terça-feira, 31 de julho de 2012

Dieta mal sucedida

“Me sinto enojado, mais que isso, enquanto homem que tem mãe, irmã e queridas amigas e que sonha com uma sociedade mais igualitária”.

Esta contundente manifestação foi uma das respostas que internautas postaram na página que a Prudence, marca de preservativos, mantém no Facebook. Tudo por causa da publicidade que você vê ao lado, que simula uma tabela de calorias e, a título de brincadeira, dá sugestões para queimar mais energia.
Honestamente, quando vi a publicidade, entendi a proposta engraçadinha. A ideia de tirar a roupa da mulher sem o consentimento dela foi imediatamente percebida pelo meu cérebro como expressão daquela insistenciazinha que você precisa utilizar quando a parceira não está exatamente receptiva e você precisa convencê-la. Mas foi o meu cérebro que entendeu assim e, convenhamos, o meu temperamento não é nada violento.
A maioria dos internautas, contudo, viu na publicidade um estímulo direto ao estupro e o resultado não foi bom para a empresa, que acabou retirando a peça do ar e pedindo desculpas formais a todos. Não se livrará, contudo, de uma investigação pelo Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (CONAR).
Acho engraçado como as pessoas não percebem que o mundo mudou. As pessoas, hoje, são muito, muito suscetíveis, chegando ao nível do insuportável. É de um tolice colossal pensar numa publicidade com um teor desses que, a bem da verdade, tem tudo para ser mal interpretado. A ideia era ser engraçado, mas no final das contas só conseguiram ser tolos e de péssimo gosto.
Sinal dos tempos.

Snowland

Vivendo na sucursal no inferno em matéria de calor, sempre que posso aproveito as férias para curtir o inverno, em locais onde existem estações diferenciadas. Gramado, p. ex. E a partir de novembro de 2013, haverá uma razão a mais para visitar novamente a adorável cidade gaúcha: algo que está sendo chamado de "parque de neve indoor".
Trata-se de um hotel cuja proposta é reproduzir um vilarejo europeu com neve durante o ano inteiro. Audacioso.
Vamos aguardar para conhecer.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Estado da arte

Mais de uma vez comentei o fato, inclusive em sala de aula; a última vez nem faz muito tempo. Mas agora um estudo realizado por cientistas britânicos afirma que a crença de que é possível saber se uma pessoa fala a verdade ou mente de acordo com o movimento dos seus olhos não passa de mito.
Segundo esta reportagem, a teoria, criada na década de 1970, nunca fora comprovada e, agora, mediante novos estudos, percebeu-se a inexistência de evidências quanto a sua veracidade. Portanto, investigadores amadores, o estudo da linguagem corporal ajuda. Mas os espelhos da alma não são assim tão fieis, como se pensava.

Noite a três

Por quase duas horas, ficamos eu, Polyana e Júlia brincando na cama, pintando, contando estórias, fazendo bagunça. Ríamos muito. A certa altura, Júlia abraçou a mãe e começou a choramingar. Perguntamos o que estava acontecendo e ela respondeu que chorava de alegria, porque estava de amor pelo papai e pela mamãe. E nos abraçou.
Evidentemente, nós nos desmilinguimos. E continuamos mais um tempo naquela farra. Pode ter certeza de que o domingo acabou tão bem que o despertar, hoje, foi suave e feliz. Uma ótima semana para todos.

sábado, 28 de julho de 2012

O trovador solitário

Nunca fui de ídolos. Há artistas de todo tipo de arte e cientistas dos quais gosto bastante e por cujas vidas e obras me interesso com particular atenção, mas nunca tive esses impulsos de tremer, vibrar, sofrer por causa deles. E confesso um olhar algo reprovador sobre tais atitudes mas, enfim, cada um é que sabe onde a emoção aperta.

Foi somente depois de vários anos após sua morte é que comecei a me interessar por Renato Russo. Sempre gostei da Legião Urbana, mas por incrível que pareça não possuía nenhum disco dela. Em algum momento comprei Equilíbrio distante, o solo com canções em italiano, de onde você provavelmente conhece a versão de "La solitudine" (do repertório de Laura Pausini). Há mais ou menos 5 anos, contudo, o "Circuito Cultural Banco do Brasil" trouxe a Belém a peça biográfica do ator Bruce Gomlewski, que vi no Theatro da Paz. Foi uma catarse para o público presente. E uma emoção singular para mim. Depois um grande amigo me deu um presente: copiou todos os CD da Legião Urbana em formato .mp3. Gravei num CD que, depois do motor e do ar condicionado, é o item mais essencial do meu carro.

Naquele CD, conheci letras das quais nunca ouvira falar e Renato Russo se tornou o maior nome da música brasileira para mim. De todos os tempos e todos os estilos. Esta assertiva não é ideológica e muito menos proselitista: é estritamente pessoal. Não quero convencer ninguém; apenas dou minha opinião. Um dia, comprei uma miniatura do cara, daquelas de chumbo. Talvez você já tenha me visto escrever, aqui no blog, algo como "eu e Renato pensamos que..." Trata-se de uma alusão ao fato de que ele fica em cima da minha mesa de trabalho, aqui em casa.

Naquele CD, conheci letras das quais nunca ouvira falar e que se somaram a tantas outras que falavam como se eu mesmo as tivesse redigido (se tivesse talento para isso). Tenho um fraco por letras de canções, como no cinema pelos roteiros. É por esses caminhos que os artistas me conquistam. Não é o mise-en-scéne em cima do palco, mas a alma profunda por trás de toda concepção artística. Renato, assim, tornou-se o meu compositor favorito e, de certa forma, o meu porta-voz, como tantos antes já o disseram, pelos mais variados motivos.

Neste mês de julho, deparei-me casualmente (em geral é assim que encontro livros que me trazem grandes alegrias) com a biografia Renato Russo: o trovador solitário, do jornalista Arthur Dapieve, publicada pela Ediouro. O livro foi lançado em 2006 e de certo modo marcava o primeiro decênio da morte do cantor. A edição que adquiri (a 9ª) é praticamente idêntica à original. O próprio autor destaca mínimas alterações ("uma correção em prol da palavra justa aqui, uma atualização em prol da informação ali e uma seleção de fotos diferente"). A culminância da obra, porém, que é o seu epílogo,  permaneceu intocado, por razões emocionais.

Dapieve escreveu equilibrando o profissional e o admirador. Fez um trabalho primoroso, sem a secura do trabalho meramente jornalístico. Há envolvimento pessoal em suas palavras, que seguem uma ordem nem sempre cronológica, disposta mais pelo sentido dos acontecimentos do que pelo calendário, sem que, no entanto, o leitor se perca jamais.

Chamou-me a atenção, contudo, o destaque dado aos méritos de Renato como cantor; afinal, em minha modesta opinião, ele sempre cantou mal; era desafinado que dava dó. Mas agora entendo que isso atendia a proposta: um punk jamais faria um trabalho perfeitinho e virtuose. No começo da carreira, ao menos, a ordem era fazer a coisa intencionalmente defeituosa.

