Este blog nasceu com a intenção de ser bastante ativo. Durante um tempo, ele foi. Basta que se veja o número sempre crescente de postagens em seus três primeiros anos de existência. Mas quem tem dois empregos, família e a expectativa de alguma vida social não pode viver com a cara na tela do computador, então nos anos seguintes houve atividade significativa, maior ou menor, de acordo com os ventos de cada ano, mas não equivalente ao triênio inaugural.
Graças a este blog, entrei para um time seleto - não que eu estivesse à altura deles, de gente como Juvêncio de Arruda, do 5ª Emenda, ou o projeto coletivo do Flanar, do qual me tornei depois um dos editores -, mas eu gostava de pensar que fazia parte do grupo, dadas as nossas boas relações, ainda que muitas vezes exclusivamente virtuais. Era o virtual positivo: a vida na grande rede não substituía a real, apenas era vivida com qualidade e honestidade. Eu realmente fiz amigos por aqui.
A partir de 2012, o ritmo começou a despencar. O mestrado me deixou sem tempo e, depois, a doença de minha mãe roubou minha alma. O último ano foi extremamente difícil e 2015 está sendo uma pedreira que só não classifico como intransponível porque ainda estamos aqui. Resulta daí que o blog chegou a um estado de estagnação, o que lastimo. Afinal, acredito que fiz alguns textos bem bacanas ao longo desses quase 9 anos, coisas que podem ser úteis ou até divertidas. Por conta disso, acho importante prosseguir.
Dia desses, preparando-me para assumir turmas novas de Direito Penal I, organizava o meu material e cheguei ao documento que encaminho aos alunos, citando este blog como um local para procurar textos de interesse de nosso curso. Daí pensei que existe muita coisa aqui que pode ajudá-los. Isto me confere razão mais do que suficiente para persistir um pouco mais. Então vamos em frente. Assim como na vida real, na blogosfera também eu hei de lutar um pouco mais para, quem sabe, trazer algo de benefício ou de satisfação para uma ou duas pessoas. Creio que isto já será justificativa suficiente.
Naturalmente, no território líquido da Internet (à moda de Bauman), se houver um público, ele responderá de acordo com a produtividade do blog. Neste momento, portanto, é provável que eu escreva para ninguém. Mas se tem alguém na linha, se tem alguém no ar, é possível que alguém volte a ler as minhas tentativas de ser cronista ou crítico de tudo. Afinal, dizem, sempre há um sapato velho para calçar um pé cansado.
Abraço quem estiver por aí.
sábado, 8 de agosto de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Hoje é o dia do meu aniversário
Hoje é o dia do meu aniversário.
Nunca fui de aniversários. Nada contra o seu; o que não me apetece, mesmo, é o meu. Fico extremamente feliz de ser lembrado e receber afagos em uma data simbólica, mas realmente acho que é um dia como qualquer outro. Para minha mãe, não: o dia em que você nasceu é o mais importante do ano. Ele deve ser celebrado com todas as honras, seja com uma fatia de bolo, seja com uma festa enorme, mas não pode "passar em branco", como tantas vezes me disse, quando eu rejeitava a todo custo as propostas de comemoração.
Hoje é o dia do meu aniversário. E não um aniversário qualquer pois, para as convenções sociais, as datas redondas são particularmente chamativas. Estou completando 40 anos. Quem diria, agora sou um quarentão. Muito se diz sobre esta fase. Eu só tenho a dizer que a vida seguiu seu curso.
Considerei muitas coisas sobre esta data. Fazer nada? Comemorar com uma festinha regada a rock? Deixar os amigos de lado e comemorar apenas em casa, com um almocinho à base de peixe, camarão e açaí? Fui aceitando esta última hipótese, para conter as exigências maternas que certamente viriam. Ia acontecer. Mas então minha mãe passou uma semana internada, recebeu alta e voltou ao hospital, desta feita por culpa exclusiva de um médico que errou o procedimento realizado. Ao instalar um cateter inadequado, impediu-a de fazer hemodiálise e colocou sua vida em risco.
Ela voltou ao hospital, com todo o sofrimento que isso impõe, e ontem foi substituído o cateter. E hoje o cateter não funcionou. Hoje, no dia do meu aniversário, minha mãe, que praticamente não dialisou nada na terça, não dialisou nada esta manhã. Está em um leito de hospital e nós em volta disso tudo.
Hoje é o dia do meu aniversário. Algumas pessoas me telefonaram e outras me mandaram mensagens pelo Facebook ou pelo WhatsApp. Elas querem me dizer coisas bonitas e não estou conseguindo escutar. Hesito em atender e, quando atendo, retribuo a festa que me fazem com toda a minha carga de escuridão, eu que sou tão fácil para obscurecer. Preciso deixar claro, todavia, que é sincera a minha gratidão por toda a generosidade que me tem sido manifestada nos últimos dois anos, sobretudo.
Hoje não é um dia de festa. Mas é o dia do meu aniversário e eu quero um presente, apenas um: quero abraçar minha mãe, em casa, e ficar com ela sem urgências e medos imediatos sobre o dia de amanhã. Não peço bailes nem ouros, mas é impressionante como o meu pedido parece muito mais difícil de alcançar.
Nunca fui de aniversários. Nada contra o seu; o que não me apetece, mesmo, é o meu. Fico extremamente feliz de ser lembrado e receber afagos em uma data simbólica, mas realmente acho que é um dia como qualquer outro. Para minha mãe, não: o dia em que você nasceu é o mais importante do ano. Ele deve ser celebrado com todas as honras, seja com uma fatia de bolo, seja com uma festa enorme, mas não pode "passar em branco", como tantas vezes me disse, quando eu rejeitava a todo custo as propostas de comemoração.
Hoje é o dia do meu aniversário. E não um aniversário qualquer pois, para as convenções sociais, as datas redondas são particularmente chamativas. Estou completando 40 anos. Quem diria, agora sou um quarentão. Muito se diz sobre esta fase. Eu só tenho a dizer que a vida seguiu seu curso.
Considerei muitas coisas sobre esta data. Fazer nada? Comemorar com uma festinha regada a rock? Deixar os amigos de lado e comemorar apenas em casa, com um almocinho à base de peixe, camarão e açaí? Fui aceitando esta última hipótese, para conter as exigências maternas que certamente viriam. Ia acontecer. Mas então minha mãe passou uma semana internada, recebeu alta e voltou ao hospital, desta feita por culpa exclusiva de um médico que errou o procedimento realizado. Ao instalar um cateter inadequado, impediu-a de fazer hemodiálise e colocou sua vida em risco.
Ela voltou ao hospital, com todo o sofrimento que isso impõe, e ontem foi substituído o cateter. E hoje o cateter não funcionou. Hoje, no dia do meu aniversário, minha mãe, que praticamente não dialisou nada na terça, não dialisou nada esta manhã. Está em um leito de hospital e nós em volta disso tudo.
Hoje é o dia do meu aniversário. Algumas pessoas me telefonaram e outras me mandaram mensagens pelo Facebook ou pelo WhatsApp. Elas querem me dizer coisas bonitas e não estou conseguindo escutar. Hesito em atender e, quando atendo, retribuo a festa que me fazem com toda a minha carga de escuridão, eu que sou tão fácil para obscurecer. Preciso deixar claro, todavia, que é sincera a minha gratidão por toda a generosidade que me tem sido manifestada nos últimos dois anos, sobretudo.
Hoje não é um dia de festa. Mas é o dia do meu aniversário e eu quero um presente, apenas um: quero abraçar minha mãe, em casa, e ficar com ela sem urgências e medos imediatos sobre o dia de amanhã. Não peço bailes nem ouros, mas é impressionante como o meu pedido parece muito mais difícil de alcançar.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
De monografias e suas autoras
Já tive a oportunidade de orientar excelentes monografias de conclusão de curso, mas devo dizer que, neste semestre, estou particularmente feliz e orgulhoso. Isto porque me permiti fazer uma escolha de alunos e de temas que viessem mais ao encontro de minhas atuais inclinações acadêmicas. Sempre há uma demanda muito grande por orientação na área penal e, após alguns ajustes, inclusive para atender necessidades conjunturais dos próprios estudantes, terminei com uma equipe de quatro jovens que só me trouxeram alegria.
Para começo de conversa, uma feliz conjuntura interveio: era chegada a hora das monografias de turmas das quais eu podia esperar grandes realizações, a começar do fato de que, neste elenco, figuram duas das minhas monitoras, o que tornava natural que fossem minhas orientandas. Confiante no talento dessas garotas, tivemos uma primeira reunião em que pus as cartas na mesa: o que espero de vocês é que todas façam trabalhos que mereçam a nota dez. O compromisso foi assumido e a missão, meses depois, cumprida. Não por concessão, mas por real merecimento.
A primeira banca foi de Laís Vidigal Maia, que se comprometeu com um assunto que está na ordem do dia, na mídia, no Congresso Nacional, nas redes sociais, trazendo como primeiro mérito a atualidade e a relevância da discussão para a sociedade brasileira. Seu tema foi "A política de redução de danos como alternativa à tendência contemporânea de criminalização das drogas". Segundo anunciado, o Supremo Tribunal Federal deve decidir no próximo semestre se o porte de drogas para consumo pessoal pode ou não ser criminalizado, uma decisão de grande impacto, sem a menor dúvida. E até mesmo o incensado secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, admitiu publicamente que a guerra às drogas é um erro, devendo-se situar o problema no campo da saúde pública e não no da criminalidade.
Se já passou da hora de mudarmos o modelo de reação ao uso e ao tráfico de drogas no país, então precisamos discutir, com serenidade e bom senso, que modelo seria adequado para nós. Laís, concentrando-se mais na questão do uso para consumo pessoal, apresentou os problemas trazidos pela política de criminalização, confrontando-os com modelos adotados em diferentes países, e propondo uma política de redução de danos, que poderia ser implementada logo, enquanto se discute para onde vamos com os aspectos mais delicados do problema.
Na foto, aparecemos com a Profa. Dra. Cristina Lourenço, avaliadora.
Depois veio Emy Hannah Ribeiro Mafra (na foto, à esquerda), que se debruçou sobre um assunto considerado dos mais espinhosos para o direito penal: a aplicação da pena. Digo espinhoso porque entra ano, sai ano, a magistratura continua perpetrando sandices na hora de estipular a pena do réu, seja por meio de erros primários, inadmissíveis, seja pelo descumprimento do dever de fundamentar ou pela permissividade com absurdos juízos de valor. Mas quando o próprio STF resolve considerar como antecedentes criminais alguma coisa que não seja uma condenação penal transitada em julgado, só nos resta abandonar toda esperança.
Emy se concentrou na aplicação da pena-base e, especificamente, na primeira e mais complexa das circunstâncias judiciais. Seu tema foi "O conceito de culpabilidade e sua indefinição na aplicação da pena". Após revisitar o conceito de culpabilidade e analisar sentenças recentes das varas criminais de Belém, apresentou uma proposta de mudança na redação do dispositivo legal que rege a dosimetria. Uma pesquisa muito bem fundamentada.
Na mesma tarde, uma eloquente Tainá Ferreira e Ferreira (na foto, à direita) defendeu o tema "A interferência da mídia nos processos de criminalização: uma análise da atuação da mídia como agência criminalizadora e suas consequências para o direito penal".
A ação da mídia tem interessado a muitos alunos já há algum tempo. O mérito de Tainá foi fugir das abordagens mais comuns e fáceis, concentrando-se nos processos de criminalização, que são altamente influenciados pela mídia e sua obsessão por criar inimigos, em um interminável movimento de legitimação da punição. Para tanto, a aluna buscou fundamentação em referências da própria comunicação, com o que realizou a interseção do campo jurídico com outros saberes.
Fico devendo uma foto com o avaliador de ambas as acadêmicas, Prof. Me. Eduardo Lima Filho.
O fim do ciclo se deu com Vitória de Oliveira Monteiro e sua corajosa monografia "A ilegitimidade da criminalização dos protestos no Brasil: uma análise da repressão criminal nas manifestações de junho de 2013 à luz da criminologia crítica".
Temas como desobediência civil e direito de resistência me são particularmente caros, de modo que Vitória me proporcionou uma grande alegria ao eleger uma questão diretamente relacionada, que defendeu a partir de uma consistente bibliografia, parte dela inédita no universo do Direito, que tem aquela insuportável inclinação a ensimesmar-se. E, no arremate, foi de uma precisão incrível ao responder à arguição da avaliadora, Profa. Dra. Loiane Verbicaro, na foto conosco.
Tenho muito orgulho de incluir esses trabalhos em meu currículo, pela qualidade que apresentam desde a redação e adequação metodológica até o conteúdo, mostrando como o Direito, ciência aplicada que é, precisa abrir-se a outros saberes se quiser ter alguma coerência e efetividade, sob pena de só conseguir resolver as questiúnculas que ele mesmo engendra (prazos, formas, não conflitos sociais), se é que conseguiria ao menos isso. E servem de referência para as próximas gerações de concluintes, que devem escolher seus temas com conhecimento de causa, inclusive com base no estado da arte, para o que o nosso acervo de monografias é uma boa indicação.
Mas tudo isso somente foi possível graças ao talento destas quatro acadêmicas, que fizeram escolhas corretas e cumpriram as exigências próprias da pesquisa acadêmica. Poderiam ter feito diferente? Claro que sim. Poderiam ter feito melhor? Naturalmente, como todo e qualquer trabalho acadêmico sempre pode ser melhor. Mas o que elas nos ofereceram vale muito, muito mesmo, sem qualquer favor.
