sábado, 27 de março de 2021

Hipóteses místicas

Eu não sou místico. A esta altura, já não sou sequer religioso. Acreditar em horóscopo, para mim, é o mesmo que acreditar em Terra plana. Simpatia só vale a pena quando envolve comer alguma coisa saborosa. Diante disso, não tenho a inclinação de pensar que os acontecimentos da vida são mensagens que Deus, ou os deuses, ou o universo, ou Gaia, ou sei lá que outro elemento transcendental está mandando. Obviamente, isto não se aplica à causalidade, que pode ser cientificamente demonstrada. As mudanças climáticas estão aí para nos mostrar as consequências das devastações que a espécie humana insiste em perpetrar,

Mesmo ante esta premissa, vendo há pouco um vídeo na internet, não reprimi umas especulações sobrenaturais. Afinal, no creo en las brujas, pero...

A primeira questão diz respeito a um dos efeitos da pandemia de coronavírus sobre o mundo do trabalho: caiu bastante a produção de semicondutores (chips) utilizados na indústria automobilística. Por conta disso, muitas fábricas, inclusive no Brasil, estão parando suas linhas de montagem por ausência desses insumos, hoje indispensáveis, eis que os veículos automotores estão cada vez mais dependentes desse tipo de tecnologia. Daí quando se pensa em esforços para, talvez, aumentar a produção e suprir a demanda reprimida, a fábrica Renesas Eletronics, no Japão, é completamente destruída por um incêndio.


A fábrica em questão responde por 30% do mercado global de chips de unidade de microcontrolador, um componente que monitora o desempenho do motor e interfere sobre funções elétricas e os sensores dos veículos. Ou seja, ele é simplesmente vital. De acordo com a Renesas, a expectativa positiva é que demore um mês para eles retomarem a produção (esses japoneses!). Mas um mês é tempo demais, no cenário que já estava ruim.

A segunda questão tem a ver os preços dos combustíveis no Brasil, em disparada desde o começo de 2021. À medida que a situação vai extrapolando o limite do insuportável, chega a notícia da redução do preço dos combustíveis, nas refinarias, em cerca de 11 centavos de real. Já não adianta comemorar porque, quando o preço aumenta na refinaria, aumenta no posto; mas quando cai na refinaria, não necessariamente cai no posto. Mas se você é otimista e pensou em comemorar sua economia de R$ 5,50 em um tanque de 50 litros, pode esquecer. Um imenso navio chamado Ever Given fez o favor de encalhar em pleno Canal de Suez, por onde passam 9,5 bilhões de dólares todos os dias. Sim, são esses os números.


Tendo bloqueado completamente o canal, pode provocar, segundo especialistas, graves consequências para a economia global se não for logo retirado. É isso mesmo: vai ajudar a ferrar ainda mais a economia em todo o planeta. E, como não poderia deixar de ser, impactar... o preço dos combustíveis aqui no Brasil.

E é assim que, pelo fato de os dois sinistros terem consequências diretas sobre o setor automobilístico, nesta manhã me ocorreu esse estranho e incomum pensamento místico: é como se o universo estivesse mandando um recado para todos nós. Lembrando que carros são um dos mais badalados itens de consumo, estão relacionados a uma indústria bilionária, comparecem nos sonhos de crianças e adultos, são símbolos de ostentação e impactam gravemente o meio ambiente e a mobilidade nas cidades, dentre outros fatores, é como se alguém dissesse: já que a pandemia "só" não bastou, vamos dar mais algumas dicas do tipo de vida que não consideramos sustentável.

É um pensamento maluco? Decerto. Acredito nisso? Não. Mas, como disse antes, não pude reprimir essa esquisita especulação, porque, afinal de contas, não acredito no acaso. Nem em bruxas. Pero.

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Fontes: 

https://autopapo.uol.com.br/curta/producao-de-carros-afetada-incendio/

https://tecnoblog.net/423602/fabrica-de-chips-pega-fogo-e-pode-afetar-producao-global-de-carros/

https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/26/meganavio-encalhado-no-canal-de-suez-entenda-as-consequencias-para-a-economia.ghtml

terça-feira, 23 de março de 2021

Lockdown de verdade

Enquanto, por estas bandas, pessoas seriamente preocupadas com o sustento próprio e familiar precisam ir às ruas lutar pela sobrevivência; pessoas permanecem nas ruas porque ali já estavam, mesmo; muitos trabalhadores se expõem diariamente porque não lhes deram alternativa; e uma raça especial de felasdiputa de classe média reclama de não poder socializar por aí ou malhar a bundinha nas academias e vivem na internet bradando contra a violação de seus direitos fundamentais, em outros países do mundo as populações foram submetidas a restrições de locomoção realmente pesadas. Não esse lockdown de meia pataca praticado aqui, ainda por cima quase sem fiscalização.

