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segunda-feira, 12 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Censura e bobagem pela Porta dos Fundos
O canal Porta dos Fundos, maior sucesso da internet brasileira (se considerado o número de acessos e de seguidores em seu tempo de existência; não sei se há outro critério), está novamente sob o olhar dos censores.
Em abril deste ano, o divertido (e a meu ver até inocente) vídeo "Homens" - em que um homem, interpretado pelo ótimo Marcos Veras, não consegue identificar sua esposa entre mulheres completamente diferentes; uma boneca inflável, inclusive - foi sumariamente retirado do ar pelo YouTube, retornando posteriormente com a classificação "impróprio para alguns usuários" e exigência de login para visualização. Uma completa asneira, porque outros vídeos não sofreram idêntica agressão, mesmo sendo muito mais contundentes ou explícitos, seja no conteúdo ou na linguagem. Mas o YouTube tem essa obsessão por ser quase uma Santa Missa em seu Lar que irrita. O filme em questão brincava com os clichês femininos sobre falta de reconhecimento por seus companheiros e por isso mesmo me pareceu uma grande brincadeira, sem nada ofensivo.
Em maio, um serventuário de justiça de 34 anos representou à Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos do Consumidor (oi?) do Distrito Federal, pedindo que o vídeo "Rola" fosse retirado do ar por seu conteúdo ofensivo (atentatório à moral e aos bons costumes, apelativo e um perigo para crianças), porém aberto a qualquer faixa etária. Neste, o balconista de uma lanchonete (Rafael Infante) surpreende uma cliente ao lhe oferecer uma rola e, diante de sua perplexidade, explica que "não tem mistério", fazendo gestos de significado evidente e usando linguagem direta ("cheia de veia, cabeça larga"). O esquete é, realmente, forte para almas sensíveis, que bem fariam se usassem a internet para visitar apenas sites de coisas fofinhas.
A bola da vez é o vídeo de hoje, "Oh, meu Deus!", em que a graciosa Clarice Falcão interpreta uma mulher em consulta ginecológica, sendo que o médico enxerga em seus genitais uma imagem de Jesus. A consequência é uma verdadeira peregrinação em torno das vergonhas da moça, com direito a oração, velas e cantos de igreja. Um prato cheio para irritar religiosos com os nervos à flor da pele.
O problema é que quem tomou a dianteira da campanha para retirar do ar o vídeo, que classificou como "podre", foi ninguém menos que o deputado federal e pastor Marco Feliciano, que está mais acostumado a figurar como alvo de protestos e não como queixoso. Naturalmente, ele contará com a assistência de seus muitos fieis, mas em que pese o esquete ser de gosto bastante duvidoso (nem eu gostei muito), duvido que o controverso pastor conseguirá mais do que dar publicidade ao trabalho dos humoristas e lhes aumentar a audiência, que já é fabulosa.
Renunciando explicitamente, graças a Deus, ao politicamente correto, o canal Porta dos Fundos vem-se firmando como importante capítulo da vida artística nacional, goste você disso ou não. Mas trabalhando com humor, é óbvio que incomodarão muita gente. Afinal, como já dizia alguém que não consigo lembrar quem, não se pode alcançar o sucesso sem chutar algumas bundas. Principalmente quando os donos das bundas fazem questão de colocá-las na direção de um petardo que, muitas vezes, não lhes era destinado.
Feliciano, a vida não é a porra do teu Toddynho gelado! (Adoro esta frase. Ela é pura poesia para mim.)
Fontes:
Em abril deste ano, o divertido (e a meu ver até inocente) vídeo "Homens" - em que um homem, interpretado pelo ótimo Marcos Veras, não consegue identificar sua esposa entre mulheres completamente diferentes; uma boneca inflável, inclusive - foi sumariamente retirado do ar pelo YouTube, retornando posteriormente com a classificação "impróprio para alguns usuários" e exigência de login para visualização. Uma completa asneira, porque outros vídeos não sofreram idêntica agressão, mesmo sendo muito mais contundentes ou explícitos, seja no conteúdo ou na linguagem. Mas o YouTube tem essa obsessão por ser quase uma Santa Missa em seu Lar que irrita. O filme em questão brincava com os clichês femininos sobre falta de reconhecimento por seus companheiros e por isso mesmo me pareceu uma grande brincadeira, sem nada ofensivo.
Em maio, um serventuário de justiça de 34 anos representou à Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos do Consumidor (oi?) do Distrito Federal, pedindo que o vídeo "Rola" fosse retirado do ar por seu conteúdo ofensivo (atentatório à moral e aos bons costumes, apelativo e um perigo para crianças), porém aberto a qualquer faixa etária. Neste, o balconista de uma lanchonete (Rafael Infante) surpreende uma cliente ao lhe oferecer uma rola e, diante de sua perplexidade, explica que "não tem mistério", fazendo gestos de significado evidente e usando linguagem direta ("cheia de veia, cabeça larga"). O esquete é, realmente, forte para almas sensíveis, que bem fariam se usassem a internet para visitar apenas sites de coisas fofinhas.
A bola da vez é o vídeo de hoje, "Oh, meu Deus!", em que a graciosa Clarice Falcão interpreta uma mulher em consulta ginecológica, sendo que o médico enxerga em seus genitais uma imagem de Jesus. A consequência é uma verdadeira peregrinação em torno das vergonhas da moça, com direito a oração, velas e cantos de igreja. Um prato cheio para irritar religiosos com os nervos à flor da pele.
O problema é que quem tomou a dianteira da campanha para retirar do ar o vídeo, que classificou como "podre", foi ninguém menos que o deputado federal e pastor Marco Feliciano, que está mais acostumado a figurar como alvo de protestos e não como queixoso. Naturalmente, ele contará com a assistência de seus muitos fieis, mas em que pese o esquete ser de gosto bastante duvidoso (nem eu gostei muito), duvido que o controverso pastor conseguirá mais do que dar publicidade ao trabalho dos humoristas e lhes aumentar a audiência, que já é fabulosa.
Renunciando explicitamente, graças a Deus, ao politicamente correto, o canal Porta dos Fundos vem-se firmando como importante capítulo da vida artística nacional, goste você disso ou não. Mas trabalhando com humor, é óbvio que incomodarão muita gente. Afinal, como já dizia alguém que não consigo lembrar quem, não se pode alcançar o sucesso sem chutar algumas bundas. Principalmente quando os donos das bundas fazem questão de colocá-las na direção de um petardo que, muitas vezes, não lhes era destinado.
Feliciano, a vida não é a porra do teu Toddynho gelado! (Adoro esta frase. Ela é pura poesia para mim.)
Fontes:
- http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/porta-dos-fundos-e-alvo-de-reclamacao-no-ministerio
- http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/19/marco-feliciano-faz-campanha-para-retirar-video-do-porta-dos-fundos-do-ar.htm
- http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/%E2%80%98nao-sou-puritano%E2%80%99-diz-autor-de-denuncia-contra-porta-dos-fundos
- http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/19/marco-feliciano-faz-campanha-para-retirar-video-do-porta-dos-fundos-do-ar.htm
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Turma da Mônica Jovem e trollagem
Quem diria, mas já faz quase 5 anos que publiquei uma postagem anunciando a criação da Turma da Mônica Jovem. Falei de minha curiosidade quanto à nova linha editorial, da intenção de fazê-la voltada para o público adolescente e de meu prognóstico de que venderia bastante.
O fato é que nem o próprio Maurício de Sousa esperava o sucesso que veio, como ele admitiu em mais de uma ocasião. A Turma da Mônica Jovem se transformou no maior sucesso editorial do Brasil, tornando-se da noite para o dia a revista mais vendida do país. Mas isso se deveu, em parte, ao fato de que as crianças passaram a consumir a publicação, que originalmente não lhes era destinada. O resultado foi que a Maurício de Sousa Produções se viu obrigada a mudar a concepção do projeto, abandonando os temas e as abordagens mais elaboradas e permanecendo num plano passível de interlocução com a petizada.
Isso explica, em parte, como é possível que jovens na casa dos 15 anos, vivendo em nossos tempos repletos de tecnologia e interações mundiais (e até interplanetárias), sejam ingênuos, bobocas mesmo, num nível irreal. Acho que a família Sousa desistiu de falar de gravidez na adolescência.
O preço dessa decisão foi que as revistas ficaram muito tolas. Mais valia ler as revistas originais, desbragadamente infantis. Pelo menos, eram mais coerentes. Em casa, compramos todas as edições da TMJ; não perdemos nenhuma. Contudo, aos poucos, a curiosidade foi cedendo espaço ao fastio e comecei a me desinteressar. Uma ou outra não terminei ou nem comecei a ler.
Sem dúvida, os roteiros centrados no cotidiano, em vez de aventuras espaciais ou estórias de monstros japoneses (que me irritam profundamente), mostraram-se melhores. Os próprios editores devem ter percebido isso, porque essa proposta tem prevalecido mês após mês.
E eis que a edição mais recente, de n. 57, chamada Veneno virtual, finalmente me agradou. Fala sobre alguém que cria um blog chamado "Castelo do Troll", cuja única missão é criar constrangimentos para os jovens do famoso bairro do Limoeiro.
O mérito desta edição é conseguir demonstrar, de forma realista e plausível, um pequeno recorte do mundinho em que vivemos, nos quais os jovens estão absolutamente dependentes da Internet e por ela desfilam temas fúteis, imbecilizantes e nocivos por outros motivos. Fala-se da perda da privacidade, da necessidade de atenção e da covardia de agredir sob anonimato.
A edição mostrou como as postagens do troll provocaram conflitos desnecessários, humilhação e tristeza, até mesmo para quem, a princípio, gostou de ser exposto. Um modo didático e eficiente, sem ser chato, de descrever essa realidade e mostrar que ela, definitivamente, não é nada boa.
A Turma da Mônica Jovem acertou a mão desta vez e está de parabéns. Revista guardada para quando Júlia for maiorzinha.
O fato é que nem o próprio Maurício de Sousa esperava o sucesso que veio, como ele admitiu em mais de uma ocasião. A Turma da Mônica Jovem se transformou no maior sucesso editorial do Brasil, tornando-se da noite para o dia a revista mais vendida do país. Mas isso se deveu, em parte, ao fato de que as crianças passaram a consumir a publicação, que originalmente não lhes era destinada. O resultado foi que a Maurício de Sousa Produções se viu obrigada a mudar a concepção do projeto, abandonando os temas e as abordagens mais elaboradas e permanecendo num plano passível de interlocução com a petizada.Isso explica, em parte, como é possível que jovens na casa dos 15 anos, vivendo em nossos tempos repletos de tecnologia e interações mundiais (e até interplanetárias), sejam ingênuos, bobocas mesmo, num nível irreal. Acho que a família Sousa desistiu de falar de gravidez na adolescência.
O preço dessa decisão foi que as revistas ficaram muito tolas. Mais valia ler as revistas originais, desbragadamente infantis. Pelo menos, eram mais coerentes. Em casa, compramos todas as edições da TMJ; não perdemos nenhuma. Contudo, aos poucos, a curiosidade foi cedendo espaço ao fastio e comecei a me desinteressar. Uma ou outra não terminei ou nem comecei a ler.
Sem dúvida, os roteiros centrados no cotidiano, em vez de aventuras espaciais ou estórias de monstros japoneses (que me irritam profundamente), mostraram-se melhores. Os próprios editores devem ter percebido isso, porque essa proposta tem prevalecido mês após mês.
E eis que a edição mais recente, de n. 57, chamada Veneno virtual, finalmente me agradou. Fala sobre alguém que cria um blog chamado "Castelo do Troll", cuja única missão é criar constrangimentos para os jovens do famoso bairro do Limoeiro.O mérito desta edição é conseguir demonstrar, de forma realista e plausível, um pequeno recorte do mundinho em que vivemos, nos quais os jovens estão absolutamente dependentes da Internet e por ela desfilam temas fúteis, imbecilizantes e nocivos por outros motivos. Fala-se da perda da privacidade, da necessidade de atenção e da covardia de agredir sob anonimato.
A edição mostrou como as postagens do troll provocaram conflitos desnecessários, humilhação e tristeza, até mesmo para quem, a princípio, gostou de ser exposto. Um modo didático e eficiente, sem ser chato, de descrever essa realidade e mostrar que ela, definitivamente, não é nada boa.
A Turma da Mônica Jovem acertou a mão desta vez e está de parabéns. Revista guardada para quando Júlia for maiorzinha.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Um cordel nada encantado, mas necessário
A notícia é velha (do ano passado) e já teve o seu momento de correr a rede mundial de computadores. Mesmo assim, confesso que nunca tomei conhecimento do caso até receber um e-mail a respeito, hoje. Como as pessoas acreditam e retransmitem tudo, sem pensar, tomei o cuidado de checar as informações e descobri que o fato é verídico. Refiro-me a um cordel composto por um dos mais famosos artistas do gênero esculhambando (rectius: falando a verdade) sobre o Big Brother Brasil.
Os leitores do blog, notadamente aqueles que apreciam o dito programa, devem ter observado que, desta vez, não dediquei uma só vírgula a essa baboseira superlativa. Decidi assim porque sempre rola um estresse e, no final, eu estava dando cartaz para a porcaria. Fiz o certo e a ignorei por completo, não estando sozinho nisso, já que a audiência foi significativamente mais baixa nesta 11ª edição, a sugerir que mesmo a patuscada um dia cansa.
Eis-me aqui, porém, falando do malsinado assunto, mas apenas porque eu não poderia deixar de divulgar o cordel de Antônio Barretto, que reproduzo conforme se encontra em http://mais.uol.com.br/view/e8h4xmy8lnu8/o-cordel-de-antnio-barreto-0402983970DC892326.
O educador Antônio Barreto, um dos maiores cordelistas da Bahia, acaba de retornar ao Brasil com os versos mais afiados que nunca depois da polêmica causada com o cordel "Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso".
Desta vez o alvo é o anacrônico programa BBB-10 da TV Globo. Nesse novo cordel intitulado "Big Brother Brasil, um programa imbecil" ele não deixa pedra sobre pedra. São 25 demolidoras septilhas (estrofes de 7 versos). Só para dar um gostinho:
Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.
Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.
Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.
Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.
Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.
O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.
Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.
Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.
Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.
Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.
Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.
A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.
Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.
Talvez haja objetivo
“professor” Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.
Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.
É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.
Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.
A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.
E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.
E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.
E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.
A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.
Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.
Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?
Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…
Salvador, 16 de janeiro de 2010.
