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sábado, 23 de janeiro de 2021

Manoel de Barros em gotas

Manoel de Barros (1916-2014) foi um poeta modernista matogrossense, tardiamente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, festejado entre escritores e críticos, porém ainda desconhecido do grande público. Não que poesia tenha um grande público no Brasil (se bem que a internet está aqui me contando que ele foi o poeta que mais vendeu livros neste país), mas eu, por exemplo, que sou apaixonado por essa expressão artística, tenho o constrangimento de admitir que ainda desconheço sua obra. Ainda. Mas fui sensibilizado por uma filósofa, que o tem como poeta predileto, e assim declarou durante uma aula muito esclarecedora (não sobre poesia, e sim sobre a filosofia em nossas vidas), já me alertando para o rico subtexto que se pode encontrar nesses poemas, aliás especialmente recomendado para iluminar, nas crianças, o pensamento filosófico.


A obra de Barros é delicada, radicada na gente simples do interior, na infância, na natureza. Em meio a causos e ao sentimento idílico da vida no campo, esconde uma profundidade desconcertante, que está me conquistando sem qualquer demora.

Este blog já publicou diversos poemas que me cativaram e até possui um marcador "poesia". Hoje, compartilharei com vocês não um poema, mas um único verso de Barros. Uma das gotas de sabedoria reunidas em seu Livro sobre nada (1996), que me causou profunda impressão só de lê-la. Honestamente, assim que li, veio a minha mente mais de uma lembrança que me convenceu de que o poeta está certo.

"Tem mais presença em mim o que me falta."

Manoel de Barros, poeta, está vivo.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Clarice tem razão

Imagem obtida em https://br.pinterest.com/pin/179229260157146351/

Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter... calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.

Clarice Lispector (1920-1977)

As irretocáveis palavras de Lispector ficam ainda mais belas quando declamadas por Maria Bethania, que tem nela e em Fernando Pessoa suas principais referências poéticas.

sábado, 22 de julho de 2017

Na porrada

Um dos textos mais conhecidos de Fernando Pessoa (no caso, sob o heterônimo de Álvaro de Campos) é o "Poema em linha reta", que inicia com versos célebres:


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


Abstraindo a ironia do poema, estou me sentindo exatamente o oposto do que essas palavras dizem ― muito mais perto do que elas provavelmente pretendem dizer. Se bem que o poeta criticou a hipocrisia e o meu problema é um pouco diferente. Talvez cegueira seja o termo. Uma cegueira caracterizada não pela impossibilidade, mas pela recusa deliberada em enxergar as próprias ações e os sentimentos alheios.

Também eu tive 20 anos. Também eu me acreditei sábio, infalível e melhor do que os outros(*), embora provavelmente isso fosse mais defesa do que convicção. Havia em mim a centelha da compreensão de todas as minhas fraquezas, mas eu acreditava estar certo e o resto do mundo, errado. Já naquela época me diziam que isso era marra de adolescente e eu me ofendia. Porque eu era um adolescente ou pós-adolescente. Hoje, percebo que as pessoas tinham mesmo razão. A vida também é feita de obviedades terrivelmente repetitivas.

Há pessoas que só aprendem apanhando. Mas, às vezes, por amor ou tibieza, ou por qualquer um dos outros motivos que conduzem nossas vulnerabilidades, nós evitamos que apanhem. Nós tentamos os caminhos que nos parecem mais fáceis: orientar, ensinar, exortar, conclamar; depois brigar, repreender, castigar, reiterar; depois repetir, pedir, suplicar, chorar. Pode acontecer de passarmos anos tentando variações disso tudo. Sem sucesso. Chega a hora, por fim, de aceitar que algumas pessoas somente aprenderão alguma coisa tomando porrada. E que, talvez, o melhor a fazer por elas é abrir a porteira para o mundo e deixar que se lancem, como sempre quiseram, para ver no que dá.

Não é algo que possamos fazer sem sofrimento. Mas o sofrimento já existe. Chega uma hora em que entregar a pessoa a si mesma é um ato de legítima defesa. Ela cresceu, é supostamente livre e pode fazer suas escolhas. A nós cabe seguir amando, se ainda é possível. Rezar, caso se acredite nisso. Torcer pelo sucesso, ao menos. Ou esquecer, se formos capazes.

Mas, sem dúvida alguma, há coisas que não podem continuar como estão.

(*) Esse tipo de atitude pode ser vista nas postagens da primeira fase deste blog. Textos implacáveis em suas valorações. Com o tempo, creio ter ficado mais compreensivo e moderado. Dizem os mais sábios que, com a idade, vamos aprendendo a calar.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Você se interessou pelas palavras de Hannah?

O seriado do momento é 13 reasons why, mais uma corajosa produção original da Netflix. Enquanto as pessoas se batem acerca da romantização, ou não, do suicídio, vou assistindo aos episódios e gostando deles. Li algumas críticas antes de iniciar e já havia comprado a ideia de que alumas opções do roteiro eram estúpidas ("a divulgação de um poema não pode ser motivo suficiente para uma pessoa se matar"). 

Mas além de que somente com muito moralismo você, que está vivo, poderia julgar o que é ou não motivo suficiente para uma atitude tão extrema, à medida que a série avança, as diferentes situações enfrentadas pela adolescente Hannah Baker vão se tornando plausíveis para mim. Como cantou Chico Buarque, "deixa em paz meu coração/ ele é um pote até aqui de mágoa/ que qualquer desatenção/ faça não/ pode ser a gota d'água".

Assim, o poema divulgado não foi a causa imediata ou prioritária do suicídio. Foi apenas mais um evento ruim, e não pela divulgação em si, mas porque disparou mais uma leva de humilhações sobre alguém que já estava com a alma profundamente machucada. Reforçou um processo já existente, longo e grave. Podia ser qualquer coisa.

Vendo o episódio 8, no qual o poema de Hannah é parcialmente lido, fiquei curioso em relação ao seu conteúdo na íntegra. E aí está ele.

