quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Reconhecimento público de um grave sintoma


O presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do
Brasil, Wadih Damous, irá enviar uma proposta ao Conselho Federal da OAB para a
inclusão permanente de uma cadeira específica de Direitos Humanos na grade curricular
das faculdades de Direito.
Segundo Damous, é importante que a OAB incentive o governo, por meio do Ministério da
Educação (MEC), a implantar a cultura de Direitos Humanos em todas as áreas possíveis,
particularmente no âmbito da administração pública. "É urgente que o país tenha condições
de formar quadros de qualidade na área de Direitos Humanos em todo o país", afirmou.
A proposta foi sugerida pela seccional fluminense da OAB e deve ser encaminhada ao
presidente da entidade, Marcus Vinícius Furtado, para que o Plenário do Conselho Federal
possa decidir pelo encaminhamento do pleito ao Ministério da Educação.
Marcelo Chalréo, presidente de Direitos Humanos da OAB-RJ, disse que a Comissão de
Direitos Humanos precisa atuar de forma propositiva, interferindo na ampliação dos espaços
de debates e de defesa dos direitos humanos. "Vamos buscar parcerias com a Escola
Superior de Advocacia (ESA) e com as faculdades para promover seminários e cursos de
Direitos Humanos, que integram uma grande pauta com inserção nos mais variados temas",
disse Chalréo.
"Nossos colegas têm, em geral, formação humanística muito rala, pouco se discute o tema na
universidade. Acredito que a Ordem possa desempenhar um papel importante nesse debate e, posteriormente, quem sabe, pleitear ao Ministério da Educação a inserção de uma cadeira
específica nas faculdades", concluiu.
Revista Consultor Jurídico, 27 de fevereiro de 2013

Fonte: http://www.conjur.com.br/2013-fev-27/ensino-direitos-humanos-incluido-faculdades-direito

Causa-me espécie que, em 2013, ainda haja algum curso de direito no país que não dedica atenção ao tema dos direitos humanos, como conteúdo autônomo. Especulo que quem assim se porta também não se preocupará em garanti-lo sequer como tema transversal, de modo que, no máximo, essa questão seminal ao Estado democrático de direito há de passar sumariamente ignorada pelos 5 anos da graduação. Um acinte.

Num país que viveu mais de duas décadas de ditadura militar; que consolidou uma vitoriosa mentalidade autoritária em todos os níveis de poder e mesmo entre os cidadãos comuns, como se pode ver pelo fato de que as famílias viram espaços de poder, a escola vira espaço de poder, os namoros viram espaços de poder, etc.; cujos cidadãos se comprazem com a violência e a estimulam, quando veem nela alguma utilidade pessoal ou classista; enfim, num país que ainda precisa tanto evoluir em termos de humanidade, os profissionais que deveriam ter essa premissa como norte principal muitas vezes são formados de costas para ela.

O motivo, previsível, é que uma quantidade extraordinária de cursos é do tipo caça-níqueis, destinando-se a formar gerações de concurseiros que se comprazem em acumular informações normativas, ótimas para vencer as provas objetivas de primeira fase (ridículas, em sua esmagadora maioria). Para isso, basta ter na cabeça um HD que retenha dados, embora falte um processador capaz de transformar esses dados em informação útil, sistematizada e acima de tudo crítica. Resulta daí que esses cursos não são concebidos para fazer ninguém pensar e muito menos sentir.

Meu grande alento é saber que os cursos de direito de Belém preocupam-se bastante com os direitos humanos, até porque o Pará, desgraçadamente, é campeão em violações a eles. De forma ainda mais particular, alegra-me saber que a instituição na qual leciono tem nos direitos humanos um pilar dos projetos de curso, tanto da graduação quanto do mestrado. E até criou, junto ao seu Núcleo de Prática Jurídica, uma equipe dedicada especificamente à matéria, da qual já falei em várias ocasiões, equipe essa bicampeã nacional da competição do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

Agiu bem a OAB, ainda que tardiamente. E é bom que ela encampe essa causa com veemência, porque as instituições recalcitrantes certamente não atenderão ao apelo se não forem obrigadas a isso.

PS  Como vivo cercado por concurseiros e hoje em dia todo mundo vive com os nervos à flor da pele, esclareço que minha crítica não se dirige a quem pretende passar num concurso, e sim a quem elabora as provas dos mesmos esmerando-se em fazê-lo da maneira mais tosca e decoreba possível.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Bravata ou ato falho?

Apesar de sua aura de brasileiro humilde, o ex-presidente Lula nunca conseguiu esconder os seus arroubos de vaidade. Se bem que, no fundo, todo mundo gosta de ter o ego amaciado e algumas pessoas gostam particularmente. O fato é que Lula, em evento ocorrido hoje para comemorar os 30 anos da Central Única dos Trabalhadores, permitiu-se comparar a si mesmo com o finado presidente americano Lincoln, atualmente em destaque por causa do filme de Spielberg.

Mas a assertiva não cai bem. Além de denotar arrogância você se comparar a um personagem histórico respeitado, nos últimos dias já vinham circulando pela Internet muitas piadas relacionando o caso da compra de votos para aprovar a 13ª Emenda à constituição dos Estados Unidos com o escândalo do "mensalão". O humorista José Simão, p. ex., havia chamado Lincoln de "precursor do mensalão". Aí me aparece Lula e dá margem a que se reforce a piada.

Que não reclame depois. Fica em aberto a pergunta que fiz no título.

Cacos de um passado recente

O que é bom deve ser elogiado. Diante desta premissa, elogio a — surpreendente, vindo de onde vem — iniciativa de promover uma audiência pública para discutir a situação da obra do BRT, marcada para hoje. Uma audiência verdadeiramente pública, porque qualquer pessoa pode ter acesso ao Hangar e, espero, ter direito a voz, sem o que já não seria um evento tão público assim.

O prefeito de Belém, Zenaldo Não Sou Mágico Coutinho, esclareceu em entrevista os problemas legais e financeiros que paralisaram a obra e nos deixam sem uma previsão concreta de ver o novo sistema de transporte urbano funcionando. De suas palavras, extraio um ponto importante:


A prefeitura (sic) anterior não recebeu nenhum recurso, não garantiu financiamento, não foi assinado o financiamento. Temos que neste momento, regularizar a questão do financiamento federal e isso nós estamos discutindo com a Caixa Econômica e com o Ministério das Cidades. Então, primeiro tem que resolver os recursos, que não existem. A prefeitura ano passado pagou com recursos do município R$ 44 milhões, mas deixou uma dívida sendo cobrada pela empresa de R$ 56 milhões. Nós temos que primeiro verificar se tem R$ 6 milhões de obras executas ali na Almirante Barroso, temos também que verificar como se sai deste imbróglio judicial movido pelo Ministério Público. Nós temos que verificar a solução da pendência financeira, a garantia do financiamento federal e da solução judicial.

Toda pessoa minimamente honesta e informada sempre soube que não havia recursos para a obra, embora ao tempo da campanha eleitoral o indigitado e nefasto ex-prefeito bradasse aos quatro ventos que os recursos estavam garantidos e disponíveis. Mais uma clara demonstração do quanto vale a sua palavra. O cenário pintado pelo atual gestor e diametralmente oposto e me faz pensar no art. 359-C do Código Penal, que tipifica como crime contra as finanças públicas a conduta de "ordenar ou autorizar a assunção de obrigação, nos dois últimos quadrimestres do último ano do mandato ou legislatura, cuja despesa não possa ser paga no mesmo exercício financeiro ou, caso reste parcela a ser paga no exercício seguinte, que não tenha contrapartida suficiente de disponibilidade de caixa". A pena é de 1 a 4 anos de reclusão.

O BRT, sozinho, inscreveu no currículo de Duciomar Costa mais uma grande quantidade de questionamentos de improbidade administrativa, o que explica a ação judicial aludida na entrevista. São fatos concretos, reais, não discursos de oposição. E parte da cidade está literalmente parada em consequência dessa sucessão de desmandos.

Quem tinha bom senso sabia que seria assim desde que se confirmou a desastrosa vitória de Costa, no pleito de 2004. Não foi falta de aviso. Foi falta de sanidade mental e de outras virtudes, inclusive do partido que agora colhe os cacos da devastação municipal, embora tenha contribuído poderosamente para as duas eleições do culpado.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Nós queremos acreditar

Sempre me chamou a atenção o elevadíssimo interesse que as pessoas, de um modo geral, possuem pelas questões da vida após a morte. Pelo que entendo, elas sentem necessidade de acreditar numa vida que suceda a esta; afinal, é singularmente aflitivo imaginar a ideia de aniquilação total. Queremos prosseguir e queremos fazê-lo conscientemente. Reflexo disso, produtos dramatúrgicos que exploram temas transcendentais são fáceis de angariar apelo popular e, ainda mais interessante para mim, a atenção aumenta quanto menos fantasiosa é a trama.