* * *
Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara, na Bahia.
É autor de um dos mais recentes e estrondosos sucessos da Internet, o cordel "Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso".
Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente.
Graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de Umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia.
Possui incontáveis trabalhos em jornais, revistas e antologias, com mais de 100 folhetos de cordel publicados sobre temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.
Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.
O cordel "Big Brother Brasil, um programa imbecil" é imperdível e está completinho aqui, em primeira mão: http://cachacaaraci.wordpress.
Os leitores do blog, notadamente aqueles que apreciam o dito programa, devem ter observado que, desta vez, não dediquei uma só vírgula a essa baboseira superlativa. Decidi assim porque sempre rola um estresse e, no final, eu estava dando cartaz para a porcaria. Fiz o certo e a ignorei por completo, não estando sozinho nisso, já que a audiência foi significativamente mais baixa nesta 11ª edição, a sugerir que mesmo a patuscada um dia cansa.
Eis-me aqui, porém, falando do malsinado assunto, mas apenas porque eu não poderia deixar de divulgar o cordel de Antônio Barretto, que reproduzo conforme se encontra em http://mais.uol.com.br/view/e8h4xmy8lnu8/o-cordel-de-antnio-barreto-0402983970DC892326.
O educador Antônio Barreto, um dos maiores cordelistas da Bahia, acaba de retornar ao Brasil com os versos mais afiados que nunca depois da polêmica causada com o cordel "Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso".
Desta vez o alvo é o anacrônico programa BBB-10 da TV Globo. Nesse novo cordel intitulado "Big Brother Brasil, um programa imbecil" ele não deixa pedra sobre pedra. São 25 demolidoras septilhas (estrofes de 7 versos). Só para dar um gostinho:
Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.
Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.
Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.
Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.
Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.
O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.
Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.
Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.
Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.
Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.
Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.
A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.
Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.
Talvez haja objetivo
“professor” Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.
Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.
É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.
Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.
A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.
E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.
E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.
E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.
A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.
Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.
Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?
Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…
Salvador, 16 de janeiro de 2010.
* * *
Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara, na Bahia.
É autor de um dos mais recentes e estrondosos sucessos da Internet, o cordel "Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso".
Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente.
Graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de Umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia.
Possui incontáveis trabalhos em jornais, revistas e antologias, com mais de 100 folhetos de cordel publicados sobre temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.
Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.
O cordel "Big Brother Brasil, um programa imbecil" é imperdível e está completinho aqui, em primeira mão: http://cachacaaraci.wordpress.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
The walking dead
Como vocês já sabem, eu e minha esposa gostamos muito de seriados. Entretanto, há algum tempo eu vinha me queixando de que nós praticamente só vemos os policiais — são três franquias de CSI, Criminal minds, Without a trace, Numb3rs... Um dos nossos favoritos, Plantão médico, não acompanhamos pela TV. Compramos os boxes até a 11ª temporada e aguardamos o lançamento da 12ª, para assistirmos rigorosamente na sequência. E Lost acabou. Ficou complicado fugir da polícia e do FBI, pois até o interessante V está relacionado ao FBI, também.
Para fugir da mesmice, decidimos ver algo mais relaxante: The walking dead. Um programa familiar, bom para ver antes de dormir.
Já vi vários filmes de zumbi. Madrugada dos mortos, dia, noite, hora, temporada, geração, etc. Zumbis a não mais poder e, confesso, essas obras normalmente me incomodam. Tenho uma simpatia natural por tudo o que é trágico, feio e desalentador. Amo vampiros (exceto os emos, claro) e toda criatura que nos leva aos nossos instintos primitivos ou a nossos terrores mais profundos. Filmes que apavoram muita gente, como A bruxa de Blair e Atividade paranormal, para mim são um prazer. Mas zumbis me incomodam.
Não são os zumbis em si, mas o fato de que todos esses filmes têm um ponto em comum: um dia os mortos se levantaram, sem mais nem menos, começaram a comer os vivos e com isso proliferar e, não importa o que se faça, o mundo acabou. Não há esperança, nem para onde ir. Essa perda total de qualquer sentido para a existência é o que me incomoda. E só me dei conta de quão longe ia esse mal estar na noite em que íamos ver o primeiro episódio da série e lá estava eu, incomodado, hesitante, perguntando-me se realmente precisava ver aquilo.
Comecei a ver e gostei.
The walking dead (por alguma razão, ninguém deu um título em português) é mais um trabalho muito bem realizado por uma produtora que tem dinheiro para gastar. O projeto foi posto nas mãos de um diretor e roteirista experiente e talentoso, Frank Darabont, e conquistou seu público numa primeira temporada de apenas seis episódios. Nestes tempos de cortes radicais nos gastos, seriado bem sucedido é o que consegue ser confirmado para o ano seguinte, mesmo que às custas de menos episódios, reduções salariais ou dispensa dos atores mais bem remunerados em alguns episódios. TWD conseguiu o seu lugar ao sol rapidamente.
Adaptado de quadrinhos famosos (que no Brasil são publicados sob o título Os mortos vivos), criada por Robert Kirkman e Tony Moore, com desenhos de Charlie Adlard. Seu sucesso não foi imediato, mas progressivo, e em 2010 foi laureada com o (suponho) mais importante prêmio dos quadrinhos, o Eisner Award, como melhor série contínua.
O fato de ser uma bem sucedida graphic novel adulta deve explicar parte do sucesso da série televisiva, porque quadrinhos são idolatrados por seus fãs. Deturpar o espírito da história pode render inimizades absolutas.
TWD marca também uma mudança na transmissão dos programas pela TV fechada. Antes, demorávamos meses para ver programas já exibidos nos Estados Unidos. Hoje, com a pirataria através dos softwares de compartilhamento de arquivos digitais, a TV entendeu que precisa passar os seriados quase tão simultaneamente quanto possível, do contrário haverá perda de audiência. Por isso, eu e minha esposa acompanhamos a saga dos poucos sobreviventes de Atlanta um episódio por semana, como deve ser. Ontem vimos o último. Devo dizer, contudo, que achei meio decepcionante. A microtemporada foi legal, mas sua conclusão não provocou nenhuma emoção especial. A última cena é até meio chata.
Com isso, os zumbis invadindo o acampamento dos sobreviventes a seus desdobramentos geraram os melhores momentos do seriado até aqui e, por assim dizer, pagaram o ingresso.
Ano que vem tem mais.
Para fugir da mesmice, decidimos ver algo mais relaxante: The walking dead. Um programa familiar, bom para ver antes de dormir.
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| Um mundo pós-apocalíptico, onde não dá a menor vontade de viver. Ou de existir. |
Não são os zumbis em si, mas o fato de que todos esses filmes têm um ponto em comum: um dia os mortos se levantaram, sem mais nem menos, começaram a comer os vivos e com isso proliferar e, não importa o que se faça, o mundo acabou. Não há esperança, nem para onde ir. Essa perda total de qualquer sentido para a existência é o que me incomoda. E só me dei conta de quão longe ia esse mal estar na noite em que íamos ver o primeiro episódio da série e lá estava eu, incomodado, hesitante, perguntando-me se realmente precisava ver aquilo.
Comecei a ver e gostei.
The walking dead (por alguma razão, ninguém deu um título em português) é mais um trabalho muito bem realizado por uma produtora que tem dinheiro para gastar. O projeto foi posto nas mãos de um diretor e roteirista experiente e talentoso, Frank Darabont, e conquistou seu público numa primeira temporada de apenas seis episódios. Nestes tempos de cortes radicais nos gastos, seriado bem sucedido é o que consegue ser confirmado para o ano seguinte, mesmo que às custas de menos episódios, reduções salariais ou dispensa dos atores mais bem remunerados em alguns episódios. TWD conseguiu o seu lugar ao sol rapidamente.
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| Quadrinhos como obra de arte. |
O fato de ser uma bem sucedida graphic novel adulta deve explicar parte do sucesso da série televisiva, porque quadrinhos são idolatrados por seus fãs. Deturpar o espírito da história pode render inimizades absolutas.
TWD marca também uma mudança na transmissão dos programas pela TV fechada. Antes, demorávamos meses para ver programas já exibidos nos Estados Unidos. Hoje, com a pirataria através dos softwares de compartilhamento de arquivos digitais, a TV entendeu que precisa passar os seriados quase tão simultaneamente quanto possível, do contrário haverá perda de audiência. Por isso, eu e minha esposa acompanhamos a saga dos poucos sobreviventes de Atlanta um episódio por semana, como deve ser. Ontem vimos o último. Devo dizer, contudo, que achei meio decepcionante. A microtemporada foi legal, mas sua conclusão não provocou nenhuma emoção especial. A última cena é até meio chata.
Com isso, os zumbis invadindo o acampamento dos sobreviventes a seus desdobramentos geraram os melhores momentos do seriado até aqui e, por assim dizer, pagaram o ingresso.
Ano que vem tem mais.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Lost: leilão de memorabilia
Três meses após a exibição de seu último capítulo, o seriado Lost deu a sua última demonstração do enorme carisma que captou junto ao público — sim, um público específico —, que juntamente com as temáticas abordadas fizeram dele um ícone da cultura pop. Nem melhor nem pior do que outros, mas sem dúvida alguma uma obra única, inclusive em termos de futuro.
Nos dias 21 e 22 de agosto, portanto neste último final de semana, a empresa produtora da série (a ABC Studios) promoveu um leilão de memorabilia, disponibilizando vários itens da série, em sua maioria peças de roupas usadas pelos personagens. O resultado foi um sucesso. Os organizadores arrecadaram o dobro do que pretendiam, quase dois milhões de dólares. Fã é isso: faz coisas irracionais, gasta dinheiro e morre de felicidade. Não é exatamente o meu perfil. Posso gostar muito de obras, passar um tempo emocionalmente vinculado a elas, mas não me deixo arrebatar por elas.
Se pudesse, talvez eu fosse a esse leilão. Obviamente, não gastaria, nem que tivesse, US$ 47,5 mil (quase 90 mil reais) para comprar uma Kombi velha. Seria meio ridículo sair às ruas com ela só para ser reconhecido por meia dúzia de nerds. Nem a manteria numa garagem como relíquia, devido aos custos de manutenção. Mas ela foi o objeto mais caro.
Também não compraria um pedaço de fuselagem do voo Oceanic 815. Alguém, em sã consciência, compraria um negócio desses? Um museu, tudo bem. Mas uma pessoa física, vai pendurar o troço na parede, por acaso?
No entanto, haveria itens do meu interesse. O diário de Daniel Faraday, p. ex., que foi um dos objetos mais valorizados (vendido por US$ 27,5 mil). Mas talvez eu comprasse apenas isto:
A romântica fotografia do sofrido casal Desmond e Penny, interpretados pelos excelentes Henry Ian Cusick e Sonia Walger, que nos proporcionaram alguns dos melhores momentos da série. Algo pequeno, que dá para pendurar na parede ou guardar na gaveta, não gera despesas e tem valor representativo da obra.
Outros itens leiloados:
Nos dias 21 e 22 de agosto, portanto neste último final de semana, a empresa produtora da série (a ABC Studios) promoveu um leilão de memorabilia, disponibilizando vários itens da série, em sua maioria peças de roupas usadas pelos personagens. O resultado foi um sucesso. Os organizadores arrecadaram o dobro do que pretendiam, quase dois milhões de dólares. Fã é isso: faz coisas irracionais, gasta dinheiro e morre de felicidade. Não é exatamente o meu perfil. Posso gostar muito de obras, passar um tempo emocionalmente vinculado a elas, mas não me deixo arrebatar por elas.
Se pudesse, talvez eu fosse a esse leilão. Obviamente, não gastaria, nem que tivesse, US$ 47,5 mil (quase 90 mil reais) para comprar uma Kombi velha. Seria meio ridículo sair às ruas com ela só para ser reconhecido por meia dúzia de nerds. Nem a manteria numa garagem como relíquia, devido aos custos de manutenção. Mas ela foi o objeto mais caro.
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| Muitos bons momentos foram vividos (ou morridos) dentro de uma destas. |
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| Menos, garoto. Menos. |
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| Desmond David Hume e Pennelope Widmore, o melhor casal da trama. |
Outros itens leiloados:
- o farol e os espelhos do farol: US$ 27,5 mil;
- roda congelada que Ben gira para mudar a ilha de lugar: US$ 25 mil;
- Camaro de Hurley: US$ 20 mil;
- computador da estação Cisne: US$ 16 mil;
- roteiro do episódio piloto assinado por J.J. Abrams e Damon Lindelof: US$ 15 mil;
- porta da estação Cisne, roteiro do último episódio, foto de grupo Dharma de 1977 e script de O Império contra-ataca reescrito por Hurley.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
O meu fim de Lost
Aviso aos navegantes que este post contém mais spoilers do que palavras, então se você não viu o fim de Lost, não leia. Este post é complementar aos comentários do André Coelho, que o Yúdice publicou nos posts Lost: desejar a liberdade e Lost: encontrei o que eu buscava. Então, se quiserem ler lá primeiro, entenderão melhor minhas palavras.
André, você descreveu tão maravilhosamente meus próprios sentimentos sobre Lost que me abstenho de escrever um post sobre o seriado, como queria inicialmente. Vou emendar no seu comentário.
Depois do The end, eu pensei em várias possibilidades para entender o que vi. Primeiro pensei que eles morreram já no desastre de avião, e que o seriado todo foi post mortem. Mas isso não faria muito sentido, considerando vários pontos do que você falou. Depois, pensei que eles talvez estivessem mortos ao explodir a bomba em 1977, mas, se assim fosse, qual o sentido de haver uma divisão de consciências? Ninguém consegue viver em dois lugares ao mesmo tempo.
