Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de julho de 2020

A beleza da resiliência

Eu realmente não gosto de música em estilo gospel. Todavia, durante a temporada 2018 do reality The voice, o original, o cantor Kaleb Lee interpretou "It is well with my soul". Foi quando conheci a canção e ela realmente me cativou. Talvez porque estar com a alma em paz seja uma tarefa tão urgente quanto difícil de realizar.

Passado todo esse tempo, digitei o título da canção no Google para ver o que aparecia e me deparei com a narrativa de sua origem na Wikipedia. Fiquei arrepiado.

O poema foi composto pelo advogado presbiteriano Horatio Gates Spafford (1828-1888) em 1873 e recebeu a melodia criada por Phillip Bliss em 1876. Trata-se de uma composição antiga, portanto muito anterior à mercantilização da religião. 

Sua origem tem a ver com uma sucessão de tragédias vividas por Spafford, iniciadas com a morte de seu filho (1871). Naquele mesmo ano, o "Grande incêndio de Chicago" consumiu todo o investimento que ele fizera em imóveis na cidade, arruinando quase que totalmente as suas finanças. Em 1873, eclodiu grave crise econômica. Naquele ano, Spafford decidiu passar férias com a família na Inglaterra, mas mandou esposa e filhas na frente, ficando para resolver compromissos. O navio SS Ville du Havre abalroou outra embarcação e foi a pique, matando 226 pessoas, inclusive as quatro filhas do casal (Anna, Margaret, Elizabeth e Tanetta). Anna Turbena Larsen, sua esposa, sobreviveu. Spafford então viajou para encontrá-la e, quando seu navio passava próximo ao local onde as filhas morreram, ele compôs o hino de confiança em Deus.

Os Spaffords seguiram a vida e tiveram outros três filhos, sendo que o menino Horatio morreu de escarlatina aos 4 anos. A família emigrou para Jerusalém em 1881, com amigos, e lá fundaram a Colônia Americana, uma organização filantrópica plurirreligiosa. Durante a I Guerra Mundial, exerceram um intenso serviço de assistência aos pobres.

A canção aqui referida, sendo uma composição centenária, já teve inúmeras gravações (e sofreu alterações no texto original). Abaixo, ofereço uma execução de grupo vocal, que achei muito condizente com o tema espiritual. No mais, a resiliência é mesmo uma capacidade bela e poderosa, que traz grandes benefícios aos que conseguem alcançá-la.


When peace like a river
Attendeth my way
When sorrows like sea billows roll
Whatever my lot
Thou hast taught me to say
It is well, it is well with my soul

It is well (it is well)
With my soul (with my soul)
It is well, it is well with my soul

And Lord haste the day
When my faith shall be sight
The clouds be rolled back as a scroll
The trump shall resound
And the Lord shall descend
Even so, it is well with my soul

It is well (it is well)
With my soul (with my soul)
It is well, it is well with my soul

It is well, it is well with my soul

A versão de Kaleb Lee, que me apresentou a canção: https://www.youtube.com/watch?v=x2-qwjCZUx4

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Juízo final

Em 1973, o sambista carioca Nelson Cavaquinho (1911-1986) lançou seu terceiro álbum, que levava o seu nome. Ali estavam reunidos seus trabalhos que se tornaram mais célebres. A faixa de abertura era Juízo final, uma parceria com o compositor Élcio Soares.

Dois anos mais tarde, a grande Clara Nunes (1942-1983) gravou a canção em seu álbum Claridade, que se tornou o seu maior sucesso comercial. Há quem considere a gravação de Clara a versão definitiva desse belíssimo samba, que ao longo dos anos ganhou inúmeras releituras, nas vozes de diversos artistas. Ao que parece, a letra simples e curta era realmente inspirada e inspiradora.

Como no Brasil da década de 1970 não existiam videoclipes, compartilho um registro televisivo em que Clara Nunes divide o palco com Alcione (1979), a fim de lhes oferecer uma perspectiva dessa versão mais elogiada:



O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer

Mais de quatro décadas se passaram e eis que, de repente, o clima difícil e em muitos sentidos adoecido experimentado por este país inspirou outra artista a regravar a famosa canção. Ninguém menos que a nossa mulher do fim do mundo, Elza Soares, recém entrada em sua nona década de vida, acabou de lançar o single com a sua versão de Juízo final. Na verdade, graças ao YouTube fiquei sabendo que La Soares interpretou esta canção há dois anos, em dueto com a cantora Pitty, com arranjo orquestrado, durante homenagem a Marielle Franco, àquela altura assassinada há três meses. Novidade, portanto, é uma gravação em estúdio.

Puristas e chatos (o que dá basicamente no mesmo) podem desgostar e reclamar, mas nossa grande diva seguiu os caminhos trilhados em seus últimos discos e modernizou a canção, baseando-a no rock e enchendo-a de enfeites eletrônicos. De quebra, ainda veio com um videoclipe animado muito bacana.

Eu adorei e, honestamente, que me perdoe Clara Nunes, a versão atual tem mais a ver comigo. E é preciso coragem para bulir tão drasticamente com um clássico desse porte. Com vocês, um novo Juízo final:


De novo e como sempre, parabéns, Elza.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Esses homens problemáticos

É difícil emitir opinião sobre Chico Buarque, eis que se trata de um ícone da música brasileira, pertencente ao mais inequívoco primeiro escalão. Um compositor genial, sem dúvida, de cuja voz eu particularmente não gosto, assim como de sua evidente desafinação. Mas os fãs berram de volta que essa é justamente a beleza de seu canto e que algumas canções ficam bonitas justamente assim. Enfim, gosto não se discute. Há, também, a questão política, dada a amizade histórica do cantor com o PT, e particularmente com Lula, sendo ele um dos nomes que viveram e enfrentaram, com sua arte, a ditadura. Esta questão o expõe à execração da onda direitizadora que estamos vivendo.

Mas hoje não me interessa o Chico Buarque político. Quero me concentrar apenas no artista, que há alguns dias lançou um single: "Tua cantiga", o qual provocou grande repercussão no público, já que estamos falando de Chico Buarque. Trabalho inédito, autoral, bem ao estilo do compositor. Um delírio para os fãs. Quando li que era uma parceria com Cristóvão Bastos, coautor de "Todo o sentimento" (1987), fui logo escutar. Afinal, sou apaixonado por "Todo o sentimento", especialmente quando interpretada por Verônica Sabino.



Escutei "Tua cantiga" e pensei: "Ah, legal. Interessante". E só. Não tem a força da irmãzinha citada no parágrafo anterior. A mim, particularmente, incomodou a melodia minimalista (que a jornalista Maria Carolina Maia classificou como "agradável, mas quase anódina"1). Então passei a prestar atenção à letra, pois sou um sujeito que só gosta de uma composição se a letra me diz alguma coisa. Esse papo de música legal, "boa para dançar", mas com conteúdo estúpido, fica para um campo popularesco/industrializado do qual quero distância.

