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segunda-feira, 7 de março de 2022

Pensando como um criminalista

De acordo com reportagem do Diário do Pará publicada hoje, na última quinta-feira, 3 de março, em Marabá, um homem de 57 anos amarrou um de seus netos, de 12, e o açoitou com cordas. Como é recorrente nestes tempos, a agressão foi filmada e acabou nas redes sociais, gerando repercussão. Veja aqui a reportagem e o vídeo, borrado para não ser tão terrível, se achar que vale a pena.

Não sabemos o que motivou o ataque, se o agressor estava ciente de que era filmado nem qual o motivo da divulgação das imagens, atribuídas a uma adolescente, talvez também neta do espancador. Sabemos que os menores foram encaminhados ao Conselho Tutelar, para providências, e que todos os adolescentes e crianças (em um total de 6 pessoas) estão sendo criados pelo avô, ou seja, são financeiramente dependentes dele. A certa altura do vídeo, é possível escutar o menino gritar "ai, vô, tá bom!". Isso me faz pensar em um contexto de temor reverencial.

A reportagem afirma em duas passagens que a polícia local está apurando os fatos como possível crime de maus-tratos, tipo previsto no art. 136 do Código Penal, com a seguinte descrição:

Art. 136 - Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina:
Pena - detenção, de dois meses a um ano, ou multa.
[...] § 3º - Aumenta-se a pena de um terço, se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos.

A meu ver, considerando a natureza e a intensidade da agressão (embora não tenhamos notícia de lesões corporais decorrentes), bem como a absoluta indefensividade da vítima, a polícia de Marabá está sendo estranhamente parcimoniosa, pois mesmo minha mente antipunitivista encara o caso como sendo tortura, conforme tipificação do art. 1º, II, da Lei n. 9.455, de 1997:

Art. 1º Constitui crime de tortura:
[...] II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.
Pena - reclusão, de dois a oito anos.
[...] § 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço:
[...] II – se o crime é cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 (sessenta) anos;
[...] § 6º O crime de tortura é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.
§ 7º O condenado por crime previsto nesta Lei, salvo a hipótese do § 2º, iniciará o cumprimento da pena em regime fechado.

A diferença de capitulação penal traz consequências bastante severas, no que diz respeito à quantidade de pena cominada; ao impedimento das medidas despenalizadoras da Lei n. 9.099, de 1995; à caracterização de crime hediondo (e seu impacto para progressão de regime e liberdade condicional); à vedação à possibilidade de fiança e ao regime fechado inicial obrigatório.

Em um raciocínio simplista (os raciocínios em matéria penal são frequentemente toscos e ilegais, inclusive quando manifestados por profissionais do Direito), o caso se resolveria com a prisão do agressor, seu processamento e condenação a uma pena exemplar, tudo permeado com belos discursos sobre a proteção da criança. Exceto quanto à prisão preventiva e a uma "pena exemplar", eu não diria que essas consequências estão erradas, em uma análise estritamente baseada da dogmática penal, considerando ainda a aparência de prova suficiente para a compreensão do fato em si. Mas é meu dever fazer uma ponderação. Você prestou atenção na parte em que mencionei que o agressor é mantenedor financeiro da família? Ainda que não seja o único, foi dito que ele cria os netos.

O fato, citado pela reportagem, de que o agressor garante a subsistência de ao menos 6 netos, inclusive da própria vítima, torna o caso bastante melindroso. Esta é daquelas situações em que a facilidade da solução dogmática não é capaz de enfrentar as consequências humanas que não apenas o delito, mas a intervenção estatal sobre ele, provocariam. E bem sabemos que intervenções estatais costumam ser devastadoras, sobretudo porque, hoje em dia, do policial ao ministro das cortes superiores, os agentes da persecução criminal parecem possuídos por uma questionável convicção de que são guerreiros em uma batalha pela salvação dos mais desvalidos ou de uma abstrata sociedade. Os discursos penais são cada vez mais salvacionistas, o que nos remete àquela instigante provocação que se tornou corriqueira na seara penal: quem nos protege da bondade dos bons?

Evidentemente, precisaríamos de maior conhecimento sobre como está estruturada a família na qual ocorreu esse desastre. Um dos maiores problemas de qualquer análise criminal é a insistência das pessoas em olhar os fatos do modo mais limitado possível (a conduta criminosa em tese), quando o único modo de compreendê-los seria na amplitude dos contextos pessoais, sociais, econômicos, educacionais, religiosos e de outras ordens. 

Neste caso, em particular, temos a velha discussão em torno da violência como recurso educacional. A reportagem cita a Lei n. 13.010, de 2014, cognominada "Lei Menino Bernardo" ou "Lei da palmada", que veda todo castigo físico ou tratamento cruel ou degradante contra crianças e adolescentes. Recordo-me claramente de que, enquanto o projeto de lei tramitava no Congresso Nacional, impulsionado por um bárbaro homicídio intrafamiliar de criança (a velha estratégia brasileira de lei penal decorrente de crime específico), as pessoas por aí protestavam como nunca costumam fazer quando se discute o endurecimento da legislação. Qual era o mote? Os políticos não podem dizer se eu vou ou não bater no meu filho! Quem decide sou eu!

Entendeu o tamanho do problema que temos nas mãos? Não duvide: muita gente apoiará a atitude desse avô, mesmo sem saber nada sobre as circunstâncias concretas do caso. Legitimarão a barbárie como um direito natural daquele que cria, que investe o seu dinheiro, principalmente se for pouco. Outros criticarão o excesso, mas não a violência em si. 

Isto posto, gostaria de convidar o distinto leitor a se manifestar sobre este caso. Não precisa ser uma análise jurídica. Quero que você se ponha no lugar de alguém em posição de autoridade para tomar alguma decisão oficial sobre o futuro dos envolvidos. O que você faria? O que entende relevante ser analisado? O que é que deve ser defendido em caráter prioritário nesse contexto?

Agradeço pela contribuição que puder oferecer.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Onde estarão as pessoas decentes?

Eu sei, é claro, que existem pessoas capazes de legitimar a violência de muitas formas e que, por isso, transferem esse tipo de atitude para as gerações seguintes. Fazem-no pelo exemplo, usando agressões como forma de comunicação em âmbito familiar ou fora dele, ou como expressão didática, p. ex. ensinando os filhos a resolver suas desavenças no soco.

Mas eu acredito, suponho, tenho esperança de que também existem pessoas regidas pelo código da bondade. Não essa bondade condicionada a supostas valorações sobre "justiça", cujo efeito prático é criar distinções entre quem merece respeito e quem não; que merece viver, inclusive. Uma bondade em sentido mais originário, a tal regra de ouro já conhecida na filosofia grega antiga e amplamente difundida pelo cristianismo: não faças aos outros aquilo que não queres que seja feito contigo. Aliás, milhões de pessoas passaram longas horas dentro de igrejas, escutando seus sacerdotes falar sobre uma mensagem de amor, de perdão e até de dar a outra face, deixada por Jesus Cristo.

Assim matutando, não consigo parar de pensar nos familiares desses agentes de segurança pública que, com frequência crescente, têm sido mostrados nas redes sociais, às vezes na imprensa comum, agredindo, humilhando, torturando e até assassinando seres humanos, ainda que culpados de algum ilícito, porém francamente indefesos frente a seus algozes. Penso nesses pais, mães, cônjuges, filhos (sobretudo os mais crescidos) que se defrontam com a realidade de que alguém muito próximo deles, alguém amado por eles, seja capaz dessas atrocidades repugnantes. Eu não conseguiria conviver com alguém assim. Não poderia olhar seu rosto sem horror nem ficaria no mesmo espaço sem um desejo extremo de ir embora.

