Já mencionei meu professor de direito penal umas tantas vezes aqui no blog e, claro, sempre manifesto minha gratidão por tudo que aprendi com o grande Hugo Rocha. Não poderia ser diferente, afinal fui seu monitor, então tive a oportunidade de aprender um pouco mais do que o repassado em sala de aula. Além disso, se me tornei professor da mesma disciplina, parece muito natural que eu tenha umas tantas lembranças.
Hugo Rocha, conosco, era um preciosista. Queria que as coisas fossem certinhas, no modo como são ditas, no modo como são escritas. Adivinhem? Eu me tornei um preciosista. Logo na primeira aula, informo sobre como serei chato com o uso estritamente adequado dos termos técnicos. Mas não cobro como ele fazia. Deixo as coisas mais livres e sempre me pergunto se estou certo, pecando por omissão, talvez. Afinal, aprendi em sala de aula um sem número de coisas tão simples, porém tão certas, que acredito que todo estudante de direito deveria saber também. Mas não sabem.
Segue uma pequena lista dos detalhes que aprendi em minhas aulas regulares de direito penal.
1 Que na redação legislativa usamos números ordinais até o nono e cardinais a partir do décimo: "artigo 1º" (e não "artigo um"), "§ 9º" (e não "parágrafo nove"), "artigo dez" (e não "artigo décimo").
Anos mais tarde, a Lei Complementar n. 95, de 26.2.1998, veio a tornar lei o que antes eram rotinas. Trata-se de uma lei das mais ignoradas que existem e, para minha fúria, o próprio governo federal deixou de observá-la e redige as leis de modo totalmente desconforme. Fica aqui a minha recomendação: conheça e aplique a LC 95!
2 Que a primeira parte de um artigo, a qual contém as normas mais importantes, chamam-se caput (pronuncia-se "cáput") e dá vergonha alheia quando um aluno não sabe do que se trata. Os artigos se dividem em incisos (em geral para fins de listagens ou normas mais diretas) ou em parágrafos (que normalmente apresentam um conteúdo mais autônomo). Os parágrafos também se dividem em incisos, se for o caso. As alíneas são divisões dos incisos.
3 Os incisos são sempre indicados por algarismos romanos (e, portanto, estão em maiúsculas) e as alíneas são representadas por letras minúsculas, na sequência do alfabeto. Eventualmente, as alíneas podem se dividir em itens ou figuras.
4 Que o símbolo do parágrafo representa duas letras S e significa "signus sectionis", ou seja, sinal de separação. De acordo com o Dicionário Houaiss, trata-se da pequena secção de um discurso ou de um capítulo, notadamente de um artigo de lei ou regulamento, usado para expressar essa sua condição de incompletude.
5 Que os parágrafos devem ser grafados, obrigatoriamente, por seu símbolo, quando indicados numericamente: "§ 1º" e não "parágrafo 1º" nem "parágrafo primeiro". Por outro lado, o parágrafo único sempre deve ser grafado por extenso e nunca "§ único", admitindo-se a abreviatura ("p.u.").
6 Que, em latim, o "t" antes de "i" tem som de "s", de modo que imputatio se pronuncia "imputácio" e notitia, "notícia". Chama a minha atenção como os alunos frequentemente não aprendem por observação: eles até veem o professor dizer certas coisas, mas não as incorporam. De repente me lembrei do dia em que estava explicando um trabalho e usei o vocábulo "improfícuo". Notei uma colega anotar a palavra em seu caderno (e por isso me recordo da palavra até hoje). Ela certamente consultou o dicionário e aprendeu. Essa é a atitude que esperamos.
Essas regras tão singelas ficaram marcadas em minha mente a ponto de jamais terem sido esquecidas. E elas não foram nada senão informações secundárias em meio a aulas de rotina. Por isso devemos valorizar a curiosidade e a vontade de aprender. Não apenas o prato do dia, mas inclusive o modo como o prato é servido. Creio que esta seja uma dica que valha a pena anotar.
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Aquamans
A crescente incompetência dos jornalistas brasileiros, exteriorizada pela péssima qualidade de seus textos, com erros crassos de português, rende alguns resultados curiosos.
Em matéria sobre o povo Bajau, um dos últimos nômades e único a viver exclusivamente no mar, publicada no site EcoViagem, o redator, já na legenda da primeira imagem (reproduzida aí ao lado), sai com esta: "Encontrados entre a Indonésia e as Filipinas, os Bajaus têm origem no século IX e desde então, alternam entre morar em pequenas canoas que foram transformadas em casas ou bangalôs à beira-mar, mas sempre sob a água". Detalhe: faltou uma vírgula antes da expressão "desde então", que deveria ser intercalada.
"Ah, mas foi só um descuido!", poderiam dizer aqueles que sempre tentam apaziguar o inaceitável. Contudo, o texto começa, até bastante vigoroso, para concluir o primeiro parágrafo assim: "Os Bajaus, de origem malaia, são a última população nômade que vivem sob as águas." Aqui a coisa piora: os Bajaus são (correto) a última população nômade que vivem (errado: agora a concordância é com "população nômade" e, portanto, o verbo "viver" deveria estar no singular. Não me venha falar que o verbo está concordando com o sujeito, pois o pronome relativo inicia um novo segmento da ideia).
E ainda tem mais: "os Bajaus têm origem no século IX e desde então, alternam entre morar em pequenas canoas que foram transformadas em casas ou bangalôs à beira-mar, mas sempre sob a água." De novo, faltou vírgula antes de "desde então" e o jornalista persiste em sua convicção de que aquelas pessoas têm guelras e respiram embaixo d'água.
Acabou? Não, ele insiste: "muitos Bajaus vêm optando por viverem em baías ou construírem seus casebres sob um espelho d'água, nos litorais". Aqui, vê-se que o autor mudou a redação, mas persistiu no erro. Então não foi apenas um deslize, não é?
Felizmente, os culpados já devem estar informados do enorme tropeço, porque os comentaristas da matéria não perdoaram. E não deviam, mesmo. Imagine uma criança se interessando por um assunto instigante como esse e lendo a matéria: vai aprender errado. E vai, de boa fé, supor que o texto está correto. E de erro em erro, vamos terminando de assassinar a Língua Portuguesa, com o amplo beneplácito daqueles que insistem que o importante é comunicar.
A matéria pode ser lida aqui: http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/turismo/turismo-internacional/ultimo-povo-nomade-que-vive-no-mar-esta-a-beira-da-extincao-veja-fotos-18231.asp
PS - Sei que o plural de "man" é "men", mas o título alude não a um Aquaman e sim a vários deles. Por isso não escrevi "Aquamen". Se meu entendimento estiver errado, tudo bem: encare como uma ironia.
Em matéria sobre o povo Bajau, um dos últimos nômades e único a viver exclusivamente no mar, publicada no site EcoViagem, o redator, já na legenda da primeira imagem (reproduzida aí ao lado), sai com esta: "Encontrados entre a Indonésia e as Filipinas, os Bajaus têm origem no século IX e desde então, alternam entre morar em pequenas canoas que foram transformadas em casas ou bangalôs à beira-mar, mas sempre sob a água". Detalhe: faltou uma vírgula antes da expressão "desde então", que deveria ser intercalada.
"Ah, mas foi só um descuido!", poderiam dizer aqueles que sempre tentam apaziguar o inaceitável. Contudo, o texto começa, até bastante vigoroso, para concluir o primeiro parágrafo assim: "Os Bajaus, de origem malaia, são a última população nômade que vivem sob as águas." Aqui a coisa piora: os Bajaus são (correto) a última população nômade que vivem (errado: agora a concordância é com "população nômade" e, portanto, o verbo "viver" deveria estar no singular. Não me venha falar que o verbo está concordando com o sujeito, pois o pronome relativo inicia um novo segmento da ideia).
E ainda tem mais: "os Bajaus têm origem no século IX e desde então, alternam entre morar em pequenas canoas que foram transformadas em casas ou bangalôs à beira-mar, mas sempre sob a água." De novo, faltou vírgula antes de "desde então" e o jornalista persiste em sua convicção de que aquelas pessoas têm guelras e respiram embaixo d'água.
Acabou? Não, ele insiste: "muitos Bajaus vêm optando por viverem em baías ou construírem seus casebres sob um espelho d'água, nos litorais". Aqui, vê-se que o autor mudou a redação, mas persistiu no erro. Então não foi apenas um deslize, não é?
Felizmente, os culpados já devem estar informados do enorme tropeço, porque os comentaristas da matéria não perdoaram. E não deviam, mesmo. Imagine uma criança se interessando por um assunto instigante como esse e lendo a matéria: vai aprender errado. E vai, de boa fé, supor que o texto está correto. E de erro em erro, vamos terminando de assassinar a Língua Portuguesa, com o amplo beneplácito daqueles que insistem que o importante é comunicar.
