acaso.html

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O primeiro dia no Facebook

Dando continuidade a minha experiência psicológico-social-telúrico-transcendental sobre a dinâmica do Facebook na sociedade pós-moderna-e-pós-new-up-over-pré-dark-light, registro que, desde a minha adesão à rede, 30 pessoas me solicitaram amizade. A esmagadora maioria delas já mantinha vínculos comigo no Orkut, mas algumas são inéditas. Registro, por oportuno, a figura do professor Daniel Cerqueira, que passou uma temporada conosco no CESUPA e com quem não tinha nenhum contato desde a sua partida.
Posso dizer que estes primeiros momentos já foram proveitosos. Mas vou continuar a examinar como o fluxo de relações pessoais se espraia.

PS - Ao contrário do que escreveu a Luiza Leão, o aplicativo que especula sobre pessoas que talvez eu conheça não funcionou bem comigo. Conheço um número bem pequeno do elenco que a ferramenta selecionou para mim. Mas talvez isso tenha a ver com a exiguidade de informações a meu respeito, por enquanto.

Problemas do exame de Ordem. Pra variar.

Já cansei de dizer, aqui no blog, que sou plenamente favorável ao exame de Ordem, mas contrário ao modo como ele é aplicado. Sempre se disse que a OAB usava o exame como forma de segurar a grande quantidade de bachareis lançados no mercado, principalmente depois que o Ministério da Educação decidiu que o parecer do nosso colegiado de classe não tem poder vinculante. Ou seja, mesmo que a OAB emita parecer contrário a um curso, o MEC pode liberá-lo. Como retaliação, afirmava-se, a Ordem aplicava um te pego na curva que atingia os bachareis, não as instituições (diretamente), muito menos o MEC.
Seja como for, a OAB sempre jurou que seu único compromisso é com a qualidade da formação dos novos profissionais. E até onde sei, nunca respondeu à altura as acusações que recebe. E assim chegamos ao fato de que sempre houve problemas na realização do certame. Eu mesmo sofri isso, quando precisei recorrer de uma nota 8,0 que me fora dada na prova subjetiva, tendo que adivinhar o motivo pelo qual sofrera o desconto. Aparentemente, fora punido por esquecer uma preliminar no recurso, mas a preliminar estava lá! Identificada em letras garrafais. Pelo menos, o erro foi corrigido, mas deixou claro o pouco caso com que as provas estavam sendo corrigidas.
Também houve aquele ano em que alguns alunos trocaram farpas acidérrimas com o então presidente da OAB/PA, hoje presidente nacional, através da imprensa, inclusive. E sempre, sempre houve severos questionamentos sobre erros e abusos na elaboração das provas.
O tempo passou e o exame foi nacionalizado. Vieram então os embates com o quase onipresente CESPE/UNB e suas provas irritantes, com cartões-resposta absurdos. Questões estranhas, respostas malucas e a permanente hostilidade aos recursos dos candidatos foi minando a credibilidade do processo. A gota d'água foram as suspeitas de fraudes, anulação de provas e milhares de pessoas prejudicadas. O CESPE foi então substituído pela Fundação Getúlio Vargas e... não adiantou nada. O exame em andamento já está provocando as suas polêmicas e a nova é uma trapalhada, expressa pelo comunicado abaixo:


O "erro material" pode fazer com que candidatos aprovados com 50 acertos caiam para 49. Dormiram na segunda fase e acordaram eliminados. E o pior é que não poderiam alegar nenhuma espécie de direito de prosseguir, tendo que suportar o revés com cara de tacho.
Eu realmente acho incrível como instituições tão respeitáveis, que fazem esse tipo de trabalho há tanto tempo, conseguem cometer erros tão primários. Tudo bem, erros acontecem, mas esses? Cadê a preocupação com a revisão dos documentos, antes de sua divulgação, ainda mais em se tratando de uma seara tão espinhosa?
O exame de Ordem 2010.3 já começou bem. Vamos ver como ele termina.

I Seminário Paraense sobre a Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos

