domingo, 13 de junho de 2010

Crítica ao bom menino

Você provavelmente nunca ouviu falar de George Savalla Gomes. Entretanto, é quase certo que ouviu falar de seu personagem, o Palhaço Carequinha, que chegou a ser muito famoso no cenário do entretenimento infantil brasileiro, com direito a programas na TV entre as décadas de 1950 e 1960. Voltou à TV nos anos 1980 e chegou até a participar de uma novela. Em 2005, fez seu último trabalho televisivo numa participação em Hoje é dia de Maria. Também se envolveu com cinema e diversos produtos licenciados com a sua marca.
Como não poderia deixar de ser, enveredou pela seara musical, chegando a gravar 26 discos. Minha memória consegue reter um de seus maiores feitos na área, a canção "O bom menino".
Aposto que você nunca pensou nisso, mas "O bom menino" é um manifesto ideológico terrível, embora seja compreensível que espelhe o tempo em que foi composto. Estou certo de que foi composta com uma honesta finalidade educativa, mas nem por isso fica isenta de crítica. Vamos à letra:

O bom menino não faz pipi na cama
O bom menino não faz malcriação
O bom menino vai sempre à escola
E na escola aprende sempre a lição

O bom menino respeita os mais velhos
O bom menino não bate na irmãzinha
Papai do céu protege o bom menino
Que obedece sempre, sempre a mamãezinha

Por isso eu peço a todas as crianças
Muita atenção para o conselho que eu vou dar

(falado)
Olha aqui.
Carequinha não é amigo de criança que passa de noite da sua cama pra cama da mamãe
E também não é amigo de criança que roi unha e chupa chupeta.
Tá certo ou não tá?
Táaaaaaa

Eu obedeço sempre a mamãezinha
Então aceite os parabéns do Carequinha.

O bom menino...

(falado)
Olha aqui.
Carequinha só gosta de criança que respeita mamãe, papai, titia e vovó
E seja amigo dos seus amiguinhos
E também que coma na hora certa, e durma na hora que a mamãe mandar.
Tá certo ou não tá?
Táaaaaaa

Eu obedeço sempre a mamãezinha
Então aceite os parabéns do Carequinha.
Viva o bom menino
Vivaaa


A despeito de algumas sugestões sensatas, a letra prima pelo maniqueísmo e reduz as situações consideradas como inconvenientes a uma simples questão de escolha pessoal da criança. Exatamente o que a sociedade não reflexiva de hoje faz em relação aos criminosos. Sobre ir para a cama dos pais e chupar chupeta, p. ex., vai uma culpa bem maior dos pais do que da criança. Mas me concentrarei na estrofe inicial. Vejamos.
O controle da micção é uma das habilidades que a criança precisa aprender e que, segundo me sopra minha esposa ávida leitora de livros sobre desenvolvimento infantil, começa pelo controle do cocô noturno e se completa com o controle do xixi noturno. Ou seja, não fazer xixi na cama é a parte mais difícil desse aprendizado. Além disso, justamente porque dorme e está com a musculatura relaxada, a criança não se alivia na cama apenas por mau caratismo. Outros fatores influenciam, de fundo emocional sobretudo. E aqui a responsabilidade ou a culpa, se quisermos um termo mais veemente pode ser deslocada para os pais. Uma família desorganizada, com pais em conflito ou que exijam demais da criança, pode levá-la a atitudes como urinar na cama, inconscientemente, para chamar a atenção.
Longe de ser um indício de transgressão, a micção noturna pode ser um pedido de socorro, que somente pais amorosos e dispostos a educá-la para a autonomia seriam capazes de identificar e trabalhar, com vistas a uma solução tranquila e definitiva. Talvez o Palhaço Carequinha não soubesse disso.
Outro absurdo é o desempenho na escola. Note que a canção não diz que o aluno é responsável ou interessado, que se esforça, que tem mérito. Ela diz que ele "aprende sempre". E segundo o draconiano modelo educacional da época, o aprender era medido única e exclusivamente mediante critérios quantitativos, expressos numa nota ou num conceito. Assim, uma nota baixa indicava que o aluno não aprendeu e, somente por isso, não era um bom menino.
Não se levam em consideração, por óbvio, os mais diversos fatores que influenciam o processo de ensino-aprendizagem. Nada se disse sobre as escolas depauperadas, sem carteiras suficientes para todos os alunos, sem giz, com goteiras ou banheiros ruins. Nada se disse sobre barrigas vazias. Nada se disse sobre a carência de professores ou a sua má formação. E mesmo que quiséssemos nos concentrar em escolas sofisticadas, de excelente infraestrutura e capacidade de investimento, nada se disse acerca dos professores descompromissados com a educação, viciosos, preguiçosos e que se escondiam atrás da docência para dar vazão a desejos mais ou menos inconscientes de tiranizar pessoas vulneráveis. Nada se disse, acima de tudo, sobre o modelo educacional então vigente, deturpado em sua própria concepção, porque fundado em uma premissa de simples memorização e, para piorar, com conteúdos fortemente influenciados por vertentes religiosas ou ideologias governamentais, tais como a submissão da mulher pelo homem, a leniência com a violência intrafamiliar (desde que cometida pelo macho adulto branco, aquele que está sempre no comando), o culto obrigatório do catolicismo com punições morais sobre os dissidentes, o combate ao comunismo e a adoração cega ao governo, notadamente no período da ditadura militar. Daí surgiram disciplinas imbecilizantes como Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e o ápice da patuscada: Educação Moral e Cívica, de que os estudantes a partir da década de 1990 tiveram a sorte de escapar. Para que tenham uma ideia do que se tratava, imagine o seu bisavô centenário, heroi de guerra (???), auxiliado por uma beata há muitos anos viúva, ensinando como você deve se portar, dentro de casa e na vida pública, de acordo com os saudáveis padrões da moral, dos bons costumes e do amor à pátria.
Era mais ou menos isso, só que pior. Inclusive porque você podia ficar reprovado.
Carequinha não era um homem mau. Tomo-o apenas como um representante do seu tempo, defendendo o ideário de sua época, da qual ele próprio era fruto. Mas ele que gostava de se apresentar para os presidentes da República, de Getúlio Vargas a FHC, passando portanto por todos os militares poderia ter ido além e ajudado a formar uma geração de crianças mais competentes e independentes sem abdicar, é claro, dos valores da disciplina e do respeito.
George Savalla Gomes morreu em 5 de abril de 2006, quase aos 91 anos, ainda na ativa. Carequinha, é claro, não morrerá jamais.
Tá certo ou não tá?

