sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sessão de psicanálise III - A segunda temporada

[Alerta de spoiler! Um pequeno spoiler, que não revela o mais importante. Mas, se ler o texto na íntegra, não reclame depois.]

Órfão irresignado de Sessão de terapia, um dos melhores produtos de televisão brasileira, cujo encerramento prematuro, baseado sobretudo em custos de produção, deixou-me uma revolta sem cura, esta semana retornei ao seriado Psi, da HBO Brasil, como forma de tentar aplacar a minha síndrome de abstinência. As postagens abaixo mostram que Carlo Antonini nunca me estimulou tanto quanto Theo Ceccato, a começar pelo fato de que não acredito em psicanálise, mas a segunda temporada da série, ao menos a julgar pelo primeiro episódio, demonstra amadurecimento.

Quando a trama de Psi recomeça, um ano se passou desde os eventos da primeira temporada. O atormentado protagonista realmente se permitiu um ano quase sabático na Itália, junto a suas raízes, e provavelmente a experiência lhe fez bem. Digo isso porque ele se apresenta como um homem bem mais sensato agora, quando ao invés das irresponsabilidades do primeiro ano, ressurge como diretor clínico de um abrigo para mulheres vítimas de violência. Aliás, um senhor abrigo, com infraestrutura para colocar no chinelo muita clínica particular por aí. Inverossimilhanças de TV.

E este primeiro episódio abordou, justamente, o tema da violência contra a mulher, que está na ordem do dia. Nele, vemos a estória de Cecília, uma esposa que afirma vir sendo agredida moralmente há algum tempo, mas que chega ao estágio da surra violenta, a ponto de recorrer a ajuda médica. Mesmo assim, ela insiste em não promover medidas legais contra o pai de sua filha.

Pelo que entendi, o objetivo do roteiro era enfatizar a extrema resistência que muitas mulheres têm de responsabilizar seus companheiros, pelos mais diversos motivos. No caso de Cecília, o motivo alegado era a filha: o que ela pensará de mim se souber que mandei seu pai para a cadeia? A certa altura, Carlo fornece uma leitura psicanalítica para esse comportamento: Cecília acha que o marido bate nela porque se importa e isso seria uma expressão de amor, então ela não consegue desvencilhar-se dele. O rumo que os acontecimentos tomam, quando ela, já divorciada, vai atrás do ex, parece ratificar essa interpretação.

Na subtrama, vemos a filha do mantenedor do abrigo conversando com Carlo. Um ano antes, ela foi agredida pelo marido, que lhe arrancou um olho. Ela fala disso aparentemente sem mágoa. "Ele arrancou meu olho. Foi para a cadeia." Pronto. Parece que tudo está resolvido. Suas demonstrações de raiva recaem sobre a época em que eles ainda eram casados e se agrediam mutuamente. O ex-marido era um perdedor que nem se interessava sexualmente por ela, que o humilhava publicamente. Relacionamentos são assim, ela acredita. Então tá.

O fato é que o episódio "O abrigo" foi realmente muito bom. Gostei de sua condução, assim como da linguagem empregada. O aborrecido didatismo da série continua lá. A palestra inicial, a conversa com a jornalista e depois com um policial são os recursos encontrados para fornecer as explicações "técnicas", mastigadas, que o telespectador não descobriria sozinho. Mesmo assim, parece uma saída cênica menos forçada que as anteriores.

Destaco, quanto à linguagem, duas cenas. A primeira, logo no começo, expõe em off os gritos de Cecília sendo espancada. Enquanto isso, a câmera vaga lentamente pelos apartamentos em volta e vemos um casal reagindo àqueles sons, que eles sabem o que são, mas mesmo assim nada fazem. Eles parecem constrangidos em conhecer aquele segredo que não pode vir à tona. Uma cena brevíssima, mas eficiente em mostrar o silêncio cúmplice daqueles que conhecem casos de violência doméstica.

A segunda cena corresponde à imagem acima. Nela, vemos Cecília tomando café com o marido, após a surra (e após ter procurado ajuda, contando o ocorrido para estranhos). Como ficar indiferente? Como negar os sentimentos agudos em volta? O marido ensaia uma nova agressão e a mulher, apavorada, recua. Farelo de bolo se espalha. Ela se levanta, pega um pano e limpa o marido. Ele ri do farelo preso no cabelo comprido dela e ajuda a tirar. Ela descasca uma maçã e lhe serve. Ele come a fruta com uma raiva crescente e então explode: a segunda surra acontece. A maquiagem feita na atriz ficou muito convincente.

Enfim, os meandros da mente humana merecem muita atenção. Por isso, vale a pena ver Psi. Espero que os próximos episódios mantenham a qualidade.

Antecedentes no blog:

Postagem após ver um episódio: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2014/04/sessao-de-psicanalise.html

Postagem após ver toda a primeira temporada: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2014/06/sessao-de-psicanalise-ii-depois-do-fim.html

Novembro criminológico

Algo está acontecendo no cenário acadêmico paraense. Algo de importante, promissor e  assim espero  transformador. Porque, como afirmam os adeptos da Teoria Crítica, o conhecimento não se justifica por si só: ele precisa ser um elemento de transformação do mundo. E se há um campo que precisa ser mudado drástica e urgentemente é o das práticas punitivas. Precisamos de políticas públicas realmente sensatas, mas elas só começarão a surgir quando a própria sociedade mudar as concepções que hoje defende, o mais das vezes por pura ignorância, uma ignorância dolosamente forjada entre inúmeras agências, notadamente a mídia e políticos ordinários em busca de votos irracionais.

Mudanças profundas exigem conhecimento, reflexão e debate. Por isso, é valiosíssimo que, neste mês de novembro, tenhamos em nossa cidade nada menos do que três eventos dedicados especificamente ao estudo das criminologias.


Nos dias 19 e 20, o Grupo de Estudos e Pesquisas Direito Penal e Democracia, da Universidade Federal do Pará, que gentilmente acolhe acadêmicos de outras instituições, promoverá o seu IV Seminário, tendo como tema "Criminologias, punitivismo e mobilização: homenagem à Profa. Vera Pereira de Andrade", no auditório do Instituto de Ciências Jurídicas da UFPA.

Tudo me agrada neste evento, a começar pelo fato de que é uma construção dos estudantes, sob a condução da Profa. Luanna Tomaz. É extremamente importante conclamar os estudantes à ação, em vez de serem meros observadores de um processo de ensino-aprendizagem do qual eles são, na verdade, os protagonistas. Além disso, a percepção da alteridade e a proposta transformadora estão presentes desde o título do evento, deixando claro o que existe no DNA de quem se interessa por criminologia.

Organizado sob a forma de grupos de trabalho, o evento terá importantes painelistas (e eu lá no meio), organizados em mesas, conforme abaixo:

Punitivismo e resistência democrática ― Juarez Tavares (UERJ), Ernani Chaves (UFPA) e Marco Apolo (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos), sob a coordenação do Prof. Jeferson Bacelar (UNAMA).

Neoliberalismo, criminologia e subjetividades ― Flávia Lemos e Hélio Moreira (UFPA), Yúdice Andrade (CESUPA) e Max Costa (UNIPOP), sob a coordenação do Prof. Paulo Corrêa (UFPA).

Criminologia crítica e a política criminal sobre drogas ― José Araújo de Brito Neto (OAB) e Artur Couto (Frente Paraense de Drogas), sob a coordenação do defensor Público Vladimir König. Apesar de constar do folder, Salo de Carvalho (UFRJ), infelizmente, teve um imprevisto e não poderá comparecer.

Criminologia, cultura e resistência ― Adriana Facina (UFRJ), Tony Leão da Costa (UEPA), Francisco Batista (Comissão Justiça e Paz da CNBB e Tela Firme), sob a coordenação do Prof. Rômulo Moraes (UFPA).

Cidades rebeldes: território policiado ― Aiala Couto (NAEA), Jean-François Deluchey (UFPA), Jorge Lopes Farias (Comissão de Defesa da Igualdade Racial e Etnia da OAB/PA), sob a coordenação do advogado Lucas Sá (Instituto Paraense de Direito de Defesa).

Entre criminologias, mulher e o sistema de justiça criminal ― Vera Regina Pereira de Andrade (UFSC), Lourdes Barreto (GEMPAC) e Luanna Tomaz (UFPA), sob a coordenação da Profa. Lorena Fabeni (UNIFESPA).

Na oportunidade, a Profa. Vera de Andrade relançará o seu livro Sistema penal máximo x cidadania mínima: códigos da violência na era da globalização, um grande título da criminologia brasileira, que estava esgotado há anos.


Para maiores informações: 
https://www.facebook.com/Grupos-de-Estudos-e-Pesquisas-Direito-Penal-e-Democracia-194816343930223/?pnref=lhc

Nos dias 24 e 25, o Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região abrigará o II Fórum Internacional de Criminologia de Língua Portuguesa, sob o tema "Crime, justiça & latinidade: contribuições criminológicas". Trata-se de um evento da Associação Internacional de Criminologia de Língua Portuguesa com o apoio local do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará, à frente os professores Marcus Alan de Melo Gomes e Ana Cláudia Bastos de Pinho. Da comissão científica também faz parte a Profa. Cristina Sílvia Alves Lourenço (CESUPA).

Teremos, como conferencistas, Cândido da Agra (Portugal), Renato Campos Pinto de Vitto (Brasília), Vera Malaguti Batista (Rio de Janeiro) e Máximo Sozzo (Argentina). 

