domingo, 15 de outubro de 2006

Bumbum baticumbum dudurudú

Aflige-me saber, neste exato momento da madrugada, como está se sentindo o sedizente prefeito de Belém, espremido entre a obrigatoriedade de apoiar os lados antagônicos da disputa eleitoral, numa incoerência eleitoral bem típica e indecente.
Se Ana Júlia realmente vencer o pleito, como ficará a relação entre os governos estadual e municipal? Afinal, ela foi derrotada pelo bicho do mato nas eleições de 2004 para a prefeitura. Terá grandeza de espírito para perdoar e auxiliar quem apoiou seu candidato a presidente ou se comportará como uma mulher ferida que deu a volta por cima? Haverá diálogo? Terá o expoente máximo da intelectualidade tracuateuense fôlego para se re-eleger prefeito em 2008?
Não consigo dormir, literalmente, de excitado que estou em pensar na noite miserável que o aludido escritor e a tucanalha em geral, seus mentores, devem estar passando e passarão, nos próximos dias. No final, pode ser que acabem vencendo. Até as pedras se erguerão para isso. Mas o sofrimento de agora já me serve ao menos de troco. Guardarei essas moedas comigo para dias mais felizes.

Lamento em 5.9.2011
Ana Júlia se elegeu, fez um governo horrendo e compôs com todos, inclusive com o desprefeito, que se re-elegeu em 2008. No fim, em 2010 os tucanos reassumiram o governo do Estado.
Os esperados dias mais felizes nunca chegaram...

Os anos e os vícios

Quem enfrenta a prova de fogo no Pará é o ex-bigovernador, que tenta emplacar o tricampeonato. De vencedor inevitável até um dia desses — segundo o próprio partido e o jornal que o serve —, agora o sujeito roi um osso bem duro para repetir a façanha. Duvido que haja assunto mais debatido no Estado esta semana do que a pesquisa que o mostra dez pontos percentuais atrás da candidata petista. Poderíamos desprezar tal pesquisa se houvesse sido publicada no Diário do Pará, mas o que estarrece é a resignação de O Liberal em publicar intenções de voto contra seus interesses, e ainda por cima subscritos pelo IBOPE, que nestas paragens sempre endossaram o grupo político ora no poder.
O ex-bi tem sido menosprezado por sua idade (74), o que considero sórdido — não por ele, mas pelo menosprezo que denota pelos idosos em geral, os quais deveriam ser poupados dessa ignomínia. O fato é que se o sujeito não se eleger agora, não o fará mais, pois duvido que enfrentasse nova maratona com mais quatro anos e um bilhão de cigarros no costado, além de já ter perdido a máquina estatal que o beneficia — segundo todos, menos a Justiça Eleitoral, daqui até Brasília.
Quem sabe ele tentasse a prefeitura, daqui a dois anos, mas duvido que aceitasse o que provavelmente lhe pareceria um rebaixamento ou prêmio de consolação.
A coisa não ficaria nada boa para o seu partido, que não tem outros nomes a oferecer, exceto quem sabe aquele carequinha de cavanhaque, que gosta de um banquinho e um violão, e que com sua fala mansa ensaiada sempre alega estar pronto a fazer o que for melhor não para ele, e sim para o povo.
O jeito seria fabricar um novo líder, como a todo momento se faz na República das Bananas. Collor foi o melhor exemplo. Por estas bandas, as tentativas costumam malograr, vide os Zenaldos e Priantes da vida. Mas não faltarão voluntários para entrar numa máquina (de marketing). Entrar um zé ninguém e sair um estadista.