Violência e abuso de autoridade são práticas rotineiras na experiência brasileira, naturalizadas, banalizadas e aplaudidas. O sistema sempre protegeu seus malfeitores e está mais aparelhado do que nunca para fazê-lo, reagindo aos questionamentos que agora sofrem com mais frequência, com argumentos jurídicos, quando não com os sempre bem sucedidos discursos de nós contra eles. Mas não é no sistema que estou pensando: é nas pessoas. É, p. ex., na esposa que vê imagens de seu marido surrando com cassetete uma mulher caída no chão e consegue se deitar ao seu lado todas as noites. Ou na mãe amorosa que ensinou seu garotinho a tratar bem os outros. Ou no filho ou filha, que tem naquele homem uma figura de autoridade.

Raramente tomamos conhecimento das consequências legais dessa brutalidade. Vemos as agressões, mas dificilmente sabemos o destino dado aos agressores, levando à conclusão razoável de que foram perdoados ou sofreram penalidades para constar. Mas nunca ouvimos seus familiares e amigos falando. Pelo visto, ninguém até hoje se interessou em fazer uma reportagem sobre esse assunto. E eu realmente gostaria muito de assistir a algo assim. Se alguém conhecer matéria nesse nicho, por favor me indique.

Daqui, sigo fazendo minha parte. Não levanto a mão para ninguém e ensino minhas crianças que isso não se faz. Mas, naturalmente, temo todos os dias que nossos caminhos se cruzem com o time do outro lado.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Glossário

Autoestima tóxica.

Atributo de determinadas pessoas que, mesmo sendo completamente irrelevantes, talvez até em seu entorno imediato, acreditam poder sair das cloacas em que vivem para invadir prédios públicos, intimar autoridades a fazer o que elas querem, ao arrepio de qualquer legalidade, com prazo que elas mesmas estabeleceram, sob pena de paralisar o país inteiro ou de fazer destituições de função. Esta patologia se completa com uma profunda autopercepção de ser legítimo representante da nação inteira.

Não-dito.

Mensagem de extrema importância e gravidade que o comunicante omite propositalmente, para se esquivar das consequências de sua ilegalidade ou violência. Em alguns casos, pelo perfil do comunicante e pela frequência de manifestações no mesmo sentido, é possível saber exatamente o que ele quer dizer e a resposta que pretende obter, mas todo mundo se faz de desentendido e deixa a água bater na pedra até, quem sabe, furar. Exemplos hipotéticos: "Estou esperando um sinal do povo". Em resposta: "Eu autorizo".

quarta-feira, 9 de junho de 2021

DIGA SEUS NOMES!


O impostômetro é uma ferramenta estatística que contabiliza os impostos pagos por um país em determinado período de tempo. Por meio dele, pode-se estimar quanto você, pessoa física, perde de dinheiro para o governo. Em muitas cidades, inclusive aqui em Belém, ele fica(va) exposto em uma avenida movimentada, para alertar diuturnamente todos os cidadãos produtivos acerca do quanto são espoliados pelo malvado Estado.

Há outro medidor que também nunca para de girar. Seus números nunca param de crescer. Infelizmente, como ele não é de interesse das elites financeiras, não está exposto publicamente e sua divulgação depende do interesse daqueles que se importam. Refiro-me ao medidor de vidas negras interrompidas brutalmente. No dia de ontem, a contagem aumentou com Kathlen Romeu (24) e com o bebê que esperava. Novamente no Rio de Janeiro, obviamente em uma comunidade da periferia, como sempre na conta da vagabundíssima política de guerra às drogas, aquela mesma tão útil aos políticos populistas, aos milicianos, aos empresários morais, à imprensa de última categoria e a outras odiosas categorias.

Como falamos de uma rotina macabra, a indignação dos que se indignaram repete argumentos que escutamos o tempo inteiro porque, mesmo reiterados à exaustão, nunca são ouvidos. Eu me somo a eles, mas me permito não os renovar, já que amplamente conhecidos. Além disso, é trágico dizer, nós os ouviremos de novo a qualquer momento.

Como o horror não tem limites, o atual governador do Rio de Janeiro comemorou no Twitter diversas ações da Polícia Militar daquele Estado, que provariam, em seu entendimento, o sucesso do "combate ao crime". Não importa se inocentes morrem: a política é um sucesso. Convenhamos, não dá para duvidar, porque a política é essa, mesmo. 

Como se fosse pouco, a canalhice ganhou outros matizes. Kathlen trabalhava em uma loja da marca Farm, de roupas. A empresa decidiu "homenagear" a garota criando um código promocional em seu nome, dispondo-se a repassar à família enlutada apenas uma comissão das vendas realizadas no dito código. Claro que a repercussão foi péssima e a empresa já se desculpou, mudou o tom e prometeu apoio. Como está na moda dizer: "o golpe está aí: cai quem quer". Permanecerei desconfiando da bondade. Veja: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/06/09/marca-promove-codigo-de-venda-em-nome-de-kathlen-e-gera-debate-no-instagram.htm

Mas o que me motivou a redigir esta postagem foi o meu cansaço, desalento, adoecimento moral e outros sentimentos negativos, diante da percepção de que a morte de Kathlen, e outros tantos como ela, gera uma onda de indignação apenas entre os mesmos de sempre. Aquelas pessoas com certos valores e inclinações políticas, que já protestam em favor dos negros, dos LGBTQIA+, dos índios, dos refugiados, do meio ambiente, etc. Sempre os mesmos cidadãos comuns, os mesmos artistas, os mesmos políticos, os mesmos ativistas. Porque esses protestos ecoam em um nicho da sociedade, sem transbordar, como deveria ser. A maior parte dos brasileiros não compartilha do sentimento e, em vários sentidos, aprova e aplaude a barbárie. Além da violência, o deboche. Afinal, não são coveiros.

Cadê os liberais de todos os matizes, que não protestaram contra o Estado roubando, de uma cidadã, o direito de caminhar na rua?

Cadê os feministos de última hora  outro dia protestando contra os "maus-tratos" supostamente praticados na CPI da covid-19 contra duas médicas cloroquiners, usurpando a fala do movimento feminista que eles cotidianamente menosprezam ―, para bradar contra a morte violenta de uma mulher?

Cadê os pró-vida, inclusive os moleques imberbes cheios de bíblia no discurso, que não apareceram para anatematizar a destruição de uma vida intrauterina que era muito amada e desejada pela mãe e demais familiares?

Cadê vocês, gente de bem, tão ávida a querer salvar o Brasil da ameaça comunista que só existe na terra plana, quando tragédias reais acontecem? Por que o silêncio? Por quê? Se vocês não responderem, nós seremos forçados a tirar nossas conclusões com base em nossas próprias percepções. E em séculos de História.

Diga seus nomes: Kathlen Romeu! Maya ou Zayon!


"Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?"
"Mais do mesmo", Legião Urbana

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Saudades - Nunca mais como antes

Desde ontem, o país comenta, com estupefação, o caso do atentado em uma creche no Município de Saudades (SC). Sabe-se que um jovem de 18 anos invadiu o estabelecimento, munido de um facão, e lesionou de modo fatal cinco pessoas, sendo uma professora, uma auxiliar de educação e três crianças, todas com menos de dois anos.

Os fatos estão aí, na imprensa, amplamente divulgados, inclusive os nomes dos envolvidos.