Como painelistas, teremos representantes de instituições ligadas à gestão criminal (Vladimir König e José Arruda da Silva, pela Defensoria Pública, o último também pelo Conselho Estadual de Política Criminal e Penitenciária); e Sumaya Saady Morhy Pereira (pelo Ministério Público do Estado); além de acadêmicos: Jorge Quintas (Universidade do Porto), Marília Montenegro Pessoa de Mello (UNICAP e UFPE), Ruth Estêvão (USP Ribeirão Preto) e Fernando Albuquerque (UFPA).


Para maiores informações: http://forum-aiclp.blogspot.com.br/

O evento internacional acima atraiu dois criminólogos com formação em História, o que lhes permite abordagens interessantíssimas para o nosso campo. Assim, o nosso Grupo Cabano de Criminologia Crítica, recentemente criado, aproveitou a oportunidade para convidá-los a palestrar no que será o primeiro evento científico de nossa realização.

Surgiu, assim, o "Seminário História, Criminologia e Crítica", que será realizado no dia 23 de novembro, no Auditório Prof. Ney Sardinha, do curso de Direito do CESUPA.

Os palestrantes serão Hugo Leonardo Santos, professor de Direito Penal e Criminologia da CESMAC/AL, que falará sobre "História crítica dos conceitos jurídico-penais", e Marco Alexandre Serra, professor da PUC/PR, cujo tema é "Percepções criminológicas quanto às revoltas populares no Brasil do século XIX". Ambos os palestrantes são doutorandos e têm obras publicadas.

Antes deles, falará um dos fundadores do grupo, Adrian Silva, mestrando pela UFPA e já ativo palestrante, para apresentar as nossas propostas de trabalho e estimular mais gente a se juntar a nós.


Para maiores informações: http://criminologiacabana.com/

Tenham certeza de que é um privilégio aprender com mentes tão privilegiadas e produtivas, nessa inédita e rara oportunidade de tê-las reunidas em nossa cidade. Afinal, fazer academia é difícil em si mesmo, mas é especialmente difícil em uma região como o Pará, prejudicada desde as distâncias colossais dos grandes centros até à falta de políticas públicas consistentes para o desenvolvimento de regiões como a nossa. Portanto, nós é que precisamos arregaçar as mangas e fazer acontecer.

Por oportuno, destaco a necessidade imperiosa de que cada grupo e cada instituição que trabalha com o conhecimento procure somar esforços, em benefício de todos. Precisamos estar realmente juntos nesta missão dificílima de transformar o nosso Estado em um autêntico celeiro de conhecimentos científicos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Entre caranguejos, amigos e lembranças

Somos uma família que recebe. Minha mãe se tornou uma pessoa dessas que sentia falta dos amigos e, vez por outra, inventava um almoço sem nenhum motivo além de reunir aqueles de quem se gosta. Sua casa era, de certa forma, um ponto de encontro. Houve épocas em que estranhávamos se não aparecia ninguém para almoçar por três, quatro semanas consecutivas.

A verdade é que minha mãe era um elemento agregador. Mesmo que fossem os amigos dos filhos, ela era o amálgama da casa, para tudo. Houve quem nos dissesse, durante os funerais, "não se esqueçam de nós", justamente pela percepção de que, sem ela, estaremos mais dispersos. A partir de sua ausência, portanto, tornou-se difícil pensar na ocorrência desses encontros, mesmo que todos saibamos o quanto eles são importantes para todos nós.

Ontem, pela primeira vez em algumas semanas, tivemos um encontro desses. E ele surgiu de maneira absolutamente espontânea. Minha esposa e tia, irmã de minha mãe e que com ela morou desde os 10 anos, decidiram comer caranguejo. Era apenas o nosso almoço de domingo, mas elas decidiram convidar duas pessoas muito próximas, que também apreciam a iguaria. Isso implicaria em dois maridos e duas crianças. Então mencionei uma família querida, que já vinha demandando se reunir a nós, justamente os amigos que estiveram conosco em Mosqueiro, no dia 27 de setembro, o último momento feliz de minha mãe.

Acabamos então com 12 visitantes para o almoço, compartilhando caranguejos graúdos, saborosos e cuja carne se soltava facilmente, um feijão maravilhoso, carne para as crianças, sobremesa. Apenas mais um almoço típico em nossa família. Mas era diferente, pela ausência, dura como rocha.

Anos atrás, tomei conhecimento de um samba famosíssimo, gravado por vários artistas conhecidos de antigamente, tais como Elizeth Cardoso, que o popularizou, Nelson Gonçalves e Clara Nunes. Chama-se "Naquela mesa". Informa-me a Wikipedia que se trata de uma composição de Sérgio Bittencourt, filho do conhecido músico Jacob do Bandolim, que compôs sob o impacto da morte de seu pai.

Quando escutei o samba pela primeira vez, fiquei muito emocionado. E olha que, naquela época, minha mãe nem doente estava. Felizmente, não me lembrei do samba ontem. Lembrei só agora, ao escrever estas linhas. Basta conhecer a letra para saber o motivo.

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor,
Naquela mesa ele contava estórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente e contava contente
O que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto doi a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele
Tá doendo em mim

sábado, 7 de novembro de 2015

Um shopping e duas crônicas de Júlia

Desde março de 2014 não publico nenhuma das historietas proporcionadas por minha filha, com suas tiradas e provocações. Abstraindo os motivos para tanto, quero compartilhar dois episódios ocorridos ontem, quando uma contingência de origem escolar me levou a um dos shoppings da cidade, acompanhado da dita cuja.

I

Júlia se interessou pela decoração natalina, uma imensa árvore instalada sobre um iglu. Já estávamos de saída, subindo de escada rolante. A cada lanço de escada, ela parava e olhava mais um pouco, o que estava me atrasando e aborrecendo. De repente, ela soltou uma exclamação irritada e me disse que precisávamos falar com alguém que cuida da decoração do shopping. Eu me aproximei e ela disse:

 Veja! ― Apontou, para baixo, um dedo enérgico.

― De que você está falando? ― Perguntei porque ainda não identificara o motivo da reprovação.

― No Polo Norte não existem pinguins!

Olhei melhor a decoração e vi que, em volta do tal iglu, havia estátuas de pessoas vestidas de esquimós (inuit é o termo adequado), ursinhos polares e pinguins (os ursos, por sinal, bem menores do que os pinguins). Júlia ficou furiosa porque, como você bem sabe, no Polo Norte existem ursos polares, porém não pinguins. E no Polo sul existem pinguins, porém não ursos polares. E Júlia, assim como o pai, não tolera esse tipo de erro, uma clara demonstração de preguiça: montaram a decoração em cima de um clichê, sem nenhuma pesquisa.

Só para constar, Júlia aprendeu essa informação em uma das fontes mais ricas de conhecimento para as crianças brasileiras: um gibi da Turma da Mônica. Na estória, Franjinha explicava noções de geografia para a turminha e Cebolinha ficava zoando Mônica, que errava tudo o que dizia, inclusive comentários sobre os aludidos animais.

Também para constar, eu não procurei o SAC para reclamar da decoração. Mas bem que Júlia queria.

II

Júlia pediu para brincar no malsinado iglu. Olhei para a desgraça, lá embaixo, enquanto estávamos a um lanço do guichê de pagamento do estacionamento. Neguei e disse que, com certeza, alguém estava cobrando ingresso para alguma coisa boba.

― Como você sabe que é pago? ―  protestou a pequena.

― Ora, porque tudo custa dinheiro na vida ― respondi.

― Isso não é verdade! Será possível que tudo tem que custar dinheiro?! Isso não é certo!

―  Mas, infelizmente, minha filha, é assim.

Júlia me lançou um olhar inconformado e percebi que ela queria desafiar o meu argumento. Começou assim:

― A gente paga para nascer?

― Para nascer em si, não. Mas hoje em dia precisamos de dinheiro para pagar um plano de saúde e, com isso, ter direito a consultas médicas, exames, parto. Também precisamos comprar remédios, etc.

Por não retrucar, percebi que ela não tinha argumentos para aquela questão. Então apelou para o que, provavelmente, seria o seu trunfo:

― A gente paga para morrer?

― Nós precisamos de dinheiro para comprar um caixão e o lugar onde a pessoa será enterrada. E se quisermos algum tipo de cerimônia, isso custa dinheiro também.

Júlia ficou visivelmente amuada. Talvez, aos 7 anos, ela finalmente esteja começando a entender que a vida tem ônus que, até aqui, ela ignorou. E, admito, em geral sou muito seco para lidar com questões práticas. Fui criado por uma mulher que, com a melhor das intenções, deixou pouco espaço para a fantasia. Eu, pelo menos, deixo que minha filha seja simplesmente uma criança, então mudei o rumo da prosa, até porque tinha o meu próprio trunfo: um presentinho, que obviamente, também custou dinheiro para mim. E, para Júlia, a submissão a algumas ordens, tais como dizer que todos os personagens de My little pony são horrorosos. O que uma criança não faz por um presente?!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Dia 3

Em algum momento, o dia 3 do mês deixará de ser uma sombra triste. Mas hoje, em especial, ele marca exatamente o primeiro mês de ausência de nossa mãe, então é uma data soturna, que potencializa essa perene sensação de estranheza.

Mas as lamúrias precisam parar. Este é apenas um registro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dias de finados passados e o atual

Em 2007, publiquei alguns poemas demonstrando visões artísticas sobre o dia de finados:

  • Um haicai do chinês Bashô, de antes de Cristo: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/11/dia-de-finados-bash.html
  • Dois textos da poetisa portuguesa Dalila Teles Veras: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/11/dias-de-finados-dalila-teles-veras.html
  • Um poema do brasileiro Manuel Bandeira: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/11/dia-de-finados-manuel-bandeira.html
  • E uma bela contribuição do poeta argentino Jorge Luís Borges: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/11/dia-de-finados-jorge-lus-borges.html
Sempre fui atraído por assuntos ligados à morte; sou de cemitérios e arte tumular. Mas, até então, era apenas curiosidade. Há quase 11 anos, senti pela primeira vez o gosto amargo de uma perda realmente doída. E há meros 30 dias, minha mãe deixou este plano, colocando-me em um vazio que arte alguma expressou até o momento. 