Para começo de conversa, uma feliz conjuntura interveio: era chegada a hora das monografias de turmas das quais eu podia esperar grandes realizações, a começar do fato de que, neste elenco, figuram duas das minhas monitoras, o que tornava natural que fossem minhas orientandas. Confiante no talento dessas garotas, tivemos uma primeira reunião em que pus as cartas na mesa: o que espero de vocês é que todas façam trabalhos que mereçam a nota dez. O compromisso foi assumido e a missão, meses depois, cumprida. Não por concessão, mas por real merecimento.
A primeira banca foi de Laís Vidigal Maia, que se comprometeu com um assunto que está na ordem do dia, na mídia, no Congresso Nacional, nas redes sociais, trazendo como primeiro mérito a atualidade e a relevância da discussão para a sociedade brasileira. Seu tema foi "A política de redução de danos como alternativa à tendência contemporânea de criminalização das drogas". Segundo anunciado, o Supremo Tribunal Federal deve decidir no próximo semestre se o porte de drogas para consumo pessoal pode ou não ser criminalizado, uma decisão de grande impacto, sem a menor dúvida. E até mesmo o incensado secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, admitiu publicamente que a guerra às drogas é um erro, devendo-se situar o problema no campo da saúde pública e não no da criminalidade.
Se já passou da hora de mudarmos o modelo de reação ao uso e ao tráfico de drogas no país, então precisamos discutir, com serenidade e bom senso, que modelo seria adequado para nós. Laís, concentrando-se mais na questão do uso para consumo pessoal, apresentou os problemas trazidos pela política de criminalização, confrontando-os com modelos adotados em diferentes países, e propondo uma política de redução de danos, que poderia ser implementada logo, enquanto se discute para onde vamos com os aspectos mais delicados do problema.
Na foto, aparecemos com a Profa. Dra. Cristina Lourenço, avaliadora.
Depois veio Emy Hannah Ribeiro Mafra (na foto, à esquerda), que se debruçou sobre um assunto considerado dos mais espinhosos para o direito penal: a aplicação da pena. Digo espinhoso porque entra ano, sai ano, a magistratura continua perpetrando sandices na hora de estipular a pena do réu, seja por meio de erros primários, inadmissíveis, seja pelo descumprimento do dever de fundamentar ou pela permissividade com absurdos juízos de valor. Mas quando o próprio STF resolve considerar como antecedentes criminais alguma coisa que não seja uma condenação penal transitada em julgado, só nos resta abandonar toda esperança.
Emy se concentrou na aplicação da pena-base e, especificamente, na primeira e mais complexa das circunstâncias judiciais. Seu tema foi "O conceito de culpabilidade e sua indefinição na aplicação da pena". Após revisitar o conceito de culpabilidade e analisar sentenças recentes das varas criminais de Belém, apresentou uma proposta de mudança na redação do dispositivo legal que rege a dosimetria. Uma pesquisa muito bem fundamentada.
Na mesma tarde, uma eloquente Tainá Ferreira e Ferreira (na foto, à direita) defendeu o tema "A interferência da mídia nos processos de criminalização: uma análise da atuação da mídia como agência criminalizadora e suas consequências para o direito penal".
A ação da mídia tem interessado a muitos alunos já há algum tempo. O mérito de Tainá foi fugir das abordagens mais comuns e fáceis, concentrando-se nos processos de criminalização, que são altamente influenciados pela mídia e sua obsessão por criar inimigos, em um interminável movimento de legitimação da punição. Para tanto, a aluna buscou fundamentação em referências da própria comunicação, com o que realizou a interseção do campo jurídico com outros saberes.
Fico devendo uma foto com o avaliador de ambas as acadêmicas, Prof. Me. Eduardo Lima Filho.
O fim do ciclo se deu com Vitória de Oliveira Monteiro e sua corajosa monografia "A ilegitimidade da criminalização dos protestos no Brasil: uma análise da repressão criminal nas manifestações de junho de 2013 à luz da criminologia crítica".
Temas como desobediência civil e direito de resistência me são particularmente caros, de modo que Vitória me proporcionou uma grande alegria ao eleger uma questão diretamente relacionada, que defendeu a partir de uma consistente bibliografia, parte dela inédita no universo do Direito, que tem aquela insuportável inclinação a ensimesmar-se. E, no arremate, foi de uma precisão incrível ao responder à arguição da avaliadora, Profa. Dra. Loiane Verbicaro, na foto conosco.
Tenho muito orgulho de incluir esses trabalhos em meu currículo, pela qualidade que apresentam desde a redação e adequação metodológica até o conteúdo, mostrando como o Direito, ciência aplicada que é, precisa abrir-se a outros saberes se quiser ter alguma coerência e efetividade, sob pena de só conseguir resolver as questiúnculas que ele mesmo engendra (prazos, formas, não conflitos sociais), se é que conseguiria ao menos isso. E servem de referência para as próximas gerações de concluintes, que devem escolher seus temas com conhecimento de causa, inclusive com base no estado da arte, para o que o nosso acervo de monografias é uma boa indicação.
Mas tudo isso somente foi possível graças ao talento destas quatro acadêmicas, que fizeram escolhas corretas e cumpriram as exigências próprias da pesquisa acadêmica. Poderiam ter feito diferente? Claro que sim. Poderiam ter feito melhor? Naturalmente, como todo e qualquer trabalho acadêmico sempre pode ser melhor. Mas o que elas nos ofereceram vale muito, muito mesmo, sem qualquer favor.
sábado, 13 de junho de 2015
Apenas duas de amor
Terminar um relacionamento nunca é algo simples. E se ele envolveu muito tempo, muita intimidade e, em especial, convivência conjugal, torna-se ainda pior. Afinal, todo relacionamento constitui parte de nossa história e, consequentemente, parte daquilo que somos, para o bem e para o mal. Estando correta a conhecida máxima do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955), de que todos somos nós e nossas circunstâncias, a vivência de um amor provavelmente é das circunstâncias que mais ajudam a moldar quem somos.
A arte, por seu turno, é a principal expressão daquilo que vai na alma de cada ser humano, por isso a expressão artística, com suas metáforas, símbolos e provocações, tem a capacidade de nos inspirar reflexões profundas sobre as experiências do mundo, sejam pessoais ou não.
Esta manhã, enquanto dirigia meu carro a caminho da clínica onde minha mãe faz hemodiálise, circunstância que sempre me põe reflexivo e sentimental, escutei duas canções estrangeiras que descrevem a mesma situação: o término de um relacionamento amoroso. Então me pus a matutar sobre como experiências em tese semelhantes dispararam reações tão diferentes por parte de seus protagonistas. E, com isso, podemos tentar algumas inferências sobre a personalidade de cada qual.
[Os links para os videoclips estão nos títulos das canções. Vale muito a pena conferir.]
A primeira canção se chama "I'm gonna be strong" e foi composta por uma conhecida (na época) dupla de autores: Barry Mann e Cynthia Weil. Foi originalmente gravada por Frankie Laine (1963) e, no ano seguinte, por Gene Pitney (1964), em ambos os casos como singles. Mas somente se tornou um grande sucesso em 1980, quando gravada no único álbum (auto-intitulado) da banda de rockabilly e new wave Blue Angel, da qual era vocalista Cyndi Lauper (1953- ). Tornou-se o maior sucesso da mal-sucedida banda, da qual Lauper se desligou em 1982. Ela regravou a canção em 1994, incluindo-a em sua coletânea de sucessos Twelve deadly cyns... and then some. Esta é a versão que conheço e é simplesmente arrebatadora1.
A composição data da década de 1960. Os tempos eram outros: mais sentimentais, mais melosos, em que o amor romântico era bastante enfatizado explorando a relação com a dor, com a perda. Àquela altura, perder um romance era quase um fim do mundo, mesmo para homens (a canção, escrita em primeira pessoa, relata os sentimentos de um homem), treinados desde cedo para ser fortes e inabaláveis. Quando criança, ouvi várias vezes a frase "homem não chora; só quando a mulher vai embora". E, criança, nunca entendi o significado dessa afirmação.
"I'm gonna be strong" é o que classifico como canção de mimimi, ou seja, é o desabafo de uma pessoa mal resolvida, que adora se vitimizar e se faz de coitadinha para tentar manter o relacionamento. Como se a piedade fosse um modo razoável de conservar relações. O poema pinta um cenário tristonho, derrotista, em que o protagonista se esforça por fingir, à ex-amante, que está bem. Aparentemente, o romance acabou apenas porque, às vezes, as pessoas percebem que não amam mais. Não há menção a conflitos ou a uma nova paixão. E um indivíduo chorão nunca deixa de ressaltar o fato de ter sido trocado, se for esse o caso. A ausência de briga se percebe pelo fato de a mulher que vai embora se despedir carinhosamente, com um beijo.
Daí ela sai e o cara desmorona em sua imensa dor. E como qualquer chorão, ele chora. Com o detalhe de que, em inglês, o mesmo verbo também significa "gritar", permitindo uma interpretação ainda mais dramática.
Devo admitir que me identifico muito com esses coitados à deriva, na linha Álvares de Azevedo. Adoro esta canção. E a interpretação de Cyndi Lauper me deixa sem fôlego.
A segunda canção se chama "Everything" e foi composta pela roqueira canadense Alanis Morissette. Lançada primeiro em CD single, fez parte do repertório do álbum So-called chaos (2003) e também se tornou um grande sucesso2. Mas aí os tempos eram outros. Mesmo em se tratando de uma mulher deixada para trás (a canção, também em primeira pessoa, deixa claro que é uma mulher falando), o tempo das mulheres submissas, que dependiam dos homens para ser felizes, já ficou para trás. Nossa personagem quer insistir na relação e não está lá muito feliz, mas a linguagem é bastante diferente, mais ácida e me impressiona pela franqueza.
A protagonista desta separação faz questão de se desnudar: não sente medo de ressaltar suas virtudes e seus defeitos (e, pelo visto, os defeitos vêm em maior quantidade, mas provavelmente somos todos assim). Quer ser amada do jeito que realmente é, não dando sinais de que mudaria para "merecer" esse amor. E, no fundo, ela parece acreditar que o parceiro é que sairia perdendo com o afastamento. Por isso provoca: "Você ainda está aqui". Acabe logo com isso, antes que seja tarde. Porque você não encontrará outra mulher que seja tudo o que eu sou, por pior que eu seja, neste mundinho repleto de gente pior ainda. Quer arriscar?
Adoro esta canção e gosto da atitude da moça (cuja autoestima é reforçada pelo belo e festejado videoclip). Uma atitude mais século XXI, que nos pede mais autoconfiança, mais controle dos sentimentos, mais convicção de que a vida segue, apesar de tudo.
Não ouso dizer que alguma dessas canções descreva comportamentos melhores ou piores. Somos humanos: em geral, fazemos o que podemos, de acordo com o que acreditamos acerca de nossas capacidades. E erramos demais. Eventualmente, acertamos algumas. Os acertos nos engrandecem e os erros... também! Porque são uma oportunidade de aprendizado. E a zona de conforto nem sempre é uma boa conselheira.
Não recomendo procurar saber qual amor é melhor ou pior. Confiando na premissa aposte na simplicidade, minha recomendação é mais singela: apenas ame. Tentando acertar.
_________________________________
1 Desculpem, mas copiei estas informações da Wikipedia, mesmo. Isto aqui não é um trabalho científico. Cf. https://en.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/Blue_Angel e http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyndi_Lauper.
2 E novamente a Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Everything_(Alanis_Morissette_song) e https://en.wikipedia.org/wiki/Alanis_Morissette.
* O título desta postagem alude à bela canção "Apenas mais uma de amor", de Lulu Santos.
A arte, por seu turno, é a principal expressão daquilo que vai na alma de cada ser humano, por isso a expressão artística, com suas metáforas, símbolos e provocações, tem a capacidade de nos inspirar reflexões profundas sobre as experiências do mundo, sejam pessoais ou não.
Esta manhã, enquanto dirigia meu carro a caminho da clínica onde minha mãe faz hemodiálise, circunstância que sempre me põe reflexivo e sentimental, escutei duas canções estrangeiras que descrevem a mesma situação: o término de um relacionamento amoroso. Então me pus a matutar sobre como experiências em tese semelhantes dispararam reações tão diferentes por parte de seus protagonistas. E, com isso, podemos tentar algumas inferências sobre a personalidade de cada qual.
[Os links para os videoclips estão nos títulos das canções. Vale muito a pena conferir.]
A primeira canção se chama "I'm gonna be strong" e foi composta por uma conhecida (na época) dupla de autores: Barry Mann e Cynthia Weil. Foi originalmente gravada por Frankie Laine (1963) e, no ano seguinte, por Gene Pitney (1964), em ambos os casos como singles. Mas somente se tornou um grande sucesso em 1980, quando gravada no único álbum (auto-intitulado) da banda de rockabilly e new wave Blue Angel, da qual era vocalista Cyndi Lauper (1953- ). Tornou-se o maior sucesso da mal-sucedida banda, da qual Lauper se desligou em 1982. Ela regravou a canção em 1994, incluindo-a em sua coletânea de sucessos Twelve deadly cyns... and then some. Esta é a versão que conheço e é simplesmente arrebatadora1.