Claro que posso estar totalmente errado em minha interpretação, mas tenho a impressão de que as pessoas não buscam um mundo de anjos e demônios, fadas e outras criaturas mágicas. Elas se interessam por concepções mais plausíveis, mais próximas de si mesmas. Elas se interessam pela situação dos indivíduos comuns no plano espiritual, ou seja, querem saber como seria lá para elas mesmas. É inevitável para mim, que sou espírita, pensar no Espiritismo, porque sistematizou conhecimentos sobre o tema, usando método científico para fazê-lo.

Não existe, entretanto, nenhuma razão para eu acreditar que os estadunidenses tenham voluntariamente procurado informações espirituais sistematizadas e, menos ainda, por Allan Kardec. Trata-se de um país basicamente evangélico, com uma inclinação absurda a tratar fenômenos supramundanos com a mesma objetividade que teriam em relação a fenômenos físicos óbvios. Não tem como dar certo. Justamente por isso, fico impressionado com casos em que os roteiristas estrangeiros parecem seguir à risca a cartilha espírita, porque provavelmente a desconhecem.

Em 1995, Mel Gibson e, em 2000, Ridley Scott recorreram a uma mesma estratégia. Os protagonistas de seus filmes, Coração valente e Gladiador, são homens valorosos que lutaram por justiça e se sacrificaram pelo bem dos semelhantes. Quando morrem, ambos vítimas da crueldade que combateram, são recebidos no mundo espiritual exatamente pelas pessoas que mais amavam. William Wallace é recebido pela esposa Murron, outra vítima da mesma brutalidade. E Maximus recebe a acolhida da esposa e do filho, também trucidados a mando do Imperador Commodus.

Coração Valente: Murron e Wallace vivem seus momentos mais felizes na floresta
em torno da aldeia onde moram e ali se reencontram

Gladiador: A esposa mostra ao filho que o homem que se aproxima,
no belíssimo campo que circundava o lar da família, é seu pai

É particularmente interessante que, em ambos os filmes, o despertar espiritual dos personagens ocorre na paisagem que lhes era mais familiar. A doutrina espírita realmente ensina que os Espíritos plasmam, em torno de si, os cenários que conhecem ou que são capazes de compreender. É por isso que um Espírito perturbado, que acredita no inferno, pode realmente acordar num lugar repleto de fogo e criaturas de chifres e rabos pontudos, exatamente como nas representações mais caricatas das profundezas. Se Wallace e Maximus estavam em paz, a melhor forma de garantir que se sentissem bem era levá-los de volta para casa.

Estratégia cênica semelhante foi vista recentemente, no fabuloso musical Os miseráveis, de Tom Hooper. Na cena final, Jean Valjean, outro heroico defensor da justiça, que colocou sua vida em risco diversas vezes em favor de terceiros, está morrendo quando Fantine ressurge para auxiliá-lo no momento extremo. Ela o tranquiliza e é, por assim dizer, sua madrinha no período de transição. A tarefa coube a Fantine porque ela era a pessoa mais agradecida a Valjean por seus feitos, em especial ter proporcionado uma vida feliz a sua filha Cosette. Estando ela bem estabelecida no mundo espiritual, razoável que lhe coubesse prestar o auxílio que expressaria a sua gratidão.

Na TV
Por sua própria natureza, o aclamado seriado Arquivo X não poderia abdicar de referências religiosas e espirituais. Na segunda temporada, Dana Scully (era sempre ela quem levava o destempero) fica entre a vida e a morte após uma abdução alienígena. Tem uma experiência de quase-morte, tema instigante que desperta grande interesse científico. Ali a cartilha espírita funcionou de novo. Nas sequências, Scully aparece num lugar que não é vida nem morte, onde lhe aparece a pessoa que lhe era mais importante cara, falecida no anterior sem lhe esclarecer se tinha orgulho dela: o pai, William. É ele quem a orienta, ajudando-a a ficar em paz consigo mesmo e a ajuda a voltar.

Arquivo X: o Capitão William Scully é o instrutor da filha,
durante o tempo em que ela pende entre a vida e a morte

Os roteiristas do seriado cult encontraram uma bela metáfora para demonstrar a experiência de quase morte da personagem: ela aparece sozinha num pequeno barco, no meio de um lago, preso à margem por uma corda que pode romper a qualquer momento. À certa altura, fala-se em soltar a corda, mas a necessidade de retornar prevalece.

De preto e sempre calada, Scully paira sem reação em meio ao lago e às brumas...
...e da margem é observada pelos familiares em versão infantil, uma contemplação do passado.

Eu me questiono se há alguma tendência inata de quem pensa sobre essas questões em encará-las de modo tão convergente. Afinal, se o roteirista não leu obras sobre o tema, como foi possível conceber uma narrativa tão adequada? O recurso mais previsível — o túnel com uma luz forte ao final, normalmente mencionado por quem experimentou uma EQM — não aparece no episódio. O que aparece tem fundamento. Vindo de onde?

É possível que eu esteja especulando demais. Mas sustento a minha premissa: se o roteiro fala de perspectivas de nossa existência em outro plano, isso acaba dando audiência.

Um estranho pente-fino escolar

O Portal R7 decidiu, como disse de si mesmo, passar um "pente-fino" na vida de alguns conhecidos políticos  brasileiros. Mas o modo como a matéria foi construída me pareceu tendencioso e cheio de objetivos inconfessáveis, além de revelar incompetência dos autores.

Esclareça-se, de saída, que cada quadro contém uma síntese chamativa e, abaixo, um texto mais detalhado, que talvez muitos não leiam. Portanto, o texto destacado é o que deve impressionar o público. Resulta daí que a primeira penteada, a presidente da República, Dilma Rousseff, fica mal na foto, quando se diz que ela foi jubilada pela Universidade Federal de Minas Gerais e não conseguiu concluir o doutorado. Só abaixo se explica que ela foi jubilada no curso de Economia, nos anos 1960, como retaliação pelo envolvimento com "organizações de esquerda". E o doutorado, iniciado em 1998, não foi concluído porque — a afirmação é minha — ela já estava plenamente envolvida com cargos públicos.

O segundo da lista é o vice-presidente, Michel Temer, da graduação ao doutorado em Direito nas universidades paulistas que comandam este país. O texto destaca que ele publicou livros, sendo o último de poesia.

O terceiro é o presidente do Senado, Renan Calheiros, formado em Direito e que "não voltou mais às salas de aula". O jornalista comete um erro lamentável ao destacar que o nome de Calheiros não aparece no Cadastro Nacional de Advogados, "relação que aponta os bacharéis que prestaram e foram aprovados no Exame da Ordem" (sic). De saída, a palavra bachareis hoje se escreve sem acento. E em 1982, ano em que o insuspeito alagoano colou grau, não havia exame de Ordem! A controversa prova somente se tornou obrigatória em 1995. Por conseguinte, advogados mais antigos devem aparecer no cadastro nacional, mesmo sem jamais terem feito a prova. É direito adquirido. Outrossim, uma vez que Calheiros não exerce a advocacia, para que manter o registro ativo? Compreensível que se tenha licenciado.

Bobagem semelhante é dita de Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados e graduado em Direito no ano de 1972, e do também deputado federal José Sarney Filho, graduado em Direito e Economia. Pode-se dizer muita coisa desses caras, mas aqui não há razões para vislumbrar irregularidades.

Do senador José Sarney, diz apenas que se graduou em direito em 1953 pela Universidade Federal do Maranhão e destaca sua atividade como escritor. Do deputado federal Paulo Maluf, engenheiro civil, destaca que suas obras não "fechavam as contas" e custavam caro demais.

Elogiado como "bom aluno", o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, graduou-se em Direito, cursou mestrado em Economia e doutorado em Filosofia, tudo na USP, onde lecionou ciência política. Foi ministro da Educação de 2005 a 2012. Outro a merecer elogio foi o senador Eduardo Suplicy, por gostar da vida acadêmica a ponto de, "apesar de sua intensa rotina de senador", continuar professor na Fundação Getúlio Vargas, onde se graduou em Administração. Suplicy também cursou Economia na Universidade Estadual de Michigan (EUA). Um terceiro elogiado é Gilberto Kassab, cuja vida escolar foi bem sucedida por "mérito próprio" e não por causa do pai diretor da escola.

O deputado federal Acelino "Popó" Freitas foi elogiado porque, não tendo podido estudar na época oportuna, preocupou-se em fazê-lo quando teve chance. Mas a vida política o levou a trancar a faculdade de Direito. Hoje faz um curso não presencial de gestão pública. Como Dilma, quem ler só o quadro pode ficar com má impressão.

Já José Serra teve destacados a sua graduação em Engenharia pela Escola Politécnica da USP, dois mestrados em Economia (Chile e EUA) e doutorado em Economia (EUA), além de ter sido professor da UNICAMP. Mas foi sacaneado com a indicação de que seu cargo é "ex-candidato".

