quarta-feira, 30 de março de 2011

Um bom feito e bem feito

O círculo vermelho indica o local da malinagem.
Demorou, mas finalmente o poder público decidiu tomar uma providência em relação ao acesso irregular que os motoristas inventaram ali na Av. Pedro Miranda, entre a Praça Eneida de Moraes e a ponte sobre a Rua Canal do Galo.
Há bastante tempo, condutores aloprados, aproveitando-se do fato de que ali não havia um canteiro dividindo as pistas, apenas blocos de concreto, começaram a empurrá-los para o lado. Começou com motocicletas, mas depois automóveis de passeio gostaram da novidade e, com o tempo, surgiu ali uma transversal/retorno por onde circulam inclusive pequenos caminhões. Dirigir por ali exige atenção: como a manobra é proibida, os veículos que trafegam pela Pedro Miranda não dão passagem e os irregulares avançam, assim que têm uma oportunidade. Não foram poucas as vezes que tomei sustos enormes, com veículos arrancando e se atirando contra mim.
Sempre achei que deviam construir um canteiro definitivo ali, para acabar de vez com a bagunça, ou então instituir um cruzamento, com a devida sinalização. O que fosse melhor, desde que não ficasse a coisa largada, com estava. Pelo visto, prevaleceu a primeira opção e, hoje, foi possível perceber que carradas de terra haviam sido despejadas onde devem ser construídos os canteiros, cujos limites estão delimitados. Pelo menos de um perigo vamos nos livrar.
A novidade, contudo, já fez uma vítima. O condutor de um Gol branco, que vinha pela Tv. Antônio Baena e pretendia converter à esquerda na Pedro Miranda, o que é proibido, decerto inciente da obra, decidiu atravessar. Acabou com a dianteira do veículo enfiado num buraco, em cima da terra fofa. Resultado: havia um caminhão guincho lá, para retirá-lo. Bloqueando a pista, claro. Devo dizer que só lamento pelos cidadãos que ficaram presos no inesperado engarrafamento.
Isso demonstra a necessidade de que essa obra seja rápida. Num lugar normal, construir quatro metros de canteiro (doze, considerando que são três) seria coisa de um dia para o outro. Mas em Belém, sabe como é, pode virar uma operação de guerra...

terça-feira, 29 de março de 2011

É um lixo!

Que Belém está um lixo só, não é novidade para ninguém. O monturo começa desde a sede da prefeitura, onde eventualmente pode ser encontrado aquele que nos relegou a esta situação de quase indigência. Desta vez, contudo, a lixeira teve consequências: o IBAMA aplicou multas diárias, de 40 mil reais, ao Município, e de 4 mil reais ao tal de Duciomar Costa, por irregularidades no tristemente famoso "Lixão do Aurá", esse aprazível condomínio horizontal da foto aí ao lado.
O lixão a céu aberto, nem preciso dizer, é uma fonte inesgotável de danos ambientais e riscos à saúde da população. Não é de hoje que se tenta resolver em definitivo a situação do mesmo, mas é óbvio que, sem governo, não há como esperar que alguma coisa aconteça.
Triste é que, no final, a fatura sempre cai no costado do contribuinte. Mas como eu sempre repito: não foi por falta de aviso!