O objetivo desta postagem não é repetir o que a mídia já divulgou, ainda mais porque pouco se avançou nas investigações, em tão pouco tempo. De ontem para hoje, as únicas informações novas que vi foram quanto ao fato de que não se conhece nenhuma ligação do agressor com a creche (o que pode sugerir um ataque aleatório ou com vítimas anonimizadas) e que o rapaz rondou o local antes de iniciar o ataque, o que foi entendido como premeditação, em algum nível. 

Meu objetivo com esta postagem, antes de mais nada, é manifestar profunda solidariedade às famílias de todas as vítimas. Somos pais e, inclusive, temos um bebê, de modo que a notícia foi recebida com muita tristeza nesta casa. A solidariedade se estende aos pais do agressor, que não conseguem compreender o ocorrido e se encontram, neste momento, no olho de um furacão de perplexidade, certamente recebendo muitas emanações negativas, sem que tenham contribuído para tanto. Outrossim, o rapaz atentou contra a própria vida, o que reforça a hipótese de um surto psicótico. Se for esta a situação, de nada adianta esbravejar ódios: quem está fora de si não pode ser responsabilizado por seus atos, por mais terríveis que sejam as consequências.

Contudo, o que de fato me motivou a escrever foi uma ponderação que julgo realmente oportuna, em uma sociedade convictamente punitivista e racista como a nossa. Fabiano, o agressor, está totalmente fora do perfil de suspeito que as pessoas comuns e policiais costumam apresentar:

1) ele é branco, do tipo que não parece suspeito à primeira vista, nem induz atitudes suspeitas apenas por estar andando na rua;

2) ele tem pai e mãe dentro de casa, contrariando o vice-presidente militar de uma certa república miliciana aí, que em setembro de 2018 declarou publicamente que indivíduos desajustados surgem em famílias desestruturadas, pela ausência de pai ou avô, ou seja, famílias comandadas por mulheres não conseguem manter os valores da família e impedir que seus jovens se tornem criminosos;

3) ele possuía um emprego e, portanto, cumpria a exigência de ser trabalhador, condição de moralidade imposta em sociedades nas quais o cidadão comum precisa ser um corpo obediente às relações de exploração, por mais iníquas que sejam;

4) ele não possui nenhum registro de crime ou ato infracional pregresso, condição que, somada a sua branquitude, elimina a pecha de periculosidade atribuída a muitos jovens brasileiros por estereotipização, primeiro fundamento da criminalização secundária, como nos ensina Zaffaroni.

Em suma, a realidade não cabe nas molduras que o preconceito geral repete acriticamente sem parar.

Um último comentário: Fabiano armou-se de um facão. Você pode imaginar o que teria acontecido se ele dispusesse de uma arma de fogo? A quem interessa armar a população civil?

Temos muito em que pensar  nós, que seguimos vivendo.

sábado, 27 de março de 2021

Hipóteses místicas

Eu não sou místico. A esta altura, já não sou sequer religioso. Acreditar em horóscopo, para mim, é o mesmo que acreditar em Terra plana. Simpatia só vale a pena quando envolve comer alguma coisa saborosa. Diante disso, não tenho a inclinação de pensar que os acontecimentos da vida são mensagens que Deus, ou os deuses, ou o universo, ou Gaia, ou sei lá que outro elemento transcendental está mandando. Obviamente, isto não se aplica à causalidade, que pode ser cientificamente demonstrada. As mudanças climáticas estão aí para nos mostrar as consequências das devastações que a espécie humana insiste em perpetrar,

Mesmo ante esta premissa, vendo há pouco um vídeo na internet, não reprimi umas especulações sobrenaturais. Afinal, no creo en las brujas, pero...

A primeira questão diz respeito a um dos efeitos da pandemia de coronavírus sobre o mundo do trabalho: caiu bastante a produção de semicondutores (chips) utilizados na indústria automobilística. Por conta disso, muitas fábricas, inclusive no Brasil, estão parando suas linhas de montagem por ausência desses insumos, hoje indispensáveis, eis que os veículos automotores estão cada vez mais dependentes desse tipo de tecnologia. Daí quando se pensa em esforços para, talvez, aumentar a produção e suprir a demanda reprimida, a fábrica Renesas Eletronics, no Japão, é completamente destruída por um incêndio.


A fábrica em questão responde por 30% do mercado global de chips de unidade de microcontrolador, um componente que monitora o desempenho do motor e interfere sobre funções elétricas e os sensores dos veículos. Ou seja, ele é simplesmente vital. De acordo com a Renesas, a expectativa positiva é que demore um mês para eles retomarem a produção (esses japoneses!). Mas um mês é tempo demais, no cenário que já estava ruim.

A segunda questão tem a ver os preços dos combustíveis no Brasil, em disparada desde o começo de 2021. À medida que a situação vai extrapolando o limite do insuportável, chega a notícia da redução do preço dos combustíveis, nas refinarias, em cerca de 11 centavos de real. Já não adianta comemorar porque, quando o preço aumenta na refinaria, aumenta no posto; mas quando cai na refinaria, não necessariamente cai no posto. Mas se você é otimista e pensou em comemorar sua economia de R$ 5,50 em um tanque de 50 litros, pode esquecer. Um imenso navio chamado Ever Given fez o favor de encalhar em pleno Canal de Suez, por onde passam 9,5 bilhões de dólares todos os dias. Sim, são esses os números.


Tendo bloqueado completamente o canal, pode provocar, segundo especialistas, graves consequências para a economia global se não for logo retirado. É isso mesmo: vai ajudar a ferrar ainda mais a economia em todo o planeta. E, como não poderia deixar de ser, impactar... o preço dos combustíveis aqui no Brasil.

E é assim que, pelo fato de os dois sinistros terem consequências diretas sobre o setor automobilístico, nesta manhã me ocorreu esse estranho e incomum pensamento místico: é como se o universo estivesse mandando um recado para todos nós. Lembrando que carros são um dos mais badalados itens de consumo, estão relacionados a uma indústria bilionária, comparecem nos sonhos de crianças e adultos, são símbolos de ostentação e impactam gravemente o meio ambiente e a mobilidade nas cidades, dentre outros fatores, é como se alguém dissesse: já que a pandemia "só" não bastou, vamos dar mais algumas dicas do tipo de vida que não consideramos sustentável.

É um pensamento maluco? Decerto. Acredito nisso? Não. Mas, como disse antes, não pude reprimir essa esquisita especulação, porque, afinal de contas, não acredito no acaso. Nem em bruxas. Pero.

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Fontes: 

https://autopapo.uol.com.br/curta/producao-de-carros-afetada-incendio/

https://tecnoblog.net/423602/fabrica-de-chips-pega-fogo-e-pode-afetar-producao-global-de-carros/

https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/26/meganavio-encalhado-no-canal-de-suez-entenda-as-consequencias-para-a-economia.ghtml

terça-feira, 23 de março de 2021

Lockdown de verdade

Enquanto, por estas bandas, pessoas seriamente preocupadas com o sustento próprio e familiar precisam ir às ruas lutar pela sobrevivência; pessoas permanecem nas ruas porque ali já estavam, mesmo; muitos trabalhadores se expõem diariamente porque não lhes deram alternativa; e uma raça especial de felasdiputa de classe média reclama de não poder socializar por aí ou malhar a bundinha nas academias e vivem na internet bradando contra a violação de seus direitos fundamentais, em outros países do mundo as populações foram submetidas a restrições de locomoção realmente pesadas. Não esse lockdown de meia pataca praticado aqui, ainda por cima quase sem fiscalização.