No ano passado, o Centro Universitário do Pará - CESUPA, instituição na qual leciono, criou o Núcleo de Prática Jurídica de Proteção Internacional dos Direitos Humanos, coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Klautau Filho, que tem por objetivo capacitar acadêmicos do nosso curso de Direito para advogar perante o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Esse tipo de formação é incomum nas faculdades brasileiras, ao mesmo tempo em que é da maior importância, tanto porque somos a pátria de incontáveis brutalidades cotidianas, boa parte delas perpetrada pelo próprio Estado, seja porque o tema direitos humanos é objeto da repulsa generalizada da sociedade, por absoluta ignorância, em grande medida estimulada dolosamente por setores irresponsáveis da imprensa.
Não sabe o cidadão comum, p. ex., que a falta de leitos em hospitais, que leva pacientes a agonizar em macas sem lençol ou até mesmo largados no chão, é um problema de direitos humanos. Enquanto o sujeito grita que direitos humanos são coisa de vagabundo, perde a oportunidade de se instruir, no interesse da proteção dos seus próprios direitos elementares. E quando o Estado não atende esses direitos, pode ser valioso recorrer a uma instância internacional, que force o Brasil a olhar para suas mazelas. Daí a importância de os juristas conhecerem esse sistema.
Como resultado das pesquisas realizadas pelo NPJPIDH, será realizado amanhã, 17.2.2001, o I Seminário Paraense sobre a Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, no auditório do Fórum Cível de Belém. O credenciamento começa às 14 horas e lamento informar que as inscrições estão esgotadas, mesmo considerando um acréscimo de vagas que foram abertas de última hora.
Você pode conhecer a íntegra da programação aqui mas, em síntese, teremos, às 15 horas, uma palestra sobre O sistema de proteção da Corte Interamericana de Direitos Humanos, com a Profa. Nadine Borges, da Universidade Federal Fluminense e representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Após, os nossos acadêmicos apresentarão três casos julgados pela Corte (Gomes Lund y otros [Guerrilha do Araguaia] vs. Brasil, Escher y otros vs. Brasil e Ximenes Lopes vs. Brasil). Às apresentações dos pesquisadores se seguirão debates conduzidos pelos professores do CESUPA, Paulo Klautau Filho e Sandro Simões (o primeiro), Bianca Ormanes e este que vos escreve (o segundo). O terceiro caso será debatido pelas professoras convidadas Nadine Borges e Cristina Terezo (UFPA).
À frente da organização, a Profa. Luciana Fonseca, amada por onze em cada dez pessoas que a conhecem. Espero que seja só o primeiro de muitos.

Uma questão de perspectiva

Você, mulher (ou homem, tanto faz!), olhe bem para a imagem abaixo e me responda:


Você queria viver um romance com um sujeito desses? Você se imagina beijando esses lábios carnudos, batendo seus dentinhos nos dele? Acariciando esse cabelinho que já teve aquela fase residual da copa de não sei que ano?
A julgar pelos comentários que escuto das sempre exigentíssimas mulheres que me cercam, o rapaz ali em riba não teria a menor chance. Mas o tempo passou e o camarada fez carreira no futebol, virou "fenômeno" e saiu pegando a Milene, a Cicarelli, os travestis, etc. Em suma, ele realizou um antigo aforismo:

Quem ama o feio, bonito lhe parece.

Há um outro aforismo que me vem à mente, mas esse eu prefiro omitir, para não ser indelicado. E antes que alguém pense mal de mim, não tem a ver com homofobia, e sim com cifrões.

Clima de montanha

Ontem choveu em Belém de manhã, à tarde, à noite. Quando me deitei na cama, tive que admitir que estava frio. Não frio para os nossos padrões, mas uma temperatura que podia ser considerada realmente baixa. As paredes, p. ex., estavam com aquele jeito de garrafa d'água tirada da geladeira.
Para mim, nenhum problema. Muito pelo contrário. Eu não me importaria nem um pouco se metade do ano fosse como ontem. Estava confortável, sem camisa, mas sem a necessidade de qualquer artifício para dormir bem. Ao meu lado, Polyana cobria-se dos pés à cabeça. Mulheres: sempre friorentas...
Não sei se o dia de hoje seguirá no mesmo rumo, mas ele amanheceu bastante nublado. Por via das dúvidas, guardachuva a postos.
Bom dia para todos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Será que foi engano, mesmo?

O Twitter do Supremo Tribunal Federal sugeriu a Sarney que se aposente! Mais do que depressa, o presidente da Corte, Cezar Peluso, irritado, esclareceu que a mensagem certamente foi postada na conta institucional por lapso e prometeu para hoje mesmo um pedido de desculpas ao bigodudo.
Que desculpas, o quê, Peluso!!!
Temos é que sugerir a Sarney que vaze, o quanto antes e para o mais longe possível!

PS - A causadora do incidente interinstitucional já foi identificada. Só uma correção: ex-funcionária terceirizada.

Aderi

Outro dia, publiquei uma postagem sobre o Facebook como moda do momento, em termos de redes sociais. E ela rendeu uma manifestação do André Coelho, também publicada com destaque, em cuja caixa de comentários tivemos um debatezinho sobre reconhecer as pessoas como nossos iguais. Lá, o André e a Luiza Leão me conclamaram a aderir à criação de Mark Zuckerberg. Ontem à noite, por fim, capitulei. Estava em casa, desacelerando para dormir, e resolvi aceitar o convite que me fora formalizado dias atrás pelo Paulo Klautau.
Agora sou dono de um perfil no Facebook, com quatro amigos: o Klautau, a quem respondi, minha esposa e os dois amigos supranominados. Foram os únicos a quem procurei. E até ulterior deliberação, não pretendo convidar mais ninguém. Encaro isso como uma espécie de experiência psicológica. Quero ver quanto tempo demorará para alcançar uma quantidade de amigos equivalente a do Orkut (seiscentos e qualquer coisa). E ver como se dá esse processo de encontros virtuais. Na verdade, mesmo no Orkut, foram raras as pessoas que convidei; a esmagadora maioria teve a gentileza de vir até mim. Agindo de maneira parecida, quero saber se o processo de expansão na rede será semelhante ou se terá contornos próprios. Afinal, anos se passaram e a ferramenta tem umas funcionalidades diferentes.
Hoje à noite, vamos às primeiras análises. Se houver o que analisar.