Resultado de imagem para hannah baker livro

Today I am wearing lacy black underwear
For the sole purpose of knowing I am wearing them.
And underneath that?
I am absolutely naked.
And I’ve got skin. Miles and miles of skin;
I’ve got skin to cover all my thoughts
like saran wrap that you can see through
to what leftovers are inside from the night before.
And despite what you might think, my skin is not rough; nor is it bullet proof.
My skin is soft, and smooth, and easily scarred.
But that doesn’t matter, right?
You don’t care about how soft my skin is.
You just want to hear about what my fingers do in the dark.

But what if all they do is crack open windows?
So I can see lightening through the clouds.
What if all they crave is a jungle gym to climb for a taste of fresher air?
What if all they reach for is a notebook or a hand to hold?
But that’s not the story you want.
You are licking your lips and baring your teeth.

Just once I would like to be the direction someone else is going.
I don’t need to be the water in the well.
I don’t need to be the well.
But I’d like to not be the ground anymore.
I’d like to not be the thing people dig their hands in anymore.

Some girls know all the lyrics to each other’s songs.
They find harmonies in their laughter.
Their linked elbows echo in tune.
What if I can’t hum on key?
What if my melodies are the ones nobody hears?

Some people can recognize a tree,
A front yard, and know they’ve made it home.
How many circles can I walk in before I give up looking?
How long before I’m lost for good.
It must be possible to swim in the ocean of the one you love without drowning.
It must be possible to swim without becoming water yourself.
But I keep swallowing what I thought was air.
I keep finding stones tied to my feet.

Obviamente, jamais existiu uma Hannah Baker e esse poema foi escrito por um profissional, alguém que certamente o produziu não com emoção, mas com técnica para fazer parecer a enunciação dos sentimentos de uma adolescente desajustada e pedindo ajuda. Mesmo assim, é bonito e tem momentos luminosos, tais como o verso final, sobre você sentir que tem, o tempo inteiro, pedras em seus pés. Uma sensação que muita gente real conhece.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Qual o propósito?

Dia desses, eu me preparava para uma aula em que faria uma contextualização acerca de crimes sexuais e mencionei a minha esposa que abordaria a questão das cantadas de rua que as mulheres sofrem. Ela me sugeriu, não sei se brincando ou a sério, que exibisse o vídeo "Cantada", do Porta dos Fundos. Apesar de ver relação com o tema da aula, nem cogitei de fazer a exibição, face ao palavreado chulo do esquete (aqui o vídeo). Escolado, sei que na hora as pessoas riem, mas é melhor não dar margem a posteriores melindres.

Recordei-me disto ao tomar conhecimento de que, segundo entendera a princípio, uma professora teria dado um poema erótico para seus alunos da 5ª série, em uma escola municipal de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. Lendo a matéria, descobri que, na verdade, o poema foi dado pela vice-diretora, em ocasião em que a professora da turma havia faltado. A notícia, exígua, não fornece maiores informações, então estou supondo que, diante da ausência da professora, a vice-diretora entrou na turma para suprir uma emergência e, portanto, tomou uma decisão sem planejamento. Foi no impulso ou, até, tentou causar algum impacto. O fato é que, agora, vai responder a um processo disciplinar e pode sofrer uma punição, em tese, até mesmo de demissão.

Não é a primeira vez que profissionais da educação se envolvem em confusão porque adotaram, em sala de aula, algum recurso que remete ao sexo. O meu comentário original seria no sentido de que não vejo mal, honestamente, nesse tipo de expediente, assim como não vejo mal em utilizar humor, expor imagens chocantes (sou de professor de direito penal, ora!), cantar, apresentar performances, etc. O problema não é o recurso, mas a finalidade a que se destina. Se existe uma finalidade pedagógica clara e refletida, se o educador, de boa-fé, supõe que pode favorecer algum conteúdo ou habilidade com certa estratégia, não vejo mal em seu emprego. Mesmo que, eventualmente, estejamos falando de crianças.

Entendam, por favor, que estou longe de ser um professor permissivo. Eu não usaria um poema falando de "pau" e "xota" para crianças de 10, 11 anos. Assim como não quis expor meus alunos adultos aos tabuísmos de um vídeo de humor (que, provavelmente, eles conhecem, assim como inúmeros outros tão ou mais pornofônicos). Assim como não apresento imagens chocantes em minhas aulas, mesmo havendo alguma lógica nisso, porque sei que fere a sensibilidade de muitos alunos e qualquer proveito informativo a ser extraído disso eu poderia obter usando outra estratégia.

Meu objetivo original para esta postagem, contudo, perdeu-se. Agora estou pensando que a vice-diretora tomou essa atitude sem um critério razoável e, com isso, acabou se expondo às críticas dos pais. Sempre há pais ultramoralistas, ao menos quando é para criticar os outros. A escola não pode falhar, em nenhuma medida, no processo de educação que a família brasileira sistematicamente lhe transfere de forma integral.

Isto nos remete, contudo, a uma outra questão: as pessoas continuam, em 2015, a tratar o sexo com a mentalidade da Idade Média. Ele é sujo, pecaminoso e devemos fingir que não faz parte de nossas vidas. Quando ele aparece na escola, então, é um Deus nos acuda. Mas será que isso realmente se justifica?

Um pouco acima da faixa etária das crianças que leram o tal poema, outro dia, aqui em Belém, alunos de uma escola particular gravaram um videozinho usando o aplicativo para smartphone Dubsmash, dublando um funk com letra tosca e sexual (perdoem o pleonasmo) no qual se diz que "a novinha" quer pau. Enquanto o moleque imberbe dizia "pau, ela quer pau", a coleguinha se abaixava como se fosse abocanhar-lhe o membro que daqui a mais alguns anos será efetivamente viril. Degradante, a meu ver, mas real. A escola brasileira quer jogar o que para baixo do tapete?

Penso que é mais interessante colocar o sexo na agenda das instituições de ensino e tentar usar o espaço da escola, cenário das relações horizontais que, ao longo da vida, tornam-se mais importantes para o indivíduo do que as verticais, para falar de consequências, de amor-próprio, de responsabilidade. Nesse sentido, até mesmo o poema "Ciuminho básico" poderia ensejar reflexões, tais como você acha saudável o tipo de relação sugerida no poema?