Nesta reportagem aqui, é possível ver como outros países lidaram com a pandemia do novo coronavírus. Entre eles não há nenhuma nação considerada ditadura. Todos são países proclamados democráticos e a maioria países centrais, idolatrados pelo viralatismo tupiniquim. Multas severas, fechamento generalizado de serviços, limitação de saída a apenas 1 hora por dia e com limitação territorial, mesmo para fins relevantes (como ir ao médico), há várias providências impensáveis para os brasileiros. Com o detalhe de que, por lá, as restrições já duram meses.

Uma coisa me chamou a atenção: a proibição de ir mais longe do que um raio de 10 quilômetros. Compreendo a lógica. Se houver um doente nesse setor, a possibilidade de contágio de terceiros fica limitada no espaço, não apenas prevenindo maior disseminação do vírus, mas também ajudando a identificar a região onde o vírus circula. Se as pessoas podem transitar por qualquer lugar, como saber onde os esforços sanitários devem ser incrementados?

Enfim, eu tinha curiosidade de saber como países que possuem governantes de verdade estão enfrentando a situação. Com sofrimento, com perdas, mas com bom senso e humanidade. Um detalhe: os países desenvolvidos concederam auxílio financeiro aos cidadãos retidos em casa. Então você, cidadão verde-e-amarelo, que "luta" tanto pela liberdade e pela economia do Brasil, com suas mensagens de WhatsApp, pensa o que disso? Está todo mundo errado, né? Certo, mesmo, só o presidente do Brasil, o infalível. Deve ser por isso que ele é um mito.

terça-feira, 16 de março de 2021

Vamos debater racismo que encarcera?

O Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) foi fundado em 1992 para realizar estudos aprofundados, claro, em ciências criminais, tanto as jurídico-dogmáticas quanto as sociais. Em seus 29 anos de existência, construiu uma reputação respeitadíssima, pela qualidade dos juristas de todo o país envolvidos, dos eventos realizados, das publicações que oferecem à comunidade. Sua preocupação com o Estado democrático de Direito e com a defesa das humanidades é absoluta.

Dentre as suas muitas iniciativas estão os grupos de estudos avançados, organizados em cada Estado. Aqui no Pará o GEA tem por coordenadora a Profa. Dra. Luanna Tomaz de Souza, da Universidade Federal do Pará. São coordenadores adjuntos, além deste que vos escreve, os colegas Alexandre Julião, Antonio Fernandes, Emy Mafra, Laís Maia, Lucas Morgado, Rafael Fecury e Samara Siqueira.

Este ano, o tema do estudo não podia ser mais oportuno: Sistema penal e racismo no Brasil. As inscrições estão abertas, conforme as instruções abaixo.


Estão abertas as inscrições para o grupo de estudos avançados do IBCCrim no Pará. Com o tema “Sistema penal e racismo no Brasil”, o GEA é voltado para graduandos(as) e graduados(as) do Direito e demais áreas das ciências humanas.

Os encontros ocorrerão on-line e terão duração de 9 meses.  As vagas são limitadas!

Informações em: https://www.ibccrim.org.br/cursos-e-eventos/exibir/gea-para-pa-sistema-penal-e-racismo-no-brasil

Se você está cursando ou já possui graduação em Direito ou em áreas afins, venha enriquecer a sua formação pessoal e o seu currículo com essa experiência.

sábado, 13 de março de 2021

Segundo lockdown

Há pouco mais de duas horas, saí de casa para comprar pão. Um trajeto pequeno, de cerca de 200 metros. Mesmo assim, precisei me aborrecer com a obstrução de uma calçada pelos frequentadores de um point descolado que inaugurou recentemente. Coisas de Belém: as calçadas são extensão do comércio de um fulano qualquer e todo mundo acha isso perfeitamente natural e desejável. Quem reclama é que está errado. 

Eu poderia passar, mas de modo algum me sujeitaria a chegar tão perto daquele aglomerado de pilantras sem máscara, que não podem abrir mão da cerveja com pagodinho por nada nesse mundo. Em consequência, caminhei pela pista, mesmo, exposto ao trânsito de veículos. Esta é a sina do belenense.

Pela incapacidade do brasileiro, e aqui falando do belenense, em mostrar algum senso de responsabilidade em meio a uma pandemia, estamos do jeito que estamos: acima de duas mil mortes diárias, colapso nos sistemas de saúde em diversos Estados, mais e mais sofrimento. Chegamos, assim, ao resultado óbvio de tanta incúria: o governador do Estado anunciou um novo lockdown em Belém e Região Metropolitana, a partir da meia-noite de amanhã. Postergaram tudo que puderam, mas finalmente aconteceu o inevitável, impelido pela ocupação de 100% dos leitos de UTI.