I can see
You're slipping
away from me
And you're so
afraid
That I'll plead
with you to stay
But I'm gonna be
strong
I'll let you go
your way
Love is gone
There's no sense
in holding on
And your pity
now
Would be more
than I could bare
So I'm gonna be
strong
I'll pretend I
don't care
I'm gonna be
strong
And stand as
tall as I can
I'm gonna be
strong
And let you go
along
And take it like
a man
When you say
it's the end
I'll hand you a
line
I'll smile and
say
"Don't you
worry, it's fine"
But you'll never
know, darling
After you kiss
me goodbye
How I'll break
down and cry
Cry
Cry
Cry
|
Eu posso ver
Que você está
escapando de mim
E você tem tanto
medo
De que eu lhe implore
para ficar
Mas eu serei
forte
Eu deixarei você
seguir seu caminho
O amor se foi
Não há sentido
em continuar
E a sua piedade
agora
Seria mais do
que eu poderia suportar
Então eu serei
forte
Eu fingirei não
me importar
Eu serei forte
E ficarei o mais
altivo que puder
Eu serei forte
E deixarei você
ir adiante
E encarar isso
como um homem
Quando você
disser que é o fim
Eu lhe darei
corda
Eu sorrirei e
direi
“Não se
preocupe, está tudo bem”
Mas você jamais
saberá, querida
Como depois de seu
beijo de despedida
Eu vou me quebrar
e chorar
Chorar
Chorar
Chorar
|
A composição data da década de 1960. Os tempos eram outros: mais sentimentais, mais melosos, em que o amor romântico era bastante enfatizado explorando a relação com a dor, com a perda. Àquela altura, perder um romance era quase um fim do mundo, mesmo para homens (a canção, escrita em primeira pessoa, relata os sentimentos de um homem), treinados desde cedo para ser fortes e inabaláveis. Quando criança, ouvi várias vezes a frase "homem não chora; só quando a mulher vai embora". E, criança, nunca entendi o significado dessa afirmação.
"I'm gonna be strong" é o que classifico como canção de mimimi, ou seja, é o desabafo de uma pessoa mal resolvida, que adora se vitimizar e se faz de coitadinha para tentar manter o relacionamento. Como se a piedade fosse um modo razoável de conservar relações. O poema pinta um cenário tristonho, derrotista, em que o protagonista se esforça por fingir, à ex-amante, que está bem. Aparentemente, o romance acabou apenas porque, às vezes, as pessoas percebem que não amam mais. Não há menção a conflitos ou a uma nova paixão. E um indivíduo chorão nunca deixa de ressaltar o fato de ter sido trocado, se for esse o caso. A ausência de briga se percebe pelo fato de a mulher que vai embora se despedir carinhosamente, com um beijo.
Daí ela sai e o cara desmorona em sua imensa dor. E como qualquer chorão, ele chora. Com o detalhe de que, em inglês, o mesmo verbo também significa "gritar", permitindo uma interpretação ainda mais dramática.
Devo admitir que me identifico muito com esses coitados à deriva, na linha Álvares de Azevedo. Adoro esta canção. E a interpretação de Cyndi Lauper me deixa sem fôlego.
A segunda canção se chama "Everything" e foi composta pela roqueira canadense Alanis Morissette. Lançada primeiro em CD single, fez parte do repertório do álbum So-called chaos (2003) e também se tornou um grande sucesso2. Mas aí os tempos eram outros. Mesmo em se tratando de uma mulher deixada para trás (a canção, também em primeira pessoa, deixa claro que é uma mulher falando), o tempo das mulheres submissas, que dependiam dos homens para ser felizes, já ficou para trás. Nossa personagem quer insistir na relação e não está lá muito feliz, mas a linguagem é bastante diferente, mais ácida e me impressiona pela franqueza.
I can be an
asshole of the grandest kind
I can withhold
like it's going out of style
I can be the
moodiest baby
And you've never
met anyone as negative
As I am
sometimes
I am the wisest
woman you've ever met
I am the kindest
soul with whom you've connected
I have the
bravest heart that you've ever seen
And you've never
met anyone who is as positive
As I am
sometimes
You see
everything, you see every part
You see all my
light and you love my dark
You dig
everything of which I'm ashamed
There's not
anything to which you can't relate
And you're still
here
I blame everyone else not my own partaking
My
passive-aggressiveness can be devastating
I'm terrified
and mistrusting
And you've never
met anyone who is as closed down
As I am
sometimes
(…)
What I resist
persist and speaks
Louder than I
know
What I resist
you love no matter
How low or high
I go
I'm the funniest
woman that you've ever known
I'm the dullest
woman that you've ever known
I'm the most
gorgeous woman you've ever known
And you've never
met anyone as everything
As I am
sometimes
|
Eu posso ser uma
babaca do pior tipo
Posso resistir de
um jeito fora de moda
Posso ser o bebê
mais temperamental
E você jamais
conheceu ninguém tão pessimista
Quanto eu sou
algumas vezes
Sou a mulher
mais sábia que você já conheceu
Sou a alma mais
bondosa com que já teve contato
Tenho o coração
mais valente que você já viu
E você jamais
conheceu ninguém tão otimista
Quanto eu sou
algumas vezes
Você enxerga
tudo, cada detalhe
Você enxerga
toda a minha luz e ama minha escuridão
Você vasculha
todas as coisas das quais me envergonho
Não existe nada
com que não consiga se relacionar
E você ainda
está aqui
Eu culpo todo
mundo e não assumo a minha parte
Minha
passividade agressiva pode ser devastadora
Eu sou medrosa e
desconfiada
E você nunca
conheceu alguém tão fechada
Quanto eu sou
algumas vezes
(...)
O que eu
resisto, persiste e fala
Mais alto do que
eu achava
O que eu
resisto, você ama, não importa
Quão pra baixo
ou pra cima
Eu esteja
Eu sou a mulher
mais engraçada que você já conheceu
Eu sou a mulher
mais enfadonha que você já conheceu
Eu sou a mulher
mais maravilhosa que você já conheceu
E você nunca
conheceu ninguém que seja tudo
Quanto eu sou
algumas vezes
|
A protagonista desta separação faz questão de se desnudar: não sente medo de ressaltar suas virtudes e seus defeitos (e, pelo visto, os defeitos vêm em maior quantidade, mas provavelmente somos todos assim). Quer ser amada do jeito que realmente é, não dando sinais de que mudaria para "merecer" esse amor. E, no fundo, ela parece acreditar que o parceiro é que sairia perdendo com o afastamento. Por isso provoca: "Você ainda está aqui". Acabe logo com isso, antes que seja tarde. Porque você não encontrará outra mulher que seja tudo o que eu sou, por pior que eu seja, neste mundinho repleto de gente pior ainda. Quer arriscar?
Adoro esta canção e gosto da atitude da moça (cuja autoestima é reforçada pelo belo e festejado videoclip). Uma atitude mais século XXI, que nos pede mais autoconfiança, mais controle dos sentimentos, mais convicção de que a vida segue, apesar de tudo.
Não ouso dizer que alguma dessas canções descreva comportamentos melhores ou piores. Somos humanos: em geral, fazemos o que podemos, de acordo com o que acreditamos acerca de nossas capacidades. E erramos demais. Eventualmente, acertamos algumas. Os acertos nos engrandecem e os erros... também! Porque são uma oportunidade de aprendizado. E a zona de conforto nem sempre é uma boa conselheira.
Não recomendo procurar saber qual amor é melhor ou pior. Confiando na premissa aposte na simplicidade, minha recomendação é mais singela: apenas ame. Tentando acertar.
_________________________________
1 Desculpem, mas copiei estas informações da Wikipedia, mesmo. Isto aqui não é um trabalho científico. Cf. https://en.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/I'm_Gonna_Be_Strong; http://pt.wikipedia.org/wiki/Blue_Angel e http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyndi_Lauper
segunda-feira, 8 de junho de 2015
"Isso é muito bonito!"
Todo mundo que chegue a ler esta postagem conhece, é claro, O pequeno príncipe, obra-prima do escritor, ilustrador e aviador (não necessariamente nesta ordem) Antoine de Saint-Exupéry. E desde que conheça em algum nível a novela classificada como infanto-juvenil, conhece e toma como síntese a frase "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Mas o esquecimento, a confusão ou mesmo o fato de jamais se ter lido o livro leva muitos a pensarem que a apoteótica sentença acima foi proferida pelo personagem-título. Ledo engano. O autor desse pensamento tão profundo, no texto, é a raposa.
Durante a jornada que empreendeu entre vários corpos celestes (o texto confunde o tempo inteiro planetas e asteroides), o principezinho conheceu uns tantos adultos esquisitos, mas foi na Terra que ele se deparou com essa figura solene e poética, que lhe ensinou a beleza de cativar alguém e, com isso, tornar-se singular entre tantos outros seres iguais a nós.
Há alguns dias, comprei O pequeno príncipe para Júlia, por se tratar de uma leitura obrigatória. Naturalmente, decidi ler para ela. Não que ela precise, mas quis que fosse algo nosso. Fui lendo um pouco, nas noites possíveis, até chegar no encantador trecho da conversa com a raposa. À medida que eu lia a explicação sobre cativar, a expressão de Júlia foi-se transformando. Séria, ela subitamente exclamou a frase que nomeia esta postagem. Na singeleza de seus menos de 7 anos, foi capaz de compreender a força daquele discurso. E compreendeu mesmo, porque ainda há pouco me explicou como sua amiga Alice, entre tantas meninas de 7 anos iguais a ela, tornou-se única para a minha pequena.
E assim eu concluí, por experiência própria, que O pequeno príncipe é muito mais do que a leitura favorita das candidatas a miss, que sempre querem a paz mundial. Trata-se de um livro verdadeiramente imortal, porque toca de imediato o coração, mesmo de uma criança, e produz um significado que pode ser levado para a vida real e se tornar parte do que somos. Isto é simplesmente maravilhoso.
Um abraço para os futuros advogados
Sempre lembro os mais afoitos que quem se forma em Direito torna-se bacharel em Direito e não advogado. Alguns, ainda mais apressados, escrevem #finalmenteadvogado quando aprovado na banca do trabalho de conclusão de curso. Então é sempre bom colocar as coisas em termos. Advogado é quem está inscrito nessa condição, junto à Ordem dos Advogados do Brasil. E, para chegar a isso, é preciso concluir o curso de Direito e, requisito cumulativo, ser aprovado no Exame de Ordem. Coisas completamente distintas.
Com isso em mente, aqui vai o meu abraço caloroso para esta equipe de ex-alunos e ainda alunos do nosso curso, que superaram a importante etapa do exame de proficiência. Alguns estão prontos para iniciar formalmente o exercício profissional e outros, no começo do próximo ano, quando formados, já estarão aptos a fazê-lo. Parabéns.
E para todos, cada um a seu modo: vamos trabalhar!
Com isso em mente, aqui vai o meu abraço caloroso para esta equipe de ex-alunos e ainda alunos do nosso curso, que superaram a importante etapa do exame de proficiência. Alguns estão prontos para iniciar formalmente o exercício profissional e outros, no começo do próximo ano, quando formados, já estarão aptos a fazê-lo. Parabéns.
Amanda Eutrópio Oliveira Amaral
Ana Carolina Alves Coelho
Ana Carolina Alves Coelho
Ana Paula Lima Monteiro
Ana Thalita
Gomes Ferreira
Cristiane da Silva Fretes
Danielle Alves Guerra
Danilo Couto Marques
Gabriela Bessa Ferreira
Gabriela Figueira de Mello
Giovana Pimentel Farias da Silva
Isadora Tostes Lobato Silva
Jodelma
Costa Salomão
Júlia Tótola Força
Juliana Coelho dos Santos
Juliana
Salame de Lima Torres
Juliana Santos Marques
Kássya Lessa Bengtson
Kelly Cristina Moraes
Cavalcante
Laís Vidigal
Maia
Lissandro Tavares da Costa
Lizandra
Takanashi Baseggio Bonna
Lucas Pereira Wanzeller Rodrigues
Manuel Albino Ribeiro de
Azevedo Júnior
Marcella
Fernandes Pingarilho
Mariana Costa da Silva
Marília do
Valle Farias
Miguel Resque Santiago
Patricia Moreira
Santos
Ridivan Clairefont de Souza Mello Neto
Roberta Gonçalves Pereira Ikeda
Roberto Luiz Batista Serrão Filho
Sidnei Vogel
Stéphanie Renée Mery Giraud Galvão
Tainá Ferreira e Ferreira
Tamires
Vasconcelos Tavares
Verena Matos
Tandaya
Victor Augusto de Oliveira Meira
Victor Hugo Ramos Reis
Vinícius Muniz Vasco
Vítor Luiz Cardoso
Walmir
Hugo Pontes dos Santos Neto
Sinais exteriores
Belém continua com seus problemas crônicos, decorrentes em boa medida do mais crônico de todos: falta de governo. O diagnóstico é objetivo e pode ser constatado mediante um simples passeio pela cidade. As ruas continuam engarrafadas por toda parte; os pontos de ônibus, quando possuem abrigos, estão em mau estado de conservação; o transporte público é cada vez mais caro e ao mesmo tempo ineficiente; a iluminação pública deficitária nos colocou em uma cidade escura e soturna; os serviços públicos municipais são ruins, etc.
Isso nos leva a pensar em um panorama de empobrecimento geral. Contudo, aquele colunista de negócios publicou em sua coluna de ontem algumas informações curiosas. Noticiou, p. ex., que enquanto as concessionárias nacionais amargam uma queda acentuada nas vendas, aqui em Belém, em maio foi incrementada a venda de veículos importados de alto valor. A rebote, a venda de carros usados aumentou 3,5%.
Fenômeno semelhante acontece no mercado imobiliário: imóveis populares encalham, mas a procura pelos de luxo só aumenta, a tal ponto que o metro quadrado nos bairros de Umarizal e de Batista Campos já chegou a 10 mil reais!
A coluna destaca, como se fosse novidade, a venda de bicicletas de 50 mil reais em lojas especializadas da cidade e a expansão de comodidades nas marinas, para quem curte a vida a bordo de lanchas ou jet skis. Eu mesmo, que tento ser observador, posso afiançar o surgimento, nos últimos anos, de concessionárias de marcas mais sofisticadas, como Mercedes, BMW, Mini e Jeep.