Naturalmente, o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, foi lembrado. Destacou-se a investigação eleitoral sobre seu possível analfabetismo. O texto afirma que ele chegou a ser processado pelo crime de falsidade ideológica, mas não menciona que o processo não foi adiante.

Outro que não poderia faltar era o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, cuja proficiente carreira acadêmica e atividade como escritor foi bem descrita, destacando o fato de ter sido apontado como um dos cem maiores intelectuais da atualidade pela revista Foreign Policy.

A última presença óbvia era Luís Inácio Lula da Silva, cujo orgulho de ter cursado apenas a "faculdade da vida" é público e notório.

Assumindo um tom moralista, dando a entender que todos são obrigados a buscar títulos acadêmicos, mesmo que suas vidas não os conduzam a atividades acadêmicas, o texto reclama dos que puderam mas não se "aprimoraram", tal como o senador Fernando Collor (graduado em Economia pela Universidade Federal de Alagoas em 1972).

Há outras figurinhas de menor destaque na matéria, que pode ser lida aqui.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pode ser muito útil


O psiquiatra especializado em hipnose dinâmica e medicina psicossomática Leonard Verea, do Instituto Verea, dá algumas dicas, seguindo a ginástica isométrica, que podem ser seguidas em qualquer lugar, inclusive dentro do carro.
Uma boa ideia para quem quer usar o tempo que fica parado no trânsito para exercitar o corpo. E também para aqueles que estão num intervalo de viagem, numa estrada, para relaxar a musculatura.
São dois exercícios muito fáceis:
Primeiro, levante os braços acima da cabeça e force-os contra o teto do carro. Faça isso por dez segundos, por três vezes.
Na sequência,  coloque as mãos sobre os joelhos e force-os para baixo com todos os músculos do antebraço, braços, costelas e peito. Force para cima usando os músculos das coxas e abdominais.


Fonte: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/02/22/aprenda-um-exercicio-simples-que-pode-ser-feito-dentro-do-carro.htm

Já que em Belém vivemos de engarrafamento em engarrafamento, vou aderir a essas práticas. Espero que sejam reconfortantes para você também.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A hora mais escura

Quando vi Guerra ao terror (The hurt locker, 2008), o filme em si e sua diretora, Kathryn Bigelow, estavam sendo aclamados pela crítica especializada, o que decerto aumentou a minha expectativa em relação à obra. Recordo-me do tédio que me acompanhou durante as pouco mais de duas horas, felizmente em casa, deitado em minha cama. Quando terminou, meu primeiro impulso foi me perguntar: "Afinal, esse filme trata do quê, mesmo?"

Nesse tempo todo, contudo, não criei nenhuma imagem pré-concebida em relação a Bigelow, que em 2010 venceu o Oscar de melhor direção por esse trabalho, desbancando o ex-marido, James Cameron, que naquele ano concorria com seu demolidor e controverso Avatar. Foi a primeira mulher a ganhar esse prêmio e também o Directors Guild Award, pelo mesmo trabalho. Devo dizer que respeitava e continuo respeitando Bigelow por se destacar numa atividade ainda predominantemente masculina (ser cineasta) e, ainda por cima, numa espécie de cinema exclusivamente masculina (filmes de guerra com forte apelo político).

Tão logo soube de A hora mais escura (Zero dark thirty, 2012), interessei-me por ele. Eu realmente queria conhecer uma visão interna e audaciosa sobre esse plurívoco episódio da história mundial, que em última análise interessa a todos nós. Não se trata apenas de Estados Unidos e nações muçulmanas. Quando um país de enorme capacidade militar e recursos financeiros decide que pode entrar em qualquer país para caçar seus inimigos, todas as nações ficam avisadas do perigo.

Muito em síntese, o roteiro se concentra em Maya, uma agente da CIA que trabalha no pequeno grupo de inteligência encarregado de encontrar e prender ou assassinar Osama Bin Laden, cognominado o homem mais perigoso do mundo, por ser o inimigo mais perigoso dos Estados Unidos. O que o filme mostra, basicamente, é a sucessão das investigações realizadas e o jogo de forças entre indivíduos investidos em tão singular e grave missão (o tempo todo à beira de um ataque de nervos). Mas o destaque dado a Maya é absoluto, como se o encontro de Bin Laden praticamente fosse obra exclusiva dela. Na cena final, o comentário de um militar sobre o avião que vai levá-la parece confirmar isso.

A hora mais escura é um filme muito bem construído, que revela a mão de uma cineasta competente. A plausibilidade do desenvolvimento da protagonista demonstra isso: uma mulher que começa aflita diante de sessões de tortura, mas que não fraqueja e, por fim, em parte como reação à morte de pessoas amigas pelos "terroristas", torna-se obsessiva quanto à morte do alvo. Decerto há muito da visão de mundo dos estadunidenses nisso, pois eles adoram herois patrióticos e obstinados. Além disso, o personagem é muito bem defendido pela atriz Jessica Chastain, que está em seu melhor momento, fazendo um monte de filmes e sendo elogiada por seus trabalhos. Aos 35 anos, a californiana que surgiu em 2010 fazendo um papel secundário, já tem 9 longas no currículo, entre eles Histórias cruzadas (dir. Tate Taylor), que a notabilizou, e o detestado pelo público A árvore da vida (dir. Terrence Malick). Foram 4 filmes só em 2011 e 3 em 2012. É a hora de ganhar dinheiro e consolidar seu lugar ao sol.

Contado com um tom algo documental, que inclusive divide a trama em capítulos com títulos exibidos ao público, o filme é corajoso em alguns momentos, como quando mostra imagens reais de Barack Obama, concedendo uma entrevista na qual afirma peremptoriamente que os Estados Unidos não torturam, a que se segue a expressão desconfortável no rosto de Maya, que o vê pela TV. Ou quando exploram o argumento de existência de armas de destruição em massa para justificar a invasão do Iraque, o que se revelou uma grande bola fora. Mas não é tanta coragem assim. O filme parece empenhado em deixar claro que o Congresso dos Estados Unidos agiu de forma implacável contra a tortura, porque esse não seria o meio de agir dos americanos. Mais de uma vez, afirma-se que Guantánamo e Abu Ghraib deixaram os militares em situação difícil, por isso não seriam mais possíveis interrogatórios com tortura. Aham, senta lá, Cláudia. Há uma clara preocupação em humanizar os objetivos dos americanos, tendo em foco os 3 mil inocentes mortos no 11 de Setembro e a sucessão de ataques da Al-Qaeda, em mais de um país.

Quando a projeção chegou a uma hora e meia, comecei a olhar o relógio. Àquela altura, o esconderijo onde Bin Laden foi encontrado já havia sido identificado pelos americanos, que no entanto tomaram inúmeras cautelas antes de autorizar a missão de execução sumária. Completaram-se as duas horas quando a operação foi finalmente deslanchada e, a partir daí, o filme mergulha na sua apoteose, de tal maneira que mesmo os félas que passaram a sessão toda batendo papo silenciaram, ou assim me pareceu. Quando olhei de novo o relógio, eram 19h10 e eu simplesmente não percebera o tempo passar. Ao todo, são 2h37' de exibição, mas parece menos.

No final das contas, é um bom filme. E me mostrou que, não tem jeito, eu sou mesmo um humanista. De tudo o que foi exibido, a cena que mais me afetou foi uma em que o torturador oferece água e comida a um "terrorista". Após tanto tempo de maus-tratos físicos e psicológicos, ao ver a água, o homem agarra a garrafa e não consegue reprimir as lágrimas. O sofrimento humano. Naquela hora, eu me senti um merda.

Muambeiros e o Leão maldito


A Receita Federal está tentando agilizar a liberação de bagagens vindas do exterior que ultrapassam a cota permitida de importação, que é de US$ 500 por pessoa.
O Fisco começou a implantar, na última segunda-feira (18), um sistema de pagamento do imposto por cartão de débito, começando pelos aeroportos de Brasília, Guarulhos (SP) e Galeão (RJ), que recebem, juntos, 85% dos passageiros de voos internacionais no país.
De acordo com o subsecretário de Arrecadação e Atendimento da Receita, Carlos Roberto Occaso, um dos objetivos da iniciativa é preparar a instituição para os grandes eventos que vão ocorrer no país nos próximos anos, como a Copa das Confederações, a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.
O passageiro flagrado com produtos estrangeiros além da cota na bagagem tinha, até então, que sair da fila para pagar o imposto, enquanto a bagagem ficava retida, impedindo em muitos casos o andamento da fila para desembaraço das malas dos demais passageiros.
O entrave também provocava perdas de conexões de voos e eventual acúmulo de bagagens de terceiros nas aduanas, enquanto seus proprietários não apresentassem a devida quitação.
Agora, com o pagamento por cartão de débito, a qualquer hora, o desembaraço flui melhor, de acordo com o subsecretário Carlos Roberto Occaso. Segundo ele, o uso do cartão é parte de planejamento mais amplo de modernização e simplificação do controle aduaneiro, que será estendido a outros aeroportos com voos internacionais, além dos postos de fronteira e portos.
A implantação do pagamento por cartão tornou-se possível porque o Banco do Brasil e a Cielo desenvolveram maquineta própria para leitura eletrônica do Darf (Documento de Arrecadação Federal) por cartões de débito das bandeiras Visa, Mastercard e Elo. A Receita estuda a possibilidade de adotar também o cartão de crédito no pagamento do imposto devido.