A matéria pode ser lida aqui: http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/turismo/turismo-internacional/ultimo-povo-nomade-que-vive-no-mar-esta-a-beira-da-extincao-veja-fotos-18231.asp
PS - Sei que o plural de "man" é "men", mas o título alude não a um Aquaman e sim a vários deles. Por isso não escrevi "Aquamen". Se meu entendimento estiver errado, tudo bem: encare como uma ironia.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Falando em português - Dicas 1 a 3: separação silábica
Uma postagem inicial chamada "carta de intenções" confere um ar algo dramático à ideia. Faz-nos pensar que o ato seguinte será grandioso, eletrizante, à altura de uma estreia. Em vez disso, muito contrariamente a isso, escreverei sobre um tema que me parece profundamente banal. E mesmo assim é necessário.
Em algum lugar do passado, uma professorinha que já nem me recordo qual disse à turma como separar sílabas. Não me lembro se anotei no caderno ou se apenas a vi escrevendo no quadro. Mas foi assim que aprendi. Foi a única vez que me disseram aquilo. Algo absurdamente simples porque, conforme fui aprender mais tarde, uma sílaba é um fonema, ou um grupo de fonemas, que pode ser emitido em um único impulso de voz.
Peça para qualquer ser humano que fale português, qualquer um mesmo, que pronuncie pausadamente uma palavra como "prato". Tenho certeza de que tal pessoa dirá "pra" e depois "to". Ninguém dirá "pr" (até porque isso não significa nada em nosso idioma), seguido de "ato". Diante disso, deveria ser intuitivo que, assim como não o fazemos quando falamos, sílabas não podem ser fragmentadas quando escrevemos um texto, mas isso acontece com uma frequência impressionante. Acaba a linha do papel e a pessoa, sem cerimônia, coloca o hífen e divide a palavra, onde quer que esteja. Imagine o pronome "minha" dividido assim: minh-/a. Ou o substitutivo "terrestre" assim: terr-/estre.
Aliás, pelo fato de a separação silábica se basear na linguagem falada, acaba por ser desenvolver uma lógica no erro na escrita. Não vejo ninguém desmontando sílabas de um modo que comprometeria o som da palavra. Algo do tipo dividir "abacate" escrevendo abac-/ate. Isso induziria a pessoa a ler, exatamente, "abac ate", então ninguém escreve assim (talvez eu esteja sendo otimista nesta afirmação, mas assumo o risco). Muitos conseguem, no entanto, a proeza de escrever cacho-/rro. E a regra segundo a qual a separação silábica nos dígrafos representados por letras dobradas ocorre justamente nestas escoa pelo ralo.
Existem, no entanto, sílabas compostas por uma única letra, como o a-ba-ca-te lá de cima. Por óbvio, nesse caso, é nela que deve ocorrer a divisão. No entanto, por uma dessas razões misteriosas que eu jamais soube, uma dessas regras que fazem a Língua Portuguesa ser quase uma espécie de criptografia, e que eu adoraria que me explicassem, é: não é permitido deixar uma letra sozinha na linha.
Em síntese, a coisa funciona assim:
errado certo
minh-/a mi-/nha
a-/bacate aba-/cate, abaca-/te
a-/núncio, anúnci-/o anún-/cio
Então é isto. Todo mundo separando as sílabas nos lugares corretos.
Dica n. 1: Não separar palavras dividindo sílabas.
Dica n. 2: Nos casos de letras dobradas, elas pertencem a sílabas diferentes e a separação se faz nelas.
Dica n. 3: Sílabas compostas por uma única letra não ficam sozinhas na linha.
Fonte: http://www.portugues.com.br/gramatica/silaba-divisao-silabica.html
Em algum lugar do passado, uma professorinha que já nem me recordo qual disse à turma como separar sílabas. Não me lembro se anotei no caderno ou se apenas a vi escrevendo no quadro. Mas foi assim que aprendi. Foi a única vez que me disseram aquilo. Algo absurdamente simples porque, conforme fui aprender mais tarde, uma sílaba é um fonema, ou um grupo de fonemas, que pode ser emitido em um único impulso de voz.
Peça para qualquer ser humano que fale português, qualquer um mesmo, que pronuncie pausadamente uma palavra como "prato". Tenho certeza de que tal pessoa dirá "pra" e depois "to". Ninguém dirá "pr" (até porque isso não significa nada em nosso idioma), seguido de "ato". Diante disso, deveria ser intuitivo que, assim como não o fazemos quando falamos, sílabas não podem ser fragmentadas quando escrevemos um texto, mas isso acontece com uma frequência impressionante. Acaba a linha do papel e a pessoa, sem cerimônia, coloca o hífen e divide a palavra, onde quer que esteja. Imagine o pronome "minha" dividido assim: minh-/a. Ou o substitutivo "terrestre" assim: terr-/estre.
Aliás, pelo fato de a separação silábica se basear na linguagem falada, acaba por ser desenvolver uma lógica no erro na escrita. Não vejo ninguém desmontando sílabas de um modo que comprometeria o som da palavra. Algo do tipo dividir "abacate" escrevendo abac-/ate. Isso induziria a pessoa a ler, exatamente, "abac ate", então ninguém escreve assim (talvez eu esteja sendo otimista nesta afirmação, mas assumo o risco). Muitos conseguem, no entanto, a proeza de escrever cacho-/rro. E a regra segundo a qual a separação silábica nos dígrafos representados por letras dobradas ocorre justamente nestas escoa pelo ralo.
Existem, no entanto, sílabas compostas por uma única letra, como o a-ba-ca-te lá de cima. Por óbvio, nesse caso, é nela que deve ocorrer a divisão. No entanto, por uma dessas razões misteriosas que eu jamais soube, uma dessas regras que fazem a Língua Portuguesa ser quase uma espécie de criptografia, e que eu adoraria que me explicassem, é: não é permitido deixar uma letra sozinha na linha.
Em síntese, a coisa funciona assim:
errado certo
minh-/a mi-/nha
a-/bacate aba-/cate, abaca-/te
a-/núncio, anúnci-/o anún-/cio
Então é isto. Todo mundo separando as sílabas nos lugares corretos.
Dica n. 1: Não separar palavras dividindo sílabas.
Dica n. 2: Nos casos de letras dobradas, elas pertencem a sílabas diferentes e a separação se faz nelas.
Dica n. 3: Sílabas compostas por uma única letra não ficam sozinhas na linha.
Fonte: http://www.portugues.com.br/gramatica/silaba-divisao-silabica.html
sábado, 25 de outubro de 2014
Falando em português: carta de intenções
Sou professor há 15 anos. E professor universitário, o que induz a conclusão de que lido com um público que acumulou razoável quantidade de conhecimento em diversas áreas, a começar pelas mais básicas. Suponho que o conhecimento do idioma que falamos é um dos mais elementares, afinal nos comunicamos o tempo inteiro, portanto a experiência cotidiana deveria ajudar-nos a aprender e a reter o que aprendemos na escola.
Para piorar, o direito é um campo que depende muito particularmente da eficiência comunicacional, de modo que sempre escutamos dizer que o profissional do ramo tem uma necessidade maior do que outros de se expressar de maneira correta. Além disso, trata-se de uma carreira mais comumente procurada por quem gosta de ler e o simples hábito da leitura já colabora bastante para a compreensão da língua.
Infelizmente, essa não é a realidade. As pessoas destroem a Língua Portuguesa o tempo inteiro. Não se trata de erros justificáveis, oriundos da flexibilidade da linguagem falada, tais como "me dá" em vez de "dá-me" (a próclise parece tão pedante!) ou a alternância errática entre formas de tratamento, como em construções do tipo "venha cá, para eu te dar um abraço" (o correto, segundo a norma culta, seria "vem cá, para eu te dar um abraço", a partir do pronome pessoal do caso reto tu; e a forma popularizada, que as pessoas supõem ser mais educada [???], construída sobre o pronome de tratamento você, "venha cá, para eu lhe dar um abraço"). Podemos achar lindo o Djavan cantando "Vem me fazer feliz porque eu te amo/ Você deságua em mim...", mas ele é poeta. Nós não temos desculpa, se passamos pelos bancos escolares.
Refiro-me a erros grotescos, intoleráveis, de ortografia, concordância, regência, conjugação verbal, etc. Pontuação, então, quase ninguém mais sabe o que é. Tudo isso evolui para uma incapacidade tão severa de expressão que, por vezes, o indivíduo emprega palavras completamente incompatíveis com a ideia que pretende externar, tornando seu texto ininteligível. Em casos particularmente graves, uma reunião aparentemente aleatória de palavras não permite que se reconheça, sequer, a existência de uma autêntica frase.
Perco muito tempo corrigindo provas porque sofro de uma compulsão que me obriga a corrigir todos os erros que encontro. Corrijo cada vírgula. Mas ao contrário do que se poderia esperar, nesses anos todos, ninguém, absolutamente ninguém me procurou para falar sobre minhas anotações. Nem todas são claras, imagino (por que será que rejeito o tão comum termo "ademais"?), mas ninguém quis saber nada. E como os erros se repetem, só posso concluir que não toquei o coração de ninguém.