A tal biografia

Lula muitas vezes aludiu a sua biografia. A necessidade de preservá-la era um dos seus motivos para fazer um bom governo. Entretanto, ele não fez um governo sequer razoável e os escândalos que pululam ao seu redor já são o bastante para enxovalhar qualquer biografia.
Daí resulta que ele não tem escolha: ou ganha a eleição e retorna à presidência julgado e absolvido pelo povo — absolvido por insuficiência probatória e não por certeza da inexistência do crime ou de seu não envolvimento —, argumento que invocará à exaustão, como fazem todos os políticos populistas com senões mal esclarecidos em seus currículos, ou perde e vai para o limbo dos desgraçados.
Se perder, será lembrado somente como o presidente que representou a mais elevada esperança do povo e, ao traí-la, tornou-se a maior das decepções. Seu governo será lembrado apenas pelos escândalos. Seu partido será conhecido apenas como uma organização criminosa. Sua falta de vontade de estudar, seu gosto por falar bobagens, os gastos excessivos do governo, o não cumprimento de promessas de campanha e metas administrativas, a pouca capacidade para lidar com questões técnicas e, acima de tudo, a mística de mentiroso contumaz, leniente contumaz e useiro em subestimar a inteligência alheia tornará muito difícil que volte a se eleger para um cargo majoritário.
Como ele mesmo disse, todos podiam falhar: ele não. Concordo. Por isso, os Malufs, Barbalhos e Collors da vida sempre acabam voltando. Ele, porém, não voltaria.

Revisto em 5.9.2011
Eu estava com muita raiva de Lula quando escrevi esta. Mesmo que os problemas diagnosticados no texto sejam uma realidade que não se pode minimizar, dizer que ele não fez um governo "sequer razoável" é uma asneira. Tribute isso ao meu ódio com a carga tributária e o protecionismo aos aliados envolvidos em escândalos. Mas a Era Lula trouxe muito de positivo ao país. Para não citar o exemplo chavão dos programas de distribuição de renda, cito a expansão do acesso ao ensino superior, o que me toca mais de perto.
Enfim, esta postagem não foi racional. Foi só raivosa, mesmo.

sábado, 14 de outubro de 2006

Dica político-cultural utilíssima

Deem uma passadinha no blog do amigo Barreto, que mudou de nome e acabou me enganando, e leiam algumas postagens que ele fez com base em matérias publicadas em âmbito nacional nos tempos do governo FHC. Vejam quais eram os assuntos palpitantes daquela época, para medir o grau de sinceridade e confiabilidade dos atuais baluartes da... como é? Decência.
Para arrematar, visitem o blog do Pedro Nelito e procurem a postagem "Partido de todos os santos?!" Simplesmente perfeito.

Quanto valor damos à cultura local?

Navegando pelo site da UFPA por razões outras, deparei-me com a enquete aqui reproduzida. Já tendo dado destaque ao Auto do Círio em duas ocasiões, lamentando as funestas circunstâncias que conduziram ao seu cancelamento, não poderia deixar de manifestar minha opinião.
Devo dizer, de saída, que a página da nossa querida universidade, em matéria de ergonomia e funcionalidade, é péssima, pois não achei nenhum link para a dita enquete, ou seja, não pude votar, muito menos conhecer maiores informações, tais como o número de votantes, sem o que qualquer comentário perde um pouco de sua força. Mas vamos lá, assim mesmo.
Se 69,6% dos votantes — a esmagadora maioria — jamais viu o Auto, podemos deduzir que não há interesse em conhecê-lo, manifestação artística que é. Não pode ser desinformação, pura e simples, já que ele existe há quase duas décadas e que a divulgação é boa, com chamadas inclusive no horário nobre da TV. Se sabemos que o espetáculo existe, por que não vamos apreciá-lo? Qualquer explicação certamente recairá na mesma conclusão: não me movimento por aquilo que não me interessa. A arte popular não seduz il populo. Que incoerência!
Por outro lado, 12,4% dos votantes já assistiram quatro vezes ou mais. Conclusão: trata-se do público fiel, que viu, gostou e passou a ir todos os anos. Não à toa, sempre vemos as mesmas caras... Espero que estes tenham a que assistir, no próximo ano.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Talvez vocês gostem de saber

que pesquisas sérias relatadas pela revista Mundo Estranho deste mês indicam que a masturbação, tabu clássico, cada vez mais é reabilitada. Cinco aspectos positivos são apontados:

1. Produz os mesmos efeitos do sexo propriamente dito, tais como melhora da qualidade do sono e do ritmo cardíaco, além de estímulo ao sistema imunológico. Pesquisadores australianos afirmam que quanto mais um homem ejacula, menores são os riscos de câncer de próstata.