Dura lex na velha bota


Você confiaria neste cara?
Legenda: "Italianos, não me deixem só!"
Mais uma da série "Lá e cá". No Brasil, algo assim é simplesmente inimaginável, mas na Itália a máxima autoridade do Poder Executivo, o premiê Silvio Berlusconi, sofreu um revés hoje, quando o Tribunal de Milão decidiu julgá-lo imediatamente por fazer sexo com uma prostituta menor, prevalecendo-se de seu cargo.
O escândalo — as palavras "Berlusconi" e "escândalo" um dia serão dicionarizadas como sinônimas — ficou conhecido como "Rubygate", em alusão ao apelido da garota pivô do caso.
O milionário líder italiano não se abalou com a notícia, "já esperada". Como político é tudo igual, sua tese é de que está sendo vítima de uma conspiração motivada por interesses políticos. Tese por sinal curiosa, considerando que o próprio já admitiu diversas vezes "não ser santo", nestes termos. Até as mais secas parreiras da Toscana sabem que o dito cujo é obcecado por mulheres e usufrui de seu dinheiro e poder para viver festejando.
O fato de a vítima ser uma prostituta não muda o contexto de exploração sexual, como entende qualquer pessoa bem intencionada. A leniência com comportamentos desse tipo é a mola do sucesso do tráfico internacional de pessoas, para fins de exploração sexual — um dos crimes mais repugnantes que se pode conceber.

Berlusconi e a causa
de muitos de seus
atuais problemas
 Enquanto isso, no Brasil, nem precisa ser presidente da República. Qualquer deputadinho escapa de acusações muito mais graves (ou pelo menos tão graves quanto). Antes que vocês pensem que este comentário tem destinatário certo, porque não tem, refiro-me à impunidade generalizada no país. Afinal, por aqui abuso de poder é rotina e quase ninguém é punido por isso. Quando acontece, são as otoridades que caem na rede.
Outra coisa que não existe no Brasil é essa história de via do "processo acelerado", mencionada na reportagem.
Aguardemos, enfim, o desenrolar dos fatos. Berlusconi tem muita munição para gastar.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Bom demais de ouvir

Deus foi bacana comigo hoje. Duas ex-alunas diferentes me disseram a mesma coisa, uma sem interferência da outra, uma pela manhã, outra agora à noite. Concluintes, elas se submeteram ontem à primeira etapa do exame de Ordem e me disseram que responderam bem a parte de Direito Penal, mesmo sem estudar; disseram que a lembrança de nossas aulas, dois anos atrás, serviu para que se saíssem bem.
Poucas coisas recompensam tanto um professor quanto escutar algo do tipo descobri que sei a sua matéria. Não apenas porque há um quê de gratidão no comentário do aluno, mas porque dá um sentido ao fato de você ter abraçado a docência.
'Tá, eu sei que esta postagem não disfarça uma boa dose de vaidade. Admito. Se eu não fosse vaidoso, não teria um blog de conteúdo pessoal. Escreveria sobre como criar peixes. Mas não tenho como deixar de me regozijar com notícias tão calorosas, vindas tão espontaneamente. Vocês têm que aceitar que os frutos da docência me deixam sempre tão feliz que preciso compartilhá-los, já que não cabem aqui neste peito.

Isso é que é trote

Universitários vão ajudar escalpelados
A Escola Superior da Amazônia (Esamaz) fez ontem um trote educacional com orientação em solidariedade às vítimas de escalpelamento no Pará. Uma palestra aconteceu no campus da Municipalidade para os novos e antigos alunos do curso de Enfermagem: participaram o diretor de Planejamento Educacional, Reinaldo Gonçalves, o diretor de Ensino e Pesquisa de Extensão, Adalto Guesser, a representante do Comitê Estadual de Erradicação dos Acidentes de Escalpelamento, Iraquelma Castro, e a assistente social e palestrante Patrícia Gomes.

“Os estudantes de enfermagem tem por ‘obrigação’ prevenir para problemas assim. Eles são multiplicadores e fazem um papel fundamental na vida de comunidades que não tem tanta informação”, defendeu a assistente social Patrícia Gomes.
De acordo com informações da Secretaria de Saúde do Pará (Sespa), em 2010 houve redução dos acidentes de escalpelamento: apenas quatro foram registrados. Em 2009 esse número chegou a 24. A redução é reflexo dos trabalhos de prevenção feitos nas comunidades ribeirinhas.