Ainda não consegui encontrar a informação de quanto tempo a medida perdurará. O lockdown de maio demorou duas semanas. Ainda me recordo bem do desconforto de trafegar por uma cidade militarizada, e ser parado, claro. Eu havia ido fazer compras no supermercado. Fui liberado pelo justo motivo da saída, mas a abordagem em si é extremamente desagradável para mim. Uma cidade sitiada me causa aflição.

Fazer o quê? Vivo em uma sociedade e pago pelas minhas ações tanto quanto pelas dos outros. E com o material humano que temos, é possível que essa restrição de liberdade não seja a última. Nem a penúltima. Nem...

O falso é mais realista

Embora o resultado tenha sido publicado em 22 de fevereiro último, somente ontem, 19 dias depois, a Universidade Federal do Pará, por sua Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, formalizou e divulgou a inclusão dos novos acadêmicos em nível de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Direito. Sou, oficialmente e mais uma vez, calouro daquela instituição.

O que sou, também: um grande privilegiado. Tenho o privilégio de integrar um grupo de apenas 19 pessoas, que foram habilitadas a galgar o último estágio da formação acadêmica e, ainda por cima, em uma universidade pública, onde estão os melhores índices de qualidade e as maiores oportunidades de realizar pesquisa de verdade. Mas como cheguei a isso? Sozinho? Esforçando-me muito, individualmente? Acreditando com toda a força do meu coração? Lógico que não. Na vida real, não há espaço para as tolices de coaches, os romantismos a la Disney e, em especial, para a mentirosa e nefanda ideologia da meritocracia.

Sou privilegiado por dispor de uma fonte de renda que me permitiu concentrar os meus esforços no processo seletivo, que teve como maior exigência a elaboração de um projeto de pesquisa que, no meu caso, alcançou a nota 9,7 (no intervalo de 0 a 10). Para elaborá-lo, apliquei uma década de estudos em criminologia (privilégio), consultei um monte de livros que já possuo (privilégio), comprei livros em caráter emergencial (privilégio), usei equipamentos e outros recursos de boa qualidade, que tenho diuturnamente à disposição (privilégio), e em especial debati minhas ideias e fui orientado por pessoas de alta qualificação, inclusive no que tange à metodologia (privilégio de fazer parte do círculo dessas pessoas e de dispor do tempo delas).

Acha que acabou? Sou privilegiado por morar em uma casa própria, em região não sujeita a riscos significativos (por aqui não há sequer os alagamentos generalizados de Belém), dispor de carros para resolver tarefas que exigem deslocamento (como comprar remédios às duas horas da madrugada, há poucos dias), ter comidinha boa e nova todos os dias, que não preparo pessoalmente, além de outras comodidades domésticas. Acima de tudo, ter uma família que apoiou abertamente o meu projeto de vida e me favoreceu tempo e condições para me dedicar a ele.

Estes são os privilégios mais evidentes. Procurando, decerto eu encontraria vários outros. E, com certeza absoluta, meus 18 colegas estão em situação semelhante. A turma do mestrado também. Sim, também há os que precisam da bolsa, mas essa já é uma necessidade altamente privilegiada. Ou você acha que necessitar de bolsa para cursar pós-graduação está no mesmo nível das necessidades prementes e diárias de uma legião de brasileiros crescentemente empobrecidos (sem nenhum demérito, claro)?

Em suma, não existe o mérito dos meritocratas. Há, no máximo, merecimento em um sentido metafísico, se você for daqueles que acreditam em certas religiosidades. E tudo isso para levar adiante um projeto que não é exatamente uma unanimidade. Afinal, para que serve, realmente, um doutorado? Sei o que eu espero dele, em particular. Mas o que será que esperam as demais pessoas que trilham essa senda? E o que elas encontram?

Segundo reportagem de maio de 2019, baseada em dados oficiais, o Brasil possuía 7,6 doutores para cada 100 mil habitantes e precisava dobrar esse número para chegar ao nível mais baixo dentre os países desenvolvidos. Trata-se do Japão, no qual havia quase 13 doutores para cada 100 mil habitantes (mas no Japão não há necessidade de escolarização como estratégia de sobrevivência). A Itália era o país com o pior cenário na Europa, mas mesmo assim eram 17,5 doutores por 100 mil habitantes. E se você compreende a importância da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento de um país, fica fácil concluir porque o índice de doutores é relevante.