2. Melhora do humor, devido à produção de neurotransmissores ligados à sensação de prazer e bem-estar. Isso diminui o nervosismo e o estresse, havendo quem acredite que previna a depressão. A masturbação, assim, pode ser especialmente útil antes de um encontro.

3. A intimidade com o próprio corpo facilita as experiências sexuais a dois. O indivíduo passa a conhecer seu corpo, o orgasmo e desmistifica o sexo.

4. É o único tipo de sexo seguro, pois não gera riscos quanto a doenças sexualmente transmissíveis, muito menos gravidez. Para os iniciantes, é uma boa ocasião para se acostumar com a colocação da camisinha.

5. Diminui poluções noturnas e ereções fora de hora.

Como nem tudo poderiam ser flores, há um perigo: a possibilidade de a pessoa ficar compulsiva. Com isso, começa a abdicar de coisas em favor da masturbação. Aí o jeito é fazer terapia. O excesso também pode provocar lesões na pele, ardência na uretra e cansaço.
As informações acima estão muito focadas no sexo masculino mas, guardadas as devidas proporções, são úteis também para as mulheres. Façam bom uso delas.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Imagens da semana


A Folha publica, semanalmente, imagens extraídas de suas reportagens e faz uma votação entre seus leitores virtuais, para seleção das melhores. Hoje, das sete imagens selecionadas, as três aí ao lado foram as três mais bem votadas. Até as 19h30, quando fiz esta postagem, 689 leitores haviam votado e o resultado era esse:

1º Filha de membro do Hizbollah chora a morte do pai, 234 votos (34%)

2º Superfície de Saturno fotografada pela sonda espacial Cassino, 205 votos (30%)

3º Procissão do último Círio de Nazaré, 109 votos, inclusive o meu (16%).

Belas imagens, sem dúvida, mas parece que o povo ainda tem preferência pelo lado mórbido da vida. Eu, que normalmente sou mórbido, preferi a fé.

Briga de comadres

A imprensa, inclusive a oficial da tucanalha, tem noticiado o desentendimento entre o sedizente Prefeito de Belém, delegado local da corporação que "administra" o Estado há doze anos, e a Câmara Municipal. Bem feito!
Edmilson Rodrigues jamais teve maioria na Câmara e isso lhe custou toda sorte de dissabores. Já o intelectual-escritor tem maioria e um membro de seu partido na presidência da casa. E nem assim a turma se entende. Isso só pode significar que os acordos firmados entre si — e não em vista do interesse público — não têm sido cumpridos.
O Executivo deve respeitar o Legislativo. Isso é tão verdade quanto que o Legislativo deve se dar ao respeito. Trabalhei na Câmara por três anos e meio e por isso sei do que falo. Vejam os exemplos:

1. Os vereadores tinham chiliques porque Edmilson batizava ruas e praças por conta própria, quando a Lei Orgânica do Município determina que a toponomástica local somente pode ser resolvida pelo Legislativo. Mas o governador, que nem é autoridade municipal, mandou construir a Av. Brigadeiro Protásio e o nome foi aceito sem que ninguém tugisse nem mugisse.

2. A Lei Orgânica também veda que logradouros públicos recebam nomes de pessoas vivas. Mas assisti no plenário à votação em que a Rodovia Mário Covas ganhou esse nome, com o homenageado vivo, embora nas últimas, e todo mundo mandando omitir aquela vedação legal.

3. Os edis exsudavam sangue porque Edmilson pintava tudo de vermelho. Hoje a cidade está toda laranja e a meninada, calada. Devem ter gostado da cor.

4. Os briosos fiscais exigiam que Edmilson justificasse, minuto a minuto, o que fizera durante suas (poucas) viagens, especialmente as internacionais. Ainda não vi ninguém cobrar do atual um relatório de sua permanência fora, especialmente em Brasília, de onde o moçoilo parece sentir permanente saudade.