Por conseguinte, acho que as famílias estão erradas com o estardalhaço. E a escola está errada por se acovardar diante das relações clientelistas que hoje presidem o já complicado trabalho do educador.

No mais, minha mente contrária a desvarios punitivistas ainda lastima que a profissional esteja ameaçada até de demissão, ao menos em tese, quando a responsabilização, se houver (não estou certo nem de que ela mereça uma punição), deve levar em conta uma série de fatores, inclusive a condução da pessoa no trabalho até aqui e as consequências reais de seus atos. Será que alguém perguntou às crianças se elas se sentiram ofendidas? Ou foram somente os pais, os mesmos que deixam os mesmos filhos vendo sexo implícito na novela e fazem vista grossa aos filmes, revistas e à navegação na internet?

Concluo dizendo que achei o poema interessante. Não bonito, não instigante, mas interessante. No estilo, prefiro Elisa Lucinda. E realmente não tenho problema com palavrões, que falo quase o tempo todo. Já publiquei aqui no blog, inclusive, o irreverente "Soneto do caju", do meu poeta favorito, Vinícius de Morais. Como disse antes, tudo é uma questão de propósito. Especialmente se há crianças por perto.

Ciuminho básico (Ana Elisa Ribeiro)

escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:
vou cercar tua boca
com arame farpado
pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço
vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos
esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos
no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota
finco no cu uma placa
"não há vagas, vagabundas"
na bunda ponho uma cerca
proíbo os arrepios
exceto os de medo
e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.

PS - O resultado de suscitar o tema do assédio de rua, na aula, por si só vale uma postagem.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Será — Uma análise

A melhor banda que já existiu neste país se chama Legião Urbana e Renato Russo, seu líder, foi o maior poeta de nossa música a partir de sua geração. Nunca superados.

Ouvinte assíduo de sua obra, o que mais me impressiona nela é a riqueza de significados que se pode extrair de textos aparentemente superficiais (para mim, eles nunca aparecem superficiais, porque sempre espero a mensagem sub-liminar). O poeta era um espírito romântico vivendo no século XX com as mesmas características de obsessão pelo amor romântico, medo da solidão, atitude desesperada que leva a vícios e, até mesmo, o abandono das oportunidades, quando elas surgem. Mas era também um jovem culto, amante da filosofia, leitor contumaz, que tinha substância suficiente para fazer reflexões profundas.

Eu gostava muito das aulas de Língua Portuguesa e de Literatura nas quais fazíamos interpretação de textos, mormente poesia. Eu era um fiasco nisso, mas gostava. E ontem, quando ia para o trabalho escutando "Será", a primeira faixa do primeiro disco da Legião, pus-me a meditar a respeito. Dei-me ao trabalho, então, de procurar na internet alguma análise já escrita e acabei me deparando com esta página aqui, que pede a colaboração dos leitores para decodificar o texto.

Condensando as opiniões ali oferecidas, e acrescentando as minhas próprias, podemos identificar quatro diferentes linhas interpretativas:

1ª A canção se refere a uma relação amorosa possessiva

É a hipótese mais óbvia e mais difundida. Contudo, devemos considerar a possibilidade de Renato haver mascarado, sob a capa previsível de um namoro conturbado, uma mensagem sobre outro tema, que ele não se sentisse à vontade para declarar abertamente.

O desequilíbrio da relação, a partir da possessividade de um dos parceiros, salta aos olhos nos primeiros versos ("Tire suas mãos de mim/ Eu não pertenço a você/ Não é me dominando assim..."). O cenário, portanto, é de brigas constantes motivadas por ciúme imotivado ("Brigar pra quê/ Se é sem querer?"). Aparentemente, o poeta é mais frágil ("Eu posso estar sozinho"), porém mais lúcido que seu(sua) parceiro(a) ("Mas eu sei muito bem onde estou") e tenta conservar a relação, imaginando "alguma solução para que esse nosso egoísmo não destrua o nosso coração". Mas não parece que o outro esteja colaborando, até porque alega agir por amor.

Algo que apreciei foi ver que o poeta não se vitimiza: ele reconhece as próprias culpas (ao contrário da tônica dos nossos dias, em que os discursos das pessoas só têm "tu" e nunca "eu"), tanto que alude a monstros "da nossa própria criação" e a "nosso egoísmo". Também assume uma postura proativa, para recuperar o relacionamento ("Será que vamos conseguir vencer?"; "Quem é que vai nos proteger?"). Neste último verso, o poeta denuncia a percepção de que a relação protege os dois de algum mal. Qual seria?

Quem está de fora de uma relação destrutiva em geral se acha no direito de fazer julgamentos, mas a verdade é que as pessoas se vinculam dessa forma por inúmeras razões, que são difíceis de sondar e, o mais das vezes, elas mesmas não saberiam explicar. Neste caso, contudo, parece que o motivo do poeta de persistir é dos mais comuns: "talvez por medo da escuridão". Refiro-me ao medo da solidão, característica marcante da personalidade de Renato, não à toa conhecido como o trovador solitário. Mais à frente, na lindíssima canção "Esperando por mim", ele dirá: "Digam o que disserem/ O mal do século é a solidão/ Cada um de nós imerso em sua própria arrogância/ Esperando por um pouco de afeição".

No momento descrito pela canção, o poeta reconhece as suas fraquezas, porém questiona se vale a pena insistir. Será que isso é amor ou só imaginação? Será que esse esforço todo será em vão? Segundo entendo, o que questiona é o próprio sentimento, porque na primeira estrofe já externou sua posição de que o modo de agir do outro não é amor.

Segundo um dos comentaristas, seria o mesmo tema da canção "Damaged goods", da banda Gang of Four, muito apreciada pelo quarteto, em especial por Dado Villa-Lobos.