Em setembro de 2019, outra reportagem informa o lançamento de um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontando que, entre 35 países com dados disponíveis sobre o tema, o Brasil estava entre as três nações com menor número de doutores no mundo: uma proporção de 0,2% de sua população, contra 1,1% dos países integrantes da OCDE. O dado positivo foi o aumento do número de docentes com mestrado ou doutorado, conforme dados de janeiro último, divulgados pelo Instituto Nacionais de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Mas antes de comemorar qualquer coisa, saiba que, no Brasil, em março de 2019, o desemprego entre mestres e doutores chegava a 25%, contra 2% em nível mundial. Além da indignidade contraintuitiva que isso representa ― pois somos levados a supor, ingenuamente, que a maior qualificação importa acesso a melhores condições no mercado ―, essa conjuntura leva à evasão desse grupo especializado para outros países, quando conseguem, além de que se perde a oportunidade de viabilizar pesquisas que busquem soluções para muitos problemas da realidade brasileira. Uma universidade dos Estados Unidos não há de priorizar as necessidades do semiárido brasileiro, p. ex. É triste ver que quando reportagens, com um tom frequentemente ufanista, celebram um brasileiro participando ou até comandando uma pesquisa ultraimportante, na maioria dos casos tal pesquisa está sendo realizada em outro país.

O prognóstico não é de melhora. Desde 2016, o orçamento federal para a educação tem despencado, confirmando o que os setores progressistas da sociedade sempre repetem: isso é um projeto. Os decisores têm envidado esforços para que os brasileiros tenham cada vez menos acesso a educação, notadamente de qualidade. Mas se estamos todos de acordo ― inclusive aquele gênio do WhatsApp, que adora dizer que os pobres não quiseram estudar ou não se esforçaram o suficiente para isso ―, que a educação desenvolve pessoas e países, qual pode ser, então, o resultado esperado dos investimentos e das escolhas aqui na outrora República das Bananas, hoje República das Milícias?

Ao fim e ao cabo, como se costuma dizer, somos um país de autoproclamados doutores. Basta uma graduação ―ou às vezes nem isso, bastando algum sinal de riqueza material , e o sujeito já vira doutor. É chamado assim pela imensa legião de trabalhadores em postos subalternos e em especial pelos excluídos do mundo do emprego, os quais reproduzem, a cada vez que doutorificam um espertalhão sem essa qualificação, um ciclo de distinção entre indivíduos menos distintos do que se reconhecem. Renovam a massagem no ego de uma classe média que se entende e percebe como aristocracia e quer ser tratada com mesuras e floreios. Não à toa, muitos deles se ofendem de verdade se o título não lhes é dado. Sem olvidar, claro, os casos clássicos e patológicos dos profissionais de Medicina e Direito.

Do jeito que as coisas vão, ser um desses doutores de coisa nenhuma tem dado mais certo do que dedicar muitos anos de sacrifícios pela titulação acadêmica. Resulta daí que um protesto como este visa repor um pouco as coisas aos lugares que elas deveriam ter e isso significa, inclusive, não glorificar doutor nenhum. Ele é só mais um sujeito que estudou e, talvez, esteja fazendo umas coisas bacanas e úteis de sua vida. Não é isso que o inscreve entre os bons seres humanos. Caráter e empatia deveriam ser os requisitos.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Bora voar?

Ao tomar conhecimento, hoje, de que o governo federal autorizou o sexto aumento no preço dos combustíveis de 2021 (isto significa 67 dias), um acumulado superior a 50%, não consegui reprimir uma ironia amarga: guardadas as devidas proporções, vale mais a pena ter um avião do que um automóvel.

Procurei aqui pelo Google e encontrei umas matérias de 2018, informando que o querosene de aviação havia atingido o maior preço histórico no Brasil: em média R$ 3,30, com impostos. Parece que o preço, em fevereiro último, era de US$ 1,60, que importaria hoje em R$ 9,40, no câmbio de 1 dólar igual a 5,88 reais.

Some-se a isso que dá para conseguir uma ajudinha do BNDES para adquirir a aeronave e que não existe imposto sobre a propriedade desse tipo de bem de altíssimo valor, então quem tem bala na agulha para comprar um avião gasta menos com ele do que um mero mortal com o seu carrinho. Sim, eu sei que há muitas variáveis a ponderar. Esta postagem tem viés de crítica, não de estudo econômico. Economistas e puristas, deem um tempo. Só estou lamentando os absurdos da vida.

O maravilhoso Embraer Praetor 600. Quero.