5. Por que a Câmara não se pronunciou oficiamente sobre a trapalhada jurídica que foi a compra do Hospital Sírio Libanês, ruinosa para os cofres públicos e que não contribuiu em nada para a melhoria da saúde em nossa cidade, e que é objeto de ação perante a Justiça Federal?

6. Por que não se manifestou, também, sobre a ação de improbidade administrativa fartamente fundamentada em fatos e documentos, que o Ministério Público Federal aforou recentemente?

E não adianta dizer que a composição do parlamento mudou. Muitas figurinhas são as mesmas do meu tempo e, dentre as que mudaram, foi seis por meia dúzia. É por isso que digo: respeito é para quem tem.

Curiosidades dos anos 1600 a 1700

Circula pela Internet e, para mim, chegou através do amigo e aluno Vilson Schuber o texto abaixo, comentando curiosidades de tempos idos, pelas quais sou alucinado, principalmente quando explicam a origem de expressões ou costumes populares. Algumas informações são reconhecidas como verdadeiras, outras não, mas são explicações plausíveis e deliciosas. Quem tiver mais coisas do gênero, por favor me envie.

Ao se visitar o Palácio de Versailles, em Paris, observa-se que o suntuoso palácio não tem banheiros. Na Idade Média, não existiam dentifrícios ou escovas de dente, perfumes, desodorantes, muitos menos papel higiênico. As excrescências humanas eram despejadas pelas janelas do palácio.
Em dia de festa, a cozinha do palácio conseguia preparar banquete para 1.500 pessoas, sem a mínima higiene. Vemos, nos filmes de hoje, as pessoas sendo abanadas. A explicação não está no calor, mas no mau cheiro que exalavam por debaixo das saias (que propositadamente eram feitas para conter o odor das partes íntimas, já que não havia higiene). Também não havia o costume de se tomar banho devido ao frio e à quase inexistência de água encanada. O mau cheiro era dissipado pelo abanador. Só os nobres tinham lacaios para abaná-los, para dissipar o mau cheiro que o corpo e a boca exalavam, além de, também, espantar os insetos.
Quem já esteve em Versailles muito admirou os jardins enormes e belos que, na época, não eram só contemplados, mas "usados" como vaso sanitário nas famosas baladas promovidas pela monarquia, porque não existia banheiro.
Na Idade Média, a maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (para eles, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. Entretanto, como alguns odores já começavam a incomodar, as noivas carregavam buquês de flores, junto ao corpo, para disfarçar o mau cheiro. Daí termos maio como o "mês das noivas" e a origem do buquê de noiva explicada.
Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível "perder" um bebê lá dentro. É por isso que existe a expressão em inglês "don't throw the baby out with the bath water", ou seja, literalmente, "não jogue fora o bebê junto com a água do banho", que hoje usamos para os mais apressadinhos.
O telhado das casas não tinha forro e as vigas de madeira que os sustentavam era o melhor lugar para os animais - cães, gatos, ratos e besouros se aquecerem. Quando chovia, as goteiras forçavam os animais a pularem para o chão. Assim, a expressão "está chovendo canivete" tem o seu equivalente em inglês em "it's raining cats and dogs" (está chovendo gatos e cachorros).
Aqueles que tinham dinheiro possuíam pratos de estanho. Certos tipos de alimento oxidavam o material, fazendo com que muita gente morresse envenenada (lembremo-nos de que os hábitos higiênicos, da época, eram péssimos). Os tomates, sendo ácidos, foram considerados, durante muito tempo, venenosos. Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque. Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia, induzida pela mistura da bebida alcoólica com óxido de estanho).
Alguém que passasse pela rua poderia pensar que ele estivesse morto e, assim, recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era, então, colocado sobre a mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava em volta, em vigília, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí surgiu o velório, que é a vigília junto ao caixão.
A Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia espaço parase enterrarem todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos retirados e postos em ossários e o túmulo utilizado para outro cadáver. Às vezes, ao abrirem os caixões, percebia-se que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo. Surgiu, assim, a ideia de, ao se fechar o caixão, amarrar uma tira no pulso do defunto, passá-la por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo, durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria "saved by the bell", ou "salvo pelo gongo", expressão usada por nós até os dias de hoje.