Esta parece mesmo a interpretação correta, a julgar pela página da banda na internet:

"Era uma relação amorosa tensa, com um olhar de angústia e mais intimista do que o que existia até ali no rock brasileiro. Um sentimento extremamente pessoal, mas num discurso que o tornava coletivo e universal.
(...) Era uma letra angustiada e, ao mesmo tempo, esperançosa. Ficava fácil perceber que outros tempos se abriam no rock nacional."

2ª A canção se refere à relação com o pai

O filho de um funcionário público certinho decide ser punk e ter uma banda, isso na Brasília da década de 1970, uma época em que as famílias sonhavam, para seus filhos, o serviço público, a carreira militar ou talvez uma boa posição em um banco. E ainda com a ditadura enevoando a vida de todos e eles estando bem no centro geográfico dela. E ainda por cima era gay. Não podia dar certo. O filme Somos tão jovens contém cenas de atritos entre Renato e seu pai.

Nesta segunda leitura, o conflito de amor romântico se transforma em um conflito de gerações com o pai. Renato se sentiria sufocado pelo pai que acredita saber o que é melhor para o garoto, como normalmente os pais acreditam e os filhos detestam. O pai não respeitaria suas escolhas por considerá-lo imaturo para tomá-las. "Eu posso estar sozinho/ Mas eu sei muito bem onde estou" seria a sua forma de dizer que está, sim, apto a decidir e que chegou a hora de assumir as rédeas da vida. Negar-lhe isso "não é amor".

O refrão, nesse caso, passaria a ser um clamor pelo entendimento familiar. Curiosamente, a despeito de o poeta reconhecer o seu egoísmo e as suas falhas — admitir isso num conflito doméstico já é prova de maturidade —, somos levados a pensar que, ao contrário de um namoro, que exige concessões mútuas, a solução aqui precisa ser o pai deixar o filho conduzir a própria vida. Afinal, somente ele pode vivê-la, com seus erros e acertos, inclusive com suas dores. É o que vai acontecer, mesmo, mais cedo ou mais tarde. Não duvido que seja um dos momentos mais difíceis, se não o mais difícil, na vida de um pai ou mãe.

3ª A canção é uma crítica à ditadura militar e à política externa de países imperialistas

O primeiro disco da Legião Urbana foi lançado em janeiro de 1985, mês do Rock in Rio, quando ainda faltavam mais de dois meses para o último presidente militar, João Baptista de Oliveira Figueiredo (aquele que preferia cheiro de cavalo ao do povo), passar a faixa para o primeiro presidente civil, ainda eleito por voto indireto. Era apenas o começo da redemocratização do país. O disco chegava carregado de temas políticos, criticando inclusive aspectos comportamentais da sociedade brasileira. Há quem diga que "Será" teria sido um hino jovem daqueles tempos. Mas eu tinha 9 anos na época, então não sei. Alguém que tinha mais idade poderia ratificar ou negar esta afirmação?

Nesta interpretação, que aparentemente procura chifre em cabeça de cavalo, a primeira estrofe seria um passa-fora no imperialismo americano, e de seus asseclas, um grito de liberdade do Brasil ou da América Latina, que estaria reivindicando a própria autonomia. Para alguns, "só imaginação" seria o suposto caos em que o país mergulharia caso se desligasse da interferência dos Estados Unidos; e os "monstros da nossa própria criação" seriam políticos ligados às mesmas práticas do passado, porém eleitos por medo do desconhecido.

Não me convence. Há um acento muito íntimo na canção para que a mensagem fosse assim tão nacionalista. Prefiro crer que, se Renato queria criticar a ditadura, fá-lo-ia claramente, ainda mais que os tempos já eram de abertura política.

4ª A canção descreve os efeitos da cocaína

E não poderia faltar uma versão ancorada no clichê de que roqueiro tem que ser um drogado sem nada na cabeça, que até quando compõe continua na fissura da droga. É fato, entretanto, que Renato se viciou em drogas, tendo admitido isso em entrevistas. Teria admitido, por exemplo, que a bela canção "Vinte e nove" se referia a amigos mortos por causa do vício em heroína, por sinal mesmo problema dele ("Perdi vinte em vinte e nove amizades/ Por conta de uma pedra em minhas mãos"). Na canção "L'âge d'or", ele ataca: "Já tentei muitas coisas/ De heroína a Jesus", o que abre muitas possibilidades sobre o que estaria de permeio.

A biografia do cantor (link abaixo), todavia, destaca que o seu maior vício era o álcool. O fato é que Renato, penso, não se eximiria de falar mais abertamente sobre drogas, se quisesse. Nesta canção, não parece ser o caso. Quem faz essa aposta chuta que a letra se refere aos efeitos da cocaína, tais como a dependência ("eu não pertenço a você"), as alucinações ("monstros da nossa própria criação") e a insônia ("ficaremos acordados" — essa foi tosca!). A grande dúvida existencial do poeta seria se conseguiria vencer o vício.

Considero esta a hipótese mais tola, respaldado no próprio Renato, que na canção "Há tempos" já advertia: "Parece cocaína/ Mas é só tristeza".

É provável

Há uma boa chance de Renato Russo ter partido de um tema prosaico e ao qual todos estamos sujeitos — uma relação amorosa conturbada — para criar uma alegoria adaptável às mais diversas formas de dominação. Todos nós podemos criar monstros, capazes de destruir tudo que amamos, tudo que nos é importante, por causa do nosso egoísmo (esta crítica comparece com frequência na obra do compositor).

Mas se somos capazes de fazer este diagnóstico, também somos capazes de mudar de atitude. Resulta daí a percepção de muitos, quanto a que "Será", contraditoriamente, também apresenta ares otimistas. O que traz outra contradição que me é especialmente tocante: o poeta inspirava nos outros a esperança que negou a si mesmo.

Antecedentes no blog: 
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/07/o-trovador-solitario.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2013/05/somos-tao-jovens.html

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Maranhão

Não se sabe ao certo a origem do topônimo (nome de lugar) Maranhão. O que se sabe é que na bela e maltratada capital, São Luís, e no sempre paupérrimo interior, nasceu e nasce muita gente boa, como Ferreira Gullar, Gonçalves Dias, Turíbio Santos ou Joaquim de Sousa Andrade.