Na verdade, eu realmente me apavoro pensando em que tipo de educação essa garotada vem recebendo nas escolas. Será que suprimiram as aulas de Língua Portuguesa do currículo mínimo? Será que todo mundo gazetou essas aulas? Ou será que a nossa alimentação cheia de gordura (e glúten!) afeta as áreas do cérebro responsáveis pela assimilação do idioma? Alguma boa explicação deve existir.
Jamais quis ser mais enfático sobre este tema. Confesso que sempre temi que algum aluno se ofendesse, acreditando em críticas pessoais. Mas a verdade é que, passado tanto tempo, e com a situação se agravando, decidi assumir que sou um educador e, aproveitando-me das facilidades trazidas pela internet, resolvi ser proativo. Daqui por diante, de vez em quando, vou-me atrever, mesmo sem possuir nenhuma formação em Língua Portuguesa que não a das escolas pelas quais passei, a escrever dicas pensadas a partir dos erros que vi mais frequentemente em minha experiência docente.
Espero que minha intenção seja percebida como uma crítica construtiva e que, finalmente, as pessoas que as lerem, particularmente meus alunos e orientandos, porque lidam comigo diretamente, comecem a melhorar efetivamente.
Espero, também, não cometer nenhum deslize nesta empreitada. Mas é bem provável que aconteça, pois este é um trabalho diletante. Como disse acima, não tenho nenhuma formação específica, por isso receberei de bom grado críticas, correções e, claro, ajuda para aprofundar as ideias.
"Falando em português" é o título que indicará as postagens com esta finalidade. Tomara que dê certo.
Para piorar, o direito é um campo que depende muito particularmente da eficiência comunicacional, de modo que sempre escutamos dizer que o profissional do ramo tem uma necessidade maior do que outros de se expressar de maneira correta. Além disso, trata-se de uma carreira mais comumente procurada por quem gosta de ler e o simples hábito da leitura já colabora bastante para a compreensão da língua.
Infelizmente, essa não é a realidade. As pessoas destroem a Língua Portuguesa o tempo inteiro. Não se trata de erros justificáveis, oriundos da flexibilidade da linguagem falada, tais como "me dá" em vez de "dá-me" (a próclise parece tão pedante!) ou a alternância errática entre formas de tratamento, como em construções do tipo "venha cá, para eu te dar um abraço" (o correto, segundo a norma culta, seria "vem cá, para eu te dar um abraço", a partir do pronome pessoal do caso reto tu; e a forma popularizada, que as pessoas supõem ser mais educada [???], construída sobre o pronome de tratamento você, "venha cá, para eu lhe dar um abraço"). Podemos achar lindo o Djavan cantando "Vem me fazer feliz porque eu te amo/ Você deságua em mim...", mas ele é poeta. Nós não temos desculpa, se passamos pelos bancos escolares.
Refiro-me a erros grotescos, intoleráveis, de ortografia, concordância, regência, conjugação verbal, etc. Pontuação, então, quase ninguém mais sabe o que é. Tudo isso evolui para uma incapacidade tão severa de expressão que, por vezes, o indivíduo emprega palavras completamente incompatíveis com a ideia que pretende externar, tornando seu texto ininteligível. Em casos particularmente graves, uma reunião aparentemente aleatória de palavras não permite que se reconheça, sequer, a existência de uma autêntica frase.
Perco muito tempo corrigindo provas porque sofro de uma compulsão que me obriga a corrigir todos os erros que encontro. Corrijo cada vírgula. Mas ao contrário do que se poderia esperar, nesses anos todos, ninguém, absolutamente ninguém me procurou para falar sobre minhas anotações. Nem todas são claras, imagino (por que será que rejeito o tão comum termo "ademais"?), mas ninguém quis saber nada. E como os erros se repetem, só posso concluir que não toquei o coração de ninguém.
Na verdade, eu realmente me apavoro pensando em que tipo de educação essa garotada vem recebendo nas escolas. Será que suprimiram as aulas de Língua Portuguesa do currículo mínimo? Será que todo mundo gazetou essas aulas? Ou será que a nossa alimentação cheia de gordura (e glúten!) afeta as áreas do cérebro responsáveis pela assimilação do idioma? Alguma boa explicação deve existir.
Jamais quis ser mais enfático sobre este tema. Confesso que sempre temi que algum aluno se ofendesse, acreditando em críticas pessoais. Mas a verdade é que, passado tanto tempo, e com a situação se agravando, decidi assumir que sou um educador e, aproveitando-me das facilidades trazidas pela internet, resolvi ser proativo. Daqui por diante, de vez em quando, vou-me atrever, mesmo sem possuir nenhuma formação em Língua Portuguesa que não a das escolas pelas quais passei, a escrever dicas pensadas a partir dos erros que vi mais frequentemente em minha experiência docente.
Espero que minha intenção seja percebida como uma crítica construtiva e que, finalmente, as pessoas que as lerem, particularmente meus alunos e orientandos, porque lidam comigo diretamente, comecem a melhorar efetivamente.
Espero, também, não cometer nenhum deslize nesta empreitada. Mas é bem provável que aconteça, pois este é um trabalho diletante. Como disse acima, não tenho nenhuma formação específica, por isso receberei de bom grado críticas, correções e, claro, ajuda para aprofundar as ideias.
"Falando em português" é o título que indicará as postagens com esta finalidade. Tomara que dê certo.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
A má fé pode virar crime impossível
A prática é bastante comum em qualquer grande cidade: mesmo havendo circuito interno de TV e funcionários destacados somente para fins de vigilância, muitos supermercados deixam o indivíduo subtrair mercadorias e, mais do que isso, deixam-no sair do prédio, para detê-lo já na rua e, com isso, forçar uma acusação de furto consumado. Ou seja, o estabelecimento dispõe de lautos recursos para impedir a conduta, no nascedouro, mas favorece a sua ocorrência para, com isso, perseguir uma punição mais severa.
Sempre considerei esse tipo de postura de um mau caratismo extremo, principalmente porque, na grande maioria dos casos, a subtração envolve valores irrisórios e gente mais desesperada do que convicta.
Eis que, em São Paulo, uma decisão judicial acolheu pretensão da Defensoria Pública, não a tese de absolvição por atipicidade, aplicado o princípio da insignificância. Contudo, o juiz absolveu o réu com base em um raciocínio relacionado ao crime impossível. Afinal, devido à fiscalização eficiente em tempo real, realizada pelo estabelecimento, o furto era desde o começo impossível e só acabou por acontecer devido ao procedimento da própria vítima.
Fiquei feliz com a interpretação do juiz e quis ler a sentença. Em suma, este decisório merece o nosso apreço, mas acabei me deparando com outros aspectos já não tão simpáticos.
Comecemos pelo aspecto formal. Defensor ardoroso da simplificação da linguagem jurídica, várias vezes me pronunciei contra essa tapeação que é a falsa erudição, cuja principal finalidade, na maioria dos casos, é esconder a mediocridade. Quase não acreditei ao me deparar com uma sentença que, prolatada em 22 de setembro de 2014, foi redigida em termos arcaicos, propositalmente obscuros e com abuso de sinônimos, além da abundância de latim, a desvelar sua intencionalidade. E toda essa erudição, no entanto, não se fez acompanhar de correção, porque são vários os erros de português no texto. Veja por si mesmo:
(...) In primo loco, ao esguardo que faz-se merecedora a culta e combativa Defensoria Pública, não é de ser acolitada a bagatela.
Pois sim.
Nestas plagas donde campeia a pobreza e a miséria, quase quinhentos reais, ínfimo não o é. Seria, venia concessa, temerário entender-se por atípica a ação, com empalmo de quase quinhentos reais que, por outra, não redundaria em qualquer resposta no âmbito penal. "Legalizar-se-ia" - e incentivaria - abafos de tal quantia, o que redundaria no caos ou babel.
E, o que é insignificante para uns, para outros não o é.
Vá inquirir aos milhões e milhões de brasileiros, que em liça mensal de sol a sol, observando horário e ordens, percebendo paga mínima, se quase quinhentos reais é insignificante. A resposta, por óbvio e ululante, parafraseando o saudoso dramaturgo, há de ser negativa.
Derriba-se, pois, a insignificância ou bagatela.
Porém a tese outra impressiona.
É de pôr cobro a esse malsão proceder dos estabelecimentos que, bem cientes da pilha em andamento, não impedem-na, reclamando que o gatuno in continenti devolva bens que acomodou em receptáculo ou bolceta, como in casu, sem o aguardo de este passar pelo caixa e ser contido, após, fora das dependências do estabelecimento.
Tal agir ou atuar é, por vias transversas, vero acicate ao crime.
E, como é dos autos, o fiscal Pablo (f. 06), ajustou que observou o réu em atitude suspeita e que em momento algum o perdeu de vista.
O exemplo é baço, bem o sei, mas se garção ou latagão apusesse espadete em fauce de caixa, demandado burras, iria o fiscal (amiúde armados com revólveres, gás pimenta ou outros petrechos como dispositivos de choques, etc.) aguardar a consumação do roubo qualificado ou latrocínio? Cremos que não. Homessa!