TROTE SOLIDÁRIO
A aluna do 2º ano, Laila Garcia, prestava atenção redobrada à palestra: “É muito bom para nos conscientizar da gravidade que é o acidente. Podemos ser solidários com o problema”. A caloura Cleide Vilhena comemorou: “Estou começando com o pé direito. Me enchendo de informações que são muito úteis”.
No final do mês os alunos de enfermagem encerrarão o trote solidário com visita ao Espaço Acolher, que cuida de escalpelados. Os alunos devem também doar lenços para as cabeças dos acidentados.(Diário do Pará)

Mesmo compreendendo desde logo a gravidade do problema, depois que vi uma exposição da Marinha sobre as meninas escalpeladas, no campus da UFPA, tive uma noção maior dele. Não sabia da quantidade de casos nem de como as lesões podem ser muito mais terríveis do que nos parecem, à primeira vista. Não se trata, apenas, de arrancar o escalpo, mas às vezes arrancar até a lateral do rosto, com orelha e tudo. E tudo isso na infância ou na adolescência. Os efeitos psicológicos são devastadores.
Portanto, toda ajuda é mais do que bem vinda. Parabéns à Esamaz pela iniciativa.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Brega Jurídico

Repercuto artigo publicado, entre nós, pelo Blog do Alencar. O tema já foi abordado aqui em outras oportunidades: a forma como os juristas ou quase isso usam a linguagem para se expressar, para confundir ou para se trumbicar, como queiram.
Com vocês, o Brega Jurídico.

Meu camarão

Segundo o jornal de hoje, 80% da produção de camarão-rosa do Pará são destinados à exportação, sendo 60% para o Japão e 20% para a Europa. Somente os 20% restantes são comercializados internamente.
Alguém pode me dizer por que os japoneses merecem comer o nosso camarão mais do que nós?
Por favor, ninguém me responda com a obviedade tosca de que eles pagam um preço maior pelo produto. Isso até os plânctons sabem. A minha pergunta vai mais fundo e tem a ver com o desinteresse de todas as instâncias de governo, em todas as épocas, em assegurar que os brasileiros tenham o direito de usufruir um pouco mais de suas riquezas naturais. Para nós sempre sobra o rebutalho, desde os tempos do Brasil-colônia. Mas, que eu sabia, não somos mais uma colônia já há algum tempo, certo?

Colação de grau

Naturalmente, para um professor universitário colações de grau são acontecimentos rotineiros. E a industrialização do entretenimento leva a uma certa padronização dos eventos, em alguns casos até com perda da espontaneidade. Entretanto, há um elemento pessoal que jamais pode ser ignorado: os sentimentos que nos unem aos nossos ex-alunos. Por isso, entra ano, sai ano, se me convidam, jamais deixo de comparecer às solenidades de colação grau, tanto a cerimônia acadêmica quanto o baile. E uma vez lá, vibro com os meus pupilos, imbuído de um sentimento paternal que sempre tive e que, segundo penso, é uma das demonstrações do que acredito ser minha destinação natural à docência. Definitivamente, essa é a carreira em que eu preciso estar.
Ontem à noite, estive em um baile de formatura. Uma turma vespertina da qual me separei um semestre antes do previsto, para readequar o meu horário em função do nascimento de minha filha. Uma escolha que precisei fazer, naquela conjuntura, mas não sem uma sensação de perda. Ontem, estive com eles de novo, e na honrosa condição de homenageado, juntamente com os colegas Luciana Fonseca, Eduardo Lima Filho, Valena Jacob, Liandro Faro (paraninfo) e Aline Chamié (nome da turma).
É sempre maravilhoso viver essa última confraternização e dizer a eles que continuamos por lá, à disposição, se pudermos ajudar em seus futuros desafios profissionais e também acadêmicos, para aqueles que continuarão na academia. Foi particularmente emocionante passear pelo salão, abraçando um a um cada colando, oportunidade de fazer algo de que gosto muito: interagir com as famílias. Adoro dizer aos pais o que penso de seus filhos. Alguns reagem de uma maneira que só vendo, o que aconteceu ontem, p. ex.
Enfim, acabou. Vai-se a turma do Carlos Thiago e de sua namorada violoncelista Karla Harada; da Monike, da Paulinha Godoy, da Ana Paula Moncherry, dos Ivans (Lauzid e Mello), do blogueiro Leonardo Nóvoa, da Lúcia Helena, dos grandões Igor e Nelson e de tanta, mas tanta gente bacana, que na minha próxima aula no turno da tarde será inevitável olhar o corredor procurando por eles. Mas a vida segue sempre em frente e assim precisa ser.
Por isso, que tenham todos muito sucesso e alegria em suas vidas. Os professores continuamos no lugar de sempre, na torcida.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Desesperada necessidade de atenção

Vendo ontem o episódio "A Internet é para sempre", da quinta temporada do seriado Criminal Minds, no qual um assassino estrangula mulheres e exibe as imagens em tempo real pela rede mundial de computadores, deparei-me com uma sequência interessante.
Nela, o veterano Agente Rossi admite sua ignorância quanto às redes sociais (onde as vítimas eram selecionadas) e lê coisas como "hoje vou almoçar tal coisa" ou "meu chefe é um saco", etc. Postagens extremamente rápidas, na linha Twitter. O respeitado pesquisador se pergunta — creio que com uma certa dose de desdém — quem, afinal, pode achar que haja pessoas interessadas em saber coisas daquele tipo. O Agente Morgan lhe responde que, talvez, ninguém se interesse, mas há pessoas que precisam desesperadamente acreditar que alguém se interessa.
Trata-se, portanto, de uma técnica de autoengano. Só consigo pensar que agir dessa forma expressa uma profunda carência emocional somada à inabilidade para relações sociais, ou seja, o indivíduo tem uma necessidade de ser amado acima da média (todos temos tal necessidade), mas não sabe como obter admiração e afeto na relação direta com seres humanos. E o interessante é que essa inabilidade pode ser percebida mesmo em pessoas que dispõem de todos os recursos para se fixar em grupos de afinidades - na escola, no trabalho, etc.
Quando escrevi postagem rejeitando o Twitter para mim mesmo, tinha navegado um tempinho no microblog e ficado um tanto impressionado com a quantidade de textos banais, exatamente nessa linha. "Já vou para a academia", "estou pensando em pegar um cineminha", "me sinto bem hoje", etc. Naquele momento já me perguntava para que isso. Refletindo a respeito após ver a cena acima descrita, volto a pensar no imenso paradoxo de nossos dias: há cada vez mais gente no mundo, mais formas de interação física ou virtual e, mesmo assim, as pessoas parecem cada vez mais solitárias e tristes. Realmente, isso me parece por demais contraditório. E me entristece, também.

