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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Críticas e reações

Se eu fosse dono de restaurante e alguém escrevesse uma crítica contra o meu estabelecimento, sobretudo se contundente, a minha atitude seria usar a página do próprio restaurante para prestar os esclarecimentos devidos à comunidade e principalmente aos clientes. Além disso, exerceria meu direito de resposta, perante o veículo que tivesse publicado a crítica. E naquilo em que a critica fosse pertinente, eu teria a hombridade de me desculpar e anunciar as medidas para melhorar o serviço.

Penso que esse tipo de atitude é mais eficiente, em termos de reputação, do que deixar que as coisas corram de modo a ensejar boatos. Não foi, contudo, o que fez o dono de um restaurante da cidade francesa de Cap-Ferret, que recorreu ao judiciário contra a postagem de uma blogueira. Em consequência, o juiz determinou que Caroline Doudet mudasse o título de sua postagem e, ainda por cima, pagasse o equivalente a 4,5 mil reais de indenização.

O motivo da decisão é que a blogueira tem quase 3 mil seguidores e, quando se digitava o nome do restaurante, a postagem crítica era o quarto resultado que retornava. Assim, o restaurateur(*) se considerou prejudicado em seus negócios e exigiu providências. E conseguiu.

O caso é curioso tanto pelo ineditismo (e, convenhamos, havia justa razão para o proprietário se sentir prejudicado) quanto pelas consequências. Embora exagerando pelo uso da palavra "crime", a blogueira está certa ao dizer que foi punida não pelo texto escrito, mas por ter grande visibilidade em buscadores. No mínimo questionável. Afinal, o que deveria ser questionado é se o texto, em si, é ou não prejudicial. Porque se a manifestação é legítima, parece-me abusivo impor consequências punitivas por causa da repercussão.

No mais, até comemoro o fato de este ser um blog tão pouco lido, pois também já critiquei um restaurante aqui de Belém. Com justo motivo. E sou do tipo que defende a ideia de que mau atendimento deve ser denunciado. O objetivo não é falir estabelecimentos, mas levá-los a melhorar, se tiverem a humildade de rever seus atos. E respeitar o cliente, que é gente, e somente por isso já merece ter resguardada a sua dignidade.

(*) Breve digressão linguística: na gramática francesa, a palavra correta é restaurateur, como coloquei no texto, mas se disseminou pelo mundo a versão que inclui um "n", restauranteur, que é como provavelmente você conhece. Cf. http://grammarist.com/spelling/restaurateur/

Fonte: http://tecnologia.terra.com.br/juiz-condena-blogueira-que-aparecia-demais-no-google,5845038291447410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Uma questão de cor e mídia

Mais uma vez, dou razão ao jornalista Marco Antônio Araújo, em seu blog O Provocador (link do artigo original):

29osphx061 3omeoaoiv1 file1 Tenha medo de testemunhas, principalmente se você for negro
Já escrevi aqui, repito: tenho tanto medo da Justiça quanto de testemunhas. E o caso de Vinícius Romão de Souza está aí para comprovar minha tese: centenas de pessoas devem estar presas neste momento baseado apenas no depoimento e reconhecimento de uma pessoa ignorante e (momentaneamente?) cheia de ódio? E aposto meu salário: 99% são negros.
Vinícius só vai escapar de puxar uma cana pesada porque é ator e teve algum apoio da mídia. Devido à repercussão, a testemunha, Dalva da Costa Santos, que teve o celular roubado, “meditou” muito a respeito de sua acusação contra o rapaz e decidiu desmentir suas declarações anteriores. Ufa. Foi por pouco, não? Afinal, o ator é negro.
Fosse apenas mais um jovem trabalhador voltando a pé para casa (para economizar o dinheiro do ônibus), a chance de recuperar sua liberdade era rigoramente nenhuma. Testemunhas não voltam atrás. Para elas, basta que alguém pague pelo crime do qual foram vítimas que tudo bem. É assustador, convenhamos. Principalmente se você for negro.
Entre todas as provas, as testemunhais costumam ser as mais frágeis. O ser humano erra. Demais. E, numa delegacia, tenham certeza: policiais costumam incentivar testemunhas a reconhecer bandidos, mesmos que não sejam. Não estão nem aí. Eles estão mais interessados em concluir um caso do que em praticar a presunção da inocência. Principalmente se o acusado for negro.
Por isso, sempre que assisto testemunhas enfurecidas dando declarações sobre algum suspeito, meu cérebro entra em estado de absoluta atenção. Basta uma palavra para destruir a vida de uma pessoa. Para sempre. Pessoas foram condenadas à morte assim, para só depois se descobrir que eram inocentes. Adivinha a cor da maioria delas? Acertou.
Trabalho no Judiciário e já vi uma profusão de processos que espelham exatamente a situação do ator e vendedor Vinícius. Basta uma acusação e a cadeia é certa, inevitável e praticamente insolúvel. Não é apenas roubo, mas isto e tráfico é o mais comum. Ninguém pensa que a testemunha pode ter-se equivocado; ninguém se recorda que a vítima, nervosa e revoltada, pode ser traída pelo turbilhão emocional e pelo desejo de reparação ou mesmo de punição. São sentimentos humanos, que não recrimino. Até já passei por isso, em assalto que sofri. Meu réprobo não se dirige às testemunhas e vítimas, mas ao sistema.