Sentimental

Por Fernando Pessoa:


Por Chico Buarque:


Por Renato Russo:


Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
[...]

Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate, bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural [...]

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental [...]

Quase uma crise de abstinência

É simplesmente um absurdo ter chegado ao 13º dia do mês de junho sem ter tomado um mingau de milho sequer! Como isso pode acontecer?
Graças a Deus, as mães continuam aí para socorrer seus filhos na hora da necessidade, mesmo as banais...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sentir-se recompensado

Sim, eu fui um aluno considerado CDF. E sofri as consequências dessa pecha, através de variadas manifestações de rejeição, que iam desde o olhar de nojo até medidas concretas para me prejudicar. Na última delas, perdi o convívio de algumas pessoas que me eram queridas. Chama a atenção a quantidade de ideias que as pessoas têm quando querem desqualificar alguém. Algumas são clichês absolutos: o cara é chamado de gay e a mulher, de mal amada. O mais interessante é que boa parte desses críticos jamais teve qualquer contato pessoal com seus alvos. É um ódio construído dia a dia, que tem mais a ver com as falhas daquele que odeia, do que com as daquele que é odiado.
Curiosamente, jamais me considerei um CDF. Apenas fazia o que achava certo. Talvez isso prove que eu era mesmo um CDF, mas o fato é que eu apenas tinha objetivos bem definidos e seguia o caminho das pedras que, supunha, poderia levar-me até eles.
Quando me tornei professor, decidi que seria exigente. Muito exigente. Foi, sim, uma deliberação. Eu sei que o aluno médio, desde que o mundo é mundo, conduz a sua vida escolar de acordo com o professor. Se este é exigente, ele estuda. Se não, ele relaxa. Se o professor cobra frequência, ele comparece, mesmo que só de corpo; se não cobra, não dá bola às aulas. Eu decidi não passar em brancas nuvens e fazer o que pudesse pelo aprendizado de meus alunos. Para tanto, eles precisariam estudar. E para isso, teriam que ser convencidos.
O meu rigor, é claro, causou-me muitos dissabores. Mas eu era jovem e inexperiente; cometia bem mais erros do que hoje. E aprendi com eles, com certeza. Aprendi, p. ex., a elaborar provas com enunciados mais fechados, capazes de conduzir o aluno ao tema que desejo seja abordado. Não adianta esperar que o aluno alcance o nosso objetivo: é preciso que ele seja aproximado o quanto possível, sem que a resposta se torne uma obviedade. Aprendi, também, a estabelecer regras no início do período letivo, fornecê-las por escrito e exigir o seu cumprimento. Aprendi a só pedir atividades que façam sentido ao aluno, que tenham um propósito concreto, que a elaboração delas deve ser orientada e que os critérios de correção devem ser claramente indicados ao aluno. Isto é respeito, para começo de conversa.
Tive a sorte de lecionar em instituições sérias, onde a educação não estava à venda no balcão. Por isso, minhas iniciativas foram aceitas e, com o tempo, fui cristalizando minha imagem pública de professor durão (um exagero, é claro), mas que dá ao aluno condições de ter sucesso em sua vida acadêmica. E sucesso não medido em aprovação, somente, que é consequência, mas em aprendizagem. Penso que, nos últimos anos, tenho acertado a mão um pouco mais, a julgar pelo carinho com que sou tratado por minhas turmas, inclusive nos momentos das avaliações tensas. Aqui e ali surge um atrito, claro, mas que logo se recompõe. A relação que fica, quando termina a minha tarefa, costuma ser muito boa. Fiz belas amizades na docência e elas continuam se avolumando.