É provável que o brasileiro médio veja Renato Manfredini Jr. como mais um porra-louca talentoso, de que a história da arte está abarrotada por toda parte. Um jovem que fez enormes besteiras e estragou a própria vida, mas nesse meio tempo produziu uma obra fecunda e aclamada por fãs imorredouros e atemporais. Eu mesmo pensei assim. Já não pensava, mas precisei desta biografia para entender melhor em que medida Renato era um ser humano mais rico e valioso, num patamar que o preconceito contra o rock e os roqueiros não consegue cogitar.

Penso que Renato tinha o espírito dos poetas do Romantismo: repleto de amor, mas concentrando esse sentimento em musas inalcançáveis; dominado por uma solidão que o oprimia e fascinava ao mesmo tempo. Autodestrutivo. E com uma aguda visão política sobre o mundo que o cercava. Poeta romântico e crítico de seu tempo: nada mais óbvio eu me encantar por ele.

Senti falta, apenas, de o livro não abordar em momento algum um capítulo importante da vida de Renato: as circunstâncias em que ele se tornou pai. A peça de Gomlevski tratava disso, mas foi posterior. Pergunto-me se não teria havido uma restrição da família do cantor, quando procurada pelo jornalista. O fato é que a mãe de Giuliano nunca é mencionada e o fato de Renato ser pai é citado quando ele faz tratamento para se desintoxicar do álcool, pensando na família e particularmente no filho.

Não adianta falar sobre o livro, porque me perderia em tergiversações. Se é do seu interesse, leia. Porque lhe dará uma dimensão humana sobre Renato que as pessoas não possuem.

Como já disse mais de uma vez, eu gostaria de ser escritor, se tivesse talento. Gostaria de escrever um belo romance, cujo título talvez fosse Sagrado coração. Seu protagonista se chamaria Renato e os personagens seriam Eduardo, namorado da Mônica; João, apaixonado pela Maria Lúcia; Pablo, Jeremias (o vilão), uma professora Adélia, uma Leila, uma Mariane, um Dado, que seria viciado. Se eu conseguisse me inspirar um pouco no trovador, talvez criasse uma estória digna de ser lida.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quem diria que a maior festa da última sexta-feira de julho seria o listão da OAB?

O último final de semana de julho é aquele em que a cidade fica mais vazia, porque os que ainda não haviam conseguido veranear se desesperam para consegui-lo. Hoje, contudo, para muita gente, a atenção estava voltada para outra questão: o sempre aguardado listão do exame de Ordem.
Dentre os meus ex-alunos (ou acadêmicos com que mantive algum contato, p. ex. em defesa de TC), estão comemorando agora (com meus habituais pedidos pelos nomes não identificados):

Ana Cleide Ribeiro da Costa
Ananda Nassar Maia
André Filipe Ribeiro Valente
Bianca Araújo Cardoso
Breno dos Santos Pontes
Carla Carneiro Bichara
Eugen Barbosa Erichsen
Eulina Maia Dias
Fernanda Morais de Miranda
Gabriel Salles de Araújo Pinto
Jackelaydy de Oliveira Freire
LaisTappembeck Noronha
Maíra Barros de Souza
Maíra de Barros Domingues
Paula Andréa Messeder Zahluth
Paula Zumero Ferro e Silva
Pietro Alves Pimenta
Raíssa Ávila Monteiro
Renan Vieira da Gama Malcher
Rhubens Nelson Gonçalves Laredo
Sâmmya Menezes de Brito
Samuel Guerreiro Gomes de Oliveira
Tainá Picanço Neri Nonato
Tamires Monteiro dos Santos

Pela segunda vez, os alunos do último ano arrasaram, de novo. Mas todos merecem homenagens.
Aos que já estão formados, desejo que as oportunidades surjam e sejam novos e eficientes aprendizados, para uma carreira muito bem sucedida. Aos que ainda são acadêmicos, o momento é de focar no último semestre letivo e no trabalho de curso. OAB sem diploma não adianta, certo? Então mãos à obra.
Sucesso a todos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

No estaleiro com Sakamoto

Meus caros
Esta postagem foi escrita há mais de um ano. Eu apenas a reli e mandei atualizar o texto, como fiz com inúmeras outras. Por alguma razão inexplicável, ela foi transportada para o último dia 26, como se fosse uma postagem do dia. Como não sei resolver o problema (nem me recordo mais a data exata da publicação original), presto este esclarecimento. Afinal, o texto está em total desconformidade ao momento atual.


Este está sendo um dia bem diferente do normal, um autêntico dia de doente, com direito a atestado médico, cama, fastio e uma pilha de remédios. Felizmente, já sinto alguma melhora, mas experiências recentes me fazem temer a situação, porque o problema não é simplesmente melhorar, mas conseguir manter a evolução por algum tempo.
Acessei o computador para tentar resolver alguns problemas. Digo tentar porque a imbecilidade humana não permite que coisas simples sejam feitas, mas outra hora, se me der vontade, explico de que estou falando.
O fato é que a vontade de postar rivaliza com esta imensa indisposição, que me deixa até sem assunto. Por sorte, acabei topando com o um texto do Leonardo Sakamoto, que muito me agradou e que por isso compartilho. Vale a pena ler os comentários, também, para maior informação.

O Imposto sobre Fortunas é símbolo de civilidade
O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, declarou que a criação do Imposto sobre Grandes Fortunas não está em discussão no governo federal. Segundo a Agência Brasil, ele afirmou que “esse imposto cria mais distorções que receitas e acaba levando à transferência de riquezas para fora do país” durante seminário para discutir a reforma tributária na Câmara dos Deputados. Defendeu a tributação de heranças e de transferências de bens como forma de contribuir com a transferência de recursos dos mais ricos aos mais pobres.
Também concordo que uma taxação pesada sobre grandes heranças é um instrumento bastante eficaz para reduzir a desigualdade social no longo prazo. Mas isso não invalida o Imposto sobre Grandes Fortunas, que nunca foi regulamentado (e, pelo lobby junto aos congressistas e o governo, nem vai ser tão cedo). É claro que isso pode levar à evasão de recursos para além das fronteiras por contribuintes sedentos em não-contribuir. Contudo a força desse instrumento não reside apenas nos recursos que ele é capaz de arrecadar, mas no simbolismo de um Estado que assume o papel de corrigir distorções históricas e de tratar desiguais de forma desigual.
Durante as eleições presidenciais, poucas vezes os candidatos foram verdadeiramente pressionados a se posicionarem a respeito de projetos concretos de interesse dos assalariados ou dos mais pobres. Temas como redução da jornada de trabalho, aumento da licença maternidade, taxação de grandes fortunas, correção dos índices de produtividade da terra, entre outros, foram tratados como polêmicas ou tabus. Bom mesmo é gastar a paciência do eleitor condenando a sexualidade alheia.
O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de se tornar o queridão do mercado, também defendia abertamente a redução na jornada de trabalho. O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir dos próprios que eles não mudaram, apenas ganharam uma consciência ampliada a partir da cadeira que ocuparam.
O que me leva a crer que a culpa por tudo isso é da cadeira no Palácio do Planalto. Ela tem um encosto e precisa de uma sessão de descarrego antes que faça novas vítimas. Urgentemente.