Somos um país de colonização portuguesa e, por isso, com forte influência do catolicismo. Devido a isso, de geração a geração, somos ensinados a promover o culto ao sofrimento, ao jejum, aos sacrifícios. Somos ensinados de que a alegria e o prazer são venenosos e devem ser contidos, porque paira sobre nós um Senhor dos Exércitos, pronto a justiçar qualquer mau passo e colocar a vingança na conta do nosso próprio livre arbítrio. Vendo reportagens sobre o dia de finados, feitas hoje, pude ver como essas ideias são arraigadas entre nós.

Museo de las Momia de Guanajuato: de repente, senti vontade de visitar
o México. Saiba mais em http://www.momiasdeguanajuato.gob.mx/index.html
Em um dia como hoje, sinto inveja dos mexicanos. Como eu já sabia e esta reportagem aqui ajuda a esclarecer, desde cedo eles são educados sob a compreensão de que a morte faz parte da vida; não adianta nem é razoável temê-la e sofrer por ela.

O dia de los muertos é um dos momentos mais gloriosos da vida mexicana, um dia em que se lembram as pessoas amadas que já partiram, com festa, comida e estímulo ao senso de família. É apoteótico. Tem os seus exageros, claro, como mandar limpar os ossos inumados a cada dois anos, mas é também libertador.

Se não fôssemos doutrinados a estacionar na dor, seria mais fácil fazer o caminho da esperança.

domingo, 1 de novembro de 2015

Necessárias tintas vermelhas ― Sugestão de leituras críticas


Preocupadas com a necessidade de suscitar debates sobre temas pouco explorados e, em geral, dominados pela ignorância e pelo preconceito, a Boitempo Editorial e a Carta Maior lançaram, em 2012, a coleção Tinta Vermelha, autodefinida como um conjunto de "obras de intervenção e teorização sobre acontecimentos atuais". Bem na linha crítica segundo a qual mais importante do que explicar a realidade é transformá-la, ou seja, nós estudamos e teorizamos sempre com a intenção de modificar o que precisa ser mudado na sociedade.

A editora explica que o título da coleção alude ao discurso do filósofo esloveno Slavoj Žižek, aos participantes do Occupy Wall Street, ocorrido na Liberty Plaza, Nova Iorque, em 9.10.2011, que se tornou um marco porque originou um novo modo de fazer protesto popular, tendo como foco as políticas neoliberais que regem o mundo. Disse ele: "Temos toda a liberdade que desejamos ― a única coisa que falta é a 'tinta vermelha': nos 'sentimos  livres' porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade".

A proposta de esquerda fica clara no próprio modo de produzir a obra coletiva: a partir da seleção do tema, alguns autores são convidados a produzir seus artigos, mas os direitos autorais são cedidos (assim como sobre fotografias) e o responsável pela arte gráfica também abre mão de remuneração, tudo para baratear o preço de venda ao público, permitindo maior difusão das ideias. Nem por isso a qualidade cai.

A obra de lançamento (2012) teve como tema Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que me foi apresentada por minha querida monitora Vitória Monteiro e por ela utilizada em sua excelente monografia de conclusão de curso, assim como o título seguinte, Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (2013). Depois vieram Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? (2014) e, finalmente, Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (2015).

Acabei de ler Bala perdida, uma interessante compilação sobre violência policial, a violência que tanto é legitimada pelo Estado por meio de mentiras sobre fatos (os autos de resistência são a expressão formal mais extrema disso) e ideologias ligadas ao tema da segurança pública quanto, sobretudo, pela própria sociedade, tendo em vista um fenômeno que considero da maior importância em nosso tempo: a legitimação social da barbárie pela progressiva perda dos vínculos comunitários, o que repercute na produção de normas jurídicas crescentemente negadoras de direitos fundamentais.

Bala perdida reúne 17 ensaios breves, que dão voz não apenas a estudiosos, profissionais e acadêmicos, mas também aos familiares das vítimas da violência policial e a um oficial da própria Polícia Militar. As abordagens versam sobre a falência do modelo organizacional adotado no Brasil, herança dos desvarios dos militares que comandavam o país sob a forma de um Estado de exceção: foi em 1970 que surgiu a Polícia Militar, como força auxiliar do Exército, treinada para a solução de conflitos pela lógica do enfrentamento bélico ― algo completamente incompatível com um Estado democrático de Direito.

Além disso, a obra também versa sobre a violência inerente às práticas policiais, a guerra às drogas, a militarização do cotidiano e a exploração midiática, terminando com uma comovente narrativa sobre mais uma das vítimas do que, não à toa, Zaffaroni chama de genocídio ― que, em nosso país, assume a feição de extermínio institucionalizado de jovens pobres e negros (ou, como diriam Caetano e Gil, "quase pretos de tão pobres").

De modo mais pontual, esta leitura fornece importantes informações para entendermos a importância da desmilitarização da polícia, proposta com a qual mais de 74% dos membros da própria PM concordam (exceto, como é previsível, entre os oficiais de mais alta patente, sequiosos de conservar seus privilégios). Esse é o conteúdo da Proposta de Emenda à Constituição n. 51, de 2013, que teve como última movimentação uma audiência pública em 21 de outubro passado. Trata-se da mais completa proposta disponível sobre unificação das carreiras das polícias civil e militar, que hoje estão organizadas de modo a competir e a atrapalhar uma à outra, sendo essa uma das causas dos números pífios de elucidação policial de crimes no Brasil, abaixo de 10%.

A quem se interessa pelos temas e pelo tipo de abordagem, vale muito a pena ler.

Em tempo:

Justamente hoje, o Empório do Direito publicou artigo contendo uma crítica feroz aos principais aspectos da PEC acima referida: a desmilitarização e a unificação das polícias, estabelecendo o chamado "ciclo completo", por meio do qual a mesma corporação exerceria as atividades de policiamento ostensivo, prevenção e investigação criminal (leia aqui). Invocando fundamentos da criminologia crítica, o autor sugere deslumbramento e ingenuidade por parte de quem defende essas propostas, desde a premissa de que seriam meras importações acríticas de modelos estrangeiros, algumas oriundas de países subdesenvolvidos.

Como acadêmico, entendo ser da maior importância debater os diferentes enfoques que um tema permite, ainda mais em se tratando de questão assaz delicada e polêmica. São oportunos os senões suscitados no artigo, mas devo admitir o meu saco cheio com essa mania de criticar o status quo, criticar a crítica e depois criticar a crítica da crítica, que nos mergulha em uma regressão infinita que somente poderia interessar a quem não tem um problema a resolver.

Parece-me bastante óbvio que qualquer assunto sempre pode ser aprofundado em um nível mais sutil do que o da discussão atual. Contudo, as grandes mudanças que o país reclama exigem tempo para virarem leis e, depois, para serem implementadas. Precisamos começar em algum momento. Não podemos permitir que vidas continuem sendo perdidas a rodo enquanto não atingimos o nível de satisfação plena dos teóricos (nível que, provavelmente, não existe). Estamos cientes de que mudanças estruturais nas polícias são insuficientes para resolver o descalabro que vivemos, mas entendo que são medidas importantes e urgentes. No mesmo livro Bala perdida, Maria Lúcia Karam é enfática em asseverar que, sem o fim da política de guerra às drogas, a desmilitarização seria inútil. Mas ela não menospreza a desmilitarização por causa disso.

Então este é o meu ponto: precisamos fazer alguma coisa já. Muito ajudaria, ao menos, que os críticos das propostas existentes fizessem algo mais do que criticar e oferecessem alternativas concretas, viáveis, ao quanto está posto.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

"Há mortes..." (até em hospitais)

Não compro esse discurso barato de insegurança pública, de onda de crimes e outros que tais com que a imprensa nos bombardeia, em sua faina diária de potencializar dificuldades para que seus clientes vendam as facilidades, sejam esses clientes empresas de alarmes, monitoramento eletrônico, cercas eletrificadas ou blindagem de veículos, sejam eles políticos populistas à cata de um mandato eletivo, para comporem as tais bancadas da bala, em geral compostas por quem não poderia admitir publicamente tudo o que já fizeram em suas trajetórias.

Entretanto, tomei conhecimento também com medo, e não apenas com tristeza, de que ontem um rapaz foi assassinado por fuzilamento dentro de um hospital, em pleno centro da cidade. Bastaria isso para apavorar qualquer um, mas piora quando sabemos que o rapaz estava preso e vigiado por dois policiais militares; que cinco homens encapuzados e armados adentraram uma casa de saúde frequentada todos os dias por um sem número de usuários, de todas as idades, e perpetraram essa barbaridade. Isso nos transmite uma sensação terrível, porque nos mostra como as nossas vidas não valem nada para esses sociopatas. Afinal, basta que você veja algo que não devia para se tornar novo alvo, além do risco de danos colaterais.

Sei que a conversa inevitavelmente cairá na questão de que o alvo era um "bandido", suspeito de participação no homicídio de um policial. Sei que o caso será tratado como justiçamento de vagabundo e, apenas por isso, já ganhará a simpatia e o apoio de uma expressiva parcela da população  que eu, em meus delírios, de bom grado amarraria dentro de um foguete e despacharia na direção de um buraco negro (para testar se eles levam mesmo a outra dimensão: benefício científico) ou do Sol, para um bom derretimento.

