A melhor banda que já existiu neste país se chama
Legião Urbana e
Renato Russo, seu líder, foi o maior poeta de nossa música a partir de sua geração. Nunca superados.
Ouvinte assíduo de sua obra, o que mais me impressiona nela é a riqueza de significados que se pode extrair de textos aparentemente superficiais (para mim, eles nunca aparecem superficiais, porque sempre espero a mensagem sub-liminar). O poeta era um espírito romântico vivendo no século XX com as mesmas características de obsessão pelo amor romântico, medo da solidão, atitude desesperada que leva a vícios e, até mesmo, o abandono das oportunidades, quando elas surgem. Mas era também um jovem culto, amante da filosofia, leitor contumaz, que tinha substância suficiente para fazer reflexões profundas.
Eu gostava muito das aulas de Língua Portuguesa e de Literatura nas quais fazíamos interpretação de textos, mormente poesia. Eu era um fiasco nisso, mas gostava. E ontem, quando ia para o trabalho escutando "
Será", a primeira faixa do primeiro disco da Legião, pus-me a meditar a respeito. Dei-me ao trabalho, então, de procurar na internet alguma análise já escrita e acabei me deparando
com esta página aqui, que pede a colaboração dos leitores para decodificar o texto.
Condensando as opiniões ali oferecidas, e acrescentando as minhas próprias, podemos identificar quatro diferentes linhas interpretativas:
1ª A canção se refere a uma relação amorosa possessiva
É a hipótese mais óbvia e mais difundida. Contudo, devemos considerar a possibilidade de Renato haver mascarado, sob a capa previsível de um namoro conturbado, uma mensagem sobre outro tema, que ele não se sentisse à vontade para declarar abertamente.
O desequilíbrio da relação, a partir da possessividade de um dos parceiros, salta aos olhos nos primeiros versos ("Tire suas mãos de mim/ Eu não pertenço a você/ Não é me dominando assim..."). O cenário, portanto, é de brigas constantes motivadas por ciúme imotivado ("Brigar pra quê/ Se é sem querer?"). Aparentemente, o poeta é mais frágil ("Eu posso estar sozinho"), porém mais lúcido que seu(sua) parceiro(a) ("Mas eu sei muito bem onde estou") e tenta conservar a relação, imaginando "alguma solução para que esse nosso egoísmo não destrua o nosso coração". Mas não parece que o outro esteja colaborando, até porque alega agir por amor.
Algo que apreciei foi ver que o poeta não se vitimiza: ele reconhece as próprias culpas (ao contrário da tônica dos nossos dias, em que os discursos das pessoas só têm "tu" e nunca "eu"), tanto que alude a monstros "da
nossa própria criação" e a "
nosso egoísmo". Também assume uma postura proativa, para recuperar o relacionamento ("Será que vamos conseguir vencer?"; "Quem é que vai nos proteger?"). Neste último verso, o poeta denuncia a percepção de que a relação protege os dois de algum mal. Qual seria?
Quem está de fora de uma relação destrutiva em geral se acha no direito de fazer julgamentos, mas a verdade é que as pessoas se vinculam dessa forma por inúmeras razões, que são difíceis de sondar e, o mais das vezes, elas mesmas não saberiam explicar. Neste caso, contudo, parece que o motivo do poeta de persistir é dos mais comuns: "talvez por medo da escuridão". Refiro-me ao medo da solidão, característica marcante da personalidade de Renato, não à toa conhecido como
o trovador solitário. Mais à frente, na lindíssima canção "Esperando por mim", ele dirá: "Digam o que disserem/ O mal do século é a solidão/ Cada um de nós imerso em sua própria arrogância/ Esperando por um pouco de afeição".
No momento descrito pela canção, o poeta reconhece as suas fraquezas, porém questiona se vale a pena insistir. Será que isso é amor ou só imaginação? Será que esse esforço todo será em vão? Segundo entendo, o que questiona é o próprio sentimento, porque na primeira estrofe já externou sua posição de que o modo de agir do outro não é amor.
Segundo um dos comentaristas, seria o mesmo tema da canção "
Damaged goods", da banda Gang of Four, muito apreciada pelo quarteto, em especial por Dado Villa-Lobos.
Esta parece mesmo a interpretação correta, a julgar pela
página da banda na internet:
"Era uma relação amorosa tensa, com um olhar de angústia e mais intimista do que o que existia até ali no rock brasileiro. Um sentimento extremamente pessoal, mas num discurso que o tornava coletivo e universal.
(...) Era uma letra angustiada e, ao mesmo tempo, esperançosa. Ficava fácil perceber que outros tempos se abriam no rock nacional."
2ª A canção se refere à relação com o pai
O filho de um funcionário público certinho decide ser punk e ter uma banda, isso na Brasília da década de 1970, uma época em que as famílias sonhavam, para seus filhos, o serviço público, a carreira militar ou talvez uma boa posição em um banco. E ainda com a ditadura enevoando a vida de todos e eles estando bem no centro geográfico dela. E ainda por cima era
gay. Não podia dar certo. O filme
Somos tão jovens contém cenas de atritos entre Renato e seu pai.