A primeira coisa que me passou pela cabeça ao ler a letra de "Tua cantiga" foi a lembrança da enxurrada de críticas sofridas por outro ícone da música brasileira: Roberto Carlos. Não, eu não quero colocar Chico Buarque e Roberto Carlos no mesmo quadrado. Sei que eles se movem em setores distintos da música. Mas a questão é que, em 2012, quando RC lançou "Esse cara sou eu" ― que ganhou o Grammy Latino de melhor canção brasileira e foi tema de protagonistas de novela global, do horário nobre, e por isso tocava nas rádios o tempo inteiro ―, um povo aí recorreu até à psicologia para analisar a letra da canção e traçar um perfil do personagem ali retratado. Machista perigoso é pouco.


Em uma busca rápida pela internet, podemos resgatar artigo da Revista Fórum2, segundo o qual: "Na música do Roberto Carlos, a princípio, a gente pensa que o tal 'cara' é alguém atencioso, alguém preocupado e gentil. Só que nessa atenção escondem-se alguns aspectos interessantes do que a sociedade espera de uma mulher, de um homem e do relacionamento entre os dois." Segundo o artigo, o protagonista da canção é extremamente possessivo e a ideia de posse coisifica a mulher. Esta é a criatura frágil, que precisa de um heroi para protegê-la e, com isso, reforça-se a heteronormatividade social. Mas tudo isso é vendido sob a capa de cavalheirismo, portanto o sujeito aparece como alguém bom; logo, a mulher deve ser grata a ele. Deve corresponder a suas expectativas. O problema é o que ocorre quando a mulher não corresponde às expectativas de seu companheiro.

Em uma linha mais lúdica, mas nem por isso descartável, temos a análise abaixo3:



Como podemos ver, a análise aponta para uma personalidade enfermiça e um possível relacionamento assimétrico e destrutivo, daí a recomendação para fugir de um cara assim. O pior é que, lendo, faz todo o sentido. E, para Roberto Carlos, o pior é que sua obra é construída exatamente sobre esses parâmetros; não é algo eventual, mas constitutivo do pensamento do autor.

E aí voltamos a Chico Buarque. Se aceitamos a crítica contra o cara de Roberto Carlos, como passar em branco o apaixonado de Buarque?

O sujeito é claramente um doente emocional. Com a autoestima no chão, acredita que sua função é fazer a felicidade da mulher amada, mesmo que ao preço de se comportar como um capacho ("e de joelhos vou te seguir") e de causar danos a terceiros. O que esperar de um sujeito que se dispõe a largar mulher e filhos, mesmo ciente de que isso seria um capricho da amada? Meu pai largou mulher e filhos por um rabo de saia. Desculpe, mas eu não vejo nada de bonito nesse personagem aí. Achei um tremendo feladiputa.

Sabemos que a obra de Buarque tem um olhar feminino, de empoderamento e valorização da mulher. Mas veja essa proposta: "Na nossa casa/ Serás rainha/ Serás cruel, talvez/ Vais fazer manha/ Me aperrear/ E eu, sempre mais feliz". Se fosse um homem dominando, todo mundo criticaria. Mas porque é uma mulher vamos achar fofo? Eu não achei. O sujeito se dispõe a sofrer pelas vilanias da amada e acredita que assim será progressivamente feliz. Isso é transtorno mental. Síndrome de Estocolmo, no mínimo. No mais, assim como em Roberto Carlos, também existe a promessa de satisfação sexual como sustentáculo da relação.

Mas convém não romantizar o homem que, no cotidiano, arrasta a bunda por uma mulher. Ele continua sendo um produto de uma sociedade patriarcal. O aviso está dado: "Entre suspiros/ Pode outro nome/ Dos lábios te escapar/ Terei ciúme/ Até de mim/ No espelho a te abraçar". Ele sofre de ciúme patológico. É esse tipo de cara que comete feminicídio e acha que isso é amor.

Enfim, uma canção é uma canção. Pode ser apenas arte, a visão de um artista específico. Ou pode ser que esse artista, inserido em um contexto, cante as ideias de seu tempo. Por isso, convém questionar se o empoderador feminista que vive em Chico Buarque não estaria prestando um desserviço às mulheres, enquanto elas suspiram por seus olhos azuis e suas palavras rasgadas ― as armadilhas do amor romântico.

__________________________
1 Cf. http://veja.abril.com.br/entretenimento/chico-buarque-lanca-samba-soft-tua-cantiga-do-cd-caravanas/#
2 Cf. http://www.revistaforum.com.br/ativismodesofa/2012/12/11/o-machismo-por-tras-da-musica-esse-cara-sou-eu/
3 Encontrei neste endereço: https://futerock.files.wordpress.com/2012/11/anc3a1lise-o-cara.jpg, mas existe em outros lugares.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Uma verdade para Isabela

Você conhece o filme Philomena? Lançado em 2013, sob a direção do respeitável cineasta Stephen Frears (de Ligações perigosas), baseia-se na história real de Philomena Lee que, quando adolescente, engravidou e foi, por isso, demonizada pela família. Sua punição foi a internação em uma instituição católica onde a madre superiora, provavelmente imbuída das melhores intenções, vendia os filhos das internas, inclusive para casais de outros países. O filho de Philomena foi vendido para americanos. O filme retrata o seu esforço, cinco décadas mais tarde, para encontrá-lo. Quem a auxilia é um jornalista meio decadente e bastante mal humorado, que aceita a missão a contragosto e quer uma história para a BBC.

Embora definido como "comédia dramática", classificação que não me cai muito bem, Philomena trata de temas difíceis e revoltantes. Qualquer pessoa com sangue nas veias sentirá raiva. E o jornalista Martin Sixsmith sente muita raiva quando a verdade vem à tona. Furioso, quer que as freiras sejam entregues à justiça, a que se opõe Philomena. Ele brada: "As pessoas precisam saber o que aconteceu aqui!" E Philomena, com firmeza e doçura, redargue: "Aconteceu comigo!"

Incrível como essa cena me causou um profundo impacto. Naquele instante, vendo um filme em casa, surgiu em mim uma memória-base (agora estamos em Divertida mente). Aprendi que não devemos usurpar o protagonismo de outras pessoas, nem mesmo em nome de um suposto senso de justiça. Aquilo que, no popular, definimos como "ser mais realista do que o rei". Precisamos respeitar as emoções daqueles que efetivamente viveram os dramas. Por isso, hoje me incomoda profundamente que o monopólio da jurisdição, característica do Estado moderno, implique o confisco do conflito, como muito bem explica, dentre outros, Gabriel Ignacio Anitua em seu excelente História dos pensamentos criminológicos.