Nunca soube de um delegado que tenha, procurando acalmar a vítima, ponderado se não haveria possibilidade de um equívoco. Provavelmente, o policial não considera seu dever funcional questionar, mas tão somente processar o caso, torná-lo uma acusação idônea a chegar ao judiciário. É um defeito grave, originário, porque o delegado deveria ser o primeiro a se questionar se há mesmo justa razão para a instauração do inquérito, para a prisão em flagrante, para o constrangimento de uma pessoa.

Li matéria dizendo que a vítima, após muito refletir, voltou à delegacia e admitiu o engano. O delegado responsável, então, teria admitido que a prisão era indevida, mas teria dito que, mesmo assim, Vinícius teria que responder à acusação, em juízo. Jesus Cristo, como é possível?! Uma acusação errada vira uma ação penal só para que, ao final, eu absolva o acusado?! Esse delegado parou no tempo? Esqueceu, de cara, que compete ao Ministério Público decidir se oferecerá denúncia. E caso haja denúncia, após mudança no Código de Processo Penal, hoje é possível ao juiz absolver sumariamente o réu considerando os termos da defesa preliminar.

No caso de Vinícius, qualquer coisa é abusiva. O rapaz foi preso porque a vítima o "reconheceu" a partir de duas características: cabelo black power e uma camisa preta. Oi? Nada sobre a fisionomia, voz, alguma característica exclusiva? O cabelo dele nem é grande. Se for por cabelo crespo e camisa preta, eu mesmo posso acabar preso qualquer dia desses. Embora eu seja um tanto desbotado, à noite todos os gatos são pardos. Convém não caminhar pela rua tarde da noite. Vá de carro, meu amigo. Quem tem carro é cidadão de bem.

Naturalmente, estas cautelas todas seriam desnecessárias se o suspeito fosse preso com o produto do crime. Mas Vinícius não possuía nenhum dos objetos mencionados pela vítima. Nem arma ou qualquer outro indício que pudesse relacioná-lo ao roubo. Foi, apenas, o primeiro negro com cabelo e camisa confundíveis que se avistou. Se estava às proximidades e cabia no estereótipo, era ele. Simples assim. Repito e insisto: a vítima está emocionalmente afetada. Dá para desculpá-la por suas falhas. Não podemos ter a mesma tolerância com a polícia. Ainda mais porque, segundo reportagem do G1, constou da ocorrência que o policial militar condutor do preso justificou o fato de não ter encontrado nenhum pertence da vítima em posse de Vinicius porque ele teria passado a res furtiva para uma pessoa de alcunha "Braço". No entanto, nenhuma diligência foi empreendida para checar essa informação. É sempre assim: o policial recorre a sua suposta rede de informações prévias e todo mundo acredita nele sem questionar. Com isso, qualquer inocente vira bandido contumaz e com larga rede de comparsas.