Doe leite

O Banco de Leite da Santa Casa de Misericórdia do Pará está precisando de doações. Sim, de leite materno. O pedido está sendo disseminado pela imprensa, a partir de texto formulado pela assessoria de comunicação daquela casa de saúde, que você pode ler clicando aqui. O texto explica a finalidade e os procedimentos adotados no banco.
É muito importante contribuir, quem puder. Disso dou meu testemunho pessoal — ou antes, familiar. Mais de dois anos atrás, quando minha esposa vivia os primeiros tempos da amamentação, sofria porque Júlia não sabia abocanhar a mama adequadamente. Com isso, feria o mamilo da mãe, mamava menos do que devia e o resultado foi um quadro de mastite, que agravou consideravelmente a dor que Polyana já sentia durante a amamentação.
Enquanto os médicos (oito, no total) discutiam qual a solução mais estúpida ou inútil nos dariam, e depois de uma torrente de remédios inócuos, quem nos salvou foram as enfermeiras da Santa Casa. Ali, naquele ambiente repleto de regras de higiene e conduzido por profissionais carinhosas, educadas e profundamente humanas, fomos acolhidos com atenção. Polyana recebeu as instruções adequadas, Júlia mamou melhor, a mastite foi embora e, durante alguns dias, infelizmente poucos, Polyana conseguiu coletar leite para doar.
Foi assim que conhecemos o trabalho extraordinário que a Santa Casa realiza, às vezes vilipendiado por setores irresponsáveis da imprensa que, para viabilizar suas tramoias políticas, leva ao descrédito um trabalho sério e belíssimo. Soubemos, p. ex., da quantidade de mulheres que ali se internam para ter seus bebês, vindas de todos os cantos do Estado, o mais das vezes sem uma única consulta pré-natal. Mal nutridas, as próprias mães têm dificuldades para produzir o precioso leite, de que seus bebês, muitas vezes abaixo do peso e especialmente frágeis, necessitam com urgência.
A doação que a Santa Casa pede, neste momento, salva vidas. Sem exageros ou dramaticidade. Salva vidas.
Em minha família, não há quem possa ajudar. Quem puder, ajude.

A palavra é...

Caganifância.

Se perguntássemos a dona Bela, inesquecível personagem da humorista Zezé Macedo na "Escolinha do Professor Raimundo", se ela alguma vez se permitiu caganifâncias, ela sem dúvida alguma soltaria um de seus berros, arrostando-se ao chão. Chamar-nos-ia de depravados e diríamos que só pensamos "naquilo".
Passado o susto inicial, é só procurar saber em que consiste o tal substantivo e se concluirá que não há motivos para nervosismos. Até porque, no final das contas, todo mundo se permite uma caganifância de vez em quando, como p. ex. esta postagem.
A palavra veio até mim num texto do caríssimo Sandro Simões (só ele para conhecer uma dessas!) e me surpreendeu, pelo falso cognato que sugere e pelas amplas possibilidades de emprego cotidiano. Fiquei tão empolgado que decidi compartilhar com vocês.
Recordo-me que, em 1986, a Rede Globo exibiu a novela Cambalacho, de Sílvio de Abreu. Nas chamadas anteriores à estreia, a palavra cambalacho era apresentada como verbete de dicionário e, devido ao elevado poder de difusão da TV, em pouco tempo o vocábulo desconhecido caiu na boca do povo. Não havia feirante que não sugerisse aos fregueses pesar a mercadoria comprada, para evitar cambalachos.
Quem sabe amanhã a caganifância também não esteja generalizada? Digo: generalizada no linguajar do povo. Porque na mente das pessoas a caganifância está instalada faz tempo.

Blog dos monitores de Minas Gerais

Vejam que boa iniciativa acadêmica, esta: os monitores do curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Campus Coração Eucarístico (como fazem questão de frisar), criaram um blog para publicar artigos, exercícios, além de informações de interesse acadêmico. Devidamente separado por assunto.
O endereço é http://monitoriafmdcoreu.blogspot.com/.
Fica a dica para os nossos valorosos monitores do CESUPA.

Não à cláusula de barreira

O Supremo Tribunal Federal acabou de dar uma boa notícia para a imensa massa de concurseiros deste país: não apenas decidiu como reconheceu a repercussão geral da tese de que, em um concurso público, o edital não pode estabelecer a chamada "cláusula de barreira", que limita o número de candidatos no certame. Eis a informação publicada na página oficial do STF:

O Recurso Extraordinário 635739, também com repercussão geral reconhecida, diz respeito à legalidade de eliminação de candidato em concurso público para o cargo de agente da Polícia Civil do Estado de Alagoas, com base na inconstitucionalidade de cláusula editalícia.