E, dá-se ensancha, ainda, a barafunda, eis que o réu (que aliás não possui em seu passado jaça de monta, tanto que caucionado pela autoridade policial) meneou a cabeça a assentou subtração de apenas duas peças. E, também, não anuiu ao acosso, contido no interior do estabelecimento (f. 10), o que é razoável, pois bise-se: o fiscal não perdeu-o de vista em momento algum.
Nada obstante e volvendo ao cerne.
Ante a dinâmica, bem clareada nos autos, temos que, nos dizeres de Aníbal Bruno, jurista merecedor de panegíricos com todas as veras da alma, uma autêntica carência de tipo.
A dinâmica, tal qual exsurge, é manifesta injunção de persuasão ou encabeçamento de que seria impossível a consumação do crime.
Desce e fecha a hipótese vertente o que está no artigo 17 do Código Penal.
Não vinga, pois, o anelo acusatório, pese o respeito que faz-se merecedor o insigne dominus litis et custos legis que, por sua ímpar cultura e labor, goza, não apenas entre seus pares, mas perante todos os operadores de Direito nesta Vara (e em outras), de grande nomeada.
Ex positis:
JULGO IMPROCEDENTE a presente ação penal e o faço para ABSOLVER como de fato absolvo o réu (...), relativamente a acusação que lhe foi assacada, por infração a norma da cabeça do artigo 155 do Código Penal, forte no artigo 397, inciso III, do Código de Processo Penal.
Vade in pace.
Dixi!
Interessante é que a sentença é curta. Se com menos floreios, seria mais curta e objetiva ainda, quanto bastaria. Daí que procurei saber quem era o juiz autor desta peça rara, pois o imaginei um magistrado das antigas. Trata-se de um magistrado com mais de 20 anos de atividade, porém ainda jovem, mormente em nossos tempos. Pelo que se vê, é uma questão de estilo, inclusive porque outras decisões dele seguem no mesmo exagero estético.
Mas se você entendeu que o magistrado em apreço é um "garantista", para usar expressão bastante desvirtuada em nossos dias, equivocou-se. Em outra sentença, a cuja leitura me sacrifiquei, já que até mais cansativa e despropositada, o magistrado se permitiu criticar o tal "fetichismo da pena mínima", expressão que nunca vi associada a boas análises. Chamou a Lei de Execução Penal de "vergonhosa", defendeu a retribuição e a prevenção geral como "valia maior da pena" e sobre a ressocialização (na qual também não acredito, mas outros motivos) disse o seguinte:
A ressocialização (e gastaram-se tintas e tintas sobre tal tema), repisando-se o máximo esguardo, em maioria supra summo, entende-se, humildemente, que é vã filosofia de pretensos filósofos. E assim o é, pois esbarra no livre arbítrio! A jaula torna o tigre mais manso? A raposa menos astuta? E, por melhor que fosse o sistema prisional, ainda assim, volve-se ao livre-arbítrio. O criminoso aprecia ser criminoso e, quanto mais perigoso ou embrenhado nos ilícitos, jacta-se de tanto. (...) Não tenhamos a ingenuidade do personagem Pangloss do notável filósofo iluminista Voltaire. A áspide, por sua natureza e sentindo-se ameaçada por mera aproximação, destila sua peçonha na vítima indefesa; porém, se sentir-se excessivamente e desmedidamente ameaçada, por certo, não atacará e empreenderá fuga. Assim, e bisando o máximo respeito, outros fossem os desates nos inúmeros crimes praticados, o réu não os cometeria, face a dura resposta estatal sendo dissuadido, ou, porque custodiado estaria.
Eis aí o juiz perfeito para a mentalidade reinante do brasileiro médio atual: todo crime é uma questão de simples escolha. E se deve punir tudo, porque as pessoas são más e devem ser contidas. Simples assim. Sua longa experiência não o ajudou a enxergar a realidade, com seus matizes.
No que tange à linguagem, um aviso aos meus alunos e, especialmente, aos orientandos de monografia: nunca, jamais, em tempo algum ousem escrever desse jeito! Não vai dar certo. Se for monografia, nem autorizo o depósito. Ou escrevemos para sermos tão claros quanto possível, e acessíveis inclusive aos mais humildes, ou de que serve o conhecimento? Massagem do ego?
"Homessa"!!!
Fonte:
Sempre considerei esse tipo de postura de um mau caratismo extremo, principalmente porque, na grande maioria dos casos, a subtração envolve valores irrisórios e gente mais desesperada do que convicta.
Eis que, em São Paulo, uma decisão judicial acolheu pretensão da Defensoria Pública, não a tese de absolvição por atipicidade, aplicado o princípio da insignificância. Contudo, o juiz absolveu o réu com base em um raciocínio relacionado ao crime impossível. Afinal, devido à fiscalização eficiente em tempo real, realizada pelo estabelecimento, o furto era desde o começo impossível e só acabou por acontecer devido ao procedimento da própria vítima.
Fiquei feliz com a interpretação do juiz e quis ler a sentença. Em suma, este decisório merece o nosso apreço, mas acabei me deparando com outros aspectos já não tão simpáticos.
Comecemos pelo aspecto formal. Defensor ardoroso da simplificação da linguagem jurídica, várias vezes me pronunciei contra essa tapeação que é a falsa erudição, cuja principal finalidade, na maioria dos casos, é esconder a mediocridade. Quase não acreditei ao me deparar com uma sentença que, prolatada em 22 de setembro de 2014, foi redigida em termos arcaicos, propositalmente obscuros e com abuso de sinônimos, além da abundância de latim, a desvelar sua intencionalidade. E toda essa erudição, no entanto, não se fez acompanhar de correção, porque são vários os erros de português no texto. Veja por si mesmo:
(...) In primo loco, ao esguardo que faz-se merecedora a culta e combativa Defensoria Pública, não é de ser acolitada a bagatela.
Pois sim.
Nestas plagas donde campeia a pobreza e a miséria, quase quinhentos reais, ínfimo não o é. Seria, venia concessa, temerário entender-se por atípica a ação, com empalmo de quase quinhentos reais que, por outra, não redundaria em qualquer resposta no âmbito penal. "Legalizar-se-ia" - e incentivaria - abafos de tal quantia, o que redundaria no caos ou babel.
E, o que é insignificante para uns, para outros não o é.
Vá inquirir aos milhões e milhões de brasileiros, que em liça mensal de sol a sol, observando horário e ordens, percebendo paga mínima, se quase quinhentos reais é insignificante. A resposta, por óbvio e ululante, parafraseando o saudoso dramaturgo, há de ser negativa.
Derriba-se, pois, a insignificância ou bagatela.
Porém a tese outra impressiona.
É de pôr cobro a esse malsão proceder dos estabelecimentos que, bem cientes da pilha em andamento, não impedem-na, reclamando que o gatuno in continenti devolva bens que acomodou em receptáculo ou bolceta, como in casu, sem o aguardo de este passar pelo caixa e ser contido, após, fora das dependências do estabelecimento.
Tal agir ou atuar é, por vias transversas, vero acicate ao crime.
E, como é dos autos, o fiscal Pablo (f. 06), ajustou que observou o réu em atitude suspeita e que em momento algum o perdeu de vista.
O exemplo é baço, bem o sei, mas se garção ou latagão apusesse espadete em fauce de caixa, demandado burras, iria o fiscal (amiúde armados com revólveres, gás pimenta ou outros petrechos como dispositivos de choques, etc.) aguardar a consumação do roubo qualificado ou latrocínio? Cremos que não. Homessa!
E, dá-se ensancha, ainda, a barafunda, eis que o réu (que aliás não possui em seu passado jaça de monta, tanto que caucionado pela autoridade policial) meneou a cabeça a assentou subtração de apenas duas peças. E, também, não anuiu ao acosso, contido no interior do estabelecimento (f. 10), o que é razoável, pois bise-se: o fiscal não perdeu-o de vista em momento algum.
Nada obstante e volvendo ao cerne.
Ante a dinâmica, bem clareada nos autos, temos que, nos dizeres de Aníbal Bruno, jurista merecedor de panegíricos com todas as veras da alma, uma autêntica carência de tipo.
A dinâmica, tal qual exsurge, é manifesta injunção de persuasão ou encabeçamento de que seria impossível a consumação do crime.
Desce e fecha a hipótese vertente o que está no artigo 17 do Código Penal.
Não vinga, pois, o anelo acusatório, pese o respeito que faz-se merecedor o insigne dominus litis et custos legis que, por sua ímpar cultura e labor, goza, não apenas entre seus pares, mas perante todos os operadores de Direito nesta Vara (e em outras), de grande nomeada.
Ex positis:
JULGO IMPROCEDENTE a presente ação penal e o faço para ABSOLVER como de fato absolvo o réu (...), relativamente a acusação que lhe foi assacada, por infração a norma da cabeça do artigo 155 do Código Penal, forte no artigo 397, inciso III, do Código de Processo Penal.
