O que lhe vem à mente diante de uma paisagem como esta?
Imagine um local que, pouco conhecido entre as grandes rotas turísticas, ainda é pacato e limpo, caracterizado por quilômetros de praias desertas e de mar calmo. Essa quietude decorre do fato de ter um acesso um pouco difícil.
Um lugar onde raramente chove, por isso você pode contar com esse céu de azul exuberante, calor e vento forte durante o ano inteiro.
Situado numa península a 160 quilômetros da capital do Estado a que pertence, esse pequeno paraíso tem apenas 2.264 habitantes, que vivem basicamente da pesca e da extração de sal, que é exportado para todo o mundo. Com poucas opções ao visitante, você pode fazer passeios de barco, cavalgar ou caminhar pelas dunas que, devido ao vento intenso, modificam-se sem parar.
Nesta segunda imagem, o bucolismo da principal construção humana do local: o farol. Ao lado, carroças puxadas por jumentos, que são o principal meio de transporte ("jumento-táxi"). Mas não se engane: o destino já foi encontrado pelos praticantes de esportes como kitesurf, sand board e mergulho com snorkel, que lotam os hoteis e pousadas no verão. Recomenda-se reservar com antecedência. Recomenda-se, também, proteção especial contra a salinidade excessiva. Certos objetos devem ser embalados com filmes plásticos.
Esta é mais uma postagem da linha teste seus conhecimentos. O lugar aqui descrito tornou-se Município no ano de 1963 e seu nome se originou em uma espécie de peixe muito comum na península.
De onde estamos falando?
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Deixa ela entrar
Um dia, folheando a esmo uma dessas revistas semanais, topei, na seção de entretenimento, com elogios ao filme sueco Deixa ela entrar (Låt den Rätte Komma In, dir. Tomas Alfredson, 2008, baseado no livro de John Ajvide Lindqvist, que roteirizou o filme). Sim, o título em português é assim mesmo, inadmissível. Mas me chamou a atenção a crítica entusiasmada ao inusitado filme de vampiro, que recebeu seis indicações a melhor filme em festivais de cinema, vencendo duas, inclusive o do respeitado Festival de Tribeca.
A história se passa num subúrbio de Estocolmo, em 1982. Oskar (Kåre Hedebrant) é um menino de 12 anos ("oito meses e nove dias") com problemas de adaptação até onde se sabe rotineiros nessa quadra da vida. Para seu azar, foi eleito o saco de pancadas de um típico babaca de escola, Conny, que anda sempre com dois outros babacas a seu serviço. Não revela a ninguém o bullying que sofre, mas ensaia com um canivete a vingança que provavelmente jamais consumará. Sua vida, contudo, começa a mudar com a chegada de Eli (Lena Leandersson), uma menina da mesma idade que se muda para o apartamento ao lado, parede com parede. Vive apenas com um homem que se presume ser seu pai, no apartamento cujas janelas são vedadas para não entrar luz solar. É quando começam a acontecer assassinatos, nos quais as vítimas são sangradas e o sangue, levado.
Oskar e Eli se encontram sempre à noite, num parque em frente ao prédio onde moram. Após um primeiro contato onde os dois agem com infantil hostilidade, bem comum na idade, vão se aproximando a ponto de passarem a considerar o relacionamento como um namoro. Há claras insinuações de que o sexo está se entranhando na mente do garoto. Mas há questões muito graves com que lidar, relacionadas à sobrevivência de ambos. E um acabará ajudando o outro em suas respectivas necessidades.
É interessante como o filme foi apresentado como pertencendo ao gênero terror. Sou leigo, mas discordo. Para mim, é um drama, que desenvolve seus personagens a partir de premissas próprias do terror. Mas quem assistir esperando as características próprias dos filmes de terror (mesmo os filmes europeus, mais psicológicos e menos sanguinolentos), há de se decepcionar. Sim, você verá mortes, pescoços sendo sugados, incidentes grotescos, uma criatura escalando paredes e até mesmo elementos clássicos da mitologia vampírica (a ojeriza à luz solar e a necessidade de ser convidado para entrar na casa alheia, o que remete ao título do filme), mas se suprimíssemos qualquer elemento fantástico é muito possível que pudéssemos contar a história dos adolescentes, notadamente de Oskar, perdendo a sua inocência e se tornando algo que mete medo de verdade, porque se não com vampiros, podemos topar com gente assim na vida real.
Deixa ela entrar é uma obra interessantíssima. Possui um ritmo europeu (muito mais lento do que o americano, porque menos comercial, chega a incomodar um pouco na primeira meia hora), mas defende um roteiro coerente, bem amarrado quanto ao desenvolvimento dos protagonistas, com personagens cativantes (a seu modo, claro), aliado a nuanças delicadas, bonitas até.
Filio-me à corrente segundo a qual os vampiros são os monstros mais fascinantes que existem. Não é à toa que a literatura e o cinema estão repletos deles. São temas que volta e meia ressurgem. Desgraçadamente nem sempre com o requinte de um Entrevista com o vampiro (dir. Neil Jordan, EUA, 1994), podendo descambar para a mais absoluta babaquarice, como a patética série ("saga" é demais!) Crepúsculo, onde os vampiros são reduzidos a personagens de uma inconvincente estorinha de amor e uma criatura morta é capaz de gerar um filho, deslumbrando apenas o mundo teen GLS. Por isso, Deixa ela entrar é um alento, recuperando a condição dos vampiros como metáforas da maldade que já existe dentro dos seres humanos, esperando apenas uma oportunidade para eclodir.
Assista.
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| O fantasmagórico Oskar na verdade é humano. |
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| Eli numa cena relacionada ao título do filme. |
É interessante como o filme foi apresentado como pertencendo ao gênero terror. Sou leigo, mas discordo. Para mim, é um drama, que desenvolve seus personagens a partir de premissas próprias do terror. Mas quem assistir esperando as características próprias dos filmes de terror (mesmo os filmes europeus, mais psicológicos e menos sanguinolentos), há de se decepcionar. Sim, você verá mortes, pescoços sendo sugados, incidentes grotescos, uma criatura escalando paredes e até mesmo elementos clássicos da mitologia vampírica (a ojeriza à luz solar e a necessidade de ser convidado para entrar na casa alheia, o que remete ao título do filme), mas se suprimíssemos qualquer elemento fantástico é muito possível que pudéssemos contar a história dos adolescentes, notadamente de Oskar, perdendo a sua inocência e se tornando algo que mete medo de verdade, porque se não com vampiros, podemos topar com gente assim na vida real.
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| Vampiros e luz solar não combinam. |
Filio-me à corrente segundo a qual os vampiros são os monstros mais fascinantes que existem. Não é à toa que a literatura e o cinema estão repletos deles. São temas que volta e meia ressurgem. Desgraçadamente nem sempre com o requinte de um Entrevista com o vampiro (dir. Neil Jordan, EUA, 1994), podendo descambar para a mais absoluta babaquarice, como a patética série ("saga" é demais!) Crepúsculo, onde os vampiros são reduzidos a personagens de uma inconvincente estorinha de amor e uma criatura morta é capaz de gerar um filho, deslumbrando apenas o mundo teen GLS. Por isso, Deixa ela entrar é um alento, recuperando a condição dos vampiros como metáforas da maldade que já existe dentro dos seres humanos, esperando apenas uma oportunidade para eclodir.
Assista.
domingo, 7 de novembro de 2010
Meu Brasil brasileiro
O Brasil e o Rio de Janeiro continuam lindos.
Imagine se você, num dia qualquer, caminhasse normalmente para sua casa, como sempre faz, e fosse parado por policiais dizendo que só pode passar se apresentar um comprovante de residência. Apresentar um documento para ter acesso à própria residência! Surreal? Mas é o que está acontecendo na capital carioca, por conta das filmagens de mais uma edição da babaquíssima saga dos vampiros emos Crepúsculo.
Brasileiro não aprende. É só vir um sujeitinho de fora, principalmente se falar inglês, e pode fazer de tudo aqui dentro. Porque é bom para o turismo, para a arrecadação tributária, para a autoestima do carioca e blá blá blá. Nem faz muito tempo que Sylvester Stallone, com aquele jeitão retardado dele e com a cara deformada por cirurgias plásticas, esculhambou geral os brasileiros e já estamos aqui, de novo, abrindo as pernas para mais uma equipe de cinema de quinta, mas americana. Hollywood, sabe como é.
Azar o de quem mora na Lapa. Mas sorte daquela legião de debiloides gritando sem parar na frente do hotel. Ganharam até reportagem do Fantástico, a sua revista eletrônica semanal que sempre oferece matérias instigantes. Como essa.
Se fosse no Pará, era porque aqui só tem índio...