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1236028-receita-federal-amplia-forma-de-pagamento-por-bagagem-extra.shtml

Só um detalhe para os compradores inveterados do Pará, que costumam viajar para os Estados Unidos passando por Manaus: o pujante e avançadíssimo Aeroporto Eduardo Gomes ainda não está incluído na novidade.

Rés do chão

Eu me canso de voltar sempre aos mesmos assuntos. Juro que me canso. Mas quando soube que um casal transou no mar do Município carioca de Rio das Ostras, em plena luz do dia e às vistas de um monte de gente, inclusive crianças e particularmente o filho da mulher envolvida, imaginei o que estaria por vir. Não deu outra. Após a repercussão do vídeo, ontem me deparei com uma entrevista com a dita cuja, afirmando na maior cara de pau que não transou (alguém está muito enganado sobre sexo nessa história...). E hoje, o mergulho no abismo se intensifica com uma foto da fulana fazendo coraçãozinho com as mãos e mostrando o seu "novo amor", como se alguém realmente estivesse interessado no assunto.

Enfim, o provável é que alguém esteja ou fique, porque, como sempre digo, o papel da imprensa no Brasil não é informar, mas criar as pautas pelas quais um público abobalhado e sem objetivos deverá interessar-se.

Não adianta: cada vez mais estamos imersos na mediocridade e existe uma verdadeira indústria fomentando isso, diuturnamente, para vender seus produtinhos imbecis. Que outra explicação para esse tipo de reportagem ocupar a home page de grandes portais de notícias (no plural, viu?)? É repugnante e muito, muito triste.

Propositalmente, não coloquei links para nada. Recuso-me a dar ainda mais cartaz para esse esgoto.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Cuti-cuti

Júlia para diante da tia Jose, olhando-a fixamente. Aperta os olhinhos e inclina o corpo para frente. O tempo vai passando e nada. Jose então pergunta:

— Mas o que isso significa?

— Você não está entendendo?!

— Não. O que é?

— Essa é a minha carinha cuti-cuti.

Já rindo, Jose pergunta o que significa uma carinha cuti-cuti.

— Significa: "Me dá meu lanche?!"

A Idade Média é hoje

Se você for mulher, 18 opções "vintage"

Como forma de desestimular seus habitantes a cultivarem "cortes capitalistas" [Oi? Como é?], a Coreia do Norte, um dos países mais fechados do mundo, criou, em 2005, uma lista de estilos de cabelos permitidos para a população. As informações são da AP.
Os salões de beleza da nação asiática são obrigados a exibir em suas paredes os dezoito cortes permitidos para mulheres. No caso de homens, o total de opções é ainda menor e restrito a dez diferentes tipos.
Se homem, 10 opções (na minha opinião, menos...)
Cabelos compridos ou pintados são proibidos [Também são proibidos os penteados escrotos tipo centrífuga, o que pelo menos liberta os nortecoreanos de sertanejos universitários]. Segundo o governo, longas cabeleiras exibem diversos riscos, como "roubar energia do cérebro" [Esta piada sensacional roubou a energia do meu!]
Mulheres são permitidas a adotar cortes um pouco mais longos quando solteiras, mas, após o casamento, o cabelo deve estar acima da nuca [É para gastarem menos tempo cuidando da beleza e mais da casa e dos maridos?]
Apesar das dez opções, o estilo mais comum entre homens segue sendo similar ao do líder 
Kim Jong-un, baixo do lado e arrepiado em cima
[Algo do tipo Chitãozinho em começo de carreira, sem o mullet.].



Fonte: http://beleza.terra.com.br/cabelos/coreia-do-norte-condena-cortes-longos-e-limita-cabelos-de-habitantes-a-28-opcoes,d84b308d7500d310VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

Depois vem o classe média típico e diz que, por essas e outras, o comunismo é a desgraça do mundo...

PS — Desculpem eu estar no CTRL+C, CTRL+V hoje, mas achei que as duas notícias mereciam atenção.

PS 2 — Faltaram opções para nós, carecas.

Em casa, não ocorre


Os pais são tão carinhosos e orgulhosos da prole que não conseguem esconder tamanho amor. Abraçam, apertam, elogiam, beijam. Algumas famílias costumam adotar ainda mais uma forma de carinho: o selinho, um toque rápido de lábios. Aderir a essa prática é uma opção pessoal, mas a família precisa estar ciente que explicações serão necessárias, principalmente às crianças.
O selinho não tem uma relação estreita com a sexualidade, no entanto, é geralmente entendido como uma demonstração de carinho entre namorados. Para as crianças, pode ser difícil entender que o beijo nos pais é diferente. Segundo a educadora sexual e diretora executiva do Instituto Kaplan, Maria Helena Vilela, a família precisa deixar bem claro que se trata de um cumprimento carinhoso, e não um carinho romântico. No entanto, segundo a psicóloga e arte educadora Jéssica Fogaça, o selinho é uma forma interessante de demonstrar carinho, principalmente com as crianças pequenas, porque elas são mais suscetíveis ao toque [E eu não posso demonstrar o mesmo carinho beijando-as em outro lugar?!].
De acordo com Maria Helena, é comum que alguns pais brinquem e digam que são namorados dos filhos [Tenho uma conhecida que inventou esse papo e, a certa altura, a filha não queria que a mãe dormisse na cama, com o pai, pois ela é que era a namorada dele...]. Isso pode confundir as crianças, ainda mais aquelas que já passaram da primeira infância. Afinal, o chamado Complexo de Édipo é bastante comum entre quatro e cinco anos. Portanto, é muito importante explicar e deixar explícito como funcionam as relações maternal e paternal. A postura dos pais precisa deixar claro que se trata de um cumprimento, sem relação com o beijo romântico.
Segundo a psicóloga infantil Daniella de Freixo Faria, é provável que os pequenos que dão selinhos nos pais também tentem beijar outras pessoas. Afinal, para elas, não faz sentido demonstrar carinho dessa forma só com a família, se também gostam de seus amigos, por exemplo. Portanto, é importante explicar que é um hábito social incomum.
Com o tempo, pode ser que a criança recuse ou se mostre constrangida ao dar um selinho nos pais. Nesses casos, segundo Maria Helena, o ideal é que a família não force e respeite a decisão. Afinal, como Daniella salienta, há diversas outras formas de demonstrar carinho. Às vezes, uma palavra amiga ou um olhar podem até ser mais valiosos.
De acordo com Daniella, a confusão dos filhos pode se tornar mais evidente quando eles crescerem e derem o primeiro beijo. A partir desse momento, o selinho passará a ter uma conotação diferente para eles, apesar de já saberem socialmente que há uma diferença. Além disso, segundo Jéssica, o mais importante é que os pequenos descubram qual é a forma com que se sentem mais à vontade para demonstrar carinho.
Além dos fatores psicológicos envolvidos, o selinho também requer alguns cuidados de saúde. Isso porque alguns tipos de viroses, como a catapora, a herpes e a gripe, podem ser transmitidas por meio do beijo. Segundo o primeiro-tesoureiro da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcos Antônio Cyrillo, tanto o selinho quanto o assoprar da comida da criança pode transmitir micro-organismos, pois inúmeros tipos de bactérias e afins alojam-se na região bucal. Assim, o melhor é evitar dar selinhos se há a suspeita de alguma doença. E, claro, não forçar a barra se a criança estiver desconfortável com esta demonstração de carinho.

Fonte: http://mulher.terra.com.br/vida-de-mae/selinho-entre-pais-e-filhos-pode-confundir-a-crianca,679b3ac801efc310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Lá em casa, desde sempre, ensinamos a regra. De forma bem humorada, dizemos "na boca não". Júlia entendeu bem. Eu não critico, mas não gosto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

#Queroverteracabeçanolugar

Quem me viu execrando o uso de hashtags no Facebook não precisa acusar-me de incoerência. Creio que o título desta postagem será esclarecido adiante.

Há alguns dias, tomei conhecimento da campanha publicitária da Gillette, que agora assume publicamente seu objetivo de fomentar a prática do body shaving (depilação) masculino. E o faz por meio de um argumento surpreendente: mulheres preferem homens lisinhos. Surpreendente porque não se sabe de onde se tirou essa informação. Acaso foi realizada alguma pesquisa sobre preferências femininas? Quando? Onde? Com qual abrangência? Sob qual metodologia?