Vade in pace.
Dixi!
Interessante é que a sentença é curta. Se com menos floreios, seria mais curta e objetiva ainda, quanto bastaria. Daí que procurei saber quem era o juiz autor desta peça rara, pois o imaginei um magistrado das antigas. Trata-se de um magistrado com mais de 20 anos de atividade, porém ainda jovem, mormente em nossos tempos. Pelo que se vê, é uma questão de estilo, inclusive porque outras decisões dele seguem no mesmo exagero estético.
Mas se você entendeu que o magistrado em apreço é um "garantista", para usar expressão bastante desvirtuada em nossos dias, equivocou-se. Em outra sentença, a cuja leitura me sacrifiquei, já que até mais cansativa e despropositada, o magistrado se permitiu criticar o tal "fetichismo da pena mínima", expressão que nunca vi associada a boas análises. Chamou a Lei de Execução Penal de "vergonhosa", defendeu a retribuição e a prevenção geral como "valia maior da pena" e sobre a ressocialização (na qual também não acredito, mas outros motivos) disse o seguinte:
A ressocialização (e gastaram-se tintas e tintas sobre tal tema), repisando-se o máximo esguardo, em maioria supra summo, entende-se, humildemente, que é vã filosofia de pretensos filósofos. E assim o é, pois esbarra no livre arbítrio! A jaula torna o tigre mais manso? A raposa menos astuta? E, por melhor que fosse o sistema prisional, ainda assim, volve-se ao livre-arbítrio. O criminoso aprecia ser criminoso e, quanto mais perigoso ou embrenhado nos ilícitos, jacta-se de tanto. (...) Não tenhamos a ingenuidade do personagem Pangloss do notável filósofo iluminista Voltaire. A áspide, por sua natureza e sentindo-se ameaçada por mera aproximação, destila sua peçonha na vítima indefesa; porém, se sentir-se excessivamente e desmedidamente ameaçada, por certo, não atacará e empreenderá fuga. Assim, e bisando o máximo respeito, outros fossem os desates nos inúmeros crimes praticados, o réu não os cometeria, face a dura resposta estatal sendo dissuadido, ou, porque custodiado estaria.
Eis aí o juiz perfeito para a mentalidade reinante do brasileiro médio atual: todo crime é uma questão de simples escolha. E se deve punir tudo, porque as pessoas são más e devem ser contidas. Simples assim. Sua longa experiência não o ajudou a enxergar a realidade, com seus matizes.
No que tange à linguagem, um aviso aos meus alunos e, especialmente, aos orientandos de monografia: nunca, jamais, em tempo algum ousem escrever desse jeito! Não vai dar certo. Se for monografia, nem autorizo o depósito. Ou escrevemos para sermos tão claros quanto possível, e acessíveis inclusive aos mais humildes, ou de que serve o conhecimento? Massagem do ego?
"Homessa"!!!
Fonte:
- http://s.conjur.com.br/dl/sentenca-furto-supermercado.pdf
- http://s.conjur.com.br/dl/juiz-critica-fetichismo-pena-minima.pdf
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Há tanto tempo...
Daí eu recebo em minha caixa de e-mail aquele recadinho da Oi:
Que a Oi é uma droga de empresa de telefonia, já sabia há muito tempo. Mas agora ela contribui, também, para o engrandecimento da Língua Portuguesa.
O erro acima é duplo. Tanto revela que o apedeuta desconhece a construção frasal com o verbo haver, quanto desconhece a impossibilidade de crase antes de palavras masculinas. É a treva.
Eu realmente me pergunto o que está acontecendo com as escolas deste país, que está avançando alunos cada vez mais despreparados, a ponto de serem contratados e supervisionados por outros, tão despreparados quanto, e aí simplesmente ninguém mais percebe esse linchamento cotidiano da Língua Portuguesa.
Revoltante, isso. Mas não temos há quem recorrer. Ou melhor, à quem recorrer.
Que a Oi é uma droga de empresa de telefonia, já sabia há muito tempo. Mas agora ela contribui, também, para o engrandecimento da Língua Portuguesa.
O erro acima é duplo. Tanto revela que o apedeuta desconhece a construção frasal com o verbo haver, quanto desconhece a impossibilidade de crase antes de palavras masculinas. É a treva.
Eu realmente me pergunto o que está acontecendo com as escolas deste país, que está avançando alunos cada vez mais despreparados, a ponto de serem contratados e supervisionados por outros, tão despreparados quanto, e aí simplesmente ninguém mais percebe esse linchamento cotidiano da Língua Portuguesa.
Revoltante, isso. Mas não temos há quem recorrer. Ou melhor, à quem recorrer.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Fidelidade dos elefantes
Meu irmão, quase cinco anos mais velho do que eu, quando aprendia algo interessante na escola ou nos muitos livros que lia, vinha logo me contar. Foi assim que aprendi muitas coisas e acabei tomando gosto por ser, eu mesmo, um leitor ávido e um curioso da ciência. Foi assim que aprendi, ainda na infância, que elefantes são seres gregários; eles se esforçam pelo bem estar da manada e não deixam ninguém para trás. Eventualmente, se um deles morre, alguém lhe guarda. Pesquisadores da psicologia já se dedicaram a estudar o luto dos elefantes.
Não sei se o turista John Chaney e seus companheiros sabiam disso quando avistaram esta cena, fotografada pelo primeiro. Segundo a descrição do fotógrafo, esta aliá* se manteve por longo tempo junto ao corpo de um companheiro, morto há dias. Imóvel, permaneceu com a tromba enrolada na presa do cadáver, deixando mais evidente a sua intenção.
O fato de ser um comportamento previsível do reino animal não retira a capacidade de emocionar. Inevitavelmente, faz-nos pensar na natureza humana. Nós, ditos seres máximos da criação, que frequentemente nos comportamos de modo menos humano do que os bichos. Sei que isso é um grande clichê, mas também é uma grande verdade.
Um detalhe: vendo a imagem, o que mais me chamou a atenção foi a hiena, à direita, que pela postura parece estar bem quieta. Hienas são animais carnívoros, mas para não entrar em confronto com rivais mais poderosos, costumam alimentar-se de carniça, comendo os restos deixados por outros animais. Como perdem o melhor da festa, seu sistema digestivo é capaz de digerir até mesmo ossos, de modo que do repasto das hienas pode não sobrar literalmente nada.
E o que essa hiena está fazendo em nossa poética cena? Comungando da saudade? Claro que não. Está esperando a oportunidade de matar a fome. Não o faz, entretanto, porque o poderoso animal, que passa facilmente das quatro toneladas, segue no local, vigilante. Bastaria um golpe da probóscide, que é basicamente um amontoado de músculos, para fazê-la voar dali, de novo literalmente. A cena retrata, portanto, a linha tênue entre o senso de compromisso e a destruição do que restou.
Realmente, é uma imagem riquíssima em significados e sensações, para nós, supostamente humanos.
* Você sabia que este é um dos nomes possíveis para a fêmea do elefante? A palavra "elefoa", que parece um erro grosseiro, também está certa, assim como "elefanta", que não uso para não ser molestado pela legião dos inimigos da "presidenta". Na verdade, gosto mesmo é de "aliá". É diferente, nada convencional.
Não sei se o turista John Chaney e seus companheiros sabiam disso quando avistaram esta cena, fotografada pelo primeiro. Segundo a descrição do fotógrafo, esta aliá* se manteve por longo tempo junto ao corpo de um companheiro, morto há dias. Imóvel, permaneceu com a tromba enrolada na presa do cadáver, deixando mais evidente a sua intenção.
O fato de ser um comportamento previsível do reino animal não retira a capacidade de emocionar. Inevitavelmente, faz-nos pensar na natureza humana. Nós, ditos seres máximos da criação, que frequentemente nos comportamos de modo menos humano do que os bichos. Sei que isso é um grande clichê, mas também é uma grande verdade.
Um detalhe: vendo a imagem, o que mais me chamou a atenção foi a hiena, à direita, que pela postura parece estar bem quieta. Hienas são animais carnívoros, mas para não entrar em confronto com rivais mais poderosos, costumam alimentar-se de carniça, comendo os restos deixados por outros animais. Como perdem o melhor da festa, seu sistema digestivo é capaz de digerir até mesmo ossos, de modo que do repasto das hienas pode não sobrar literalmente nada.
E o que essa hiena está fazendo em nossa poética cena? Comungando da saudade? Claro que não. Está esperando a oportunidade de matar a fome. Não o faz, entretanto, porque o poderoso animal, que passa facilmente das quatro toneladas, segue no local, vigilante. Bastaria um golpe da probóscide, que é basicamente um amontoado de músculos, para fazê-la voar dali, de novo literalmente. A cena retrata, portanto, a linha tênue entre o senso de compromisso e a destruição do que restou.
Realmente, é uma imagem riquíssima em significados e sensações, para nós, supostamente humanos.