Tem lá a sua lógica


Caríssimos, forças ocultas me impedem momentaneamente de dar atenção ao blog. É circunstancial. Enquanto isso, fiquem com um pouco de filosofia sobre a alma humana.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Acostumados


E já que falamos do retorno à campanha eleitoral, só mais um pouco de inspiração.
Estou convicto de que eles se esforçam.

Réu primário

Novamente graças à colaboração do amigo Jesiel Lopes, segue o texto abaixo, atribuído a Luís Fernando Veríssimo, mas sabemos que vivem atribuindo falsamente a autoria dessas coisas a nomes famosos. Provenha de onde provier, contudo, é um retrato fidedigno do Brasil, para meditarmos nesta semana de retorno da propaganda eleitoral.

Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia.

Delegado — Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!

Ladrão — Não era para mim, não. Era para vender.

Delegado — Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!

Ladrão — Mas eu vendia mais caro.

Delegado — Mais caro?

Ladrão — Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas, não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.

Delegado — Mas eram as mesmas galinhas, safado!

Ladrão — Os ovos das minhas eu pintava.

Delegado — Que grande pilantra! (Mas já havia um certo respeito no tom do delegado) Ainda bem que tu vais preso. Se o dono do galinheiro te pega...

Ladrão — Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.

Delegado — E o que você faz com o lucro do seu negócio?

Ladrão — Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.




O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:

Delegado — Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?

Ladrão — Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.

Delegado — E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?

Ladrão — Às vezes. Sabe como é.

Delegado — Não sei não, excelência. Me explique.

Ladrão — É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.

Delegado — O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso, não!

Ladrão — Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!

Delegado — Sim. Mas é réu primário e com esses antecedentes...

domingo, 8 de outubro de 2006

Ponto dê

Convencido de que não existe nenhuma página da Internet com informações detalhadas, de boa qualidade e não tendenciosas sobre Belém, feitas em nível local, cerca de três anos atrás fiz uma consulta Google afora à caça de um site, ao menos um sitezinho, cujo conteúdo merecesse respeito. Encontrei. O melhor endereço da Internet era, e acho que continua a ser, http://www.belemdopara.de/
Para degustar o conteúdo, você só precisa ser fluente em alemão. Preste atenção que a terminação "de" vem de Deutschland, o nome da Alemanha em seu próprio idioma. Confirma-se, assim, uma dura realidade: os estrangeiros, quando querem, sabem muito mais sobre o Brasil do que os brasileiros em geral. Mas isso nem é o pior. O pior é que os estrangeiros se interessam muito mais pelo Brasil, sua gente, sua cultura, sua religiosidade e outros aspectos, do que os próprios nacionais.
Estrangeiros adoram a nossa diversidade religiosa. Brasileiros desprezam tudo que não seja católico e evangélico.
Estrangeiros se deleitam com nossas folhas, frutos e raízes. Brasileiros já gostam, por influência externa.
Estrangeiros ficam fascinados com os costumes indígenas ou com elementos rupestres. Brasileiros acham tudo isso besteira. E por aí vai.
Passeie pelo site e tire suas conclusões. Mesmo sem entender o texto, verá o grau de detalhamento. E, sinceramente, não é assustador pensar no quanto os outros sabem a nosso respeito que nós mesmos não sabemos? Pense em ciência e tecnologia, especialmente exploração de potencial ambiental.
Por aqui, quando podemos fazer, não fazemos. O amadorismo é crônico.

sábado, 7 de outubro de 2006

Para que servem as ruas?



Há alguma necessidade de palavras?

O que incomoda, de verdade?