Por fim, acho e acredito que a "realidade paralela", como ficou conhecida, representava o lugar para o qual todos foram depois de morrer, morrer em tempos diferentes, uns mais cedo (Shannon, Libby, p. ex., Jin, Sun) e outros bem mais tarde do que Jack (como Hurley, Sawyer, Kate). Todos em estado de negação, pela intensidade da experiência que viveram, sem acrditar que morreram, e sem conseguir lidar com as experiências vividas depois da queda do Oceanic 815. E esta necessidade coletiva de resgate recriou a viagem para LA, o último resquício de "vida normal" na vida de todos eles. Eles apareceram lá com vários dos defeitos de antes, pois ainda eram eles mesmos, mas com algumas diferenças, Jack mais maduro (representado na "criação" de seu filho), Kate inocente, Claire mais apegada a idéia de ficar com seu bebê, Sun mais corajosa ao ter o caso com Jin e este mais doce com ela, enfim, cada um deles recriando sua persona com algumas alterações tendo em vista tudo o que viveram após a queda na ilha, cada um deles modificados por estas experiências.
Quanto aos personagens "secundários" (Miles, Charlotte, Faraday) que não faziam parte daquela "família", mas estavam lá também: acho que eles não estavam realmente lá, eram parte do cenário, tentativas que o cérebro faz para tecer a teia da realidade e tornar tudo compreensível para a nossa psique. Por isso, não estavam na igreja.
A ilha? Acho que continuou existindo e ainda existe um Jacob para cuidar dela, escolhido por Hurley quando ele não mais podia ficar no cargo, mas sem um monstro de fumaça, só a luz, a ser protegida do resto do mundo.
Ji Yeon cresceu sem os pais e talvez Aaron tenha crescido com duas mães. Walt continuou sua vida com a avó sem saber o que houve com o pai. Aliás, ficamos sem saber porque afinal ele era especial. Mas, a sério, quem liga? Eu sabia que haveria perguntas sem resposta e mais perguntas do que eu esperava foram respondidas, então eu estou feliz.
As imagens dos rostos felizes dos personagens na cena da igreja ainda estão em minha mente. E ficarão por um bom tempo, até que eu e Yúdice decidamos comprar os boxes e assistir tudo novamente, daqui a um tempo. Eu sei que verei. E sei que vou curtir novamente a jornada. E o fim.
André, você descreveu tão maravilhosamente meus próprios sentimentos sobre Lost que me abstenho de escrever um post sobre o seriado, como queria inicialmente. Vou emendar no seu comentário.
Depois do The end, eu pensei em várias possibilidades para entender o que vi. Primeiro pensei que eles morreram já no desastre de avião, e que o seriado todo foi post mortem. Mas isso não faria muito sentido, considerando vários pontos do que você falou. Depois, pensei que eles talvez estivessem mortos ao explodir a bomba em 1977, mas, se assim fosse, qual o sentido de haver uma divisão de consciências? Ninguém consegue viver em dois lugares ao mesmo tempo.
Por fim, acho e acredito que a "realidade paralela", como ficou conhecida, representava o lugar para o qual todos foram depois de morrer, morrer em tempos diferentes, uns mais cedo (Shannon, Libby, p. ex., Jin, Sun) e outros bem mais tarde do que Jack (como Hurley, Sawyer, Kate). Todos em estado de negação, pela intensidade da experiência que viveram, sem acrditar que morreram, e sem conseguir lidar com as experiências vividas depois da queda do Oceanic 815. E esta necessidade coletiva de resgate recriou a viagem para LA, o último resquício de "vida normal" na vida de todos eles. Eles apareceram lá com vários dos defeitos de antes, pois ainda eram eles mesmos, mas com algumas diferenças, Jack mais maduro (representado na "criação" de seu filho), Kate inocente, Claire mais apegada a idéia de ficar com seu bebê, Sun mais corajosa ao ter o caso com Jin e este mais doce com ela, enfim, cada um deles recriando sua persona com algumas alterações tendo em vista tudo o que viveram após a queda na ilha, cada um deles modificados por estas experiências.
Quanto aos personagens "secundários" (Miles, Charlotte, Faraday) que não faziam parte daquela "família", mas estavam lá também: acho que eles não estavam realmente lá, eram parte do cenário, tentativas que o cérebro faz para tecer a teia da realidade e tornar tudo compreensível para a nossa psique. Por isso, não estavam na igreja.
A ilha? Acho que continuou existindo e ainda existe um Jacob para cuidar dela, escolhido por Hurley quando ele não mais podia ficar no cargo, mas sem um monstro de fumaça, só a luz, a ser protegida do resto do mundo.
Ji Yeon cresceu sem os pais e talvez Aaron tenha crescido com duas mães. Walt continuou sua vida com a avó sem saber o que houve com o pai. Aliás, ficamos sem saber porque afinal ele era especial. Mas, a sério, quem liga? Eu sabia que haveria perguntas sem resposta e mais perguntas do que eu esperava foram respondidas, então eu estou feliz.
As imagens dos rostos felizes dos personagens na cena da igreja ainda estão em minha mente. E ficarão por um bom tempo, até que eu e Yúdice decidamos comprar os boxes e assistir tudo novamente, daqui a um tempo. Eu sei que verei. E sei que vou curtir novamente a jornada. E o fim.
Lost: desejar a liberdade
O caríssimo amigo André Coelho, que tantas contribuições deu a este blog, compartilhando comigo — e portanto conosco — as suas reflexões hauridas em profundo conhecimento da Filosofia, fez uma análise magistral sobre o tema principal desta semana, o encerramento do seriado Lost. Mais uma vez, compartilho.
Atenção: spoilers!
Caro Yúdice, antendendo aos seus apelos, venho me manifestar a respeito de Lost. Vou dividir esse comentário em duas partes. Na primeira, tentarei relativizar sua afirmação, feita na postagem Lost: O Fim, da última sexta, 21 de maio de 2010, de que os rumos tomados pelas últimas temporadas do seriado haviam sido decepcionantes em vista das expectativas criadas nas primeiras temporadas; na segunda, tentarei expressar a minha compreensão acerca de The End, o intrigante e surpreendente episódio final do seriado. Como se pode pefeitamente adivinhar, os comentários que seguem são recheados de spoilers para quem ainda não viu os episódios a que eles se referem.
PRIMEIRA PARTE
Um dos pontos que mais me chamou atenção positivamente na sua postagem foi o uso que você fez, de modo bastante prudente, de marcadores de subjetividade, como "eu esperava que" e "eu cheguei a pensar que", pois eles indicam que seu referencial de comparação do rumo que a série tomou é o rumo que você, pessoalmente, esperava e gostaria que ela tivesse tomado. Desde já destaco que, se o seu parecer final de que "Lost é isso. Decepcionante" for expressão apenas de sua frustração pessoal com a série, no sentido de que o que veio à tela não foi o que você mais teria gostado, ele é, enquanto tal, irrefutável. O que tentarei, sim, refutar é a ideia de que aquilo que veio à tela é decepcionante. E isso me parece expresso na sua postagem quando você fala que "abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás". Nisso me parece claro que a opção dos produtores por um viés religioso fez com que, aos seus olhos, a série abdicasse do que a fazia "inteligente", no sentido de intelectualmente provocativa, e abraçasse uma via "clássica e singela", no sentido de clichê e maniqueísta. Disso discordo frontamente, pelos motivos que vou elencar agora:
i) A estratégia inicial dos produtores de Lost para atrairem o enorme interesse de uma massa de telespectadores com as mais diversas preferências televisivas e visões de mundo foi plantar no seriado um conjunto de personagens e elementos tão variados que desse margem para todos os tipos possíveis de expectativas de desfecho para a trama de mistério. Entre os vários temperos postos na receita do seriado, estava o elemento científico das estações, dos números e da Dharma Iniciative. Mas, ao lado desse elemento, sempre estiveram presentes muitos outros. Sempre esteve presente o elemento romântico de casais existentes e possíveis; o elemento dramático da ilha como possibilidade de redenção para pessoas cujas vidas eram fracassadas em algum ponto relevante; o elemento filosófico de como é possível a convivência entre os diferentes numa situação de escassez de recursos e de ausência do Estado; e também o elemento místico, de um assustador e inexplicável monstro de fumaça que ameaçava os losties, de uma possível configuração do destino que havia reunido todas aquelas pessoas, de uma ligação mais íntima com a ilha da parte de John Locke. Mas essa vasta abertura do início não poderia ser mantida até o final a não ser sob o preço de não resolução dos mistérios principais, alternativa que, em vez de satisfazer a todos, provavelmente despertaria fortes sentimentos de frustração e traição e não satisfaria a ninguém. Para darem alguma resposta final, os produtores tinham que fazer alguma escolha entre os diversos rumos possíveis que a trama poderia seguir. Era preciso algum fechamento.
ii) A escolha que os produtores fizeram pelo elemento religioso não trai, portanto, a proposta inicial do seriado. Não trai porque esse elemento sempre esteve presente na trama como um dos vieses possíveis de abordagem da história. Quando os produtores dão ao primeiro episódio da segunda temporada o nome de Man of science, man of faith, encarnando os dois pólos nas personagens de Jack e Locke, fazem uma clara indicação dos dois caminhos que eram possíveis para o seriado dali por diante. As duas célebres frases daquelass personagens no episódio: "Everything happened for a reason" e "I think you are mistaking coincidence for fate" anunciam desde ali os dois possíveis desfechos da narrativa. Assim, não se pode alegar que Lost se "desviou" daquele que era o seu espírito inicial, nem que "enganou" aqueles que esperavam por respostas científicas, muito menos que nunca acenou desde o início com a possibilidade pela qual acabou optando em seu final. E mais: Sempre houve os expectadores que eram "men of science", como Jack, você e eu, e sempre houve os que eram "men of faith", como Locke. Esses grupos tinham expectativas radicalmente opostas sobre o destino do seriado e, qualquer que fosse esse destino, as expectativas de pelo menos um desses grupos de expectadores seria frontamente contrariada. Era inevitável.
iii) O motivo pelo qual os produtores optaram pela visão do "man of faith" foi exposto em inúmeros epidódios, mas eu gostaria de destacar a sequência de episódios-chave centrados na personagem Desmond Hume: "Flashes before Your Eyes" (S3E8), "The Constant" (S4E5) e "Happily Ever After" (S6E11), que construíram a ideia de que havia, sim, um destino, de que o que era capaz de manter a unidade de cada personagem ao longo do tempo era a presença de uma constante para cada um e de que essa constante era uma pessoa amada (O fato de que a constante do descobridor da ideia de constantes, Daniel, capaz de despertá-lo da ilusão da realidade paralela, fosse, ao contrário do que ele supunha, Charlotte, e não Desmond, como anotara em seu caderno, confirma isso). Tudo isso apontava que Lost era no fundo uma série sobre amor, coisa que se confirmou em The End, como depois vou defender. E o que tem isso a ver com o elemento religioso? Tem a ver, porque os produtores optaram pela via que lhes permitiria passar uma mensagem sobre o que é essencial na vida no fim das contas. Proteger a ilha é apenas uma forma de proteger as pessoas, e isso volta a se expressar na frase de Ben para Hurley para lhe dizer como defender a ilha: "I think you have to do what you do best: protect people". Vou desenvolver melhor essa ideia ao falar de The End.
iv) Penso que o viés religioso adotado pelo seriado a partir da quinta temporada também não pode ser acusado de desinteligente, clichê e singelo. E lembre-se que eu sou ateu e tive as mesmas expectativas que você no início de Lost. Primeiro, Jacob não era inteiramente bom, nem seu irmão era inteiramente mau. Ambos eram produtos opostos da educação de uma mãe problemática, que se tornou perturbada, manipuladora e assassina pelo peso do fardo de guardiã da ilha. A lição de Across the Sea não é de que o segredo da ilha é uma luz dourada no fundo de uma caverna misteriosa, e sim de que Jacob e seu irmão são, no fundo, apenas pessoas, momentos da história da ilha, uma história que nem começa nem termina com eles. Por que a mãe dos dois diz "Thank you" ao filho que a matou em Across the Sea? Pelo mesmo motivo por que Jacob não resiste ao ataque de Ben em The Incident: Ele queria se livrar do fardo de seu cargo. Por que a mãe sequestra os dois filhos da náufraga que ela depois mata? Pelo mesmo motivo por que Jacob visita e toca cada um dos futuros losties: Ele precisava de candidatos para substituí-lo, sem o que ele seguiria com seu fardo. Jacob também é manipulador, também é fraco e também é solitário e arrependido do que fez a seu irmão. Ele não é messiânico, mas apenas heroico na sua capacidade de autosacrifício como guardião da ilha, um cargo que ele procura honrar, embora se ressinta de não ter podido escolher, pois lhe foi imposto. Seu irmão não é mau. Ele é apenas um "men of science", que acredita na liberdade, que quer conhecer o que existe fora da ilha e que está disposto a tudo para livrar-se do triste destino que as escolhas de sua mãe acabaram por impor-lhe. Não há nada de satânico nele. Se há nele algo de intrinsecamente mau, é apenas sua inescrupolosidade diante de mentir, enganar, manipular, ameaçar, ferir e matar para atingir seus objetivos, algo que se viu, em maior ou menor medida, também em outras personagens, como Ben, Sawyer e Michael. Não há uma oposição "singela" entre bem e mal, e sim uma oposição complexa entre desejo de liberdade a quase qualquer preço e missão de proteção a quase qualquer preço.
Atenção: spoilers!
Caro Yúdice, antendendo aos seus apelos, venho me manifestar a respeito de Lost. Vou dividir esse comentário em duas partes. Na primeira, tentarei relativizar sua afirmação, feita na postagem Lost: O Fim, da última sexta, 21 de maio de 2010, de que os rumos tomados pelas últimas temporadas do seriado haviam sido decepcionantes em vista das expectativas criadas nas primeiras temporadas; na segunda, tentarei expressar a minha compreensão acerca de The End, o intrigante e surpreendente episódio final do seriado. Como se pode pefeitamente adivinhar, os comentários que seguem são recheados de spoilers para quem ainda não viu os episódios a que eles se referem.
PRIMEIRA PARTE
Um dos pontos que mais me chamou atenção positivamente na sua postagem foi o uso que você fez, de modo bastante prudente, de marcadores de subjetividade, como "eu esperava que" e "eu cheguei a pensar que", pois eles indicam que seu referencial de comparação do rumo que a série tomou é o rumo que você, pessoalmente, esperava e gostaria que ela tivesse tomado. Desde já destaco que, se o seu parecer final de que "Lost é isso. Decepcionante" for expressão apenas de sua frustração pessoal com a série, no sentido de que o que veio à tela não foi o que você mais teria gostado, ele é, enquanto tal, irrefutável. O que tentarei, sim, refutar é a ideia de que aquilo que veio à tela é decepcionante. E isso me parece expresso na sua postagem quando você fala que "abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás". Nisso me parece claro que a opção dos produtores por um viés religioso fez com que, aos seus olhos, a série abdicasse do que a fazia "inteligente", no sentido de intelectualmente provocativa, e abraçasse uma via "clássica e singela", no sentido de clichê e maniqueísta. Disso discordo frontamente, pelos motivos que vou elencar agora:
i) A estratégia inicial dos produtores de Lost para atrairem o enorme interesse de uma massa de telespectadores com as mais diversas preferências televisivas e visões de mundo foi plantar no seriado um conjunto de personagens e elementos tão variados que desse margem para todos os tipos possíveis de expectativas de desfecho para a trama de mistério. Entre os vários temperos postos na receita do seriado, estava o elemento científico das estações, dos números e da Dharma Iniciative. Mas, ao lado desse elemento, sempre estiveram presentes muitos outros. Sempre esteve presente o elemento romântico de casais existentes e possíveis; o elemento dramático da ilha como possibilidade de redenção para pessoas cujas vidas eram fracassadas em algum ponto relevante; o elemento filosófico de como é possível a convivência entre os diferentes numa situação de escassez de recursos e de ausência do Estado; e também o elemento místico, de um assustador e inexplicável monstro de fumaça que ameaçava os losties, de uma possível configuração do destino que havia reunido todas aquelas pessoas, de uma ligação mais íntima com a ilha da parte de John Locke. Mas essa vasta abertura do início não poderia ser mantida até o final a não ser sob o preço de não resolução dos mistérios principais, alternativa que, em vez de satisfazer a todos, provavelmente despertaria fortes sentimentos de frustração e traição e não satisfaria a ninguém. Para darem alguma resposta final, os produtores tinham que fazer alguma escolha entre os diversos rumos possíveis que a trama poderia seguir. Era preciso algum fechamento.
ii) A escolha que os produtores fizeram pelo elemento religioso não trai, portanto, a proposta inicial do seriado. Não trai porque esse elemento sempre esteve presente na trama como um dos vieses possíveis de abordagem da história. Quando os produtores dão ao primeiro episódio da segunda temporada o nome de Man of science, man of faith, encarnando os dois pólos nas personagens de Jack e Locke, fazem uma clara indicação dos dois caminhos que eram possíveis para o seriado dali por diante. As duas célebres frases daquelass personagens no episódio: "Everything happened for a reason" e "I think you are mistaking coincidence for fate" anunciam desde ali os dois possíveis desfechos da narrativa. Assim, não se pode alegar que Lost se "desviou" daquele que era o seu espírito inicial, nem que "enganou" aqueles que esperavam por respostas científicas, muito menos que nunca acenou desde o início com a possibilidade pela qual acabou optando em seu final. E mais: Sempre houve os expectadores que eram "men of science", como Jack, você e eu, e sempre houve os que eram "men of faith", como Locke. Esses grupos tinham expectativas radicalmente opostas sobre o destino do seriado e, qualquer que fosse esse destino, as expectativas de pelo menos um desses grupos de expectadores seria frontamente contrariada. Era inevitável.
iii) O motivo pelo qual os produtores optaram pela visão do "man of faith" foi exposto em inúmeros epidódios, mas eu gostaria de destacar a sequência de episódios-chave centrados na personagem Desmond Hume: "Flashes before Your Eyes" (S3E8), "The Constant" (S4E5) e "Happily Ever After" (S6E11), que construíram a ideia de que havia, sim, um destino, de que o que era capaz de manter a unidade de cada personagem ao longo do tempo era a presença de uma constante para cada um e de que essa constante era uma pessoa amada (O fato de que a constante do descobridor da ideia de constantes, Daniel, capaz de despertá-lo da ilusão da realidade paralela, fosse, ao contrário do que ele supunha, Charlotte, e não Desmond, como anotara em seu caderno, confirma isso). Tudo isso apontava que Lost era no fundo uma série sobre amor, coisa que se confirmou em The End, como depois vou defender. E o que tem isso a ver com o elemento religioso? Tem a ver, porque os produtores optaram pela via que lhes permitiria passar uma mensagem sobre o que é essencial na vida no fim das contas. Proteger a ilha é apenas uma forma de proteger as pessoas, e isso volta a se expressar na frase de Ben para Hurley para lhe dizer como defender a ilha: "I think you have to do what you do best: protect people". Vou desenvolver melhor essa ideia ao falar de The End.
iv) Penso que o viés religioso adotado pelo seriado a partir da quinta temporada também não pode ser acusado de desinteligente, clichê e singelo. E lembre-se que eu sou ateu e tive as mesmas expectativas que você no início de Lost. Primeiro, Jacob não era inteiramente bom, nem seu irmão era inteiramente mau. Ambos eram produtos opostos da educação de uma mãe problemática, que se tornou perturbada, manipuladora e assassina pelo peso do fardo de guardiã da ilha. A lição de Across the Sea não é de que o segredo da ilha é uma luz dourada no fundo de uma caverna misteriosa, e sim de que Jacob e seu irmão são, no fundo, apenas pessoas, momentos da história da ilha, uma história que nem começa nem termina com eles. Por que a mãe dos dois diz "Thank you" ao filho que a matou em Across the Sea? Pelo mesmo motivo por que Jacob não resiste ao ataque de Ben em The Incident: Ele queria se livrar do fardo de seu cargo. Por que a mãe sequestra os dois filhos da náufraga que ela depois mata? Pelo mesmo motivo por que Jacob visita e toca cada um dos futuros losties: Ele precisava de candidatos para substituí-lo, sem o que ele seguiria com seu fardo. Jacob também é manipulador, também é fraco e também é solitário e arrependido do que fez a seu irmão. Ele não é messiânico, mas apenas heroico na sua capacidade de autosacrifício como guardião da ilha, um cargo que ele procura honrar, embora se ressinta de não ter podido escolher, pois lhe foi imposto. Seu irmão não é mau. Ele é apenas um "men of science", que acredita na liberdade, que quer conhecer o que existe fora da ilha e que está disposto a tudo para livrar-se do triste destino que as escolhas de sua mãe acabaram por impor-lhe. Não há nada de satânico nele. Se há nele algo de intrinsecamente mau, é apenas sua inescrupolosidade diante de mentir, enganar, manipular, ameaçar, ferir e matar para atingir seus objetivos, algo que se viu, em maior ou menor medida, também em outras personagens, como Ben, Sawyer e Michael. Não há uma oposição "singela" entre bem e mal, e sim uma oposição complexa entre desejo de liberdade a quase qualquer preço e missão de proteção a quase qualquer preço.
Lost: encontrei o que eu buscava
SEGUNDA PARTE
Agora sobre o intrigante The End. Fixando em primeiro lugar que, a julgar pela conversa final entre Jack e Christian, a realidade na ilha era uma realidade em vida, mas a realidade paralela era uma realidade post mortem, disso algumas coisas precisam ser extraídas. A primeira é que, então, Lost não era um seriado sobre como as personagens entenderiam ou protegeriam o segredo da ilha, mas sim sobre como elas se conectariam umas com as outras de modo significativo, conexão essa que se revela, portanto, como o verdadeiro "segredo" da ilha. Isso porque, na realidade paralela, como disse Desmond, "Nothing of this matters": Não há mais ilha, homem de preto, avião, Dharma, os Outros, nem nada do tipo. Só o que há são as pessoas e as conexões essenciais que elas estabeleceram entre si. A segunda coisa é que não houve "happy endings" em Lost. O fato de que os casais ideais só se reencontram na realidade post mortem mostra que, em vida, nenhum deles pôde ter uma longa e duradoura convivência com seu parceiro, mas a curta convivência que tiveram na ilha bastou para marcar suas vidas e converter um na constante do outro, capaz de despertá-los todos de sua não lembrança. A cena final de Lost é trágica ao estilo grego: O heroi, deitado no solo da cena inicial do seriado, prestes a morrer em autosacrifício, sozinho a não ser pela tocante companhia do cachorro Vincent, contempla no avião que passa no céu o cumprimento de seu destino de salvar a ilha para assim salvar as pessoas, sem, no entanto, ser bem sucedido em salvar-se a si mesmo, a não ser no sentido simbólico de uma redenção martírica. A mensagem dos produtores: Em vida, se alguma felicidade há, ela está na ligação entre as pessoas, que geralmente é curta e precária, mas que tem chance de ser tão significativa a ponto de que, se algum destino houver para depois da morte, tenhamos razão para esperar que seja ao lado desses que conseguiram tocar nosso coração e dar sentido a nossa existência. E isso para mim foi puro Lost: No fim, os mistérios eram desimportantes, importantes eram as pessoas, suas vidas, suas experiências e seus encontros. E isso dá a Lost um desfecho e um sentido que são completamente diferentes daqueles que eu tinha esperado e que eu teria escolhido, mas que a tornam a maior série de TV de todos os tempos e merecedora eterna do respeito e da admiração de todos que gostem de um drama humano inspirador e bem construído. E, se a série teve que me frustrar para tornar-se eterna, considero a minha frustação apenas mais um dos sacrifícios necessários que a ilha demandou. É essa a minha opinião.
Adendo:
Na minha opinião, um dos motivos pelos quais o herói-mártir é Jack, e não Locke, é representar justamente a transição do "man of science" para o "man of faith", que aponta, por sua vez, para a esperada transição das expectativas e pontos de vista daqueles que estavam ao lado de Jack para se converterem, aos poucos, para o lado de Locke. A série convida o "man of science" que está assistindo a fazer a mesma mudança de horizontes do protagonista da história, pois importante não é apenas que existam aqueles que, como Locke, já naturalmente creem no que é essencial, mas sim também que aqueles que, como Jack, inicialmente não creem tenham a chance de perceber o que estão deixando de lado. A série foi se construindo de modo a levar gradativamente para o "Nothing of this matters" de Desmond. Tudo que no início chamava a atenção, despertava a curiosidade, inflamava o entusiasmo foi aos poucos se descolorindo para deixar, em primeiro plano, a verdade última: "Live together for you not to die for nothing and not to die alone".
No final das contas, isto deve provar que sou mesmo um homem de ciência: esperei tanto que o episódio final me fornecesse um motivo para continuar apaixonado pelo seriado, mas não encontrei esse motivo nele. Fui encontrá-lo aqui, nesta bela racionalização feita pelo André, em tudo superior a uns outros textos que li pela Internet e que nada tinham de profundo, muito menos de convincente.
Convencido, posso agora dizer que, como eu esperava, tenho motivos reais para fazer de Lost a minha série favorita. E considerando a legião de adversários que ela possui, digo mais: quem não viu, perdeu.
PS — Agradeço, ainda, a profunda generosidade do André, que poderia ter publicado este texto em seu blog e me mandar apenas o link, mas que ofereceu a sua obra a mim, reproduzindo-a em seu próprio blog. Um desprendimento notável, pelo que lhe rendo mais esta homenagem.
Agora sobre o intrigante The End. Fixando em primeiro lugar que, a julgar pela conversa final entre Jack e Christian, a realidade na ilha era uma realidade em vida, mas a realidade paralela era uma realidade post mortem, disso algumas coisas precisam ser extraídas. A primeira é que, então, Lost não era um seriado sobre como as personagens entenderiam ou protegeriam o segredo da ilha, mas sim sobre como elas se conectariam umas com as outras de modo significativo, conexão essa que se revela, portanto, como o verdadeiro "segredo" da ilha. Isso porque, na realidade paralela, como disse Desmond, "Nothing of this matters": Não há mais ilha, homem de preto, avião, Dharma, os Outros, nem nada do tipo. Só o que há são as pessoas e as conexões essenciais que elas estabeleceram entre si. A segunda coisa é que não houve "happy endings" em Lost. O fato de que os casais ideais só se reencontram na realidade post mortem mostra que, em vida, nenhum deles pôde ter uma longa e duradoura convivência com seu parceiro, mas a curta convivência que tiveram na ilha bastou para marcar suas vidas e converter um na constante do outro, capaz de despertá-los todos de sua não lembrança. A cena final de Lost é trágica ao estilo grego: O heroi, deitado no solo da cena inicial do seriado, prestes a morrer em autosacrifício, sozinho a não ser pela tocante companhia do cachorro Vincent, contempla no avião que passa no céu o cumprimento de seu destino de salvar a ilha para assim salvar as pessoas, sem, no entanto, ser bem sucedido em salvar-se a si mesmo, a não ser no sentido simbólico de uma redenção martírica. A mensagem dos produtores: Em vida, se alguma felicidade há, ela está na ligação entre as pessoas, que geralmente é curta e precária, mas que tem chance de ser tão significativa a ponto de que, se algum destino houver para depois da morte, tenhamos razão para esperar que seja ao lado desses que conseguiram tocar nosso coração e dar sentido a nossa existência. E isso para mim foi puro Lost: No fim, os mistérios eram desimportantes, importantes eram as pessoas, suas vidas, suas experiências e seus encontros. E isso dá a Lost um desfecho e um sentido que são completamente diferentes daqueles que eu tinha esperado e que eu teria escolhido, mas que a tornam a maior série de TV de todos os tempos e merecedora eterna do respeito e da admiração de todos que gostem de um drama humano inspirador e bem construído. E, se a série teve que me frustrar para tornar-se eterna, considero a minha frustação apenas mais um dos sacrifícios necessários que a ilha demandou. É essa a minha opinião.
Adendo:
Na minha opinião, um dos motivos pelos quais o herói-mártir é Jack, e não Locke, é representar justamente a transição do "man of science" para o "man of faith", que aponta, por sua vez, para a esperada transição das expectativas e pontos de vista daqueles que estavam ao lado de Jack para se converterem, aos poucos, para o lado de Locke. A série convida o "man of science" que está assistindo a fazer a mesma mudança de horizontes do protagonista da história, pois importante não é apenas que existam aqueles que, como Locke, já naturalmente creem no que é essencial, mas sim também que aqueles que, como Jack, inicialmente não creem tenham a chance de perceber o que estão deixando de lado. A série foi se construindo de modo a levar gradativamente para o "Nothing of this matters" de Desmond. Tudo que no início chamava a atenção, despertava a curiosidade, inflamava o entusiasmo foi aos poucos se descolorindo para deixar, em primeiro plano, a verdade última: "Live together for you not to die for nothing and not to die alone".
No final das contas, isto deve provar que sou mesmo um homem de ciência: esperei tanto que o episódio final me fornecesse um motivo para continuar apaixonado pelo seriado, mas não encontrei esse motivo nele. Fui encontrá-lo aqui, nesta bela racionalização feita pelo André, em tudo superior a uns outros textos que li pela Internet e que nada tinham de profundo, muito menos de convincente.
Convencido, posso agora dizer que, como eu esperava, tenho motivos reais para fazer de Lost a minha série favorita. E considerando a legião de adversários que ela possui, digo mais: quem não viu, perdeu.
PS — Agradeço, ainda, a profunda generosidade do André, que poderia ter publicado este texto em seu blog e me mandar apenas o link, mas que ofereceu a sua obra a mim, reproduzindo-a em seu próprio blog. Um desprendimento notável, pelo que lhe rendo mais esta homenagem.
O que aconteceu, aconteceu
Esta singela mensagem, de uma obviedade gritante, pode nos trazer algum conforto diante das dificuldades da vida. Pode, inclusive, fazer-nos superar nossos conflitos, dramas e traumas, capacitando-nos a seguir adiante. Provavelmente, é o cerne do seriado Lost, que acabou há pouco mais de dois dias nos Estados Unidos, ontem na TV paga brasileira e em dias e horários variados, para o impressionante número de pessoas que acompanharam a série graças aos programas de compartilhamento de arquivos.
Na semana passada, falei de minhas frustrações com o seriado e manifestei minha esperança de que, em seu finale, ele revelasse algo capaz de consolidar minha compreensão e meus sentimentos a respeito. Ontem, assisti ao episódio final. E, honestamente, não sei o que pensar. Ainda preciso de tempo para digerir o que vi. Por isso, não esperem nenhuma posição minha.