* Você sabia que este é um dos nomes possíveis para a fêmea do elefante? A palavra "elefoa", que parece um erro grosseiro, também está certa, assim como "elefanta", que não uso para não ser molestado pela legião dos inimigos da "presidenta". Na verdade, gosto mesmo é de "aliá". É diferente, nada convencional.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
E de que mais seria?
Nossos amigos, os jornalistas... A quadrilha foi presa com um arsenal de armas. Eu não imaginei outra coisa. Ou você acha que existe arsenal de livros, de quadros, de cupcakes, etc.?
"Agradecimentos" ao Portal DOL
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Cada vez pior
Parece que os brasileiros realmente perderam qualquer compromisso com a Língua Portuguesa.
Sempre faço postagens, aqui no blog, apontando bobagens publicadas pela grande imprensa. Mas de uns dias para cá (dias, mesmo) tenho notado uma piora significativa em alguns portais de notícias. O portal G1 é um dos mais afetados. Parece que mudaram os redatores e os novatos, além de escreverem mal, não gostam de fazer revisão. Há equívocos típicos de digitação, uma letra errada, bobagem. Mas há verdadeiros horrores.
Esta reportagem aqui é bem característica: de um lado, há mero equívoco na redação, que poderia ter sido sanado com uma revisão ("quando foi condenada pelos sequestrados de dois bebês); de outro, há um erro de corar de vergonha ("Disse que ele a pediu que vendesse os materiais"). "A pediu", companheiro?! Que diabo de redação é essa, delinquente? E num dos maiores portais noticiosos do país?
Tem que haver seleção...
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Dúvidas técnico-geográficas
Deve ter sido assim: o estagiário tirou o dia para pedir a oportunidade de escrever ele mesmo a matéria. É um rapaz e está na editoria de carros, portanto a empolgação vai mais longe do que os veículos. De tanto apurrinhar, conseguiu produzir ao menos a manchete. Mas ela saiu assim:
Aí ficam as dúvidas: Se eu comprar esse carro aqui no Brasil, vou conseguir estacioná-lo? Ele estacionará sozinho aqui? Se eu mandar o carro estacionar aqui no Brasil, ele tomará automaticamente a direção da Inglaterra para completar a tarefa?
Que tal "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208 que estaciona sozinho". Ou, para ficar realmente bom: "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208, que estaciona sozinho". A elegância de um vírgula, essa ilustre desconhecida!
Para quem se interessou pelo carro (mulheres, provavelmente): http://caranddriverbrasil.uol.com.br/noticias/fabricantes/peugeot-lanca-208-que-estaciona-sozinho/3992
Outras ratadas, de variados tipos, dos barbarismos à má compreensão do próprio assunto abordado, além de absurdos engraçadíssimos como "cacho de abelhas" e dizer que o pirarucu é um mamífero:
Aí ficam as dúvidas: Se eu comprar esse carro aqui no Brasil, vou conseguir estacioná-lo? Ele estacionará sozinho aqui? Se eu mandar o carro estacionar aqui no Brasil, ele tomará automaticamente a direção da Inglaterra para completar a tarefa?
Que tal "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208 que estaciona sozinho". Ou, para ficar realmente bom: "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208, que estaciona sozinho". A elegância de um vírgula, essa ilustre desconhecida!
Para quem se interessou pelo carro (mulheres, provavelmente): http://caranddriverbrasil.uol.com.br/noticias/fabricantes/peugeot-lanca-208-que-estaciona-sozinho/3992
***
Outras ratadas, de variados tipos, dos barbarismos à má compreensão do próprio assunto abordado, além de absurdos engraçadíssimos como "cacho de abelhas" e dizer que o pirarucu é um mamífero:
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/06/acredito-que-esta-perdida.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/06/eles-estao-cada-vez-melhores.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/05/alo-redacao.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/03/desembargo.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/11/imagena.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/11/seria-facil-nao-confundir.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/08/mais-uma-da-imprensa.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/03/objeto-nao-identificado.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/02/pobre-flor-do-lacio.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/09/em-plena-capa.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/05/reportagem-bem-informada.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/03/ex-cave.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/03/meu-amigo-puccini.html (Esta é muito bacana!)
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/12/ambigidades-da-notcia.html (Também gosto muito desta)
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/patrulha-da-imprensa.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/como-assim.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/ah-ltima-flor-do-lcio.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/05/manchete-de-duplo-sentido.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/10/do-dicionrio-eletrnico-hoauiss-cacho.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/08/essa-vai-para-o-xingatrio.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/08/mamfero.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/01/com-certeza.html
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Núcleo periférico
Na petição do advogado:
Eu nunca soube que existisse um núcleo periférico, mas pelo visto deve haver, já que se faz necessário indicar quando ele é central.
Mas devemos reconhecer o esforço do advogado, que felizmente escreveu "roubo majorado", em vez de incorrer no habitual erro de "roubo qualificado". Menos mal.
"(...) haja vista que o crime de roubo majorado que é o núcleo central de todos os demais delitos imputados aos acusados (...)"(destaquei)
Eu nunca soube que existisse um núcleo periférico, mas pelo visto deve haver, já que se faz necessário indicar quando ele é central.
Mas devemos reconhecer o esforço do advogado, que felizmente escreveu "roubo majorado", em vez de incorrer no habitual erro de "roubo qualificado". Menos mal.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Acredito que está perdida
Mais uma para a nossa enorme coleção de pérolas da imprensa. No Diário do Pará de hoje:
Chama-se paradoxo à redação, num mesmo período, de termos de sentidos contrários. Em alguns casos, como no oxímoro, estamos diante de um recurso retórico clássico, capaz de criar imagens mentais poéticas e muito belas (tais como "minha alegria é triste", de "As canções que você fez para mim", Roberto Carlos). Mas, na matéria acima, houve apenas a desatenção do jornalista, criando uma condição dual para a adolescente, que está encontrada e perdida ao mesmo tempo.
Não adianta alegar que a menina estava perdida até ser encontrada. O verbo "é" não ajuda esse escapismo. A redação está ruim, mesmo, e podia ser facilmente evitada. P. ex.: "Menina perdida de 14 anos aparece no Aurá".
Aqui a notícia.
Agradecimento a Yasser Gabriel pela dica.
Chama-se paradoxo à redação, num mesmo período, de termos de sentidos contrários. Em alguns casos, como no oxímoro, estamos diante de um recurso retórico clássico, capaz de criar imagens mentais poéticas e muito belas (tais como "minha alegria é triste", de "As canções que você fez para mim", Roberto Carlos). Mas, na matéria acima, houve apenas a desatenção do jornalista, criando uma condição dual para a adolescente, que está encontrada e perdida ao mesmo tempo.
Não adianta alegar que a menina estava perdida até ser encontrada. O verbo "é" não ajuda esse escapismo. A redação está ruim, mesmo, e podia ser facilmente evitada. P. ex.: "Menina perdida de 14 anos aparece no Aurá".
Aqui a notícia.
Agradecimento a Yasser Gabriel pela dica.
sábado, 9 de junho de 2012
Eles estão cada vez melhores
Neste exato momento, no Portal ORM...
...a Língua Portuguesa está levando mais uma bordoada no meio da cara, sem piedade.
Saudade dos bons tempos...
Acréscimo em 11.6.2012:
Alguém tomou conhecimento da reclamação:
Menos mal.
...a Língua Portuguesa está levando mais uma bordoada no meio da cara, sem piedade.
Saudade dos bons tempos...
Acréscimo em 11.6.2012:
Alguém tomou conhecimento da reclamação:
Menos mal.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Ão e am
Um erro de português que me deixa em pé o pouco cabelo que me resta, apesar de ser muito frequente (ou justamente por conta disso), é a incapacidade que muita gente possui de distinguir verbos que devem ser escritos com a terminação -ão ou -am.
Doi-me nos ossos ler obscenidades como "eles forão chamados" ou "as inscrições seram abertas". O pior é que, prestando atenção, os sons ali produzidos são parecidos, porém não idênticos. Mas num país em que não se consegue assimilar ortografia, louco será quem pense em fonética.
Vendo uma reportagem que nada tinha a ver com Língua Portuguesa, e sim com um imenso tubarão-baleia de 12 metros de comprimento achado morto no Mar da Arábia, litoral do Paquistão, deparei-me com uma comentarista lesa, indignada porque os humanos malvados mataram o animal. Lesa porque a matéria informa que o peixe fora encontrado já morto. No meio do texto, a dita cuja comete um barbarismo impressionante: "tubaram".
Como na linha de baixo ela escreve a palavra corretamente, até pode ter sido um erro de menor importância e não uma assustadora convicção de que a grafia era outra. No entanto, dada a disposição das letras no teclado, não se tratou de erro de digitação. Assim, chama a atenção como a garota redigiu incorrendo no erro que apontei acima e que nunca antes vira incidir sobre um substantivo. Se bobear, ela pode até ter dúvida sobre o modo correto de escrever o nome do aludido animal marinho.
Um leitor desavisado ficará pensando que se trata de um verbo — tubar —, provavelmente coisa de surfista.