Juízes sem rosto

Parece, mas não estou falando de nenhum filme de ação. A expressão "juízes sem rosto" está sendo usada para exprimir a composição de um órgão jurisdicional colegiado, atípico, que deverá funcionar em ações penais relacionadas a organizações criminosas. Trata-se de uma inovação trazida pela Lei n. 12.694, de 24.7.2012, publicada ontem e com vigência a partir do próximo dia 23 de outubro.
Além de criar o aludido colegiado, a nova lei modifica pontualmente o Código Penal (no que tange aos efeitos da condenação), Código de Processo Penal (alienação antecipada de bens relacionados aos crimes), Código de Trânsito (adoção temporária de placas especiais em veículos, impedindo a identificação das autoridades que neles trafeguem) e Estatuto do Desarmamento (porte de arma para servidores públicos encarregados da segurança de autoridades).
O objetivo, como facilmente se percebe, é melhorar a proteção de juízes, membros do Ministério Público e de outras autoridades, vinculadas a investigações criminais relativas a organizações criminosas. Várias dessas autoridades estão sob ameaça, não se podendo esquecer o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em Niteroi, há um ano, e as recentes mortes de duas pessoas ligadas às investigações sobre Carlinhos Cachoeira et caterva, que também registram um juiz e uma procuradora sob ameaça.
Bem intencionada, a lei já está sofrendo severas críticas, fundadas na violação de garantias constitucionais. Questiona-se o prejuízo ao dever de fundamentar decisões judiciais e até mesmo a transgressão ao princípio da integridade física do juiz (aquele que conheceu das provas, durante a instrução processual, é que deve sentenciar), princípio este que não me convence; eu realmente não o considero relevante, num mundo de conhecimentos mais especializados e de maior facilidade de comunicação.
Nova polêmica estabelecida, vamos ver como os lados opostos organizam seus argumentos. Mas que não há dúvidas quanto à necessidade de proteger autoridades públicas dos criminosos que investigam, ainda mais quando se trate dos particularmente perigosos, certamente não há. Isto ninguém refuta.

PS Um problema ainda não resolvido no Direito brasileiro é o conceito de organização criminosa, que é impreciso mesmo na doutrina internacional. Mais uma vez o legislador brasileira tenta evitar dificuldades interpretativas e se sai com essa definição:

Art. 2º Para os efeitos desta Lei, considera-se organização criminosa a associação, de 3 (três) ou mais pessoas, estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de crimes cuja pena máxima seja igual ou superior a 4 (quatro) anos ou que sejam de caráter transnacional.
Suspeito que a nova tentativa de conceito não escapará às críticas, ainda mais por se prender a um critério quantitativo relacionado à pena. Continuemos a ver os debates.

Violência policial

O tema da violência policial é da maior importância para toda a sociedade e, como já era de se esperar, não recebe a atenção que merece, inclusive por causa do olhar enviesado que o brasileiro médio costuma lançar sobre ele. Existe um senso comum de que bandido bom é bandido morto e, sob tal premissa, legitima-se qualquer chacina feita por policiais, desde que não chegue perto dos cidadãos de bem.
Uma pessoa de minhas relações, figura expressiva dessa mentalidade, não se incomoda nem quando a polícia mata quem não era o autor do crime cometido; para ele, quem morreu com certeza era bandido, então se não cometeu o crime A, cometeria o B. Se não cometeu nenhum, cometeria um mais cedo ou mais tarde, então, no final das contas, ótimo que tenha morrido.
Sequer tenho palavras para responder a isso. Volto ao tópico frasal: não podemos construir o nosso país, mormente sendo ele organizado como um Estado Democrático de Direito, sem rigorosa atenção sobre a violência policial, o que vem preocupando cientistas sociais há décadas.
A questão é que, por atuar na linha de frente, diante de situações extremas que exigem pronta solução, a polícia acaba por subverter princípios basilares do Direito, penal e até mesmo constitucional. Com efeito, pessoas se veem privadas de direitos fundamentais sem a possibilidade de contraditório e ampla defesa, que serão exercidos posteriormente. Medidas punitivas são implementadas sem que haja, ao menos, certeza quanto à autoria delitiva ou se houve mesmo um delito. No caso de morte, viola-se a vedação à pena capital.
Como não podemos dar-nos ao luxo da ingenuidade, sabemos que, muitas vezes, não há meios de impedir esses problemas. Se há uma troca de tiros em via pública, p. ex., há que se compreender que a morte do criminoso (talvez apenas suspeito) haja ocorrido num contexto de estrito cumprimento do dever legal. O que não se pode admitir é que a legitimação da violência oficial, que é do interesse da coletividade, transforme-se em mecanismo de arbitrariedade e, pior ainda, expressão de ódios de classe, raciais ou de outras ordens. E é isso que acontece. Procure saber, através das estatísticas oficiais, quantos dentre os mortos pela polícia eram negros e quanto eram brancos.
O portal G1 publicou duas matérias alusivas a essa preocupação. A primeira informa que, no espaço de 9 meses, o número de pessoas mortas por policiais militares na capital paulista aumentou em 68%. No Estado inteiro, no mesmo período, o incremento foi de 27,17%. A matéria apresenta outros dados interessantes sobre a criminalidade no Estado mais rico do país.
A segunda reportagem também se refere a São Paulo e mostra que, de 2007 a 2011, a polícia de elite (ROTA) aumentou a sua letalidade em 78%. Não é possível que as pessoas vejam esses dados e apenas sorriam. Não é possível encarar a realidade com o mesmo entusiasmo provocado pelas cenas eletrizantes dos filmes Tropa de elite 1 e 2. Ainda mais porque essas mortes costumam cair na vala comum da justificação penal, não ensejando qualquer responsabilidade. E poucas coisas são tão criminógenas quanto a impunidade.
Não há nenhuma análise, muito menos resposta, fácil para esta questão. Por isso mesmo, ela deve ser encarada com responsabilidade e, quanto possível, desapaixonadamente. Porque não é disparando tiros de um lado para o outro que encontraremos um caminho para viver em paz.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Síntese sobre pena de morte no mundo

Clicando aqui, você encontra uma interessante matéria com uma síntese sobre o sempre polêmico tema da pena de morte, começando pela História do Brasil e depois mostrando um breve panorama mundial, hoje.
Rápido, preciso e não valorativo. Gostei.

Novas regras sobre bagagens

Na semana em que as ordinaríssimas empresas de telefonia do Brasil amargam as consequências de sua mediocridade, a Agência Nacional de Aviação Civil anuncia que está em estudos a elaboração de uma resolução que ampliará os direitos dos clientes de empresas aéreas. As medidas atenderão principalmente a questão das bagagens, facilitando para o consumidor o transporte dos volumes de mão e o ressarcimento em caso de extravio das malas, além de criar um índice de qualidade. A desobediência será punida com multas.
A ANAC vai escutar as empresas aéreas e depois submeter o texto a consulta pública. E o mais interessante é que as empresas já anunciaram que não ingressarão em juízo caso as normas (particularmente a que prevê multa de 100 mil reais pelo não envio de relatório mensal) lhes sejam desfavoráveis, porque não querem briga com a ANAC e nem vislumbram sucesso na causa, por isso tentarão influenciar as regras agora.
Mas vejam só! Uma agência reguladora funcionando! Quem diria. Ela manda e as empresas obedecem. E quem sai beneficiado é o consumidor. Isso nem está parecendo Brasil...