Mas se devemos nos esforçar para que os conflitos sejam mantidos sob as rédeas de seus próprios personagens, qual deve ser o nosso papel enquanto observadores externos? Será que, em nome da justiça, devemos intervir no que não é da nossa conta? Para mostrar, talvez, que somos nobres? Isso não seria basicamente o mesmo que fizeram as freiras irlandesas traficantes de crianças, convencidas de que uma criança seria mais feliz com pais adotivos clandestinos do que com a mãe verdadeira, sendo ela uma decaída? Ou não seria a mesma coisa porque, enfim, nós estamos certos?

Toda esta reflexão surgiu de um acontecimento aparentemente prosaico, do qual tomei conhecimento pelo Facebook: a moça que usou aquela rede social para dar uma dica, para uma mulher desconhecida, sobre um possível adultério.


A postagem viralizou. De repente, mulheres na minha linha do tempo passaram a repercutir o alerta em nome, veja só, da necessidade que as mulheres têm de se ajudar, algo que está no discurso do empoderamento feminino contra a violência de gênero, a cultura do estupro, etc. Ou seja, uma agenda importante do feminismo foi suscitada para justificar algo que soa a uma simples delação. Daí eu me pergunto: combater a "traição" se equipara àquelas outras lutas?

Pessoalmente, acho que todo mundo tem direito à verdade. Contudo, não entendo que seja meu o papel de porta-voz. Claro, já escutei que penso assim porque sou homem e, no fundo, minimizo a traição masculina; que estou sendo omisso por empatia com o traidor; que se fosse o contrário eu estaria criticando a mulher, etc. Todo um conjunto de julgamentos baseados em nada de concreto, apenas porque eu havia dito que, se tomasse conhecimento do adultério praticado por um amigo, não o revelaria à parte prejudicada. Motivo alegado na época: se o casal se reconciliar, eu serei o único vilão da história. Um tribunal de exceção julgou todo o meu caráter a partir de uma única alegação.

A bem da autora da postagem, destaco que ela não pediu repercussão de seu texto. Não pediu que a ajudassem na divulgação. Apenas deu o recado e concluiu com um "de nada", denunciando que ela acredita mesmo ter feito algo de valor. Mas o ambiente da Internet se encarregou do resto. Aparentemente, muita gente assumiu a bandeira de chegar à moça que está sendo traída, para que ela possa ser iluminada com a verdade e exercer a sua justiça, que só pode ser a punição do adúltero.

O interessante é que ninguém sabe se existe mesmo um adultério. Quem sabe o fulano não estava apenas contando vantagem para um amigo, a fim de parecer mais macho do que é? Ou se tratou como realidade algo que é mera fantasia? Aqui, cabe todo tipo de especulação. E se ele mantém um relacionamento aberto com a tal Isabela? O fato é que, qualquer hora dessas, alguma Isabela por aí pode enquadrar o namorado, haja ou não motivo para isso. E mesmo que haja, qual é o nosso papel nessa história? O meu? O seu? Nós realmente precisamos fazer essa campanha? Viramos os guardiões da monogamia? Uma versão cibernética das carolas de igreja que defendiam a moral e os bons costumes? No entanto, em nome de nossa honra, não somos as múmias da moral e dos bons costumes e sim os paladinos do empoderamento feminino, então isso justifica tudo. Será?

Pode me acusar de machismo, mas realmente acho que essa atitude é uma variação do punitivismo de esquerda, ou seja, uma deturpação da ideia de que as minorias devem ser auxiliadas a assumir o protagonismo de suas existências. Sempre voltaremos ao mesmo dilema ético: quem nos salva da bondade dos bons? Você quer ser salvo?

De minha parte, só revelaria um adultério mediante três condições: se tivesse plena certeza de sua materialidade, preferencialmente com meios de prova; se tivesse uma relação muito próxima com os dois envolvidos (abstraindo o outro ou outra); e após dar ao "traidor" a oportunidade de resolver a questão pessoalmente, para não confiscar alguma parcela do conflito. Do contrário, estaria interferindo em aspectos de um relacionamento que não posso conhecer, simplesmente porque não faço parte dele. Estaria afetando a vida privada de alguém em nome de sentimentos que, talvez, escavando bem fundo, possam ser descobertos como uma necessidade egoísta de autovalorização e não como um suposto desejo de ajudar alguém.

Enfim, não há respostas simples. Concluo com Renato Russo, na canção "L'avventura":

Nada é fácil
Nada é certo
Não façamos do amor
Algo desonesto

____________________________
Saiba mais: http://g1.globo.com/pop-arte/oscar/2014/noticia/2014/02/mulher-que-inspirou-filme-philomena-e-recebida-pelo-papa-francisco.html

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Loucura: amor, saudade, ciúme, despeito e outras humanidades

Dia desses comprei o CD Loucura, com releituras de Adriana Calcanhotto para canções do famosíssimo cantor e compositor porto-alegrense Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Não é preciso muito para eu comprar um disco de Adriana, já que é minha cantora/compositora favorita. Dona de uma voz peculiar, aveludada, e de um estilo curioso, que às vezes a aproxima da Família Addams, neste trabalho ela se permite ser intérprete, sem perder o seu senso de humor muito próprio, seja na escolha do repertório, que inclui o Hino do Grêmio, seja no modo como apresenta os músicos que a acompanham.

Lupicínio Rodrigues é um ícone de sua geração. Um dos grandes luminares da música brasileira de antigamente, cantava os sentimentos da gente simples, da gente verdadeira, que não tem muito de bens materiais, mas cujo coração pulsa com a força de diversos sentimentos, nem todos bons. Daí que suas canções constituem arrebatadoras declarações de amor, mas há muito de rancor, de ódio, de inveja, de ciúme. Aliás, a canção "Vingança" é, provavelmente, uma das mais perfeitas traduções de ressentimento por um relacionamento fracassado.

O disco, lançado em 24 de julho deste ano, é o primeiro trabalho de Adriana após a viuvez. Sua esposa, a cineasta Suzana de Moraes, faleceu no último dia 27 de janeiro, após mais de 25 anos de uma união honesta e monogâmica que faria corar de vergonha os patéticos homofóbicos que hoje dominam a cena internética e política. Por isso mesmo, ao escutar aqueles versos tão doridos, não pude deixar de pensar em como a cantora se sentiu ao entoar palavras como estas, da canção "Homenagem":

Levem estas flores pr'aquela que agora deve estar chorando
Por não poder estar neste momento aqui junto de mim
Pra receber estas honras que a outra está desfrutando
O nosso amor clandestino é que obriga a vivermos assim
Levem estas flores
E digam pra ela ficar me esperando
Que no que termine a festa eu irei abraçar meu amor
Pois apesar de não sermos casados
É quem me inspira e está sempre a meu lado
Me acompanhando nas horas difíceis, nas horas de dor


O projeto rendeu um belo show, gravado em Porto Alegre, cidade natal da homenageante e do homenageado. Esse concerto virou o disco e um DVD. Como se pode ver na imagem ao lado, Adriana aparece vestida a rigor, como um homem, em um cenário que lembra um bar ou talvez um cabaré, estabelecimento comum na vida dos homens do tempo de Lupicínio. A voz doce e triste ponteia as letras profundamente sentimentais e encontram o coro do público na conhecidíssima e terna canção "Felicidade".