Imagine se você, num dia qualquer, caminhasse normalmente para sua casa, como sempre faz, e fosse parado por policiais dizendo que só pode passar se apresentar um comprovante de residência. Apresentar um documento para ter acesso à própria residência! Surreal? Mas é o que está acontecendo na capital carioca, por conta das filmagens de mais uma edição da babaquíssima saga dos vampiros emos Crepúsculo.
Brasileiro não aprende. É só vir um sujeitinho de fora, principalmente se falar inglês, e pode fazer de tudo aqui dentro. Porque é bom para o turismo, para a arrecadação tributária, para a autoestima do carioca e blá blá blá. Nem faz muito tempo que Sylvester Stallone, com aquele jeitão retardado dele e com a cara deformada por cirurgias plásticas, esculhambou geral os brasileiros e já estamos aqui, de novo, abrindo as pernas para mais uma equipe de cinema de quinta, mas americana. Hollywood, sabe como é.
Azar o de quem mora na Lapa. Mas sorte daquela legião de debiloides gritando sem parar na frente do hotel. Ganharam até reportagem do Fantástico, a sua revista eletrônica semanal que sempre oferece matérias instigantes. Como essa.
Se fosse no Pará, era porque aqui só tem índio...
Linchamentos no Pará
Aprendi num livro jurídico que a palavra linchamento se originou em uma pessoa: William Lynch (1742-1820), um militar americano que aplicava tal prática durante a guerra de independência dos Estados Unidos, por volta da década de 1780. E com a Língua Portuguesa aprendi que linchar significa matar por espancamento, de modo que só se pode falar em linchamento se a vítima morrer. Estas informações, hoje, estão disponíveis na Internet, para quem souber procurar ou topar com elas durante uma navegação qualquer.
O linchamento é um tema inquietante para mim, que sou naturalmente avesso à violência. A própria expressão "fazer justiça com as próprias mãos" me enoja. O que se faz com as próprias mãos destoa de qualquer concepção de justiça que minha racionalidade admita. Talvez esse sentimento seja influenciado pelo fato de, ainda criança, ter visto um homem morto, encostado a um poste perto de minha casa, após uma suposta tentativa de estupro. No dia seguinte, as manchas de sangue permaneciam lá. Seja como for, mesmo sem ter essa lembrança, nenhum caminho me teria levado a ser condescendente com tamanha brutalidade, mesmo sabendo que, a meu redor, uma quantidade extraordinária de pessoas, de absolutamente todos os matizes, apoia ostensivamente a barbárie. Com o incessante incremento da violência ao nosso redor, nos últimos anos, os linchamentos se tornaram mais comuns e ganharam mais defensores. E praticantes.
Por isso, achei relevante que o Diário do Pará de hoje abordasse esse assunto, conferindo-lhe o status de manchete principal. Infelizmente, a reportagem em si era superficial, embora deixasse entrever uma necessária reprovação. Apesar de ocupar duas páginas inteiras do primeiro caderno, limitava-se a descrever um caso ocorrido no Município de Curuçá há seis meses, que acabou ganhando o mundo virtual (hoje em dia qualquer um pode fotografar e filmar em formatos digitais) e chamou a atenção de imprensa policial local. Mencionou uma ou outra pessoa entrevistada, para demonstrar como as pessoas estão permissivas com a truculência. E apesar de ter citado a existência de estudos acadêmicos, não seguiu essa que seria uma abordagem preciosa, restringindo-se à menção de uns poucos dados estatísticos. A parte mais interessante da matéria era a lúcida manifestação do sociólogo Mário Brasil. Mas também gostei de ver um delegado de polícia, Silvio Maués, explicando como o linchamento põe em risco toda a sociedade.
Sintomático é que, ainda na capa, o jornalista incorra num erro habitual, ao afirmar que "Ausência da segurança pública e da Justiça movem cidadãos de bem a praticar cada vez mais barbáries". Para mim, num mundo cada vez mais cheio de ideias preconcebidas arraigadas no imaginário popular, e o mais das vezes ideias toscas, um dos fatores que leva pessoas até então pacatas a participar de atos de selvageria é essa compreensão de que, no linchamento, a vítima merece ser justiçada e que seus algozes são, na verdade, prejudicados que apenas reagem, ocupando espaços abandonados pelos poderes públicos. Facilita muito, no processo de rompimento dos limites de uma pessoa, acreditar que está do lado do bem. Se ela pensasse estar fazendo algo errado, não agiria; mas por acreditar que suas ações são legítimas, úteis e até necessárias, pega em armas. Não se vê como um criminoso, mas quase como um heroi. No mínimo, como um cidadão de bem defendendo os seus direitos.
Quando o linchamento é compreendido na perspectiva de uma solução final dos mocinhos contra os bandidos, não há como tornar claro aquilo que, na verdade, é óbvio: tudo é violência. E sob os mesmos argumentos com que pais de família trucidam ladrões, skinheads trucidam gays e negros e se legitimam organizações como a Ku Klux Klan, que existe até hoje. Não há diferença.
Não sei se o jornalista foi apenas ingênuo ou se, pior, acredita mesmo nessa perigosíssima premissa. Então coloquemos as coisas em termos: um verdadeiro cidadão de bem jamais cometeria um linchamento. Não arredarei pé desta afirmação.
Mas vou concordar que os sentimentos de necessidade, nas pessoas, funcionam como a água: ocupam qualquer espaço que apareça e tomam a forma do recipiente que as contém. Se o poder público abre uma brecha, ela será ocupada.
O linchamento é um tema inquietante para mim, que sou naturalmente avesso à violência. A própria expressão "fazer justiça com as próprias mãos" me enoja. O que se faz com as próprias mãos destoa de qualquer concepção de justiça que minha racionalidade admita. Talvez esse sentimento seja influenciado pelo fato de, ainda criança, ter visto um homem morto, encostado a um poste perto de minha casa, após uma suposta tentativa de estupro. No dia seguinte, as manchas de sangue permaneciam lá. Seja como for, mesmo sem ter essa lembrança, nenhum caminho me teria levado a ser condescendente com tamanha brutalidade, mesmo sabendo que, a meu redor, uma quantidade extraordinária de pessoas, de absolutamente todos os matizes, apoia ostensivamente a barbárie. Com o incessante incremento da violência ao nosso redor, nos últimos anos, os linchamentos se tornaram mais comuns e ganharam mais defensores. E praticantes.
Por isso, achei relevante que o Diário do Pará de hoje abordasse esse assunto, conferindo-lhe o status de manchete principal. Infelizmente, a reportagem em si era superficial, embora deixasse entrever uma necessária reprovação. Apesar de ocupar duas páginas inteiras do primeiro caderno, limitava-se a descrever um caso ocorrido no Município de Curuçá há seis meses, que acabou ganhando o mundo virtual (hoje em dia qualquer um pode fotografar e filmar em formatos digitais) e chamou a atenção de imprensa policial local. Mencionou uma ou outra pessoa entrevistada, para demonstrar como as pessoas estão permissivas com a truculência. E apesar de ter citado a existência de estudos acadêmicos, não seguiu essa que seria uma abordagem preciosa, restringindo-se à menção de uns poucos dados estatísticos. A parte mais interessante da matéria era a lúcida manifestação do sociólogo Mário Brasil. Mas também gostei de ver um delegado de polícia, Silvio Maués, explicando como o linchamento põe em risco toda a sociedade.
Sintomático é que, ainda na capa, o jornalista incorra num erro habitual, ao afirmar que "Ausência da segurança pública e da Justiça movem cidadãos de bem a praticar cada vez mais barbáries". Para mim, num mundo cada vez mais cheio de ideias preconcebidas arraigadas no imaginário popular, e o mais das vezes ideias toscas, um dos fatores que leva pessoas até então pacatas a participar de atos de selvageria é essa compreensão de que, no linchamento, a vítima merece ser justiçada e que seus algozes são, na verdade, prejudicados que apenas reagem, ocupando espaços abandonados pelos poderes públicos. Facilita muito, no processo de rompimento dos limites de uma pessoa, acreditar que está do lado do bem. Se ela pensasse estar fazendo algo errado, não agiria; mas por acreditar que suas ações são legítimas, úteis e até necessárias, pega em armas. Não se vê como um criminoso, mas quase como um heroi. No mínimo, como um cidadão de bem defendendo os seus direitos.
Quando o linchamento é compreendido na perspectiva de uma solução final dos mocinhos contra os bandidos, não há como tornar claro aquilo que, na verdade, é óbvio: tudo é violência. E sob os mesmos argumentos com que pais de família trucidam ladrões, skinheads trucidam gays e negros e se legitimam organizações como a Ku Klux Klan, que existe até hoje. Não há diferença.
Não sei se o jornalista foi apenas ingênuo ou se, pior, acredita mesmo nessa perigosíssima premissa. Então coloquemos as coisas em termos: um verdadeiro cidadão de bem jamais cometeria um linchamento. Não arredarei pé desta afirmação.