É que sou apaixonado por aviação e, ainda por cima, para aguentar a vida no Brasil de hoje, só mesmo fazendo um esforço de mandar o pensamento para as alturas. Aterrissar é que tem sido exaustivo.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Pessoas que precisam ser conhecidas #3

Parte de minha mente se recusa a acreditar que pessoas que tiveram a oportunidade de frequentar escolas desconheçam o cientista de múltiplas áreas Carl Sagan, inclusive por ter sido (que eu saiba) o primeiro e ainda hoje o mais famoso divulgador de ciência em mídias de massa. Mas, em tempos de embrutecimento (quis ser elegante e por isso não escrevi "emburrecimento"), pode-se esperar o pior.

Eu era muito criança para me concentrar nos episódios da famosa série Cosmos, exibida na década de 1980, a que meu irmão Hudson assistia com vivo interesse. Mas eu me recordo de uma cena em que o apresentador viajava pelo universo, ao som do maravilhoso tema composto pelo músico grego Vangelis, que ainda hoje me emociona. Ali eu aprendi que havia um Carl Sagan no mundo e que ele era muito importante.

O tempo passou e aprendi um pouco mais sobre ele. Vi o filme Contato (1997) e depois li o livro que o inspirou. Excelentes. Comprei outros títulos do autor, que ainda preciso ler. E confesso que não sabia tudo o que Sagan foi: sua história, seu amor pela educação e seu ativismo social. O vídeo abaixo me surpreendeu com essas nuanças e me fez respeitar muito mais esse grande ser humano.


Nossos agradecimentos, Sagan.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Um dia para os humilhados serem exaltados

Não se trata de meme de internet, tampouco de piada. Apesar da aparência lúdica, o título da postagem tem a sua razão de ser.

No dia de hoje, foi divulgado o resultado do processo seletivo do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará. É imensa a minha alegria em comentar que fui aprovado para o doutorado, um antigo projeto de vida que, por inúmeras razões, somente será implementado agora. Sem mágoas, eu mesmo acredito que é agora que tenho condições de fazê-lo. Talvez seja verdade que as coisas vêm no tempo certo.

Hoje é dia de comemoração e, a partir de amanhã, de trabalho. Os próximos anos serão muito exigentes, mas tudo faz parte do jogo. Estamos todos cientes disso. Não penso em sacrifícios, mas em todo o aprendizado que este processo traz. Penso na autorrealização, nas oportunidades que hão de surgir, em sair da rotina, da caixinha e do passado. Tudo isso é por mim e por minhas garotas.

Meus agradecimentos por todo o apoio recebido de muitas fontes, desde novembro, quando começou a movimentação em torno desta seleção. 

Recomeçamos daqui. Que venha o futuro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Fim de carnaval (?)

Depois de, no ano passado, ser anunciado que o São João seria em casa, o que implica dizer que comidinhas maravilhosas só se você mesmo as cozinhasse, e que haveria clima festivo somente se você se dispusesse a isso, o recado estava dado: enquanto perdurasse a pandemia de SARS-CoV-2, nada de folguedos populares.

É certo que, em junho passado, já havíamos enfrentado uma vez o terror do colapso do sistema de saúde e alguns imaginavam, com otimismo habitual ou com leviana esperança, que as coisas entrariam nos eixos nos meses subsequentes. Ledo engano, claro. Exceto em lugares específicos, como Nova Zelândia, Cuba e até mesmo na China, que colocaram a pandemia mais ou menos sob controle, o mundo segue aterrorizado, com as pujantes economias europeias vivendo em lockdown, com previsão de continuidade até março.

Um enorme alívio surgiu com o advento das vacinas, mas as coisas não andam fáceis mesmo assim. E por aqui, na República Miliciana do Brasil, tudo vai às avessas. No mundo, leve tendência de queda na curva de contágio; no Brasil, tendência de alta ou, no mínimo, de estabilidade dos números, que têm mantido média superior a mil mortes diárias. No mundo, vacinação intensa; no Brasil, vacinação sendo interrompida, por falta de vacinas, e uma sucessão de notícias sobre irregularidades. No mundo, governos com discursos de união e medidas de proteção, ao menos, dos próprios cidadãos; no Brasil, o permanente discurso de ódio, desprezo e negação da ciência, além de reiteradas medidas para destruir o país.

Não surpreende que a grande festa do povo, o carnaval, tenha sido cancelada. Aliás, adiada para junho. Rendeu até uma piada inteligente: se o ano só começa depois do carnaval, então estaremos em 2020 até junho?! Chiste ainda na pegada de que 2020 foi o pior ano já vivido. Pode até ter sido, mas isso não fornece garantia alguma de que 2021 não será ainda pior.