Ocorre que existe uma categoria de aluno que se diverte apavorando os colegas. Eles buscam os novatos e contam todo tipo de lorota sobre professores como eu, criando um clima de terror. Já entrei numa sala, tempos atrás, em que os alunos estavam todos encolhidos no fundão. Aquilo me incomodou, mas deixei passar. Após um tempo percebi o desconforto no ar e perguntei:
"Gente, vocês estão com medo de mim?!"
A reação, expressa no movimento corporal automático e no semblante, foi: "Cara, ele sacou!!!"
Conversei com a turma e ela aos poucos foi se distencionando. As coisas começaram a funcionar depois disso.
Assim tem sido a minha aventura docente. Como vivo repetindo: a única atividade que sempre soube que abraçaria, que era a minha destinação natural. A única coisa que eu sempre quis fazer, de verdade. Enfim, também pensei em ser escritor, mas a falta de talento não permitiu. Também por isso gasto tantas e tantas letras aqui no blog.
Hoje, após uma semana cansativa, entreguei provas em duas turmas de Penal II. E como disse a eles, tive a oportunidade de viver aquilo a que aspiro: depois de um semestre em que não facilitei, vi que os alunos realmente se interessaram, se esforçaram, estudaram e, ao final, a grande maioria acabou passando direto. Nas duas. É isso o que quero: não deixar atrás de mim uma legião de esfarrapados intelectuais e morais. E sim que, por mérito, sejam aprovados.
Acredito que essa maioria de alunos entendeu isso, porque uns tantos me agradeceram até a canseira. Fico extasiado quando um deles me diz que valeu a pena. Eles se sentem recompensados. Eu mais ainda, de um jeito que eles nem podem imaginar.
Só falta aprender a lidar com os que não tiveram o mesmo desempenho. Tento acalmá-los e evitar um fenômeno muito comum: o da supervalorização do insucesso momentâneo. Tento fazê-los dar ao ocorrido a dimensão que realmente tem. Mas é difícil para eles e para mim. Ainda não sei como lidar com isso e, a cada período letivo, mudam os seres humanos e é como se eu precisasse começar do zero.
Mas é isso.
Este texto foi escrito sob tempestade cerebral. Deixei as palavras fluírem e não revisei nada. Desculpem derrapadas na digitação. Daqui a pouco vou para casa, tentar dormir, enfim. Estou precisando.

Contra a poluição sonora

O delegado de Polícia Civil e professor de Direito Penal e processo penal Jéferson Botelho, de Minas Gerais, escreveu um artigo comentando a "Lei do Silêncio" daquele Estado. Para o autor, a autoridade pública deve coibir os abusos. Quase ao final de seu texto, ele afirma expressamente:

Agora, em se tratando de Direito penal, configurada a infração penal, deve a autoridade policial apreender os instrumentos utilizados na prática da contravenção penal, no caso em tela, dos instrumentos sonoros, artigo 6º do CPP, liberando o veículo ao condutor, caso o infrator esteja em dia com o pagamento dos tributos legais, devendo o criminoso suportar as conseqüências legais em virtude de sua conduta delituosa.


Estou de pleno acordo com o delegado. Aliás, quase quatro anos atrás eu já propunha o mesmo que ele: a apreensão do equipamento de som, nesta postagem aqui.
Infelizmente, esses anos se passaram sem que nada mudasse. Aos finais de semana, p. ex., eu bem que poderia dormir com as minhas janelas parcialmente abertas, o que muito me agradaria, mas não posso fazê-lo devido à fúria com que o som bomba em festas às proximidades. Ou nem tão próximo assim, apesar de parecer dentro da minha própria casa.
A dois quarteirões, temos uma unidade da Polícia Militar, com direito a viatura e moto. Mas não são tomadas providências quanto à poluição ambiental que, vale lembrar, também é crime, p#££@!
Acho que deveríamos fazer uma campanha pela apreensão desses equipamentos de som. Já.