Nesta segunda leitura, o conflito de amor romântico se transforma em um conflito de gerações com o pai. Renato se sentiria sufocado pelo pai que acredita saber o que é melhor para o garoto, como normalmente os pais acreditam e os filhos detestam. O pai não respeitaria suas escolhas por considerá-lo imaturo para tomá-las. "Eu posso estar sozinho/ Mas eu sei muito bem onde estou" seria a sua forma de dizer que está, sim, apto a decidir e que chegou a hora de assumir as rédeas da vida. Negar-lhe isso "não é amor".
O refrão, nesse caso, passaria a ser um clamor pelo entendimento familiar. Curiosamente, a despeito de o poeta reconhecer o seu egoísmo e as suas falhas — admitir isso num conflito doméstico já é prova de maturidade —, somos levados a pensar que, ao contrário de um namoro, que exige concessões mútuas, a solução aqui precisa ser o pai deixar o filho conduzir a própria vida. Afinal, somente ele pode vivê-la, com seus erros e acertos, inclusive com suas dores. É o que vai acontecer, mesmo, mais cedo ou mais tarde. Não duvido que seja um dos momentos mais difíceis, se não o mais difícil, na vida de um pai ou mãe.
3ª A canção é uma crítica à ditadura militar e à política externa de países imperialistas
O primeiro disco da Legião Urbana foi lançado em janeiro de 1985, mês do
Rock in Rio, quando ainda faltavam mais de dois meses para o último presidente militar, João Baptista de Oliveira Figueiredo (aquele que preferia cheiro de cavalo ao do povo), passar a faixa para o primeiro presidente civil, ainda eleito por voto indireto. Era apenas o começo da redemocratização do país. O disco chegava carregado de temas políticos, criticando inclusive aspectos comportamentais da sociedade brasileira. Há quem diga que "Será" teria sido um hino jovem daqueles tempos. Mas eu tinha 9 anos na época, então não sei. Alguém que tinha mais idade poderia ratificar ou negar esta afirmação?
Nesta interpretação, que aparentemente procura chifre em cabeça de cavalo, a primeira estrofe seria um passa-fora no imperialismo americano, e de seus asseclas, um grito de liberdade do Brasil ou da América Latina, que estaria reivindicando a própria autonomia. Para alguns, "só imaginação" seria o suposto caos em que o país mergulharia caso se desligasse da interferência dos Estados Unidos; e os "monstros da nossa própria criação" seriam políticos ligados às mesmas práticas do passado, porém eleitos por medo do desconhecido.
Não me convence. Há um acento muito íntimo na canção para que a mensagem fosse assim tão nacionalista. Prefiro crer que, se Renato queria criticar a ditadura, fá-lo-ia claramente, ainda mais que os tempos já eram de abertura política.
4ª A canção descreve os efeitos da cocaína
E não poderia faltar uma versão ancorada no clichê de que roqueiro tem que ser um drogado sem nada na cabeça, que até quando compõe continua na fissura da droga. É fato, entretanto, que Renato se viciou em drogas, tendo admitido isso em entrevistas. Teria admitido, por exemplo, que a bela canção "Vinte e nove" se referia a amigos mortos por causa do vício em heroína, por sinal mesmo problema dele ("Perdi vinte em vinte e nove amizades/ Por conta de uma pedra em minhas mãos"). Na canção "L'âge d'or", ele ataca: "Já tentei muitas coisas/ De heroína a Jesus", o que abre muitas possibilidades sobre o que estaria de permeio.
A biografia do cantor (
link abaixo), todavia, destaca que o seu maior vício era o álcool. O fato é que Renato, penso, não se eximiria de falar mais abertamente sobre drogas, se quisesse. Nesta canção, não parece ser o caso. Quem faz essa aposta chuta que a letra se refere aos efeitos da cocaína, tais como a dependência ("eu não pertenço a você"), as alucinações ("monstros da nossa própria criação") e a insônia ("ficaremos acordados" — essa foi tosca!). A grande dúvida existencial do poeta seria se conseguiria vencer o vício.
Considero esta a hipótese mais tola, respaldado no próprio Renato, que na canção "Há tempos" já advertia: "Parece cocaína/ Mas é só tristeza".
É provável
Há uma boa chance de Renato Russo ter partido de um tema prosaico e ao qual todos estamos sujeitos — uma relação amorosa conturbada — para criar uma alegoria adaptável às mais diversas formas de dominação. Todos nós podemos criar monstros, capazes de destruir tudo que amamos, tudo que nos é importante, por causa do nosso egoísmo (esta crítica comparece com frequência na obra do compositor).
Mas se somos capazes de fazer este diagnóstico, também somos capazes de mudar de atitude. Resulta daí a percepção de muitos, quanto a que "Será", contraditoriamente, também apresenta ares otimistas. O que traz outra contradição que me é especialmente tocante: o poeta inspirava nos outros a esperança que negou a si mesmo.
Antecedentes no blog:
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/07/o-trovador-solitario.html
- http://yudicerandol.blogspot.com.br/2013/05/somos-tao-jovens.html