Em suma, não houve os desfiles, praias e outros pontos turísticos foram fechados e a polícia andou embaçando festinhas domésticas clandestinas. De habitual, por estas bandas, só o clima chuvoso desta época. Ontem, por sinal, um dia inteiro de chuva fraca (que eu espero não haver causado muitos transtornos aos moradores de baixadas) e uma temperatura simplesmente deliciosa, que eu queria para a minha vida inteira. Mas hoje, quarta-feira de cinzas, carnaval acabando, o dia está algo nublado, mas o sol já deu as caras e o ar abafado, também. Se festa houve, parece que está mesmo no fim.

De novo e como sempre, realidade voltando.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Achei que devia dizê-lo

O dia de hoje foi marcado pela celeuma em torno de uma manifestação em rede social (sempre elas!), emitida por um gerente do Grupo Líder, manifestando um absurdo desprezo por professores. À boca miúda se diz que é um dos adoradores do excrementíssimo presidente da República e, nessa toada, não se furta de destilar ódio e contrariar qualquer realidade. Para ele, professores não trabalham há mais de um ano. Logo, em perfeita demonstração da lógica bolsonarista, sugeriu que fossem retirados recursos da educação para custear o novo auxílio emergencial.

São tantos os erros (para dizer o mínimo) na manifestação que nem sei por onde começaria a explicar. Tampouco tenho forças para isso. Mas vendo o barulho na grande rede, decidi que deveria fazer alguma coisa. Então acessei o site do Grupo Líder e mandei a seguinte mensagem:

Deplorável a manifestação do sr. Orimar Rodrigues (que, por sinal, já disse que mantém tudo) e deplorável o escapismo da empresa, limitando-se a dizer que o indivíduo não fala pela empresa. As pessoas não são tolas: sabem que o ofensor é da família; fosse apenas um empregado, o tratamento seria outro. Em tempos de ódio, não se posicionar é SE POSICIONAR A FAVOR DO QUE FOI CRITICADO. O mundo está mudando, a duras penas. Empresas que não assumirem posição em prol de valores serão tragadas. A balela da isenção não vai ajudar. E o negacionismo muito menos. Respeitem os profissionais da educação.

Nada de rede social: mandei a mensagem para o empregador (para a família, né?). Sem barulho nem sensacionalismo. E me identifiquei com nome, telefone e e-mail. Não escondo a cara, como os canalhas. Disse o que achei necessário dizer, no lídimo exercício da minha liberdade de expressão. Critiquei as atitudes e não a pessoa, física ou jurídica. Meu posicionamento até pode ser considerado como um conselho, um toque do bem para a empresa. Infelizmente, parece que brasileiros ainda são muito primitivos para isso, mas uma hora as pessoas, de um modo geral, começarão a repudiar empresas sem responsabilidade social. O processo já começou. Não me refiro a esse boicotismo internético, pouco mais do que uma modinha de cancelamento. Falo de ser ético na vida e de se relacionar apenas com quem for ético também.

Quando as pessoas finalmente assimilarem essa filosofia de vida, as empresas verão que não dá mais para calar.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Uma tarde e tanto

Agora que encontrei um tempo para comentar sobre a experiência inédita que vivi nesta sexta-feira, dia 12. Pela primeira vez tentando ingressar em um programa de doutorado, cheguei à fase final, a entrevista, realizada de modo remoto com quatro outros candidatos. Na imagem abaixo, uma captura de tela, mostrando um momento da atividade, que durou três horas e meia.


Sim, eu sou aquele pontinho no canto superior direito...

Fiquei feliz de ver que todos os projetos apresentados possuíam real vinculação com o projeto de promoção dos direitos humanos, que é uma exigência formal do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará (PPGD-UFPA). Afinal, precisamos nos precaver de pesquisas fundadas em preconceitos pessoais e no possível objetivo de usar a academia para legitimar subjetividades excludentes e violentas. Falando em abstrato, naturalmente. Assim, foi sem surpresa que vi propostas realmente comprometidas com o aprimoramento das relações humanas, cada uma em uma seara importante: adolescentes submetidos a medidas socioeducativas, violência contra a mulher, ensino do Direito, racismo institucional no júri e, claro, sistema penitenciário (este, por sinal, o meu projeto). Dos cinco projetos, quatro estavam centrados no tema do racismo.

A banca avaliadora foi composta pelos professores Luanna Tomaz de Souza (orientadora pretendida), Ana Cláudia Bastos de Pinho e Raimundo Wilson Gama Raiol (que se lembrou de eu ter sido orador na minha formatura, lá se vão quase 24 anos!). Ao final da sessão, fiz questão de parabenizar os colegas e de agradecer à banca pela arguição extremamente justa, porque baseada no objetivo de nos proporcionar a oportunidade de defender os projetos de pesquisa, exatamente como deve ser. Todas as perguntas, a todos os concorrentes, eram esclarecimentos sobre as propostas apresentadas (além do óbvio questionamento sobre disponibilidade). Não houve nada que nos surpreendesse ou afligisse, o que também não surpreende, dada a lisura e a competência dos nossos avaliadores. 