Mas vou concordar que os sentimentos de necessidade, nas pessoas, funcionam como a água: ocupam qualquer espaço que apareça e tomam a forma do recipiente que as contém. Se o poder público abre uma brecha, ela será ocupada.
Constatação
Não é a primeira vez que observo isso, mas a postagem anterior demonstra: o povo adora uma saliência!
PS — Para quem desconhece o paraensês, saliente é o indivíduo malicioso e atrevido para assuntos relacionados a sexo.
PS — Para quem desconhece o paraensês, saliente é o indivíduo malicioso e atrevido para assuntos relacionados a sexo.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Princípio da insignificância?!
Eu não pretendia retornar hoje, mas depois do que acabei de ler, precisava compartilhar isto com vocês, extraído do blog Page not found:
Um homem que foi preso por exposição indecente da sua genitália apresentou uma defesa curiosa para evitar o indiciamento: segundo ele, o pênis não é grande o bastante para que ele seja indiciado!
Timothy Scott Clark ficou em apuros depois de baixar a sua calça em um pub na cidade de Toowoomba (Austrália). Várias pessoas tiraram fotos da cena, segundo reportagem do "Courier Mail".
Entretanto, quando policiais chegaram para prender Timothy, ele argumentou que o seu membro não ofende ninguém. Segundo o sujeito, trata-se "apenas um pequeno apêndice".
A polícia ainda está analisando o caso, mas Timothy não escapou de multa por bebedeira e comportamento desordeiro.
Meu Deus do céu, que tese defensória é essa? Princípio da insignificância?!
Peço ajuda aos universitários.
Um homem que foi preso por exposição indecente da sua genitália apresentou uma defesa curiosa para evitar o indiciamento: segundo ele, o pênis não é grande o bastante para que ele seja indiciado!
Timothy Scott Clark ficou em apuros depois de baixar a sua calça em um pub na cidade de Toowoomba (Austrália). Várias pessoas tiraram fotos da cena, segundo reportagem do "Courier Mail".
Entretanto, quando policiais chegaram para prender Timothy, ele argumentou que o seu membro não ofende ninguém. Segundo o sujeito, trata-se "apenas um pequeno apêndice".
A polícia ainda está analisando o caso, mas Timothy não escapou de multa por bebedeira e comportamento desordeiro.
Meu Deus do céu, que tese defensória é essa? Princípio da insignificância?!
Peço ajuda aos universitários.
Futurologia
Um acesso ao sistema de consultas de jurisprudência do site do Supremo Tribunal Federal retornou um resultado curioso. Dê uma olhada na data de julgamento do processo:
15/15/9809.
Daqui a 7.799 anos, o ano terá quinze meses? E mais grave: o ministro Carlos Velloso, aposentado desde 2005, retornará àquela corte mesmo já contabilizando 7.873 anos de idade? A ciência vencerá a morte?
PS — Abstraindo a bobagem, o setor de informática do STF precisa rever o seu banco de dados. Tudo bem, erros acontecem. Mas assim como aconteceu este, pode ocorrer algum outro, mais sério.
15/15/9809.
Daqui a 7.799 anos, o ano terá quinze meses? E mais grave: o ministro Carlos Velloso, aposentado desde 2005, retornará àquela corte mesmo já contabilizando 7.873 anos de idade? A ciência vencerá a morte?
PS — Abstraindo a bobagem, o setor de informática do STF precisa rever o seu banco de dados. Tudo bem, erros acontecem. Mas assim como aconteceu este, pode ocorrer algum outro, mais sério.
Tortura na creche
Esta também pode servir para os meus alunos de Direito Penal III. Mas me permitam não fazer nenhum comentário sobre isto.
O foco da notícia
Para quem não sabe, caranguejo é uma iguaria muito apreciada aqui no Pará. Tanto faz sucesso o chamado "toc-toc" quanto os pratos feitos à base da carne tirada do animal, também conhecida como "polpa" ou "massa". Há um ano, contudo, a venda da carne tirada foi proibida a partir de uma intervenção do Ministério Público estadual, por motivos ligados à saúde pública. É que o processo altamente rudimentar de retirada da carne de dentro do exoesqueleto do crustáceo consiste em chupar o material, o que nos levava à desagradável situação de consumir algo que fora cuspido por todo tipo de boca.
Muita gente não conhecia esse processo e ficou enojada ao saber. Eu conhecia porque em 1989 meu irmão ingressou no curso de Biologia e já estava a par desses detalhes sórdidos. Mesmo assim, admito que a informação nunca me perturbou. Quero crer que o cozimento eliminaria as bactérias. Mas saúde pública é saúde pública e o produto acabou proibido, salvo o inevitável câmbio negro. As imprescindíveis unhas de caranguejo sumiram das lanchonetes e os restaurantes deixaram de vender bolinhos, peixes recheados e a sopa. Uma lástima!
Eis que acesso o jornal, hoje, e me deparo com a notícia: "MP libera polpa de caranguejo". Um frêmito espontâneo denunciou a felicidade. Mas ao ler a matéria, veio a frustração: liberou apenas em São Caetano de Odivelas, durante o Festival do Caranguejo, na segunda semana de dezembro. E talvez seja liberado por mais algum tempo, mas tudo sob condições.
Eu me pergunto se o autor da matéria foi tolo ao escrever essa manchete ou se, pelo contrário, fez de propósito, para atrair a atenção de incautos como eu. Mas isso que é passar uma rasteira no leitor e ainda tripudiar do cara caído.
Essa minha amiga promotora de justiça, Eliane Moreira, vai ficar me devendo essa...
Muita gente não conhecia esse processo e ficou enojada ao saber. Eu conhecia porque em 1989 meu irmão ingressou no curso de Biologia e já estava a par desses detalhes sórdidos. Mesmo assim, admito que a informação nunca me perturbou. Quero crer que o cozimento eliminaria as bactérias. Mas saúde pública é saúde pública e o produto acabou proibido, salvo o inevitável câmbio negro. As imprescindíveis unhas de caranguejo sumiram das lanchonetes e os restaurantes deixaram de vender bolinhos, peixes recheados e a sopa. Uma lástima!
Eis que acesso o jornal, hoje, e me deparo com a notícia: "MP libera polpa de caranguejo". Um frêmito espontâneo denunciou a felicidade. Mas ao ler a matéria, veio a frustração: liberou apenas em São Caetano de Odivelas, durante o Festival do Caranguejo, na segunda semana de dezembro. E talvez seja liberado por mais algum tempo, mas tudo sob condições.
Eu me pergunto se o autor da matéria foi tolo ao escrever essa manchete ou se, pelo contrário, fez de propósito, para atrair a atenção de incautos como eu. Mas isso que é passar uma rasteira no leitor e ainda tripudiar do cara caído.
Essa minha amiga promotora de justiça, Eliane Moreira, vai ficar me devendo essa...
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Alô, alunos de Penal III
Bebê de um dia é abandonado em parada de ônibus
Quinta-Feira, 04/11/2010, 04:46:34
Uma criança de um dia de vida teria sido encontrada em uma parada de ônibus, no bairro da Marambaia, na manhã de ontem.
A recém-nascida teria sido deixada pela mãe no local, na rua da Marinha, próximo à avenida Rodolfo Chermont. Por volta das 10h30, uma senhora que estava indo deixar a filha na parada a encontrou e levou para o Conselho Tutelar do bairro, que fica na avenida Tavares Bastos.
Segundo Inês Garcia, conselheira tutelar da Marambaia, a pessoa que trouxe a menina não se identificou. “A criança estava com o cordão umbilical, dentro de uma sacola branca de supermercado”, relata. Dentro do saco, não havia nenhum bilhete ou identificação, apenas uma fralda suja de sangue e uma camisa de colégio, onde a neném estava enrolada.
Os conselheiros decidiram acionar o serviço de 192, onde receberam orientação de uma médica. “Nós amarramos o cordão, limpamos ela. Encaminhamos para o hospital da Santa Casa e depois foi feita a ocorrência policial”, disse Inês.
Os funcionários do Conselho Tutelar deram o nome para a recém-nascida de Ana Beatriz. A reportagem entrou em contato com a assessoria da Santa Casa, que ficou de enviar uma nota sobre o estado de saúde da criança, que não foi recebida até o fechamento desta reportagem. Mas a conselheira tutelar disse que o estado de saúde da menina era bom.
A Assessoria da Coordenadoria de Comunicação Social da PMB informou que, segundo os últimos informes médicos, a criança pesa 3,315 kg, apresenta-se estável, passa bem e ficará em observação.
(Diário do Pará)
Se você é meu aluno de Direito Penal III, há de entender o motivo de esta reportagem ter sido transcrita aqui. Examine o texto e pense em suas implicações. A segunda avaliação vem aí.