Violação de estabilidade provisória de gestante

Por razões políticas. No meu outro blog.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não tem graça

Tenho um amigo que quando jogava conosco, qualquer jogo que fosse, já anunciava antes de começarmos: "se eu tiver uma oportunidade, vou roubar!" E com a cara mais deslavada do mundo, comprava cartas a menos, olhava as dos demais jogadores, escapulia de punições, etc. O interessante é que a pilantragem era tão explícita e honestamente prometida que lutar contra ela se tornava uma diversão adicional na brincadeira.
Por isso, é sem nenhum prazer que tomo conhecimento do "Monopoly Live", a nova versão de um dos jogos de tabuleiro mais famosos de todos os tempos (no Brasil: "Banco Imobiliário"), que conta com recursos tecnológicos para rolagem dos dados, controle das casas a percorrer e do dinheiro em poder dos jogadores. As possibilidades de fraude são eliminadas.
Isso é bom? Na vida, sim; no lazer, mata-se a espontaneidade. O argumento na linha moral da história (aprender a jogar sem enganar os outros) não me convence. Há outras formas de ensinar ética para as crianças. E na hora de dar um tempo nas obrigações da vida, quando se quer apenas passar o tempo e rir, uma chicanazinha inocente até que se torna um tempero legal. Vale lembrar que o blefe faz parte de certos jogos.
E você? Joga o Live ou prefere o tradicional?

Mais premiações para o cinema

O Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, é um dos mais importantes e respeitados do mundo. Na minha humilde e leiga opinião, levar um Urso de Ouro vale mais do que um Oscar em termos de credibilidade artística. Afinal, o Oscar é acima de tudo confete e dinheiro.
61ª edição do festival berlinense começa hoje e dá grande destaque ao brasileiro Tropa de elite 2. Lembre que Padilha foi premiado em 2008 pelo primeiro filme da série. A parte 2 não integra a mostra competitiva, mas pode ser laureada com o prêmio do público — o que não é pouco. Além do nosso arrasa-quarteirão, há dois outros títulos brasileiros no evento. Espero que se saiam bem.
Saiba mais sobre a Berlinale aqui ou em sua página oficial.

***

E por falar em cinema, pelo menos nove pessoas, em três países (Estados Unidos, Canadá e Austrália) já passaram mal ao assistir ao filme 127 horas, que conta a história real do alpinista americano Aron Lee Ralston, hoje com 35 anos, que sobreviveu a um acidente durante escalada porque amputou parte do braço a sangue frio, em maio de 2003. Não estou estragando o filme: a própria publicidade dele se baseia na ampla repercussão que o caso teve, na época.
O motivo das reações extremadas é o realismo da cena de amputação do braço, que foi feita com um canivete. O médico australiano Gordian Fulde, que relatou até um caso de ataque epilético, explica que o indivíduo pode somatizar a sua angústia a ponto de sofrer desoxigenação no cérebro, o que permite desde um mero desmaio até o sobredito ataque epilético.
O filme está fazendo uma carreira vitoriosa entre público e crítica, com destaque para o ator James Franco, intérprete do protagonista, elogiadíssimo e inclusive indicado ao Oscar de melhor ator.
Claro que eu já fiquei com muito mais vontade de assistir.

Uma questão de tom

A família de minha esposa tem tradição musical. Júlia é trineta de um maestro (José Agostinho da Fonseca); bisneta do maestro Wilson Dias da Fonseca (o Isoca), um dos grandes compositores eruditos brasleiros; neta e sobrinha de outros maestros, músicos e compositores. Aos dois anos e meio, ainda não sabe nada de música, mas parece já ter adquirido a marrentice dos artistas.
Esta manhã eu a levava para a escola e ela começou a cantarolar uma cançãozinha. Depois me pediu que cantasse Aquarela, a sua canção favorita. Entoou os dois primeiros versos e eu prossegui dali. Repreendeu-me: queria que eu cantasse desde o "sol amarelo". Reiniciei, mas ela nem me deixou prosseguir:

— Não, pai! Não está bom esse tom!

E eu merecia uma dessas às 7h35 da manhã?

Exercício de futurologia

No blog Espaço Aberto, o jornalista Paulo Bemerguy especula sobre o destino que será dado ao terreno onde desabou o Edifício "Real Class". Diz ele:

E aí?