O resultado disso é que... eu simplesmente me senti feliz com o debate travado! Claro que não sei qual será o desfecho do processo seletivo. Em tese, tenho 20% de chances de aprovação, como os demais, embora a régua varie um pouco, devido às notas atribuídas nas fases precedentes. O fato é que eu posso ser aprovado ou não. Mas, sem clichê algum, valeu demais a experiência de ter tentado. Trabalhei por um antigo anelo que, por variadas razões, nunca levei adiante e agora o fiz. 

Estou feliz porque trabalhei muito e ofereci um projeto de pesquisa que me agradou de verdade, a ponto de romper a tradição de jamais me sentir satisfeito com nada do que faço. Posso não ter chegado ao suficiente, mas sinto que fiz o melhor que podia neste momento, chegando a convencer a mim mesmo de que estou pronto para assumir essa responsabilidade. Enfim, a missão está cumprida. Ao menos, sinto assim.

No próximo dia 22, vamos ver o resultado.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Manoel de Barros em gotas

Manoel de Barros (1916-2014) foi um poeta modernista matogrossense, tardiamente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, festejado entre escritores e críticos, porém ainda desconhecido do grande público. Não que poesia tenha um grande público no Brasil (se bem que a internet está aqui me contando que ele foi o poeta que mais vendeu livros neste país), mas eu, por exemplo, que sou apaixonado por essa expressão artística, tenho o constrangimento de admitir que ainda desconheço sua obra. Ainda. Mas fui sensibilizado por uma filósofa, que o tem como poeta predileto, e assim declarou durante uma aula muito esclarecedora (não sobre poesia, e sim sobre a filosofia em nossas vidas), já me alertando para o rico subtexto que se pode encontrar nesses poemas, aliás especialmente recomendado para iluminar, nas crianças, o pensamento filosófico.


A obra de Barros é delicada, radicada na gente simples do interior, na infância, na natureza. Em meio a causos e ao sentimento idílico da vida no campo, esconde uma profundidade desconcertante, que está me conquistando sem qualquer demora.

Este blog já publicou diversos poemas que me cativaram e até possui um marcador "poesia". Hoje, compartilharei com vocês não um poema, mas um único verso de Barros. Uma das gotas de sabedoria reunidas em seu Livro sobre nada (1996), que me causou profunda impressão só de lê-la. Honestamente, assim que li, veio a minha mente mais de uma lembrança que me convenceu de que o poeta está certo.

"Tem mais presença em mim o que me falta."

Manoel de Barros, poeta, está vivo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Estadistas e vermes

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que não vale a pena esperar muito dos Estados Unidos, seja quem for seu presidente, pois a noção de "America first" está longe de ser exclusividade da gestão finda nesta data. A começar pela mania deplorável de achar que os Estados Unidos são "a América". Outrossim, Joe Biden tampouco é o cara bacana que muita gente pensa, mas, devido ao fato de ter concorrido com um sujeito tão repulsivo quanto Trump, acabou se saindo bem em uma perspectiva de disputa civilizatória. O oposto do que houve no Brasil, em 2018.

Foto de Olivier Douliery/AFP

A par disso, as propostas de Biden têm um colorido realmente reconfortante, no que tange à promoção da saúde de seu povo, não apenas em relação à pandemia de coronavírus; à geração de empregos; à política ambiental; às relações internacionais. Ao menos, aquele país deixará o império das fake news e do ódio como única expressão comunicacional. Acima de tudo, é um freio importante no avanço da extrema-direita pelo mundo afora e passa uma mensagem importante para os grupos extremistas internos. Mesmo que hoje não seja um dia para empolgar, sem dúvida foi um dia ruim para a terra plana, para o negacionismo científico, para a ditadura do WhatsApp e coisas do gênero. E se esse pessoal está mal, então eu comemoro.

No mais, os símbolos têm poder. A eleição de um presidente com discurso conciliador e propostas que, para os histéricos estadunidenses, são quase socialistas, tais como a expansão do sistema de saúde (e nem de perto se pensando em algo universal, como o nosso SUS), é muito bom. A eleição de uma vice-presidente mulher, negra e descendente de imigrantes é muito bom. A nomeação de uma mulher transexual para cargo de alto nível no campo da saúde é muito bom. A meu ver, passa a sensação de que os últimos quatro anos foram uma aventura autoritária que não deu certo e, por isso, acabou reprovada do melhor modo: pela vontade do eleitorado.