Para quem gosta do estilo, recomendo muito. É possível que até o seu cotovelo doa. Contudo, é mais provável que a sua alma voe.

domingo, 22 de novembro de 2015

Luz negra

A pessoa mais pé-no-saco do mundo provavelmente é aquela que desponta como protagonista da belíssima composição de Nelson Cavaquinho, "Luz negra".

O sujeito é tão babaca que se atreve a proclamar que ninguém no mundo sofre mais do que ele. Fome, doença, guerra, injustiças as mais dantescas... nada disso é páreo para a extrema dor de cotovelo desse egocêntrico sem o menor traço de maturidade. Fico me perguntando se ele realmente acha que conseguirá despertar a simpatia de seu interesse amoroso demonstrando um temperamento tão depressivo e descontrolado.

Mas um sujeito como eu, no fundo, consegue entender como é que alguém se torna tão desequilibrado a esse ponto. E talvez por isso eu goste tanto dessa canção, inclusive interpretada na graciosa e convincente versão de Cazuza (aqui o vídeo do YouTube), gravada no programa Chico & Caetano, da TV Globo (1986), em cuja voz eu a escutei pela primeira vez.

Veja o tamanho da doença:

Sempre só
Eu vivo procurando alguém 

Que sofra como eu também
Mas não consigo achar ninguém

Sempre só
A vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim

Tô chegando ao fim

A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou representando o papel
Do palhaço do amor

Sempre só
A vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Eu tô chegando ao fim

Eu tô chegando ao fim...
Eu tô chegando ao fim...

Eu tô chegando ao fim...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Entre caranguejos, amigos e lembranças

Somos uma família que recebe. Minha mãe se tornou uma pessoa dessas que sentia falta dos amigos e, vez por outra, inventava um almoço sem nenhum motivo além de reunir aqueles de quem se gosta. Sua casa era, de certa forma, um ponto de encontro. Houve épocas em que estranhávamos se não aparecia ninguém para almoçar por três, quatro semanas consecutivas.

A verdade é que minha mãe era um elemento agregador. Mesmo que fossem os amigos dos filhos, ela era o amálgama da casa, para tudo. Houve quem nos dissesse, durante os funerais, "não se esqueçam de nós", justamente pela percepção de que, sem ela, estaremos mais dispersos. A partir de sua ausência, portanto, tornou-se difícil pensar na ocorrência desses encontros, mesmo que todos saibamos o quanto eles são importantes para todos nós.

Ontem, pela primeira vez em algumas semanas, tivemos um encontro desses. E ele surgiu de maneira absolutamente espontânea. Minha esposa e tia, irmã de minha mãe e que com ela morou desde os 10 anos, decidiram comer caranguejo. Era apenas o nosso almoço de domingo, mas elas decidiram convidar duas pessoas muito próximas, que também apreciam a iguaria. Isso implicaria em dois maridos e duas crianças. Então mencionei uma família querida, que já vinha demandando se reunir a nós, justamente os amigos que estiveram conosco em Mosqueiro, no dia 27 de setembro, o último momento feliz de minha mãe.

Acabamos então com 12 visitantes para o almoço, compartilhando caranguejos graúdos, saborosos e cuja carne se soltava facilmente, um feijão maravilhoso, carne para as crianças, sobremesa. Apenas mais um almoço típico em nossa família. Mas era diferente, pela ausência, dura como rocha.

Anos atrás, tomei conhecimento de um samba famosíssimo, gravado por vários artistas conhecidos de antigamente, tais como Elizeth Cardoso, que o popularizou, Nelson Gonçalves e Clara Nunes. Chama-se "Naquela mesa". Informa-me a Wikipedia que se trata de uma composição de Sérgio Bittencourt, filho do conhecido músico Jacob do Bandolim, que compôs sob o impacto da morte de seu pai.

Quando escutei o samba pela primeira vez, fiquei muito emocionado. E olha que, naquela época, minha mãe nem doente estava. Felizmente, não me lembrei do samba ontem. Lembrei só agora, ao escrever estas linhas. Basta conhecer a letra para saber o motivo.

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor,
Naquela mesa ele contava estórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente e contava contente
O que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto doi a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele
Tá doendo em mim

sábado, 13 de junho de 2015

Apenas duas de amor

Terminar um relacionamento nunca é algo simples. E se ele envolveu muito tempo, muita intimidade e, em especial, convivência conjugal, torna-se ainda pior. Afinal, todo relacionamento constitui parte de nossa história e, consequentemente, parte daquilo que somos, para o bem e para o mal. Estando correta a conhecida máxima do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955), de que todos somos nós e nossas circunstâncias, a vivência de um amor provavelmente é das circunstâncias que mais ajudam a moldar quem somos.

A arte, por seu turno, é a principal expressão daquilo que vai na alma de cada ser humano, por isso a expressão artística, com suas metáforas, símbolos e provocações, tem a capacidade de nos inspirar reflexões profundas sobre as experiências do mundo, sejam pessoais ou não.

Esta manhã, enquanto dirigia meu carro a caminho da clínica onde minha mãe faz hemodiálise, circunstância que sempre me põe reflexivo e sentimental, escutei duas canções estrangeiras que descrevem a mesma situação: o término de um relacionamento amoroso. Então me pus a matutar sobre como experiências em tese semelhantes dispararam reações tão diferentes por parte de seus protagonistas. E, com isso, podemos tentar algumas inferências sobre a personalidade de cada qual.

[Os links para os videoclips estão nos títulos das canções. Vale muito a pena conferir.]

A primeira canção se chama "I'm gonna be strong" e foi composta por uma conhecida (na época) dupla de autores: Barry Mann e Cynthia Weil. Foi originalmente gravada por Frankie Laine (1963) e, no ano seguinte, por Gene Pitney (1964), em ambos os casos como singles. Mas somente se tornou um grande sucesso em 1980, quando gravada no único álbum (auto-intitulado) da banda de rockabilly e new wave Blue Angel, da qual era vocalista Cyndi Lauper (1953- ). Tornou-se o maior sucesso da mal-sucedida banda, da qual Lauper se desligou em 1982. Ela regravou a canção em 1994, incluindo-a em sua coletânea de sucessos Twelve deadly cyns... and then some. Esta é a versão que conheço e é simplesmente arrebatadora1.