Inevitável pensar que as condições socioeconômicas da região metropolitana de Belém estão mudando a olhos vistos, mas isso não é necessariamente algo bom. Afinal, segundo penso, a concentração de renda pode ser pior do que a pobreza. Certamente, ela tende a ser mais aviltante, porque torna mais evidente a diferença ― usemos o termo distinção, por ter um sentido mais contundente ― entre os brasileiros dos tipos A/B e os demais, classificados por letrinhas menos valorizadas.
Mas não é uma simples questão de aparência. Longe disso. À medida que o abismo se aprofunda, as consequências éticas e morais igualmente se problematizam. Quanto mais os A/B se encastelam em condomínios exclusivos e carros blindados, mais necessidade sentem de somente interagir com aqueles que considerem seus iguais. Os extranei não podem sentar-se à mesma mesa e somente podem frequentar os mesmos ambientes na condição de serviçais. Daí os shopping centers cada vez mais elitizados, que ainda não existem por aqui; só temos as salas VIP. E outros estabelecimentos cujos serviços vão-se tornando mais restritos simplesmente por causa dos custos. É como se todo tipo de comércio fosse virando uma espécie de clube social, onde você ingressa se preencher certos pré-requisitos. Até os campinhos onde antes se jogava pelada agora "evoluíram" para arenas de futebol society.
Não à toa, a intolerância tem sido a marca mais ostensiva nas interações sociais involuntárias, notadamente via internet. É a falta de empatia, de reconhecimento do valor alheio, ditando os modos de viver em um mundo crescentemente individualista e mau. Porque maldade é falta de empatia. E daí advém muito sofrimento.
Isso nos leva a pensar em um panorama de empobrecimento geral. Contudo, aquele colunista de negócios publicou em sua coluna de ontem algumas informações curiosas. Noticiou, p. ex., que enquanto as concessionárias nacionais amargam uma queda acentuada nas vendas, aqui em Belém, em maio foi incrementada a venda de veículos importados de alto valor. A rebote, a venda de carros usados aumentou 3,5%.
Fenômeno semelhante acontece no mercado imobiliário: imóveis populares encalham, mas a procura pelos de luxo só aumenta, a tal ponto que o metro quadrado nos bairros de Umarizal e de Batista Campos já chegou a 10 mil reais!
A coluna destaca, como se fosse novidade, a venda de bicicletas de 50 mil reais em lojas especializadas da cidade e a expansão de comodidades nas marinas, para quem curte a vida a bordo de lanchas ou jet skis. Eu mesmo, que tento ser observador, posso afiançar o surgimento, nos últimos anos, de concessionárias de marcas mais sofisticadas, como Mercedes, BMW, Mini e Jeep.
Inevitável pensar que as condições socioeconômicas da região metropolitana de Belém estão mudando a olhos vistos, mas isso não é necessariamente algo bom. Afinal, segundo penso, a concentração de renda pode ser pior do que a pobreza. Certamente, ela tende a ser mais aviltante, porque torna mais evidente a diferença ― usemos o termo distinção, por ter um sentido mais contundente ― entre os brasileiros dos tipos A/B e os demais, classificados por letrinhas menos valorizadas.
Mas não é uma simples questão de aparência. Longe disso. À medida que o abismo se aprofunda, as consequências éticas e morais igualmente se problematizam. Quanto mais os A/B se encastelam em condomínios exclusivos e carros blindados, mais necessidade sentem de somente interagir com aqueles que considerem seus iguais. Os extranei não podem sentar-se à mesma mesa e somente podem frequentar os mesmos ambientes na condição de serviçais. Daí os shopping centers cada vez mais elitizados, que ainda não existem por aqui; só temos as salas VIP. E outros estabelecimentos cujos serviços vão-se tornando mais restritos simplesmente por causa dos custos. É como se todo tipo de comércio fosse virando uma espécie de clube social, onde você ingressa se preencher certos pré-requisitos. Até os campinhos onde antes se jogava pelada agora "evoluíram" para arenas de futebol society.
Não à toa, a intolerância tem sido a marca mais ostensiva nas interações sociais involuntárias, notadamente via internet. É a falta de empatia, de reconhecimento do valor alheio, ditando os modos de viver em um mundo crescentemente individualista e mau. Porque maldade é falta de empatia. E daí advém muito sofrimento.
73 anos
Para a maioria das pessoas, fazer aniversário é uma questão de abrir os olhos na data certa e tentar aproveitar tudo que de melhor o dia possa oferecer. Para outras, entretanto, é o resultado de uma interminável sequência de lutas diárias, muitas delas extremas. Luta-se contra o próprio corpo e, às vezes, contra a própria alma. Luta-se contra o que parece não fazer qualquer sentido.
Hoje, minha mãe completa 73 anos de idade. A foto ao lado é do ano passado, porque hoje em dia ela está mais fraquinha e não gosta de se ver assim. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Muita coisa mesmo. Contudo, entre inventariar esses episódios e me concentrar no fato de que estamos aqui, com nossa mãezinha, opto pela segunda alternativa. Em parte inspirado pelas belas palavras que meu irmão escreveu mais cedo.
Estamos juntos e continuaremos lutando um tanto a cada novo dia, venham eles como vierem. Porque estamos aprendendo que viver é persistir e ter coragem, mesmo quando nos falta uma coisa e outra. E precisamos seguir o exemplo desta mulher que todo dia acorda, pede forças a Deus e enfrenta o que houver para enfrentar. Vamos envelhecendo, mas ela segue nos ensinando como devemos ser, ensinando pelo exemplo, que é a melhor forma.
Feliz aniversário, mãe. Sei que as lutas do futuro serão travadas com mais convicção, porque aprendi que isso é possível. Por isso e por tudo o mais, te amo.
Hoje, minha mãe completa 73 anos de idade. A foto ao lado é do ano passado, porque hoje em dia ela está mais fraquinha e não gosta de se ver assim. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Muita coisa mesmo. Contudo, entre inventariar esses episódios e me concentrar no fato de que estamos aqui, com nossa mãezinha, opto pela segunda alternativa. Em parte inspirado pelas belas palavras que meu irmão escreveu mais cedo.
Estamos juntos e continuaremos lutando um tanto a cada novo dia, venham eles como vierem. Porque estamos aprendendo que viver é persistir e ter coragem, mesmo quando nos falta uma coisa e outra. E precisamos seguir o exemplo desta mulher que todo dia acorda, pede forças a Deus e enfrenta o que houver para enfrentar. Vamos envelhecendo, mas ela segue nos ensinando como devemos ser, ensinando pelo exemplo, que é a melhor forma.
Feliz aniversário, mãe. Sei que as lutas do futuro serão travadas com mais convicção, porque aprendi que isso é possível. Por isso e por tudo o mais, te amo.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Até onde a burrice é uma escolha?
Esta é uma pergunta que me faço cotidianamente. E voltei a ela quando li matéria sobre a soltura dos dois rapazes inicialmente presos pelo latrocínio em que foi vítima o estudante Lucas Silva da Costa, no último dia 23 de maio.
Embora exígua, a matéria do Diário do Pará afirma que o delegado responsável pelo inquérito policial decidiu indiciar, tão somente, um taxista (já identificado) acusado de ajudar dois adolescentes, que seriam os verdadeiros autores do delito. Se a autoridade policial não encontrou elementos para formalizar uma acusação contra os dois suspeitos iniciais, nada mais correta a decisão do juiz da 1ª Vara de Inquéritos Policiais e Medidas Cautelares, mandando liberá-los.
Mas os psicopatas que comentam notícias na internet não perdoaram, é claro. Felizmente, até aparece uma ou outra manifestação lúcida, contudo prevalece a sandice. Fala-se em impunidade, que os dois rapazes foram para casa "brincar", que são "parasitas", apela-se a um tal "total descrédito no judiciário" e por aí vai. Recusei-me a prosseguir nessa leitura doentia.
Somente a mais tosca burrice ou a mais convicta má-fé para explicar como alguém pode pinçar os aspectos mais secundários da questão e enxergar apenas o que quer, mesmo diante de fatos concretos.
Minha mente, que tenta ser racional, insiste que, mesmo que eu defendesse a punição a todo custo, ela somente poderia ser aplicada em relação a quem fosse o verdadeiro culpado. Não me interessa pegar qualquer um, até porque quando se consomem os recursos estatais com o acusado errado, o verdadeiro criminoso está livre e... impune! Será tão difícil perceber isso?
Eu sei que várias pessoas que estavam no ônibus assaltado reconheceram os dois rapazes como os autores do crime. Mas somos obrigados a nos perguntar: será que elas estavam em condições emocionais de depor e de fazer o tal reconhecimento? Hoje em dia, um dos bons usos que se pode fazer da Psicologia em favor do Direito está no campo das falsas memórias. Ao se apresentar uma pessoa a uma vítima, dizendo que aquele é o criminoso, é possível que essa vítima o reconheça de fato, em uma inconsciente manifestação do seu desejo de encontrar alívio para o mal sofrido. A testemunha não está mentindo: seu cérebro, em tumulto, está buscando mecanismos para mitigar o estresse. Então ela acredita no que diz e, mesmo assim, pode estar errada.
Para citar um caso que ganhou repercussão nacional, Vinícius Romão de Souza, na época com 26 anos, foi preso sob acusação de assalto, em fevereiro de 2014. A vítima o reconheceu. Mas aí veio à tona que aquele rapaz (negro, bem a propósito) era ator da Globo, a família se mobilizou, a imprensa deu atenção e... a vítima passou a dizer que não podia mais reconhecê-lo. O reconhecimento formal, ainda que hesitante, deu-se logo depois do crime, no calor dos acontecimentos. E não se sustentou mais tarde.
Perceber isso não implica em ser indiferente ao sofrimento de ninguém, em ser a favor do crime, em desejar a barbárie. Entretanto, é cada vez mais difícil à população em geral percebê-lo.
Tudo isso mostra o quão grave é o processo penal. A partir do momento em que você é acusado, cai em desgraça, não importa que seja inocente. E nestes tempos de internet, a perda de credibilidade é imediata e irreversível. Foi preso, é um parasita. Mesmo que inocente. Aliás, sua inocência não será percebida, mesmo que declarada por um juiz. Afinal, os juízes são todos moleques irresponsáveis, de acordo com esse admirável mundo novo alimentado na internet.
A cada dia que passa, é um pouco mais difícil e sofrido ter algum bom senso neste mundo.
Embora exígua, a matéria do Diário do Pará afirma que o delegado responsável pelo inquérito policial decidiu indiciar, tão somente, um taxista (já identificado) acusado de ajudar dois adolescentes, que seriam os verdadeiros autores do delito. Se a autoridade policial não encontrou elementos para formalizar uma acusação contra os dois suspeitos iniciais, nada mais correta a decisão do juiz da 1ª Vara de Inquéritos Policiais e Medidas Cautelares, mandando liberá-los.
Mas os psicopatas que comentam notícias na internet não perdoaram, é claro. Felizmente, até aparece uma ou outra manifestação lúcida, contudo prevalece a sandice. Fala-se em impunidade, que os dois rapazes foram para casa "brincar", que são "parasitas", apela-se a um tal "total descrédito no judiciário" e por aí vai. Recusei-me a prosseguir nessa leitura doentia.
Somente a mais tosca burrice ou a mais convicta má-fé para explicar como alguém pode pinçar os aspectos mais secundários da questão e enxergar apenas o que quer, mesmo diante de fatos concretos.
Minha mente, que tenta ser racional, insiste que, mesmo que eu defendesse a punição a todo custo, ela somente poderia ser aplicada em relação a quem fosse o verdadeiro culpado. Não me interessa pegar qualquer um, até porque quando se consomem os recursos estatais com o acusado errado, o verdadeiro criminoso está livre e... impune! Será tão difícil perceber isso?
Eu sei que várias pessoas que estavam no ônibus assaltado reconheceram os dois rapazes como os autores do crime. Mas somos obrigados a nos perguntar: será que elas estavam em condições emocionais de depor e de fazer o tal reconhecimento? Hoje em dia, um dos bons usos que se pode fazer da Psicologia em favor do Direito está no campo das falsas memórias. Ao se apresentar uma pessoa a uma vítima, dizendo que aquele é o criminoso, é possível que essa vítima o reconheça de fato, em uma inconsciente manifestação do seu desejo de encontrar alívio para o mal sofrido. A testemunha não está mentindo: seu cérebro, em tumulto, está buscando mecanismos para mitigar o estresse. Então ela acredita no que diz e, mesmo assim, pode estar errada.
Para citar um caso que ganhou repercussão nacional, Vinícius Romão de Souza, na época com 26 anos, foi preso sob acusação de assalto, em fevereiro de 2014. A vítima o reconheceu. Mas aí veio à tona que aquele rapaz (negro, bem a propósito) era ator da Globo, a família se mobilizou, a imprensa deu atenção e... a vítima passou a dizer que não podia mais reconhecê-lo. O reconhecimento formal, ainda que hesitante, deu-se logo depois do crime, no calor dos acontecimentos. E não se sustentou mais tarde.
Perceber isso não implica em ser indiferente ao sofrimento de ninguém, em ser a favor do crime, em desejar a barbárie. Entretanto, é cada vez mais difícil à população em geral percebê-lo.
Tudo isso mostra o quão grave é o processo penal. A partir do momento em que você é acusado, cai em desgraça, não importa que seja inocente. E nestes tempos de internet, a perda de credibilidade é imediata e irreversível. Foi preso, é um parasita. Mesmo que inocente. Aliás, sua inocência não será percebida, mesmo que declarada por um juiz. Afinal, os juízes são todos moleques irresponsáveis, de acordo com esse admirável mundo novo alimentado na internet.