Nesta reportagem aqui, é possível ver como outros países lidaram com a pandemia do novo coronavírus. Entre eles não há nenhuma nação considerada ditadura. Todos são países proclamados democráticos e a maioria países centrais, idolatrados pelo viralatismo tupiniquim. Multas severas, fechamento generalizado de serviços, limitação de saída a apenas 1 hora por dia e com limitação territorial, mesmo para fins relevantes (como ir ao médico), há várias providências impensáveis para os brasileiros. Com o detalhe de que, por lá, as restrições já duram meses.

Uma coisa me chamou a atenção: a proibição de ir mais longe do que um raio de 10 quilômetros. Compreendo a lógica. Se houver um doente nesse setor, a possibilidade de contágio de terceiros fica limitada no espaço, não apenas prevenindo maior disseminação do vírus, mas também ajudando a identificar a região onde o vírus circula. Se as pessoas podem transitar por qualquer lugar, como saber onde os esforços sanitários devem ser incrementados?

Enfim, eu tinha curiosidade de saber como países que possuem governantes de verdade estão enfrentando a situação. Com sofrimento, com perdas, mas com bom senso e humanidade. Um detalhe: os países desenvolvidos concederam auxílio financeiro aos cidadãos retidos em casa. Então você, cidadão verde-e-amarelo, que "luta" tanto pela liberdade e pela economia do Brasil, com suas mensagens de WhatsApp, pensa o que disso? Está todo mundo errado, né? Certo, mesmo, só o presidente do Brasil, o infalível. Deve ser por isso que ele é um mito.

sábado, 13 de março de 2021

Segundo lockdown

Há pouco mais de duas horas, saí de casa para comprar pão. Um trajeto pequeno, de cerca de 200 metros. Mesmo assim, precisei me aborrecer com a obstrução de uma calçada pelos frequentadores de um point descolado que inaugurou recentemente. Coisas de Belém: as calçadas são extensão do comércio de um fulano qualquer e todo mundo acha isso perfeitamente natural e desejável. Quem reclama é que está errado. 

Eu poderia passar, mas de modo algum me sujeitaria a chegar tão perto daquele aglomerado de pilantras sem máscara, que não podem abrir mão da cerveja com pagodinho por nada nesse mundo. Em consequência, caminhei pela pista, mesmo, exposto ao trânsito de veículos. Esta é a sina do belenense.

Pela incapacidade do brasileiro, e aqui falando do belenense, em mostrar algum senso de responsabilidade em meio a uma pandemia, estamos do jeito que estamos: acima de duas mil mortes diárias, colapso nos sistemas de saúde em diversos Estados, mais e mais sofrimento. Chegamos, assim, ao resultado óbvio de tanta incúria: o governador do Estado anunciou um novo lockdown em Belém e Região Metropolitana, a partir da meia-noite de amanhã. Postergaram tudo que puderam, mas finalmente aconteceu o inevitável, impelido pela ocupação de 100% dos leitos de UTI.

Ainda não consegui encontrar a informação de quanto tempo a medida perdurará. O lockdown de maio demorou duas semanas. Ainda me recordo bem do desconforto de trafegar por uma cidade militarizada, e ser parado, claro. Eu havia ido fazer compras no supermercado. Fui liberado pelo justo motivo da saída, mas a abordagem em si é extremamente desagradável para mim. Uma cidade sitiada me causa aflição.

Fazer o quê? Vivo em uma sociedade e pago pelas minhas ações tanto quanto pelas dos outros. E com o material humano que temos, é possível que essa restrição de liberdade não seja a última. Nem a penúltima. Nem...

O falso é mais realista

Embora o resultado tenha sido publicado em 22 de fevereiro último, somente ontem, 19 dias depois, a Universidade Federal do Pará, por sua Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, formalizou e divulgou a inclusão dos novos acadêmicos em nível de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Direito. Sou, oficialmente e mais uma vez, calouro daquela instituição.

O que sou, também: um grande privilegiado. Tenho o privilégio de integrar um grupo de apenas 19 pessoas, que foram habilitadas a galgar o último estágio da formação acadêmica e, ainda por cima, em uma universidade pública, onde estão os melhores índices de qualidade e as maiores oportunidades de realizar pesquisa de verdade. Mas como cheguei a isso? Sozinho? Esforçando-me muito, individualmente? Acreditando com toda a força do meu coração? Lógico que não. Na vida real, não há espaço para as tolices de coaches, os romantismos a la Disney e, em especial, para a mentirosa e nefanda ideologia da meritocracia.

Sou privilegiado por dispor de uma fonte de renda que me permitiu concentrar os meus esforços no processo seletivo, que teve como maior exigência a elaboração de um projeto de pesquisa que, no meu caso, alcançou a nota 9,7 (no intervalo de 0 a 10). Para elaborá-lo, apliquei uma década de estudos em criminologia (privilégio), consultei um monte de livros que já possuo (privilégio), comprei livros em caráter emergencial (privilégio), usei equipamentos e outros recursos de boa qualidade, que tenho diuturnamente à disposição (privilégio), e em especial debati minhas ideias e fui orientado por pessoas de alta qualificação, inclusive no que tange à metodologia (privilégio de fazer parte do círculo dessas pessoas e de dispor do tempo delas).

Acha que acabou? Sou privilegiado por morar em uma casa própria, em região não sujeita a riscos significativos (por aqui não há sequer os alagamentos generalizados de Belém), dispor de carros para resolver tarefas que exigem deslocamento (como comprar remédios às duas horas da madrugada, há poucos dias), ter comidinha boa e nova todos os dias, que não preparo pessoalmente, além de outras comodidades domésticas. Acima de tudo, ter uma família que apoiou abertamente o meu projeto de vida e me favoreceu tempo e condições para me dedicar a ele.

Estes são os privilégios mais evidentes. Procurando, decerto eu encontraria vários outros. E, com certeza absoluta, meus 18 colegas estão em situação semelhante. A turma do mestrado também. Sim, também há os que precisam da bolsa, mas essa já é uma necessidade altamente privilegiada. Ou você acha que necessitar de bolsa para cursar pós-graduação está no mesmo nível das necessidades prementes e diárias de uma legião de brasileiros crescentemente empobrecidos (sem nenhum demérito, claro)?

Em suma, não existe o mérito dos meritocratas. Há, no máximo, merecimento em um sentido metafísico, se você for daqueles que acreditam em certas religiosidades. E tudo isso para levar adiante um projeto que não é exatamente uma unanimidade. Afinal, para que serve, realmente, um doutorado? Sei o que eu espero dele, em particular. Mas o que será que esperam as demais pessoas que trilham essa senda? E o que elas encontram?

Segundo reportagem de maio de 2019, baseada em dados oficiais, o Brasil possuía 7,6 doutores para cada 100 mil habitantes e precisava dobrar esse número para chegar ao nível mais baixo dentre os países desenvolvidos. Trata-se do Japão, no qual havia quase 13 doutores para cada 100 mil habitantes (mas no Japão não há necessidade de escolarização como estratégia de sobrevivência). A Itália era o país com o pior cenário na Europa, mas mesmo assim eram 17,5 doutores por 100 mil habitantes. E se você compreende a importância da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento de um país, fica fácil concluir porque o índice de doutores é relevante.