I can see
You're slipping away from me
And you're so afraid
That I'll plead with you to stay
But I'm gonna be strong
I'll let you go your way

Love is gone
There's no sense in holding on
And your pity now
Would be more than I could bare
So I'm gonna be strong
I'll pretend I don't care

I'm gonna be strong
And stand as tall as I can
I'm gonna be strong
And let you go along
And take it like a man

When you say it's the end
I'll hand you a line
I'll smile and say
"Don't you worry, it's fine"
But you'll never know, darling
After you kiss me goodbye
How I'll break down and cry

Cry
Cry
Cry

Eu posso ver
Que você está escapando de mim
E você tem tanto medo
De que eu lhe implore para ficar
Mas eu serei forte
Eu deixarei você seguir seu caminho

O amor se foi
Não há sentido em continuar
E a sua piedade agora
Seria mais do que eu poderia suportar
Então eu serei forte
Eu fingirei não me importar

Eu serei forte
E ficarei o mais altivo que puder
Eu serei forte
E deixarei você ir adiante
E encarar isso como um homem

Quando você disser que é o fim
Eu lhe darei corda
Eu sorrirei e direi
“Não se preocupe, está tudo bem”
Mas você jamais saberá, querida
Como depois de seu beijo de despedida
Eu vou me quebrar e chorar

Chorar
Chorar
Chorar

A composição data da década de 1960. Os tempos eram outros: mais sentimentais, mais melosos, em que o amor romântico era bastante enfatizado explorando a relação com a dor, com a perda. Àquela altura, perder um romance era quase um fim do mundo, mesmo para homens (a canção, escrita em primeira pessoa, relata os sentimentos de um homem), treinados desde cedo para ser fortes e inabaláveis. Quando criança, ouvi várias vezes a frase "homem não chora; só quando a mulher vai embora". E, criança, nunca entendi o significado dessa afirmação.

"I'm gonna be strong" é o que classifico como canção de mimimi, ou seja, é o desabafo de uma pessoa mal resolvida, que adora se vitimizar e se faz de coitadinha para tentar manter o relacionamento. Como se a piedade fosse um modo razoável de conservar relações. O poema pinta um cenário tristonho, derrotista, em que o protagonista se esforça por fingir, à ex-amante, que está bem. Aparentemente, o romance acabou apenas porque, às vezes, as pessoas percebem que não amam mais. Não há menção a conflitos ou a uma nova paixão. E um indivíduo chorão nunca deixa de ressaltar o fato de ter sido trocado, se for esse o caso. A ausência de briga se percebe pelo fato de a mulher que vai embora se despedir carinhosamente, com um beijo.

Daí ela sai e o cara desmorona em sua imensa dor. E como qualquer chorão, ele chora. Com o detalhe de que, em inglês, o mesmo verbo também significa "gritar", permitindo uma interpretação ainda mais dramática.

Devo admitir que me identifico muito com esses coitados à deriva, na linha Álvares de Azevedo. Adoro esta canção. E a interpretação de Cyndi Lauper me deixa sem fôlego.

A segunda canção se chama "Everything" e foi composta pela roqueira canadense Alanis Morissette. Lançada primeiro em CD single, fez parte do repertório do álbum So-called chaos (2003) e também se tornou um grande sucesso2. Mas aí os tempos eram outros. Mesmo em se tratando de uma mulher deixada para trás (a canção, também em primeira pessoa, deixa claro que é uma mulher falando), o tempo das mulheres submissas, que dependiam dos homens para ser felizes, já ficou para trás. Nossa personagem quer insistir na relação e não está lá muito feliz, mas a linguagem é bastante diferente, mais ácida e me impressiona pela franqueza.

I can be an asshole of the grandest kind
I can withhold like it's going out of style
I can be the moodiest baby
And you've never met anyone as negative
As I am sometimes

I am the wisest woman you've ever met
I am the kindest soul with whom you've connected
I have the bravest heart that you've ever seen
And you've never met anyone who is as positive
As I am sometimes

You see everything, you see every part
You see all my light and you love my dark
You dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here



I blame everyone else not my own partaking
My passive-aggressiveness can be devastating
I'm terrified and mistrusting
And you've never met anyone who is as closed down
As I am sometimes

(…)

What I resist persist and speaks
Louder than I know
What I resist you love no matter
How low or high
I go

I'm the funniest woman that you've ever known
I'm the dullest woman that you've ever known
I'm the most gorgeous woman you've ever known
And you've never met anyone as everything
As I am sometimes

Eu posso ser uma babaca do pior tipo
Posso resistir de um jeito fora de moda
Posso ser o bebê mais temperamental
E você jamais conheceu ninguém tão pessimista
Quanto eu sou algumas vezes

Sou a mulher mais sábia que você já conheceu
Sou a alma mais bondosa com que já teve contato
Tenho o coração mais valente que você já viu
E você jamais conheceu ninguém tão otimista
Quanto eu sou algumas vezes

Você enxerga tudo, cada detalhe
Você enxerga toda a minha luz e ama minha escuridão
Você vasculha todas as coisas das quais me envergonho
Não existe nada com que não consiga se relacionar
E você ainda está aqui

Eu culpo todo mundo e não assumo a minha parte
Minha passividade agressiva pode ser devastadora
Eu sou medrosa e desconfiada
E você nunca conheceu alguém tão fechada
Quanto eu sou algumas vezes

(...)

O que eu resisto, persiste e fala
Mais alto do que eu achava
O que eu resisto, você ama, não importa
Quão pra baixo ou pra cima
Eu esteja

Eu sou a mulher mais engraçada que você já conheceu
Eu sou a mulher mais enfadonha que você já conheceu
Eu sou a mulher mais maravilhosa que você já conheceu
E você nunca conheceu ninguém que seja tudo
Quanto eu sou algumas vezes



A protagonista desta separação faz questão de se desnudar: não sente medo de ressaltar suas virtudes e seus defeitos (e, pelo visto, os defeitos vêm em maior quantidade, mas provavelmente somos todos assim). Quer ser amada do jeito que realmente é, não dando sinais de que mudaria para "merecer" esse amor. E, no fundo, ela parece acreditar que o parceiro é que sairia perdendo com o afastamento. Por isso provoca: "Você ainda está aqui". Acabe logo com isso, antes que seja tarde. Porque você não encontrará outra mulher que seja tudo o que eu sou, por pior que eu seja, neste mundinho repleto de gente pior ainda. Quer arriscar?