A cada dia que passa, é um pouco mais difícil e sofrido ter algum bom senso neste mundo.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Cotidiano brasileiro - uma grande proposta
Em tempos de campanha contra a empresa O Boticário por causa de um delicado filme publicitário, este cidadão produziu uma pérola digna de ser compartilhada por todos aqueles que, como eu, entendem que um Estado democrático de direito e laico é simplesmente inconciliável com bancadas religiosas de qualquer credo, se elas pretendem impor suas vontades sobre toda a nação.
Quase estilo Occupy
Penso que greve deve ser de ocupação. Esse negócio de declarar greve e a galera ficar em casa, simplesmente curtindo o descanso, é leviano. Se estamos em greve, devemos batalhar pelas reivindicações formuladas, marcando presença, protestando, pressionando as negociações. Greve é para quem quer trabalhar com dignidade; não é para encostados.
No caso particular dos professores do Estado do Pará, uma ocupação é complicada, porque a categoria é grande e trabalha em diversas unidades (mesmo considerando o âmbito de uma única cidade). Fica complicado, imagino, manter um comando de greve em cada local. E quando se trata de ocupar um prédio governamental, como aconteceu aqui, os ânimos tendem a se acirrar. Quando grevistas arrombaram o portão do Centro Integrado de Governo, dias atrás, isso gerou uma repercussão ruim, principalmente entre aqueles que não sentem empatia com lutas trabalhistas. Que são muitos, quiçá a maioria.
Os professores em greve decidiram ocupar a Feira Pan-Amazônica do Livro, desde o início. Em que pese essa feira ser um evento infinitamente mais comercial do que cultural, já que - em relação ao público - se resume a reunir vários distribuidores em um mesmo espaço, para vender livros a preços elevadíssimos, a presença dos professores, nela, é mais do que justificável. Apesar das contradições tipicamente tucanas, livros rimam com educação e cultura, por isso os professores agiram acertadamente ao se instalarem lá.
Soube agora que os professores estão fazendo uma legítima greve de ocupação: estão utilizando o espaço da feira para dar aulas (preparatórias para o ENEM), fazer jogos educativos, oficinas, teatro e contação de estórias. Ótimas pedidas, sobretudo para crianças. De repente, até encontrei um motivo para visitar a feira. Há anos desisti dela, já que, para um consumidor comum, simplesmente não vale a pena. Até podemos encontrar alguns títulos interessantes e usualmente indisponíveis na cidade, mormente nas editoras universitárias. Mas isso exige um esforço de garimpagem, que não paga o desconforto de caminhar no aperto de um espaço abafado quando podemos garimpar e comprar pela internet, receber o livro em casa e, com sorte, pagar menos.
A greve já ultrapassou 70 dias e os prejuízos ao alunado são imensos. Com isso, o movimento tende a perder os apoios externos que possua. A esta altura, ruim para a categoria, bom para um governo caracterizado pela indolência crônica, que insiste em não negociar e que, ao menos, vai repor os descontos sobre os dias parados. Ou disse que o faria.
Enquanto isso, o governador-cantor-pescador, que raramente dá as caras, apareceu na feira apenas para fazer o que tucanos (não as aves) fazem: firula. Vestiu trajes típicos do país homenageado, Japão, e juntamente com seus penduricalhos da prefeitura de Belém e da Assembleia Legislativa, avacalhou um ritual xintoísta, que deveria trazer bênçãos, como conta a jornalista Franssinete Florenzano (link abaixo).
Não é à toa que o Pará não consegue bênção alguma. Está dominado por tucanos, que só dão marretadas. E ainda por cima na forma e na hora erradas.
Fontes:
No caso particular dos professores do Estado do Pará, uma ocupação é complicada, porque a categoria é grande e trabalha em diversas unidades (mesmo considerando o âmbito de uma única cidade). Fica complicado, imagino, manter um comando de greve em cada local. E quando se trata de ocupar um prédio governamental, como aconteceu aqui, os ânimos tendem a se acirrar. Quando grevistas arrombaram o portão do Centro Integrado de Governo, dias atrás, isso gerou uma repercussão ruim, principalmente entre aqueles que não sentem empatia com lutas trabalhistas. Que são muitos, quiçá a maioria.
Os professores em greve decidiram ocupar a Feira Pan-Amazônica do Livro, desde o início. Em que pese essa feira ser um evento infinitamente mais comercial do que cultural, já que - em relação ao público - se resume a reunir vários distribuidores em um mesmo espaço, para vender livros a preços elevadíssimos, a presença dos professores, nela, é mais do que justificável. Apesar das contradições tipicamente tucanas, livros rimam com educação e cultura, por isso os professores agiram acertadamente ao se instalarem lá.
Soube agora que os professores estão fazendo uma legítima greve de ocupação: estão utilizando o espaço da feira para dar aulas (preparatórias para o ENEM), fazer jogos educativos, oficinas, teatro e contação de estórias. Ótimas pedidas, sobretudo para crianças. De repente, até encontrei um motivo para visitar a feira. Há anos desisti dela, já que, para um consumidor comum, simplesmente não vale a pena. Até podemos encontrar alguns títulos interessantes e usualmente indisponíveis na cidade, mormente nas editoras universitárias. Mas isso exige um esforço de garimpagem, que não paga o desconforto de caminhar no aperto de um espaço abafado quando podemos garimpar e comprar pela internet, receber o livro em casa e, com sorte, pagar menos.
A greve já ultrapassou 70 dias e os prejuízos ao alunado são imensos. Com isso, o movimento tende a perder os apoios externos que possua. A esta altura, ruim para a categoria, bom para um governo caracterizado pela indolência crônica, que insiste em não negociar e que, ao menos, vai repor os descontos sobre os dias parados. Ou disse que o faria.
Enquanto isso, o governador-cantor-pescador, que raramente dá as caras, apareceu na feira apenas para fazer o que tucanos (não as aves) fazem: firula. Vestiu trajes típicos do país homenageado, Japão, e juntamente com seus penduricalhos da prefeitura de Belém e da Assembleia Legislativa, avacalhou um ritual xintoísta, que deveria trazer bênçãos, como conta a jornalista Franssinete Florenzano (link abaixo).
Não é à toa que o Pará não consegue bênção alguma. Está dominado por tucanos, que só dão marretadas. E ainda por cima na forma e na hora erradas.
Fontes:
- http://www.diarioonline.com.br/noticias/para/noticia-332612-professores-fazem-enterro-simbolico-no-hangar.html
- http://uruatapera.blogspot.com.br/2015/06/kagami-wari-tupiniquim.html
sábado, 30 de maio de 2015
Fieis à corrupção
Em uma faculdade privada localizada em uma cidade muito distante daqui, esta semana a funcionária responsável pelo processamento dos pedidos de financiamento estudantil (FIES) desabafou na sala dos professores. Estava indignada com a quantidade de safadezas praticadas no programa. Destacou, em especial, a grande quantidade de pedidos formulados por pessoas que simplesmente não precisam dessa política pública.
As malinagens são de todo tipo. Gente que é filho de fazendeiro, por exemplo, indica no formulário que é filho de agricultor e aponta um endereço lá no meio do mato. E como o governo federal coloca toda a carga da investigação sobre as instituições de ensino, são estas que precisam se certificar de que está tudo correto. Felizmente, essa valorosa brasileira leva muito a sério o seu trabalho e não dá sossego aos vigaristas.
Em um caso peculiar, um sujeito, titular de uma boa posição na Aeronáutica, não podia ocultar sua renda mensal superior a 8 mil reais. Que fez ele? Indicou no formulário um monte de dependentes, incluindo a sogra e sobrinhos. Como a legislação do FIES permite que a instituição requisite qualquer documento capaz de comprovar a situação socioeconômica do requerente, nossa zelosa brasileira requisitou a declaração de ajuste anual do cara. Queria, é óbvio, confirmar que aquele batalhão de dependentes também havia sido declarado à Receita Federal.
A funcionária, então, começou a receber telefonemas de alguém em Brasília, exigindo explicações sobre por que o processo do requerente não havia sido solucionado ainda. E acusando-a de estar aplicando mal a lei, porque o sujeito não seria obrigado a apresentar sua declaração de rendimentos. Mas nossa valorosa brasileira primeiro questionou por que uma pessoa estranha ao processo estava intervindo nele (e não recebeu explicação sobre isso). Depois, esclareceu que se o requerente não apresentasse a declaração de ajuste anual, o seu pedido seria indeferido e ele poderia, nos termos da lei, recorrer, se quisesse.
Como você já pode imaginar, o requerente não comprovou os seus dependentes, teve indeferido o seu pedido, mas não recorreu. Ele simplesmente sumiu. Sabe por quê? Porque nos precisos termos do art. 299 do Código Penal, inserir, em documento público ou particular, declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante constitui crime de falsidade ideológica, passível de 1 a 5 anos de reclusão, se o documento for público, ou 1 a 3 anos, se privado, além de multa.
E é assim, para dar apenas um exemplo, que pessoas comuns renovam, todo dia, a infatigável capacidade do brasileiro de se locupletar de tudo, transformando qualquer boa iniciativa em bandalheira.
O pequeno provocador que existe em mim está gritando aqui no meu ouvido que esse fulano da Aeronáutica, com certeza, é um dos milhões de brasileiros que esbraveja contra a corrupção dos políticos ou dos servidores públicos em geral, que se diz farto de tanta criminalidade, que exige leis penais mais duras e a redução da maioridade penal, que comemora a existência de uma "bancada da bala" no Congresso Nacional, que repete a cantilena imbecilizante do "bandido bom é bandido morto" e se enche de menosprezo para aludir ao "pessoal dos direitos humanos".
E já que estou falando de um fato ocorrido sabe-se lá onde e sabe-se lá quando (só confirmo que é verídico e recente), ouso especular que esse cidadão de bem que tentou fraudar o programa FIES também é um dos milhões de brasileiros que sente nojo das políticas de transferência de renda ou de cotas nas universidades, implantados ou ampliados de 2003 para cá. Considera-os prejudiciais porque negam a meritocracia e criam uma legião de malandros que viverão para sempre pendurados no produto do esforço dos ditos cidadãos de bem. Como cereja do bolo, ele provavelmente repercutiu, no Facebook, o meme sobre o esgotamento de recursos para o FIES, agora em 2015, como uma prova cabal de que a atual presidente aplicou um estelionato eleitoral.
O canalha somente se esqueceu do estelionato particular, aquele ocorrido dentro de seu próprio raio de ação, que provavelmente ele não viu como nada demais. Afinal de contas, todo mundo faz, né? Que que tem? Então deixa eu ir ali falar mal do governo.
As malinagens são de todo tipo. Gente que é filho de fazendeiro, por exemplo, indica no formulário que é filho de agricultor e aponta um endereço lá no meio do mato. E como o governo federal coloca toda a carga da investigação sobre as instituições de ensino, são estas que precisam se certificar de que está tudo correto. Felizmente, essa valorosa brasileira leva muito a sério o seu trabalho e não dá sossego aos vigaristas.
Em um caso peculiar, um sujeito, titular de uma boa posição na Aeronáutica, não podia ocultar sua renda mensal superior a 8 mil reais. Que fez ele? Indicou no formulário um monte de dependentes, incluindo a sogra e sobrinhos. Como a legislação do FIES permite que a instituição requisite qualquer documento capaz de comprovar a situação socioeconômica do requerente, nossa zelosa brasileira requisitou a declaração de ajuste anual do cara. Queria, é óbvio, confirmar que aquele batalhão de dependentes também havia sido declarado à Receita Federal.
A funcionária, então, começou a receber telefonemas de alguém em Brasília, exigindo explicações sobre por que o processo do requerente não havia sido solucionado ainda. E acusando-a de estar aplicando mal a lei, porque o sujeito não seria obrigado a apresentar sua declaração de rendimentos. Mas nossa valorosa brasileira primeiro questionou por que uma pessoa estranha ao processo estava intervindo nele (e não recebeu explicação sobre isso). Depois, esclareceu que se o requerente não apresentasse a declaração de ajuste anual, o seu pedido seria indeferido e ele poderia, nos termos da lei, recorrer, se quisesse.
Como você já pode imaginar, o requerente não comprovou os seus dependentes, teve indeferido o seu pedido, mas não recorreu. Ele simplesmente sumiu. Sabe por quê? Porque nos precisos termos do art. 299 do Código Penal, inserir, em documento público ou particular, declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante constitui crime de falsidade ideológica, passível de 1 a 5 anos de reclusão, se o documento for público, ou 1 a 3 anos, se privado, além de multa.
E é assim, para dar apenas um exemplo, que pessoas comuns renovam, todo dia, a infatigável capacidade do brasileiro de se locupletar de tudo, transformando qualquer boa iniciativa em bandalheira.
O pequeno provocador que existe em mim está gritando aqui no meu ouvido que esse fulano da Aeronáutica, com certeza, é um dos milhões de brasileiros que esbraveja contra a corrupção dos políticos ou dos servidores públicos em geral, que se diz farto de tanta criminalidade, que exige leis penais mais duras e a redução da maioridade penal, que comemora a existência de uma "bancada da bala" no Congresso Nacional, que repete a cantilena imbecilizante do "bandido bom é bandido morto" e se enche de menosprezo para aludir ao "pessoal dos direitos humanos".