O que vão fazer na área onde desabou o Real Class?
Outro edifício, seguramente, não será.
Ou alguém acredita que uma construtora qualquer terá peito de erguer uma nova obra naquele mesmo terreno?
Moradores das redondezas estão se organizando para propor duas alternativas.
Uma delas: a construção de uma praça ou de uma área de lazer.
A outra: a construção de uma capela.
No caso da praça, se vier mesmo a ser construída, o Poder Público terá que desapropriar o local.
Mas se a construção começar no governo de Duciomar Costa, o huno, não acabará nunca; ou pelo menos não acabará durante o governo dele.
Se Duciomar passa três anos para construir uma calçada de 900 metros, imaginem quanto tempo não passará para construir uma praça, digamos, mais caprichada!
Aliás, a ser verdade que a Real Engenharia quer mesmo livrar sua barra da melhor forma possível, por que não ela mesma tomar a iniciativa de doar o terreno ao município e de ela mesma construir uma área de lazer no local?
Está bem que isso não recobraria a vida das três pessoas que morreram na tragédia que foi o desabamento do Real Class.
Mas pelo menos seria um gesto voluntário que demonstraria um mínimo de senso de humanidade num setor como o do mercado imobiliário, de onde só ressoa o barulho das caixas registradoras.

Escrevi-lhe um comentário, que compartilho aqui:

Meu amigo, sejamos sensatos: a Real não vai doar um terreno em área nobre, que lhe custou alguns milhões de reais (porque é na casa dos milhões que custam esses imóveis hoje em dia). Ainda mais considerando o tamanho do prejuízo que precisará indenizar.
Quanto a desapropriar o imóvel, não creio que a medida se justifique considerando apenas o interesse público. A indenização do imóvel desapropriado custaria aos cofres públicos muito mais do que a obra em si e uma praça não traria benefícios que justificassem tamanho investimento. Se ainda fosse para construir um espaço para prestar algum serviço público, vá lá, mas nem assim temos justificativa no campo da economicidade, pois seria possível construir em outro local, por menor preço.
Peço que ninguém me demonize: não estou fazendo juízos de valor pessoais, apenas comentando sob uma ótica jurídica.
Meu palpite é que a Real vai segurar o imóvel um tempo, as pessoas vão esquecendo, como sempre esquecem e, no futuro, será erguido um edifício lá. Comercial. Prédio residencial não, porque as pessoas se recusarão a morar ali. Mas as salas comerciais surgirão, construídas pela própria Real ou por outra empresa. E assim será para que a Real dê viabilidade ao investimento feito na compra do imóvel.

Esqueci de dizer, no comentário acima, que o Edifício "Raimundo Farias" desabou na Doca e ela foi se enchendo, cada vez mais, de espigões. Lá estão, inclusive, as duas torres mais altas da Amazônia, com seus 40 andares.
Então anotemos aí: estou apostando na construção de um edifício comercial, nos próximos anos. E como o tempo hoje é muito mais rápido para tudo, penso que dentro de cinco anos ele estará lá. Pode até ser que não inaugurado, mas estará. O tempo dirá se acertei.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pachelbel

O rosto que você vê aí ao lado pertenceu a Johann Pachelbel, músico alemão que viveu em Nuremberg entre os anos de 1653 e 1706. Destacou-se como organista e compositor, sendo um dos expoentes do barroco, embora usualmente se costume falar apenas em Bach e Händel, nesta ordem.
Mas Pachelbel foi um compositor maravilhoso. Esta manhã, vacinei-me contra as complicações do trânsito escutando a mais famosa de suas obras, Canon et gigue, e posso lhes assegurar que a terapêutica foi muito bem sucedida. A música é arrebatadora em sua extrema suavidade e me garantiu um ótimo começo de dia.
Experimente você também.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Comida sem frescura

O que você prefere comer? Confit de canard ao molho de cinamomos ucranianos, prensados pelas freiras ciclotímicas da Lapônia, acompanhado de risoto de especiarias da Indochina, ou uma porção de charque desfiado, bem dessalgado, com aquele arrozinho branco que pode ter sobrado de ontem? A maioria das pessoas provavelmente responderia que depende da ocasião. Deveras, mas a questão aqui é falar sobre tendências. Afinal, que espécie de comida você aprecia?

Cozinha francesa: romântica,
artística, multifacetada e escassa
- o ícone da chatice
 Gosto de visitar restaurantes. Quando conheço um novo, passeio pelo cardápio para tentar entender o que pensa o chef. Mesmo aqui em Belém, onde não existem aqueles estabelecimentos onde o cafezinho sai a 500 reais, volta e meia me deparo com umas iguarias engraçadíssimas, que me passam a nítida impressão de sofisticação forçada, artificial como o suco de caju que minha mãe toma. Eu não, porque detesto caju.
Começo a desconfiar quando vejo o cardápio cheio de estrangeirismos ou minudências. Faz alguma diferença se o molho foi feito com a parte de cima do tomate escarlate criado na região setentrional da Terra do Fogo? Aposto que ninguém cultiva tomates na gelada Terra do Fogo! Em boa parte dos casos, esses fru-frus são pura enganação. E felizmente agora posso afirmar isso com base em estudos!