Ao fundamento de violação aos artigos 5º, caput, e 37, inciso I, da Constituição Federal, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-AL) manteve sentença que declarou ilegal a eliminação de candidato. Apesar de ter sido aprovado na prova objetiva e no teste de aptidão física, o candidato não foi classificado para realizar a fase seguinte, ou seja, o exame psicotécnico, em virtude de cláusula que previa a classificação para prosseguir no certame apenas da quantidade de candidatos correspondente ao dobro do número de vagas oferecidas, entre os quais o autor do processo não se incluía.
Ele alega que a fixação de cláusulas de barreira (ou afunilamento) em edital, no sentido de estabelecer condições de passagem de candidatos de uma fase para outra durante a realização de concurso público, viola o princípio da isonomia e da ampla acessibilidade.
Para o relator do recurso, ministro Gilmar Mendes, estão configuradas a relevância social, política e jurídica da matéria, “uma vez que a presente demanda ultrapassa os interesses subjetivos da causa, e a solução a ser definida por este Tribunal balizará não apenas este recurso específico, mas todos os processos em que se discute idêntica controvérsia”. A repercussão geral foi reconhecida por maioria dos votos.

Realmente, não se pode vislumbrar o mais ínfimo argumento capaz de sustentar a cláusula de barreira, senão a comodidade da entidade que realiza o concurso, que terá menos trabalho para finalizá-lo, menores despesas e terá que lidar com menos queixosos, se for o caso. Mas essa operacionalização absurda tira do páreo muita gente que, não se tendo saído tão bem nas primeira fases, poderia revelar-se mais capacitado nas seguintes (que, por sinal, são mais específicas).
Por conseguinte, além do interesse individual do candidato, os interesses da própria Administração Pública são prejudicados, na busca do profissional mais qualificado.
Agiu muito bem o STF. Pena que tardiamente para uns conhecidos meus, cujos concursos já foram encerrados faz tempo.

Para os avós

Você sabia que "avós" é a única palavra da Língua Portuguesa que, tendo sofrido flexão de gênero, fica no feminino? Pois é, falamos "avós" e não "avôs". Mas não é este o tema da postagem. A intenção é informar que já está em vigor a lei que assegura direito de visita aos avós. Ela promove apenas duas pequenas inserções no Código Civil e, na prática, apenas determina o que já vinha sendo admitido pelos juízes das varas de família.
Em que pesem alguns conhecidos que não estão muito satisfeitos com a notícia, o fato é que os avós já têm obrigações em relação a seus netos (a mais importante é prestar alimentos). Se têm deveres, como não lhes reconhecer direitos?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tribunal da História



A foto acima mostra os opositores políticos Luís Carlos Prestes (à esquerda) e Roberto Campos (à direita), debatendo calorosamente no programa Tribunal da História, da TV Educativa, em 1985. A perspectiva do programa — que salvo engano chegou a ser reeditado em tempos mais recentes, porém sem sucesso — era trazer à tona grandes acontecimentos e personalidades do passado, que deveriam ser julgados de acordo com os conhecimentos e valores de hoje.
Sou apaixonado por essa premissa. Se houvesse um programa do gênero em exibição, eu certamente seria fã. Tenho, inclusive, a intenção de promover esse tipo de atividade em âmbito acadêmico. Afinal, tem tudo a ver conosco e até mais de perto com o Direito Penal. Por meio de júris simulados, poderíamos confrontar o nosso passado e, por meio disso, conceber um futuro melhor. Até já tenho alguns réus para sugerir. [Aí, Sandro, tem a ver com História!]
Tomo conhecimento, agora, que juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos costumam realizar júris simulados sobre grandes vultos da História, capazes de lançar uma luz de humanismo sobre fatos que todos precisamos conhecer melhor. Veja:

Sócrates foi condenado por perverter a juventude ateniense. Enquanto isso, Thomas Jefferson e Napoleão estiveram no banco dos réus acusados de conspirarem pela destruição da cultura francesa no Novo Mundo. A distância dos julgamentos com os fatos históricos não impediu que a Suprema Corte dos Estados Unidos levasse os casos aos tribunais, por meio dos júris simulados.