Como diria Juvêncio de Arruda, a coluna Seventy, do maior jornal do mundo (não disse que um dia ia imitar? mas respeitei a autoria!), noticiou hoje o seguinte:

Membro da Igreja Universal volta novamente a meter a colher na devoção dos paraenses. Dizia ele ontem que a fé na Virgem Maria, que classificou de 'idolatria', é 'o maior câncer do Pará', e atribuiu a isso o fato de o Estado ser cheio de riquezas, mas 'com um povo pobre'. Ora, tão pobre, mas cheio de catedrais ricas da Igreja Universal.

Gostaria de saber o que tanto perturba os evangélicos, em especial os dessas igrejas surgidas de uns anos para cá, na devoção da maior parte dos paraenses a Nossa Senhora de Nazaré. Porque, se ninguém me responder, vou achar que é por causa do potencial de arrecadação que um maior número de fieis proporcionaria.
Há complicações no trânsito, as pessoas deixam de trabalhar, abre-se campo para a Igreja Católica reafirmar o seu poderio sobre a espécie humana, etc. Concordo que o Círio produza efeitos capazes de irritar muita gente. Mas não posso aceitar que, num mundo cada vez mais cruel, não se deva ser grato — a Deus ou a quem se queira — pela oportunidade de ver todo um povo unido em oração, por um mundo melhor.
Digo isso pensando nas pessoas que se entregam ao Círio de coração aberto. Sempre vejo as reportagens em que se entrevistam populares — gente de verdade, que quer dar sua mensagem e não desfilar em colunas sociais ou arrebanhar votos. Suas declarações são sempre emocionadas, plenas de gratidão e esperança — a única esperança que não nos trai.
Não comungo da fé católica. Mas acho maravilhosa a capacidade de ter fé e transformá-la em ações concretas, por nós mesmos e por cada um daqueles que, assim, passamos a reconhecer como nossos irmãos.
De novo, um feliz Círio a todos.

Dia comum, dia especial...


Ainda que seu dia tenha começado meio assim, deixe o clima ímpar do Círio — com sua capacidade de irmanar pessoas normalmente indiferentes umas às outras — tocar seu coração. É só amanhã, mas a cidade já está totalmente imersa nele. E o bem deve ser desejado todos os dias.
Um maravilhoso Círio para todos!

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

O cortejo fúnebre do Círio

Dias atrás postei sobre as causas que conduziram ao cancelamento do Auto do Círio, que deveria percorrer as ruas da Cidade Velha hoje à noite. A Inês já estava morta, mesmo, e o espetáculo não ocorrerá por falta de patrocínio.
Os artistas, que deveriam prestar a homenagem a N. Sra. de Nazaré, contudo, não desistiram de todo. Desde o anúncio oficial do cancelamento do evento, já foram realizados alguns protestos, sob a forma de velórios do auto e, por extensão, da cultura popular em nossa cidade. Esta noite haverá mais um desses velórios, contando com um cortejo pelo trajeto que deveria ser seguido. Mas não é só: a TV Cultura promoverá hoje, na Praça do Carmo, ponto de partida do cortejo, o lançamento de um vídeo de 17 minutos chamado Olhares sobre o Auto, de autoria da jornalista Luana Lima — que, é bom que se diga, é carioca.
O vídeo ajudará a lembrar que o Auto do Círio foi declarado patrimônio imaterial da Humanidade, assim como o próprio Círio, de modo que competia ao poder público assegurar a sua existência, sem jamais haver solução de continuidade. Mas isso se o Brasil fosse um país sério. Ou o Pará. Ou Belém.
Infelizmente, o Brasil não tem presidente. O Estado não tem governador e Belém, então, nem sabe mais o que é ter prefeito.

O aniversariante de hoje faz 140 anos

[A internet contra mim. Fiz diversas tentativas, desde hoje cedo, de postar, mas a minha rede ou o Blogger não cooperaram. Parece que agora vai dar.]