Acréscimo em 5.11.2010:
A reportagem de hoje dá conta de que a moça de 22 anos que procurou o Conselho Tutelar é, na verdade, a mãe do bebê. Ela forneceu aos conselheiros o nome verdadeiro, mas um endereço falso. Mesmo assim, eles conseguiram encontrá-la. A jovem acabou admitindo a maternidade e alegou que sua conduta foi motivada pelo fato de já possuir um filho de 5 anos e de a menina recém-nascida ser filha de um homem casado, que não a assumiria. Ouvi boatos sobre a mãe da garota ter ameaçado com alguma represália, caso ela engravidasse de novo, o que acabou acontecendo.
Há um inquérito policial instaurado e a garota está indiciada por crime de abandono de incapaz. Segundo se apurou, a criança foi bem cuidada e amamentada no tempo em que esteve com a mãe. Passa bem, mas ficará na Santa Casa por 15 dias, em observação. A mãe, por sua vez, dera à luz na noite anterior (portanto apenas algumas horas antes), sozinha em casa. Os conselheiros tutelares disseram que, ao falar com eles, a garota parecia "confusa e muito triste", por isso suspeitaram de depressão pós-parto. A jovem foi levada para avaliação médica.
Alô, alunos, este caso pode render.
Quinta-Feira, 04/11/2010, 04:46:34
Uma criança de um dia de vida teria sido encontrada em uma parada de ônibus, no bairro da Marambaia, na manhã de ontem.
A recém-nascida teria sido deixada pela mãe no local, na rua da Marinha, próximo à avenida Rodolfo Chermont. Por volta das 10h30, uma senhora que estava indo deixar a filha na parada a encontrou e levou para o Conselho Tutelar do bairro, que fica na avenida Tavares Bastos.
Segundo Inês Garcia, conselheira tutelar da Marambaia, a pessoa que trouxe a menina não se identificou. “A criança estava com o cordão umbilical, dentro de uma sacola branca de supermercado”, relata. Dentro do saco, não havia nenhum bilhete ou identificação, apenas uma fralda suja de sangue e uma camisa de colégio, onde a neném estava enrolada.
Os conselheiros decidiram acionar o serviço de 192, onde receberam orientação de uma médica. “Nós amarramos o cordão, limpamos ela. Encaminhamos para o hospital da Santa Casa e depois foi feita a ocorrência policial”, disse Inês.
Os funcionários do Conselho Tutelar deram o nome para a recém-nascida de Ana Beatriz. A reportagem entrou em contato com a assessoria da Santa Casa, que ficou de enviar uma nota sobre o estado de saúde da criança, que não foi recebida até o fechamento desta reportagem. Mas a conselheira tutelar disse que o estado de saúde da menina era bom.
A Assessoria da Coordenadoria de Comunicação Social da PMB informou que, segundo os últimos informes médicos, a criança pesa 3,315 kg, apresenta-se estável, passa bem e ficará em observação.
(Diário do Pará)
Se você é meu aluno de Direito Penal III, há de entender o motivo de esta reportagem ter sido transcrita aqui. Examine o texto e pense em suas implicações. A segunda avaliação vem aí.
Acréscimo em 5.11.2010:
A reportagem de hoje dá conta de que a moça de 22 anos que procurou o Conselho Tutelar é, na verdade, a mãe do bebê. Ela forneceu aos conselheiros o nome verdadeiro, mas um endereço falso. Mesmo assim, eles conseguiram encontrá-la. A jovem acabou admitindo a maternidade e alegou que sua conduta foi motivada pelo fato de já possuir um filho de 5 anos e de a menina recém-nascida ser filha de um homem casado, que não a assumiria. Ouvi boatos sobre a mãe da garota ter ameaçado com alguma represália, caso ela engravidasse de novo, o que acabou acontecendo.
Há um inquérito policial instaurado e a garota está indiciada por crime de abandono de incapaz. Segundo se apurou, a criança foi bem cuidada e amamentada no tempo em que esteve com a mãe. Passa bem, mas ficará na Santa Casa por 15 dias, em observação. A mãe, por sua vez, dera à luz na noite anterior (portanto apenas algumas horas antes), sozinha em casa. Os conselheiros tutelares disseram que, ao falar com eles, a garota parecia "confusa e muito triste", por isso suspeitaram de depressão pós-parto. A jovem foi levada para avaliação médica.
Alô, alunos, este caso pode render.
Cristina
Quando cheguei ao CESUPA, onze anos atrás, ainda não havia uma Coordenadoria de Graduação, setor que congrega uma equipe pedagógica que tanto atua num plano de elaboração das políticas institucionais quanto auxilia diretamente professores e alunos, na busca de soluções para dúvidas e dificuldades.
Acompanhei o surgimento da COGRAD, lá pelo ano de 2002, tendo à frente a nossa estimadíssima Elza Dantas. Como sempre fui cônscio de que bachareis em Direito não recebem formação pedagógica, sabia de minhas limitações e vi na COGRAD um parceiro para me ajudar a crescer na carreira docente. Infelizmente, essa não era uma opinião generalizada. Muitos colegas, obtusos (e os professores de Direito tendem a ser exemplos disso), viam naquela coordenadoria uma interferência indevida em sua autonomia. Mas as pedagogas superpoderosas tiveram uma paciência bíblica e, com muita dedicação, conquistaram seu espaço. Hoje, não sabemos mais o que seria da instituição sem elas. Quem negasse isso estaria na contramão.
Depois da Elza, veio a Cristina Cordeiro. A primeira, espevitada; a segunda, mais quieta. Com o tempo, foi se soltando, "pipocando" (expressão que aprendemos no curso de especialização em docência do ensino superior) e se tornou uma referência para aqueles que, como eu, batiam com frequência à porta da COGRAD, inclusive apenas para conversar, trocar ideias, buscar inspiração. A coordenadoria cresceu, ganhou outras profissionais, mas tive a sorte (preciso admitir) de Cristina permanecer atuando junto ao curso de Direito.
Há quase dois anos, nosso curso mudou de prédio. Ganhou uma unidade só para si. Com isso, fomos embora e as meninas da primeira hora ficaram. Sempre senti falta delas. E sentirei mais ainda, porque nesta manhã de quinta-feira Cristina está de mudança para Fortaleza, seguindo seu marido militar. Somente esta necessidade familiar para forçar uma separação que ninguém queria. Ontem, houve uma festa de despedida, uma oportunidade de mostrar a ela o quanto sua partida atinge a todos nós. Mas não trataremos disso com tristeza. Oportunistas, estamos de olho na hospedagem gratuita na capital cearense!
Cristina é leitora do blog e em algum momento encontrará esta postagem. Quis deixar público o meu agradecimento e o meu carinho.
Vai com Deus, Cris. Uma excelente nova etapa de vida para todos vocês.
Acompanhei o surgimento da COGRAD, lá pelo ano de 2002, tendo à frente a nossa estimadíssima Elza Dantas. Como sempre fui cônscio de que bachareis em Direito não recebem formação pedagógica, sabia de minhas limitações e vi na COGRAD um parceiro para me ajudar a crescer na carreira docente. Infelizmente, essa não era uma opinião generalizada. Muitos colegas, obtusos (e os professores de Direito tendem a ser exemplos disso), viam naquela coordenadoria uma interferência indevida em sua autonomia. Mas as pedagogas superpoderosas tiveram uma paciência bíblica e, com muita dedicação, conquistaram seu espaço. Hoje, não sabemos mais o que seria da instituição sem elas. Quem negasse isso estaria na contramão.
Depois da Elza, veio a Cristina Cordeiro. A primeira, espevitada; a segunda, mais quieta. Com o tempo, foi se soltando, "pipocando" (expressão que aprendemos no curso de especialização em docência do ensino superior) e se tornou uma referência para aqueles que, como eu, batiam com frequência à porta da COGRAD, inclusive apenas para conversar, trocar ideias, buscar inspiração. A coordenadoria cresceu, ganhou outras profissionais, mas tive a sorte (preciso admitir) de Cristina permanecer atuando junto ao curso de Direito.
Há quase dois anos, nosso curso mudou de prédio. Ganhou uma unidade só para si. Com isso, fomos embora e as meninas da primeira hora ficaram. Sempre senti falta delas. E sentirei mais ainda, porque nesta manhã de quinta-feira Cristina está de mudança para Fortaleza, seguindo seu marido militar. Somente esta necessidade familiar para forçar uma separação que ninguém queria. Ontem, houve uma festa de despedida, uma oportunidade de mostrar a ela o quanto sua partida atinge a todos nós. Mas não trataremos disso com tristeza. Oportunistas, estamos de olho na hospedagem gratuita na capital cearense!
Cristina é leitora do blog e em algum momento encontrará esta postagem. Quis deixar público o meu agradecimento e o meu carinho.