O The Wall Street Journal, em reportagem publicada no último 14 de março, explica com detalhes e em tom espirituoso como juízes e advogados encaram a brincadeira. Enquanto a corte dispensa 99% dos 100 mil casos que chegam todos os anos, muitos juízes americanos dedicam parte de seu tempo livre fazendo justamente o trabalho do dia a dia.
No último júri notável, advocacia e magistratura se debruçaram sobre a obra de Shakespeare. Em pauta, a peça teatral Hamlet e a contribuição do protagonista na morte de Polônio. Para o julgamento foram convocados grandes nomes do Direito na vida real: a advogada da atriz Lindsay Lohan e ganhadora do Oscar Helen Hunt para ser jurada. A produção ganhou até nome: "O Julgamento de Hamlet pelo juiz Anthony M. Kennedy".
A ideia de transportar Hamlet para o banco dos réus veio do juiz Kennedy. Ele conta que, no começo da década de 1990, psiquiatras revisaram definições sobre doenças mentais. Para ele, um exame sob o ponto de vista forense de Hamlet teria muito o que ensinar sobre o assunto.
Para muitos juízes, o prazer desse tipo de julgamento começa bem antes do tribunal. "Enquanto você lê todos esses casos", diz a juíza Ruth Bader Ginsburg, apontando para uma pilha de processos, "é agradável tirar um tempo pra ler algo prazeroso". E, se a diversão começa antes de a corte se reunir, acaba bem depois disso, em jantares depois das audiências, como explica a juíza: "Eu tomo uma ou duas taças de vinho. Isso seria impensável no ambiente da corte real".
A diferença com a vida real não para na quantidade de vinho consumida. A Suprema Corte não abre os seus julgamentos. Mas, no caso dos fictícios, o esquema é diferente. Eles são transmitidos desde 1987. Há quem discorde do empenho e questione a importância social desses julgamentos.
"Acho que seria bem mais importante se o público visse, na corte, um caso Bush versus Al Gore”, opina o senador aposentado Arlen Specter na reportagem publicada pelo The Wall Street Journal. "Eles deveriam relegar Hamlet para o Ensino Médio."
O preparo para esse tipo de simulação conta, muitas vezes, com a ajuda da arte. Foi esse caminho que a advogada Blair Berk escolheu. Durante os preparativos, procurou orientação com um de seus clientes, o ator Mel Gibson, que chegou a interpretar o príncipe da Dinamarca em Hamlet, de 1990.
O próximo julgamento de mentira já está marcado: acontece em abril. Na ocasião, a juíza Sonia Sotomayor, ao lado de outros dois, deve decidir como a senhora Cheveley, criada pelo escritor Oscar Wilde, será lembrada pelos futuros leitores do livro O Marido Ideal.
O Brasil também tem história nos julgamentos simulados. Teria Capitu traído Bentinho com o amigo Escobar? A pergunta, que se repete desde a publicação da obra machadiana Dom Casmurro, já tem resposta. Por falta de provas ou de fatos reais, os sete jurados do 2º Tribunal do Júri de Goiânia decidiram que Capitu não se enquadrava no crime de adultério, previsto, na época em que o enredo se desenvolve, no artigo 240 do Código Penal de 1940.
No julgamento fictício, a defesa da moça ficou por conta de Hélio Moreira, escritor e atual presidente da Academia Goiana de Letras, e a acusação ficou com Eurico Barbosa, imortal da entidade.