Em setembro de 2019, outra reportagem informa o lançamento de um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontando que, entre 35 países com dados disponíveis sobre o tema, o Brasil estava entre as três nações com menor número de doutores no mundo: uma proporção de 0,2% de sua população, contra 1,1% dos países integrantes da OCDE. O dado positivo foi o aumento do número de docentes com mestrado ou doutorado, conforme dados de janeiro último, divulgados pelo Instituto Nacionais de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Mas antes de comemorar qualquer coisa, saiba que, no Brasil, em março de 2019, o desemprego entre mestres e doutores chegava a 25%, contra 2% em nível mundial. Além da indignidade contraintuitiva que isso representa ― pois somos levados a supor, ingenuamente, que a maior qualificação importa acesso a melhores condições no mercado ―, essa conjuntura leva à evasão desse grupo especializado para outros países, quando conseguem, além de que se perde a oportunidade de viabilizar pesquisas que busquem soluções para muitos problemas da realidade brasileira. Uma universidade dos Estados Unidos não há de priorizar as necessidades do semiárido brasileiro, p. ex. É triste ver que quando reportagens, com um tom frequentemente ufanista, celebram um brasileiro participando ou até comandando uma pesquisa ultraimportante, na maioria dos casos tal pesquisa está sendo realizada em outro país.

O prognóstico não é de melhora. Desde 2016, o orçamento federal para a educação tem despencado, confirmando o que os setores progressistas da sociedade sempre repetem: isso é um projeto. Os decisores têm envidado esforços para que os brasileiros tenham cada vez menos acesso a educação, notadamente de qualidade. Mas se estamos todos de acordo ― inclusive aquele gênio do WhatsApp, que adora dizer que os pobres não quiseram estudar ou não se esforçaram o suficiente para isso ―, que a educação desenvolve pessoas e países, qual pode ser, então, o resultado esperado dos investimentos e das escolhas aqui na outrora República das Bananas, hoje República das Milícias?

Ao fim e ao cabo, como se costuma dizer, somos um país de autoproclamados doutores. Basta uma graduação ―ou às vezes nem isso, bastando algum sinal de riqueza material , e o sujeito já vira doutor. É chamado assim pela imensa legião de trabalhadores em postos subalternos e em especial pelos excluídos do mundo do emprego, os quais reproduzem, a cada vez que doutorificam um espertalhão sem essa qualificação, um ciclo de distinção entre indivíduos menos distintos do que se reconhecem. Renovam a massagem no ego de uma classe média que se entende e percebe como aristocracia e quer ser tratada com mesuras e floreios. Não à toa, muitos deles se ofendem de verdade se o título não lhes é dado. Sem olvidar, claro, os casos clássicos e patológicos dos profissionais de Medicina e Direito.

Do jeito que as coisas vão, ser um desses doutores de coisa nenhuma tem dado mais certo do que dedicar muitos anos de sacrifícios pela titulação acadêmica. Resulta daí que um protesto como este visa repor um pouco as coisas aos lugares que elas deveriam ter e isso significa, inclusive, não glorificar doutor nenhum. Ele é só mais um sujeito que estudou e, talvez, esteja fazendo umas coisas bacanas e úteis de sua vida. Não é isso que o inscreve entre os bons seres humanos. Caráter e empatia deveriam ser os requisitos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Fim de carnaval (?)

Depois de, no ano passado, ser anunciado que o São João seria em casa, o que implica dizer que comidinhas maravilhosas só se você mesmo as cozinhasse, e que haveria clima festivo somente se você se dispusesse a isso, o recado estava dado: enquanto perdurasse a pandemia de SARS-CoV-2, nada de folguedos populares.

É certo que, em junho passado, já havíamos enfrentado uma vez o terror do colapso do sistema de saúde e alguns imaginavam, com otimismo habitual ou com leviana esperança, que as coisas entrariam nos eixos nos meses subsequentes. Ledo engano, claro. Exceto em lugares específicos, como Nova Zelândia, Cuba e até mesmo na China, que colocaram a pandemia mais ou menos sob controle, o mundo segue aterrorizado, com as pujantes economias europeias vivendo em lockdown, com previsão de continuidade até março.

Um enorme alívio surgiu com o advento das vacinas, mas as coisas não andam fáceis mesmo assim. E por aqui, na República Miliciana do Brasil, tudo vai às avessas. No mundo, leve tendência de queda na curva de contágio; no Brasil, tendência de alta ou, no mínimo, de estabilidade dos números, que têm mantido média superior a mil mortes diárias. No mundo, vacinação intensa; no Brasil, vacinação sendo interrompida, por falta de vacinas, e uma sucessão de notícias sobre irregularidades. No mundo, governos com discursos de união e medidas de proteção, ao menos, dos próprios cidadãos; no Brasil, o permanente discurso de ódio, desprezo e negação da ciência, além de reiteradas medidas para destruir o país.

Não surpreende que a grande festa do povo, o carnaval, tenha sido cancelada. Aliás, adiada para junho. Rendeu até uma piada inteligente: se o ano só começa depois do carnaval, então estaremos em 2020 até junho?! Chiste ainda na pegada de que 2020 foi o pior ano já vivido. Pode até ter sido, mas isso não fornece garantia alguma de que 2021 não será ainda pior.

Em suma, não houve os desfiles, praias e outros pontos turísticos foram fechados e a polícia andou embaçando festinhas domésticas clandestinas. De habitual, por estas bandas, só o clima chuvoso desta época. Ontem, por sinal, um dia inteiro de chuva fraca (que eu espero não haver causado muitos transtornos aos moradores de baixadas) e uma temperatura simplesmente deliciosa, que eu queria para a minha vida inteira. Mas hoje, quarta-feira de cinzas, carnaval acabando, o dia está algo nublado, mas o sol já deu as caras e o ar abafado, também. Se festa houve, parece que está mesmo no fim.

De novo e como sempre, realidade voltando.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Achei que devia dizê-lo

O dia de hoje foi marcado pela celeuma em torno de uma manifestação em rede social (sempre elas!), emitida por um gerente do Grupo Líder, manifestando um absurdo desprezo por professores. À boca miúda se diz que é um dos adoradores do excrementíssimo presidente da República e, nessa toada, não se furta de destilar ódio e contrariar qualquer realidade. Para ele, professores não trabalham há mais de um ano. Logo, em perfeita demonstração da lógica bolsonarista, sugeriu que fossem retirados recursos da educação para custear o novo auxílio emergencial.

São tantos os erros (para dizer o mínimo) na manifestação que nem sei por onde começaria a explicar. Tampouco tenho forças para isso. Mas vendo o barulho na grande rede, decidi que deveria fazer alguma coisa. Então acessei o site do Grupo Líder e mandei a seguinte mensagem:

Deplorável a manifestação do sr. Orimar Rodrigues (que, por sinal, já disse que mantém tudo) e deplorável o escapismo da empresa, limitando-se a dizer que o indivíduo não fala pela empresa. As pessoas não são tolas: sabem que o ofensor é da família; fosse apenas um empregado, o tratamento seria outro. Em tempos de ódio, não se posicionar é SE POSICIONAR A FAVOR DO QUE FOI CRITICADO. O mundo está mudando, a duras penas. Empresas que não assumirem posição em prol de valores serão tragadas. A balela da isenção não vai ajudar. E o negacionismo muito menos. Respeitem os profissionais da educação.

Nada de rede social: mandei a mensagem para o empregador (para a família, né?). Sem barulho nem sensacionalismo. E me identifiquei com nome, telefone e e-mail. Não escondo a cara, como os canalhas. Disse o que achei necessário dizer, no lídimo exercício da minha liberdade de expressão. Critiquei as atitudes e não a pessoa, física ou jurídica. Meu posicionamento até pode ser considerado como um conselho, um toque do bem para a empresa. Infelizmente, parece que brasileiros ainda são muito primitivos para isso, mas uma hora as pessoas, de um modo geral, começarão a repudiar empresas sem responsabilidade social. O processo já começou. Não me refiro a esse boicotismo internético, pouco mais do que uma modinha de cancelamento. Falo de ser ético na vida e de se relacionar apenas com quem for ético também.