Enfim, o delegado de polícia pediu a libertação de Vinícius, que se encontra sob a humilhação e a violência do cárcere desde o dia 10. Já são 16 dias de inferno. E só vai sair porque houve mobilização em seu favor, mas não qualquer mobilização, porque muita gente que é presa também conta com isso. Só que ninguém dá a mínima. Delegado, promotor, juiz, em geral todos entendem que a alegação de inocência é mais uma malandragem do vagabundo e concordam que ele deve mesmo responder ao processo preso, porque é grande o risco de reincidência, de ações que possam comprometer a ação penal e para dar uma resposta rápida à sociedade, que fica abalada com delitos de tão extrema gravidade.

Vinícius, mesmo fulminado pelo estereótipo racista do brasileiro, ainda é um ponto fora da curva. Por ter feito um papel na Rede Globo, acreditaram quando ele alegou inocência, quando seus amigos comprovaram que ele trabalha em uma loja, onde por sinal é considerado um excelente vendedor; destacaram que ele voltava para casa a pé a fim de economizar dinheiro para um novo curso de teatro, etc. Não fosse o nome da Globo, e consequente repercussão em todos os portais de notícias, Vinícius seria apenas mais um negro alegando inocência para tapear o sistema. E talvez se dizer ator ainda o prejudicasse mais!

E ainda tem gente que menospreza e repudia o garantismo penal.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Higienização social condenada

Na minha queridíssima cidade de Florianópolis, que considero meu segundo lar, existe o bairro de Canasvieiras, uma praia famosa e bem sucedida quanto ao turismo. Mas à aproximação do verão, e consequentemente da enxurrada de turistas, eis que o blog SOS Canasvieiras decidiu "denunciar" uma suposta infestação de "ditos mendigos" na região, que estariam sendo "descartados" de outros Municípios. A "comunidade do bairro" está irritada (leia aqui) com um problema que deve comprometer sua qualidade de vida e sujar sua imagem mundo afora. Não é esse o "tipo de turista" que eles querem.

Tendo o cuidado de destacar que o aludido blog não tem procuração para falar em nome dos habitantes do bairro, não se sabendo a abrangência dessa ideia, devo dizer que valeu muito a pena ler a caixa de comentários da postagem. Até o momento, 33 comentários indignados com a postura "fascista", "nazista", "vergonhosa" e outros epítetos nada simpáticos ao blog. Houve quem os chamasse de lixo, quem os mandasse enfiar o dinheiro que possuem no trato final do reto e quem dissesse que, graças a eles, Canasvieiras agora é conhecida em toda parte de maneira repulsiva.

É um alento que a sociedade brasileira ainda fique indignada com aquilo que realmente merece causar indignação. Há salvação. Vale a pena continuar amando Florianópolis.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Um grande caminho começa com um pequeno passo

Esqueça o apelo motivacional contido na frase que intitula esta postagem. Ela é, no contexto, uma crítica.

O Blog do CJK, advogado, envolvido com a OAB e por isso sabedor do causo, noticiou que um bacharel em direito prestou uma declaração falsa à OAB no ato de inscrição. Isso mesmo: o sujeito ainda nem se tornou advogado e já tentou tapear a própria casa dos advogados. Confrontado com a mentira, saiu-se com o argumento de presunção de inocência.

Há pessoas que não compreendem bem, ou insistem em não compreender, para que foram criados os princípios e as normas de garantias. Concordo com o colega blogueiro: a Ordem deve negar a inscrição a esse infrator. Acrescento: e responder pela falsidade para, no futuro, após a reabilitação, tentar nova inscrição, dessa vez o que é certo.

Fonte: http://www.blogdocjk.blogspot.com.br/2013/11/the-end-of-picade.html

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Barba, bigode e cavanhaque

Mais de três anos atrás, publiquei a postagem "Ode ao bigode", tratando sobre uma característica masculina em franco descrédito. Naquela oportunidade, disse que um dia falaria sobre barba e cavanhaque, mas acabei não o fazendo. Nem precisarei mais. Acabei de topar com um artigo bem bacana no Obvious, no qual a autora traça uma interessante síntese sobre a evolução do uso dos pelos na cara dos homens.