Ferreira Gullar é um dos grandes escritores brasileiros do século 20 e querido companheiro nesta Folha.

Numa de suas célebres obras, o monumental "Poema Sujo", do livro homônimo, Gullar percorre um bom tanto do seu próprio in/consciente e, é claro, volta à sua marcante São Luís ("Mas sobretudo meu / corpo / nordestino / Mais que isso / maranhense / Mais que isso / sanluisense").

A singular letra de "O Trenzinho do Caipira", que também está no "Poema Sujo", na verdade é parte do poema, que Ferreira sugere que seja lido com a melodia de Villa Lobos. No texto, Ferreira fala das viagens de trem com o pai, entre São Luís e Teresina.

Outro dos maranhenses citados no primeiro parágrafo é o poeta romântico Gonçalves Dias, autor da antológica e conhecidíssima "Canção do Exílio" ("Minha terra tem palmeiras..."), da qual se fizeram inúmeras paródias.

Virtuose do violão, o maranhense Turíbio Santos é ouvido em todos os cantos do mundo. Sua gravação de "Concerto de Aranjuez" (de Joaquín Rodrigo) é das mais respeitadas no planeta. É vasta a sua discografia, quase toda dedicada à música clássica.

E o quarto maranhense citado? Quem será Joaquim de Sousa Andrade, mais conhecido como "Sousândrade"? Vou apresentá-lo a quem não o conhece com um trecho de "Trem dos Condenados" (de 1976), do pernambucano Marcus Vinicius: "Tomei o trem dos condenados / Que sempre partiu / Bastante adiantado / Quase uma vida inteira / Na frente do trem / Dos comportados / Tomei o trem dos esquecidos / Pela sorte grande nunca alcançada / Mas que nunca dançaram / Conforme a música dos aplausos (...) Enquanto canta o mestre do vagão / Joaquim de Sousa Andrade ali / Adiante da escuridão...".

Sousândrade (1832-1902) estudou letras na Sorbonne e andou também por Nova York e outros recantos. Obviamente considerado "louco" por seus contemporâneos, deixou, entre outras, uma obra premonitória, "O Guesa", que foi reeditada em 2009. Quem assina o prefácio é ninguém menos do que Haroldo de Campos, um dos poetas concretistas, os "redescobridores" de Sousândrade.

E por que a obra é premonitória? Bem, além de ser esteticamente inovadora, por adotar recursos até então inusitados, o livro encerra uma ácida crítica social, centrada na desventura do Guesa, personagem originariamente extraído da mitologia andina, o qual, na obra de Sousândrade, termina sacrificado pelos especuladores da Bolsa de Nova York.
Conheci Sousândrade na adolescência. Fui apresentado a ele por Caetano Veloso, que, em seu genial disco "Araçá Azul", de 1973, incluiu a antológica canção "Gilberto Misterioso" (Caetano Veloso/Sousândrade).

Um dia, em São Luís, fui à biblioteca central, à procura do que havia ali de e sobre Sousândrade. "Quem?", perguntou a funcionária. "Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade", disse eu. "Não conheço", disse a moça, encerrando a conversa.

Sousândrade nasceu e morreu no Maranhão, no mesmo Maranhão em que se morre como se morre no presídio de Pedrinhas ou em muitos hospitais públicos do Estado, em que não se aprende como não se aprende em suas escolas (o Estado tem baixíssimos índices educacionais), em que ainda se cultua uma espécie de teocracia, cujos deuses são os mesmos há meio século, em que, como também previu Sousândrade, o lado selvagem do capitalismo transforma em privado o que é público.

Para quem aprendeu o tanto que aprendi com tanta gente brilhante do Maranhão, é uma lástima ver o que ainda ocorre por lá. Viva o Maranhão! Viva, Maranhão! É isso.

Pasquale Cipro Neto
em sua coluna: 

sábado, 19 de outubro de 2013

Vinícius para sempre

Meu poeta brasileiro favorito se chama Marcus Vinícius de Moraes, nascido na capital carioca há exatos 100 anos. O centenário foi amplamente lembrado hoje e até virou um doodle do Google.

Mais conhecido como poeta e compositor, havendo uns tantos vídeos disponíveis na internet em que ele aparece cantando, também foi dramaturgo e jornalista. Em 1943, foi aprovado em disputado concurso público para a carreira diplomática. Serviu nos Estados Unidos e em Portugal, mas em 1946, por causa de sua coragem e de suas ideias à esquerda, foi exonerado em situação de perseguição política.

Por meio da Lei n. 12.265, de 2010, foi promovido post mortem a Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata, o que beneficiou diretamente os seus herdeiros. Uma reparação para uma injustiça. Mas o Poetinha, como era conhecido, vive mesmo no coração dos brasileiros, através de alguns de seus poemas, que são muito populares.

Vinícius já foi mencionando, aqui no blog, em mais de uma ocasião: excerto de "Pátria minha", o lascivo "Soneto do caju", "Soneto a quatro mãos", "Ternura" (meu poema favorito de sua lavra), "Balada do enterrado vivo" e "O operário em construção".

O Poetinha nos deixou em 9 de julho de 1980, aos 67 anos, por causa de um edema pulmonar, sem dúvida alguma pleno de poemas que deixamos de ler. Recordo-me do prazer que tive ao percorrer a casa em que ele viveu, hoje transformada em um museu. E foi durante a minha lua de mel, uma ocasião muito propícia a celebrar o poeta, como ele celebrava tão lindamente. Eu não poderia deixar este dia acabar sem prestar a minha reverência.

Para saber mais: 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Protesto por melhores condições de trabalho

Enquanto os reacionários continuam dizendo que manifestações são coisa de vagabundo, o mundo segue seu curso e coisas mudam de verdade.

Fiquei impressionado com a atitude dos trabalhadores do Grupo Líder, que cruzaram os braços, interromperam o funcionamento de, ao menos, três de suas lojas mais importantes, com direito à obstrução da via pública em frente (avenidas Visconde de Souza Franco e Augusto Montenegro, além da BR-316). Após as ondas grevistas das décadas de 1970/1980, o trabalhador brasileiro aprendeu a ser submisso, dado o seu pavor de perder o emprego, numa conjuntura tão propícia a isso.