Quando as pessoas finalmente assimilarem essa filosofia de vida, as empresas verão que não dá mais para calar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Vacinômetro

Segundo o vacinômetro que calcula, inclusive, quantas pessoas já viraram jacaré após serem vacinadas contra o coronavírus, em todo o mundo (clique aqui), neste momento o Brasil possui 11.470 pessoas vacinadas (lembrando que a primeira brasileira foi vacinada na tarde do último domingo, 17). Contudo, nas últimas 24 horas, o Brasil perdeu mais 1.183 vidas. Nos últimos 5 dias, o número de mortes diárias foi superior a mil, chegando a um total de 5.713. E há tendência de alta em 13 Estados.

Dado o total desinteresse do governo federal em vacinar, a perda da compra de vacinas fabricadas na Índia e o atraso de insumos originários da China, por aqui continuaremos matando muito mais do que imunizando. Inclusive porque o gado bolsonarista está incansável na internet, notadamente no WhatsApp, fazendo o que mais sabe: divulgando mentiras, conclamando o uso de medicamentos inócuos para covid-19 e nocivos porque desnecessários, maldizendo a vacinação e acirrando o clima de ódio no país.

Para o caso de alguém ter ficado curioso, não dei a informação antes porque achei desnecessário, mas aqui vai: até o momento, nenhuma das 49.501.540 pessoas vacinadas no planeta inteiro (a contagem sobe sem parar, mas não graças a nós) virou jacaré.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Retrospectiva 2020

Janeiro. Ano começou comigo de luto, passando uns dias em Santarém, ansioso em relação ao futuro.

Fevereiro. Vendo as pessoas comemorarem o carnaval enquanto o mundo falava cada vez mais do novo coronavírus.

Março. A pandemia se tornou uma realidade por aqui. Começou o isolamento nesta família e todos fomos afetados pelos serviços públicos e privados sendo descontinuados ou tornados virtuais.

Abril. Nasceu Margot, nossa segunda filha e uma alegria exuberante em meio ao caos.

Maio. Já cansado de ouvir falar em lives, mesmo tendo assistido a poucas delas. Vivi a estranha experiência do lockdown, tendo que explicar a policiais militares o que eu estava fazendo na rua (havia ido ao supermercado). Eu me senti dentro da distopia.

Junho. Lamentando a perda das festividades juninas. Aquelas comidinhas que amo, sabe?

Julho. Completei 45 anos me perguntando o que diabos estou fazendo aqui.

Agosto. Mês do desgosto? Como assim, "mês", durante um ano que já era odiado pelo mundo afora? Atividades retornando, mas não retornando exatamente.

Setembro. Administrando uma adolescente se declarando surtada pelo isolamento em casa, embora, claro, sem se dar conta dos privilégios que a vida lhe permitiu.

Outubro. Todo o respeito às pessoas que lamentaram não ver o Círio de Nossa Senhora de Nazaré nas ruas de Belém. A cidade se beneficia da energia das pessoas que vivem esse momento de união.

Novembro. Em uma eleição adiada, corremos risco real de ver nossa cidade ser entregue a mais um projeto oportunista e canalha, mas pelo menos disso escapamos. Passei o mês muito empenhado em um antigo e importante projeto pessoal.

Dezembro. Com um grande amigo internado com covid-19, em estado muito grave, vejo os brasileiros apertarem com convicção o botão do foda-se, porque não podem deixar de celebrar suas vidas miseráveis. Aguardando resignado as consequências.

Muita gente aguarda ansiosa pelo fim de 2020. O fato é que, de acordo com as convenções, o ano acabará inelutavelmente, daqui a menos de 14 horas. Mas o que esperar de 2021, se as condições são as mesmas? Vacina. Por ora, esta parece ser a única variável capaz de fazer alguma diferença.

domingo, 27 de dezembro de 2020

A fome, que retorna convicta

Vários anos atrás, quando eu era adolescente, a "revista semanal de domingo" da Rede Globo, o Fantástico, exibiu uma reportagem longa e contundente sobre a fome no Brasil. O trabalho jornalístico teve enorme repercussão e, sobre mim, um efeito devastador. À medida que a reportagem avançava, eu me sentia mais e mais sufocado, até não conseguir mais reprimir o choro. Quando terminou, eu me sentia péssimo, sobretudo por não vislumbrar nenhum prognóstico de mudança, embora estivesse claro para mim que acabar com aquela realidade era possível e, talvez, mais simples do que parecia.

Há dois dias, tomei conhecimento do documentário Histórias da fome no Brasil (dir. Camilo Tavares) lançado em dezembro de 2017. Sim, há 3 anos, mas somente agora soube dele. Provavelmente, pouca gente conhece, daí a importância de divulgá-lo. Abaixo, você pode assistir.


Impossível tocar em um assunto tão sensível sem dar margem a que as histerias ideológicas explodam, pois constitui fato objetivo que o Brasil saiu do Mapa da Fome, da Organização das Nações Unidas, durante o governo de Luís Inácio Lula da Silva. E também é fato objetivo que, desde 2017, quando o documentário foi lançado, o país corria o risco de retornar a ele. Agora, com a pandemia e a quase ausência de políticas de auxílio aos necessitados, o cenário é mais do que assustador.

Não farei apologias e muito menos brigarei com os fatos. Deixarei o negacionismo àqueles a quem essa doença aproveita. Só quero dizer que o documentário comprova minhas ideias adolescentes: acabar com a fome era uma questão de iniciativa. A famosa vontade política. Enfrentar a seca do Nordeste poderia ser feita com a construção de cisternas, uma tecnologia simples e barata. Não é a solução única ou definitiva, mas um exemplo de como os governantes poderiam ter agido décadas antes, se quisessem. A bilionária transposição do Rio São Francisco também é apenas um exemplo, necessário, porém não suficiente. Enfim, incontáveis vidas poderiam ter sido poupadas. Uma quantidade atroz de sofrimento poderia ter sido evitado.

Documentário recomendado. Você vê, julga e decide o que lhe parecer mais sensato.

Terminando. Ou não. Provavelmente não.

Falta pouco mais de 4 dias para 2020 terminar. Difícil encontrar quem vá sentir saudade. Muita gente por aí está dizendo que se trata do pior ano de todos, e não apenas no Brasil, embora por aqui precisemos conviver com o pesadelo permanente do nosso desgoverno genocida. Claro que essa fatura vai para a fatura do novo coronavírus, que ceifou milhões de vidas pelo planeta, isolou as pessoas e causou um sem número de danos, materiais e emocionais. É a maior emergência sanitária da História, se pensarmos no aumento da população mundial e no maior risco de contágio, devido às possibilidades de deslocamento entre os países.

Para mim, não foi o pior ano já vivido. Deixo esse demérito para 2015, com um profundo desejo de que nunca mais precise enfrentar nada parecido. Em relação às ações humanas, a maior violência que sofri remonta ao ano de 2019. Logo, 2020 ficará marcado como o ano de nascimento de minha segunda filha, tão ansiada e intensamente buscada. E mesmo que o isolamento nos tenha afetado a todos, também nos deu, no caso específico de nossa família, a oportunidade de estar em casa, ao lado dela, acompanhando o seu desenvolvimento. Finalmente, a ideia de tirar partido dos reveses funcionou para mim.