E já que estou falando de um fato ocorrido sabe-se lá onde e sabe-se lá quando (só confirmo que é verídico e recente), ouso especular que esse cidadão de bem que tentou fraudar o programa FIES também é um dos milhões de brasileiros que sente nojo das políticas de transferência de renda ou de cotas nas universidades, implantados ou ampliados de 2003 para cá. Considera-os prejudiciais porque negam a meritocracia e criam uma legião de malandros que viverão para sempre pendurados no produto do esforço dos ditos cidadãos de bem. Como cereja do bolo, ele provavelmente repercutiu, no Facebook, o meme sobre o esgotamento de recursos para o FIES, agora em 2015, como uma prova cabal de que a atual presidente aplicou um estelionato eleitoral.
O canalha somente se esqueceu do estelionato particular, aquele ocorrido dentro de seu próprio raio de ação, que provavelmente ele não viu como nada demais. Afinal de contas, todo mundo faz, né? Que que tem? Então deixa eu ir ali falar mal do governo.
A aprovação do autor
A postagem anterior a esta, "Os frutos do nosso dinheirim", rendeu um inesperado e simpático comentário, escrito pelo jornalista a que eu me referi nela, responsável pelo trabalho de levantamento de informações legislativas. Escreveu-me Rodolfo Viana:
Que bacana ver meu humilde box repercutido aqui! :)
Excelentes considerações, Yúdice. Eu também fico bastante consternado quando pesquiso os projetos de leis que são apresentados por nossos parlamentares. Alguns são bem interessantes -- a desoneração de pessoas com determinadas doenças crônicas, por exemplo, é um tema recorrente no plenário. Por outro lado, também são bastante comuns projetos que visam armar a sociedade, dar poderes absolutos às polícias etc. Estes, sim, me preocupam muito.
Mas não podemos perder a esperança. E não podemos parar de lutar. Afinal, "o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética; o que me preocupa é o silêncio dos bons".
Abraços.
Agradeço muito pela gentileza do comentário. E para os que passarem por aqui, informo que Rodolfo Viana é um jornalista e escritor de 34 anos, sobre quem você pode saber mais em seu site.
Que bacana ver meu humilde box repercutido aqui! :)
Excelentes considerações, Yúdice. Eu também fico bastante consternado quando pesquiso os projetos de leis que são apresentados por nossos parlamentares. Alguns são bem interessantes -- a desoneração de pessoas com determinadas doenças crônicas, por exemplo, é um tema recorrente no plenário. Por outro lado, também são bastante comuns projetos que visam armar a sociedade, dar poderes absolutos às polícias etc. Estes, sim, me preocupam muito.
Mas não podemos perder a esperança. E não podemos parar de lutar. Afinal, "o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética; o que me preocupa é o silêncio dos bons".
Abraços.
Agradeço muito pela gentileza do comentário. E para os que passarem por aqui, informo que Rodolfo Viana é um jornalista e escritor de 34 anos, sobre quem você pode saber mais em seu site.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Os frutos do nosso dinheirim
Na edição n. 346 da revista SuperInteressante, publicada este mês, o jornalista Rodolfo Viana assinou um box chamado "Você paga este político para". Veja só este pouquinho de Brasil, ai, ai:
"Alberto Fraga, deputado federal pelo DEM-DF, para que ele defenda que, quando um policial mata alguém, o ato seja sempre considerado legítima defesa."
"Décio Lima, deputado federal pelo PT-SC, para que ele proíba funcionários do Ministério Público e juízes de postarem coisas na internet."
"João Rodrigues, deputado federal pelo PSD-SC, para que seja liberado o porte de armas a caminhoneiros e taxistas."
Com isso, meus alunos podem ter uma pequena demonstração de por que eu critico tanto, mas tanto e sempre, os parlamentares brasileiros.
Sobre o tolo projeto do petista, trata-se apenas de uma violação à liberdade de expressão, como se juízes e membros do MP não possuíssem o direito de interagir com terceiros, de um modo absolutamente disseminado hoje em dia. Além de uma agressão à individualidade, parte do pressuposto de que todos são irresponsáveis e postarão informações capazes de trazer prejuízo às funções desempenhadas.
Mas os outros dois projetos são de matar. Com trocadilho.
O projeto do demo não é o primeiro a pressupor que é possível forçar os fatos a caberem na lei, quando na verdade somente se pode adequar a lei aos fatos. Anos atrás, outro debiloide propôs que todos os fatos de trânsito fossem considerados como instruídos por dolo eventual. Ou seja, a forceps, ele queria acabar com a culpa e redefinir o elemento subjetivo do crime por lei, não mais pela intenção do agente.
Agora, o demo quer que a legítima defesa deixe de depender dos requisitos constantes do art. 25 do Código Penal e passe a ser uma condição natural do agente, desde que policial. Nem os famigerados autos de resistência, que supostamente exigem prova da regularidade da ação policial, foram tão longe no objetivo de liberar as execuções sumárias por policiais.
Por fim, o sequelado que pretende liberar o porte de arma para caminhoneiros e taxistas. Já imagino o argumento: para que essas categorias, tão expostas à violência, possam se defender. O projeto já é imbecil por acreditar, como muitos acreditam, que o cidadão comum ter uma arma ajudaria no combate à violência, ao invés de fomentá-la. E ignora totalmente a realidade. Imagine os caminhoneiros do Brasil, que seja lá pelo motivo que for, trabalham muitas horas por dia, alimentam-se mal e se entopem de rebite para não dormir, andando por aí armados. Ou os taxistas, na sandice do trânsito urbano, que gera tantos conflitos.
Minha esposa me perguntou se um deputado propõe um negócio desses para ganhar visibilidade e votos. Minha suposição é que ele tenha ligações pessoais ou tenha recebido doação de campanha da indústria armamentista. Esse compadrio espúrio é a origem de muitos projetos de lei abusivos. Que o digam Eduardo Cunha e os planos de saúde.
Você tem medo do mundo como está? Eu tenho medo do mundo projetado.
"Alberto Fraga, deputado federal pelo DEM-DF, para que ele defenda que, quando um policial mata alguém, o ato seja sempre considerado legítima defesa."
"Décio Lima, deputado federal pelo PT-SC, para que ele proíba funcionários do Ministério Público e juízes de postarem coisas na internet."
"João Rodrigues, deputado federal pelo PSD-SC, para que seja liberado o porte de armas a caminhoneiros e taxistas."
Com isso, meus alunos podem ter uma pequena demonstração de por que eu critico tanto, mas tanto e sempre, os parlamentares brasileiros.
Sobre o tolo projeto do petista, trata-se apenas de uma violação à liberdade de expressão, como se juízes e membros do MP não possuíssem o direito de interagir com terceiros, de um modo absolutamente disseminado hoje em dia. Além de uma agressão à individualidade, parte do pressuposto de que todos são irresponsáveis e postarão informações capazes de trazer prejuízo às funções desempenhadas.
Mas os outros dois projetos são de matar. Com trocadilho.
O projeto do demo não é o primeiro a pressupor que é possível forçar os fatos a caberem na lei, quando na verdade somente se pode adequar a lei aos fatos. Anos atrás, outro debiloide propôs que todos os fatos de trânsito fossem considerados como instruídos por dolo eventual. Ou seja, a forceps, ele queria acabar com a culpa e redefinir o elemento subjetivo do crime por lei, não mais pela intenção do agente.
Agora, o demo quer que a legítima defesa deixe de depender dos requisitos constantes do art. 25 do Código Penal e passe a ser uma condição natural do agente, desde que policial. Nem os famigerados autos de resistência, que supostamente exigem prova da regularidade da ação policial, foram tão longe no objetivo de liberar as execuções sumárias por policiais.
Por fim, o sequelado que pretende liberar o porte de arma para caminhoneiros e taxistas. Já imagino o argumento: para que essas categorias, tão expostas à violência, possam se defender. O projeto já é imbecil por acreditar, como muitos acreditam, que o cidadão comum ter uma arma ajudaria no combate à violência, ao invés de fomentá-la. E ignora totalmente a realidade. Imagine os caminhoneiros do Brasil, que seja lá pelo motivo que for, trabalham muitas horas por dia, alimentam-se mal e se entopem de rebite para não dormir, andando por aí armados. Ou os taxistas, na sandice do trânsito urbano, que gera tantos conflitos.
Minha esposa me perguntou se um deputado propõe um negócio desses para ganhar visibilidade e votos. Minha suposição é que ele tenha ligações pessoais ou tenha recebido doação de campanha da indústria armamentista. Esse compadrio espúrio é a origem de muitos projetos de lei abusivos. Que o digam Eduardo Cunha e os planos de saúde.
Você tem medo do mundo como está? Eu tenho medo do mundo projetado.
sábado, 23 de maio de 2015
"Há mortes..."
Na madrugada de hoje, assaltantes tomaram de assalto um ônibus parado em um posto de combustível, durante abastecimento, e um deles, sabe-se lá com qual intuito, alvejou uma vítima indefesa. Com isso, provocou a morte de Lucas Silva da Costa, de apenas 19 anos, estudante de Fisioterapia da Universidade da Amazônia. Lucas era um dos aproximadamente 60 universitários que deixaram suas casas rumo à comunidade de Algodoalzinho, Município de Magalhães Barata, a aproximadamente 160 Km de Belém. Dada a distância a percorrer, precisaram madrugar e se expuseram à insegurança das ruas de nossa cidade.
Esses valorosos jovens participam do Rota Solidária, programa de extensão do CESUPA, interdisciplinar e interinstitucional, que leva assistência social e à saúde para comunidades carentes. Esta particularidade tinge de cores ainda mais horrendas o episódio, pois é a perda de uma vida generosa, preocupada com o semelhante e em plena ação pelo bem alheio. Além disso, esta tragédia traz o sofrimento para dentro de nossas casas.
Não conheci Lucas. Mas a minha página do Facebook está se enchendo de mensagens de pessoas que o conheceram. Era amigo de alunos meus, de filhos de amigos meus e estava colaborando com a instituição onde eu leciono. Acima de tudo, era o filho de alguém. O irmão e o namorado de alguém. A esperança de muitos.
Nesta quadra da vida, em que ando profundamente sensibilizado, por razões familiares, o sofrimento e a perda me doem muito particularmente. Eu gostaria de poder fazer algo que mudasse os fatos, mas é impossível. Eu gostaria de dizer algo que fizesse a família e os amigos de Lucas se sentirem melhor, mas não sei se consigo. Há alguns anos, estive no velório de um jovem basicamente da mesma idade e me recordo de como me senti impactado de ver tanta gente jovem, pouco mais do que crianças, sofrendo de um jeito absurdo. Ali, houvera um acidente; hoje, para piorar, alguém decidiu que podia suprimir uma vida. A dor vem com notas de revolta. É tudo grave e triste demais.
Em seu livro Em busca das penas perdidas, Zaffaroni nos fala de um genocídio em ato, na América Latina. E faz uma angustiante lista de motivos pelos quais seres humanos morrem (são mortos!!) por modos que tornam o Estado responsável em alguma medida. E é um sentimento semelhante que tenho visto em algumas das manifestações que li: as pessoas estão assustadas e revoltadas porque a omissão estatal quanto à segurança pública nos coloca sob risco permanente.
Para além de toda dor, devemos lembrar que o crime e a violência jamais serão eliminados, enquanto nós formos o tipo de humanidade que somos. Mesmo no mais organizado, honesto e proativo dos mundos, sempre haverá quem provoque dor. Contudo, nesse mundo ideal tais atos seriam a exceção. A nossa angústia é pensar que, por aqui, as tragédias se sucedem sem trégua e não enxergamos alento no horizonte.
Só posso desejar que Lucas vá com Deus e que sua família e amigos encontrem paz. E que ninguém mais precise passar por experiência tão traumática. Tal desejo, no entanto, é mais uma questão de fé. Então que haja fé para aqueles que choram.
Esses valorosos jovens participam do Rota Solidária, programa de extensão do CESUPA, interdisciplinar e interinstitucional, que leva assistência social e à saúde para comunidades carentes. Esta particularidade tinge de cores ainda mais horrendas o episódio, pois é a perda de uma vida generosa, preocupada com o semelhante e em plena ação pelo bem alheio. Além disso, esta tragédia traz o sofrimento para dentro de nossas casas.
Não conheci Lucas. Mas a minha página do Facebook está se enchendo de mensagens de pessoas que o conheceram. Era amigo de alunos meus, de filhos de amigos meus e estava colaborando com a instituição onde eu leciono. Acima de tudo, era o filho de alguém. O irmão e o namorado de alguém. A esperança de muitos.
Nesta quadra da vida, em que ando profundamente sensibilizado, por razões familiares, o sofrimento e a perda me doem muito particularmente. Eu gostaria de poder fazer algo que mudasse os fatos, mas é impossível. Eu gostaria de dizer algo que fizesse a família e os amigos de Lucas se sentirem melhor, mas não sei se consigo. Há alguns anos, estive no velório de um jovem basicamente da mesma idade e me recordo de como me senti impactado de ver tanta gente jovem, pouco mais do que crianças, sofrendo de um jeito absurdo. Ali, houvera um acidente; hoje, para piorar, alguém decidiu que podia suprimir uma vida. A dor vem com notas de revolta. É tudo grave e triste demais.
Em seu livro Em busca das penas perdidas, Zaffaroni nos fala de um genocídio em ato, na América Latina. E faz uma angustiante lista de motivos pelos quais seres humanos morrem (são mortos!!) por modos que tornam o Estado responsável em alguma medida. E é um sentimento semelhante que tenho visto em algumas das manifestações que li: as pessoas estão assustadas e revoltadas porque a omissão estatal quanto à segurança pública nos coloca sob risco permanente.
Para além de toda dor, devemos lembrar que o crime e a violência jamais serão eliminados, enquanto nós formos o tipo de humanidade que somos. Mesmo no mais organizado, honesto e proativo dos mundos, sempre haverá quem provoque dor. Contudo, nesse mundo ideal tais atos seriam a exceção. A nossa angústia é pensar que, por aqui, as tragédias se sucedem sem trégua e não enxergamos alento no horizonte.