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1124819-nova-regra-da-anac-preve-indenizar-na-hora-perda-de-mala.shtml

Limites ultrapassados

Ao indeferir a liminar requerida pela TIM, para continuar vendendo chips, em contrariedade ao determinado pela ANATEL, o juiz Tales Krauss Queiroz, da 4ª Vara Federal de Brasília, foi enfático:

Os planos de serviços da TIM e de outras operadoras de telefonia celular “podem até ser infinitos e ilimitados, como expressam as frequentes e sedutoras campanhas publicitárias das empresas; a paciência do consumidor, não”. O consumidor de serviços de telefonia quer pagar menos e falar mais. “E quer um serviço de qualidade”.

A mensagem também serve para o meu interminável imbróglio com a Oi, que eu ainda quero crer estar próximo de uma solução.

Fonte: http://www.conjur.com.br/2012-jul-23/paciencia-consumidor-nao-ilimitada-planos-telefonia-juiz

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O quarto aninho

Há poucos dias, com a mãe.
O dia 23 de julho de 2008 foi o mais intenso de toda a minha vida. Começou igual a qualquer outra quarta-feira de trabalho, mas todos sabíamos que não seria um dia igual a nenhum outro. Nós o atravessamos com uma expectativa incomum e, às 19h40, aproximadamente, surgiu ante meus olhos o bebê que já tinha nome e até mesmo uma história.
A tão desejada menininha que hoje completa 4 anos está agora crescidinha e se achando, como hoje se diz, como se aos 4 pudesse fazer praticamente tudo. Mas tudo bem. Afinal, ela pensa que uma pessoa de 10 é "muito velha". Pergunto-me o que ela sentirá ao perceber que as coisas não mudarão muito depois de hoje, a ponto, inclusive, de ela ainda não estar apta a ter um animal de estimação. Mas há mudanças em curso, da cadeirinha do carro à escola. E ela jura que tem a ver com a mudança de idade!
Não poderia deixar de registrar esta data, como uma pequena e mesmo óbvia manifestação do meu maior amor. Ela não é uma princesa, e sim uma criança. E não é a criança mais linda do mundo. Mas é a melhor criança que eu poderia ter recebido como pai, meu maior presente, o que mais se harmoniza ao conceito de felicidade, a minha eternidade. Para ela, deixo a Valsa para uma menininha, de Vinícius de Moraes e Toquinho, gravada por este, que já se tornou o grande artista desta nossa história.

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Seu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Curiosidades gastronômicas do Brasil

Uma carne de sol dessas eu nunca tinha visto, mas topei com ela outro dia, em minha viagem.



E a desgraçada ainda por cima é cara!

Dia do rock 2012



Hoje é dia de rock, bebê.
13.7.2012

Defensoria Pública em Santa Catarina

Demorou, e muito, mas finalmente a Assembleia Legislativa da belíssima Santa Catarina aprovou as leis necessárias para a criação da Defensoria Pública naquele Estado. Você leu direito: Santa Catarina ainda não possui Defensoria Pública, passados quase 24 anos de vigência da Constituição. Felizmente, era a única unidade federativa nessa situação.
Não podemos saber, por enquanto, quando haverá a efetiva criação do órgão e quando será aberto o primeiro concurso para provimento dos cargos, que de defensores serão 60.
Mas, convenhamos, ser defensor público em Santa Catarina é uma ideia provocante...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Reforma do Código Penal XXIV: começa o estrago

O anteprojeto de novo Código Penal será analisado, no Senado, por uma comissão cujos nomes foram anunciados anteontem. Como disse mais de uma vez, tenho pavor do estrago que os políticos, habitualmente incompetentes e mal intencionados, podem fazer com um trabalho tão criterioso, sobre matéria do mais intenso interesse social. Minha preocupação cresce ao constatar que, no meio da dita comissão, está Magno Malta (PR-ES), louco por holofotes e representante da bancada evangélica, que já andou fazendo declarações estúpidas sobre o anteprojeto.
Os outros senadores que integram a comissão são Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), Armando Monteiro (PTB-PE), Benedito de Lira (PP-AL), Clovis Fecury (DEM-MA), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Jorge Viana (PT-AC), Pedro Taques (PDT-MT) e Ricardo Ferraço (PMDB-ES).
Como suplentes, temos os senadores Ana Rita (PT-ES), Eduardo Amorim (PSC-SE), Gim Argello (PTB-DF), Jayme Campos (DEM-MT), José Pimentel (PT-CE), Luiz Henrique (PMDB-SC), Marta Suplicy (PT-SP), Sérgio Souza (PMDB-PR) e Vital do Rêgo (PMDB-PB).
Não há um prazo para a análise dos parlamentares.

***

Aloysio Nunes Ferreira Filho, 62, é formado em Direito e estudou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. Ficou em exílio entre 1968 e 1979.

Antonio Carlos Valadares, 64, é formado em Direito e em Química. Foi governador de seu Estado, Sergipe (1986/1990, tendo antes sido vice-governador).

Armando de Queiroz Monteiro Neto, 60, é industrial, atuou no sindicalismo patronal e exerceu diversos cargos públicos no Poder Executivo, inclusive federal, além de mandatos parlamentares.

Benedito de Lira, 70, é advogado e exerceu mandatos como vereador, deputado estadual e deputado federal, antes de se tornar senador. O que deveria ser o seu currículo, em sua página no Senado, é um longo em texto em latim. Se você for fluente nessa língua, vá lá conferir.

Clovis Antônio Chaves Fecury, 43, é empresário e chegou ao Senado porque era 1º suplente.

Eunício Lopes de Oliveira, 59, é agropecuarista e foi Ministro das Comunicações entre 2004/2005.

Jorge Ney Viana Macedo Neves, 52, é engenheiro florestal e foi governador do Acre por dois mandatos (1999-2006).

Magno Pereira Malta, 54, é músico e formado em Teologia. Sua página pessoal mostra sua conhecida vaidade. Lá, aparece em fotos com o ex-presidente Lula e com Barack Obama, além de noticiar que Sarney o convocou para a comissão ora sob comento, como se ele fosse imprescindível...

José Pedro Goncalves Taques, 44, é professor de Direito Constitucional e ex-procurador da República.

Ricardo de Rezende Ferraço, 48, é empresário e foi vice-governador do Espírito Santo (2007-2010), além de ter exercido mandatos parlamentares em seu Estado.

À exceção, talvez, de Pedro Taques, não vi qualificação nenhuma nesse pessoal para a tarefa que lhes foi cometida. Seus nomes foram indicados por blocos partidários (portanto, nenhum foi convocado pelo Sarneyzão), o que implica em dizer que foi uma escolha meramente política, de conveniência dos partidos. Deus nos livre.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Com um marido desses...

Digam-me, mulheres: vocês gostariam de um marido igual a este?