Fonte: http://www.conjur.com.br/2011-mar-27/suprema-corte-eua-brinca-levar-hamlet-banco-reus

Do barulho

A dobradinha 1 babaca + 1 carro transformado em aparelhagem sonora é tão corriqueira nesta cidade quanto o pouco caso do poder público em combater tal prática, que tanto afeta a saúde humana e, inclusive, constitui crime ambiental. Por isso, fiquei impressionado com a notícia de que, este final de semana, um sujeito estacionado em via pública, escutando seu som (com certeza, música escrota, porque todas as pessoas que fazem esse tipo de coisa só escutam música escrota, sem exceção) a 79 decibeis, acabou preso por policiais da Delegacia de Meio Ambiente.
Notícia auspiciosa, ainda que isolada. Só fiquei receoso de saber que, segundo consta, ao ser instado pelos policiais a baixar o som, ele os teria desacatado e aumentado ainda mais o volume. Fico receoso porque isso sugere que o infrator foi preso por desacato, não por crime ambiental. Policiais adoram prender por desacato (mesmo se tratando de infração de menor potencial ofensivo, que não autoriza prisão, nos termos da lei). Na cabeça deles, deve ser o crime mais hediondo que existe. Se foi esse o motivo da prisão, então ainda temos muito a esperar em termos de conforto ambiental nesta cidade esculhambada.
Seja como for, espero que o delinquente seja mesmo indiciado por crime ambiental e que isso tenha consequências concretas. Já passou da hora de esses dementes do trânsito começarem a responder por seus atos.

domingo, 27 de março de 2011

Os jovens

Eu tinha 24 anos quando comecei a lecionar. Um garoto. Nessa idade, muita gente sequer terminou a graduação. De cara, fui para duas instituições: era professor substituto na UFPA e, no CESUPA, comecei através do curso de Tecnologia em Processamento de Dados, para a partir de fevereiro de 2000 assumir a cadeira de Direito Penal. Fui o primeiro professor dessa disciplina, posto que o curso acabara de ser criado (as aulas da primeira turma começaram em abril de 1999). Ainda estou por lá. Da minha época, a Profa. Bárbara Dias (a quem devo a indicação do meu nome) é a única outra remanescente. Ela é a professora mais antiga do curso considerado o tempo de contratação. Eu sou o que está lá há mais tempo ininterrupto, porque minha amiga morou fora alguns anos, por conta de seu doutorado, e eu jamais me afastei. Mas que fique claro: antiguidade não é velhice!
Quando comecei a lecionar, meus alunos incluíam meninos muito novos, mas também algumas pessoas mais velhas, sobretudo na UFPA. No curso de Direito, sempre temos muitos alunos já na casa dos 30 ou bem mais do que isso. Mas à medida que o curso do CESUPA foi-se consolidando, segundo observo, a média de idade dos discentes diminuiu. Hoje, chega-se à universidade muito cedo — senão em idade, com certeza em maturidade.
O fato é que eu precisei lidar com inseguranças próprias de minha juventude, intensificadas pelo meu temperamento. Afligia-me com o que pensariam a meu respeito alunos que tinham bem mais idade do que eu; em alguns casos, o suficiente para serem meu pai ou mãe. Já quanto aos jovens, sentia-me tão próximo deles que temia não ser visto como alguém a ser respeitado. Para minha sorte, nunca tive problemas com isso. Não sei se foi por conta de minha cara azeda e/ou de minhas provas cansativas, mas nunca fui afrontado por causa de minha idade. Todos os problemas que tive estavam relacionados com decisões que tomei, capazes de acarretar reprovações. Por isso, o ofensor tinha razões pessoais para ser tendencioso. Enfim, posso me dar por satisfeito nesse quesito.
O tempo passou e eu comecei a ver, em minha carreira docente, um presente e um passado. Não sou mais um novato; muito pelo contrário. E minha vida pessoal também mudou: casei-me, saí da casa onde passara toda a vida, tornei-me pai. Estou cada vez mais distante daquele rapaz que se sentia similar aos alunos. Hoje, os pés de galinha e o embranquecimento dos cabelos restantes não me permite mais as impressões de outrora. É engraçado, mas agora todos voltaram a me chamar de "senhor".
Quando comecei, os alunos me chamavam de "senhor", por educação. Muitos se recusavam terminantemente a me tratar pelo nome, como eu pedia com veemência. Hoje, sou um senhor, mesmo, e não há nada que se possa fazer a respeito.
O fato é que estas mudanças todas me fazem perceber, hoje, em mim mesmo, o que escutei em várias ocasiões, de colegas mais velhos: a docência é uma atividade que nos rejuvenesce. Vivemos entre os jovens e compartilhamos, ainda que indiretamente, de seu mundo. Os anos passam para nós, mas continuamos no meio da garotada. Os rostos mudam, mas o gosto pela vida, a animação, a necessidade de festa ou de experimentação, a celebração da amizade, as angústias, uma boa dose de descompromisso e até de irresponsabilidade (que agora encaro sem tanto moralismo), tudo isso continua vivo a nossa volta. Esse é um dos maiores privilégios de ser professor.
O mundo está sempre pulsando ao meu redor. E eu não perderia isso por nada!