Já soube de casos assim acontecendo em cidades como o Rio de Janeiro. Pessoalmente, desconheço algo do gênero aqui em Belém, em tempos recentes, embora não me surpreenda que o episódio de ontem esteja longe do pioneirismo. A preocupação é que o evento isolado vire tendência, o que seria muito fácil em uma sociedade permissiva e violenta, nos seus modos de agir e em sua capacidade de justificar o horror.

Por tudo, gostaria de deixar uma questão absolutamente esclarecida: eu não gosto de violência. Não a tolero, não a minimizo, não a justifico. E a violência a que me refiro é... qualquer uma! Porque o que se segue a esse tipo de tragédia urbana são novas truculências, como os discursos de legitimação da barbárie e a inacreditável polarização maniqueísta dos "bons" e dos "maus". Se critico a morte de um bandido (será que era? e mesmo que fosse), é porque sou de esquerda, babaca, fora da realidade, mereço ser assassinado e ter as mulheres de minha família estupradas e torturadas, etc. Depois vem o discurso sobre ninguém lamentar as mortes de policiais em serviço. Pois aqui vai o reparo: sim, eu lamento muito as mortes de policiais em serviço, fora dele ou por causa dele, pelo simples fato de que são gente, também.

Estou cansado de ver vidas humanas sendo desperdiçadas todos os dias, aos montes, sem que quase ninguém se importe com isso de verdade. Gente que teve nome, família, amigos, história e, talvez, até sonhos por realizar. E tudo isso se perdeu. Não importa de onde essas pessoas saíram; todas mereciam uma chance de autorrealização e de felicidade. Mas se fomenta uma cultura de ódio e de beligerância, que a alguém beneficia sem dúvida, e que vai apagando a humanidade e nos transformando em uma grande sociedade distópica de filmes de ficção científica. Um lugar onde ninguém quer viver.

Então qual é a sua? Vai continuar aceitando justificativas ou vai finalmente entender que o objetivo não pode ser vencer uma guerra? Não precisamos de uma guerra. Não vivíamos assim antes. Podemos restaurar ou, o que é mais provável, construir vínculos comunitários. Mas é preciso querer. E, para tanto, é preciso enxergar os outros como iguais.

Quem está disposto?

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Sobre o renovado título da postagem: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2015/05/ha-mortes.html

No blog, em 2012: http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/07/violencia-policial.html

sábado, 17 de outubro de 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Estranheza

E vamos chegando a duas semanas sem ela. Irrealidade, saudade difusa, tristeza reprimida, sensação de estar perdido em um labirinto...

Resta-me aplicar a mesma técnica de quando me batia: reprimir o grito e esperar a dor passar. O tal do tempo talvez seja, como dizem, senhor da razão.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

sábado, 10 de outubro de 2015

Sobre as almas humanas

No sábado passado, precisamente, a esta hora da manhã, fazia menos de três horas que minha mãe havia partido. Eu estava plenamente consciente de tudo, calmo, apto a tomar as providências do velório enquanto meu irmão ajudava na preparação hospitalar do corpo. Após cinco dias de internação e um quadro de sofrimento agudo, não responsivo e não comunicativo, não havia lágrimas a derramar; apenas a certeza de que precisávamos tomar os últimos cuidados com o corpo de nossa mãezinha. Ela mesma não estava mais ali.

Salvo inevitáveis comoções em alguns momentos, normalmente ao entrar em contato com pessoas queridas, algumas das quais eu não via há bastante tempo, fiquei sob controle, conseguia conversar, raciocinava com clareza. Mas houve um momento em que a surpresa me provocou uma reação mais intensa e não pude reprimir as lágrimas. Eu falava com uma família amiga, que se esforçava por me animar, quando reparei, de soslaio, a chegada de uma coroa de flores. A faixa nela dizia: "Abraços e consolações. De seus eternos alunos da DI6TA."

Para quem não sabe, a disciplina que eu leciono (direito penal) se desenvolve ao longo de quatro semestres letivos, o que me permite uma longa convivência com as turmas. É possível criar laços profundos, se você estiver aberto a isso. Esses alunos, portanto, entraram em minha vida em agosto de 2013, quando eu era feliz e não sabia. Foi em janeiro de 2014 que recebemos a notícia sobre a doença de nossa mãe. E depois do susto e de alguns meses de suposição de cura, a partir de outubro as más notícias começaram a chegar. E não pararam mais. Mergulhamos na mais avassaladora rota descendente que se pode imaginar.

Resulta daí que esses alunos acompanharam todas as fases do nosso tormento. Eles me acolheram em dias preocupados, em dias ruins e em dias piores ainda. Houve ocasiões em que eu entrava em sala no automático, para conseguir ministrar minha aula, mas não conseguia conversar além disso. No último mês de junho, eles me proporcionaram uma linda despedida, que aliviou meu coração em um momento em que ainda lutávamos contra o câncer, mas já sabíamos que nossa mãe estaria conosco por pouco tempo e, inclusive, já nos perguntávamos se ela chegaria até o natal, p. ex. As outras duas turmas de penal IV tiveram idêntico carinho, preciso registrar.

E em 3 de outubro de 2015, mais de três meses após o término dos nossos trabalhos, esses alunos me enviam uma consolação, levada pelas mãos de Ana Carolina Albuquerque, que ali se encontrava para falar comigo. E eu precisei chorar, porque era como se alguém agarrasse meus ombros e me admoestasse, dizendo "Pare de reclamar! Ainda existe muito amor a sua volta e você só sabe se lamentar!"

O significado daquele gesto talvez nunca seja expresso aos meus eternos alunos. Ainda nem pude ir até a sala deles para agradecer, porque provavelmente não conseguiria falar. Então, neste dia que marca a primeira semana do nosso luto, cumpro o meu dever de registrar este agradecimento, que a Internet leva sem o comprometimento trazido pelos soluços que ficam por trás do teclado.

Aí veio a segunda-feira e um monte de gente me instava a não trabalhar, a começar por minha esposa. Afinal, a lei me confere o direito de gozar a licença-nojo, decorrente do luto por um parente próximo. Mas qual seria a alternativa? Ficar em casa remoendo pensamentos? Sei exatamente onde isso acabaria. Então me levantei e fui ministrar minha aula.

Agora o cenário é outro. Saíram as três turmas de penal IV e entraram três de penal I. São alunos novos, no curso e na vida. Conheceram-me na fase do desalento, quando eu já nem falava mais sobre a doença de nossa mãe, para não incomodar ninguém com minhas sombras. Quando estritamente necessário, eu mencionava "problemas de doença na família", mas de algum modo, claro, eles souberam que esses problemas eram um pouco mais sérios do que sugerido por minhas meias palavras.

Havia uma certa agitação na sala, naquela tarde, enquanto eu explicava a teoria da equivalência dos antecedentes causais. Isso me atrapalhava um pouco, mas não sou de ficar reclamando: sigo minha aula para quem quiser. E foi ótimo eu não ter reclamado, porque os alunos não me estavam atrapalhando. Muito ao contrário, estavam me ajudando. Eles correram folhas de papel, para que mensagens me fossem escritas. Ao final da aula, vieram me entregar. A voz na minha cabeça se manifestou de novo: "Eu não disse?Eu não disse?"

Agradeci com um movimento de cabeça, porque não poderia falar. Estava decidido a ler somente em casa, pois intuía que ficaria sem condições para a aula seguinte. Mas a curiosidade venceu e li as três folhas de papel. E elas me fortaleceram. Deixaram-me um pouco mais apto a seguir com a aula seguinte e a outra e o resto da semana. E o resto da vida. Agradeci a eles na aula seguinte. Guardarei as três folhas de papel como se fossem uma medalha por alguma coisa importante que fiz. Mas a única coisa que fiz foi ter a sorte de ser acolhido por tanta gente boa e generosa.

Como tenho dito, jovens que renovam minha esperança quanto ao futuro do mundo. Alunos de ontem e de hoje, que reforçam uma das poucas certezas que nunca foram questionadas em minha vida: eu precisava ser professor. Com a docência, gerações de seres humanos se sucedem, permitindo-me estar sempre ao alcance dessa energia renovável magnífica: a alma verdadeiramente humana.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mais um exame da OAB

Durante a tarde de hoje, começaram as comemorações. Mais uma vez, o nosso ambiente acadêmico, assim como o virtual, das redes sociais, encheu-se de alegria pela divulgação dos nomes dos aprovados no mais recente Exame de Ordem.

A lista abaixo reúne os nomes de ex-alunos nossos, assim como de ainda alunos nossos, que passaram por nós em sala de aula, em defesa de monografia ou outras atividades. Esse contato mais pessoal aumenta a nossa alegria, como educadores, por isso faço questão de me congratular com eles:

Agna Christy Marim de Almeida
Aline Cristina Bordalo de Souza Vieira
Ana Carolina Cavalcante da Silva
Ana Carolina Rodrigues da Silva
Ana Cristina Bentes Barbalho
Anna Caroline Ferreira Lisboa
Anna Laura Ferreira de Araújo
Antonio Alberto Maués Ramos
Arthur Calandrini da Silva Neto
Bruno Cunha Moutinho
Bruno Sodré Leão
Camila Rossas Moraes
Daniele Valle Sizo Fidalgo
Diego Siqueira Rebelo Vale
Éder Victor Oeiras Leite
Elyson Gabriel Carvalho da Conceição
Elza Maroja Kalkmann
Emy Hannah Ribeiro Mafra
Gabriela Teixeira Cunha
Gisany Pantoja Quaresma
Iago da Cunha Cardoso Silva
Irlane Ribeiro Dias
Izabela Lima Evangelista da Rocha
Jéssica Maria Alves Pereira dos Santos
Leonardo Souza Silva
Lika Narita
Matheus Braz da Silva Azevedo
Melissa Mika Kimura Paz
Paulo Borges Leal Mendes
Priscilla Borges da Silva
Renan Daniel Trindade dos Santos
Stélio da Costa Sarges
Suanan Costa Collere
Tales Efraim Peres Falqueto
Thamires Martins de Azevedo
Waldir Macieira da Costa Neto
Yasmin Nazaré Lobato Maués

Meus melhores votos de sucesso na nova carreira, que para alguns pode ser iniciada imediatamente e, para outros, ainda precisará esperar nada menos do que o restante de todo o semestre letivo e a colação de grau. Sem dúvida, contudo, que deve fazer um bem enorme saber que, quando o grau chegar, já se poderá exercer a profissão escolhida e cuidar do futuro que nos abraça.