Um primeiro salto

Quando escolhemos a escola de nossa filha, eu e Polyana tivemos os nossos critérios, bastante rigorosos (os leitores do blog à época devem lembrar), e concedemos um voto de confiança à instituição. Não nos deixamos seduzir por tradições, discursos e aparatos físicos. Antes, procuramos um corpo docente que nos transmitisse segurança. Como consequência natural, deixamos que a equipe da educação infantil trabalhasse como achava melhor.
Durante todo o primeiro ano escolar de Júlia, era mais do que evidente que ela estava muito à frente dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula. Ela já conhecia todas as letras, números, cores e formas geométricas, p. ex. Mas nunca cobramos absolutamente nada, porque temos consciência de que a iniciação escolar tem uma função maior, ligada ao desenvolvimento socioemocional da criança e de certas habilidades, muitas das quais físicas. Enquanto os mal informados dizem pagar para que as crianças apenas brinquem (e não são poucos os que matriculam seus filhos em escolas para que eles brinquem, mas fora de casa), temos consciência de que uma atividade como colar um pedacinho de lã numa folha de papel cumpre uma função muito específica de estimulação da coordenação motora.
Observamos, assim, um imenso progresso em Júlia. No início do ano passado, ela mal conseguia empilhar três peças de um jogo de montar. No segundo semestre, já conseguia fazer uma pilha grande e passou a segurar muito melhor o lápis de cor. Nunca questionamos, portanto, conteúdos. Estávamos satisfeitos com as novas habilidades de nossa menina.
Veio o segundo ano e, da mesma forma, mantivemo-nos observadores atentos e respeitosos, sem jamais interferir nas deliberações da escola, porque nenhuma violava a nossa compreensão de trabalho bem realizado. Mas eis que as próprias coordenadoras nos chamaram para uma conversa, dizendo que Júlia estava acima das expectativas.
Ao contrário do que pode parecer  e ao contrário do que sentiriam outros pais, talvez a maioria , nossa reação foi reticente. Eu mesmo fui um aluno adiantado e passei toda a vida escolar sendo o mais novo da classe, o que nem sempre foi bom para mim. Preocupávamos com eventuais custos emocionais da mudança, não apenas os imediatos.
Passadas algumas semanas, quando a conversa finalmente aconteceu, as professoras foram enfáticas: a permanência de Júlia na classe onde estava seria um "desperdício" (textuais). Polyana estava preocupada e eu até mais hesitante que ela. As professoras, contudo, já haviam fechado questão e convenceram a mãe. Como não pude comparecer ao encontro, convalidei minha confiança na escola e em minha esposa, claro. Assim, no segundo semestre, Júlia retornará à escola, mas um nível acima, junto à turma que já vinha visitando há algumas semanas, para se ambientar e para mudar a espécie de atividades (por sinal, bem executadas).
Estou na expectativa de como a nossa pequena se sentirá na nova classe, já que para ela os colegas eram as crianças da sala anterior. Ela já manifestou aceitação ao fato mais de uma vez, porém em uma pareceu em dúvida. O fato é que se a tentativa não der certo, ela poderá voltar. Trata-se de uma aposta que todos estamos fazendo.
O lado bom é que todos possuem um objetivo comum: alcançar o que seja melhor para Júlia.

Cadê o cara?

Obama e alguns de seus fãs
Anteontem, trafegando pela Av. Júlio César, mostrei para minha cunhada (que não mora em Belém) a mítica figura do Obama do BRT, famoso até fora do país. Comentamos que várias pessoas tiram fotos ao lado do equipamento e confessei que eu mesmo tenho essa tortuosa vontade. Como já era um pouco tarde e quase não havia trânsito, pensei em fazê-lo, mas desisti, considerando estar com duas mulheres e duas crianças no carro.
Eis que, na manhã seguinte, passei pelo mesmo local e o Obama tinha sumido! Não sobrou nada. Até agora, não se tem notícias do rapaz. Por alguma razão, parece que os gatunos são chegados a afanar o ícone da grande obra do prefeito-desastre. Alguma razão que pode ter a ver com o pedestal metálico, que pode ser vendido.
Sentiremos falta da controversa figura.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Valente

Merida é a princesa adolescente do reino de Dunbrock, na Escócia. Após uma infância feliz e de grande cumplicidade com os pais, a idade lhe traz responsabilidades que ela não deseja. Cada um de seus dias é controlado pela mãe, que a prepara para cumprir o dever de se casar com o herdeiro de um dos três outros clãs em que o reino foi dividido, selando a paz. A mão da moça deve ser conquistada num torneio. Revoltada com a obrigação de se casar, por ser muito nova e por reivindicar o direito de escolher o marido, Merida surpreende a todos ao invadir a competição, lutando pela própria mão. Imbatível no arco, ela deixa a todos boquiabertos com o seu desempenho. Menos a mãe, com quem tem uma severa briga. Aí aparece uma bruxa, que vende um feitiço mal explicado e de consequências drásticas. Está desenhado o enredo de mais um filme da Disney/Pixar.
Valente (Brave, dir. Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell, 2012) mostra que a parceria entre os dois maiores estúdios produtores de filmes de animação recuperou a plenitude de suas forças, deixando para trás trabalhos menores e criando um triunfo para o gênero. Fruto de um trabalho de mais de 5 anos, durante as quais a aparência da protagonista foi cuidadosamente testada e retocada até chegar a sua forma final, o filme apresenta um roteiro conciso, muito bem amarrado e repleto dos ingredientes próprios do estilo: aventura, humor, personagens cativantes e uma lição de moral. Tudo em doses certas, sem jamais cair na falta de conteúdo, no histrionismo imbecilizante ou no moralismo.
Eu, que prezo acima de tudo um bom roteiro, fiquei encantado com a trama sem vilões implacáveis (o que pode ser considerado o vilão da estória é, acima de tudo, uma alma desesperada em busca de ajuda, como fica claro em sua última aparição, quando agradece com um simples aceno de cabeça), que reduz tudo à velha e gasta batalha do bem contra o mal  temática explorada à exaustão pela Disney, mas felizmente não pela Pixar. Aplausos ao trabalho subscrito pelos diretores e por Irene Mecchi.
No que ambos os estúdios são irrepreensíveis a técnica , o resultado é impecável. Valente apresente imagens belíssimas, preparadas com o habitual cuidado aos mínimos detalhes, como se pode perceber pelo movimento das roupas da rainha ou das ancas do urso, quando ele caminha. Nossa atenção fica particularmente presa à cabeleira intensamente ruiva e emaranhada da protagonista, símbolo mais evidente de sua personalidade  algo que não adianta tentar domar.
Por fim, Valente inventa uma nova princesa. Não uma princesa típica da Disney, que produziu esta atual geração de meninas peruas e afrescalhadas, repletas de cor-de-rosa, lilás e brilhos. Mas uma princesa jovem, cheia de energia e atitude, com um visual infantilizado e não patricinha, além de atitudes capazes de tornar as pequenas fãs úteis, em vez de ficar pintando as unhas e conversando sobre moda. A começar que chapinha não tem vez com ela.
Fomos poupados inclusive dos números musicais. Há música, sim, claro, mas que toca enquanto corre a trama, sem que precisemos suportar as breguíssimas incursões pelo estilão musical que os americanos tanto adoram. Em suma, um primor de filme, que merece ser visto e que será sempre lembrado.

PS Confirmando que críticos são um pé no saco, leia aqui uma crítica que detona o roteiro que acabei de elogiar. Mas ao contrário dos aspectos técnicos, sobre os quais o crítico tem conhecimento especializado e eu sou um zero à esquerda, por isso não discuto, aqui se pode perceber que os ataques são estritamente subjetivos. Discordo, p. ex., que não sejam exploradas as nuanças emocionais da rainha Elinor após sua transformação. Mas é isso: o crítico gosta ou não gosta e trata sua opinião como se fosse um conceito técnico indiscutível.
E atenção: há uma cena após os créditos, que ninguém vê porque ignora a sua existência e normalmente o povo levanta assim que aparece a primeira linha dos créditos.