Por enquanto, posso dizer apenas que foi uma belíssima experiência. Embora eu não saiba ao certo a natureza dela.
Como era de se esperar, Lost acabou e continuamos perdidos. Decerto que essa era a intenção dos autores, desde o primeiro momento. E conseguiram, com muita elegância.
Leituras interessantes sobre o encerramento da série podem ser encontradas aqui:
Na semana passada, falei de minhas frustrações com o seriado e manifestei minha esperança de que, em seu finale, ele revelasse algo capaz de consolidar minha compreensão e meus sentimentos a respeito. Ontem, assisti ao episódio final. E, honestamente, não sei o que pensar. Ainda preciso de tempo para digerir o que vi. Por isso, não esperem nenhuma posição minha.

Por enquanto, posso dizer apenas que foi uma belíssima experiência. Embora eu não saiba ao certo a natureza dela.
Como era de se esperar, Lost acabou e continuamos perdidos. Decerto que essa era a intenção dos autores, desde o primeiro momento. E conseguiram, com muita elegância.
- http://colunas.tv.globo.com/lostinlost/2010/05/25/the-end-nossa-grande-odisseia/#more-5093 (o deleite de um dos maiores admiradores do seriado)
- http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/05/g1-seleciona-os-15-misterios-de-lost-que-nao-foram-respondidos.html (com direito a um excelente infográfico sobre os mistérios não revelados da série)
- http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/lost-e-sem-querer-a-criacao-mais-genial-da-tv-20100525.html (um oportuno ensaio sobre porque o seriado, independentemente de seu conteúdo, mudou a forma como se vê televisão)
- http://diversao.terra.com.br/tv/noticias/0,,OI4447395-EI12993,00-Nao+se+desespere+entenda+o+final+de+Lost.html (uma razoável tentativa de explicar alguns mistérios da série)
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Nada de sonho
Atualizado após assistir ao episódio final (spoiler).
Se uma certeza sempre nos foi dada pelos produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, foi a de que a tese de que Lost mostrou apenas um sonho, um delírio, ou que talvez os personagens houvessem morrido — a tese "Caverna do Dragão", que chegou a ser publicamente comentada pelo mestre do horror literário pop americano, Stephen King — não era verdadeira. Agora, entretanto, chega-se à conclusão de que King talvez estivesse correto. Pelo menos é uma das interpretações possíveis.