Indiretamente, o assunto voltou à baila com postagem de fevereiro deste ano, criticando a proposta ridícula de estimular o body shaving. Fiquei indignado com essa babaquice de sugerir que homem deve ser depilado, por isso me senti vingado quando, na noite da entrega do Oscar, vários dos atores mais cobiçados de Hollywood compareceram à premiação adornados com vistosas barbas.

Nada de modismos influenciados por quem só quer ganhar dinheiro vendendo lâminas ou, pior ainda, estimular idiotices para nos obrigar a aceitar padrões de beleza radicais e irreais. O importante é nos sentirmos bem, naturais e à vontade.

Volta e meia estou de barba. Eu gosto.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Canicídios no Pará

Enquanto as redes sociais fervem com o caso de uma suposta política de saúde pública no Município marajoara de Santa Cruz do Arari, consistente em exterminar cachorros de rua, a jornalista Franssinete Florenzano informa que a medida não é inédita no Pará. Ela menciona dois precedentes, em Tucuruí e em Jacareacanga. Em todos os casos, a iniciativa teria sido do poder público.

Eu não entro nessa histeria pequeno-burguesa de pedir pena de morte para quem maltrata animais, ciente de que os mesmos críticos pouco se importam com o sofrimento e a morte de seres humanos pobres. Também sei que este comentário tem toda a cara de clichê, mas também é verdadeiro. Precisamos respeitar a vida dos seres humanos e dos animais, é óbvio, e não podemos tolerar nenhuma forma de violência. Justamente por isso, há que se reclamar mais atenção aos humanos que sofrem sob a invisibilidade a que foram relegados pelo conjunto da sociedade.

Independentemente disso, caso se confirme que os prefeitos ou seus prepostos determinaram a morte dos cães, estão sujeitos a processo pelo crime tipificado no art. 32 da Lei n. 9.605, de 1998 (Lei de Crimes Ambientais): "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos". A pena é de 3 meses a 1 ano de detenção, aumentada de 1/6 a 1/3 em caso de morte do animal, além de multa.

O art. 37 da mesma lei afasta a responsabilização nas hipóteses em que o abate do animal foi determinada por necessidade alimentar; para proteção de lavouras, pomares e rebanhos de animais predadores (neste caso, dependente de autorização do órgão ambiental competente); ou "por ser nocivo o animal, desde que assim caracterizado pelo órgão competente".

Esta última situação poderia ser, forçando muito a barra, a brecha para os suspeitos tentarem escapar à responsabilidade penal. Mas, a meu ver, não se sustenta. Sobre essa norma, leciona Silvio Maciel:
Essa excludente é alvo de críticas, porque segundo alguns não existem animais nocivos, já que todos possuam uma função e utilidade no sistema ambiental. Conforme o professor LUIZ REGIS PRADO, "a doutrina biológica ressalta que o termo 'nocivo' é relativo e subjetivo, pois todos os animais possuem uma função no equilíbrio do ambiente e concordam que essa terminologia deve ser revista porque são raras as espécies que, verdadeiramente, podem ser consideradas nocivas.Ademais, o simples fato de algumas espécies predadoras (v.g., jacarés, onças) atacarem o gado em fazendas (isso porque a destruição dos habitats pelo homem força esses animais e buscar alimentos em outros locais), não constitui argumento suficiente para incluí-los na lista de animais nocivos". (MACIEL, Silvio. "Meio Ambiente". In: GOMES, Luiz Flávio e CUNHA, Rogério Sanches (coord.). Legislação criminal especial, Coleção Ciências Criminais, vol. 6, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, p. 769)
Conclui-se, portanto, que a norma em apreço foi concebida para animais selvagens, peçonhentos, transmissores de doenças (como os caramujos africanos que viraram praga por aqui, lembram?). Mas mesmo assim é necessária uma avaliação expressa do caso, a ser feita pelo órgão ambiental. Não se pode simplesmente sair exterminando, ainda mais em se tratando de animais domésticos, simplesmente porque estão nas ruas. Seria necessário provocar o órgão ambiental e demonstrar que os cachorros se tornaram um problema real e grave de saúde pública, ou que enlouqueceram e estão atacando as pessoas na rua mais do que os assaltantes.