sábado, 26 de março de 2011

Boa noite

A semana de trabalho só termina agora, à uma da madrugada. Não tenho hora para acordar, mas não irei longe: Júlia quer brincar no pula-pula. Não acordarei de má vontade, não. Quando ela aproxima a carinha de nós e apresenta aquele sorriso maroto, falando num sussurro sapeca, o dia começa e é dela. Infelizmente, desta vez dela e do trabalho. Mas havemos de conciliar, de algum modo.
Boa noite para quem vai dormir (ou já está dormindo). Um ótimo sábado para todos.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Artificial


Com o prontuário higienizado artificialmente, Jader ocupará no Senado a cadeira de Marinor Brito (PSOL-PA).
Josias de Souza

Interrogatório: somente ao final

Notícia publicada no Consultor Jurídico:

O Supremo Tribunal Federal decidiu, nesta quinta-feira (24/3), que os interrogatórios de réus que respondem a ação penal na Corte serão feitos sempre ao final da instrução criminal. Os ministros decidiram aplicar a nova regra do Código de Processo Penal que alterou o momento dos interrogatórios.

O relator do processo, ministro Ricardo Lewandowski, afirmou que interrogar o acusado ao final da instrução criminal permite que ele exerça seu direito de defesa de forma íntegra. Isso porque ele poderá contrapor todas as provas colhidas nas investigações.
“Possibilitar que o réu seja interrogado ao final da instrução, depois de ouvidas as testemunhas arroladas, bem como após a produção de outras provas, como eventuais perícias, a meu juízo, mostra-se mais benéfico à defesa, na medida em que, no mínimo, conferirá ao acusado a oportunidade para esclarecer divergências e incongruências que, não raramente, afloraram durante a edificação do conjunto probatório”, registrou o ministro Lewandowski.
A decisão foi tomada no julgamento de um agravo interposto pelo Ministério Público Federal. Para o MP, os interrogatórios deveriam ser feitos antes da defesa prévia dos acusados, logo depois de recebida a denúncia pelo Supremo.
O Ministério Público ainda argumentou que um dos réus teria perdido o direito de exercer a defesa porque não compareceu a audiência previamente marcada em Belém. E o outro sequer foi encontrado pelo oficial de Justiça.
Os argumentos foram rejeitados por Lewandowski. Para o ministro, a mudança do interrogatório do réu para o final da instrução penal — feita pela Lei 11.719/2008, que modificou o artigo 400 do Código de Processo Penal — trouxe um sistema mais favorável ao direito à ampla defesa. Por isso, deve prevalecer sobre antiga regra prevista no artigo 7º da Lei 8.038/90, que fixava o interrogatório antes da defesa prévia.
A decisão foi tomada na ação penal que tramita no Supremo contra o deputado federal Wladimir Costa (PMDB-PA) e seu irmão, Wlaudecir Antônio da Costa Rabelo, que respondem pelo crime de peculato.
De acordo com denúncia recebida pelo Supremo em novembro de 2009, entre fevereiro de 2003 e março de 2005, os irmãos teriam contratado três funcionários fantasmas no gabinete do parlamentar para se apossar dos valores pagos a eles a título de salário. A denúncia surgiu de reclamação trabalhista ajuizada por um desses funcionários, quando ele comunicou à Justiça a existência deste esquema. Segundo o Ministério Público, os três funcionários recebiam os salários em contas da Caixa Econômica Federal, sacavam o dinheiro e entregavam para o irmão do deputado, que o depositava na conta do parlamentar.