Muitas vezes escutei pessoas dizendo que devíamos valorizar o nosso emprego, porque se você não quer, tem muita gente que quer. E é isso, mesmo: crise econômica, desemprego, necessidades batendo na porta e na cara, o trabalhador se submete a tudo, por mais humilhante que seja. Somente em conjunturas menos opressivas é que se pode conceber uma relação entre capital e trabalho menos aviltante.

Desconheço a real situação dos empregados do Grupo Líder. O que sei, porque vejo, é que os empregados de todas as redes de supermercados da cidade são extremamente sacrificados: trabalham muitas horas por dia, muitos dias por semana e recebem salários baixos. Lidam com o público, escutam desaforo, são obrigados a suportar tudo porque o cliente tem sempre razão e, ainda por cima, sofrem intensas cobranças, seja de produtividade, seja com suspeições sobre o modo como lidam com o patrimônio das empresas, notadamente mercadorias. Não é uma vida nada simples. E a despeito de tantos sacrifícios, a recompensa é pouca.

O fato é que o Ministério Público do Trabalho ajuizou ação civil pública por dano moral coletivo contra o Grupo Líder. Pede 3 milhões de reais como reparação. O réu alega que as acusações são infundadas e se diz até surpreso com o processo. Mas no dia de hoje negociou concessões, prometendo atender 10 das 12 reivindicações constantes da pauta dos trabalhadores. Não foi suficiente: a proposta foi recusada, porque a classe obreira tem duas prioridades sobre as quais nada se prometeu: cumprimento de carga horária de 6 horas diárias e pagamento de tíquete-alimentação. Ou seja, menos trabalho e um pouco mais de dinheiro. As mesmas prioridades de sempre.

Amanhã, os funcionários do Grupo Yamada devem aderir a movimento. Especula-se que as duas outras grandes redes supermercadistas irão atrás, mas por enquanto parece ser apenas boato. Seja como for, o trabalhador voltou a gritar, na rua, para lembrar ao capitalista por qual motivo ele está onde se encontra. E em apoio a esses brasileiros sofridos, vale um trecho do extraordinário poema de Vinícius de Moraes, "O operário em construção":

(...) Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Fontes:

quarta-feira, 27 de março de 2013

Los nadies

Em complemento à postagem abaixo, o belo, preciso e atualíssimo poema de Eduardo Galeano:


Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se levanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.
Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.
Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos:
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dois (premiados)

Sempre gostei muito deste poema:

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

— sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.


Trata-se de uma composição de Ferreira Gullar, poeta maranhense de 81 anos, que ontem recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano de 2011 Em alguma parte alguma, poesias inéditas editado pela José Olympio.

Ao seu lado, o jornalista paranaense Laurentino Gomes, agraciado com o mesmo prêmio, porém na categoria melhor livro de não-ficção — 1822, continuação do projeto que trouxe a lume o famosíssimo 1808, também vencedor do Jabuti (2008). Nas duas obras (a primeira muito melhor), o autor promove uma importante revisão de nossa História, desmistificando as besteiras que aprendemos em sala de aula. Talvez por isso sua vitória tenha sido tão aclamada.

Começamos dezembro, então, com poesia e celebração da boa literatura.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1014776-ferreira-gullar-e-laurentino-gomes-vencem-premio-jabuti.shtml

Já falei um pouco sobre 1808 (aqui) e 1822 (aqui e aqui).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Inquérito poético

Em dezembro de 2007, elogiei uma sentença lavrada em verso. Achei interessante a audácia do juiz em manifestar-se dessa forma e gostei particularmente da última estrofe. Acho simpaticamente subversivo uma autoridade tomar esse tipo de atitude.
No final de julho deste ano, o delegado Reinaldo Lobo, lotado na delegacia de Riacho Fundo (uma das regiões administrativas do Distrito Federal) elaborou em versos o seu relatório conclusivo do inquérito acerca de um caso de receptação. Justificou-se nestes termos: “O nosso trabalho é um pouco de idealismo. Apesar de muito árduo, ele é um pouco de fantasia, de você lutar pela reconstrução e pela melhora do mundo. Acho que isso traz muita realização e eu quis transformar isso em arte, daí a ideia da poesia.”
Gostei do idealismo do delegado. Simpatizei com ele, sem dúvida, mas não com seus dotes poéticos. O poema em si, que pode ser lido na íntegra na reportagem, é bem ruinzinho. Não é tudo que se escreve em versos que soa bem. O problema é a falta de métrica. Sem ela, o texto desagrada. Além do mais, as rimas de pé quebrado, que chegam ao auge em "testemunhá", podiam ser dispensadas.
Mas o que importa é ter uma alma de poeta. Se aquela autoridade policial continuar tão cheia de bons valores, melhor para a comunidade do Riacho Fundo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Danilo Dolci

Dias atrás, meu amigo e colega de docência Bruno Brasil encontrou um poema transcrito no livro que lia (A beleza e o inferno, de Roberto Saviano, Ed. Bertand Brasil) e teve a gentileza de relacioná-lo a mim. Enviou-me o texto e eu, logo em seguida, utilizei-o como fechamento de minha palestra na jornada de ciências criminais, ocorrida no último dia 20.
Eis o poema:

Há quem ensine

guiando os outros como cavalos,
passo a passo:
há talvez quem se sinta satisfeito
sendo assim guiado.
Há quem ensine elogiando
o que vê de bom e divertindo:
há também quem se sinta satisfeito
sendo encorajado.
Há quem eduque, sem esconder
o absurdo que existe no mundo, estando aberto a toda
revelação, mas tentando
ser franco com o outro como consigo mesmo,
sonhando com os outros como agora não são:
cada um só cresce se for sonhando.