Vai com Deus, Cris. Uma excelente nova etapa de vida para todos vocês.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Cara de pau sem limites
Todos os anos, quando se aproxima o dia de finados, pessoas compram carradas de areia que despejam em frente aos cemitérios. A intenção é vender frações para os visitantes que pretenderem melhorar o aspecto dos túmulos de seus entes queridos. O problema é que despejam o material na rua, por cima de canteiros, em qualquer lugar. Em frente ao Cemitério São Jorge, na Marambaia, sempre provocam um estreitamento da pista. Como não há poder público, os pequenos empreendedores podem fazer o que quiserem e não há consequências. Este ano, pude observar que a areia chegou mais cedo, com uma semana de antecedência.
Na véspera do dia de finados, os vendedores de flores se abancam e passam a madrugada em claro, preparando as mercadorias, que incluem velas.
Ontem, contudo, vi uma novidade. Os flanelinhas, que brotam do chão nessas oportunidades, decidiram pintar, eles mesmos, faixas demarcando vagas de estacionamento. Onde? Na rua! Ao longo do primeiro trecho da Avenida Santarém, que divide os conjuntos Médici I e II. Simplesmente foram lá e instituíram estacionamento a 90º. Maior organização...
Belém é isso: todo mundo faz o que quer e tudo bem.
Na véspera do dia de finados, os vendedores de flores se abancam e passam a madrugada em claro, preparando as mercadorias, que incluem velas.
Ontem, contudo, vi uma novidade. Os flanelinhas, que brotam do chão nessas oportunidades, decidiram pintar, eles mesmos, faixas demarcando vagas de estacionamento. Onde? Na rua! Ao longo do primeiro trecho da Avenida Santarém, que divide os conjuntos Médici I e II. Simplesmente foram lá e instituíram estacionamento a 90º. Maior organização...
Belém é isso: todo mundo faz o que quer e tudo bem.
Cidade travada
O dia de finados sempre acarreta congestionamentos no entorno dos cemitérios. Para ir da minha casa à de minha mãe, normalmente um trajeto de cinco minutos, precisei enfrentar todo transtorno decorrente do bloqueio da Rua da Mata, onde se situa o Cemitério São Jorge.
Tínhamos a intenção de passear com Júlia. Para fugir do transtorno, e considerando o lugar para onde pretendia ir, tive a péssima ideia de passar pela Augusto Montenegro. Que engarrafamento! Levei mais de meia hora para percorrer um trecho de no máximo 300 metros. Caos, sem nenhum exagero. Até onde se sabe, o motivo era simplesmente o excesso de veículos na rua, devido à demanda pelos cemitérios. Uma interminável obra da Cosanpa também deve ter contribuído para o inferno.
Enquanto eu media forças com uma carreta imensa, para ver quem passava primeiro, percebi que o maior congestionamento da cidade não contou com a presença de nenhum, absolutamente nenhum agente da CTBel. Nenhuma novidade, claro. Digo só para constar. Havia muitos agentes ocupadíssimos nas imediações dos campos santos, onde talvez não pudessem ser úteis, mas certamente teriam mais chances de multar.
Resumo da ópera: voltamos para casa sem passeio. Que dia...
Tínhamos a intenção de passear com Júlia. Para fugir do transtorno, e considerando o lugar para onde pretendia ir, tive a péssima ideia de passar pela Augusto Montenegro. Que engarrafamento! Levei mais de meia hora para percorrer um trecho de no máximo 300 metros. Caos, sem nenhum exagero. Até onde se sabe, o motivo era simplesmente o excesso de veículos na rua, devido à demanda pelos cemitérios. Uma interminável obra da Cosanpa também deve ter contribuído para o inferno.
Enquanto eu media forças com uma carreta imensa, para ver quem passava primeiro, percebi que o maior congestionamento da cidade não contou com a presença de nenhum, absolutamente nenhum agente da CTBel. Nenhuma novidade, claro. Digo só para constar. Havia muitos agentes ocupadíssimos nas imediações dos campos santos, onde talvez não pudessem ser úteis, mas certamente teriam mais chances de multar.
Resumo da ópera: voltamos para casa sem passeio. Que dia...
O menor espetáculo da Terra
No último domingo, fui com a família à Estação das Docas, mais especificamente no Teatro Maria Sylvia Nunes, para ver O menor espetáculo da Terra, espetáculo dos Palhaços Trovadores.
Os Palhaços Trovadores são muito conhecidos na cidade. Fazem um trabalho competente e reconhecido e, na minha avaliação de leigo que nem sequer gosta de palhaços, têm talento, currículo e criatividade para fazer carreira até internacional.
O menor espetáculo da Terra conta a história de cinco palhaços que foram abandonados pelo circo. Largados à beira de uma estrada, profundamente tristes (como se pode perceber pelas expressões de seus semblantes na parte superior da imagem ao lado), eles sonham em abrir o próprio circo, onde poderiam realizar seus sonhos: cada um deles anseia por ser outra coisa, como uma bailarina, um domador de leões, uma contorcionista, um trapezista e um equilibrista. Com um humor leve e comovente, narrado por uma voz que tanto conversa com os personagens e o público quanto funciona como uma espécie de consciência dos primeiros, você se diverte muito. Dava gosto de ver a pequena Júlia batendo palmas e gritando "êêêêêêê!!!"
Felizmente, o público correspondeu e a sala estava cheia naquele final de tarde.
Ao final, Marton Maués e Aníbal Pacha, que pertencem ao grupo e são responsáveis pela montagem, subiram ao palco para os aplausos e agradecimentos. Maués aproveitou para fazer um agradecimento especial à Organização Pará 2000, administradora da Estação das Docas, que cedeu o espaço sem ônus, possibilitando que o espetáculo fosse exibido sem cobrança de ingresso (você pagava quanto queria, inclusive nada). Aproveitou para lembrar que era dia de eleição e que desejava que políticas como essa continuassem (ênfase extrema no verbo "continuar"), a fim de possibilitar o acesso de todo o povo à cultura.
O desejo é legítimo. Afinal, nenhum governo dá à mínima para a cultura por estas bandas. Mas a súplica chegou muito tarde, considerando que, àquela altura, as urnas já estavam fechadas havia uma hora e meia.
Que mais e mais espetáculos das boas companhias locais venham. Quanto às políticas culturais... Deixa pra lá.
Os Palhaços Trovadores são muito conhecidos na cidade. Fazem um trabalho competente e reconhecido e, na minha avaliação de leigo que nem sequer gosta de palhaços, têm talento, currículo e criatividade para fazer carreira até internacional.
O menor espetáculo da Terra conta a história de cinco palhaços que foram abandonados pelo circo. Largados à beira de uma estrada, profundamente tristes (como se pode perceber pelas expressões de seus semblantes na parte superior da imagem ao lado), eles sonham em abrir o próprio circo, onde poderiam realizar seus sonhos: cada um deles anseia por ser outra coisa, como uma bailarina, um domador de leões, uma contorcionista, um trapezista e um equilibrista. Com um humor leve e comovente, narrado por uma voz que tanto conversa com os personagens e o público quanto funciona como uma espécie de consciência dos primeiros, você se diverte muito. Dava gosto de ver a pequena Júlia batendo palmas e gritando "êêêêêêê!!!"
Felizmente, o público correspondeu e a sala estava cheia naquele final de tarde.
Ao final, Marton Maués e Aníbal Pacha, que pertencem ao grupo e são responsáveis pela montagem, subiram ao palco para os aplausos e agradecimentos. Maués aproveitou para fazer um agradecimento especial à Organização Pará 2000, administradora da Estação das Docas, que cedeu o espaço sem ônus, possibilitando que o espetáculo fosse exibido sem cobrança de ingresso (você pagava quanto queria, inclusive nada). Aproveitou para lembrar que era dia de eleição e que desejava que políticas como essa continuassem (ênfase extrema no verbo "continuar"), a fim de possibilitar o acesso de todo o povo à cultura.
O desejo é legítimo. Afinal, nenhum governo dá à mínima para a cultura por estas bandas. Mas a súplica chegou muito tarde, considerando que, àquela altura, as urnas já estavam fechadas havia uma hora e meia.
Que mais e mais espetáculos das boas companhias locais venham. Quanto às políticas culturais... Deixa pra lá.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Gran Torino
Clint Eastwood é um dos nomes mais respeitados e queridos da indústria cinematográfica, arrisco dizer que mundial. Isso porque, embora enredado em Hollywood, age sem as histerias e arrogâncias típicas do mundo das celebridades. Após uma carreira vitoriosa como ator, tornou-se um diretor admirado por seus filmes sempre muito humanos, bem feitos e inspiradores. Além disso, é descrito como um profissional bem educado, sereno, que trata a todos com gentileza e espírito de equipe. Fosse um artista brasileiro típico, viveria dando chiliques.
Em 2008, Eastwood produziu, dirigiu e interpretou o papel principal de Gran Torino, filme que acabei de ver.