Aliás, sabemos sim de onde saiu a informação: de um propósito raso e mesquinho, bem inerente ao capitalismo, de fazer o que for preciso para aumentar as vendas da empresa que inventou o modismo. Estabelecido o objetivo, apela-se para os maneirismos próprios da publicidade, tais como explorar a imagem de um artista em evidência no momento (o sulcoreano Psy) e a vala comum da mídia brasileira: a exploração da sexualidade, por meio de clichês que nunca saem de cena apesar de desgastados. Colocam-se, então, três mulheres gostosonas (e também muito conhecidas do público), obviamente reduzidas a objeto  consumível pelo público masculino, para defender a barbaridade tratada como imperativo categórico: mulheres preferem homens lisinhos.

Não duvido que haja muitas mulheres apreciadoras de homens lisinhos (assim como homens que gostam de outros homens lisinhos). Questão de gosto, simplesmente. Eu gosto de mulheres de cabelo comprido, enquanto outros gostam de ver a nuca exposta. Eu, como já declarei aqui no blog, gosto de mulheres de pele clara e cabelos escuros, enquanto outros são alucinados por louras. E por aí vai. Nenhum problema quando isso é uma preferência pessoal. O problema surge quando um féla qualquer inventa um valor, um gosto, uma exigência, uma necessidade, e as pessoas embarcam na onda. Assim agindo, elas se mostram massa de manobra, gente vazia e pronta a ser levada para onde os mais espertos desejem.

E agora a fabricante de lâminas resolveu que homem bonito (e pegador, claro, porque é isso que conta) tem o peito lisinho, tratando a característica como uma premissa inquestionável. O resultado foram queixas no sentido de que a campanha vende a imagem de homens peludos como sendo nojentos. Nunca vi o tal filme, por isso não sei como ele realmente é, mas o fato é que o protesto foi formalizado perante o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária  CONAR e já virou um processo. Em tese, pode haver uma punição. Antecipando-se a mais agitação, a Gillette já tirou o filme do ar.

O que me enoja na campanha da Gillette não é propor que as pessoas tenham ou não pelos, mas sim a manipulação. Repugna-me a manipulação até mais do que a imposição de um padrão estético. E de um padrão estético que eu, pessoalmente, acho ridículo. Ainda que não todos, homens têm pelos no peito e em outras partes do corpo. A natureza nos fez assim, como nos fez com um nariz no meio da cara que, convenhamos, é um negócio bastante esquisito. Mas ele está lá. Eu lamento pelos negros que pretendem tornar seus traços mais arianos, assim como pelos orientais que sonham em ocidentalizar os olhos. Mas quem cede às babaquices da indústria da moda e da beleza eu não lamento: eu repudio.

Na matéria cujo link indiquei, uma comentarista diz à Gillette que antigamente as mulheres tinham mais pelos do que necessário e agora se depilam mais. Mais pelos do que o necessário? Como assim? A imposição de padrões estéticos é tão agressiva que as pessoas realmente passam a acreditar neles como uma necessidade. Pelos existem para proteger o corpo, notadamente os genitais. De um modo geral, as pessoas não gostam de touceiras no meio das pernas (eu, inclusive), mas daí a concluir pela depilação total vai uma larga distância. Uma distância percorrida pela indústria. Hoje as mulheres se depilam demais, quando não integralmente. Para mim, isso estimula a pedofilia.

A babaquice é tanta que, nos últimos anos, vem-se impondo um novo padrão de beleza masculino: imberbe, andrógino. Parece que a obsessão por homogeneizar os seres humanos chegou ao nível de reduzir as distinções entre homens e mulheres. Agora, valoriza-se um Justin Bieber, um Luan Santana e seus corpitchos magrinhos, lisos e metidos em roupas bem coladinhas, encimadas por penteados patéticos. Funciona se você está em cima de um palco ou de uma passarela, mas não na vida real. Para mim, também isso é coisa de pedófilo.

Encerro este protesto com uma declaração que pode aborrecer alguns, mas enfim, este é o Arbítrio do Yúdice, não é? Então lá vai: Você, homem, é atleta? Pratica natação e precisa reduzir o atrito do corpo com a água? É lutador e precisa exibir músculos bem definidos? Precisa proteger-se em esportes que envolvem contato corporal e sabe que arrancar pelos pode doer muito?

Se você respondeu negativamente aos questionamentos (meramente exemplificativos) acima, não existe uma boa razão para você se depilar. Eu estou plenamente disposto a não respeitar um homem que resolveu se depilar para ceder ao Gillette way of life.

Qual é a próxima babaquice que vão inventar?

Saiba mais sobre o CONAR nesta postagem.

Professor emérito

Reitor do Cesupa receberá título de professor emérito na UFPA.

A Universidade Federal do Pará (UFPA) concederá o título de professor emérito do seu Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) ao reitor do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), doutor João Paulo do Valle Mendes. A cerimônia de premiação será presidida pelo reitor da UFPA, Carlos Maneschy, e ocorrerá nesta quinta-feira, 21, às 17h, no Centro de Eventos Benedito Nunes da UFPA.
João Paulo do Valle Mendes é médico graduado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, no ano de 1954; pós-graduado pelo Departamento de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em 1959; e especializado na área de Ginecologia pelo Hospital das Clínicas da USP. Em sua trajetória, foi presidente e vice-presidente, em vários mandatos, da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM); diretor do Centro de Ciências Biológicas da UFPA, de 1975 a 1980; e vice-reitor da UFPA, de 1981 a 1985.

Honra - O título de professor emérito irá compor, com destaque, a lista de mais de vinte premiações de honra recebidas pelo doutor João Paulo, fundador do Cesupa. Trata-se da maior Comenda Universitária conferida pela UFPA a professores já aposentados, que atingiram alto grau de projeção no exercício de sua atividade acadêmica. Para o homenageado, o seu desempenho destacado no ensino, na pesquisa, na extensão e na gestão universitária deve ter influenciado a concessão da honraria.
“Ao longo de minha extensa e profícua trajetória profissional, que segue até hoje sem interrupção, creio que alguns registros foram merecedores de destaque e significativo reconhecimento. Sempre procurei exercer as funções que me foram confiadas – públicas e privadas – com zelo e dedicação, realizações que, em seu conjunto, devem ter fundamentado a iniciativa da UFPA em conferir-me tão substantiva honraria”, avalia.

Contribuições - Dentre as contribuições de João Paulo do Valle Mendes para a construção da história da UFPA, destacam-se:  atuação decisiva para o reconhecimento de diversos cursos da UFPA;  implantação do Programa de Aperfeiçoamento Docente dos Profissionais da Saúde (PAPPS); promoção de parcerias com diversas universidades brasileiras para o desenvolvimento de programas de mestrado e doutorado; implantação dos novos laboratórios de Fisiologia, Farmacologia, Biologia Molecular, Bioquímica, Imunologia e Genética Familiar; equipagem e início do funcionamento do Biotério da UFPA; implantação do Laboratório de Oceanografia Biológica; implantação do Programa de Melhoria de Ensino de Ciências e Matemática, do qual resultou o Clube de Ciências da UFPA, hoje Instituto de Educação Matemática e Científica (Iemci); implantação do Núcleo de Tecnologia Mineral (Nutem).
Texto: Jéssica Souza – Assessoria de Comunicação da UFPA

Nosso reitor receberá esta grande honraria no dia de hoje, da Universidade Federal do Pará. Estarei presente, com minha esposa, também ela professora do CESUPA.

Mas não vamos porque professores da instituição, simplesmente. Vamos porque temos no Dr. João Paulo uma das maiores referências do que é ser um grande e bem sucedido profissional. Porque esse é um dos (raros, provavelmente) casos em que a homenagem é indiscutivelmente merecida e esta opinião é compartilhada por todos que conhecem o homenageado. 

Vamos também porque, nesses anos todos, não houve uma só ocasião em que ele não se dirigisse a nós com mais do que a sua educação muito acima da média: dirige-se a nós com o carinho de um avô e com o respeito de quem enxerga a todos como peças importantes no complexo tabuleiro de uma instituição de ensino. Vamos porque, oito anos atrás, ele compareceu ao nosso casamento no dia em que chegara de viagem e, mesmo cansado, foi-nos dar o seu abraço. Vamos porque, no mês passado, durante uma aula da saudade, ele me disse palavras que me tocaram profundamente.

Vamos porque nossas vidas estão relacionadas ao CESUPA por todos os lados, desde o fato de ter sido o local onde nos conhecemos, além de ser onde estudamos, trabalhamos, fizemos importantes amizades, construímos carreiras. E porque um grande comandante faz o barco navegar por bons caminhos.

Para o nosso reitor, minha homenagem vai na voz de Plácido Domingo, entoando a belíssima ária principal da ópera El Cid, de Jules Massenet (vídeo no YouTube):

Letra (vale a pena se interessar pela tradução):


Ah! tout est bien fini.
Mon beau rêve de gloire,
mes rêves de bonheur
s'envolent à jamais!
Tu m'as pris mon amour,
tu me prends la victoire,
Seigneur, je me soumets!