Sem isso, a situação dos acusados deve piorar. Esse o meu prognóstico.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Com crime não se deveria fazer populismo

Mas é justamente com o crime que se perpetram as maiores barbaridades em termos de populismo porque, afinal de contas, trata-se de um campo repulsivo, angustiante, e a escalada incessante da violência levou as pessoas a sentimentos de terror tão compreensíveis quanto atrozes. Nada mais previsível, portanto, que essa patuleia odiosa que é a classe política nacional se aproprie da matéria para autopromoção, escolhendo as ilusões mais palatáveis ao público comum, usualmente ignorante (no sentido de desconhecer) e preguiçoso, desinformado pela mídia frequentemente irresponsável e que se deixa dominar por emoções cada vez mais irracionais.

Nos últimos dias, o inexpressivo Geraldo Alckmin, atual governador daquele Estado tão pródigo em boas escolhas eleitorais, decidiu encorpar a sua candidatura à presidência da República dentro do próprio partido, ganhando a mídia com discursos que podem torná-lo queridinho da massa de manobra popular. A estratégia escolhida não poderia ser outra: o crime. Dentre as alternativas, optou por uma particularmente adorada pela turma da lei e ordem: a redução da maioridade penal ou, mais genericamente, o aumento da repressão aos jovens delinquentes.

Enquanto penalistas sérios, como Cézar Roberto Bitencourt, propõem que os adolescentes entre 16 e 18 anos sejam passíveis de uma responsabilização sui generis, no meio termo das atuais medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente e da repressão ordinária do Código Penal, Alckmin propõe o aumento do prazo máximo de internação, de 3 para 8 anos, dentre outras medidas. Vale ressaltar que Bitencourt tem décadas de experiência na área e fez sua proposta como estudioso do direito penal, sem ser candidato a coisa alguma. Sua proposta não é nenhum primor, até porque se conserva na matriz punitivista, mas ao menos é uma proposta mais refletida e isenta, ao contrário da engenharia tucana, que tenta no afogadilho catapultar votos para os autoproclamados melhores gestores do país.

Pode não fazer muita diferença agora que o Código Civil até já foi modificado, mas o motivo para que a internação durasse no máximo três anos era a diferença entre a maioridade penal (aos 18) e a civil (aos 21, até 2002). O adolescente que cometesse um ato infracional grave nos últimos minutos antes de completar 18 poderia, assim, ficar internado por até três anos, mantendo-se a distinção de tratamento entre o relativamente incapaz e o capaz para as obrigações da vida civil. Poderia não ser uma solução excelente, mas ao menos possuía uma lógica; não era uma ideia tirada do éter ou um número escolhido no par ou ímpar.

Eu me pergunto, diante da proposta tucana, por que oito anos? Por que não cinco, seis, dez? Qual a explicação para manter, sob internação, um indivíduo até seus 26 anos de idade? É um número cabalístico, por acaso? Não deve ser porque, lembremos, Alckmin é membro da Opus Dei.

As perguntas se sucedem. Os autores da proposta consideraram que a internação, nos precisos termos do ECA, possui prazo máximo, porém não mínimo e que há necessidade de reavaliar o socioeducando periodicamente? Se ampliamos a duração da medida, obviamente aumentamos a demanda por essas avaliações, num país em que faltam profissionais para um trabalho tão delicado. Isso não poderia tornar ainda mais precário o sistema de enfrentamento da delinquência juvenil? Alguém pensou nisso?

Faz só um dia que descobri que a filha do governador paulista, Sophia Alckmin, declarou ter doado uma bolsa Prada para a caridade. E a explicação dada foi de matar: veja você mesmo neste link, por sinal da VejaSP, que tem tudo a ver com os tucanos. Um blog de humor bem bacana que acompanho aproveitou para tirar um sarro que, no contexto, era até um dever cívico. Daí me ponho a matutar se falar besteira, falar sem pensar, ter ideias esdrúxulas e achar que está inventando o fogo e a roda não seriam, talvez, de fundo genético.