O roteiro está longe de ser original. Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coreia que carrega os traumas (e um segredo, que o enche de culpa) decorrentes dos horrores que viveu. Volta da guerra com um temperamento péssimo e vai trabalhar na Ford, o que ajuda a recrudescer o seu extremo nacionalismo. Racista e xenófobo em níveis paroxísticos, quase não se relaciona com os filhos. Logo no começo do filme, no velório de sua esposa, fica evidente a sua repulsa ao mundo que o cerca. Seus filhos, noras e netos são pessoas detestáveis, sem dúvida, mas é difícil saber o quanto ele mesmo contribuiu para isso.
Mas a vida de Walt muda quando ele passa a se relacionar com dois jovens da comunidade hmong (um povo asiático; leia mais na caixa de comentários) que se instalou em seu bairro. Com o tempo, e ainda acirrado por um incidente que o transforma numa espécie de heroi contra a sua vontade, o velho solitário vai se tornando amigo dos chineses e isso mudará a história de todos. Afinal, no meio do caminho existe uma gangue.
Gran Torino é mais um filme sobre redenção de uma pessoa que nos parece odiosa em todos os sentidos, que aos poucos se humaniza e revela as belezas que possuía em sua alma. Aqueles com quem atritava, como o jovem padre Janovich, acabam se tornando seus admiradores.
Do ponto de vista cinematográfico, o roteiro é algo previsível. Mas quando um cineasta decide reinventar a roda, normalmente acontecem desastres. Por isso, há muita virtude em reeditar uma ideia e fazê-lo com qualidade, elegância e emoção. Eastwood é um homem inteligente e conseguiu virar o desfecho para um lado diferente do que pensamos a maior parte do tempo. E com muita coerência. O filme conclui de modo condizente com um projeto cujo objetivo parece ser tirar lições de tragédias, inspirando o bem, a justiça e o altruísmo. Não se pode deixar de destacar, também, o seu peculiar senso de humor. A grosseria de Kowalski rende algumas boas risadas.
Em suma, vale muito a pena ver.
Em tempo: Gran Torino é o nome de um famoso modelo esportivo da Ford, que fez sucesso na década de 1970. Walt Kowalski possui um, que parece ser a única coisa com que se importa no início do filme. Muita gente tem interesse no carro, inclusive o líder da gangue acima mencionada. E aí a trama ganha os seus caminhos.
Em 2008, Eastwood produziu, dirigiu e interpretou o papel principal de Gran Torino, filme que acabei de ver.
O roteiro está longe de ser original. Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coreia que carrega os traumas (e um segredo, que o enche de culpa) decorrentes dos horrores que viveu. Volta da guerra com um temperamento péssimo e vai trabalhar na Ford, o que ajuda a recrudescer o seu extremo nacionalismo. Racista e xenófobo em níveis paroxísticos, quase não se relaciona com os filhos. Logo no começo do filme, no velório de sua esposa, fica evidente a sua repulsa ao mundo que o cerca. Seus filhos, noras e netos são pessoas detestáveis, sem dúvida, mas é difícil saber o quanto ele mesmo contribuiu para isso.
Mas a vida de Walt muda quando ele passa a se relacionar com dois jovens da comunidade hmong (um povo asiático; leia mais na caixa de comentários) que se instalou em seu bairro. Com o tempo, e ainda acirrado por um incidente que o transforma numa espécie de heroi contra a sua vontade, o velho solitário vai se tornando amigo dos chineses e isso mudará a história de todos. Afinal, no meio do caminho existe uma gangue.
Gran Torino é mais um filme sobre redenção de uma pessoa que nos parece odiosa em todos os sentidos, que aos poucos se humaniza e revela as belezas que possuía em sua alma. Aqueles com quem atritava, como o jovem padre Janovich, acabam se tornando seus admiradores.
Do ponto de vista cinematográfico, o roteiro é algo previsível. Mas quando um cineasta decide reinventar a roda, normalmente acontecem desastres. Por isso, há muita virtude em reeditar uma ideia e fazê-lo com qualidade, elegância e emoção. Eastwood é um homem inteligente e conseguiu virar o desfecho para um lado diferente do que pensamos a maior parte do tempo. E com muita coerência. O filme conclui de modo condizente com um projeto cujo objetivo parece ser tirar lições de tragédias, inspirando o bem, a justiça e o altruísmo. Não se pode deixar de destacar, também, o seu peculiar senso de humor. A grosseria de Kowalski rende algumas boas risadas.
Em suma, vale muito a pena ver.
Em tempo: Gran Torino é o nome de um famoso modelo esportivo da Ford, que fez sucesso na década de 1970. Walt Kowalski possui um, que parece ser a única coisa com que se importa no início do filme. Muita gente tem interesse no carro, inclusive o líder da gangue acima mencionada. E aí a trama ganha os seus caminhos.
Há cidadãos e cidadãos
A imprensa destacou, como sempre, a atitude de diversos idosos que, não sendo mais obrigados a comparecer às seções eleitorais, fizeram questão de participar, ontem, do processo democrático. Essas notícias normalmente se concentram em dificuldades que os idosos precisaram vencer para exercer a sua cidadania. Com efeito, é algo que merece mesmo elogios.
Infelizmente, há eleitores e eleitores, cidadãos e cidadãos. Ontem, quando eu deixava a minha seção após votar, uma senhora se apresentou apenas com o título de eleitor. A presidente da seção informou que ela não poderia votar. O marido ou companheiro dela, à porta, se aborreceu e, meio exaltado, afirmou que, numa outra escola, ele mesmo conseguira votar, no primeiro e no segundo turno, sem apresentar documento de identidade com foto.
Não sei o por quê mas eu, que normalmente me distancio desses atritos, acabei me metendo. Disse ao indivíduo que a lei fora modificada e que ele até podia votar sem o título, mas não sem um documento com foto. Que se em outro lugar ele fora admitido sem isto, o errado estava na outra seção. Ele respondeu que sabia, que a propaganda aparecia toda hora na TV, mas que na hora, "cadê a lei?" Por sinal, uma argumentação interessante, porque vazia. Ou seja, ele não disse lá com crá. Também acho curiosa essa mania das pessoas de invocar a lei como se fosse um ser consciente.
Sem se dar por vencido, o sujeito ainda questionou se a companheira poderia votar apresentando o comprovante de votação do primeiro turno. Uma pergunta boba, claro, ainda mais porque a própria informou que votara apresentando a identidade. Neste momento, ela se aborreceu e conclamou o parceiro a ir embora. Disse que não estava nem aí e que não seria por um único voto, o seu, que "ele" deixaria de se eleger. Ou Jatene ou Serra perdeu um voto. Deu assim, uma lição de cidadania e compromisso com o futuro do país.
O que mais me irrita em pessoas assim é que criticam a lei, o presidente da seção, o processo eleitoral, o candidato, o sol e a lua, só não criticam a si mesmos. Se a fulana tivesse levado a identidade, e não levou exclusivamente por culpa própria, nada disso teria acontecido. Detalhe: portar documento de identidade é obrigatório.
Infelizmente, há eleitores e eleitores, cidadãos e cidadãos. Ontem, quando eu deixava a minha seção após votar, uma senhora se apresentou apenas com o título de eleitor. A presidente da seção informou que ela não poderia votar. O marido ou companheiro dela, à porta, se aborreceu e, meio exaltado, afirmou que, numa outra escola, ele mesmo conseguira votar, no primeiro e no segundo turno, sem apresentar documento de identidade com foto.
Não sei o por quê mas eu, que normalmente me distancio desses atritos, acabei me metendo. Disse ao indivíduo que a lei fora modificada e que ele até podia votar sem o título, mas não sem um documento com foto. Que se em outro lugar ele fora admitido sem isto, o errado estava na outra seção. Ele respondeu que sabia, que a propaganda aparecia toda hora na TV, mas que na hora, "cadê a lei?" Por sinal, uma argumentação interessante, porque vazia. Ou seja, ele não disse lá com crá. Também acho curiosa essa mania das pessoas de invocar a lei como se fosse um ser consciente.
Sem se dar por vencido, o sujeito ainda questionou se a companheira poderia votar apresentando o comprovante de votação do primeiro turno. Uma pergunta boba, claro, ainda mais porque a própria informou que votara apresentando a identidade. Neste momento, ela se aborreceu e conclamou o parceiro a ir embora. Disse que não estava nem aí e que não seria por um único voto, o seu, que "ele" deixaria de se eleger. Ou Jatene ou Serra perdeu um voto. Deu assim, uma lição de cidadania e compromisso com o futuro do país.
O que mais me irrita em pessoas assim é que criticam a lei, o presidente da seção, o processo eleitoral, o candidato, o sol e a lua, só não criticam a si mesmos. Se a fulana tivesse levado a identidade, e não levou exclusivamente por culpa própria, nada disso teria acontecido. Detalhe: portar documento de identidade é obrigatório.