O souverain, o juge, o père,
toujours voilé, présent toujours,
je t'adorais au temps prospère,
et te bénis aux sombres jour.
Je vais où ta loi me réclame,
libre de tous regrets humains.
O souverain, o juge, o père,
ta seule image est dans mon âme
que je remets entre tes mains.

O firmament azur, lumière,
esprits d'en haut, penchés sur moi,
c'est le soldat que désespère,
mais le chrétien garde sa foi.
Tu peux venir, tu peux paraître,
aurore du jour éternel.
O souverain, o juge, o père!
Le serviteur d'un juste maître
répond sans crainte à ton appel,
O souverain, o juge, o père!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Passo a passo

Esta é uma fase de alegrias. Dia desses, nossos ex-alunos, eternos alunos, colaram grau. Foi um dia feliz, de muitos sorrisos, abraços, homenagens e anelos para o futuro.

Depois veio a festa de formatura (para alguns, ainda não, mas é questão de dias). O que dizer? É uma festa, é celebração. Muitos sorrisos, abraços, homenagens e anelos para o futuro.

E hoje, por fim, para boa parte deles, a cerimônia de juramento que os investe na condição de advogados. Vejo-os pelas fotos nas redes sociais. Estão exultantes, belos e conscientes de que a carreira agora começa para valer. A inserção no mercado não é fácil e, lamentavelmente, nem sempre é ditada pelo mérito. Mas quem tem mérito pode largar na frente e, em todo caso, encostar a cabeça no travesseiro à noite e dormir em paz.

Já faz um tempinho que vivi experiência semelhante, por isso sei como é. É a vida acontecendo, se realizando e abrindo possibilidades. É uma experiência maravilhosa. E como tenho feito sem parar já há algumas semanas, eu os abraço e lhes desejo um futuro que lhes permita ser tudo o que eles nasceram para ser.

Avaliação acadêmica

Todos os semestres letivos, a comunidade acadêmica é convocada a participar da auto-avaliação institucional. Mais do que uma exigência do Ministério da Educação, é uma importante ferramenta de autoconhecimento, que tem orientado mudanças concretas e permitido melhorias visíveis em nossas práticas e mesmo em nossos espaços acadêmicos.

No que tange à avaliação dos alunos a respeito dos professores, há um formulário com itens a serem avaliados em níveis de aprovação/desaprovação, que gera um resultado percentual. São os primeiros resultados que recebemos. Mas há, também, um campo para que o aluno escreva um texto livre. Essa parte é a mais contundente porque, embora o número de estudantes que lançam mão desse recurso seja mínimo (o que é uma pena), uma análise espontânea e posta em termos reais mexe muito mais com o nosso autojulgamento.

Recebi a minha avaliação referente ao semestre letivo passado há alguns dias. Hoje, minha esposa me mostrou a dela. Compartilhamos nossos documentos um com o outro, claramente satisfeitos com o que constava deles. Como havia uns elogios por lá, de modo algum tornarei pública a avaliação, porque acho muito pernóstico esse negócio de publicar algo só para disparar reações de homenagens nos eventuais leitores. Minha satisfação, e a de minha esposa, decorre do fato de sermos professores por escolha e por destinação natural, realmente apaixonados por essa carreira. Se há reconhecimento, portanto, a sensação é de júbilo.

Mas eu não tenho jeito. De todas as manifestações recebidas, a que ficou na minha cabeça foi uma que acendeu um sinal amarelo. Uma impressão curiosa, sobre a qual eu gostaria de saber mais, contudo isso não é possível, já que as manifestações são anônimas (muitos alunos não escrevem por temer que seus nomes serão revelados aos professores e isso, definitivamente, não acontece). Fico me perguntando o que exatamente levou o aluno a ter aquele sentimento e só posso concluir que compete a mim impedir que isso ocorra. É difícil, porém, estabelecer metas sem saber de onde a coisa vem. Mas recomenda maiores cuidados no modo de interagir com as turmas.

A auto-avaliação institucional é fundamental para toda a comunidade acadêmica. Ela realmente permite uma compreensão mais realista do que estamos fazendo e nos aponta os caminhos onde podemos melhorar. Onde todos podemos melhorar, inclusive os alunos, que são avaliados rotineiramente quanto aos conteúdos e habilidades. A partir daí, compete a cada qual decidir o que fazer com aquilo que se sabe.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

História e ciência

Com grande surpresa, porque realmente não tinha a menor ideia de que a pesquisa estava em andamento, soube hoje dos esforços que estão sendo empreendidos com os restos mortais de três membros da antiga família imperial brasileira, inclusive Dom Pedro I. A pesquisa reúne duas paixões minhas, indicadas no título desta postagem, e é inédita no país. Espero, sobretudo, que seja um divisor de águas e outras semelhantes sejam realizadas.

O rosto de dona Amélia, em detalhe de foto
do pesquisador Victor Hugo Mori
Dado o grande interesse histórico, é o principal assunto do dia. Encontrei, no site do Estadão, um especial muito interessante (clique aqui), dando detalhes dos procedimentos realizados e exibindo imagens instigantes. Já se fala até em criar, em futuro próximo, um holograma do imperador, bastante fidedigno, que poderia talvez saudar os visitantes do Museu Imperial.

Independentemente das aplicações sofisticadas, a pesquisa é valiosa em todos os sentidos. Eu, que já me encantei só por ver um chumaço dos cabelos da Princesa Isabel, no Museu do Ipiranga, fico empolgado de pensar que conheceremos o verdadeiro rosto dessas pessoas, que poderão ser feitas reproduções em tamanho real e que, por meio dos achados arqueológicos, poder-se-á compreender um pouco melhor o estilo de vida que a família imperial mantinha.

Enfim, a pesquisa está em andamento e é difícil, por enquanto, estimar os seus benefícios. Mas é o tipo de empreendimento que sem dúvida põe em polvorosa os estudiosos que podem realizá-lo. Imagine a alegria de profissionais e acadêmicos tendo acesso a esse material.

Parabéns ao Brasil por, finalmente, investir dinheiro no que presta. E, como disse antes, que essas iniciativas sejam renovadas, porque há muitos acontecimentos históricos que precisam ser revistos e que podem lançar melhores luzes sobre o que realmente é este país.

Em complemento:

  • http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,dez-verdades-sobre-a-familia-imperial-que-nao-estao-nos-livros-de-historia,998368,0.htm
  • http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,para-principe-estudo-desmente-versao-de-historiadores-malevolos-,998547,0.htm
  • http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,mumia-de-imperatriz-surpreende-pesquisadores,998381,0.htm
  • http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,oito-centimetros-impediram-sepultamento-de-pedro-i,8904,0.htm

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Twitterítica XXVIII


Fico impressionado como as pessoas querem ser politicamente ativas em sociedade por meio de ideias tolas!

A blogueira cubana


A blogueira e ativista política cubana Yoani Sánchez foi recebida com protesto por um grupo de cerca de 20 pessoas no aeroporto internacional de Recife, na madrugada desta segunda-feira.

Yoani desembarcou por volta da 0h30 no portão norte do aeroporto e foi seguida pelo grupo até o portão sul. No caminho, os manifestantes leram uma carta aberta na qual diziam que o blog dela é um meio de desinformação e que faz uma campanha anti-Cuba. Eles também jogaram dólares falsos na direção da blogueira.

O protesto não aborreceu a blogueira que disse que gostaria muito que em seu país as pessoas pudessem fazer o mesmo. "Foi um banho de democracia e pluralidade, estou muito feliz e queria que em meu país pudéssemos expressar opiniões e propostas diferentes com esta liberdade", disse.

No aeroporto, Yoani também foi recebida por Dado Galvão, diretor do documentário "Conexão Cuba Honduras", no qual é entrevistada, e cerca de dez pessoas, entre elas, o blogueiro cubano George Hernandez Fonseca, que vive no Pará.

A visita é a primeira de uma série viagens que começa pelo Brasil e a levará também a República Tcheca, Espanha, México, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Peru entre outros. Nos últimos cinco anos, Yoani havia recebido mais de 20 recusas para poder viajar ao exterior.

Para ler a reportagem completa, clique aqui.

Foto de Edmar Melo/EFE
É importante destacar que sou esquerdista, socialista e invocado. Mas preciso dizer que só mesmo esquerdistas invocados de outro gênero, que não o meu, para se dar ao trabalho de ir ao aeroporto, em plena madrugada, para protestar contra essa moça, entoando esse discurso de glorificação de Cuba. O discurso é velho, as técnicas são velhas e tão equivocadas que, provavelmente, seu maior efeito foi o de dar maior visibilidade a Sánchez, cuja carinha feliz bem demonstra o quanto ela saiu beneficiada, capaz inclusive de dizer as lindas palavras que disse.