Valente no IMDb.

***

Valente nos proporcionou um momento pitoresco, graças a minha filha. No clímax da estória, em momento de grande tensão entre a protagonista e sua mãe, Júlia foi aos prantos para o colo de Polyana. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto e, de repente, no silêncio da sala, ela se lamuria:
Mamãe! Já pensou se fosse com você?!
Risada geral no cinema. Quando as luzes se acenderam, muitos olharam para ver quem era a criança cheia de preocupações com a própria mãe. Foi mais quem achou uma fofura.

Decolando com os urubus

Belém, 6 de julho de 2012, 15h45. Já na cabeceira da pista principal do aeroporto, meu avião aguarda autorização para decolagem. Minutos antes, o piloto alertara que a autorização estava condicionada ao término do serviço da INFRAERO, que tinha um veículo atravessado na pista. Motivo: funcionários estavam afugentando aves (assim mesmo, genérico) que voavam em situação de risco potencial à navegação aérea. No segundo comunicado, para justificar o atraso de meia hora, o piloto disse que o serviço estava quase finalizado; que os funcionários estavam lavando a pista.
Bem humorado, comentei com minha esposa que primeiro tentaram enxotar os urubus mas, como não deu certo, optaram por matá-los e estavam recolhendo os cadáveres. Deveras, antes os deles que os nossos.
Em março deste ano, a Justiça Federal acolheu pedido do Ministério Público Federal e concedeu liminar contra o prefeito-desastre de Belém e seus secretários de saneamento e meio ambiente, sujeitando-os à multa diária de 5 mil reais caso não providenciassem a remoção de todo o lixo acumulado no entorno de nossos dois aeroportos (ver notícia detalhada aqui).
Como bem sabemos, o pior prefeito de todos os tempos não se importa com decisões judiciais. Ignora-as solenemente, mas o pior é que isso não costuma ter consequências para ele. Não sei dizer em que pé se encontra a ação judicial aqui referida. Mas posso lhes assegurar que os urubus continuam no mesmo endereço, proporcionando momentos curiosos como o vivido por mim. Bacana mesmo foi a passageira ao lado de minha esposa perguntar se já ocorreu algum acidente por causa das aves. Polyana me perguntou e o pequeno psicopata dentro de mim abriu um sorriso, ávido por aproveitar a oportunidade. Mas querendo evitar problemas, preferi responder que não há notícias de acidentes do gênero em Belém. Frisei apenas o "em Belém".
Felizmente, foi uma ótima viagem.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O rastejar das cobras

Já que estamos aqui na internet, um pouquinho, por que não comentar? E não é que cassaram o mandato do Demóstenes Torres?
Não que isso surpreenda, claro. Os indicadores sempre apontaram que esse deveria ser o desfecho do imbróglio, até porque a cassação do baluarte da probidade cumpre uma função bastante específica na dinâmica política deste país de corruptos: algum anel precisa ser entregue para que os dedos continuem no lugar. Neste caso, continuem afanando a coisa pública.
Nunca confiei na honradez estudada que Torres exibia no Senado. O que não falta no Congresso Nacional é gente posando de última fronteira da moralidade. Um dos parlamentares paraenses, por sinal, também gosta de fazer esse estilo, mas lhe faltam eloquência e dicção para chegar, ao menos, no nível de Torres. Além disso, um homem probo no DEM já soa surreal.
Concluída a cassação e iniciado o recesso parlamentar, espera-se que as investigações sobre o gigantesco esquema de patifarias de Carlos Cachoeira e da Delta caiam no esquecimento. Para isso serviu a cassação do político: para mostrar ao povo brasileiro que alguém foi punido e, portanto, a legalidade já foi restaurada. Logo, não é mais necessário mexer com ninguém. Cachoeira passará mais uns dias preso e por fim conseguirá sua soltura através do Supremo Tribunal Federal. Retornará às suas atividades empresariais, sem aparecer, para não haver alarde. Os contratos da Delta passarão a outras empresas, de modo que os pagamentos terminem nos mesmos bolsos. Simples assim. No final, Demóstenes Torres será não um bode expiatório, porque fez por merecer, mas a bucha do canhão, aquele que queimaram em prol de uma causa maior.
E Torres foi cassado por quem? Por uma casa habitada por José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Fernando Collor, etc. Uma casa que, quando sai um, entra um suplente igualmente encalacrado, investigado, suspeito. Ê país!
Mas isso não deve causar surpresa alguma. Com tanto a se dizer sobre esse imenso esquema de roubalheira, pelo que se interessa a imprensa? Pela "musa do escândalo", a mulher de Cachoeira, um primor de inteligência. No dia "histórico" da cassação de Torres, o Jornal da Globo abriu dando o maior destaque para... a vitória do Palmeiras num dos zilhões de campeonatos do esporte das massas. Portanto, tudo continua rigorosamente no seu lugar: os cães já ladraram, a caravana dos ladrões continua passando e os bois no pasto continuam enxergando apenas a festa da torcida campeã.
Que raio de dis histórico foi esse?

PS - Enquanto isso, os espanhois dizem nas ruas o que pensam das medidas econômicas do governo. E olha que lá tem o tal de Barcelona, o tal de Messi e outras porcarias do gênero.

Dias de desconexão

Os gentis visitantes do blog já perceberam a minha ausência, certamente. Estou de férias, realmente de férias, vivendo a grata experiência de passar alguns poucos dias sem ter nenhum compromisso. Deixei inclusive a cidade, para mudar o cenário e os ares, acabando com toda rotina.
Tenho, é claro, algumas coisas sobre as quais escrever, que começam com urubus impedindo a decolagem de aviões no Aeroporto Internacional de Belém. Mas isso fica para uma outra oportunidade. Falando em aeroporto, estou numa cidade onde o povo brinca dizendo que eles possuem o maior da América Latina, pois a área de embarque fica na casa do cacete e a de desembarque, na casa do c******. Pergunto-me se lhes ocorre que cidade é esta e o motivo da brincadeira.
Por enquanto, fiquem com o clima de julho. Já no próximo domingo estarei de volta ao lar.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O prisioneiro do céu