Além disso, o comportamento alucinado do derrotado-fracassado-humilhado Trump, em todas as fases do processo eleitoral, mas sobretudo após a divulgação do resultado, acabou sendo benéfico, pois mostrou ao mundo que não adianta vociferar sobre fraudes, ameaçar autoridades, conclamar atos de violência contra as instituições e outras patuscadas. No final, o pilantra enfiou o rabo entre as pernas e saiu para a famosa lata de lixo da História, de uma maneira verdadeiramente vergonhosa. Se tivesse reconhecido a derrota e feito uma transição republicana, poderia até sofrer em sua imensa vaidade, mas seria elogiado pelo mundo afora, ao menos em relação ao gesto derradeiro. No entanto, preferiu aumentar sua desonra. Bem feito.

Os líderes mundiais, claro, parabenizaram o novo presidente. Como o Brasil não possui nenhum líder no exercício do cargo, não houve qualquer pronunciamento oficial. Houve, sim, uma manifestação do vice-presidente, que em seu ridículo vira-latismo declarou que os Estados Unidos continuarão sendo "um farol para o ocidente". Haja o que houver, essa gente medíocre continua se curvando até o chão, com o traseiro oferecido ao Tio Sam. Farol coisa nenhuma! O que a América Latina precisa fazer é se unir e entender que o povo lá de cima nunca será um parceiro sincero. Aliás, com uma ressalva para a Inglaterra, nem os países europeus demonstram essa subserviência toda.

Exemplo de manifestação foi a do Papa Francisco, que segundo reportagem do Uol, pronunciou-se nestes termos: "Ofereço-lhe meus cordiais votos e a garantia de minhas orações para que Deus Todo-Poderoso lhe conceda sabedoria e força no exercício de seu alto cargo. Sob sua liderança, que o povo americano continue a se nutrir dos altos valores políticos, éticos e religiosos que inspiraram a nação desde sua fundação". Viram? Biden é líder do povo de seu país e não do ocidente, menos ainda do mundo inteiro. Francisco acertou de novo.

Quanto a nós outros, a prudência manda vigiar e torcer pelo melhor. Boa sorte para nós.

Vacinômetro

Segundo o vacinômetro que calcula, inclusive, quantas pessoas já viraram jacaré após serem vacinadas contra o coronavírus, em todo o mundo (clique aqui), neste momento o Brasil possui 11.470 pessoas vacinadas (lembrando que a primeira brasileira foi vacinada na tarde do último domingo, 17). Contudo, nas últimas 24 horas, o Brasil perdeu mais 1.183 vidas. Nos últimos 5 dias, o número de mortes diárias foi superior a mil, chegando a um total de 5.713. E há tendência de alta em 13 Estados.

Dado o total desinteresse do governo federal em vacinar, a perda da compra de vacinas fabricadas na Índia e o atraso de insumos originários da China, por aqui continuaremos matando muito mais do que imunizando. Inclusive porque o gado bolsonarista está incansável na internet, notadamente no WhatsApp, fazendo o que mais sabe: divulgando mentiras, conclamando o uso de medicamentos inócuos para covid-19 e nocivos porque desnecessários, maldizendo a vacinação e acirrando o clima de ódio no país.

Para o caso de alguém ter ficado curioso, não dei a informação antes porque achei desnecessário, mas aqui vai: até o momento, nenhuma das 49.501.540 pessoas vacinadas no planeta inteiro (a contagem sobe sem parar, mas não graças a nós) virou jacaré.

Atendente obstinado

Ontem, não tive escolha senão fazer uma das tarefas domésticas que mais me irritam: ir ao supermercado. Lá pelas tantas, pedi a um atendente dois potes de meio quilo de manteiga. E os minutos começaram a passar, a fila foi aumentando, a preocupação com aglomeração aumentou junto e nada do cara voltar. Naturalmente, isso me exasperou.

Olhei na direção e o sujeito estava diante da balança, pesando os meus potes de manteiga. Ele olhava, ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava. Nessas idas e vindas, ele colocava um pouquinho de manteiga no pote ou tirava um pouquinho de manteiga do pote. Sim, meus amigos, por alguma razão que nem o úbere da vaca explica, o sujeito resolveu que ele precisava me entregar dois potes de manteiga com exatamente 500 gramas cada! Nem um grama a mais, nem um a menos. O preço, igualzinho.

Como eu precisava de outros itens, e também pelo fato de eu ser um doce de pessoa, que raramente briga com as criaturas, mesmo que elas mereçam, nada disse, mas desde então não paro de pensar nessa estranha obstinação, que me custou tempo e paciência. 

Tinha que ser comigo, claro. Eu atraio todo tipo de comportamento aversivo. Ô sina!