Sejam sempre muito felizes.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Agradecimentos post mortem

Enfim, a hora chegou. Nossa mãezinha partiu por volta de 7h30 do último sábado, dia 3, após uma penosíssima trajetória de um ano e nove meses de luta contra um câncer, mas também contra uma série de comorbidades que tornaram o seu tratamento ineficaz. Foram nove internações, algumas dezenas de sessões de rádio e braquiterapia, dois protocolos diferentes de quimioterapia (um terceiro negado) e uma quantidade literalmente incalculável de consultas, exames e procedimentos.

Pode-se dizer que, de algum modo, ficamos bem familiarizados com o ambiente de tratamento de saúde e lidamos com diversos profissionais. Sabemos que existe um processo acelerado de desumanização no exercício da Medicina; que muita gente escolhe essa carreira por status e dinheiro; que o paciente está valendo cada vez menos. Por isso mesmo, neste momento, sinto-me no dever de honrar alguns dos profissionais que são Médicos maiúsculos, de competência testada e comprovada mas, acima de tudo, dotados daquilo que se espera de um verdadeiro médico: a espontânea preocupação em fazer o melhor pelo paciente.

Ainda na clínica Uronefro, onde nossa mãe fez hemodiálise de janeiro de 2014 a julho de 2015, fomos acompanhados pela nefrologista Myrtes Martins, à frente de uma equipe também competente e dedicada, que passa pelos demais nefrologistas, time de enfermagem, psicóloga, nutricionista, recepcionistas, porteiros, etc. Nós fomos tratados com carinho genuíno na clínica e somos muito gratos por cada gesto de atenção. Notadamente em relação a Myrtes Martins, agradecemos sua diligência e compromisso, conseguindo salvar a vida de nossa mãe não uma, mas três vezes, nos sucessivos episódios de edema agudo de pulmão.

Já no Hospital Saúde da Mulher, o neurocirurgião Fernando Santos foi a síntese do que um médico deve ser. Em novembro de 2014, atendeu minha mãe e percebeu a gravidade de sua situação. Quis interná-la imediatamente e se esforçou por realizar a cirurgia, dificultada por erros administrativos. Quando a cirurgia efetivamente aconteceu, foi um craque. Retirou o máximo que pode de um tumor metastásico que envolvia os ossos do sacro. Devido à ser uma região repleta de nervos, todo tipo de sequela poderia aparecer: perda de movimentos, incontinência urinária, etc. e etc. Mas a cirurgia foi perfeita. No entanto, o que me comoveu profundamente foi o dia em que ele entrou no apartamento do hospital e, ao ver minha mãe, exclamou: "Agora sim! O que eu queria era ver a senhora sorrir de novo!" Encontrei-me com ele na semana passada, casualmente, quando mamãe ainda vivia, e lhe reiterei nossa imensa gratidão por ser um médico que coloca o paciente em primeiro lugar.

Em dezembro de 2014, chegamos até a oncologista Danielle Feio, que se tornou nossa parceira e enfrentou conosco o tratamento quimioterápico que, infelizmente, não funcionou. Suas consultas eram longas, com explicações minuciosas, o que nos permitiu desenvolver grande confiança em seu trabalho. Até o último instante, cuidou do nosso "vaso que podia quebrar a qualquer momento", mas não quebrava. Respondia nossas perguntas, aceitava nossas mensagens via WhatsApp em pleno final de semana e, por fim, ao decidir utilizar um terceiro e derradeiro protocolo de quimioterapia, com uma droga off label para o tipo de câncer de nossa mãe, explicou-nos detalhadamente os motivos, que comprovou com estudos, mostrando-se competente e atualizada. Minha mãe confiava e gostava dela. Claro, foi tratada com dignidade e afeto legítimos. Já é possível fazer um bom tratamento oncológico em Belém. Infelizmente, o corpo de nossa mãezinha não tinha condições de resistir.

Por fim, já nesta reta final, a geriatra e paliativista Raquel Loiola, mesmo quando ainda supúnhamos ser possível garantir alguma sobrevida a nossa mãe, com alguma qualidade, deixou claro que podíamos trabalhar para deixá-la em casa, em condições dignas. Nada de medidas agressivas e inúteis. Nada de potencializar o sofrimento. Nesta última semana, quando se tornou evidente que a hora da morte estava à porta, ela nos explicou o significado e a utilidade (ou total falta dela) de cada tratamento, deu-nos opções e permitiu que decidíssemos o melhor (possível, no contexto) para nossa mãe. Com sua voz mansa porém firme, preparou-nos para o que vinha e garantiu que minha mãe fizesse sua passagem sem ser mais maltratada, ao lado da família.

Eu gostaria que todos os médicos fossem como esses quatro que citei. Mas não são. Há aqueles que dizem ser impossível aplicar quimioterapia em um doente renal crônico e que se recusam a aceitar a sugestão dos filhos, por duas vezes, de requisitar um PET-Scan. São esses que permitem um quadro de metástase se instalar livremente, sem combate, levando a paciente ao desespero da dor e, mais à frente, à irreversibilidade do quadro.

Também há os ultra-arrogantes, que operam uma paciente sem jamais ter um contato com a família, sem explicar o que fariam, e acabam por colocar um cateter errado nela, colocando-a em risco real de morte porque foi impossível dialisar. São esses que obrigam a uma internação que, sem esse erro, simplesmente não aconteceria e, mesmo assim, jamais pedem desculpas e olham os filhos com desprezo no corredor, porque exigiram que o conserto fosse feito por outro angiologista. Que, por sinal, também teve suas falhas e, para corrigi-las, reposicionou o cateter a sangue frio, puxando, fazendo nossa mãe gritar de dor.

E há o pessoal da enfermagem, que amarra uma paciente lúcida no leito de UTI, onde estava emocionalmente desgastada e sozinha, absolutamente vulnerável, apenas porque não gostou de seu tom. Felizmente, apenas uma fruta podre em meio a uma equipe de enfermeiros e técnicos muito dedicados, carinhosos e simpáticos, cujos nomes não consigo reter dada a maior quantidade, ao rodízio e à perturbação em que sempre nos encontrávamos quando nossos caminhos se cruzavam.

E é isso. Não sou amigo destes médicos, pessoalmente ou pelas redes sociais. Tentarei levar a eles estas palavras mas, acima de tudo, guardem seus nomes. Espero que não precisem deles!!! Mas saibam que existem sim, em Belém, médicos humanos, verdadeiros e merecedores de todas as homenagens.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Primeiras provas

Ter uma turma de Direito Penal I significa muito para mim. Minha disciplina se desenvolve em quatro semestres, mas o primeiro é o mais complexo e o de que mais gosto. Além disso, existe um componente particularmente melindroso: a necessidade de ganhar o público, de conquistar os alunos para o tipo de reflexão que precisamos fazer em um campo tão duro e problemático, tão influenciado pelos mais crueis enviesamentos. Sempre acreditei que, ou eu ganho essa plateia agora, ou será muito mais difícil no futuro.

Resulta daí que me preocupo demais com as abordagens que farei, com as leituras que indicarei, com a seleção de casos reais para análise, que serão debatidos em sala de aula ou utilizados nas provas. Acabei de elaborar a última prova de primeira avaliação de Penal I, que será aplicada logo mais, à noite. Em minha percepção, provas bastante acessíveis, enfatizando os aspectos mais importantes do que analisamos até aqui, sem surpresas nem alardes. Mas, acima de tudo, calcadas sobre aspectos palpitantes da realidade atual.

Nas duas provas já aplicadas, levei os alunos a refletir sobre o Estado Islâmico e sobre a atual política de "segurança pública" carioca, que tenta impedir o acesso de jovens negros às praias da Zona Sul. Assuntos que estão aí, na ordem do dia, tornando-se parte da rotina dos acadêmicos. O tema escolhido para a última prova, claro, não será mencionado, já que a prova ainda é inédita. Mas seguimos no campo das urgências reflexivas, que precisamos incutir na cabeça dessa garotada que está aí, começando a se familiarizar com o direito.

Penso que uma abordagem baseada em casos concretos é muito mais instigante e produtiva. Eu, particularmente, sentia grande prazer quando me descobria capaz de interpretar um caso que chegava ao meu conhecimento. Imagino que para os demais estudantes seja assim também. Você se descobre apto para fazer análises jurídicas, para pensar em soluções. Isso proporciona uma agradável sensação de crescimento.

Espero que os resultados sejam bons e que, doravante, seja uma rota sempre ascendente.

Sobre a noite passada

Minha mãe está internada pela sétima vez este ano. Somando-se esses eventos aos dois do ano passado, pode-se dizer que já tenho algum know how como acompanhante hospitalar. A experiência acumulada não me ajudou, todavia, a enfrentar a noite de 29 para 30 de setembro de 2015.

Com um quadro de metástase avançada, que compromete seus pulmões, minha mãe está basicamente debilitada ao extremo, em todos os sentidos possíveis. Foi internada para que os médicos tentassem melhorar... tudo, digamos assim. Ou o que for possível. Para deixá-la confortável, sobretudo respirando melhor, para que consiga dormir.