Só posso desejar que Lucas vá com Deus e que sua família e amigos encontrem paz. E que ninguém mais precise passar por experiência tão traumática. Tal desejo, no entanto, é mais uma questão de fé. Então que haja fé para aqueles que choram.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Aquela do copo meio cheio, meio vazio
Existe uma metáfora que tenta indicar se você é do tipo otimista ou pessimista: é aquela pergunta se, ao olhar para um copo pela metade, você o vê meio cheio ou meio vazio. O pano de fundo é enfatizar a questão do foco: você classifica o copo de acordo com o que lhe desperta maior atenção. Parece banal, mas tem lógica.
Nos meus longos anos de dinâmicas de grupo, também fui exposto a uma técnica mais matreira e menos inteligente: exibia-se um cartaz branco com um ponto/risco/sujeira no centro e se perguntava o que a pessoa via. O objetivo era induzi-la a se referir ao ponto/risco/sujeira para "surpreendê-la" com um comentário moralizador, do tipo: "Você enxerga apenas o risco e não presta atenção na imensidão de limpeza que existe em redor?"
Nos últimos dois dias, uma tragédia urbana trouxe à baila esta questão. Refiro-me ao caso de Jaime Gold, médico de 55 anos assassinado a facadas enquanto pedalava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, vitimado por assaltantes adolescentes, mesmo sem reagir à abordagem.
Para um humanista como eu, uma situação dessas seria horrenda em qualquer contexto e não deveria acontecer nunca. Já para um criminólogo como eu, sem olvidar o horror inerente ao desperdício de uma vida humana, não há como ignorar que muitas pessoas são brutalmente assassinadas todos os dias, ganhando atenção apenas dos jornais sanguinolentos que se locupletam do sofrimento alheio, sem qualquer respeito por ele. Mas o caso ganhou repercussão nacional porque a vítima foi um cidadão produtivo, um homem branco, um médico, que se exercitava em um ponto turístico da cidade mais badalada do país. Quando a violência bate à porta da casa grande, surge um escândalo. O mesmo não se diga do genocídio1 diário dos meninos negros (e quase pretos de tão pobres2) por todo o país.
Amplamente divulgado o caso, a reação natural do brasileiro médio foi a de enfatizar a adolescência do latrocida para concluir pela necessidade de se reduzir a maioridade penal no Brasil. Adeptos de movimentos de lei e ordem são sempre assim: reativos, um sintoma de sua baixa capacidade e total aversão à reflexão, notadamente a de longo prazo e permeável ao confronto de visões opostas. O mural da moralidade brasileira, que atende pelo nome de Facebook, foi-se enchendo de manifestações nesse sentido.
De ontem para hoje, contudo, as postagens que proliferaram tinham como mote o contundente depoimento de Márcia Amil, ex-esposa e amiga de Gold, que se declarou frontalmente contrária à redução da maioridade penal e, de quebra, ainda lembrou os não-médicos assassinados todos os dias além da Zona Sul (leia aqui). Um regozijo para os meus colegas avessos ao punitivismo irracional.
Em consequência, meu mural no Facebook hoje divide as pessoas entre aquelas que replicam manchetes sobre o crime em si e aquelas que repercutem a expressa contrariedade de Amil à redução da maioridade penal. Tudo sintoma. Os primeiros, claro, agem como se dessem a todos nós uma advertência: Amanhã pode ser você. Tema e force as autoridades a combater o crime, enrijecendo a legislação penal, que é o único (ou o melhor) jeito.
A posição de Amil não surpreende. A novelista Glória Perez, que teve a filha Daniella assassinada em 1992, um dos casos mais célebres da literatura criminal brasileira, também se manifestou publicamente contra a pena de morte. E era uma mãe falando, alguém que teve o poder de estar à frente de uma campanha para arrecadar 1,3 milhão de assinaturas em diferentes Estados do país, gerando o primeiro projeto de lei de iniciativa popular a se tornar lei efetiva, que segue sendo o único em matéria penal (veja aqui). A Lei n. 8.930, de 6.9.1994, entrou em vigor apenas um ano e oito meses após o crime.
A atitude de mulheres como Amil e Perez desvela algo em que tenho pensado muito, à medida que avançam os meus anos de docência e vejo muitos de meus ex-alunos se enraizando na sopa geral do clamor por maior punição: eu não quero que crimes brutais, comigo ou com estranhos, inspirem em mim a irracionalidade punitiva porque eu não quero que a maldade, notadamente a maldade alheia, passe a me definir como ser humano. Eu quero ser a pessoa que eu mesmo desejo ser, de acordo com as minhas próprias possibilidades existenciais. Quero resguardar o meu poder de escolha em algo cuja importância não tem paralelo com nada mais: a compreensão que temos de nós mesmos. Se matam alguém que amo e eu passo a defender a pena de morte e outros desvarios, que antes repudiava, a maldade venceu. Alguém decidiu por mim.
Termino estas breves e frouxas reflexões lembrando uma particularidade científica, que provavelmente passa despercebida pela maioria. Se quisermos, ela também pode inspirar metáforas. Trata-se de uma particularidade capaz de provar que o copo meio cheio, meio vazio, na verdade nos enseja um falso dilema, porque o copo sempre está completamente cheio, a menos que estivéssemos no vácuo. Mas no vácuo não sobreviveríamos.
Pessimista convicto, eu não sei se esse detalhe é capaz de levar à vitória os otimistas, mas provavelmente a vida como é, a natureza, os fatos, tudo isso realmente tem a capacidade de nos ensinar alguma coisa. Resta saber se queremos ver as coisas como são ou se preferimos nos concentrar nas aparências.
_________________________________
1 O genocídio constitui uma prática de Estado, clandestina porém real e deliberada, segundo denunciam as criminologias críticas, sendo uma questão particularmente central na obra de Eugenio Raúl Zaffaroni.
2 Para quem não sabe, esta expressão foi extraída da canção "Haiti", de Caetano Veloso, gravada por ele e Gilberto Gil.
Nos meus longos anos de dinâmicas de grupo, também fui exposto a uma técnica mais matreira e menos inteligente: exibia-se um cartaz branco com um ponto/risco/sujeira no centro e se perguntava o que a pessoa via. O objetivo era induzi-la a se referir ao ponto/risco/sujeira para "surpreendê-la" com um comentário moralizador, do tipo: "Você enxerga apenas o risco e não presta atenção na imensidão de limpeza que existe em redor?"
Nos últimos dois dias, uma tragédia urbana trouxe à baila esta questão. Refiro-me ao caso de Jaime Gold, médico de 55 anos assassinado a facadas enquanto pedalava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, vitimado por assaltantes adolescentes, mesmo sem reagir à abordagem.
Para um humanista como eu, uma situação dessas seria horrenda em qualquer contexto e não deveria acontecer nunca. Já para um criminólogo como eu, sem olvidar o horror inerente ao desperdício de uma vida humana, não há como ignorar que muitas pessoas são brutalmente assassinadas todos os dias, ganhando atenção apenas dos jornais sanguinolentos que se locupletam do sofrimento alheio, sem qualquer respeito por ele. Mas o caso ganhou repercussão nacional porque a vítima foi um cidadão produtivo, um homem branco, um médico, que se exercitava em um ponto turístico da cidade mais badalada do país. Quando a violência bate à porta da casa grande, surge um escândalo. O mesmo não se diga do genocídio1 diário dos meninos negros (e quase pretos de tão pobres2) por todo o país.
Amplamente divulgado o caso, a reação natural do brasileiro médio foi a de enfatizar a adolescência do latrocida para concluir pela necessidade de se reduzir a maioridade penal no Brasil. Adeptos de movimentos de lei e ordem são sempre assim: reativos, um sintoma de sua baixa capacidade e total aversão à reflexão, notadamente a de longo prazo e permeável ao confronto de visões opostas. O mural da moralidade brasileira, que atende pelo nome de Facebook, foi-se enchendo de manifestações nesse sentido.
De ontem para hoje, contudo, as postagens que proliferaram tinham como mote o contundente depoimento de Márcia Amil, ex-esposa e amiga de Gold, que se declarou frontalmente contrária à redução da maioridade penal e, de quebra, ainda lembrou os não-médicos assassinados todos os dias além da Zona Sul (leia aqui). Um regozijo para os meus colegas avessos ao punitivismo irracional.
Em consequência, meu mural no Facebook hoje divide as pessoas entre aquelas que replicam manchetes sobre o crime em si e aquelas que repercutem a expressa contrariedade de Amil à redução da maioridade penal. Tudo sintoma. Os primeiros, claro, agem como se dessem a todos nós uma advertência: Amanhã pode ser você. Tema e force as autoridades a combater o crime, enrijecendo a legislação penal, que é o único (ou o melhor) jeito.
A posição de Amil não surpreende. A novelista Glória Perez, que teve a filha Daniella assassinada em 1992, um dos casos mais célebres da literatura criminal brasileira, também se manifestou publicamente contra a pena de morte. E era uma mãe falando, alguém que teve o poder de estar à frente de uma campanha para arrecadar 1,3 milhão de assinaturas em diferentes Estados do país, gerando o primeiro projeto de lei de iniciativa popular a se tornar lei efetiva, que segue sendo o único em matéria penal (veja aqui). A Lei n. 8.930, de 6.9.1994, entrou em vigor apenas um ano e oito meses após o crime.
A atitude de mulheres como Amil e Perez desvela algo em que tenho pensado muito, à medida que avançam os meus anos de docência e vejo muitos de meus ex-alunos se enraizando na sopa geral do clamor por maior punição: eu não quero que crimes brutais, comigo ou com estranhos, inspirem em mim a irracionalidade punitiva porque eu não quero que a maldade, notadamente a maldade alheia, passe a me definir como ser humano. Eu quero ser a pessoa que eu mesmo desejo ser, de acordo com as minhas próprias possibilidades existenciais. Quero resguardar o meu poder de escolha em algo cuja importância não tem paralelo com nada mais: a compreensão que temos de nós mesmos. Se matam alguém que amo e eu passo a defender a pena de morte e outros desvarios, que antes repudiava, a maldade venceu. Alguém decidiu por mim.
Termino estas breves e frouxas reflexões lembrando uma particularidade científica, que provavelmente passa despercebida pela maioria. Se quisermos, ela também pode inspirar metáforas. Trata-se de uma particularidade capaz de provar que o copo meio cheio, meio vazio, na verdade nos enseja um falso dilema, porque o copo sempre está completamente cheio, a menos que estivéssemos no vácuo. Mas no vácuo não sobreviveríamos.
Pessimista convicto, eu não sei se esse detalhe é capaz de levar à vitória os otimistas, mas provavelmente a vida como é, a natureza, os fatos, tudo isso realmente tem a capacidade de nos ensinar alguma coisa. Resta saber se queremos ver as coisas como são ou se preferimos nos concentrar nas aparências.
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1 O genocídio constitui uma prática de Estado, clandestina porém real e deliberada, segundo denunciam as criminologias críticas, sendo uma questão particularmente central na obra de Eugenio Raúl Zaffaroni.
2 Para quem não sabe, esta expressão foi extraída da canção "Haiti", de Caetano Veloso, gravada por ele e Gilberto Gil.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Alguém sabe disso?
Se nenhum imprevisto ocorrer, em menos de um dia minha mãe voltará para casa após mais uma temporada de internação hospitalar. Desde novembro passado, já é a terceira vez, totalizando 34 dias.
A cada nova jornada nessas casas de sofrimento que são os hospitais, alguma coisa nova aprendemos. Por exemplo: minha mãe sofreu um edema agudo de pulmão e precisou instalar um dreno no local. Os dias subsequentes ao procedimento cirúrgico são de muita dor, o que levou o médico a prescrever o medicamento Dimorf (morfina), administrado por via oral. O resultado foram dois dias de vômitos e incapacidade de alimentação. Já muito debilitada, pelas doenças e pelos tratamentos, minha mãe obviamente se fragilizou ainda mais.
A via oral foi substituída pela injetável e o Dimorf foi trocado pelo Tramal, que é mais leve, porém tem o mesmo princípio ativo. As violentas náuseas prosseguiram. Até que apareceu uma farmacêutica e informou que o analgésico deve ser administrado no soro, muito lentamente, ao longo de uma hora e meia. Se adotado esse procedimento, com Dimorf ou Tramal, não haveria enjoo. E... voilà: as náuseas passaram e minha mãe voltou a se alimentar. Muito pouco, que é só o que consegue, mas pelo menos voltou a sustentar no estômago o alimento ingerido. Sem falar que o mal-estar foi eliminado.
O primeiro sentimento diante disso é de alívio, naturalmente. Mas depois bate uma revolta, sabe? Tantos profissionais de saúde, equipes de enfermagem se revezando dia após dia e ninguém sabia que ministrar o analgésico lentamente poderia ser a solução simplória de um problema grave? Ninguém? Será que estamos lidando com uma informação assim tão restrita? Será que minha mãe, em 2015, foi o primeiro ser humano no mundo a enfrentar problema semelhante? Será que a persistência de um quadro desfavorável, ao longo de dois dias, não poderia mobilizar os profissionais a buscar uma solução? A ser mais proativos?
Os sentimentos são muito contraditórios, além de intensos. Este episódio entra na longa lista de perguntas que poderíamos fazer aos responsáveis, no dia do Juízo Final. Mas como não estamos lá, eu me pergunto se vale a pena comprar essa briga. Qual seria a utilidade, agora? Seja como for, eu realmente não estou em condições de pensar nisso por enquanto.