Não sei se a jovem Sophia conseguirá tornar-se uma celebridade e se Geraldo conseguirá emplacar seu nome perante o próprio partido, que parece ter outras preferências. Mas eles já estão mostrando a que vieram, cada um com suas armas. Só consigo me recordar das palavras de Lênio Streck: vou estocar comida!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Tecnicalidades da execução penal

A partir da sentença imposta ao ex-goleiro Bruno Fernandes, há algumas horas — e é sempre bom explicar um assunto, em sala de aula, usando um caso concreto e conhecido de todos; os alunos tendem a se interessar mais e se sentem mais confiantes em relação ao aprendizado , o blog Para entender Direito publicou uma postagem analisando a estranha afirmação, feita pelo defensor do réu, de que em menos de 3 anos este poderá progredir para o regime semiaberto.

Na postagem, analisam-se detalhadamente os procedimentos de cálculo do tempo de progressão de regime. Muito útil para os estudiosos da matéria, especialmente para os estudantes de Direito Penal II. De quebra, acabei ganhando uma explicação para a mania irritante que os desavisados possuem de gritar aos quatro ventos que, no regime semiaberto, o apenado fica livre durante o dia e apenas se recolhe para dormir, o que não verdade são características do regime aberto. Veja:

Juristas de São Paulo e Rio de Janeiro estão acostumados a verem o regime semiaberto como o momento em que o condenado passa a circular pelas ruas. Isso porque, nesses dois Estados, há poucas colônias (para cumprimento do regime semiaberto) e casas de albergados (para cumprimento do regime aberto). O condenado não pode ser prejudicado pela inação do Estado. Logo, a Justiça acaba concedendo a liberdade condicional. Na prática, o condenado vai do regime fechado direto para as ruas.
Como os brasileiros de certas regiões do país sofrem de um problema gravíssimo de egolatria e só enxergam os próprios umbigos, os juristas de lá acabaram tomando uma característica local (por sinal decorrente de falhas do sistema) como regra e se convenceram de que a coisa é como eles veem. Mas a verdade é que, no regime semiaberto, o apenado continua preso, apenas é transferido para uma casa penal cuja estrutura é menos opressiva, relaxando um pouco as regras de disciplina e adquirindo acesso, supostamente, a novas atividades para passar o tempo. Mas as saídas para o trabalho ou estudo externo dependem de condições específicas, previstas na Lei de Execução Penal, e que não se aplicam a todos indistintamente.

Critico o texto, no entanto, na parte em que faz esta afirmação: "Um dos pontos mais frustrantes para os estudantes de direito é que ele não é uma ciência exata."

Não duvido que muitos acadêmicos se sintam assim. A busca de segurança e solidez de respostas em âmbito acadêmico (e até fora dele) é uma inclinação das pessoas. Mas a ausência de exatidão não é um defeito do direito, como o texto dá a entender; ao contrário, é o que torna desafiante e belo. Se um conjunto de regras o mais das vezes artificiais fosse ainda por cima exato, o direito seria uma grande porcaria, chato ao extremo. Felizmente, essa exatidão nem sequer é possível.

Aliás, a exatidão não existe, como muitos pensam, nem nas ciências exatas. Estas também são muito mais ricas e variadas do que supõem as pessoas que abrem a boca para fazer comentários toscos como "direito não é matemática". Quer irritar a minha esposa? Diga uma bobagem dessas para ela.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vá chafurdar no lixo! (parte 2)

O blog Para entender Direito publicou uma análise muito interessante sobre o mais recente episódio de destempero do Ministro Joaquim Barbosa, do STF. Achei lúcidas as ponderações, por isso as compartilho. Leia clicando aqui.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pena de morte nossa de todo dia

O blog do Provocador foi preciso quanto à pena de morte que, vedada pela nossa Constituição, é largamente praticada pelas polícias. Ainda que esteja longe de ser uma abordagem inédita, valeu a reflexão e os números apresentados, que sempre ajudam a ter maior compreensão do problema.

Além do mais, ele não disse, mas não poderia esquecer os linchamentos, essa hedionda pena de morte que o cidadão comum realiza e ainda por cima se regozija. Além da compreensão.

quinta-feira, 29 de março de 2012

De quem é a vulgaridade?

Luiza Duarte Leão, comentarista da maior categoria, não concordou com as ideias que sustentei na postagem "Mulheres autoafirmadas de hoje". E formalizou sua contrariedade em um texto, como sempre lúcido e reflexivo, que você pode ler aqui.