O fato é que, seja por causa de doença, seja por conta da medicação, ela está sonolenta, inerte, não reage a estímulos. Até nos reconhece, sabe dizer onde está, mas a maior parte do tempo parece transportada para outra dimensão, isso quando não adormece profundamente. À noite, foi mergulhando em um sono tão inalcançável que comecei a ter medo real do que aconteceria. Já vi um quadro parecido, 11 anos atrás. Alguém que foi parando, parando, até que resgatá-la não era mais possível. Alguém que eu amava. Amo.

Chamei a enfermeira. Ela veio conferir os sinais vitais. Depois veio o médico plantonista. Decidiu manter as prescrições já feitas até reavaliação, pela manhã, a ser feita pela médica paliativista que está acompanhando o caso. Nada me restava a não ser sentar ao lado da cama e esperar, desejar que a noite não nos trouxesse pesadelos. Observando minha mãe ali, acompanhava sua respiração, único indicativo de que permanecia conosco. Segurava sua mão, conversava com ela, prometia cuidar bem de sua netinha. A certa altura, achei que correspondia ao aperto de mão, mas era apenas um espasmo, possível consequência da fraqueza extrema.

Sentar-se ao lado de quem mais se ama, diante de uma ampulheta inexorável, sem mais ninguém para nos confortar, é uma experiência que não recomendo. Honestamente, desejo que você não passe por isso.

As horas passaram e o dia raiou. Minha mãe continua por aqui, agora sob os melhores cuidados de meu irmão. Comeu alguma coisa, fez exames, aguarda avaliação. Eu aguardo notícias. Estes são tempos surreais.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Como explicar para uma criança?

Aqui em casa, acostumamos Júlia a rezar antes de dormir. Um "Pai nosso" seguido de uma oração espontânea. Tem sido assim desde que ela era bebezinha. Ontem, contudo, após a oração que Jesus nos ensinou, nossa pequena pediu a tia Jose, que dela cuida e com quem estava só em casa, para fazer a oração espontânea. Júlia se recusou a fazer ela mesma e, então, deu as costas, cobriu o rosto e começou a chorar. Perguntada, disse que somente esclareceria o motivo do choro para nós, seus pais.

Esta manhã, Polyana perguntou o que havia acontecido. Júlia explicou que todas as noites ela reza pedindo a saúde da avó, mas Deus não atende. Agora ela não quer mais rezar.

Diante disso, o que fazer?

Um dos efeitos pessoais dessa nossa longa trajetória da doença de minha mãe foi o meu afastamento da fé. Eu não era dado a orações, por desídia, admito. Mas, como bom cristão, sempre encontrava o caminho da oração na hora da angústia. E fazia muitas orações sinceras. Quando ela adoeceu, orei o que pude pelo seu restabelecimento. Mas, como sabemos, nada funcionou. E chegamos ao quadro que temos hoje. Por isso pedi a Polyana que conversasse com Júlia porque eu realmente entendo como ela se sente e, neste momento, nada do que eu diga vai ajudar. Afinal, continuo reconhecendo a fé como um fenômeno importante: ajuda-nos a enfrentar os problemas, ajuda doentes a recuperar a saúde ou a viver com qualidade. Enfim, há muitos benefícios. E eu não quero que Júlia renuncie a essa possibilidade de encontrar um pouco de paz, se preciso. Eu, que perdi minha fé, sei bem como custa caro não dispor dela.

Hoje, eu não rezo mais. Não faz muito tempo, entreguei-me a uma oração - longa, intensa, detalhada. Parei apenas quando o cansaço e o sono, já em plena madrugada, me venceram. Não era a minha intenção, mas aquela foi minha última prece até aqui. Hoje, não me sinto motivado a fazer de novo. Continuo acreditando nas mesmas coisas de sempre, mas é uma racionalização. A fonte do sentimento religioso secou. Estou certo de que ela pode renascer. Algo em mim até diz que isso acontecerá, mas eu nada busco. Deixo que as coisas sejam como são. Por ora, tenho uma criança para acalentar e nem sei o que dizer a ela.

domingo, 27 de setembro de 2015

Mosqueiro diante de seus olhos

Minha mãe adora Mosqueiro. Nunca soube os motivos dela, embora não tenha dificuldade de compreender por que uma pessoa se encantaria por aquela ilha. Água doce, praias com vegetação para amenizar o calor, bonitos cenários, comidinha gostosa, etc. E tudo isso perto da capital. O fato é que ela ama Mosqueiro e por isso me pedia para levá-la até lá. Foram inúmeros pedidos ao longo dos anos, a esmagadora maioria deles ignorado, na prática. Sempre podemos deixar para depois, certo? Tem o trabalho, a vontade de descansar da semana puxada e outros que tais.

Daí minha mãe adoeceu gravemente e, neste ano de 2015, passou por diversas crises que poderiam tê-la levado à morte. Sua situação atual é extremamente preocupante. E o que ela me pediu? Que a levasse a Mosqueiro. No contexto, a missão se tornou uma prioridade, mas a sua execução não foi simples. O mais importante é que minha mãe não tem passado bem para enfrentar um passeio desses. Hoje, contudo, nós fizemos sua vontade.

Eu tinha grandes planos para o dia de hoje. Infelizmente, percalços imprevistos e as mãos ossudas da doença acabaram avinagrando um dia que deveria ser encantador. Um dos planos era, tão somente, fazer registros do passeio, em fotos e vídeos. Acabou que a foto ao lado foi a única em que minha mãe apareceu. Tenho só mais uma, em que apareço com minha filha.

Eu estava extremamente preocupado com a capacidade dela de suportar a viagem, já que possui metástase em osso do sacro, que lhe provoca muita dor e dificulta encontrar uma posição, inviabilizando longos tempos sentada. A par disso, sua extrema fraqueza (potencializada pela dificuldade respiratória, consequência da metástase em ambos os pulmões) não permite que ela caminhe muito e, por óbvio, acabou sentada.

Ela se esforçou muito para aproveitar o dia. A praia estava bonita e com pouco movimento, o dia relativamente ameno (quando ainda cedo), amigos foram se juntar a nós. Mas ela estava cansada e acabou que sequer molhou os pés na água. Não teve condições de ver a farra que a neta fez entre as ondas. Apenas soube da notícia e ficou feliz com isso. Seus objetivos não foram alcançados. Não conseguiu comer, foi enfraquecendo e passou mal. Precisamos colocá-la no carro, na esperança de que melhorasse. Melhorou o que pode. A viagem de volta não foi fácil para ela. Chegou em casa em más condições.

Remédios, banho, roupas limpas, 15 colheradas de sopa, uma visita. Ela foi se acalmando e melhorando, um pouquinho. Agora é noite e as noites lhe são duras, porque não consegue dormir devido aos problemas respiratórios. Tudo está bem difícil. Aqui em casa, fico pensando nela - se está deitada, se conseguiu descansar...

Esta semana teremos eventos importantes para influenciar o futuro. Vamos jogar as últimas cartas e esperar que elas surtam o efeito possível. Se funcionarem, a promessa é que em breve estejamos novamente em Mosqueiro. Mas, dessa vez, que ela esteja melhor e possa usufruir mais. E voltar para casa exatamente como queríamos hoje: com o coração e a alma leves.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Pequeno infortúnio de uma quinta qualquer

21 horas. Estou fazendo minha filha dormir quando toca o meu telefone fixo. Somente pessoas da casa de minha mãe ligam para o fixo, então entro em pânico, como de praxe, supondo que ela está passando mal, já que as últimas semanas têm sido terríveis.

Quando atendo, uma voz começa a me oferecer uma "oportunidade imperdível", diretamente do telemarketing. De repente me lembro que os vendedores virtuais também ligam para o fixo. É uma gravação, então sequer posso mandar o sujeito tomar lá naquele lugar em que o bom Deus o partiu ao meio.

Desligo o telefone iracundo, mas daí penso que é melhor isso do que a alternativa. E é assim que me acalmo.

Fim da narrativa. Não há moral da história.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os exemplos que não se quer copiar

O brasileiro médio é deslumbradíssimo com os Estados Unidos e com a Europa e cultiva uma doentia e contraproducente síndrome de vira-lata, aquele transtorno que impulsiona certas pessoas a defender que tudo no Brasil é ruim, medíocre, ilegal, imoral ou engorda. Mas essas atitudes denotam, antes de mais nada, a cínica seletividade entre o que se diz que devíamos copiar e aquilo que não se quer copiar de modo algum.

Há menos de um mês, circulou pela internet uma foto (à esquerda) tirada por uma adolescente, na qual se podia ver o premiê britânico, David Cameron, viajando na classe econômica de um voo da companhia de baixo custo Easyjet. A menina fez um vídeo e um registro fotográfico, no qual o homem que comanda a Inglaterra desde 2010 aparece comendo batatinhas Pringles. Gente como a gente.

Outro assunto que volta e meia aparece nas redes sociais é a austeridade dos governantes e parlamentares da Suécia. Veja-se o começo de uma reportagem sobre o tema: "Os vereadores e deputados regionais (estaduais) não recebem salários, nem possuem carros com motoristas e devem usar os seus próprios celulares. Mais: eles não têm secretárias particulares e muito menos uma multidão de assessores parlamentares. O prefeito da Capital anda de ônibus. Primeiro-ministro? Esse circula de metrô ou de bicicleta. Ah, os deputados federais? Moram em apartamentos funcionais de 16 metros a 46 metros quadrados, lavam e passam as suas próprias roupas."