Adoro esta canção e gosto da atitude da moça (cuja autoestima é reforçada pelo belo e festejado videoclip). Uma atitude mais século XXI, que nos pede mais autoconfiança, mais controle dos sentimentos, mais convicção de que a vida segue, apesar de tudo.

Não ouso dizer que alguma dessas canções descreva comportamentos melhores ou piores. Somos humanos: em geral, fazemos o que podemos, de acordo com o que acreditamos acerca de nossas capacidades. E erramos demais. Eventualmente, acertamos algumas. Os acertos nos engrandecem e os erros... também! Porque são uma oportunidade de aprendizado. E a zona de conforto nem sempre é uma boa conselheira.

Não recomendo procurar saber qual amor é melhor ou pior. Confiando na premissa aposte na simplicidade, minha recomendação é mais singela: apenas ame. Tentando acertar.

_________________________________
1 Desculpem, mas copiei estas informações da Wikipedia, mesmo. Isto aqui não é um trabalho científico. Cf. https://en.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/Blue_Angel e http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyndi_Lauper.

2 E novamente a Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Everything_(Alanis_Morissette_song) e https://en.wikipedia.org/wiki/Alanis_Morissette.

* O título desta postagem alude à bela canção "Apenas mais uma de amor", de Lulu Santos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Lasciami

"Lascia ch'io pianga" é a mais conhecida ária de Rinaldo (1711), uma das mais famosas óperas do grande compositor Georg Friedrich Händel (1685-1759), um dos meus favoritos. O libreto é de Giacomo Rossi. A ópera foi composta sobre um poema épico acerca da Primeira Cruzada, escrito por Torquato Tasso no século XVI.

Em síntese, a cidade de Jerusalém está sitiada pelos cruzados, sob o comando de Goffredo. Claro que existe uma grande confusão amorosa: o cavaleiro Rinaldo e a filha de Goffredo, Almirena, estão apaixonados. Argante, o rei sarraceno aprisionado na cidade, pede a ajuda de uma feiticeira, Armida, a quem faz promessas de casamento. Mas Argante se apaixona por Almirena e Armida, por Rinaldo. Todo mundo briga com todo mundo, tendo espíritos malignos de permeio. E como tudo é política, Händel quer fazer média com a Igreja Católica e trata os cruzados como herois e os sarracenos, como vilões. Por isso, estes são derrotados, mas se reconciliam com os até então inimigos quando... se convertem ao cristianismo!

Enquanto transcorre essa confusão, Almirena é sequestrada pela feiticeira. Longe de seu amado e receosa quanto ao futuro, se houver um, ela se lamenta com a conhecida ária:

Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
e che sospiri
la libertà.

Il duolo infranga
queste ritorte
de' miei martiri
sol per pietà.

Toda esta postagem era para dizer apenas isto: deixe que eu chore o meu destino cruel. Pronto. Bom dia.

sábado, 24 de janeiro de 2015

As crianças mortas na canção

Renato Russo era um poeta trágico. Consta que sequer se considerava um poeta, e sim um "letrista", mas suspeito que era uma concessão à modéstia, ainda que ensaiada. Duvido que ele desconhecesse a força de sua obra, ainda mais com o "messianismo" (a expressão é de Arthur Dapieve, na biografia Renato Russo: o trovador solitário) instilado nos fãs, numa época em que o sucesso musical ainda continha componentes de mérito autoral e não (apenas ou predominantemente) de inserção midiática, que os empresários do ramo de entretenimento, hoje, conseguem atribuir até a retardados mentais.

"A" banda.
Quanto a ser trágico, isto era consequência de seus tumultos íntimos, que não eram poucos. Ele se inquietava com o comportamento das pessoas, com as ações das autoridades e, como se não fosse pouco, com os próprios dilemas. Não à toa me identifico com ele, infelizmente sem contar com o seu talento. O fato é que essas amarguras ponteavam em suas composições, muitas vezes através de alegorias duras de escutar. Uma dessas alegorias, recorrente na obra do compositor, tinha a ver com crianças mortas.

Já no primeiro disco da Legião Urbana (autointitulado, 1984), na canção "O reggae", Renato desabafa: "Tentava ver o que existia de errado/ Quantas crianças Deus já tinha matado".

É preciso perceber que, nesta canção, ele critica os valores da sociedade que, dependendo do teórico consultado, pode ser chamada de pós-moderna, moderna recente, pós-fordista e uma leva de outras nomenclaturas, mas que em síntese é a sociedade capitalista que mede os seres humanos pela fortuna ou pelo acesso ao consumo, subvertendo os valores humanistas pelo individualismo exacerbado, pela busca incessante da satisfação pessoal e pelo abandono do senso crítico, dentre outras perdas. Segundo Eduardo Rezende, editor do blog O Livro dos Dias - Análises e interpretações, esta canção foi feita para criticar o governo Collor, como o próprio Renato teria deixado claro em shows (leia aqui).

O fato de escrever em primeira pessoa reforça o sentimento de perplexidade do poeta ao descrever a primeira e mais importante instância de socialização depois da família, a escola, como um espaço autoritário que não existe para ensinar sobre o mundo, mas sobre como você deve se comportar nele, para agradar aos outros. Um processo de subjetivação disciplinar nos moldes denunciados por Michel Foucault. Sem ter o que aprender com a escola e mesmo com as pessoas que tanto amava, o poeta busca a realidade, ainda que pelo jornal da TV, momento em que aprende "a roubar para vencer".

É quando luta para "descobrir a verdade, no meio das mentiras da cidade", que o poeta se depara com as crianças mortas por Deus. Na verdade, o objetivo aí não era causar nenhum mal estar religioso, mas dizer que muitos malefícios são causados em nome das melhores intenções (declaradas, porque de melhores não têm nada). Todos os mecanismos de controle social buscam legitimação em razões valorosas mas, quando se olha de perto, o que se constata é o objetivo de controlar corpos e almas com objetivos escusos.

No terceiro disco (Que país é este - 1978/1987, 1987), na famosa e cinematográfica "Faroeste caboclo", Renato narra a saga do perigoso bandido João de Santo Cristo, que certo dia é procurado por um senhor de alta classe com dinheiro na mão. Ignoramos a proposta indecorosa feita pelo rico delinquente, mas João a recusa com raiva e revela que tem princípios: "Não boto bomba em banca de jornal/ Nem em colégio de criança/ Isso eu não faço não".

Na sociedade pós-fordista, regida pela ideologia neoliberal, o homem é entendido como um ser racional, dotado de cálculo prospectivo e que toma as suas decisões baseado em uma criteriosa análise de custo-benefício. Por isso, todo mundo acredita que as pessoas tornam-se criminosas simplesmente porque querem, porque são imorais, amorais ou crueis. Esta regra seria ainda mais evidente em relação a criminosos contumazes e violentos, justamente o caso de João de Santo Cristo (que na canção é descrito com uma ferocidade muito superior à mostrada no filme de René Sampaio). Aí vem o inusitado: o bandido de alta classe procura o psicopata porque está convencido de que este lhe fará o trabalho sujo. Mas nada disso: Renato parece estar gritando que ninguém pode calar a liberdade (de expressão, no caso) nem roubar o futuro das crianças.