Por isso, apenas como brincadeira deve ser tomada a frase que Bart Simpson escreveu na lousa de sua sala de aula, no episódio de ontem do mais famoso seriado de animação de todos os tempos. "Foi tudo um sonho do cachorro."

Inclusive porque o labrador Vincent foi outro personagem a que Lost deu evidência para, depois, não o levar a lugar algum, exceto até o seu ressurgimento no episódio final, com direito à participação na comovente última cena.
Se uma certeza sempre nos foi dada pelos produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, foi a de que a tese de que Lost mostrou apenas um sonho, um delírio, ou que talvez os personagens houvessem morrido — a tese "Caverna do Dragão", que chegou a ser publicamente comentada pelo mestre do horror literário pop americano, Stephen King — não era verdadeira. Agora, entretanto, chega-se à conclusão de que King talvez estivesse correto. Pelo menos é uma das interpretações possíveis.

Por isso, apenas como brincadeira deve ser tomada a frase que Bart Simpson escreveu na lousa de sua sala de aula, no episódio de ontem do mais famoso seriado de animação de todos os tempos. "Foi tudo um sonho do cachorro."

Inclusive porque o labrador Vincent foi outro personagem a que Lost deu evidência para, depois, não o levar a lugar algum, exceto até o seu ressurgimento no episódio final, com direito à participação na comovente última cena.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Lost: o fim
Atualizado após o último episódio (spoiler).
Há alguns dias, li uma ótima resenha sobre o seriado Lost, que encontrará o seu destino, qualquer que ele seja, depois de amanhã — domingo, dia 23 — nos televisores dos Estados Unidos. A resenha falava sobre como os fãs da série se tornaram reféns dela, tornando-se-lhes impossível deixar de assistir, não importa o que aconteça. Ou seja, continuamos a assistir, mesmo eventualmente não gostando.
A sexta e última temporada foi frustrante para mim. Contudo, a esta altura, já não posso desistir do chamamento que a trama me faz. E faço isso na expectativa de que, ao menos no último capítulo, invada-me a sensação de graça, de glória, de que o provavelmente mais instigante (não escrevi "melhor"; escrevi "instigante", no sentido da capacidade de mexer com as emoções de fãs e adversários, além de provocar acalorados debates) seriado já produzido foi, de fato, tudo o que se esperava dele.
Definitivamente, o grande segredo de Lost não é o que eu esperava. Talvez essa fosse a maior aposta dos criadores da série. Com efeito, qualquer um poderia gostar ou não da verdade, quando ela surgisse. Pena para mim estar, neste momento, no grupo dos que desaprovaram.
Apaixonado por ciência e questões comportamentais, as duas primeiras temporadas do seriado me ofereceram muito para que eu me deixasse seduzir. Cheguei a acreditar em algumas das incontáveis especulações feitas à época.
Na teoria que me pareceu mais sedutora, os números malditos seriam elementos de uma "equação do fim do mundo", criada por um matemático que, com base nela, sopesando elementos como população e consumo dos recursos naturais, previra a data em que a humanidade entraria em colapso. Na tentativa de salvar a espécie humana, um megaprojeto científico, a Iniciativa Dharma, teria fincado bases na ilha para desenvolver uma série de linhas de pesquisa ligadas à sustentabilidade. Pesquisava-se, p. ex., a adaptação de espécies animais a habitats diferentes dos originais (lembra-se do urso polar morto por Sawyer? e dos tubarões com a logo da Dharma na pele?).
A ID seria, também, um esforço para se alcançar a autossuficiência na produção de alimentos. Por isso, absolutamente tudo que se consumia na ilha, inclusive cerveja, era produzido pela própria ID, exceto os chocolates Apollo.
E havia, também, os experimentos comportamentais, que eu acreditei serem pesquisas para adaptar os seres humanos às novas condições de vida no planeta. Por isso o botão que precisava ser apertado a cada 108 minutos, a existência de uma estação de onde se monitorava, por TV, o que acontecia nas demais estações, e as cartas que as cobaias escreviam para suas famílias, mas que nunca eram enviadas para lugar algum.
A luta para salvar a humanidade da destruição! Isso seria lindo. Mas, no final, Lost não era nada disso. "Os outros", que tanto medo causaram nas duas primeiras temporadas, revelaram-se como personagens de somenos importância. Aliás, a Iniciativa Dharma também não tinha importância. Tudo aquilo aconteceu não se sabe por quê. Talvez tenha sido apenas um inocente compartilhamento de espaço físico. Porque no final das contas os protagonistas, as vítimas do voo Oceanic 815, não foram atraídas para a ilha para tomar parte, voluntariamente ou não, dessas misteriosas experiências, à semelhança do que aconteceu com a adorável Juliet, médica especializada em fertilidade humana, recrutada por Richard Alpert e que acabou à mercê de Benjamin Linus, que supúnhamos um poderoso vilão, mas que acabou como um homem desesperado, cheio de culpa, joguete nas mãos de todo mundo e com a cara mais socada do que os personagens de filmecos de porrada.
E mesmo o tema das viagens no tempo, que dominou a quinta temporada e que prometia tanto, simplesmente não disse a que veio. Nem dirá, pelo visto.
E por que o voo Oceanic 815 caiu na ilha, então?
No final das contas, abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás, porque sua saída da ilha implicaria no fim do mundo (pelo menos o fim do mundo voltou) e porque, em sua luta por ir embora, submete diversas pessoas a tentações, prometendo inclusive a ressurreição dos mortos (como prometeu a Sayid Jarrah).
Nesta temporada final, as respostas pelas quais tanto ansiávamos, foram sendo soltas a contagotas. Algumas já haviam sido dadas no ano passado, mas tudo muito secundário.
Soubemos que os números malditos, no fundo, não significavam nada. Eram apenas os números a que estavam associados os nomes dos candidatos a substitutos de Jacob. Que coisa mais besta...
Soubemos quem era Jacob, sua função na ilha e o que ele está protegendo: uma caverna cheia de luz — uma luz que todo ser humano carregaria consigo e que, por cobiça, sempre quer mais. Por isso, somente os protetores conseguem enxergar a tal caverna. Por isso ela precisa ser defendida, a todo custo, do inimigo. Um inimigo que já esteve dentro dela e, por esse motivo, foi condenado a uma espécie de danação eterna, transformando-se no monstro de fumaça.
E é isso. Jacob atraiu um monte de gente para a ilha, provocando a morte de quase todos, direta ou indiretamente, para no final das contas testar uma meia dúzia de "candidatos" e oferecer-lhes uma escolha. A opção que ele mesmo não teve, de se tornar o guardião. Agora ele pode sumir de vez, porque morto já está, enquanto seu substituto tenta achar um meio de matar o inimigo, para acabar de vez com o perigo.
Lost é isso. Decepcionante.
Abaixo, algumas imagens dos episódios 15 e 16 da sexta temporada, onde alguns mistérios foram revelados:
O misterioso Richard Alpert, que foi humanizado neste fase final e se tornou um dos personagens mais bonitos da trama, é atacado (ele era imortal, mas talvez isso significasse não morrer naturalmente nem poder matar a si mesmo) pelo monstro de fumaça. Se morresse, esse homicídio nos levaria para onde?