A louca do "tubaram" pode ser encontrada aqui.
Doi-me nos ossos ler obscenidades como "eles forão chamados" ou "as inscrições seram abertas". O pior é que, prestando atenção, os sons ali produzidos são parecidos, porém não idênticos. Mas num país em que não se consegue assimilar ortografia, louco será quem pense em fonética.
![]() |
| O plural de "tubaram" deve ser "tubarans"... |
Como na linha de baixo ela escreve a palavra corretamente, até pode ter sido um erro de menor importância e não uma assustadora convicção de que a grafia era outra. No entanto, dada a disposição das letras no teclado, não se tratou de erro de digitação. Assim, chama a atenção como a garota redigiu incorrendo no erro que apontei acima e que nunca antes vira incidir sobre um substantivo. Se bobear, ela pode até ter dúvida sobre o modo correto de escrever o nome do aludido animal marinho.
Um leitor desavisado ficará pensando que se trata de um verbo — tubar —, provavelmente coisa de surfista.
A louca do "tubaram" pode ser encontrada aqui.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Imagena...
Vocês sabem que eu não deixo passar, não é? Então eis o que a home page do Portal DOL está exibindo neste momento:
Até já sei porque o MPF quer anular esse contrato!
Até já sei porque o MPF quer anular esse contrato!
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Seria fácil não confundir
Acho incrível como um jornalista pode publicar uma notícia sem perceber um defeito na redação que pode comprometer a compreensão da informação. Veja-se esta manchete do Portal Uol:
Ao ler, fiquei confuso. A estranha alusão a "candidato a prefeito morto" não fez nenhum sentido. Não faz, realmente. Não existe o cargo de "prefeito morto" (seria até bom que existisse, em certos lugares...). Mas como tenho o hábito de não ler a matéria antes de compreender, por mim mesmo, o que se pretendia dizer, pensei mais um pouco e deduzi, enfim, o que o iluminado tinha em mente.
Então pensei em como evitar a confusão. Primeiro, imaginei o recurso às vírgulas: "Pré-candidato a prefeito, morto, chamou políticos de 'violentos'." Creio seja o modo mais simples. Mas vai que alguém preciosista (ou leso) entendesse que uma pessoa já morta chamou os políticos de violentos. Então pensei em "Antes de ser morto, pré-candidato a prefeito chamou políticos de 'violentos'." Ou "Assassinado o pré-candidato a prefeito que chamou políticos de 'violentos'."
Basta um pouco de boa vontade para não confundir.
Luiz Decarli Filho (62), pré-candidato à prefeitura do Município paulista de Jandira, foi assassinado a tiros ontem. Pelo visto, ele tinha mesmo razão.
Ao ler, fiquei confuso. A estranha alusão a "candidato a prefeito morto" não fez nenhum sentido. Não faz, realmente. Não existe o cargo de "prefeito morto" (seria até bom que existisse, em certos lugares...). Mas como tenho o hábito de não ler a matéria antes de compreender, por mim mesmo, o que se pretendia dizer, pensei mais um pouco e deduzi, enfim, o que o iluminado tinha em mente.
Então pensei em como evitar a confusão. Primeiro, imaginei o recurso às vírgulas: "Pré-candidato a prefeito, morto, chamou políticos de 'violentos'." Creio seja o modo mais simples. Mas vai que alguém preciosista (ou leso) entendesse que uma pessoa já morta chamou os políticos de violentos. Então pensei em "Antes de ser morto, pré-candidato a prefeito chamou políticos de 'violentos'." Ou "Assassinado o pré-candidato a prefeito que chamou políticos de 'violentos'."
Basta um pouco de boa vontade para não confundir.
Luiz Decarli Filho (62), pré-candidato à prefeitura do Município paulista de Jandira, foi assassinado a tiros ontem. Pelo visto, ele tinha mesmo razão.
domingo, 6 de novembro de 2011
O x da questão
Não quero que ninguém diga que é perseguição minha, mas aquele conhecido colunista publicou, hoje, que um certo restaurante da cidade começou a servir açaí com diversos acompanhamentos. Dentre eles, "pirarucu, xarque frito e peixe assado".
Só espero que, no restaurante, estejam servindo a coisa certa. E sem barbeiro.
Só espero que, no restaurante, estejam servindo a coisa certa. E sem barbeiro.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Uso consciente da linguagem jurídica
Este é o tipo de postagem que se sairia melhor fora do período de férias acadêmicas, quando os alunos estão (ainda) mais preocupados com as questões mundanas da vida (não é uma crítica; todos nós somos habitantes deste mundo). Mas como a ideia me ocorreu agora e eu costumo deixar de lado os temas que não desenvolvo de imediato, vamos lá.
Em maio de 1994, o Conselho de Justiça Federal publicou um trabalho intitulado "O que não deve ser dito: notas de linguagem forense e algumas observações práticas", de autoria do juiz federal Novély Vilanova da Silva Reis. Não me recordo como o documento chegou às minhas mãos, mas ele pode ser encontrado na Internet. Assim que li, passei a seguir suas diretrizes na elaboração dos trabalhos que desenvolvo. Afinal, sempre fui preocupado com precisão técnica e, acima de tudo, gosto de entender por que as coisas são como são, a fim de não me tornar uma pessoa que somente executa.
De saída, gostei de ver a apresentação, redigida pela hoje Ministra do STJ Eliana Calmon, à época juíza do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mencionando que "o consenso atual na magistratura brasileira sinaliza para a necessidade de buscar-se maior aproximação dos juízes com os jurisdicionados". Tenho cá a minha suspeita de que o tal "consenso" é mais uma visão pessoal da magistrada, que já deu mostras de sua ousadia quando assumiu a Corregedoria Nacional de Justiça, comprando briga com seus pares.
Não creio que a realidade seja como ela afirma. Pelo contrário. Mas concordo que esse deveria ser um dos maiores objetivos do Judiciário. Para implementá-lo, uma das medidas precisa ser a simplificação da linguagem jurídica, como pensam também Calmon e o juiz Novély Reis.
Referindo-se à "volúpia da palavra", o autor pondera que "por uma questão cultural, a linguagem forense é profusa e rebuscada, comprometendo a objetividade do texto". Os exemplos de abusos que ele cita merecem ser lidos, mas quem acompanha este blog deve recordar que, volta e meia, apresento aqui alguns desatinos da vida forense local (como este, este, este e este, além desta remissão). O autor informa que, durante o Fórum de Debates sobre a Justiça Federal, realizado naquele ano de 1994, foi extraída a recomendação, aos juízes, de que "utilizem, nos atos judiciais, linguagem acessível aos jurisdicionados".
Seguem-se, então, vários vícios de linguagem forense. O autor explica por que são errados ou, ao menos, inconvenientes. São informações necessárias para quem trabalha nesse meio e tem que enfrentar esses desatinos diariamente, quando não os comete. Alguns exemplos:
"Peça vestibular"
O autor sugere que se use, apenas, petição inicial — e não "peça vestibular", "peça exordial" ou "peça preambular" —, pois é esse o termo empregado pelo art. 282 do Código de Processo Civil. "Todos vão entender melhor", assevera. Pode ser. Mas é da natureza de todo escritor (e até somos levados a isso, nas aulas de redação) evitar a repetição de termos, que tornam o texto cansativo e pobre. A mim não parece problemático buscar alternativas a "petição inicial", até porque "vestibular" e "preambular" são expressões que qualquer pessoa razoavelmente educada deveria conhecer. Não as entender é um sintoma preocupante. "Exordial" é mais incomum, com certeza.
Seja como for, na hora de variar "petição inicial", é escolha do comunicador usar uma alternativa acessível ao interlocutor ou aloprar, como normalmente acontece. Caso daqueles que insistem em chamar a denúncia de "exordial increpatória".
"União Federal"
Novély Reis ensina que não existe União Federal, mas tão somente União, como sempre constou de todas as constituições brasileiras. "Federal" é a forma do Estado brasileiro, lembra ele, invocando o art. 18 de nossa Carta Política. Tem razão. Não há qualquer motivo para essa adjetivação, já que não existe outra União que não seja, justamente, a organização política da própria Nação (ou seja, o todo).
Neste particular, vale lembrar que todo mundo fala em "Constituição Federal", até para diferenciar das cartas estaduais. No entanto, a expressão é incorreta. O documento se chama "Constituição da República Federativa do Brasil" ou, simplesmente, "constituição", como ela mesma se designa. Mais uma vez, constata-se que federal ou federativa é a República, não a sua constituição. A famosíssima sigla "CF" deveria ser substituída por "CR".
"Justiça Pública"
Esta é ótima. O autor do texto afirma que tal expressão não deve ser mencionada em caso algum. Afinal, o autor da ação penal é o Ministério Público ou o ofendido. Aludir-se a uma "Justiça Pública" com função acusatória passa, ao leigo, a ideia de que existe uma justiça privada, o que não se admite.