No quarto disco (As quatro estações, 1989), em "1965 (Duas tribos)", Renato ataca uma das maiores tragédias da história recente do país, a tortura. A certa altura, diz: "Mataram um menino/ Tinha arma de verdade/ Tinha arma nenhuma/ Tinha arma de brinquedo".

É novamente no blog de Eduardo Rezende (aqui) que encontramos uma interpretação autêntica, na transcrição de comentário feito por Renato durante show no Jockey Club do Rio de Janeiro em 1990: "Esta é a música mais política de todas no disco. Fala de tortura e é sobre aquela época em que fazíamos redação sobre o país maravilhoso que o Brasil seria no futuro e em que achávamos que os presidentes eram o maior barato." Para entender parte do título da canção, 1965 foi o ano do Ato Institucional n. 2, que acabou com as eleições diretas, cassou partidos políticos, suspendeu direitos políticos e suprimiu garantias da magistratura.

Como o tema da canção é muito específico, percebemos que "mataram um menino" simboliza a violência de Estado contra todas as vítimas do sistema, em sua maioria jovens. A arma de verdade deve aludir aos que efetivamente resistiram ao regime de exceção, inclusive pela luta armada. A arma nenhuma, assim como a de brinquedo, parecem-me alusões ao fato de que se torturava e matava com base em meras suspeições ou às vezes se atacava inocentes como forma de acessar parentes e amigos procurados. Por conseguinte, não adiantava não ter arma alguma: você seria moído pela máquina de todo jeito, se agarrado por ela.

Vale lembrar que a atuação contemporânea da polícia brasileira, a que mais mata no mundo todo, é simples variação dos procedimentos adotados pelos agentes da repressão durante a ditadura. Não se trabalha mais com a figura do "subversivo" nem existe mais uma ameaça comunista. Mas os inimigos, as classes perigosas continuam existindo e sempre existirão, sob outros pretextos. E o modo de as autoridades interagirem com elas subsiste e ganha novas justificações, inclusive o apoio popular.

Nesta canção, Renato faz uma de suas mais fortes e belas provocações, que me comove bastante. Depois de falar na luta do bem contra o mal, ele indaga: "E você, de que lado está?" Isto nos remete diretamente à última faixa do disco anterior, "Mais do mesmo", uma letra tão importante que quase deu nome ao disco e que fala sobre um "menino branco" que sobe o morro para tentar se divertir, ou seja, conseguir drogas. Aí vem a pergunta: "Quando tem chacina de adolescente/ Como é que você se sente?"

Aqui, a letra parece destacar a diferença entre as classes sociais e as funções que lhe são atribuídas, com evidente caráter racista. O menino que tem dinheiro para comprar é branco e sai do espaço que lhe é próprio para ir ao morro, símbolo da pobreza. E mesmo em uma ação ilícita, ele se impõe sobre a população local: "Mas já disse que não tem/ E você ainda quer mais/ Por que você não me deixa em paz?"

Seguem-se queixumes sobre uma vida sem oportunidades, ao mesmo tempo em que somos cobrados a ser e a ter muitas coisas, na lógica insana de nossa sociedade meritocrática ("E agora você quer que eu fique assim igual a você/ É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?"). É nesse momento que o poema insere a pergunta sobre chacina. Canção da banda que menciona expressamente o titulo, pouco comum para a Legião, o "mais do mesmo" representa ciclos de violência sem fim.

No sexto disco (O descobrimento do Brasil, 1993), são duas as menções. Em "A fonte", a pergunta direta denuncia um drama frequente: "Quantas crianças foram mortas dessa vez?"

No artigo "A representação das minorias na obra da Legião Urbana" (Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades, n. 8, maio-outubro 2011) o historiador Gustavo dos Santos Prado insere a canção em um tópico intitulado "O Estado e sua relação com as minorias: a leitura e denúncia do descaso expressos nas obras da banda". Para ele, o objetivo é criticar a falência do Estado de Bem Estar Social, causa de um profundo desalento no indivíduo. Com isso, nosso próprio país vira um "campo inimigo" e "você finge que vê, mas não vê".

Extrai-se, portanto, uma crítica também aos cidadãos, que permitem uma situação dessas. Inevitável pensar nas jornadas de junho de 2013, quando se ouvia tanto que indignação de brasileiro é fogo de palha. Pensar no brasileiro médio que espuma de ódio contra os políticos corruptos enquanto compra a carteira de motorista e busca jeitinhos para tudo. Realmente, é desalentador. Nesta canção, enfim, a morte das crianças não é metáfora e está posta de modo bastante literal. Uma morte que não é apenas assassinar, mas sobretudo um deixar morrer, por inércia e indiferença.

E na minha canção favorita da banda, "Perfeição", uma sequência de ironias destinada a chocar o público diante da contradição que seria comemorar tantas tragédias, o objetivo geral do poeta era criticar a omissão e a indiferença do brasileiro frente a tantas mazelas, em um momento da história brasileira em que as esperanças da primeira eleição direta pós-redemocratização haviam escoado pelo ralo de Fernando Collor e seu inoperante sucessor, Itamar Franco. Em uma das alegorias, o trovador propõe "Celebrar a juventude sem escola/ As crianças mortas".

Ao longo de 68 versos, Renato promove verdadeira compilação de categorias de tragédias humanas, desde a guerra até à solidão. Como diz Arthur Dapieve (p. 140): "Na eterna dialética entre ética pública e privada na vida e obra de Renato, O descobrimento trazia também um impressionante retrato do país, filme queimado e tudo. Pois o Brasil também havia conseguido sobreviver a Fernando Collor de Mello, apeado do poder a 29 de dezembro de 1992. O Brasil que sobrara para o vice-presidente Itamar Franco estava por inteiro na quarta faixa, 'Perfeição', incrivelmente amarga mas, no final das contas, otimista. Ninguém era poupado."

Na letra, quase como se fizesse uma tempestade cerebral e se lembrasse aos poucos de tudo que o atormentava, Renato menciona a morte diretamente ao menos três vezes, em diferentes circunstâncias: nas estradas, por falta de hospitais e a de crianças, logo nos primeiros versos. Há críticas ao "Estado que não é nação", à polícia, à mídia e a diferentes formas de violência, intercalando as chicanas perpetradas por autoridades com aquelas que nós mesmos produzimos, em nossas vidas pessoais: desunião, tristeza, vaidade, ganância, difamação, preconceitos, hipocrisia, indiferença, inveja, intolerância, incompreensão, falta de bom senso.