Soube da existência do escritor Carlos Ruiz Zafón quando me contaram a sinopse do seu O jogo do anjo, que me chamou imediatamente a atenção. Foi um passo para comprar o livro e lê-lo, deleitando-me com a trama soturna, sobre a qual escrevi estas palavras. Não muito tempo depois, li A sombra do vento, que envolvia alguns dos mesmos personagens da obra anterior numa aventura cronologicamente anterior, mas sem constituir o que hoje em dia chamam de "prequela". Gostei também, mas o precedente continuava tendo mais a ver comigo.
Passados dois anos, deparei-me com uma estória escrita por Zafón no começo da carreira, Marina, que me pareceu uma boa aventura adolescente, a qual também elogiei pela elevada qualidade do texto e pelas imagens que este sugere.
Há três dias, Júlia entrou de repente numa livraria e, ao ir atrás, bati meu olho na capa de O prisioneiro do céu. Bastaria o nome do autor, com grande destaque, para me convencer à compra, mas percebi também a indicação no rodapé. Já passei a mão no volume, paguei e iniciei a leitura ainda no carro.
Explica o autor que a obra integra "um ciclo de romances que se entrecruzam no universo literário do Cemitério dos Livros Esquecidos. Os romances que formam esse ciclo estão ligados entre si através de personagens e linhas dramáticas que estendem pontes narrativas e temáticas, embora cada um deles ofereça uma história completa, independente, contida em si mesma". Ainda segundo o autor, os livros podem ser lidos em qualquer ordem.
Mergulhando em O prisioneiro do céu, você verá uma trama centrada na figura de Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres deixando de ser um personagem secundário. Tudo começa com a aparição de um estranho homem, interessadíssimo em Fermín. E aí começam os segredos e investigações que culminam numa narrativa paralela, na qual Fermín foi preso político em condições ultradegradantes, ao lado de ninguém menos que David Martín. Surge aí um novo inimigo, cujas ações finais não ficam muito claras, o que provavelmente é o maior defeito do livro. Até nova abordagem, eu resumiria o enredo como um fantasma do passado influencia um homem de bem a executar uma terrível vingança. O próprio Cemitério dos Livros Esquecidos só aparece no último capítulo e não influencia em nada, servindo apenas de cenário para a execução do plano do tal fantasma do passado.
O prisioneiro do céu é um livro bacana. Não o classificaria acima disso. Mas provavelmente pede que você já conheça o universo zafoniano, sob pena de considerá-lo mera estorieta digna de uma Sessão da Tarde. Confesso meu desapontamento. Joga-se muito confete sobre Zafón, mas ele me parece cada vez mais um roteirista de filme de ação hollywoodiano, como se percebe pela narrativa perfeitamente enquadrável em linguagem audiovisual. Até mesmo os capítulos são curtíssimos, chegando ao ponto de mudar no meio da descrição de uma mesma cena. Uma divisão absurda, mas coerente com a proposta de tudo ter que acontecer rápido, pois os cérebros de hoje não retêm informações por mais de 30 segundos. E há maneirismos chatos, como o batidíssimo recurso de fazer aparecer uma personagem que é a cópia fiel de uma falecida fonte de amor. Que saco.
Recomendo a leitura para os fãs de Zafón. Quem não o conhece, melhor começar pelos outros.
Por último, uma impressão que pode ser mera implicância, mas que senti desde o primeiro momento: não gosto dos títulos que o autor dá a suas obras. Nesta trilogia, pelo menos, não gostei de nenhum dos três. Mas o autor coloca os livros como personagens, também, então tem lá a sua desculpa.

Reflexões tipicamente julinas

A Lituânia, juntamente com a Letônia e a Estônia, é uma das três Repúblicas Bálticas. Foi a primeira das repúblicas soviéticas a proclamar a sua independência da antiga União Soviética em 11.3.1990. Foi admitida como membro da Organização das Nações Unidas em 17.9.1991. Com área superior a 65 mil Km2 e população em torno de 3,5 de habitantes, possui um índice de desenvolvimento humano (IDH) elevado, o 4º maior índice de alfabetização do mundo (99,7%). Atualmente, o país se desenvolve, mas apresenta uma larga fatia de sua população em uma situação de intensa pobreza.
Foi nesse país que a Justiça do Trabalho tomou uma decisão inusitada: rejeitou a pretensão dos trabalhadores de uma cervejaria da capital do país, Vilnius, por melhores condições de trabalho e maiores salários. O fundamento? O produto é essencial para o país, equiparando-se a suprimentos médicos e água potável! Cerveja, tá?
Tudo bem que a Lituânia depende profundamente do comércio com o Ocidente, mas deve ter juiz exagerando na dose naquele país.

Curiosidade relatada na revista Mundo Estranho n. 125, de junho/2012, p. 74.

Lição do dia


A vida é curta, principalmente se os teus pais te colocam para nadar com tubarões.
Agora com licença que vou me divertir com a Júlia e os jacarés.

Cuidados com vírus

Meus caros, desde ontem começou a aparecer uma mensagem alertando sobre vírus, quando acesso o meu próprio blog. Fui avisado por e-mail, pela querida leitora Ana Miranda, que a mensagem também está aparecendo lá pelas Minas Gerais, presumo que a mesma.
De acordo com a mensagem, eu tenho conteúdo oriundo do blog do Hiroshi Bogéa (o que significa isso? eu apenas coloquei um link para o blog dele!), que seria "conhecido" por disseminar malware.
Entrarei em contato com o Hiroshi Bogéa e procurarei verificar a segurança do meu próprio blog. Deixo-lhes este esclarecimento porque, claro, todos queremos navegar com segurança pela rede. Abraços.

Atualizando:
Acabei de receber um telefonema de um amigo, relatando problema parecido. Por segurança, excluí o link para o blog do Bogéa. Acessei novamente o meu e não apareceu mensagem alguma. Vou continuar tomando minhas providências.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Remição pela leitura (II)

Em 4 de abril deste ano, publiquei esta postagem, mencionando projeto que pretendia permitir a remição de dias de prisão pela leitura de livros. A ideia saiu do papel e está sendo expandida.
Por enquanto, o seu fundamento legal é uma portaria conjunta da Corregedoria-Geral da Justiça Federal e do Departamento Penitenciário Nacional, órgão do Ministério da Justiça. O objetivo é fazer com que o preso leia um livro no intervalo de 21 a 30 dias e após redija uma resenha a respeito. Como prêmio, ganha 4 dias de remição (abatimento da pena), podendo chegar a até 48 dias por ano.
Na ausência de respaldo por meio de lei em sentido estrito, somente as penitenciárias federais estão aplicando a iniciativa. Cantanduvas (PR) foi a pioneira e agora está sendo seguida por Campo Grande (MS), Porto Velho (RO) e Mossoró (RN). Os presos estão começando a se interessar. Lembre que nas penitenciárias federais ficam os presos em tese mais perigosos.
Países como a China, que nada tem de democrática além do nome, já estão interessados em conhecer o nosso modelo. Boas práticas brasileiras farão carreira pelo mundo?

Coisas do capitalismo

Com alguma surpresa, tomo conhecimento de que a Prefeitura de São Paulo cassou a licença de funcionamento de um shopping center e, ainda por cima um localizado em Higienópolis, aquele bairro de pessoas diferenciadas. O motivo da medida extrema foi a carência de vagas de estacionamento. Louvo a medida moralizadora e aguardo o desfecho do caso. Mas ele me provoca outros pensamentos.
Estive no Shopping Boulevard, aqui em Belém. Noite comum do mês de julho, quando a cidade começa a esvaziar. Mesmo assim, a dificuldade de acesso foi percebida, porque já estão a pleno valor as obras da chamada "expansão 2012" do empreendimento. A tal expansão sempre me despertou desconfiança, porque suprimiria um andar inteiro de estacionamento. Ou seja, quanto mais lojas e elementos atrativos de público, menos espaço para o mesmo público estacionar. Ouvi dizer, mas não posso confirmar, que na opinião dos empreendedores o estacionamento era sub-utilizado.
Obras em andamento, percebi que o incômodo é muito maior do que pensei. Para começar, não apenas o nível G2, mas também o G6 foram interditados. São dois níveis de estacionamento perdidos e o de cima nem sei o motivo da interdição. A horrorosa rampa de entrada (aquela que não dá para acreditar que foi liberada pelas autoridades) ficou muito maior agora, pois os motoristas precisam subir mais um andar. O risco de filas aumentou consideravelmente e, com elas, o de acidentes.
Mas não é tudo. O banheiro masculino e o fraldário do piso P4 também foram interditados, o que é particularmente inconveniente, por serem os equipamentos destinados a servir a praça de alimentação.
Por último, com a redução dos guichês de pagamento do estacionamento, há filas também para isso. Em suma, enquanto os capitalistas cuidam de aumentar o faturamento, o conforto e mesmo a segurança se perdem. O consumidor, como sempre, é só mais um detalhe e um detalhe que só interessa enquanto paga. Vale lembrar que alguns desses transtornos serão removidos (o banheiro, p. ex.), mas outros se tornarão definitivos, como a rampa de entrada. E a coisa pode piorar se inventarem uma nova expansão. Sem falar que por aqui não existe prefeito, então não se pode contar com medidas sérias, no interesse dos seres humanos.