Um catatônico Benjamin Linus mata o seu arquirrival, Charles Widmore. Não havia entre eles uma ordem de não agressão, à semelhança da que havia entre Jacob e seu irmão sem nome?

Tratado como o protagonista desde o primeiro momento, no final os roteiristas optaram pelo previsível e fizeram Jack aceitar a missão de substituir Jacob. O "pastor", que passou de homem de ciência para homem de fé, aceita o que ele mesmo acha ser seu destino.

A iniciação mística é acompanhada a certa distância pelo três últimos remanescentes vivos da queda do voo Oceanic 815: Sawyer, Kate e Hurley.

O suposto representante do Bem, Jacob, ataca o suposto representante do Mal, seu irmão de nome ignorado, em vingança ao assassinato da mãe adotiva, em frente à caverna de luz, coração da ilha, a razão de ser de tudo.

Sinceramente, não sei mais o que esperar. Sobre a trama, nada mais espero. Tenho apenas um sentimento, o de esperança de que, no capítulo final, duplo, os roteiristas tirem da manga aquela surpresa que me deixará sem fôlego e profundamente grato pela experiência que me proporcionaram.
Independentemente do que acontecer, valeu a pena. Lost, sem dúvida, não é entretenimento para todos.
Há alguns dias, li uma ótima resenha sobre o seriado Lost, que encontrará o seu destino, qualquer que ele seja, depois de amanhã — domingo, dia 23 — nos televisores dos Estados Unidos. A resenha falava sobre como os fãs da série se tornaram reféns dela, tornando-se-lhes impossível deixar de assistir, não importa o que aconteça. Ou seja, continuamos a assistir, mesmo eventualmente não gostando.
A sexta e última temporada foi frustrante para mim. Contudo, a esta altura, já não posso desistir do chamamento que a trama me faz. E faço isso na expectativa de que, ao menos no último capítulo, invada-me a sensação de graça, de glória, de que o provavelmente mais instigante (não escrevi "melhor"; escrevi "instigante", no sentido da capacidade de mexer com as emoções de fãs e adversários, além de provocar acalorados debates) seriado já produzido foi, de fato, tudo o que se esperava dele.
Definitivamente, o grande segredo de Lost não é o que eu esperava. Talvez essa fosse a maior aposta dos criadores da série. Com efeito, qualquer um poderia gostar ou não da verdade, quando ela surgisse. Pena para mim estar, neste momento, no grupo dos que desaprovaram.
Apaixonado por ciência e questões comportamentais, as duas primeiras temporadas do seriado me ofereceram muito para que eu me deixasse seduzir. Cheguei a acreditar em algumas das incontáveis especulações feitas à época.

Na teoria que me pareceu mais sedutora, os números malditos seriam elementos de uma "equação do fim do mundo", criada por um matemático que, com base nela, sopesando elementos como população e consumo dos recursos naturais, previra a data em que a humanidade entraria em colapso. Na tentativa de salvar a espécie humana, um megaprojeto científico, a Iniciativa Dharma, teria fincado bases na ilha para desenvolver uma série de linhas de pesquisa ligadas à sustentabilidade. Pesquisava-se, p. ex., a adaptação de espécies animais a habitats diferentes dos originais (lembra-se do urso polar morto por Sawyer? e dos tubarões com a logo da Dharma na pele?).
A ID seria, também, um esforço para se alcançar a autossuficiência na produção de alimentos. Por isso, absolutamente tudo que se consumia na ilha, inclusive cerveja, era produzido pela própria ID, exceto os chocolates Apollo.
E havia, também, os experimentos comportamentais, que eu acreditei serem pesquisas para adaptar os seres humanos às novas condições de vida no planeta. Por isso o botão que precisava ser apertado a cada 108 minutos, a existência de uma estação de onde se monitorava, por TV, o que acontecia nas demais estações, e as cartas que as cobaias escreviam para suas famílias, mas que nunca eram enviadas para lugar algum.

A luta para salvar a humanidade da destruição! Isso seria lindo. Mas, no final, Lost não era nada disso. "Os outros", que tanto medo causaram nas duas primeiras temporadas, revelaram-se como personagens de somenos importância. Aliás, a Iniciativa Dharma também não tinha importância. Tudo aquilo aconteceu não se sabe por quê. Talvez tenha sido apenas um inocente compartilhamento de espaço físico. Porque no final das contas os protagonistas, as vítimas do voo Oceanic 815, não foram atraídas para a ilha para tomar parte, voluntariamente ou não, dessas misteriosas experiências, à semelhança do que aconteceu com a adorável Juliet, médica especializada em fertilidade humana, recrutada por Richard Alpert e que acabou à mercê de Benjamin Linus, que supúnhamos um poderoso vilão, mas que acabou como um homem desesperado, cheio de culpa, joguete nas mãos de todo mundo e com a cara mais socada do que os personagens de filmecos de porrada.
E mesmo o tema das viagens no tempo, que dominou a quinta temporada e que prometia tanto, simplesmente não disse a que veio. Nem dirá, pelo visto.
E por que o voo Oceanic 815 caiu na ilha, então?
Aviso de spoiler!
Não prossiga a leitura se não assistiu ao penúltimo episódio da série.
No final das contas, abdicando de todas as questões científicas ou pseudocientíficas que faziam dele um entretenimento inteligente, Lost foi reduzido a uma clássica e singela batalha entre o bem e o mal, personificados num messiânico Jacob e em seu irmão, uma espécie de Satanás, porque sua saída da ilha implicaria no fim do mundo (pelo menos o fim do mundo voltou) e porque, em sua luta por ir embora, submete diversas pessoas a tentações, prometendo inclusive a ressurreição dos mortos (como prometeu a Sayid Jarrah).
Nesta temporada final, as respostas pelas quais tanto ansiávamos, foram sendo soltas a contagotas. Algumas já haviam sido dadas no ano passado, mas tudo muito secundário.
Soubemos que os números malditos, no fundo, não significavam nada. Eram apenas os números a que estavam associados os nomes dos candidatos a substitutos de Jacob. Que coisa mais besta...
Soubemos quem era Jacob, sua função na ilha e o que ele está protegendo: uma caverna cheia de luz — uma luz que todo ser humano carregaria consigo e que, por cobiça, sempre quer mais. Por isso, somente os protetores conseguem enxergar a tal caverna. Por isso ela precisa ser defendida, a todo custo, do inimigo. Um inimigo que já esteve dentro dela e, por esse motivo, foi condenado a uma espécie de danação eterna, transformando-se no monstro de fumaça.
E é isso. Jacob atraiu um monte de gente para a ilha, provocando a morte de quase todos, direta ou indiretamente, para no final das contas testar uma meia dúzia de "candidatos" e oferecer-lhes uma escolha. A opção que ele mesmo não teve, de se tornar o guardião. Agora ele pode sumir de vez, porque morto já está, enquanto seu substituto tenta achar um meio de matar o inimigo, para acabar de vez com o perigo.
Lost é isso. Decepcionante.
Abaixo, algumas imagens dos episódios 15 e 16 da sexta temporada, onde alguns mistérios foram revelados:
O misterioso Richard Alpert, que foi humanizado neste fase final e se tornou um dos personagens mais bonitos da trama, é atacado (ele era imortal, mas talvez isso significasse não morrer naturalmente nem poder matar a si mesmo) pelo monstro de fumaça. Se morresse, esse homicídio nos levaria para onde?

Um catatônico Benjamin Linus mata o seu arquirrival, Charles Widmore. Não havia entre eles uma ordem de não agressão, à semelhança da que havia entre Jacob e seu irmão sem nome?

Tratado como o protagonista desde o primeiro momento, no final os roteiristas optaram pelo previsível e fizeram Jack aceitar a missão de substituir Jacob. O "pastor", que passou de homem de ciência para homem de fé, aceita o que ele mesmo acha ser seu destino.

A iniciação mística é acompanhada a certa distância pelo três últimos remanescentes vivos da queda do voo Oceanic 815: Sawyer, Kate e Hurley.

O suposto representante do Bem, Jacob, ataca o suposto representante do Mal, seu irmão de nome ignorado, em vingança ao assassinato da mãe adotiva, em frente à caverna de luz, coração da ilha, a razão de ser de tudo.