Não é todo dia que discordamos com elegância e conteúdo. Aliás, como deixei registrado na caixa de comentários do blog da Luiza, o reproche me levou a encarar o tema sob um aspecto que simplesmente não passara pela minha cabeça antes.

Dei alguma razão a ela, mas persisto em minhas valorações.
Resulta daí que achei importante compartilhar a réplica. Quem sabe vocês nos ajudam a encontrar um denominador comum?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Utilidade pública

A equipe do @belemtransito, que já prestava um relevante serviço ajudando as pessoas a se locomover nesta cidade repleta de engarrafamentos e outros entraves à circulação, está evoluindo e agora ajuda a encontrar carros roubados.

Parabéns a eles. Sorte a nossa que existe gente comum, bons munícipes preocupados em auxiliar os concidadãos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Aquarelas

Artur Dias, gentil habitué aqui do blog, acabou de criar o seu próprio, Aquarela e Nanquim, a fim de divulgar a sua arte, para a qual é autodidata.
Ao lado, a retratação de um cumulus nimbus, uma das imagens já publicadas.
Disse a ele que uma de minhas frustrações pessoais é não saber desenhar, atividade que me parece muito relaxante e seria bastante útil no blog. Além de render oportunidades artísticas e profissionais. Dentre as diversas técnicas de pintura, sempre nutri uma afeição especial pela aquarela, que dissolve os pigmentos em água (daí o nome), gerando esse efeito delicado, com nuanças de cor. Acredita-se que a aquarela tenha surgido na China, há mais de 2000 anos.
Agora temos mais um blogueiro para acompanhar, com suas belas imagens.
Parabéns, Artur.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Transporte perigoso

Eu não ia voltar, mas topei com uma oportuna postagem no Militância da Civilização, que andava paradão. Mas a minha querida Wirna Cardoso voltou à carga e fez algo louvável: inquieta com uma cena que viu, foi-se informar e descobriu algo que as pessoas em geral deveriam saber: que o transporte de botijões de gás naquelas gambiarras afixadas a motocicletas foi proibido recentemente, porque é realmente perigoso, já havendo inclusive acidentes fatais.
Vá lá se inteirar melhor. Obrigado, Wirna.

domingo, 28 de agosto de 2011

Uma outra Belém

O Blog do Flávio Nassar sempre nos proporciona matérias interessantes. Desta vez, apresenta-nos um vídeo com imagens de Belém nos anos 1970. Graças a ele, pude ver imagens das ruínas do Murutucu, já que de outro modo não há como vê-las. Escrevi a respeito em novembro de 2009 e minha promessa de vingança acabou frustrada, já que ninguém se responsabiliza pelo espaço e não temos acesso a ele, pois teoricamente só podemos entrar mediante autorização e nenhum dos órgãos consultados sabe se tem essa autoridade ou não.
Vemos, também, uma cidade antes da macrodrenagem da bacia do Una, com suas palafitas, com seus calhambeques, Fuscas e Brasílias (o que quase dá no mesmo), seus moradores usando calças compridas e camisas de botão, suas crianças brincando na rua e a Pedra do Peixe funcionando a pleno vapor. A Belém de então não era a pátria do setor supermercadista, onde hoje se compra quase tudo.
Enfim, um mundo que aos poucos vai-se perdendo e se tornando surreal. Gostei de ver o vídeo. E de saber que, no passado, os jovens escutavam canções sobre estudar História. Além disso, ficamos sabendo que Amy Winehouse não foi nada original em sua maquiagem de olho egípcio.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

De onde vem o mal?

Recomendo a leitura de mais uma profunda reflexão do Sandro Simões, em seu Scripta manent. A questão agora é sobre as origens da maldade humana.

domingo, 19 de junho de 2011

Domingo morto

Uma tentativa frustrada de ir ao cinema me levou ao computador. Hábito natural, fiz uma rondinha pelos blogs que costumo visitar. E não é que está tudo parado?
O domingo acerta as pessoas de jeito...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Blogger fora do ar

Eu até tentei postar hoje e, de certa forma, até precisei disso como terapia, algo assim, mas o Blogger não deixou. Somente agora ele voltou a funcionar. Qualquer hora dessas, uma postagem.