De nível
Somente agora tomei conhecimento de que a passagem de nível da Av. Dalcídio Jurandir1 foi liberada ao tráfego ontem à noite.
Correção do texto em 1º.11.2010, às 17h12: "Foi liberada" coisa nenhuma. De fato, a Rodovia dos Trabalhadores ou Transmangueirão voltou a ter mão dupla, mas a passagem de nível ainda não foi aberta ao tráfego ou, se foi, esta tarde voltou a ser bloqueada. Pelo que vi, obras inconclusas.
Quando passei pela avenida pela primeira vez, fiquei impressionado com a construção, tanto por não saber que seria erigida uma obra de arte2 dessas no local, quanto porque, aqui em Belém, tudo é difícil, de modo que surpreende a utilização de um recurso sofisticado, caro e que, pelo jeito, está no padrão de obras congêneres realizadas em outros Estados.
Infelizmente, devo dizer que espero todo tipo de incidente no local. Afinal, por mais duro que seja admiti-lo, o fato é que o motorista belenense médio é quase um débil mental e comete as maiores atrocidades quando dirige (isso quando não as perpetra por pura psicopatia). Um monte de gente se atrapalhou com o elevado da Júlio César e suas pétalas, que são tão simples, imagine com um traçado curioso, como esse que pode ser visto na imagem. Realmente, chama a atenção o traçado das duas avenidas, que se cruzam. O povo vai fazer besteira. E mesmo lendo uma explicação como esta, não haverá muita diferença.
Boa sorte para nós.
PS — Já ajudaria se as pessoas entendessem que a obra de arte em questão não é um túnel (assim como o complexo do Entroncamento não possui um). Túneis são engenhos subterrâneos, que correm por dentro de montanhas ou sob o leito de rios e mares. Maiores informações, aqui.
1 Aquela que muitos só conhecem como "prolongamento da Av. Independência".
2 "Obra de arte" é uma expressão técnica, que compreende pontes, elevados, túneis, passagens de nível, etc.
Correção do texto em 1º.11.2010, às 17h12: "Foi liberada" coisa nenhuma. De fato, a Rodovia dos Trabalhadores ou Transmangueirão voltou a ter mão dupla, mas a passagem de nível ainda não foi aberta ao tráfego ou, se foi, esta tarde voltou a ser bloqueada. Pelo que vi, obras inconclusas.
Quando passei pela avenida pela primeira vez, fiquei impressionado com a construção, tanto por não saber que seria erigida uma obra de arte2 dessas no local, quanto porque, aqui em Belém, tudo é difícil, de modo que surpreende a utilização de um recurso sofisticado, caro e que, pelo jeito, está no padrão de obras congêneres realizadas em outros Estados.
Infelizmente, devo dizer que espero todo tipo de incidente no local. Afinal, por mais duro que seja admiti-lo, o fato é que o motorista belenense médio é quase um débil mental e comete as maiores atrocidades quando dirige (isso quando não as perpetra por pura psicopatia). Um monte de gente se atrapalhou com o elevado da Júlio César e suas pétalas, que são tão simples, imagine com um traçado curioso, como esse que pode ser visto na imagem. Realmente, chama a atenção o traçado das duas avenidas, que se cruzam. O povo vai fazer besteira. E mesmo lendo uma explicação como esta, não haverá muita diferença.
Boa sorte para nós.
PS — Já ajudaria se as pessoas entendessem que a obra de arte em questão não é um túnel (assim como o complexo do Entroncamento não possui um). Túneis são engenhos subterrâneos, que correm por dentro de montanhas ou sob o leito de rios e mares. Maiores informações, aqui.
1 Aquela que muitos só conhecem como "prolongamento da Av. Independência".
2 "Obra de arte" é uma expressão técnica, que compreende pontes, elevados, túneis, passagens de nível, etc.
domingo, 31 de outubro de 2010
Minha Língua Portuguesa
Digo, sem falsa modéstia, que sempre fui um bom aluno de Língua Portuguesa. Minha paixão por nosso idioma se revelou muito cedo, talvez como consequência do hábito da leitura que pratiquei tão intensamente, imitando meu irmão, quase cinco anos mais velho, a quem serei sempre grato por me ter inspirado tão valioso vício. Acho que só me envaideço de verdade de duas coisas na vida e uma delas é, justamente, o bom uso que faço da lingagem oral e escrita.
A intimidade me fez um ótimo aluno nas aulas de Língua Portuguesa e dono de uma facilidade natural para empregar a norma culta. Mas aí eu mesmo observava um aspecto curioso: embora eu normalmente me expressasse da forma correta, muitas vezes não tinha a menor ideia de por que as coisas eram como eram. Conhecia as regras, mas apenas em sua aplicação. Muitas vezes, aplicava as regras sem as conhecer. Sabia distinguir o certo do errado, mas desconhecia as razões.
A última vez que estudei Português foi em 1991, na preparação para o vestibular. Lá se vão quase duas décadas. De lá para cá, continuei a me esforçar pela expressão impecável, mas as regras que conhecia, os termos técnicos, os detalhes, foram-se apagando de minha mente. Isso me inquietou. Comecei a desejar uma volta aos livros, intento cuja realização, para variar, adiei por alguns anos. Na última quarta-feira, contudo, desencavei o velho projeto e comprei uma gramática. O propósito? Estudá-la de ponta a ponta, aprimorar a minha capacidade comunicacional.
Após examinar algumas opções, escolhi a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos de Azeredo, editado pela Publifolha. O autor se apresenta como professor de Língua Portuguesa em universidades públicas, por um tempo que agora beira os quarenta anos.
Minha franca predileção pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, corroborada por matéria que li onde ele era citado como o melhor dicionário publicado no Brasil, por ser mais técnico, preciso, variado e até poético1, faz com que eu veja com bons olhos qualquer obra do Instituto Antônio Houaiss. Mas minha eleição não foi determinada apenas por isso; pesou, também, ver que antes do estudo técnico propriamente dito, a obra dedica algumas dezenas de páginas à justificação do estudo da gramática, sua história no Brasil e à ideia de que a língua é um traço cultural e histórico muito mais complexo do que se costuma pensar. Ou seja, o estudo técnico ganhou uma dimensão humana que me encantou.
O mais surpreendente, para mim, é que Azeredo critica um pecado (o termo é meu) do qual eu próprio sou culpado: a insistência em preservar uma tal norma culta, um purismo de linguagem que mais não é do que a expressão de elites sociais. E eu, que detesto elites, deveria ser contra isso, também. Mas sempre repudiei os maneirismos da chamada linguagem coloquial e precisei de uma gramática para me alertar sobre o tamanho do meu erro.
Veja algumas assertivas do livro:
"A língua é a soma de todas as suas possibilidades de expressão, e só existe nas variedades de uso que a concretizam como meio de intercompreensão de seus falantes" (p. 27).
"A criatividade linguística é inerente ao conhecimento da língua, pois seus usuários não são meros repetidores de frases prontas" (p. 30).
"Na verdade, o mundo que nos cerca, o que sentimos, pensamos ou imaginamos não circula entre os homens e se transfere de um indivíduo a outro senão pelo filtro da palavra, que não é um condutor neutro de conteúdos, mas um gerador e modelador de sentidos" (p. 48).
"A linguagem verbal é o mais abrangente, elaborado e adaptável recurso de criação, assimilação, circulação e transmissão de representações do conjunto de nossas experiências da realidade. Mais que isso, ela é o próprio espaço simbólico que torna possíveis essas representações. Sua diversidade de formas e de usos não é, portanto, um fenômeno periférico e acidental nas relações humanas: ela é a própria expressão dessas relações" (p. 50).
"Uma língua é como é por causa de seu caráter simbólico e interacional: ela incorpora a cultura no homem à medida que o incorpora ao meio sociocultural" (p. 52).
A explicação mais precisa, todavia, talvez seja esta:
"Outra ideia muito difundida no passado, também hoje superada, é que as línguas 'evoluem para um estado de perfeição', ilustrado na maneira como a praticam seus grandes oradores e poetas, e que, atingido este estágio, elas precisam ser defendidas 'da corrupção daqueles que a utilizam mal', e, portanto, de toda mudança que as afaste daquele ideal de perfeição. Sabemos hoje que, no papel de meios correntes de expressão e de comunicação, todas as variedades de uma língua são dotadas de estrutura complexa em qualquer fase de sua existência histórica, funcionalmente adequadas aos objetivos interacionais de seus usuários, e permanentemente adaptáveis às novas necessidades de expressão da comunidade" (p. 61)
Creio ter aprendido que não devo mais implicar que certas variações na colocação pronominal, na concordância, na regência, etc. Mas é preciso identificar uma intencionalidade naquele que deseja comunicar-se. Se o indivíduo fala errado por pura ignorância, é imperioso educá-lo. Não necessariamente com a tal norma culta. Mas educá-lo, sob pena de renunciarmos ao progresso não apenas da sociedade, mas do próprio indivíduo.