A matéria segue afirmando que os políticos suecos ganham pouco, preparam a própria comida e são tratados por "você". Nada de excelentíssimos. E por que isso acontece? Quem decidiu isso? Provavelmente, ninguém decidiu isso, simplesmente porque é inerente à cultura daquele povo a compreensão de igualdade. Assim, para eles é natural que um titular de função pública, por mais importante que seja, não goze de privilégios.

Em vários países do dito primeiro mundo, carro oficial é uma prerrogativa de presidente da República ou do parlamento. Na Noruega, Holanda e na já citada Inglaterra, outros expoentes políticos andam mesmo de bicicleta ou usam o transporte público  o que faz bastante sentido, pois nesses países existem ótimas ciclovias, que todos respeitam, e o transporte público é excelente. Em Londres, ao tomar posse, todo político recebe vale-transporte, que pode usar em ônibus, trem e metrô, além de ser avisado de que possui o compromisso de utilizar o transporte público.

Não faz muito tempo, li em algum lugar uma reportagem sobre o estarrecimento de políticos estrangeiros acerca dos privilégios concedidos aos seus congêneres brasileiros. Infelizmente, não consegui encontrar a matéria.

Enquanto isso, no Brasil, experimente não chamar de "doutor" para um bacharel que ocupe uma função judicial ou ministerial para ver o que acontece. Não chamar um parlamentar de "excelência" é quebra de decoro (embora falsear prestações de contas não seja). E tudo, absolutamente tudo, é motivo para conceder um penduricalho sobre a remuneração. Começa pela roupa, o tal do auxílio-paletó. Pago no Congresso Nacional e em 16 Estados brasileiros, segundo o Congresso em Foco, ele custou ao contribuinte 252 milhões de reais em apenas quatro anos, o tempo de um mandato.

Outra patifaria notória é a verba de gabinete. Novamente o Congresso em Foco aponta que um parlamentar federal estava nos custando quase 150 mil reais por mês. Isso graças a contas inacreditáveis. Consulte no link abaixo, para ficar em apenas um exemplo, a quantidade de impressões, fotocópias e material de expediente que um parlamentar pode consumir por mês. A papelaria do shopping perde fácil.

Mas soltar os cachorros sobre os políticos é trivial. Todo mundo faz isso e eles dão todos os motivos. Existem, contudo, instituições compostas por pessoas que não dependem de voto e, por isso, escapam ao controle social periódico. Silenciosamente, esses servidores públicos desviam de qualquer padrão de moralidade pública e se investem em prerrogativas verdadeiramente nobiliárquicas, que no entanto, curiosamente, são implementadas em plena república, especialmente quando acobertados pela autonomia financeira. Eles têm carro oficial com motorista, ajudantes de ordens, celulares de última geração, notebooks, refeição no serviço e, mais recentemente, auxílio-moradia mensal, mesmo morando na mesma cidade em que trabalham. Tudo sob as bênçãos de quem deveria zelar pela moralidade com a coisa pública.

Posso parar por aqui, pois acho que você já entendeu. Se cavarmos mais, acabaremos enlouquecendo ante a constatação do que sabemos, mas que abstraímos durante a maior parte do tempo. Por toda a parte, as pessoas se locupletam dolosamente e isso é considerado liturgia do cargo, uma imposição da qual você não deve furtar-se, mesmo que queira, pois assim impõem misteriosos cânones de respeitabilidade, que ninguém sabe de onde saíram. Outro argumento de superlativa indecência é o célebre "pode ser imoral, mas não é ilegal". Engraçado: no mundo em que eu vivo desde as primeiras aulas de direito administrativo, em se tratando de Administração Pública, se é imoral, é ipso facto ilegal.

E por que, afinal, isto acontece no Brasil? Aceite: o problema não são os políticos, os executivos, os legislativos, os judiciários e outros que tais. O problema é você, que deixa isso acontecer todo santo dia e, lá no fundo do seu coração, acalenta o desejo de fazer o mesmo. Somos nós. Somos um povo construído sobre a desigualdade, a exploração massiva, a predação de recursos naturais, o genocídio dos indígenas, a desumanização dos vulneráveis, a subserviência ao estrangeiro, a aversão ao trabalho e uma crescente inclinação ao hedonismo e ao individualismo. Já recomendei antes e volto a recomendar que estude a obra do sociólogo Jessé Souza, que em livros como A construção social da subcidadania e A ralé brasileira: quem é e como vive explica sobre a nossa formação enquanto povo, desvelando uma fantástica convicção de que a desigualdade deve ser cultivada, porque todo mundo tem o seu lugar e o meu, provavelmente, é acima de você.

Isto pode explicar muita coisa, desde as tachinhas que furam os pneus das bicicletas nas novas ciclovias da capital paulista até a perplexidade dos alemães, ao assistirem à exibição do filme brasileiro Que horas ela volta?, por sinal muito bem recebido pela crítica. Os europeus não conseguem acreditar que pessoas comuns, de classe média, são servidos por criados nas mínimas coisas. Para eles, que lavam as próprias cuecas e calcinhas, isso é impensável. Para nós, é tão rotineiro que até surpreende alguém se importar com isso.

Então volto à questão: que conclusão podemos tirar do fato de que idolatramos tanto a superioridade cultural e intelectual dos estadunidenses e europeus, mas não somos capazes de imitá-los quando cultivam a modéstia, a urbanidade, a igualdade e a solidariedade?

Fontes:

  • O voo baratinho de Cameron: http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2015/08/primeiro-ministro-britanico-e-visto-comendo-batatinhas-na-classe-economica.html
  • A modéstia dos suecos: http://www.dm.com.br/geral/2015/07/sem-excelencias-nem-mordomias.html e https://www.youtube.com/watch?v=Toh3OJkI3fg
  • A farra de carros oficiais na capital paulista: http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/47253
  • O uso de transporte público em Londres: https://razoesparaacreditar.com/criar/politicos-de-londres-nao-tem-direito-a-carro-oficial-e-devem-utilizar-transporte-publico/
  • A indumentária da realeza na república: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/manchetes-anteriores/auxilio-paleto-custa-r-252-milhoes-em-quatro-anos/
  • Meu parlamentar todo mês: http://congressoemfoco.uol.com.br/upload/congresso/arquivo/CustoParlamentar.pdf
  • Um puxadinho para chamar de meu: http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/cnj-aprova-auxilio-moradia-de-r-43-mil-para-juizes.html
  • Bicicleta é brega: http://noticias.band.uol.com.br/cafe-com-jornal/sp/video/15552867/ciclistas-encontram-tachinhas-em-ciclovias-de-sp.html
  • A vassalagem nossa de todo dia: http://revistatpm.uol.com.br/blogs/berlimmandaavisar/2015/09/15/assistir-a-que-horas-ela-volta-na-europa-passar-vergonha-pelo-brasil.html

Impopulares

Aguardadas com grande preocupação, as medidas do governo federal para tentar reorganizar as finanças do país foram anunciadas ontem. Como esperado, passam por aumento de impostos, cortes de investimentos em programas sociais e o tal de arrocho salarial, ao menos para servidores públicos. Mas gostaria de me concentrar em apenas uma dessas medidas que, sintomaticamente, está provocando furor ao meu redor. Refiro-me à suspensão de concursos públicos.

Não é de hoje que o brasileiro se converteu em um concurseiro convicto. Ao menos para alguém como eu, que vive em ambiente acadêmico, fica a sensação de que fazer concurso público, em busca da tão decantada estabilidade financeira, é uma destinação natural do ser humano, algo escrito nas estrelas ou talvez no código genético.Quando algum aluno me diz que pretende ser advogado, eu o elogio, porque é raro. E o país precisa de bons advogados.

Agora eu parto para considerações que, talvez, façam de mim alguém tão impopular quanto as medidas do governo.

Eu considero um erro o povo brasileiro achar que a solução para os seus problemas é se pendurar no Estado, esse paquiderme faminto, improdutivo e equivocado. Naturalmente, não adoto o discurso de Estado mínimo à moda neoliberal, mas daí a achar que o serviço público deve ser a solução para o problema de geração de emprego e renda vai uma distância abissal. O trabalho em âmbito estatal deveria ser encarado mais como meio, não como o fim a ser alcançado.

A primeira vez que me preocupei com isso foi quando ouvi falar da tal "Lei Camata", no caso, a Lei Complementar n. 82, de 27.3.1995, que regulamentou o art. 169 da Constituição de 1988, para disciplinar os limites de despesas com funcionalismo público. Consoante essa lei. a União, os Estados e os Municípios não poderiam gastar, com pessoal, mais do que 60% de suas receitas correntes (aqui o texto dessa lei, para quem quiser investigar as minúcias). Posteriormente, vieram a lume as Leis Complementares n. 96, de 1999, e 101, de 2000 (esta última cognominada Lei de Responsabilidade Fiscal).

Do alto de minha ignorância sobre política, economia, orçamento público e tudo o mais, considerei um absurdo que 60% (60%!!!) dos recursos disponíveis em um orçamento fossem destinados ao pagamento de salários e penduricalhos de toda ordem. Em uma matemática elementar, parece-me, o Estado arrecada para pagar essas despesas, abrindo mão, conscientemente, de suas outras e mais importantes missões. Afinal, restam apenas 40% de recursos para todo o resto, notadamente para os investimentos que poderiam fazer o país se desenvolver de verdade (por óbvio, repudio a noção de desenvolvimento como crescimento econômico, apenas).