Sexta-feira

Além do trabalho intenso, duas noites consecutivas de insônia.
Postagens mais tarde. Eu acho.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No calo

Entreouvido no corredor de órgão público, na hora da entrada.
Uma senhora se aproxima de outra, que se presume ser sua colega, a avisa que em um determinado local haverá uma programação ma-ra-vi-lho-sa para o dia dos namorados. A interlocutora nem deixa que ela prossiga:
— Ótimo para quem tem namorado. Para quem não tem...
E vai embora sem se despedir.

Para que mexer em casa de caba, meu Deus?!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Não dá

Violência sempre existiu e sempre existirá. Por esse e outros motivos, não faz sentido postar sobre este ou aquele caso, até porque este blog (felizmente!) não tem nada a ver com caderno policial de jornal. Volta e meia, contudo, algum caso me atinge, seja porque ocorreu em minha cidade, ou com pessoas conhecidas minhas, ou porque o fato em si mexeu com os meus nervos.
Nesta última categoria se insere o caso da menina de 4 anos, espancada brutalmente no Município fluminense de São Pedro da Aldeia. Basta ver as costas da criança para se ter uma pálida ideia do horror por ela vivido.
Dois dias atrás, numa quedinha doméstica, minha filha bateu a boca, fazendo lesões nos lábios e sangrando por algum tempo. Devido à dor e ao susto, ela chorou intensamente por algum tempo. Eu estava em casa, na hora, e posso dizer da minha aflição diante da cena, mesmo ciente de que não havia nenhum dano relevante, como de fato não houve. Mesmo assim, o mal estar diante do sofrimento dela é algo angustiante.
Como então, meu Deus, é possível que alguém provoque um sofrimento incomparavelmente maior, de caso pensado?! Como alguém pode ver isso sem problemas? Como alguém pode fazer isso?
Não peço nem espero respostas, até porque estou sempre lendo alguma coisa sobre a mente ou o comportamento humano, e particularmente sobre as implicações criminológicas disso. Esta postagem é só um desabafo, mesmo. Exteriorização de um real sentimento de indignação.

PS O acusado, padrasto da menina, está preso.

Obrigatoriedade adiada

A obrigatoriedade do uso de equipamento de retenção de crianças, para transporte em automóveis, que começaria a vigorar hoje, foi adiada para 1º de setembro. O Conselho Nacional de Trânsito CONTRAN, que criou a resolução instituindo essa obrigação, tomou a decisão após vários órgãos estaduais de trânsito relatarem a falta dos equipamentos nas lojas. Nos últimos dias, inúmeras reportagens com esse conteúdo foram publicadas, relatando problemas por todo o país.
Com o adiamento, os inadimplentes saíram do sufoco. Uma medida justa, no sentido de evitar que pessoas fossem punidas pelo que deixaram de fazer sem poder fazê-lo. Isso não explica, contudo, porque as cadeirinhas não foram compradas antes. Aposto que há um número extraordinário de pessoas que possuem carro e filhos, mas que nunca compraram uma cadeirinha. Uma omissão criminosa e imperdoável. Não à toa, a demanda exagerada levou ao esgotamento do produto no mercado. Caso a compra tivesse sido diluída, talvez a situação fosse outra.
Por via das dúvidas, acessei rapidinho a Americanas.com, que se apresenta como a maior loja virtual do país, e constatei que há cadeirinhas para vender. Procurar na lojinha do bairro e só também não dá...
Enfim, aguardemos setembro.

Em tempo:
Questionamentos sobre os interesses por trás da medida imposta pelo CONTRAN acabaram de ganhar ares oficiais. Ou seja, a história vai render.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Complicado

Provas para elaborar.
Provas para aplicar.
Provas para corrigir.
E um monte de pendências para resolver, boa parte delas evitável, se todos cumprissem minimamente as suas obrigações.
Atualização do blog comprometida. Até qualquer hora.

Bhopal

O Domisteco, Fernandel, que constantemente nos brinda com postagens instrutivas e relevantes, fala-nos desta vez sobre a cidade indiana de Bhopal e sobre a tragédia que ali se deu, causando mais de três mil mortes e um sem número de outros danos físicos, além dos emocionais, que sequer podem ser mensurados.
Mais uma vez, o grande capital se aproveita da miséria — neste caso, instalando uma fábrica ao lado de uma favela e, por desconsiderar o valor das vidas humanas em redor, não tomou medidas adequadas para evitar danos — e produz acontecimentos grotescos, que devem ser sempre lembrados, para advertência dos vivos. De quebra, ganha-se mais um exemplo de como a vida e a dignidade humana valem muito pouco, ou quase nada, para os legisladores e os juízes das mais diferentes nações. Para os empreendedores do desenvolvimento, então, nem se fala.