O autor deste poema é Danilo Dolci (Sesana, 28.6.1924 Trappeto, 30.12.1997), foi um sociólogo, educador, escritor e poeta italiano.
Estudou arquitetura e chegou a publicar obras relacionadas à construção civil. Tendo morado em uma favela na região da Sicília, empenhou-se no combate à miséria reinante, angariando a antipatia da Igreja Católica (embora ele mesmo fosse um católico fervoroso), do governo, dos latifundiários e da Máfia. Tornou-se, assim, um ativista político que, baseado na não-violência, lutava por empregos e direitos civis. Tinha aversão à ditadura, por ter vivido sob o regime fascista.
Difundiu a "greve reversa", na qual os trabalhadores protestavam por trabalho, para eles um direito, mas um dever para o Estado. Liderou greves convencionais, incomodou o poder vigente e foi preso em mais de uma ocasião. Especula-se que a Máfia o deixava agir porque, sendo profundamente admirado, matá-lo poderia provocar repercussão massiva. Com efeito, ele persuadiu o governo a construir três barragens no norte da Itália, assegurando irrigação, energia e mais empregos. Também conseguiu atrair indústrias para a região.
Na década de 1960, Dolci era idolatrado na Europa e Estados Unidos. Jovens se mobilizavam para angariar fundos para suas campanhas.
Cognominado "Gandhi siciliano", por ser um declarado ativista contra a violência, chegou a ser indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

terça-feira, 22 de março de 2011

Inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

Mário Quintana

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Balada do enterrado vivo

Quando escrevi a postagem sobre o filme Enterrado vivo, mais abaixo, lembrei-me de um dos melhores poemas que já li: a "Balada do enterrado vivo", do grande Vinícius de Moraes. Acabei publicando a postagem sem apresentar o texto, mas elimino a omissão agora.
Detalhe: para usufruir do poema em toda a sua plenitude, você deve lê-lo em voz alta, única forma de perceber como a métrica se aperta e o ritmo fica mais rápido à medida que se lê. Com menos pausas, respiramos menos e o genial poeta consegue, assim, um modo de nos deixar sem respirar à medida que lemos. Além da beleza dos versos, esse recurso técnico é o que torna o poema tão especial. Aproveite.

Na mais medonha das trevas

Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.
Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!
Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!
Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!
Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!
Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ministro Vinícius

Lula sanciona lei que promove Vinicius de Moraes
Por Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy
O presidente Lula sancionou a Lei 12.265, de 16 de junho de 2010, que promoveu post mortem o diplomata Vinicius de Moraes a Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Assegura-se aos atuais dependentes de Vinicius os benefícios de pensão correspondentes ao cargo para o qual se fez a promoção.
Vinicius entrou para a carreira diplomática após disputadíssimo concurso, em 1943. Em 1946, serviu em Los Angeles, seu primeiro posto. Vinicius foi exonerado do Itamaraty em 1969. Atingido pelo Ato Institucional 5, conta-se que, no dia da notícia — Vinicius estava em Portugal —, salazaristas portugueses tentaram atingi-lo com bravatas. Vinicius enfrentou os agitadores. O confronto lhe rendeu aclamações de jovens liberais e de sensíveis e apaixonados estudantes, que ofereceram as becas para que o poeta sobre elas caminhasse. Passaram-se quatro décadas para que se fizesse a necessária correção histórica.
Há notícias de que, em 1979, o presidente Lula teria convidado Vinicius para a leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Fato ou versão, não importa, 40 anos depois, anfitrião e convidado se reencontram de modo inesperado.
O convidado que leu os poemas no sindicato já não mais está entre nós. Morreu em 9 de julho de 1980, de edema pulmonar, no Rio de Janeiro. Legou-nos uma obra poética inigualável. É o poeta da paixão. Cantou os perigos desta vida, para quem tem paixão principalmente. O anfitrião do episódio do sindicato venceu preconceitos, afirmou-se, elegeu-se presidente da República, é celebridade internacional. Aquiesceu com a justa homenagem e com a necessária reparação, comprovando que humanismo e altivez de espírito não são adereços que adornam apenas diplomados e formalmente letrados.
Vinicius de Moraes substancializou a carreira diplomática naquilo que a nobre atividade tem de mais marcante: a sensibilidade. A dissociação entre diplomata e poeta é mero acidente de interpretação, típico de quem apenas encontra na burocracia a disposição para a afeição ao carimbo, à forma, à mesmice. Não que a inusitada aproximação entre ofício e arte transforme o homenageado no campeão das causas diplomáticas. Menos. É que o entorno burocrático também acena com enigmas da existência, que também compõem um conjunto de anseios e de receios, que afugentam e norteiam habilidades e aptidões.
E Vinícius também simboliza o diplomata na inteligência, na multiplicação de interesses culturais, no gosto pela generalidade, no rigor com a verticalidade naquilo que se faz, no amor e no apego para com a existência. Construiu asas. Não se conformou com raízes. Diplomata, poeta, compositor, jornalista, crítico de arte, estudioso da cultura, Vinícius era um polímato. A sua produção intelectual é um patrimônio nacional. A sua sensibilidade, incomensurável, um referencial universal. A integridade para com as causas que defendia, entre elas a mais altaneira de todas, o amor, é o símbolo de uma existência concomitantemente irrequieta e tranquila, se é que esta aproximação seja possível.
Espremido por uma época que antagonizou duas únicas vias para a construção da sociedade, Vinicius não titubeou e não se comprometeu. Acima das lutas cá da terra, viveu a inconstância do amor, comprovando que a existência tomada de um modo metafísico e inquestionável apenas torna o homem mais um dos descontentes da civilização, em seu sentido freudiano. A luz dos olhos de Vinicius recorrentemente precisava se casar. E se casaria tantas vezes quanto necessário fosse, na blague atribuída a uma resposta que Vinicius dera a Tom Jobim.
Vinicius de Moraes anunciou no Soneto da Fidelidade uma nova concepção de tempo, conformando-nos com a mortalidade, mas tornando a existência infinita, enquanto durasse o viver, que é longo, se bem vivido, ainda que o seja por um instante finito. Vinicius invertia e subvertia o andar das horas: poetou que de manhã escurecia, de tarde anoitecia e de noite ardia...
A vida é boa, inegavelmente. Vinicius bendizia o amor das coisas simples. Poeta em estado natural, na lembrança de Drummond, Vinicius inquietava-se com o mistério da morte, que sublimava na paixão da vida. Católico na origem (fez a primeira comunhão em 1923), Vinicius aproximou o sentido soteriológico de todas as religiões na comunhão absoluta no amor pela vida. Seu catecismo era a perseguição do sublime. Seu mantra, a realização absoluta dos desejos nos quais se fundamenta a existência, desprezando-se um mero sentido utilitarista, típico de um pragmatismo que certamente desprezava.
A lei sancionada pelo presidente Lula provoca em todos nós a lembrança de um excerto de Vinicius para quem, depois de tantas retaliações, tanto perigo, eis que ressurgiria no outro o velho amigo, nunca perdido, sempre reencontrado. Comprova-se, definitivamente, que depois de idas e vindas, triunfam o ardor, a persistência e a paixão de todos quantos enfrentamos e vivemos intensamente os perigos desta vida.