Clicando aqui, você chega à página do Conjur com a reportagem original, da qual faz parte a íntegra da decisão.

PS — Seria tão bom que essa ação penal chegasse logo ao seu desfecho...

"Ficha Limpa": um pouco diferente

Ao contrário do que publica ensandecido um jornal local, dando a entender que o dono já está quase encostando as nádegas na cadeira de senador, o próprio Senado noticia que, com a deliberação do Supremo Tribunal Federal, as pretensões de assumir os mandatos terão que ser analisadas caso a caso. Nada de efeitos automáticos, como bem sabem os isentos. E a matéria, por sinal, cita nominalmente o pretendente paroara a uma vaga.

Quem faz uma pesquisa dessas?

O mapa abaixo está tão pequeno que você não conseguirá ler as informações que mostra. Foi proposital, para aguçar a sua curiosidade.


Clique aqui para descobrir qual é o assunto pesquisado.
No mais, fiquei curioso para saber como foi a metodologia da pesquisa de campo. Afinal, não se pode confiar nas informações dos próprios pesquisados...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Árvore adequada: 3ª candidata



Esta árvore deslumbrante que você vê acima é o ipê amarelo (Tabebuia alba), considerado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais como "a árvore brasileira mais conhecida, a mais cultivada e, sem dúvida nenhuma, a mais bela". Eu e o amigo Carlos Barretto adoramos registrar a floração dessa maravilha por aí.
Adaptada a todas as regiões do Brasil, o ipê amarelo pode alcançar 30 metros de altura, o que indica a necessidade de cuidados especiais com poda, se optarmos por ela. A seu favor, as raízes profundas e a facilidade de plantio.
Esta espécie me foi mencionada por uma amiga que me deu uma informação auspiciosa. Há algum tempo, ela telefonou para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém e pediu uma árvore que apresentasse basicamente as mesmas características que procuro. E a despeito da demora, a SEMMA fez mais do que ajudá-la: foi lá e plantou a árvore em sua calçada. O espécime já está crescidinho, a esta altura.
Devo lançar mão do mesmo recurso, não sem antes considerar outras alternativas. Mas nem sei se quero continuar a procura. Amarelo é minha cor favorita e o ipê é um deslumbramento para os olhos.

Fonte: http://www.ipef.br/identificacao/tabebuia.alba.asp

Árvore adequada: 2ª candidata


Há quase dois anos, um comentarista anônimo sugeriu que eu plantasse, em frente a minha casa, um espécime deste belo vegetal: a pata de vaca (Bauhinia fortificata), que pode chegar a 6 metros de altura e produz flores que podem ser confundidas com orquídeas. O nome popular advem da forma das folhas.
Um detalhe interessante é que a planta produz uma substância muito semelhante à insulina humana, não à toa batizada de insulina vegetal e efetivamente utilizada no tratamento do diabetes. Portanto, além de bela, é útil.

Inominável

Certas espécies de animais selvagens, predadoras por natureza, caçam em bando, cercam o alvo que não lhes pode oferecer resistência e dão o bote. Assim fazem as hienas e guepardos, mas também é o procedimento de outra espécie animal, cuja pele é guarnecida de uniformes. Refiro-me a certos psicopatas que, ingressando na carreira das polícias militares, acabam por levar ao descrédito e ao menosprezo a corporação como um todo.