4D

Aviso aos interessados que Belém já possui a sua primeira sala de cinema 4D.
Dois dias atrás, numa sessão vespertina na sala 4 do Cinépolis do Shopping Parque Belém, a chuva intensa que caía sobre a cidade entrou para nos proporcionar agradáveis sensações, sobretudo para mim, já que choveu no meu ombro direito. Tive que mudar de assento e um funcionário prendeu um simpático balde entre duas poltronas, para recolher a visitante.
Isso é cinema 4D: enquanto os personagens nadavam na tela, eu me molhava de verdade!

***

A despeito desse desagradável inconveniente, devo dizer que as salas de cinema do novo shopping agora são as melhores da cidade. Além do fato de estar tudo novinho, a ótima inclinação do formato stadium permite que todos assistam ao filme sem o menor incômodo com gente tapando a visão. A imagem e o som parecem ótimos.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sombras da noite

Acostumei-me a aguardar com expectativa os filmes de Tim Burton. Suas produções algo ilógicas, non sense por vezes, repletas de perversidade e humor negro, realismo fantástico e um estilo visual muito próprio sempre me cativaram. Minha simpatia foi bastante arranhada em nosso último contato, aquele detestável Alice no País das Maravilhas que só não me apurrinhou mais porque consegui tirar uma boa soneca dentro da sala de projeção. Assim, aguardei com reticência a estreia de Sombras da noite (Dark shadows, dir. Tim Burton, EUA, 2012), inclusive por repetir as parcerias com Johnny Depp e Helena Bonham Carter, que sempre trazem algum risco de a fórmula cansar.
A par disso, as matérias que já lera a respeito apontavam para um filme pouco eficiente, com um final de pouco valor. Aí encontro uma crítica como esta, que arrebenta com tudo, e volto a agradecer por eu não ser crítico de cinema, mas apenas alguém que vê e gosta ou não gosta e diz que gostou ou não gostou, ao contrário dos críticos, que gostam ou não gostam e querem convencer a todos, com argumentos supostamente técnicos, que estão corretos. Claramente, o autor do texto não gostou do filme e deve ter lá as suas razões aprendidas em manuais. E só.
Com efeito, Sombras da noite é apenas entretenimento, mas não vejo nada de mal nisso. Ou será que só podemos ir ao cinema para ver filmes com finalidades ou significados profundos? E olha que quem vos escreve é uma pessoa que odeia comédias e se recusa a desligar o cérebro para fins de suposto lazer. E que olha com desconfiança quem faz isso.
Assim, podemos identificar uma grande quantidade de clichês, num roteiro sem originalidade alguma, mas suficientemente bem executado. Se só pudéssemos gostar de novidades, ninguém teria discos preferidos, certo?
Eu supunha que a trama era uma coisa meio A família Addams, portanto com ares infantis e monstros absurdos pulando na tela. Para minha surpresa, há bastante dramaticidade na estória, como se percebe na personagem Elizabeth (Michelle Pfeiffer, linda até hoje! linda!), empenhada em proteger sua filha e sobrinho, além do nome da família Collins, e no pequeno órfão David (Gulliver McGrath), a quem restava o consolo de conversar com o fantasma de sua mãe.
Mas Burton fica o tempo todo fazendo piadinhas, que me divertiram e não chegaram a cansar. Ao contrário do crítico, que considera medíocre brincar com a inadaptação do personagem a um mundo totalmente novo, isso me parece engraçado porque é algo que pode acontecer a qualquer um de nós, se formos a uma cidade diferente, p. ex.
Eu também poderia subir nas tamancas e fazer meus protestos, porque afinal de contas os vampiros são os personagens de ficção que mais respeito. Nos últimos anos, eles têm sofrido a humilhação de ser ridicularizados naquela patética "saga" (faz-me rir) literário-cinematográfica que todo mundo conhece, quando na verdade deveriam ser retratados como criaturas frias, crueis e, acima de tudo, mortas. Por conseguinte, nada de sensações físicas e, muito menos, capacidade de procriar (suprema imbecilidade!).
Em Sombras da noite, Barrabas é apresentado como um vampiro um pouco diferente. Apesar das características clássicas presentes (e dos trejeitos que remetem a Nosferatu, naturalmente feitos de caso pensado por Depp), o protagonista se tornou vampiro por causa de bruxaria, o que deixa no ar a possibilidade de voltar a ser humano, como ele chega a tentar a certa altura, por meio de transfusões de sangue. Daí surgem as contradições, já que consta que ele estaria mesmo morto ("o seu coração que não bate") e não poderia ter filhos, como sugere a bruxa Angelique em certa passagem, mas certamente apenas para apontar o sub-texto de cunho sexual. Barrabas é um vampiro que, aparentemente, sente prazer sexual e nisso se comporta quase como um homem comum, o que está errado, digamos assim, mas há que se aceitar a proposta do filme e não levar a ficção tão a sério. Para melhor esclarecimento, veja como são representados os vampiros em Entrevista com o vampiro (Interview with the vampire, dir. Neil Jordan, EUA, 1994). Ali as criaturas são mostradas como são: mortas, utilizando a sensualidade apenas como instrumento para atrair vítimas.
No final das contas, o filme retrata uma curiosa luta entre dois monstros, sendo que um é verdadeiramente mal (mas tem uma atitude em sentido oposto em sua última aparição) e outro que foi tornado um monstro, mas que busca conservar os valores morais que lhe são mais caros, o que também estaria em desacordo com a natureza dos vampiros. Mas é a proposta deste bom entretenimento, que possui uma trilha sonora anos 1970 muito bacana.
Confira, se não for chato demais para tanto.

domingo, 1 de julho de 2012

Ódio e desespero

O dramático relato que você pode ler nesta matéria reforça o que venho dizendo: cada vez mais, o brasileiro precisa se humilhar para alcançar aquilo que é seu direito, mesmo quando paga caro por ele. Imagine uma mulher decente de 46 anos chegar ao ponto de fingir ter uma arma e fazer uma pessoa de refém, para conseguir atendimento para seu pai, portador de câncer no cérebro? E ele possui plano de saúde.

Será mesmo destino do brasileiro ter que resolver tudo à bala, num futuro próximo? Não é nesse mundo que eu quero viver.