domingo, 13 de junho de 2010

Sentimental

Por Fernando Pessoa:


Por Chico Buarque:


Por Renato Russo:


Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
[...]

Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate, bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural [...]

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental [...]

terça-feira, 27 de abril de 2010

Poetinha na rede



Uma boa notícia para quem ama poesia brasileira: toda a obra de Vinícius de Moraes está, agora, à disposição, gratuita e regularmente, na Internet. Você acessa a Biblioteca Brasiliana USP e pode fazer o download dos arquivos, em formato .pdf. Uma maravilha.


Para inspirar os fãs da poesia, eis o meu poema favorito dentre a vasta obra do Poetinha, "Ternura":




Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[extático da aurora.

terça-feira, 30 de março de 2010

Controvérsias poéticas

O comentarista Artur Dias, a respeito da postagem "Cinquentenário do poeta", registrou a sua crítica:

Um exame mais atento das letras do Renato Russo esfriam rapidamente o ímpeto de classificá-lo como "gênio". Pelo menos eu, já no fim dos anos 80, não entendia como o Renato Russo podia criar tanta rima pobre, tropeçar tanto no português e não ser criticado por isso. Dentro de sua moldura de classe média sim, ele tem méritos, ao fazer leituras dos conflitos familiares e expressar as angústias juvenis, mas nada além disso. É só comparar com o Cazuza: ele tinha plena consciência da sua condição de pequeno-burguês, e isto sim, era motivo dos maiores sarros. Acho que o Cazuza só deu uma escorregadela quando achou de cantar Bossa-Nova, o que, felizmente, não durou.

Minha resposta a ele:

Caríssimo Artur, no exercício do mais lídimo contraditório, permite que eu te diga que a tua crítica se baseia mais na forma do que no conteúdo. Tu criticas o Renato porque ele "tropeçava no português" e usava rimas pobres. Mas quem disse que isso suprimia a sua genialidade?
O cara era filho do punk rock. O que se podia esperar dele? Composições parnasianas? Ao contrário. Ele mesmo disse:

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito
Não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes


Não acho que era uma desculpa esfarrapada para justificar as próprias limitações. Renato era um sujeito culto, do tipo que lia clássicos. Mas pertenceu a um tempo em que a ordem era protestar e desconstruir. Daí porque o português algo titubeante e as rimas pobres que, por sinal, são um recurso estilístico bastante comum a partir do Modernismo.
Eu te proponho uma outra leitura: que tal procurar o lirismo, a profundidade emocional e as imagens poéticas valiosas que ele construiu?
Um exemplo de cada:

Lirismo
Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Profundidade emocional
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Detalhe: o "aonde" está mal empregado.

Imagens poéticas
Será que você vai saber
O quanto penso em você com o meu coração?

Se não bastasse tudo isso, devemos lembrar os constantes apelos do poeta a que fizéssemos alguma coisa por nossos sentimentos, por nossas vidas, para que pudéssemos ser mais felizes. Isso não é digno de valor?
E você, acha o quê?

PS Os excertos transcritos pertencem, respectivamente, às canções "Meninos e meninas", "Metal contra as nuvens", "Vento no litoral" e "O descobrimento do Brasil".

PS2  É interessante como sempre comparam Renato Russo a Cazuza. Mas Cazuza era um farsante: dizia odiar a burguesia, mas era um filhinho de papai que adorava se locupletar do estilo de vida que criticava. Não fosse o talento musical, seria um sujeito vazio. O Artur diz que ele tirava um sarro disso. Eu vejo como cinismo. E acho que o interesse dele pela bossa nova foi positivo. Questão de gosto?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A "segunda família" do real

O dinheiro brasileiro podia até não valer nada, mas geralmente era bonito, sobretudo quando o comparávamos com os dos demais países. Em 1994 veio o real, que ficou, e fomos nos adaptando a cédulas graciosas, baseadas em elementos da natureza brasileira. Prepare-se para, nos próximos meses, começar a ver um dinheiro diferente e bem mais vistoso, que está sendo chamado de a "segunda família" do real segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, adaptada às exigências internacionais de segurança, num momento em que a nossa moeda começa a crescer em importância no cenário mundial.
.


O visual é bonito, mas as cédulas, enormes para facilitar a vida dos deficientes visuais , serão mais difíceis de guardar e, por consequência, serão rapidamente amarfanhadas. E eu detesto dinheiro amarrotado! Mas há razões justas para o novo layout. O fato é que precisaremos nos acostumar. E, convenhamos, feio ou bonito, o que importa mesmo é que o dindim chegue ao nosso bolso, não?

Acréscimo em 4.2.2010:
O Portal G1 publicou hoje um interessante infográfico mostrando a evolução das cédulas brasileiras desde 1942. O cruzeiro (1970 a 1986) era horroroso, mas a Casa da Moeda acertou a mão nas cédulas homenageando Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, principalmente este último, pois colocou de um lado a efígie do poeta, com um semblante de avozinho, e de outro um de seus mais belos poemas, "Canção amiga":
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Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.