Feijoada: o mais conhecido dos
pratos brasileiros, reabilitado
em mesas requintadas
 Encontrei por acaso este divertido texto assinado por Iara Biderman, explicando sobre pessoas que já se cansaram de comida afrescalhada. Gostam mesmo é da boa e velha comida simples, que pode ser encontrada em nossas casas, alimentar, fazer bem à saúde e ainda por cima divertir. Como uma singela posta de dourada grelhada, servida com arroz branco e farofinha.
O texto é um pouco longo para os padrões internéticos, mas vale a pena ler. A parte final, sobre como reconhecer restaurantes pós-gourmets, é um barato. Tive que rir com a oportuna dica n. 2: "A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato (com preferência para iguarias com um taxa de ocupação de mais de 100% dos pratos, como bifes que caem pelas bordas dos pratos)".


Café com pupunha:
prazer genuinamente paraense
 Mas preciso fazer uma ressalva: uma das dicas inclui "pupunha" na lista de palavras proibidas nos cardápios descolados. Mas isso não é justo com os paraenses. O problema é que, como a gastronomia paraense é, sabidamente, uma das melhores do mundo, muita gente tentou se valorizar usando os nossos ingredientes e pode ter extrapolado. Mas não podemos punir a pupunha por causa disso.
Pupunha é coisa nossa, popularíssima, de se comer tirando a casca com os dentes, rebatendo com um cafezinho preto.
Tá a fim?

Leitura dramática (II)

Hoje e amanhã, a Cia. Teatral Nós Outros fará a leitura dramática de "Fica comigo esta noite", famoso texto de 1988 do ator e roteirista paulistano Flávio de Souza (55), que a companhia já encenou anteriormente.
Saiba mais sobre o evento aqui.
A leitura dramática ocorrerá às 20 horas desta terça e quarta-feira, no espaço A Casa da Atriz (rua Oliveira Belo, 95, Umarizal). E, de quebra, a entrada é franca.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um ótimo clima

Estou em casa agora, após o primeiro dia do semestre letivo. Correu tudo bem e, quando deixei o prédio, fiquei com a firme impressão de que o ambiente todo estava muito bom: alunos e professores estavam bem humorados, sorridentes, conversando. Sabe aquela coisa de energia boa? Foi o que me pareceu. Tomara que continue assim.
E se essa energia puder curar minha garganta detonada, melhor ainda.

Recomeço

Começa hoje o meu 23º semestre letivo. Um começo oportuno, após um tempo satisfatório de descanso.
Todo recomeço me provoca uma certa ansiedade, mas desta vez um pouco menos, porque não possuo turmas novas, apenas continuidades. Isso facilita, claro. E uma dessas turmas completará o ciclo de quatro semestres letivos comigo. Não sei se foi bom para eles, mas é relevante para mim.
Que seja um tempo bom para todos nós.

Cisne negro

Existem bons filmes e existem aqueles que realmente fazem a diferença; aqueles que lhe proporcionam uma sensação de alegria e recompensa por ter ido ao cinema. Nesta categoria inclua










Cisne negro (Black swan, dir. Darren Aronofski, EUA, 2010).
Tudo nele é espetacular: o roteiro (que é o mais importante para mim), a direção, a atuação de Natalie Portman, a plástica, a maquiagem, os efeitos visuais e os efeitos na espinha que as cenas de suspense provocam.
Vá e aproveite.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fala muito sério...

Sabe quando externei o meu desejo e a minha necessidade de me livrar da virose instalada nesta casa há dois meses? E que eu precisava disso antes do retorno das aulas?
Pois é. De sexta para sábado, a gripe voltou com vontade! Que saudade do tempo em que, mesmo que o mundo todo desabasse de gripe ao meu redor, eu permanecia hígido... E vamos aos remédios...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cores domésticas



Fiquei encantado com as cores das folhas, formando uma espécie de degradê, mas explodindo na diversidade das flores. Adoro plantas que dão flores de cores diferentes.
A planta da foto se chama Maricotinha, segundo a pequena Júlia.

Há dias em que nos sentimos assim



A foto foi tirada na tarde de 30 de dezembro passado. Quando vi o cachorro na chuva forte, registrei de imediato. Cães são animais muito expressivos, comprovadamente. Este aí parou no meio da rua, causando-me profunda expressão de desalento ante a falta de um abrigo. Não sei por quê, mas a cena ficou em mim como uma espécie de metáfora.