Contudo, o alerta vermelho está aceso. Neste momento em que escrevo, um grande amigo, uma das pessoas mais generosas que já conheci, encontra-se internado em UTI com covid-19, em estado grave, intubado. Passo os dias monitorando o celular, com medo de que alguma mensagem do WhatsApp traga informações de que não estamos precisando neste momento. Conheço essa sensação de medo permanente do telefone, do mensageiro. Estamos em uma grande corrente de vibrações positivas. É nisso que precisamos nos concentrar.

No mais, o ano ― essa convenção humana ― acabará em breve, porém o mundo seguirá sendo como é. E nós precisamos desesperadamente que ele mude: que haja mais decência e bondade, pois muita gente renunciou voluntariamente a esses valores, por pura escolha. Precisamos nos reencontrar com nossa humanidade. E estes eventos de fim de ano costumam ser propícios a tais reflexões. Só espero que não sejam promessas de fim de ano. Até porque não estou vendo ninguém prometer nada.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Pato Donald

É meio sem sentido comentar sobre a vida alheia, mas como este é um blog de opinião e é meu, lá vai.

Acabei de ler matéria informando que o ainda presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou mais uma aventura jurídica, desta feita perante a Suprema Corte do país, por meio da qual pretende cassar, suspender, ignorar, por para escanteio ou sei lá o quê milhões de votos, em quatro Estados nos quais, obviamente, ele perdeu, alegadamente por mudanças de regras eleitorais devido à pandemia do coronavírus (v. https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/09/trump-pede-que-suprema-corte-dos-eua-bloqueie-milhoes-de-votos-em-4-estados.htm). O argumento parece novidade, embora o moleque pimbudo costume resumir tudo ao argumento de "fraude", nunca comprovado.

Pessoalmente, acho ridículo o chefe de Executivo que não transmite a faixa ao seu sucessor. Tudo bem que não depende do vazante a transmissão do poder, mas considero a passagem da faixa um ato simbólico bastante educado, civilizado, que deveria transmitir a mensagem de estabilidade das instituições. Portanto, quando um molecote deixa de comparecer ao ato, mais do que evidenciar a sua babaquice, ele demonstra quão mal das pernas vão as instituições, tratadas como valhacoutos pessoais.

O caso de Trump é ainda pior, porque o mundo inteiro, literalmente ― o mundo que conta, portanto excluídas repúblicas bananeiras comandadas por escrotinhos insignificantes ―, já considera notícia velha a eleição de Joe Biden, que está prestes a ser confirmada com a votação dos delegados. Mesmo assim, o sujeito cuja aparência sempre furiosa e alaranjada já é por si só repugnante, insiste no negacionismo, hoje uma característica marcante dos ultradireitistas. A imagem que tenho comigo é a de um fulaninho tentando se agarrar na água enquanto desce por um ralo óbvio e inevitável. Eu realmente não consigo pensar em um precedente de chefe de Estado que, em ambiente democrático, vá deixar um governo tão pela porta dos fundos desse jeito  ― e por culpa exclusivamente própria.

Está feio, mas há de piorar. E aguardemos as cenas dos próximos capítulos, porque há uma certa colônia abaixo da linha do Equador que adora copiar tudo que os Estados Unidos fazem... de ruim. Ouvi dizer que, por lá, os apoiadores do tiranete agora fazem passeatas de meia dúzia de revoltados, exigindo um tal de voto impresso.

Vendo essa coisas, só consigo pensar que o coronavírus está matando as pessoas erradas.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O ano acaba, mas o pesadelo não

Ao tempo em que inicio estas mal traçadas linhas, faltam 28 dias, 1 hora e 7 minutos para o ano de 2020 terminar. Para uma quantidade imensa de brasileiros, ou pelo menos considerando aquilo que vejo, foi um ano horroroso, para muitos o pior já vivido. Claro que a pandemia do coronavírus figura como vilã preferencial dessas manifestações, pois roubou nossas vidas e acabou com a tal vida normal, impondo muitos e singulares desafios.

O problema é que 2020 acabará sem que a pandemia tenha passado. Já se fala bastante na proximidade da vacina, mas ainda não há confirmação de liberação pelas autoridades sanitárias, tampouco notícia sobre plano de vacinação. Notícia que li falava em vacinar toda a população até o final de 2021. Então tá.

Mas para quem é brasileiro, coronavírus pouco é bobagem. Nós temos o pior governo de todos os tempos e todas as dimensões, excluídos os regimes de exceção. Se você acha que Trump é pior, saiba que para ele era, supostamente, "America first". Por aqui, com certeza, é "America first". Só que nós não somos a tal America. Por aqui, o "Brasil acima de tudo" foi só um ridículo slogan de campanha, que jamais pretendeu ser verdadeiro. Aliás, a dobradinha SARS-CoV-2 e governo Bozo são a causa do número alarmante de mortos que tivemos na pandemia e de uma tal segunda onda que se confunde com a primeira.

Mas por aqui se morre a rodo por outras razões, também, Morre-se por causa da fome, de doenças facilmente tratáveis, de uma quantidade colossal de acidentes e de muita, muita violência, dentre outros fatores. E aí entra o governo, aumentando a miséria e o desemprego, não contendo a inflação, demolindo todos os sistemas de proteção de direitos ou do meio ambiente, estimulando a violência e muitas mazelas mais. Não é engano nem acidente: é projeto de morte. Basta ver que, volta e meia, a imprensa publica uma notícia no sentido de que o governo não gastou todo o orçamento disponível para certo setor. Por toda a minha vida, vi a desculpa ser dada em termos de "não temos dinheiro". Nesta era das trevas, há dinheiro, porém ele não é gasto. Fica evidente que são decisões sendo tomadas para ferrar com tudo.

Daí lembramos que 2020 terminará e o governo mais alucinado da história, não. Isso me dá mais angústia e raiva do que qualquer vírus, ainda mais quanto vemos uma tribo insistir em apoiar esse projeto, com toda a irracionalidade possível, como acabamos de rever nas recentes eleições municipais. Um fulano qualquer pode surgir dizendo que vai governar para empresários e tapar todos os canais de Belém e, ainda assim, ganha mais de 48% dos votos válidos, só porque não era de esquerda. A galera resolveu brincar de roleta russa todo dia, uma roleta russa modificada, em que há mais de uma bala no tambor.

Mas é o que temos para hoje. Precisamos de encerramentos, porque acreditamos na força dos ciclos. Pensar que estamos em um novo ano, em uma nova fase, em uma nova condição nos ajuda a disfarçar que estamos no mesmo pesadelo. Pelo menos por ora. O futuro, quem sabe?

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

As novas cores do beco

Estive em São Paulo pela última vez há pouco mais de dois anos. Era julho e tiramos alguns dias de férias. Eu estava decidido a conhecer o famoso Beco do Batman, mas seria um passeio que faria sozinho, porque caminhar olhando grafites em paredes não animou as minhas crianças. O fato é que, sendo curta a estadia e tendo algumas programações concebidas justamente para as crianças, acabei desistindo. Lamentei na época e lamento ainda mais agora.



O Beco do Batman é a típica proposta para me agradar, porque não é mainstream. Nada contra vernissages em galerias requintadas, mas a ideia de algo que não foi pré-determinado, que surgiu em um repente e foi renovado, e renovado, e que reúne uma arte popular, diversa e colorida, gerando um cenário tão bonito em um local que poderia ser simplesmente mais uma viela em um bairro não lembrado pelas sucessivas administrações tucanas. É simplesmente fantástico.