Ontem prestei homenagem à Constituição brasileira. O aniversariante de hoje é o Museu Paraense Emilio Goeldi que, de tão entranhado em nossa vida, sempre foi chamado, apenas de “Museu”.
Para a maioria das pessoas, o Museu é apenas uma referência de lazer — um zoológico, um oásis de clima mais ameno e de verde no meio de uma cidade que cresce desordenadamente. Todavia, muito além disso, ele é uma instituição científica de renome internacional. Nem ouso expor a relevância de suas pesquisas. Em vez disso, sugiro que você vá diretamente ao site institucional e veja por si mesmo.
Como era de se esperar, o Museu padece do desprezo histórico que nossos governantes têm pela ciência e tecnologia, pois a educação do povo lhes suprimiria os votos que sempre elegem gente dessa laia. Mas brasileiro não desiste nunca e assim prosseguem nossos cientistas, contra tudo e todos. Essa dificuldade talvez torne as conquistas ainda mais meritórias.
Por isso, minhas melhores homenagens ao Museu, seus cientistas, bolsistas, funcionários e todos nós que o amamos. Vida longa ao Museu!

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Pérolas de sabedoria

Sou simplesmente alucinado por cultura geral, por coisas inúteis, porém divertidas, que você nunca sabe quando ou mesmo se utilizará algum dia. Meu amigo Jesiel Lopes me encaminhou um e-mail contendo a explicação de aforismos populares, que todos usamos em geral sem perceber que não fazem o menor sentido, verdadeiros virunduns da linguagem cotidiana. É interessantíssimo como, após a explicação, passam a fazer todo o sentido.

CORRIGINDO OS DITOS POPULARES
Diz-se: "Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão..."
Enquanto o correto é: "Batatinha quando nasce, espalha rama pelo chão..."
No popular, se diz: "Cor de burro quando foge."
O correto é: "Corro de burro quando foge!"
Pensando bem, "cor de burro quando foge" nunca significou nada. Eu achava que tinha relação com a aparência das coisas, com algo estranho ou incomum. O original sugere que devemos ser prudentes.

Outro que no popular todo mundo erra: "Quem tem boca vai a Roma."
O correto é: "Quem tem boca vaia Roma."
Raciocine comigo: qual a relação da boca com uma viagem a Roma? Mas o original é claro: o Império Romando era odiado por todos que dele não se beneficiassem. Logo, quem pudesse manifestar-se, mostraria o seu desprezo por ele.

E ainda: "É a cara do pai escarrado e cuspido."O correto é: "É a cara do pai em Carrara esculpido."
O sentido de indicar uma semelhança extrema entre duas pessoas foi preservado, mas o original tem classe, aludindo à antiga arte da escultura no mais delicado dos mármores. Eu conhecia uma outra versão, segundo a qual a expressão original seria "esculpido e encarnado", numa alusão à estátua de Davi que, de tão perfeita, teria arrancado do próprio autor, Michelangelo Buonarroti, uma súplica para que falasse: "Parla!!" Esta seria a origem de outra expressão famosa: "Só falta falar", para indicar uma criação que, de tão perfeita, parece viva.

Mais um famoso: "Quem não tem cão, caça com gato."
O correto é: "Quem não tem cão, caça como gato." (entenda-se: sozinho)

Quem souber me explicar a origem de expressões populares, idiomáticas e gírias me fará um ser humano absolutamente feliz, compartilhando a informação comigo.

Minuto de silêncio

Atribui-se ao escritor Victor Hugo a afirmação poética de que circunstâncias há em que, qualquer que seja a posição do corpo, a alma está de joelhos.

Hoje, às 17 horas, minha alma genuflexa se unirá em silêncio e oração, honrando a memória das 154 vítimas do voo 1907 da Gol (a exclusão de um nome em duplicidade reduziu o número de vítimas, graças a Deus). Desde o momento em que soube da tragédia tenho estado contrito, torcendo pelas famílias, para que consigam enfrentar este momento de dor. Que Deus abençoe os que partiram e os que ficaram.

E dê juízo a certos sobreviventes do Legacy, que andam dizendo muita besteira por aí. Americanos...

Pelo menos, a Excelaire, empresa americana proprietária do Legacy, manifestou-se oficialmente, dizendo confiar nas autoridades que presidem a investigação. Menos mal.

Postagem atualizada em 6.10.2006, às 20h02.