Não quero fazer nenhum juízo de valor sobre o papel de Cuba ou do imperialismo americano no mundo. Isto pediria uma dissertação histórica e política que eu nem tenho cacife para realizar. Ouso afirmar, apenas, que essa tática não funciona mais há muito tempo e, provavelmente, apenas reforçará na classe média brasileira os estereótipos e preconceitos contra quem defende posições políticas de esquerda. Um tolo e desnecessário tiro no pé.

Acho importante Yoani Sánchez sair pelo mundo. Personagem altamente controversa, pelas paixões extremas que desperta a Questão Cuba, a possibilidade de vê-la e ouvi-la talvez seja a melhor forma de avaliar suas reais intenções. Deixem-na falar, pois!

***

Sabemos que há algo de muito errado no mundo quando uma pessoa chega ao Brasil e elogia a velocidade de nossa Internet...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mudanças a caminho

Durante quase uma década e meia, uma prima de Óbidos morou na casa de minha mãe. Como tantos outros paraenses do interior, veio à capital para estudar e tentar melhores opções do que sua cidade natal permitia. De tanto tempo que ficou, obviamente se tornou um capítulo importante em nossas vidas, porque esteve presente em tudo que aconteceu nesse período.

Agora, formada, mas à procura de uma ocupação, como tantos brasileiros, deparou-se com a possibilidade de se especializar em Manaus, onde mora um irmão. A decisão foi tomada no começo do ano, mas somente há poucos minutos foi comprada a passagem. Assim, a partida agora tem dia e hora, tornando-se concreta como antes não era.

Tornou-se necessário explicar para Júlia sobre a mudança e suas implicações, até porque agora é coisa de apenas duas semanas. Júlia é louca por ela e reagiu com um princípio de choro, logo controlado. Acho que a ficha ainda não caiu exatamente. Teremos que lidar com isso em breve. Teremos que lidar, sobretudo, com minha mãe e sua incapacidade hiperaguda de aceitar mudanças, sua convicção de que ninguém pode ir além de seu portão. Sentimentos desbragados de alguém que, já na casa dos 70, tem dificuldades particulares de enfrentar o que considera como perda.

Na verdade, a prima era a companhia mais constante de minha mãe que, com a mudança, passará a maior parte do dia sozinha em casa. E ela simplesmente odeia ficar só. Portanto, há outras questões a nos preocupar, algumas bastante práticas, mas acima de tudo as emocionais.

Esta, enfim, é a vida. A todo momento nos conclama a mudanças, a lançarmo-nos rumo ao desconhecido, em busca daquilo que anelamos para o nosso futuro. Só podemos desejar toda a sorte e sucesso a nossa prima. Que seus planos se realizem e ela seja muito feliz.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

As quadrilhas dos estacionamentos

Há pouco tempo, vi pelo Facebook algumas pessoas reclamando do Shopping Boulevard, que aumentou o preço do estacionamento, de 4 para 4,50 reais, ao mesmo tempo em que reduziu o tempo de permanência de 4 para 3 horas. Como manda o capitalismo, o dono do espaço mandou aumentar porque estava a fim e pronto, sem qualquer esclarecimento ao público porque, afinal de contas, empresários não devem satisfações aos seus clientes. Ninguém é obrigado a ir lá, então se foi, engula as condições. Não é assim?

Trata-se do shopping mais bem afamado da cidade, central, então as pessoas não deixarão de frequentá-lo. Não haverá a menor retração de procura. A única mudança, portanto, será o aumento da arrecadação. Talvez os proprietários queiram se ressarcir dos investimentos feitos com a expansão do empreendimento. Capitalismo é isso: o objetivo é que, aconteça o que acontecer, alguém pagará a conta para mim.

Mas o Boulevard não é o único local, em Belém, onde o cara do guichê de estacionamento anda puxando arma e anunciando assalto. Ontem, fui a um baile de formatura no Hangar, onde desde sempre o estacionamento cobra uma taxa única, até recentemente de 5 reais. Ontem, cobraram-me 10. Um reajuste de 100% sem qualquer justificativa conhecida. Talvez seja o repasse de aumento de salários, mas o acumulado do período não chegou a 100%. Além disso, não houve qualquer melhoramento no local e nem no serviço. Você continua procurando sozinho uma vaga (há funcionários direcionando os carros só na via principal) e pegando sol ou chuva, se for o caso.

De quebra, os cretinos colocaram correntes, cones e faixas limitando o acesso a um único ponto, restringindo a mobilidade de todos. Para quê?

O Hangar é um espaço público, administrado por uma organização social, e por isso mesmo deve satisfações à sociedade sobre os seus atos. Mas é claro que ninguém dará satisfação alguma e tudo ficará por isso mesmo. Afinal, somos brasileiros e, pior ainda, somos paraenses. Que mal há se todo mundo avança com cada vez maior voracidade sobre o nosso bolso, onde quer que estejamos?

Sabe aquela velha piadinha do cara que teve a carteira roubada e não fez nada porque o ladrão estava gastando menos do que a mulher dele, no cartão de crédito? Pois é. Dia chegará em que, para tudo o mais, o ladrão acabará sendo o menor dos prejuízos. Deus não permita.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Adeus a Ronald Dworkin

Estava em plena aula inaugural da segunda turma do mestrado em Direito do CESUPA, ontem à noite, quando tomei conhecimento do falecimento, em Londres, aos 81 anos, de Ronald Myles Dworkin, jusfilósofo estadunidense que exercia o magistério tanto em seu país de origem quanto na Inglaterra.

Cara de avozinho e vestes mal ajambradas,
como os clichês sobre professores
de filmes americanos
Nascido em 11 de dezembro de 1931 em Providence, Rhode Island, tornou-se um dos maiores teóricos do direito, deixando uma alentada bibliografia que se tornou referência no mundo todo — inclusive para os intelectuais de orelha de livro e para os que citam a citação da citação sobre o pensamento do autor. Para estes, dizer "segundo Dworkin" no meio de uma frase é um verdadeiro deleite, uma breve demonstração de erudição, principalmente se na sequência começar uma explanação sobre princípios. Surgiu até uma piadinha por causa dos que escrevem o nome errado  Dworking , como se fosse um verbo. Ficar dworkando não deixa de ser um bom sintoma desses recalques.

No semestre passado, no mestrado, tivemos a disciplina Pensamento jurídico contemporâneo, cuja proposta era estudar os grandes nomes do direito nos últimos 60 anos. Claro que Dworkin era um dos nomes da agenda. Aliás, já fora desde o processo seletivo.

Algo que nosso professor sempre destacava era o privilégio de estudar autores vivos e plenamente na ativa, podendo conhecer as respostas que eles mesmos davam aos seus críticos e o aprofundamento de suas teorias, graças a estes. Mas eis que, ontem, o produtivo Dworkin virou essa página. A notícia me causou uma sensação de estranheza, do tipo que sentimos ao saber do falecimento de alguém que um dia desses passou por nós e apertou a nossa mão.

Tenho apenas um conhecimento superficial sobre o pensamento dworkiniano, mas sei que ainda vamos nos esbarrar muito, pelo resto de minha vida acadêmica e profissional, pelo muito que ele legou à filosofia jurídica, num mundo em que se discute cada vez mais os modos de solucionar os casos difíceis, num mundo cada vez mais repleto deles.

Leia uma veemente homenagem a Dworkin, na perspectiva da promoção de direitos através dos movimentos sociais.

Doce colaboradora

Graças a Deus, temos uma filha adorável. Todos os dias, quando a acordamos para a escola, ela compreensivelmente vira para o lado e tenta ficar por ali, mas basta a nossa presença para que se espreguice, comece a conversar (aquela ali fala pelos cotovelos até durante o sono!), a sorrir e a brincar conosco. Em poucos minutos passa da letargia à atividade. Ajuda-nos a arrumá-la e logo está pronta. Quando o transporte escolar chega, sempre se apresenta risonha e bem humorada.

Em suma, se pudesse continuar a dormir, dormiria; se precisa ir à escola, vai sem problemas. Principalmente às sextas, que é o dia do brinquedo. Ao menos nesse aspecto, nossas manhãs começam sem aperreios. Se ela fosse dessas crianças que fazem um inferno para levantar, não sei que rumos teríamos tomado. Mas felizmente não é o caso.

Isso nos traz uma outra grande vantagem: construir a ideia de escola como um lugar onde se vai com prazer, o que certamente se entranhará em sua consciência e há de render frutos. Nesse particular, naturalmente há grandes méritos da escola, que conseguiu ser esse espaço feliz para nossa Júlia. Eu me despeço dela me lamentando por ficarmos tão pouco juntos no começo do dia, mas me reconforta saber que está em boas mãos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Começou?

Aqueles que insistem em apregoar que o ano só começa depois do carnaval acabaram de perder a sua desculpa. Já foi, já era, acabou. Agora é se escorar no rescaldo, porque esta semana tem apenas dois dias úteis, mas no máximo a partir da próxima segunda, 18 de fevereiro, só restará mesmo a dura realidade.