Espaço adorado pelos artistas e por um público mais despintado, ganha novas pinturas periodicamente e mobiliza a própria comunidade para garantir a conservação da galeria a céu aberto. Ou seja, é mesmo uma iniciativa para ser admirada. Sobretudo porque dá visibilidade ao grafite, técnica para a qual os ortodoxos torcem o nariz, dizendo não configurar arte. Porque arte, nós sabemos, é uma banana presa a uma parede com um x de fita crepe. Mas é justamente aí que está a mensagem: a arte popular merece estar nas ruas e ser vista por todos.

Tudo poderia ser perfeito, se não estivéssemos em um país onde a vida vale muito pouco, quase nada. Na madrugada do último sábado (28 de novembro), Wellington Copido Benfati, o NegoVila, 40, um dos artistas do beco, foi assassinado por um policial à paisana, quando tentava apartar uma briga. Morreu tentando fazer o certo. Segundo os relatos, foi uma execução. Dois tiros, um no peito. Em honra ao colega e como protesto por mais esta tragédia, os artistas pediram autorização aos colegas e cobriram as paredes do beco com tinta preta. Nelas, somente mensagens alusivas ao ocorrido, para ninguém esquecer o que houve ali.


A manifestação não durará para sempre. NegoVila era artista e certamente não ia querer isso. Ele há de preferir o beco repleto de grafites, com seus signos, seus protestos, sua esperança. Em algum momento, o Beco do Batman voltará a ser rosto colorido de um povo que resiste. Mas será um espaço bem diferente, com pinturas novas e, certamente, muitas homenagens a NegoVila, que teve sua vida desperdiçada, mas que vai virar inspiração.

É preciso coragem e desprendimento para um artista abrir mão de sua obra assim, de chofre. Mas os do beco sabem o que está em jogo e, por isso, expresso minha mais profunda admiração e respeito por eles. Estamos cansados, precisando de paz. Precisando não sentir medo, que é a essência da liberdade, segundo a cantora Nina Simone.

Meus pêsames. Força sempre.

Consultei:

  • http://cidadedesaopaulo.com/v2/atrativos/beco-do-batman/?lang=pt#:~:text=Sua%20hist%C3%B3ria%20come%C3%A7ou%20na%20d%C3%A9cada,galeria%20de%20paredes%20totalmente%20cobertas
  • https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/11/30/beco-do-batman-amanhece-de-luto-apos-artista-ser-morto-policial-foi-detido.htm

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Semiótica de painel e parabrisa

Gostaria de oferecer-lhes uma breve especulação semiótica acerca de um tema recorrente nas redes sociais. Digo especulação porque não sou especialista neste campo, então estas mal traçadas linhas não vão além de umas poucas leituras e algumas experiências de observação comportamental ao longo da vida.

Semiótica, em apertadíssima menção, é o estudo da construção de significados no processo de comunicação. Tem interesse direto para a Linguística e para a Filosofia, sendo o termo atribuído ao filósofo inglês John Locke (1632-1704), originado na raiz grega semeion (signo). Um signo é uma ideia que contém uma mensagem ou fragmento dela, composto por um significante (seu elemento material, como uma palavra, um gesto, etc.) e um significado, que varia conforme o contexto. É algo lindo e instigante, mas fiquemos por aqui. 

Painel é um termo associado à arte pictórica, mas aqui me refiro ao componente dos veículos automotores, que se situa dentro do habitáculo, à frente dos assentos dianteiros, contendo diversos equipamentos essenciais à dirigibilidade do veículo e ao conforto e à segurança dos passageiros.

Parabrisa é a peça de vidro que, instalada à frente do veículo, permite a visão do meio exterior, porém protegendo do vento (daí o nome) e da chuva, que dificultariam ou até impediriam o ato de dirigir.

Pronto: acabei de colocá-los sentados no interior de um automóvel, olhando para a frente. Agora vamos à semiótica. Vocês já devem ter visto, pelas redes sociais, imagens como esta abaixo:


Assumo a premissa, tão decantada, de que as redes sociais são a válvula de escape de pessoas cuja percepção de autovalor depende da aprovação alheia. Isto pode explicar porque elas são ilhas da fantasia, repletas de registros de felicidade, beleza, riqueza, sucesso e autorrealização. Nesse sentido, uma imagem como esta, embora quase sempre publicada como se fosse um registro espontâneo e despretensioso de um momento absolutamente corriqueiro da vida, segundo compreendo, destina-se a transmitir ao menos uma, senão mais de uma, dentre as perspectivas abaixo:

A marca do veículo, que se encontra no volante. É a intenção velada de ostentar riqueza, a depender, naturalmente, de qual seja essa marca. Não impressionamos com um Volkswagen, mas Audi, Mercedes, BMW, Land Rover e Jaguar já enchem os olhos. Cito marcas que vejo nesta cidade.

A tela da central multimídia, que exibe a música que supostamente está sendo ouvida pelo condutor. É a deixa da ostentação cultural, que pode conduzir a dois caminhos diametralmente opostos: 

  • Se colocar estilos musicais havidos por sofisticados, de acordo com os padrões hegemônicos, o sujeito quer exibir sua pretensa superioridade intelectual, seu refinamento e erudição. Quem não gosta do estilo é menosprezado por sua indigência cultural. (PS - Quem nunca viu um pseudointelectual dizer que gosta de jazz?)
  • Se colocar estilos musicais popularescos, o indivíduo quer vangloriar-se de ser descolado, livre, de não se importar com a opinião alheia, de não ceder a pressões e de privilegiar a alegria e o bem-estar. Quem não gosta do estilo é menosprezado por sua arrogância. (PS - Sabe aquela canção cuja letra parece ter sido escrita por um bebê, com música dançante e intensa exploração comercial? Pois é.)

Duvido bastante que o autor de publicações de painel de carro exponha uma música escolhida simplesmente porque gosta dela. Foi o que tentei fazer. Eu realmente escuto habitualmente heavy metal e gosto das bandas alemães, porque estudei alemão e isso me ajuda a manter contato com o idioma. Em minha tela você vê "Sie tantz allein" ("ela dança sozinha"), da banda de metal medieval Saltatio Mortis, que escuto com frequência (por sinal, sempre me lembrando de minha bailarina favorita, Ana Luiza Crispino).

O local por onde o sujeito está passando. E finalmente, porém não menos importante, o mundo exterior ao veículo, embora seja o elemento que menos conote ostentação, nas publicações que costumo ver, também pode ser usado com essa finalidade, pois o ambiente pode ser requintado, exclusivo ou exuberante. O sujeito escreve "mais um dia de trabalho", para se vender como profissional batalhador em um dia perfeitamente comum, mas quer mesmo ostentar sucesso, por exemplo exibindo um ambiente que cause admiração, por seu luxo ou tecnologia. Ou então o sujeito quer mostrar a sua profunda simplicidade e amor à natureza, mas posta aquela praia estonteante que por acaso denuncia que fez uma viagem cara.

É isso. Símbolos.

Convido você, eventual leitor, a opinar sobre meus juízos de valor nesta postagem que, como tudo mais, também possui suas intencionalidades ocultas. Mas não, não possui nenhum destinatário específico. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Breve análise sobre um caso gravíssimo

 A pedido do grupo de pesquisa Rosas Aprisionadas, coordenado pela querida Profa. Juliana Freitas, gravei um vídeo tecendo algumas considerações sobre o assustador caso Mariana Ferrer. Pode ser assistido no seguinte link:

https://www.instagram.com/tv/CHRN4tOh8h1/?igshid=sjb2flfwhfho


Minha abordagem tem natureza penal e processual penal, por isso é apenas uma pequena fração de tudo que pode ser pensado sobre esse caso que, compreensivelmente, mexeu com os brios de todos aqueles que têm decência.