Observe as mãos unidas, quiçá em oração.
 O episódio da vez é a quase execução sumária de um adolescente de 14 anos, em Manaus. O horror se deu em 17 de agosto passado, mas somente agora veio a público.
A matéria que li e o vídeo que pode ser visto através dela não indicam os motivos pelos quais o garoto caiu nas mãos desses matadores, mas é importante destacar que o muro junto ao qual ele tenta se proteger é o de sua própria casa e que a jornalista narradora informa que, se a filmagem tivesse áudio, escutaríamos os gritos da mãe, implorando pela vida do filho.
Cinco tiros à queima-roupa. Por estranho que pareça, a proximidade dos disparos evitou que as lesões fossem mais graves e permitiu a recuperação do rapaz, que agora se encontra inserido no Programa de Proteção à Testemunha, juntamente com seus familiares. Um programa cuja eficiência eu realmente desconheço.
Em suma, chamem o bandido para proteger o cidadão! Sem mais o que dizer.

E ainda ter que aturar o escárnio

Alguém precisa dizer a essa gente que o Supremo Tribunal Federal não reconheceu a vontade de povo algum. O fundamento da decisão que impediu a aplicação da "Lei da Ficha Limpa" ao pleito de 2010 se baseou na irretroatividade de leis restritivas de direitos, não na necessidade de conferir o mandato àqueles que obtiveram maior votação.
Menos, súcia, menos.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Minhas mal traçadas linhas

Dia desses, escrevendo sobre o próprio blog, mencionei o meu desejo de ser escritor, jamais realizado devido à falta de talento. Rapidamente acorreram os amigos (tinham que ser os amigos!), notadamente Sandro Simões e Alessandra Gorayeb, rebatendo minha dura afirmação e massageando meu ego com comentários pelos quais agradeço muito. Devo dizer, contudo, que minhas ponderações não se deveram a falsa modéstia nem desejo de ser afagado, e sim porque desde a adolescência tento escrever contos ou até coisa maior, que merecesse ser lida, mas sou o primeiro a considerar tudo muito ruim. Esse material foi todo destruído. Não restou absolutamente nada.
Curiosamente, este blog registra as três únicas incursões minhas pelo mundo das letras ficcionais. Antes mesmo de ele completar o seu primeiro ano de existência (28 e 30 de julho de 2007), publiquei dois continhos dos quais não me envergonho e que até considero simpáticos. Em 23 de novembro daquele mesmo ano, publiquei o terceiro e último. Naquela época, contudo, o blog não possuía o volume de visitas de hoje, nem era acessado por gente como a escritora Ana Miranda, a poetisa e cronista Alessandra Gorayeb, o poeta Ivan Daniel Amanajás, o filósofo André Coelho, o estudiosíssimo Adrian Barbosa, os colegas blogueiros do Flanar (salvo o Val-André Mutran) e outros, como o próprio Sandro Simões, a Aline Bentes, o Kenneth Fleming e vários outros que continuamente vêm aqui deixar a sua mensagem.
Por isso, e considerando que é muito raro alguém visitar o arquivo dos blogs, decidi trazer à tona outra vez aqueles textos, que reputo como exercícios de escrita.
O primeiro deles, "Abandono", é um relato curto e seco sobre pessoas que se sentem sem alternativas. Depressivo.
O segundo, "Na sacada do sétimo andar", é o meu favorito, porque tem mais a ver comigo. Relendo-o, esta tarde, até sorri com algumas frases. Recordo-me que sua leitura foi gentilmente recomendada pelo Val-André Mutran, em seu próprio blog, que foi muito simpático em considerar que a leitura dava um medinho.
O terceiro, "Miniconto psiquiátrico", como o próprio título já denuncia, é de uma exiguidade dramática. Na verdade, foi apenas um rompante que tive e que se expressou em não mais que cinco frases. Mas confesso que me diverti com ele.
Espero que se interessem em ler essas minhas tentativas e que elas lhes tragam algum proveito.