Assim, com a autoridade que me era conferida pelos meus 19 anos, eu pensava que o Estado deveria aumentar a eficiência do serviço público, para fazer mais coisas com menos pessoal, e promover os investimentos necessários, em todos os setores, a fim de que os brasileiros pudessem encontrar trabalho nas diferentes áreas disponíveis. Desnecessário dizer que, duas décadas depois, não aconteceu o que eu pensava e o gargalo se estreitou ainda mais. Não apenas o organograma estatal inchou como a sonhada eficiência acabou apenas no texto da Constituição, porém não na realidade. Não fossem os benefícios da tecnologia, teríamos chegado ao colapso. E um número crescente de brasileiros segue com seu foco voltado para ser remunerado pelo contribuinte.

Segue-se outra ideia, ainda mais impopular: hoje, sou contrário à estabilidade no serviço público. Compreendo a sua inclusão na Constituição de 1988, por causa das perseguições perpetradas durante a ditadura militar. Naquele momento histórico, essa proteção fazia sentido. Hoje, tenho severas dúvidas. Estabilidade pode ser mais útil a quem pretende se acomodar do que a algum fim nobre. Conheço várias pessoas que não se pejam de admitir que desejam um carguinho para, enfim, gozar a vida sem preocupações. Passado o estágio probatório, dizem, é só apertar o botão vermelho. Um propósito de vida nada edificante, que muito explica sobre o serviço público brasileiro.

Enfim, eu realmente acho que não deveria mais haver estabilidade no serviço público. Todo servidor deveria justificar cotidianamente o seu valor para o Estado, assim como, na iniciativa privada, precisamos convencer o empregador de que somos interessantes para a empresa. Isso certamente forçaria a mudança de algumas práticas. Mas admito que esta não é uma opinião integralmente formada. Posso ser convencido do contrário, mediante bons argumentos. Decerto, por "bom argumento" não vale queres acabar com o bem-bom justamente agora que chegou a minha vez?

No mais, para a informação dos meus críticos, ressalto que ainda existe em mim um leve desejo de ser defensor público, porque me encanta essa função. Trata-se do único concurso que ainda faria. No mais, o universo dos concursos realmente não é para mim. Mas não critico quem está na batalha, não. O problema não é individual, e sim de concepção do Estado.

domingo, 13 de setembro de 2015

O inimigo em toda parte

Outro dia foi uma ex-aluna, com seus 20 e poucos anos. Neste final de semana, a mãe da cantora Gaby Amarantos. Hoje, a atriz Betty Lago. Todas levadas pelo câncer. Todas me proporcionando um sentimento agudo de tristeza, como se fossem pessoas de minha convivência. É a empatia. Eu compreendo a luta, a derrota e a perda.

Tenho andado triste. A saúde de minha mãe tem degenerado rapidamente e sua alma tem sido abalada por isso. Não há dias tranquilos. As noites, menos ainda. Toda a família é profundamente afetada com vivências assim. Estamos todos tristes, com as almas prostradas. Mesmo que nos esforcemos em sentido contrário, há um cansaço que vai se apossando de nós. São sentimentos estranhos e contraditórios. Naturalmente, isto deixa a todos com a sensibilidade bastante aflorada.

Isto explica as minhas lágrimas ao ler que uma pessoa desconhecida morreu. E a minha imensa preocupação com o futuro de todos nós, em especial de minha filha, claro. Afinal, nosso estilo de vida é cada vez mais cancerígeno. Nós comemos mal, passamos muitas horas em ambientes antinaturais, entupimo-nos de remédios duvidosos, respiramos cada vez mais poluição e estamos imersos em aparelhos eletrônicos de todos os tipos. Acima de tudo, nós nos negligenciamos. Quem diz que se cuida, em geral, o que realmente faz é se exceder para exibir uma imagem falsa nas redes sociais.

Os fatores de risco se acumulam, mas não as boas notícias. Estou preocupado. Que futuro nos aguarda?

sábado, 12 de setembro de 2015

I want to believe... it will be worth

Arquivo-X (The X-Files) é uma das séries de TV mais icônicas de todos os tempos. Começou morna, mas foi engrenando ao longo da primeira temporada e, daí por diante, rapidamente, tornou-se um produto cult, arrebatando uma legião de fãs fieis, os exxers. Várias séries posteriores podem ser consideradas, de algum modo, tributárias da criação de Chris Carter. Agentes do FBI investigando fatos cabulosos? Pode contar que as aventuras de Mulder e Scully estão por trás disso, inspirando.

Parceiros forçados em seu desprezível cafofo. Os penteados denunciam a idade.
O seriado teve nove temporadas, exibidas entre setembro de 1993 e maio de 2002 pelo canal Fox. No total, foram 202 episódios. Até onde sei, foi graças a ele que surgiu a expressão "monstro da semana", para diferenciar os episódios tratando sobre um tema particular daqueles que versavam sobre a questão central da narrativa. No caso de Arquivo X, a narrativa central tinha a ver com a abdução de Samantha, irmã do agente Fox Mulder, quando ainda eram crianças. Mulder desenvolve uma obsessão que o leva ao FBI e, especificamente, a lidar com casos que, por envolverem eventos paranormais ou sobrenaturais, não eram levados a sério por ninguém. Em uma salinha no porão, enfeitada com o celebérrimo quadro com a legenda "I want to believe" e a imagem de um disco voador, Mulder tenta provar a existência de conspirações do governo estadunidense acerca de alienígenas, monstros e outras criaturas insólitas, além da realidade de experiências extrassensoriais. Para conter os seus arroubos, os superiores lhe impõem uma parceira: Dana Scully, médica, uma autêntica cientista cética, que deve delatar as supostas sandices do agente.

Agentes em ação: perigos reais sem nenhuma crtedibilidade.
À medida que os casos vão se sucedendo, porém, torna-se claro que há mais coisas lá fora do que sonha nossa vã filosofia. Em uma estratégia irônica dos roteiristas, os agentes sempre caem em situações de extremo perigo, mas é sempre a cética Scully quem se dá mal. E somente ela vê as criaturas malignas ocultas no mundo, em circunstâncias que nunca lhe permitem produzir provas. Mais à frente, um drama pessoal de enormes proporções ocupará sua vida.

A soturna abertura mandava a mensagem que também se tornou icônica.
Diante disso, Scully vai-se tornando cada vez mais crédula e o seriado ganha tons de uma linguagem espiritual. Paralelamente a isso, Mulder, sempre perdendo as batalhas contra os inimigos, inclusive o governo de seu país e o próprio FBI, e sem conseguir pistas que o levem a recuperar a irmã, começa a questionar se vale a pena tanto sacrifício, dando mostras de desistência quanto a sua missão pessoal.


Na vida real, o ator David Duchovny começa a dar chilique. Reclama que não quer ser conhecido como ator de um personagem só e pede para sair do elenco. Os produtores, contudo, sabem que o seriado não existe sem Mulder. Insistem e conseguem segurá-lo por um tempo, até que não dá mais. Nas duas últimas temporadas, entram em cena os agentes John Doggett e Monica Reyes. Os fãs protestam. Para muitos, o seriado simplesmente não funciona mais.


E eis que, para a conclusão da trama, Mulder retorna como um agente aprisionado pelo governo, por saber demais. As conspirações são passadas a limpo, mas claramente nada vai mudar. Arquivo X é uma das estórias mais sombrias e desesperançadas que existem: não adianta lutar; no fim, você vai perder. Eles são fortes demais.

A cena final te deixa triste.
Arquivo X foi pioneiro, também, na estratégia de mesclar narrativas: a estória foi parcialmente contada fora da TV, por meio de dois filmes. Em 1998, The X-Files: fight the future serviu de arco entre a 5ª e a 6ª temporada. Cinco anos após o final do programa, The X-Files: I want to believe trouxe informações adicionais. No geral, ambos os filmes desagradaram os fãs. Àquela altura, a atriz Gillian Anderson dava entrevistas falando mal da série. Literalmente, cuspiu no prato em que comeu e deixou os fãs furiosos.

O famoso seriado, assim, também ficou conhecido pela má relação com ele demonstrada pelos dois atores principais.

Manual de Detecção de Nerds: você tem ou já teve vontade de possuir um quadro desses?
E eis que o inesperado aconteceu: Arquivo X vai voltar, como uma continuação normal. A 10ª temporada estreará nos Estados Unidos no dia 24 de janeiro do próximo ano, mas o primeiro episódio já está pronto e será exibido em novembro, em uma Comic Con. Os principais nomes do elenco original já foram confirmados, garantindo a presença dos agentes Mulder e Scully, do diretor-assistente do FBI, Walter Skinner, e do vilão Canceroso. Será que Duchovny e Anderson resistiram a retornar ao seriado de que tanto reclamaram? De jeito nenhum!

O Canceroso: "Mulder, eu sou seu pai!"
A verdade é que essa turma nunca mais conseguiu fazer sucesso. Duchovny se envolveu em projetos sofríveis e só conseguiu alguma projeção com o seriado Californication, uma comédia sem importância que conseguiu chegar a sete temporadas. Anderson participou de filmes e dos seriados Hannibal e The fall. Nem de longe a visibilidade de antes. Então parece que retornar a um dos programas mais bem sucedidos já feitos era uma decisão inteligente, sobretudo em uma época em que a criatividade já acabou e a indústria do entretenimento gira em torno de continuações e releituras de projetos antigos. Duchovny, por sinal, já declarou que, se houver uma 11ª temporada, ele está disponível! Nada como um dia após o outro, com 13 anos pelo meio.

Naturalmente, este é um momento de expectativa para os fãs. Se o novo projeto for bem concebido e realizado, o sucesso será garantido: os exxers assegurarão o triunfo. Mas nerds são exigentes e arrogantes: basta um fio de cabelo fora do lugar e o mundo vem abaixo. Ou seja, aqui não há meio termo. Chris Carter e sua equipe têm que acertar muito bem acertado, porque do contrário o fracasso será miserável. Trata-se de uma enorme aposta, que estou louco para acompanhar.