1 Para justificar esta alegação, o autor da matéria recorreu ao vocábulo "saudade", que, dentre outras, recebe do Houaiss uma acepção comovente: "sentimento mais ou menos indefinível de incompletude".
Em tempo:
Não havia nenhuma intenção política nesta postagem, muito menos político-partidária. Mas ligado ao livro que leio e ao noticiário, não pude deixar de encontrar um exemplo importante das ideias de José Carlos de Azeredo no momento vivido por nosso país.
Há algum tempo, a imprensa elitista que nunca perdeu a oportunidade de menosprezar Lula passou a atacá-lo, furiosamente, por sua renitência em dizer que Dilma Rousseff seria a primeira presidenta do Brasil. Ora, seu ignorante, o vocábulo "presidente" não possui flexão de gênero! Estava provado, mais uma vez, que Lula não seria mais do que um bronco.
Será?
Aprendam, senhores, que sendo a linguagem um fenômeno social e histórico — ao contrário de uma rocha, que é dura porque essa é, de fato, sua condição na natureza —, o fato de um governante ser chamado de presidente é determinado por incontáveis fatores, que poderiam ter engendrado uma outra palavra completamente diferente. Assim como no século XIII se chamava giolho o que hoje é joelho, presidente poderia ser prasidente, presidante, presidinte, preposto, prepúcio, pitombas.
Por conseguinte, se o momento histórico pede que se proclame aos quatro ventos a importância de haver, pela primeira vez, uma mulher no comando do país, então presidente passa a ser, sim, uma palavra com flexão de gênero e as presidentas passam a ser uma realidade viva do mundo. Como as imperatrizes e as imperadoras.
A intimidade me fez um ótimo aluno nas aulas de Língua Portuguesa e dono de uma facilidade natural para empregar a norma culta. Mas aí eu mesmo observava um aspecto curioso: embora eu normalmente me expressasse da forma correta, muitas vezes não tinha a menor ideia de por que as coisas eram como eram. Conhecia as regras, mas apenas em sua aplicação. Muitas vezes, aplicava as regras sem as conhecer. Sabia distinguir o certo do errado, mas desconhecia as razões.
A última vez que estudei Português foi em 1991, na preparação para o vestibular. Lá se vão quase duas décadas. De lá para cá, continuei a me esforçar pela expressão impecável, mas as regras que conhecia, os termos técnicos, os detalhes, foram-se apagando de minha mente. Isso me inquietou. Comecei a desejar uma volta aos livros, intento cuja realização, para variar, adiei por alguns anos. Na última quarta-feira, contudo, desencavei o velho projeto e comprei uma gramática. O propósito? Estudá-la de ponta a ponta, aprimorar a minha capacidade comunicacional.
Após examinar algumas opções, escolhi a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos de Azeredo, editado pela Publifolha. O autor se apresenta como professor de Língua Portuguesa em universidades públicas, por um tempo que agora beira os quarenta anos.
Minha franca predileção pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, corroborada por matéria que li onde ele era citado como o melhor dicionário publicado no Brasil, por ser mais técnico, preciso, variado e até poético1, faz com que eu veja com bons olhos qualquer obra do Instituto Antônio Houaiss. Mas minha eleição não foi determinada apenas por isso; pesou, também, ver que antes do estudo técnico propriamente dito, a obra dedica algumas dezenas de páginas à justificação do estudo da gramática, sua história no Brasil e à ideia de que a língua é um traço cultural e histórico muito mais complexo do que se costuma pensar. Ou seja, o estudo técnico ganhou uma dimensão humana que me encantou.
O mais surpreendente, para mim, é que Azeredo critica um pecado (o termo é meu) do qual eu próprio sou culpado: a insistência em preservar uma tal norma culta, um purismo de linguagem que mais não é do que a expressão de elites sociais. E eu, que detesto elites, deveria ser contra isso, também. Mas sempre repudiei os maneirismos da chamada linguagem coloquial e precisei de uma gramática para me alertar sobre o tamanho do meu erro.
Veja algumas assertivas do livro:
"A língua é a soma de todas as suas possibilidades de expressão, e só existe nas variedades de uso que a concretizam como meio de intercompreensão de seus falantes" (p. 27).
"A criatividade linguística é inerente ao conhecimento da língua, pois seus usuários não são meros repetidores de frases prontas" (p. 30).
"Na verdade, o mundo que nos cerca, o que sentimos, pensamos ou imaginamos não circula entre os homens e se transfere de um indivíduo a outro senão pelo filtro da palavra, que não é um condutor neutro de conteúdos, mas um gerador e modelador de sentidos" (p. 48).
"A linguagem verbal é o mais abrangente, elaborado e adaptável recurso de criação, assimilação, circulação e transmissão de representações do conjunto de nossas experiências da realidade. Mais que isso, ela é o próprio espaço simbólico que torna possíveis essas representações. Sua diversidade de formas e de usos não é, portanto, um fenômeno periférico e acidental nas relações humanas: ela é a própria expressão dessas relações" (p. 50).
"Uma língua é como é por causa de seu caráter simbólico e interacional: ela incorpora a cultura no homem à medida que o incorpora ao meio sociocultural" (p. 52).
A explicação mais precisa, todavia, talvez seja esta:
"Outra ideia muito difundida no passado, também hoje superada, é que as línguas 'evoluem para um estado de perfeição', ilustrado na maneira como a praticam seus grandes oradores e poetas, e que, atingido este estágio, elas precisam ser defendidas 'da corrupção daqueles que a utilizam mal', e, portanto, de toda mudança que as afaste daquele ideal de perfeição. Sabemos hoje que, no papel de meios correntes de expressão e de comunicação, todas as variedades de uma língua são dotadas de estrutura complexa em qualquer fase de sua existência histórica, funcionalmente adequadas aos objetivos interacionais de seus usuários, e permanentemente adaptáveis às novas necessidades de expressão da comunidade" (p. 61)
Creio ter aprendido que não devo mais implicar que certas variações na colocação pronominal, na concordância, na regência, etc. Mas é preciso identificar uma intencionalidade naquele que deseja comunicar-se. Se o indivíduo fala errado por pura ignorância, é imperioso educá-lo. Não necessariamente com a tal norma culta. Mas educá-lo, sob pena de renunciarmos ao progresso não apenas da sociedade, mas do próprio indivíduo.
1 Para justificar esta alegação, o autor da matéria recorreu ao vocábulo "saudade", que, dentre outras, recebe do Houaiss uma acepção comovente: "sentimento mais ou menos indefinível de incompletude".
Em tempo:
Não havia nenhuma intenção política nesta postagem, muito menos político-partidária. Mas ligado ao livro que leio e ao noticiário, não pude deixar de encontrar um exemplo importante das ideias de José Carlos de Azeredo no momento vivido por nosso país.
Há algum tempo, a imprensa elitista que nunca perdeu a oportunidade de menosprezar Lula passou a atacá-lo, furiosamente, por sua renitência em dizer que Dilma Rousseff seria a primeira presidenta do Brasil. Ora, seu ignorante, o vocábulo "presidente" não possui flexão de gênero! Estava provado, mais uma vez, que Lula não seria mais do que um bronco.
Será?
Aprendam, senhores, que sendo a linguagem um fenômeno social e histórico — ao contrário de uma rocha, que é dura porque essa é, de fato, sua condição na natureza —, o fato de um governante ser chamado de presidente é determinado por incontáveis fatores, que poderiam ter engendrado uma outra palavra completamente diferente. Assim como no século XIII se chamava giolho o que hoje é joelho, presidente poderia ser prasidente, presidante, presidinte, preposto, prepúcio, pitombas.
Por conseguinte, se o momento histórico pede que se proclame aos quatro ventos a importância de haver, pela primeira vez, uma mulher no comando do país, então presidente passa a ser, sim, uma palavra com flexão de gênero e as presidentas passam a ser uma realidade viva do mundo. Como as imperatrizes e as imperadoras.
Formação do professor
"A formação de um professor é construída mediante a soma de pelo menos três coisas: o que lhe ensinam, o que ele passa a saber em virtude de seu empenho e curiosidade, e, principalmente, o que aprendeu no ato de tentar ensinar."
1 In: Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 2ª edição, São Paulo: Publifolha, p. 26.
José Carlos de Azeredo1
1 In: Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 2ª edição, São Paulo: Publifolha, p. 26.
sábado, 30 de outubro de 2010
Despertar
Acordar num dia em que ainda podemos permanecer na cama. Ver aquela criaturinha se aproximar, abraçando-nos calorosamente e dizendo "Bom dia, papai. Você é muito importante para mim." Ficar surpreso com a inesperada declaração.
Ah, se todos os dias começassem assim!
Ah, se todos os dias começassem assim!
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