De minha parte, que não funciono sob esse código, acho legal uma semana ter apenas dois dias úteis. Mas não começar numa quinta. As quintas-feiras deste semestre letivo são terríveis para mim...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um sonho que jamais será realizado


Piano = português/ inglês, francês, espanhol = piano /italiano = piano ou pianoforte/alemão = Klavier. 

O piano é um instrumento de cordas percutidas por pequenos martelos cobertos com feltro acionados por um teclado, a parte mais visível do instrumento. O instrumento evoluiu durante muitos anos, a partir do clavicórdio, e uma das datas importantes é 1702, com a invenção na Itália, por Bartolomeu Cristofori, do "clavicembalo con il piano e il forte", que foi chamado algum tempo de 'fortepiano', depois de pianoforte e simplificado para piano. 

O piano pode ser encontrado com as cordas dispostas de duas formas básicas: horizontal ou vertical. Com as cordas horizontais temos um piano "de cauda", mais encontrado em salas de concerto; com as cordas verticais encontramos o piano "de armário", mais prático para as residências. O número de notas é o mesmo, mas a sonoridade do "piano de cauda" é mais consistente e potente. Os pianos de cauda variam de tamanho, podendo ser encontrados de "cauda inteira" (tendo entre 2,10 - 2,80 m. de comprimento), de 3/4 (três quartos de cauda), meia-cauda (entre 1,40 e 1,50 m.) e até 1/4 (um quarto) de cauda. 

São geralmente afinados com a nota Lá3 tendo 440 Hz. (vibrações por segundo) e a partir desta são afinadas as outras notas de forma temperada (entre uma oitava e outra divisão de 12 notas com diferença de altura de som de 1/2 tom entre cada uma delas). Possui pelo menos 2 pedais que podem prolongar a duração dos sons ou abafá-los. 

Pelas possibilidades técnicas e força dinâmica do instrumento, sua difusão foi rápida e o repertório para ele escrito também. O instrumento possibilitou também o aparecimento mais vigoroso do artista individual, o solista. Todos os grandes compositores ocidentais dedicaram obras que firmaram o instrumento no campo musical. Haydn (1732-1809) e Mozart (1756-91) viveram numa época de transição entre o antigo clavicordio e o piano mas tem obras importantes executadas no instrumento. Múzio Clementi ( (1752-1832) ajudou na fixação do tipo de obra apropriada ao instrumento assim como Karl Czérny (1791-1857). Beethoven (1770-1827) elevou seu uso quase ao máximo, tornando-o "orquestral". 

Seguem-se Schubert, Mendelsohn, Schuman e o que chegou a perfeição entre obra, recursos e instrumentista, Frédéric Chopin (1810-49). Contemporâneo a ele e consagrado como o maior pianista de todos os tempos temos Franz Liszt (1811-86). Outros nomes destacados são Brahms, Grieg, Albeniz, Ravel, Debussy, Scriabin, Prokofief e Rachmaninof e Bela Bartok. 

No século XX o instrumento tornou-se mais acessível e músicos populares se destacaram compondo e executando, principalmente nos Estados Unidos, com destaque para Scott Joplin (autor de 'ragtimes'), George Gershwin, e artistas de jazz como Oscar Peterson, Duke Ellington, Bill Evans e Chick Korea. No Brasil destacam-se na música erudita Alexandre Levy, Henrique Osvald, Villa-Lobos e Souza Lima ; na música popular Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré, Cesar Camargo Mariano e Wagner Tiso.

Fonte: http://www.music.art.br/almanac/alminstr/piano.htm

Sempre tive a impressão de que eu seria uma pessoa diferente se soubesse música. Obviamente, não sei em quê, mas deve haver alguma diferença quando se alcança algo que sempre pareceu importante. Dentre as inúmeras opções, e embora eu prefira o violino, o piano tem um encanto especial. Certa vez, disseram-me que é por ser um instrumento mais completo, mais versátil do que os outros. Imagino que seja, mas independentemente de qualquer coisa, há um charme único em se sentar em frente ao elegantíssimo engenho e arrancar dele notas vivas.

Como sempre me inclino ao que há de mais caro, não me impressiono com os pianos de armário. Gosto mesmo dos de cauda (e não calda, pelo amor de Deus!). Tempo desses até dei uma de engraçadinho e pedi preços a uma empresa. Posso lhes dizer que os preços começavam na casa dos 60 mil reais. Sem dúvida vale, mas enfim...

Antes que os amigos, gentis como sempre, venham me dizer que sempre é tempo, que quando queremos muito uma coisa podemos tê-la, etc., sei que ainda posso aprender piano, muito embora eu não tenha conseguido dedilhar sequer o violão que comprei há tantos anos. Posso aprender, mas não tenho hoje condições de me dedicar a esse estudo. E se o fizesse, ainda assim o tal sonho a que alude o título da postagem não seria realizado, pela singela razão de que o tempo não pode voltar atrás.

Gostaria, ao menos, que os concertos voltassem a esta cidade. Já seria um alento poder assistir a eles.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Confiar

Várias foram as recomendações para que eu visse o filme Confiar (Trust, dir. David Schwimmer, 2010), inclusive de publicações jurídicas. O tema não poderia ser mais atual: uma adolescente de 14 anos é cooptada por um sujeito de mais ou menos 35 em salas de bate papo. Ele se faz passar por um garoto de 16, depois vai aumentando a idade e administrando a surpresa da menina, até que ocorre o encontro e, nele, o ato sexual.

Você já começa o filme sabendo que vai se sentir mal ao longo da exibição, mas há elementos nele que tornam a sensação pior. Logo de cara, o que se vê é uma família de classe média muito bem ajustada, com pais presentes na vida de seus filhos e estes, por sua vez, bem educados. Em vez do tradicional perfil de jovens aborrecentes e perenemente envergonhados dos pais, eles são carinhosos e receptivos. Annie, a protagonista, faz toda a família saber de seus contatos com o tal de Charlie e mostra para a mãe o sutiã audacioso que comprou por influência de uma patricinha da escola.

Ou seja, não faltou educação familiar, apoio, amizade. Os Cameron vivem brincando uns com os outros e se nota que são felizes como família. Nada disso, porém, impede o que está por vir. A sensação que isso provoca não é nada confortável.

Aí vem Charlie, na verdade um professor de Física, casado, como se descobre depois. Obviamente um manipulador nato, ele leva apenas dois meses para enredar Annie em sua teia. Consegue vencer em questão de minutos o susto da garota ao descobrir que ele tem 20 anos e depois 25, ao mesmo tempo que insiste em jogos sexuais por telefone. Quando se encontram e ela vê que um homem bem mais velho, recorre habilmente ao discurso de pensei que você fosse mais madura para perceber que, quando duas pessoas estão conectadas como nós, essa coisa de idade simplesmente não importa. E aí touché!

Acredito que a notoriedade do filme foi estimulada pelo modo didático como aborda a técnica de sedução do pedófilo, os cuidados que esses vagabundos tomam para apagar seus rastros e como as autoridades investigam. Didático, porém sem chatice. A trama é contada com um apelo humano muito mais destacado e sincero. Reflexo, certamente, do fato de que o diretor está ligado à Rape Foundation, instituição que apoia vítimas de abuso sexual, notadamente adolescentes e estudantes. Isso pode explicar o tom de check list que a narrativa acaba tendo.

O FBI (que investiga o caso por se tratar de um suspeito com atuação interestadual) informa que Annie é pelo menos a quarta vítima do falso Charlie. Enquanto as autoridades agem, com o apoio dos pais, a família começa a desmoronar, porque a menina não compreende que foi estuprada: ela acredita que o homem a ama de verdade e acha que os pais estão afastando o casal. Este é outro aspecto importante, porque os muito moralistas e muito burros negarão ter havido estupro, afinal a garota foi com as próprias pernas para um quarto de motel, teve a oportunidade mas não gritou, não pediu socorro e, uma vez liberada, nada fez. Há uma cena no filme que destaca isso.

A certa altura, em uma cena angustiante, Annie finalmente entende que foi estuprada. Sua angústia, contudo, está só começando. Afinal, algum colega de escola aproveita para publicar uma montagem na qual ela apareceria transando. Eu e Polyana, embora sem surpresa, ficamos impressionados com a capacidade humana de fazer o mal e tomar isso como uma simples brincadeira. E lamento dizer, mas os jovens são campeões disso. Não consigo compreender e muito menos tolerar. Alguém que faz isso deveria ser exemplarmente punido.

Daqui não devo passar, a menos que contasse o desfecho que a estória tem, o que não deve ser feito. Confiar é um filme para ser visto por pais e, principalmente, pelos jovens, hoje permanentemente pendurados em gadgets como se disso dependessem as próprias vidas. Absurdo, mas real e provavelmente irreversível.

Numa rápida pesquisa pela internet, achei umas críticas negativas. São críticas de cinema. Ignore esses pseudointelectuais e se concentre nos fatos e em sua importância social. É um filme que vale a pena ver.