Em que pese podermos atribuir um sentido literal à morte das crianças, o fato de a menção imediatamente anterior ser à "juventude sem escola" sugere que o autor não se refere somente à morte física, mas também à incapacitação do indivíduo pela ausência de educação formal, que inviabiliza a autorrealização individual, ainda no começo da vida.

Não podemos esquecer que, também no sexto disco, em "Love in the afternoon", Renato filosofa sobre a estranheza de os bons morrerem jovens ou morrerem antes. Como informa seu biógrafo, a canção fora inspirada pela morte de amigos do poeta, inclusive Tavinho Fialho, baixista que os acompanha na turnê do disco V (p. 141).

Imagino que poucas tragédias provocam reações tão acres quanto a morte de crianças. Veja-se que já assumo como tragédia, instintivamente. Um adulto adoece e morre: é uma fatalidade. Grave, sem dúvida, ainda mais em uma época em que septuagenários têm sido considerados "novos", ao menos para morrer. Se é uma criança, contudo, trata-se de uma tragédia, porque viola uma concepção que já trazemos conosco: crianças não deviam morrer. Deveria existir uma espécie de ordem natural, que impedisse esse tipo de acontecimento. Quando elas se vão, parece que nos foge um pouco do futuro, das falsas obviedades às quais nos agarramos no cotidiano. Daí que, em um poema, é uma alegoria terrível, que não passa despercebida.

Renato precisava muito nos sacudir e por isso voltava sempre a essa metáfora. Concluo lembrando, todavia, que a despeito das datas de lançamento dos discos da Legião Urbana, muitas dessas canções, inclusive algumas aqui referidas, haviam sido compostas anos antes. O trovador dizia que eram "letras antigas, adolescentes" (Dapieve, p. 100).

Eu queria que mais adolescentes se preocupassem tanto com o mundo como Renato Russo. E que, graças a isso, as crianças pudessem viver.

Com informações extraídas de DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: o trovador solitário. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. Sobre o livro, escrevi esta postagem em 2012.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Bodas de estanho

Exatos dez anos atrás, a uma hora dessas, eu estava aproveitando a praia de Alter-do-Chão, junto a minha mãe e meu irmão. Mas não era exatamente um dia de lazer: era a única oportunidade de ir àquele belíssimo cenário, que os dois não conheciam. E, para mim, era um relaxamento, enquanto aguardava o evento da noite, nada mais nada menos do que o meu casamento com uma filha daquela pundonorosa terra.

Naquela noite, desposei Polyana na até então mais longa cerimônia religiosa de casamento que já vira. Mas estava ocupado demais para me dar conta disso. Dois dias depois, dissemos "sim" novamente, agora em uma cerimônia civil conduzida pela juíza de direito e minha amiga pessoal Ana Patrícia Fernandes, aqui em Belém.

E lá se foram dez anos! Não vemos o tempo passando e, quando paramos para prestar atenção, até nos assustamos. Em dez anos muita coisa acontece e muita coisa aconteceu, ora boas, ora ruins, mas todas elas mostram o que é construir uma família de verdade. E a mais importante delas, obviamente, é nossa filha Júlia, nossa mais sublime realização.

Agradecimentos e mimos pessoais serão feitos pessoalmente, como devem ser. Aqui, na publicidade do blog, fica o registro sob a forma de uma doce canção de minha cantora favorita, Adriana Calcanhotto, que fala sobre o amor real, não aquele idealizado de filmes e livros. Como as coisas mais importantes, é algo que acontece.

Aconteceu quando a gente não esperava 
Aconteceu sem um sino pra tocar 
Aconteceu diferente das histórias 
Que os romances e a memória 
Têm costume de contar 
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas 
Aconteceu sem um raio de luar 
O nosso amor foi chegando de mansinho 
Se espalhou devagarinho 
Foi ficando até ficar 
Aconteceu sem que o mundo agradecesse 
Sem que rosas florescessem 
Sem um canto de louvor 
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama 
Só o tempo fez a cama 
Como em todo grande amor

PS - Cabe, entretanto, um importante reparo: nesta história, houve, sim, um raio de luar. E ele fez toda a diferença.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Coquetelzinho para resolver certas coisas

Uma pequena curiosidade para quem gosta de rock.

A banda californiana de heavy metal Avenged Sevenfold possui, em seu álbum autointitulado (que é um desses raros exemplos de disco excelente da primeira à última faixa; é só colocar e deixar rolar, inclusive em looping), uma canção chamada "Brompton cocktail", que fala sobre alguém muito doente querendo exercer o direito de morrer. Como neste semestre letivo abordei o tema com meus alunos, um dia, escutando a canção, fiquei curioso para saber o significado desse título.

A canção remete ao Royal Brompton Hospital (anteriormente conhecido como Royal Brompton National Heart and Lung Hospital e mais remotamente como Hospital for Consumption and Diseases of the Chest), maior centro de tratamento de doenças do coração e do pulmão, no Reino Unido. Fundado na década de 1840, atendia portadores de doenças infecciosas para as quais não se conhecia cura, como a tuberculose, pacientes esses que deveriam ser mantidos isolados. Trata-se de um hospital histórico e com larga respeitabilidade, hoje um centro de referência também no âmbito da pesquisa.

O "coquetel Brompton" é um elixir usado no âmbito dos cuidados paliativos, ministrado a doentes terminais, mormente os de câncer, para lhes aliviar o sofrimento e permitir alguma interação social no ocaso da existência. É feito com morfina (ou heroína), cocaína, álcool etílico altamente puro e antieméticos (drogas contra náuseas) como clorpromazina. A receita original, surgida no período entre-guerras, foi descrita por Richardson & Baker no livro "A gestão da doença terminal na prática da Medicina" (1956): cloridrato de morfina, cloridrato de cocaína, tintura de cannabis, gim, xarope e clorofórmio.

Pelo que vi nas buscas pela internet que fiz, o coquetel já foi bastante famoso, mas seu uso entrou em declínio à medida que mudava o modo como a Medicina encarava os cuidados paliativos. Talvez para povos de língua inglesa ele seja mais conhecido do que para nós, tornando mais acessível o significado da canção.

Segue um link para um videozinho com a letra: https://www.youtube.com/watch?v=ZPIrGXybLYU

Fontes: 

  • http://apps.nationalarchives.gov.uk/hospitalrecords/details.asp?id=151
  • http://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Brompton_Hospital
  • http://en.wikipedia.org/wiki/Brompton_cocktail
  • http://endoflifestudies.academicblogs.co.uk/the-brompton-cocktail-19th-century-origins-to-20th-century-demise/