Sinceramente, não sei mais o que esperar. Sobre a trama, nada mais espero. Tenho apenas um sentimento, o de esperança de que, no capítulo final, duplo, os roteiristas tirem da manga aquela surpresa que me deixará sem fôlego e profundamente grato pela experiência que me proporcionaram.
Independentemente do que acontecer, valeu a pena. Lost, sem dúvida, não é entretenimento para todos.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Mal da época
Tenho problemas para fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Sou como um computador rodando na plataforma Windows: se você aciona uns três programas simultaneamente, o sistema trava e precisa ser reiniciado. Felizmente, nunca travei. Nunca desmaiei, sofri crise de pânico ou de outra forma fiquei doente por excesso de trabalho. Mas há horas em que o corpo não suporta o peso das tarefas, mormente considerando que, junto com elas, vêm grandes responsabilidades.
A docência é uma atividade estafante não apenas porque se trabalha demais e — em certas épocas, de domingo a domingo —, mas também porque se carrega uma caneta que pode trazer grandes alegrias ou grandes tristezas. Quando o semestre letivo chega ao fim e precisamos decidir o que fazer com dezenas e dezenas de pessoas, o peso da responsabilidade se torna muito palpável nos ombros — ainda mais considerando que eu vejo meus alunos como seres humanos e procuro compreender o momento da vida em que se encontram, a esmagadora maioria ainda muito jovem, sem as necessidades e sobretudo as urgências que nós, um tantinho mais velhos, já possuímos.
Sexta-feira passada, apliquei quatro provas diferentes para mais de 80 pessoas, ao mesmo tempo. Quando me vi cercado de pessoas e de pilhas de papeis, que não podiam ser misturados, estremeci. Ainda mais porque, além disso, também estava recebendo trabalhos de outros alunos e precisava adiantar a correção de outros. Seis programas rodando no meu Windows. Fiquei estático, sem saber por onde começar. Felizmente lá estava o meu dedicado monitor, Antônio Graim Neto, que mais uma vez me socorreu, ajudando tanto com os papeis como com os alunos, que nessas horas precisam ser lembrados que dúvidas devem ser tiradas antes da prova e não durante.
Ontem, passei por uma versão reduzida dessa mesma experiência. Eram apenas 21 pessoas, mas três provas diferentes. Além disso, eu precisava entregar notas, dar explicações sobre essa avaliação, receber e corrigir os últimos trabalhos — tudo isso contra o relógio, há muito meu inimigo. Devido a isso, ontem comecei a chamar os Dominantes. (*)
Volta e meia, apresento uns sintominhas já meus velhos conhecidos: sensação generalizada de cansaço, alguma ansiedade e uma dorzinha nos globos oculares, como se alguém os apertasse com as mãos, de trás par
a a frente. Nessas horas, o jeito é parar. Os sintomas só cessam se eu descansar num ambiente escuro. Quando cheguei em casa, fui logo abrindo o pacote de trabalhos em cima da mesa, para corrigi-los, mas não foi possível. Mesmo com comida e banho, o corpo não respondeu. O jeito foi me deitar e abstrair as preocupações. Como esperado, ao acordar, já me sentia bem.
a a frente. Nessas horas, o jeito é parar. Os sintomas só cessam se eu descansar num ambiente escuro. Quando cheguei em casa, fui logo abrindo o pacote de trabalhos em cima da mesa, para corrigi-los, mas não foi possível. Mesmo com comida e banho, o corpo não respondeu. O jeito foi me deitar e abstrair as preocupações. Como esperado, ao acordar, já me sentia bem.
Pronto ou não, hoje recomeça tudo de novo, só que com muito menos tempo para agir.
(*) Você não entendeu o que eu quis dizer com "chamar os Dominantes"? Então procure na Internet informações sobre Spectroman, o heroi que aparece na imagem ao lado — sucesso na TV nos gloriosos e saudosos anos 1980, quando até os programas babacas japoneses eram melhores do que os programas babacas japoneses de hoje. Arbítrio do Yúdice também é cultura pop, ainda que trash.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Lost — season finale
Sem spoilers, viu, Francisco? (Exceto se você estiver muito atrasado...)
Nestes tempos em que a tecnologia nos libertou do sofrimento de ter que esperar até que a obra audiovisual seja lançada em DVD (se for), os fãs de uma série de TV, no Brasil, só precisam de dois dias para assistir ao último episódio. Graças a isso, ontem (infelizmente, só ontem; aliás, terminando a uma hora da madrugada de hoje), assisti ao season finale de Lost.
Simplesmente maravilhoso. Estupendo. Deixo para inquietação dos interessados a informação de que a imagem aí ao lado representa a deusa egípcia Taweret, protetora da fertilidade, das embarcações e das grávidas. E auxiliou Horus (deus dos céus) em sua luta contra Seth (deus da violência, desordem, traição, inveja, guerra, deserto e animais, ou a encarnação do espírito do mal). Na mitologia do seriado, procure lembrar-se de uma certa estátua em ruínas, da qual restara apenas um pé de quatro dedos.
As respostas aos muitos enigmas da trama estão chegando, gradualmente, num ritmo adequado a nossa necessidade de prosseguir perdidos. Mas os roteiristas fizeram o favor de nos deixar com o coração na mão em busca de uma resposta, uma só, que nem sequer envolvia os tais mistérios. Queríamos apenas saber o que aconteceria aos nossos protagonistas. E no exato momento em que saberíamos, um dos famosos clarões que marcam as viagens no tempo veio e o episódio acabou, como sempre exibindo o título, mas desta vez num fundo branco em vez de preto.
Respiração presa e a maior cara de espanto. Como assim? Já acabou? Precisaremos esperar mais oito meses para conhecer o desfecho daquela cena?
É, precisaremos, sim. Fazer o quê? Esperar, desejando que se cumpra o anúncio de que, já na abertura da sexta e última temporada, seremos brindados com informações essenciais para identificar, por fim, qual é o verdadeiro tema da série.
Se precisa ser assim, que seja. Por ora, fica a emoção de um episódio fabuloso nos mínimos detalhes, a começar pela edição e pelos movimentos de câmera, com tomadas magníficas de um lugar cujas belezas naturais são um show à parte. E as interpretações! Espetaculares, com uma inevitável ênfase a Josh Holloway (sim, o Sawyer) e Elizabeth Mitchell (a adorável Juliet).
Mas chega de elogios. Não dá para ficar nessa tietagem toda.
Enquanto espera longos meses pelo começo do fim tão aguardado, fique com a imagem de Ben contemplando o tapete de Jacob, no qual se lê a frase "Deuses dão alegrias".
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Perdido, de novo
Atendendo ao apelo do Francisco, advirto que o texto abaixo contém uma informação desconhecida de quem não assistiu ao final da quarta temporada do seriado. É um fato de caráter bastante geral, mas vale a pena prevenir.
A quinta e penúltima temporada do seriado Lost começou a ser exibida nos Estados Unidos na última quarta-feira, com dois episódios seguidos, que logo em seguida puderam ser vistos pela Internet. No dia seguinte, já estavam disponíveis, legendados em outros idiomas, de modo que os fãs pelo mundo afora podem acompanhar a trama sem maiores perdas de tempo. Ruim só para o detentor dos direitos autorais.
Lost apresenta uma forte característica para ser considerado cult: quem gosta, ama; quem não gosta, odeia. Contudo, aparentemente, o grupo mais numeroso é o das pessoas que desistiram da série. Acho curioso como as pessoas, algumas até bastante inteligentes e cultas, rotulam o programa como difícil demais ou ininteligível e o abandonam. Para mim, há muito de preguiça mental nessa atitude. E quando os desistentes são do tipo que assiste aos seriados de comédia americanos... Bem, deixa pra lá.
Nesta quinta temporada, está mais do que esclarecido que um dos temas centrais da trama é a manipulação do tempo, permitindo viagens para o futuro ou para o passado. Um tema recorrente na dramaturgia, diga-se de passagem. Só que, desta vez, construído sobre o muito que a ciência (ou a pseudociência) tem sistematizado sobre o assunto. Ao lado, o pêndulo da Sra. Hawking, que acredito estar definindo a localização atual da ilha.
Trata-se, portanto, de conhecimentos ou suposições científicas ligados a uma Física hiperavançada e, por isso mesmo, sabidamente inacessível ao público leigo, a menos que traduzida numa linguagem assaz simplificada. Contudo, Lost é um programa de entretenimento e não uma videoaula para o pós-doutorado em Física da Universidade de Oxford. Logo, a finalidade não é tornar ninguém especialista na curvatura tempo-espaço, e sim apresentar isso como pano de fundo para uma história sobre pessoas perdidas em suas vidas normais, passando por dolorosos processos de transformação num mundo à parte, ao fim do qual podem se tornar indivíduos melhores — caso sobr
evivam, logicamente.
À direita, Desmond (que vive uma linda história de amor), Locke (e sua trajetória trágica) e o protagonista, Jack, que considero o maior pé no saco, mas que expressa o ideal de redenção.
É uma história humana, portanto. Que se fosse contada numa sequência linear (tanto quanto possível), nem teria tantos atrativos, pois o que a torna fascinante é, justamente, não sabermos ao certo o que vemos e podermos, mais tarde, fechar as lacunas e sentir prazer em montar o quebra-cabeça.
Abandonar Lost, portanto, me parece um ato de impaciência. É um produto americano, portanto o que podemos esperar é que todas as dúvidas sejam sanadas. Ficar com raivinha porque não entendeu é passar recibo. Ainda mais com os prenúncios de finais felizes, para boa parte dos cativantes personagens. Eu, pessoalmente, sou avesso a finais felizes. Mas já me importo tanto com essas criaturas que não me aborreceria em vê-las felizes e em paz.
Este é o grande ponto: o que define uma boa história — seja em que tipo de mídia for, a começar pelos bons e velhos livros — é a capacidade do autor de nos fazer vibrar com a ficção como se ela fosse uma história real; fazer-nos reagir emocionalmente aos personagens como se pessoas concretas fossem. Esse mérito não pode ser negado a Carlton Cuse e Damon Lindelof, que assinam o frenético roteiro.
A quinta e penúltima temporada do seriado Lost começou a ser exibida nos Estados Unidos na última quarta-feira, com dois episódios seguidos, que logo em seguida puderam ser vistos pela Internet. No dia seguinte, já estavam disponíveis, legendados em outros idiomas, de modo que os fãs pelo mundo afora podem acompanhar a trama sem maiores perdas de tempo. Ruim só para o detentor dos direitos autorais.
Lost apresenta uma forte característica para ser considerado cult: quem gosta, ama; quem não gosta, odeia. Contudo, aparentemente, o grupo mais numeroso é o das pessoas que desistiram da série. Acho curioso como as pessoas, algumas até bastante inteligentes e cultas, rotulam o programa como difícil demais ou ininteligível e o abandonam. Para mim, há muito de preguiça mental nessa atitude. E quando os desistentes são do tipo que assiste aos seriados de comédia americanos... Bem, deixa pra lá.
Nesta quinta temporada, está mais do que esclarecido que um dos temas centrais da trama é a manipulação do tempo, permitindo viagens para o futuro ou para o passado. Um tema recorrente na dramaturgia, diga-se de passagem. Só que, desta vez, construído sobre o muito que a ciência (ou a pseudociência) tem sistematizado sobre o assunto. Ao lado, o pêndulo da Sra. Hawking, que acredito estar definindo a localização atual da ilha.
Trata-se, portanto, de conhecimentos ou suposições científicas ligados a uma Física hiperavançada e, por isso mesmo, sabidamente inacessível ao público leigo, a menos que traduzida numa linguagem assaz simplificada. Contudo, Lost é um programa de entretenimento e não uma videoaula para o pós-doutorado em Física da Universidade de Oxford. Logo, a finalidade não é tornar ninguém especialista na curvatura tempo-espaço, e sim apresentar isso como pano de fundo para uma história sobre pessoas perdidas em suas vidas normais, passando por dolorosos processos de transformação num mundo à parte, ao fim do qual podem se tornar indivíduos melhores — caso sobr
evivam, logicamente.À direita, Desmond (que vive uma linda história de amor), Locke (e sua trajetória trágica) e o protagonista, Jack, que considero o maior pé no saco, mas que expressa o ideal de redenção.
É uma história humana, portanto. Que se fosse contada numa sequência linear (tanto quanto possível), nem teria tantos atrativos, pois o que a torna fascinante é, justamente, não sabermos ao certo o que vemos e podermos, mais tarde, fechar as lacunas e sentir prazer em montar o quebra-cabeça.
Abandonar Lost, portanto, me parece um ato de impaciência. É um produto americano, portanto o que podemos esperar é que todas as dúvidas sejam sanadas. Ficar com raivinha porque não entendeu é passar recibo. Ainda mais com os prenúncios de finais felizes, para boa parte dos cativantes personagens. Eu, pessoalmente, sou avesso a finais felizes. Mas já me importo tanto com essas criaturas que não me aborreceria em vê-las felizes e em paz.
Este é o grande ponto: o que define uma boa história — seja em que tipo de mídia for, a começar pelos bons e velhos livros — é a capacidade do autor de nos fazer vibrar com a ficção como se ela fosse uma história real; fazer-nos reagir emocionalmente aos personagens como se pessoas concretas fossem. Esse mérito não pode ser negado a Carlton Cuse e Damon Lindelof, que assinam o frenético roteiro.
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