Neste momento, tudo o que quero é tomar minha mãe pelo braço e levá-la para casa. Depois penso no resto.
A cada nova jornada nessas casas de sofrimento que são os hospitais, alguma coisa nova aprendemos. Por exemplo: minha mãe sofreu um edema agudo de pulmão e precisou instalar um dreno no local. Os dias subsequentes ao procedimento cirúrgico são de muita dor, o que levou o médico a prescrever o medicamento Dimorf (morfina), administrado por via oral. O resultado foram dois dias de vômitos e incapacidade de alimentação. Já muito debilitada, pelas doenças e pelos tratamentos, minha mãe obviamente se fragilizou ainda mais.
A via oral foi substituída pela injetável e o Dimorf foi trocado pelo Tramal, que é mais leve, porém tem o mesmo princípio ativo. As violentas náuseas prosseguiram. Até que apareceu uma farmacêutica e informou que o analgésico deve ser administrado no soro, muito lentamente, ao longo de uma hora e meia. Se adotado esse procedimento, com Dimorf ou Tramal, não haveria enjoo. E... voilà: as náuseas passaram e minha mãe voltou a se alimentar. Muito pouco, que é só o que consegue, mas pelo menos voltou a sustentar no estômago o alimento ingerido. Sem falar que o mal-estar foi eliminado.
O primeiro sentimento diante disso é de alívio, naturalmente. Mas depois bate uma revolta, sabe? Tantos profissionais de saúde, equipes de enfermagem se revezando dia após dia e ninguém sabia que ministrar o analgésico lentamente poderia ser a solução simplória de um problema grave? Ninguém? Será que estamos lidando com uma informação assim tão restrita? Será que minha mãe, em 2015, foi o primeiro ser humano no mundo a enfrentar problema semelhante? Será que a persistência de um quadro desfavorável, ao longo de dois dias, não poderia mobilizar os profissionais a buscar uma solução? A ser mais proativos?
Os sentimentos são muito contraditórios, além de intensos. Este episódio entra na longa lista de perguntas que poderíamos fazer aos responsáveis, no dia do Juízo Final. Mas como não estamos lá, eu me pergunto se vale a pena comprar essa briga. Qual seria a utilidade, agora? Seja como for, eu realmente não estou em condições de pensar nisso por enquanto.
Neste momento, tudo o que quero é tomar minha mãe pelo braço e levá-la para casa. Depois penso no resto.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Twitterítica XXXIV
Devo estar evoluindo. Nos últimos dias, o que mais fiz foi calar a voz ou apagar textos antes de me expressar, para prevenir melindres. Mas eu preferia chutar bundas.
Twitterítica XXXIII
Um mix de sentimentos ruins procurando um alvo. Mãe internada e esta sensação de que tudo dá errado.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Qual o propósito?
Dia desses, eu me preparava para uma aula em que faria uma contextualização acerca de crimes sexuais e mencionei a minha esposa que abordaria a questão das cantadas de rua que as mulheres sofrem. Ela me sugeriu, não sei se brincando ou a sério, que exibisse o vídeo "Cantada", do Porta dos Fundos. Apesar de ver relação com o tema da aula, nem cogitei de fazer a exibição, face ao palavreado chulo do esquete (aqui o vídeo). Escolado, sei que na hora as pessoas riem, mas é melhor não dar margem a posteriores melindres.
Recordei-me disto ao tomar conhecimento de que, segundo entendera a princípio, uma professora teria dado um poema erótico para seus alunos da 5ª série, em uma escola municipal de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. Lendo a matéria, descobri que, na verdade, o poema foi dado pela vice-diretora, em ocasião em que a professora da turma havia faltado. A notícia, exígua, não fornece maiores informações, então estou supondo que, diante da ausência da professora, a vice-diretora entrou na turma para suprir uma emergência e, portanto, tomou uma decisão sem planejamento. Foi no impulso ou, até, tentou causar algum impacto. O fato é que, agora, vai responder a um processo disciplinar e pode sofrer uma punição, em tese, até mesmo de demissão.
Não é a primeira vez que profissionais da educação se envolvem em confusão porque adotaram, em sala de aula, algum recurso que remete ao sexo. O meu comentário original seria no sentido de que não vejo mal, honestamente, nesse tipo de expediente, assim como não vejo mal em utilizar humor, expor imagens chocantes (sou de professor de direito penal, ora!), cantar, apresentar performances, etc. O problema não é o recurso, mas a finalidade a que se destina. Se existe uma finalidade pedagógica clara e refletida, se o educador, de boa-fé, supõe que pode favorecer algum conteúdo ou habilidade com certa estratégia, não vejo mal em seu emprego. Mesmo que, eventualmente, estejamos falando de crianças.
Entendam, por favor, que estou longe de ser um professor permissivo. Eu não usaria um poema falando de "pau" e "xota" para crianças de 10, 11 anos. Assim como não quis expor meus alunos adultos aos tabuísmos de um vídeo de humor (que, provavelmente, eles conhecem, assim como inúmeros outros tão ou mais pornofônicos). Assim como não apresento imagens chocantes em minhas aulas, mesmo havendo alguma lógica nisso, porque sei que fere a sensibilidade de muitos alunos e qualquer proveito informativo a ser extraído disso eu poderia obter usando outra estratégia.
Meu objetivo original para esta postagem, contudo, perdeu-se. Agora estou pensando que a vice-diretora tomou essa atitude sem um critério razoável e, com isso, acabou se expondo às críticas dos pais. Sempre há pais ultramoralistas, ao menos quando é para criticar os outros. A escola não pode falhar, em nenhuma medida, no processo de educação que a família brasileira sistematicamente lhe transfere de forma integral.
Isto nos remete, contudo, a uma outra questão: as pessoas continuam, em 2015, a tratar o sexo com a mentalidade da Idade Média. Ele é sujo, pecaminoso e devemos fingir que não faz parte de nossas vidas. Quando ele aparece na escola, então, é um Deus nos acuda. Mas será que isso realmente se justifica?
Um pouco acima da faixa etária das crianças que leram o tal poema, outro dia, aqui em Belém, alunos de uma escola particular gravaram um videozinho usando o aplicativo para smartphone Dubsmash, dublando um funk com letra tosca e sexual (perdoem o pleonasmo) no qual se diz que "a novinha" quer pau. Enquanto o moleque imberbe dizia "pau, ela quer pau", a coleguinha se abaixava como se fosse abocanhar-lhe o membro que daqui a mais alguns anos será efetivamente viril. Degradante, a meu ver, mas real. A escola brasileira quer jogar o que para baixo do tapete?
Penso que é mais interessante colocar o sexo na agenda das instituições de ensino e tentar usar o espaço da escola, cenário das relações horizontais que, ao longo da vida, tornam-se mais importantes para o indivíduo do que as verticais, para falar de consequências, de amor-próprio, de responsabilidade. Nesse sentido, até mesmo o poema "Ciuminho básico" poderia ensejar reflexões, tais como você acha saudável o tipo de relação sugerida no poema?
Por conseguinte, acho que as famílias estão erradas com o estardalhaço. E a escola está errada por se acovardar diante das relações clientelistas que hoje presidem o já complicado trabalho do educador.
No mais, minha mente contrária a desvarios punitivistas ainda lastima que a profissional esteja ameaçada até de demissão, ao menos em tese, quando a responsabilização, se houver (não estou certo nem de que ela mereça uma punição), deve levar em conta uma série de fatores, inclusive a condução da pessoa no trabalho até aqui e as consequências reais de seus atos. Será que alguém perguntou às crianças se elas se sentiram ofendidas? Ou foram somente os pais, os mesmos que deixam os mesmos filhos vendo sexo implícito na novela e fazem vista grossa aos filmes, revistas e à navegação na internet?
Concluo dizendo que achei o poema interessante. Não bonito, não instigante, mas interessante. No estilo, prefiro Elisa Lucinda. E realmente não tenho problema com palavrões, que falo quase o tempo todo. Já publiquei aqui no blog, inclusive, o irreverente "Soneto do caju", do meu poeta favorito, Vinícius de Morais. Como disse antes, tudo é uma questão de propósito. Especialmente se há crianças por perto.
Ciuminho básico (Ana Elisa Ribeiro)
escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:
vou cercar tua boca
com arame farpado
pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço
vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos
esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos
no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota
finco no cu uma placa
"não há vagas, vagabundas"
na bunda ponho uma cerca
proíbo os arrepios
exceto os de medo
e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.
PS - O resultado de suscitar o tema do assédio de rua, na aula, por si só vale uma postagem.
Recordei-me disto ao tomar conhecimento de que, segundo entendera a princípio, uma professora teria dado um poema erótico para seus alunos da 5ª série, em uma escola municipal de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. Lendo a matéria, descobri que, na verdade, o poema foi dado pela vice-diretora, em ocasião em que a professora da turma havia faltado. A notícia, exígua, não fornece maiores informações, então estou supondo que, diante da ausência da professora, a vice-diretora entrou na turma para suprir uma emergência e, portanto, tomou uma decisão sem planejamento. Foi no impulso ou, até, tentou causar algum impacto. O fato é que, agora, vai responder a um processo disciplinar e pode sofrer uma punição, em tese, até mesmo de demissão.
Não é a primeira vez que profissionais da educação se envolvem em confusão porque adotaram, em sala de aula, algum recurso que remete ao sexo. O meu comentário original seria no sentido de que não vejo mal, honestamente, nesse tipo de expediente, assim como não vejo mal em utilizar humor, expor imagens chocantes (sou de professor de direito penal, ora!), cantar, apresentar performances, etc. O problema não é o recurso, mas a finalidade a que se destina. Se existe uma finalidade pedagógica clara e refletida, se o educador, de boa-fé, supõe que pode favorecer algum conteúdo ou habilidade com certa estratégia, não vejo mal em seu emprego. Mesmo que, eventualmente, estejamos falando de crianças.
Entendam, por favor, que estou longe de ser um professor permissivo. Eu não usaria um poema falando de "pau" e "xota" para crianças de 10, 11 anos. Assim como não quis expor meus alunos adultos aos tabuísmos de um vídeo de humor (que, provavelmente, eles conhecem, assim como inúmeros outros tão ou mais pornofônicos). Assim como não apresento imagens chocantes em minhas aulas, mesmo havendo alguma lógica nisso, porque sei que fere a sensibilidade de muitos alunos e qualquer proveito informativo a ser extraído disso eu poderia obter usando outra estratégia.
Meu objetivo original para esta postagem, contudo, perdeu-se. Agora estou pensando que a vice-diretora tomou essa atitude sem um critério razoável e, com isso, acabou se expondo às críticas dos pais. Sempre há pais ultramoralistas, ao menos quando é para criticar os outros. A escola não pode falhar, em nenhuma medida, no processo de educação que a família brasileira sistematicamente lhe transfere de forma integral.
Isto nos remete, contudo, a uma outra questão: as pessoas continuam, em 2015, a tratar o sexo com a mentalidade da Idade Média. Ele é sujo, pecaminoso e devemos fingir que não faz parte de nossas vidas. Quando ele aparece na escola, então, é um Deus nos acuda. Mas será que isso realmente se justifica?
Um pouco acima da faixa etária das crianças que leram o tal poema, outro dia, aqui em Belém, alunos de uma escola particular gravaram um videozinho usando o aplicativo para smartphone Dubsmash, dublando um funk com letra tosca e sexual (perdoem o pleonasmo) no qual se diz que "a novinha" quer pau. Enquanto o moleque imberbe dizia "pau, ela quer pau", a coleguinha se abaixava como se fosse abocanhar-lhe o membro que daqui a mais alguns anos será efetivamente viril. Degradante, a meu ver, mas real. A escola brasileira quer jogar o que para baixo do tapete?
Penso que é mais interessante colocar o sexo na agenda das instituições de ensino e tentar usar o espaço da escola, cenário das relações horizontais que, ao longo da vida, tornam-se mais importantes para o indivíduo do que as verticais, para falar de consequências, de amor-próprio, de responsabilidade. Nesse sentido, até mesmo o poema "Ciuminho básico" poderia ensejar reflexões, tais como você acha saudável o tipo de relação sugerida no poema?
Por conseguinte, acho que as famílias estão erradas com o estardalhaço. E a escola está errada por se acovardar diante das relações clientelistas que hoje presidem o já complicado trabalho do educador.
No mais, minha mente contrária a desvarios punitivistas ainda lastima que a profissional esteja ameaçada até de demissão, ao menos em tese, quando a responsabilização, se houver (não estou certo nem de que ela mereça uma punição), deve levar em conta uma série de fatores, inclusive a condução da pessoa no trabalho até aqui e as consequências reais de seus atos. Será que alguém perguntou às crianças se elas se sentiram ofendidas? Ou foram somente os pais, os mesmos que deixam os mesmos filhos vendo sexo implícito na novela e fazem vista grossa aos filmes, revistas e à navegação na internet?
Concluo dizendo que achei o poema interessante. Não bonito, não instigante, mas interessante. No estilo, prefiro Elisa Lucinda. E realmente não tenho problema com palavrões, que falo quase o tempo todo. Já publiquei aqui no blog, inclusive, o irreverente "Soneto do caju", do meu poeta favorito, Vinícius de Morais. Como disse antes, tudo é uma questão de propósito. Especialmente se há crianças por perto.
Ciuminho básico (Ana Elisa Ribeiro)
escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:
vou cercar tua boca
com arame farpado
pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço
vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos
esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos
no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota
finco no cu uma placa
"não há vagas, vagabundas"
na bunda ponho uma cerca
proíbo os arrepios
exceto os de medo
e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.
PS - O resultado de suscitar o tema do assédio de rua, na aula, por si só vale uma postagem.
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