Novamente ele tem razão. Não existe nenhum órgão chamado "Justiça Pública" e, como a palavra "justiça" se confunde com "Poder Judiciário", a conclusão elementar a que se chega é que tal órgão seria judicial, cumulando as funções de acusar e julgar — sabidamente uma das maiores excrescências de outras épocas.
Curiosamente, essa expressão injustificável continua sendo largamente utilizada no Judiciário local, a sugerir que o comunicador médio não pensa no significado daquilo que enuncia. Algo semelhante acontece com quem ainda se reporta a "promotor público", expressão há décadas substituída por "promotor de justiça".
Qualquer hora dessas, volto com outras ponderações do gênero.
Em maio de 1994, o Conselho de Justiça Federal publicou um trabalho intitulado "O que não deve ser dito: notas de linguagem forense e algumas observações práticas", de autoria do juiz federal Novély Vilanova da Silva Reis. Não me recordo como o documento chegou às minhas mãos, mas ele pode ser encontrado na Internet. Assim que li, passei a seguir suas diretrizes na elaboração dos trabalhos que desenvolvo. Afinal, sempre fui preocupado com precisão técnica e, acima de tudo, gosto de entender por que as coisas são como são, a fim de não me tornar uma pessoa que somente executa.
De saída, gostei de ver a apresentação, redigida pela hoje Ministra do STJ Eliana Calmon, à época juíza do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mencionando que "o consenso atual na magistratura brasileira sinaliza para a necessidade de buscar-se maior aproximação dos juízes com os jurisdicionados". Tenho cá a minha suspeita de que o tal "consenso" é mais uma visão pessoal da magistrada, que já deu mostras de sua ousadia quando assumiu a Corregedoria Nacional de Justiça, comprando briga com seus pares.
Não creio que a realidade seja como ela afirma. Pelo contrário. Mas concordo que esse deveria ser um dos maiores objetivos do Judiciário. Para implementá-lo, uma das medidas precisa ser a simplificação da linguagem jurídica, como pensam também Calmon e o juiz Novély Reis.
Referindo-se à "volúpia da palavra", o autor pondera que "por uma questão cultural, a linguagem forense é profusa e rebuscada, comprometendo a objetividade do texto". Os exemplos de abusos que ele cita merecem ser lidos, mas quem acompanha este blog deve recordar que, volta e meia, apresento aqui alguns desatinos da vida forense local (como este, este, este e este, além desta remissão). O autor informa que, durante o Fórum de Debates sobre a Justiça Federal, realizado naquele ano de 1994, foi extraída a recomendação, aos juízes, de que "utilizem, nos atos judiciais, linguagem acessível aos jurisdicionados".
Seguem-se, então, vários vícios de linguagem forense. O autor explica por que são errados ou, ao menos, inconvenientes. São informações necessárias para quem trabalha nesse meio e tem que enfrentar esses desatinos diariamente, quando não os comete. Alguns exemplos:
"Peça vestibular"
O autor sugere que se use, apenas, petição inicial — e não "peça vestibular", "peça exordial" ou "peça preambular" —, pois é esse o termo empregado pelo art. 282 do Código de Processo Civil. "Todos vão entender melhor", assevera. Pode ser. Mas é da natureza de todo escritor (e até somos levados a isso, nas aulas de redação) evitar a repetição de termos, que tornam o texto cansativo e pobre. A mim não parece problemático buscar alternativas a "petição inicial", até porque "vestibular" e "preambular" são expressões que qualquer pessoa razoavelmente educada deveria conhecer. Não as entender é um sintoma preocupante. "Exordial" é mais incomum, com certeza.
Seja como for, na hora de variar "petição inicial", é escolha do comunicador usar uma alternativa acessível ao interlocutor ou aloprar, como normalmente acontece. Caso daqueles que insistem em chamar a denúncia de "exordial increpatória".
"União Federal"
Novély Reis ensina que não existe União Federal, mas tão somente União, como sempre constou de todas as constituições brasileiras. "Federal" é a forma do Estado brasileiro, lembra ele, invocando o art. 18 de nossa Carta Política. Tem razão. Não há qualquer motivo para essa adjetivação, já que não existe outra União que não seja, justamente, a organização política da própria Nação (ou seja, o todo).
Neste particular, vale lembrar que todo mundo fala em "Constituição Federal", até para diferenciar das cartas estaduais. No entanto, a expressão é incorreta. O documento se chama "Constituição da República Federativa do Brasil" ou, simplesmente, "constituição", como ela mesma se designa. Mais uma vez, constata-se que federal ou federativa é a República, não a sua constituição. A famosíssima sigla "CF" deveria ser substituída por "CR".
"Justiça Pública"
Esta é ótima. O autor do texto afirma que tal expressão não deve ser mencionada em caso algum. Afinal, o autor da ação penal é o Ministério Público ou o ofendido. Aludir-se a uma "Justiça Pública" com função acusatória passa, ao leigo, a ideia de que existe uma justiça privada, o que não se admite.
Novamente ele tem razão. Não existe nenhum órgão chamado "Justiça Pública" e, como a palavra "justiça" se confunde com "Poder Judiciário", a conclusão elementar a que se chega é que tal órgão seria judicial, cumulando as funções de acusar e julgar — sabidamente uma das maiores excrescências de outras épocas.
Curiosamente, essa expressão injustificável continua sendo largamente utilizada no Judiciário local, a sugerir que o comunicador médio não pensa no significado daquilo que enuncia. Algo semelhante acontece com quem ainda se reporta a "promotor público", expressão há décadas substituída por "promotor de justiça".
Qualquer hora dessas, volto com outras ponderações do gênero.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Para onde foram os acentos?
Nos dias de minha infância, os nomes próprios, quando escritos, eram acentuados, exatamente como qualquer outra palavra. Era o tempo dos Antônios, dos Fábios, das Bárbaras, das Patrícias, etc. Mas vieram os estrangeirismos, os kk, hh, yy e outras firulas, de modo que, hoje, em qualquer rincão de meu Deus pode surgir um Prince Whellyhngtthon ou uma Khattherynne Dhayahnne. Com isso, deu-se um processo de dissociação entre nomes de pessoas e as regras da Língua Portuguesa, como se aqueles não fossem subordinados a estas.
Assim, o mundo ficou cheio de gente chamada Antonio, Vitor, Jessica, Natalia, o que exige de nós uma certa dose de condescendência, para não os chamar de Antonío, Vitor (o r, ao final da palavra, é tônico), Jessíca, Natalía, etc. É como se tivéssemos todos a obrigação de conhecer a pronúncia correta do nome, o que pode ser simples na maioria dos casos, mas como vou saber se o sujeito é Artur ou Ártur? Davi ou Dêivid? Sem acento, Pamela soa como aquele artefato no qual cozinhamos.
E com tantas barbaridades em termos de nomes de seres humanos, a preocupação é cada vez mais atual. Mas talvez as pessoas pensem que, se palavras estrangeiras devem ter respeitadas as regras fonéticas alienígenas, o mesmo deve acontecer em relação às aloprações que fizermos por aqui. O difícil é desvendá-las!
Já me perguntaram se o nome de minha filha levava acento. Respondi secamente: "Claro." Claro, ela se chama Júlia, não Julía.
Costumo dizer que um sujeito chamado Yúdice não pode criticar o nome de ninguém. Mas pelo menos o acento faz parte de minha identidade. O pouco que restou de coerência aos meus pais, antes de me condenarem no registro civil, foi empregado para acentuar corretamente a palavra.
Enfim, admito que esta seja uma questão de somenos. Mas eu realmente preciso perguntar: qual o problema de escrever o acento em cima do nome? Não custa nada!
Assim, o mundo ficou cheio de gente chamada Antonio, Vitor, Jessica, Natalia, o que exige de nós uma certa dose de condescendência, para não os chamar de Antonío, Vitor (o r, ao final da palavra, é tônico), Jessíca, Natalía, etc. É como se tivéssemos todos a obrigação de conhecer a pronúncia correta do nome, o que pode ser simples na maioria dos casos, mas como vou saber se o sujeito é Artur ou Ártur? Davi ou Dêivid? Sem acento, Pamela soa como aquele artefato no qual cozinhamos.
E com tantas barbaridades em termos de nomes de seres humanos, a preocupação é cada vez mais atual. Mas talvez as pessoas pensem que, se palavras estrangeiras devem ter respeitadas as regras fonéticas alienígenas, o mesmo deve acontecer em relação às aloprações que fizermos por aqui. O difícil é desvendá-las!
Já me perguntaram se o nome de minha filha levava acento. Respondi secamente: "Claro." Claro, ela se chama Júlia, não Julía.
Costumo dizer que um sujeito chamado Yúdice não pode criticar o nome de ninguém. Mas pelo menos o acento faz parte de minha identidade. O pouco que restou de coerência aos meus pais, antes de me condenarem no registro civil, foi empregado para acentuar corretamente a palavra.
Enfim, admito que esta seja uma questão de somenos. Mas eu realmente preciso perguntar: qual o problema de escrever o acento em cima do nome? Não custa nada!
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