Somente entre os iguais

Pouco mais de uma hora e meia depois da minha postagem sobre o Facebook (a imediatamente anterior a esta e que você deve ler antes), o cara que sempre dá um novo e melhor significado aos meus textos, André Coelho, me honrou com mais esta excelente colaboração:

A meu ver, os irmãos Winklevoss tinham toda razão. Nos EUA, a febre era o MySpace, o Friendster etc., quando surgiu o Facebook, que estava associado à elite universitária e que, por isso mesmo, de repente se tornou um diferencial de status. No Brasil, a febre era o Orkut, que, no seu início, só podia ser acessado mediante convite e estar nele também era um fator de status. Quando ele se popularizou, tornando-se, numa feliz expressão do twitter, "o baile funk" da internet, em que todo tipo de gente pode ser encontrada, eis que surge o Facebook como alternativa "civilizada", onde a pessoa da classe média encontra aquelas pessoas com quem ela sairia, a cujos aniversários ela iria, com quem ela falaria se encontrasse na rua. Lá ela não vai ler, com caracteres bizarros e os mais assustadores erros de português, que "Sua inveja faz o meu sucesso", que "É fácil falar de mim, difícil é ser eu" ou "Solteiro, sim, sozinho nunca", e coisas do tipo. Pelo menos por algum tempo. De repente, o Facebook se tornou a Wandenkolk, para não dizer o Leblon ou a Vila Madalena da grande Cosmópolis virtual, o lugar em que eu não vou ver e posso fingir que não existem exatamente aquelas pessoas que são invisíveis também na minha cidade, no meu país, aquelas pessoas cuja falta de educação, de estilo e de status me ofendem pessoalmente, aquelas pessoas que eu quero deixar no gueto, na favela, na invasão que eu agora considero que é o Orkut. Pelo menos até que os invisíveis se tornem visíveis também nesse novo espaço e me obriguem a buscar um novo espaço privado e bem guardado, um Atalanta ou um Greenville em que eu me sinta seguro com os meus de novo. Por isso, os irmãos Winklevoss nunca tiveram tanta razão. Eu uso o Facebook, porque estar numa rede social é estar onde as pessoas que você conhece estão e onde você pode saber delas, manter contato com elas, ver suas fotos e seus recados. Mas sei que numa rede social virtual, assim como numa rede social real, status e preconceito andam de mãos dadas e a suposta democratização da internet só funciona para quem fecha os olhos para a formação de elites e círculos virtuais restritos. As pessoas que usam o Facebook são, em sua maioria, as mesmas que só se reúnem com seus iguais e que banem qualquer incômoda diferença para trás das cortinas de seu mundo cor-de-rosa. Não seria de esperar que fizessem diferente quando estão on line.


André, minha dívida contigo já é impagável.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sem o diferencial

Uma das cenas mais interessantes do filme A rede social, na minha opinião, mostra os irmãos Winklevoss e Dyvia Narendra contratando Mark Zuckerberg para criar uma rede social para eles. Expostos os termos do pedido, Zuckerberg pergunta qual seria o diferencial da rede, se ela, enquanto conceito, não seria muito distinta de outras, já existentes. Agastado, um dos gêmeos responde:

— Harvard.edu!

Com isso, deixa claro que o essencial era a tal rede funcionar como um clube privê para a elite intelectual estadunidense, sediada na celebérrima Harvard. Era a ideia original, mas não foi assim que as coisas permaneceram. Aliás, o Facebook não se tornaria uma empresa altamente lucrativa se permanecesse restrita ao universo acadêmico, mesmo que da poderosa Harvard, ainda mais considerando que Zuckerberg não quis abrir o capital e nem torná-la acessível a qualquer tipo de publicidade.
O fato é que, hoje, qualquer pé rapado pode ter uma conta no Facebook e é exatamente o que está acontecendo. Graças a isso, o outrora onipresente Orkut está virando uma espécie de rede social de pobre, enquanto as coisas acontecem de verdade no Facebook. De repente, começa a ficar claro para mim por que tanta gente que conheço, e sei que navega muito na Internet, não tem atualizado seus perfis no Orkut. Até uns meses atrás, quando acontecia de tirar fotos com amigos por aí e pedir para me mandarem por e-mail, respondiam-me que elas seriam publicadas no Orkut. Copiei várias fotos assim. Esta semana, contudo, uma ex-aluna me disse, com naturalidade:

— Tens Facebook? As fotos da formatura estão lá.

Estou convencido de que esse fenômeno tem relação direta com o sucesso de A rede social. A sofisticação original do Facebook seduziu gente por toda parte e é mais quem quer se sentir perto de Zuckerberg. Se Orkut Büyükkokten não tivesse batizado sua criação com o próprio prenome, já estaria num negro esquecimento.
Faz tempo que recebo convites para aderir ao Facebook. Sempre ignorei todos, por um único motivo: não quero ter conta em diversas redes sociais. Sou econômico, gosto de parcimônia. Se tenho conta no Orkut e ela atende aos meus objetivos, não preciso de outra. Acho ridículo gente que tem conta no Orkut, Facebook, Badoo e sei lá mais quantas porras dessas e convida as mesmas pessoas para todas elas! O cara precisa de minha amizade em quantos mundos virtuais, Jesus Cristo?!
Some-se a isso que há muito tempo tornou-se raro eu acessar o Orkut. Nunca me desliguei porque ainda é o meio pelo qual reencontro antigos amigos, mando mensagens de aniversário, enfim, acompanho de longe a vida de pessoas queridas. Não vejo vantagem em criar um segundo perfil que raramente será utilizado. A menos, é claro, que no final das contas os proveitos que ainda tiro do Orkut acabem de vez e não me reste alternativa senão aderir a um mundo que deveria ser majestático como Harvard, mas que hoje é apenas mais uma farinha de feira.