Atenção: a postagem apresenta fotografias de pessoas mortas, inclusive bebês, o que pode ferir a suscetibilidade de alguém.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Mais de 200 mil


Neste domingo, 6 de junho de 2010, o Arbítrio do Yúdice ultrapassou os 200 mil acessos.
O Antonio Tabet, titular do Kibeloco, não se impressionaria com isso. Afinal, ele só precisaria de dois dias para fazer o que fiz em mais de três anos e nove meses. Mas ele sabe contar piada e eu, não.
O fato é que eu não esperava chegar a isso. Portanto, só posso comemorar que estas mal traçadas linhas — como gostava de dizer o meu avô materno em absolutamente todas as cartas que escrevia para minha mãe — tenham sido lidas por tante gente e que umas tantas dessas gentis pessoas tenham voltado aqui vezes bastante para se chegar a esse número.
Há alguns leitores fieis, que estiveram comigo desde o primeiro momento (por increça que parível!), como o Fred Guerreiro e alguns dos meus colegas de Flanar; há outros que vieram e se foram; há outros que chegaram depois e marcaram posição, como a Ana Miranda e a Luiza Duarte; há os alunos, fator preponderante de eu manter a boa educação em certas situações nas quais me dá vontade de ser mais Yúdice e há toda uma legião de desconhecidos que vêm, leem qualquer coisa e nunca mais retornam.
A todos, o meu agradecimento deveras reconhecido. Especialmente a minha esposa Polyana, que veio somar comigo também aqui no blog. E, claro, Júlia, que me dá pautas e lindas imagens para compartilhar com vocês.
Vamos adiante, que ainda faltam 199.865 acessos para eu dobrar a marca!

domingo, 6 de junho de 2010

Almocinho em família

A carne passa por um processo especial, semelhante ao de preparação da carne de sol. Mas é feita à sombra, como me informou o fornecedor. O sabor lembra o da carne de sol, mas é algo que só experimentando para saber. Devido a esse tratamento, a preparação é simples: um pouco de tempero convencional e forno. O resultado é espetacular. Mas o chef, avesso à simplicidade, optou por acrescentar tiras de cebola caramelizada. O contraste do salgado com o doce!
O acompanhamento foi arroz com paio triturado e farofinha amanteigada de ovo.
O interessante é que a ideia original era apenas um caldinho de feijão. E o caldinho foi feito: feijão cozido com charque, paio e temperos. Na hora de servir, ovos de codorna, cubinhos de mussarela e pedacinhos de bacon frito. Com azeite extra virgem.
O resultado da aventura foi uma família afrontada, imprestável após o almoço.
Mas o chef ainda nos presenteou com o melhor de todos os tipos de bolo, o que eu chamo de "bolo de bolo": sem nada de especial, enfeite ou cobertura. Apenas a massinha básica que as velhas mulheres da família gostavam de fazer para o lanche da tarde. Lanche que acabou não ocorrendo, porque definitivamente não deu. Mas o bolo ficou enorme e cheira longe.
E ainda tem gente que não se satisfaz com os pequenos prazeres de estar em casa, à toa com a família!
E o melhor: o chef é meu irmão, Hudson. Ou seja, uma hora dessas vai acontecer de novo.
Lamento, mas vou ficar devendo as fotos. Atacamos a comida antes de eu pensar em fazer os registros...

Cadeirinha obrigatória

Atualizado em 8.6.2010:

Dispõe sobre o transporte de menores de 10 anos e a utilização do dispositivo de retenção para o transporte de crianças em veículos.


O CONSELHO NACIONAL DE TRÂNSITO - CONTRAN, no uso das atribuições legais que lhe confere o Art. 12, inciso I, da Lei 9503, de 23 de setembro de 1997 que institui o Código de Trânsito Brasileiro, e conforme o Decreto 4711 de 29 de maio de 2003, que trata da
coordenação do Sistema Nacional de Trânsito, e

Considerando a necessidade de aperfeiçoar a regulamentação dos artigos 64 e 65, do
Código de Trânsito Brasileiro;


Considerando ser necessário estabelecer as condições mínimas de segurança para o
transporte de passageiros com idade inferior a dez anos em veículos, resolve:


Art. 1° Para transitar em veículos automotores, os menores de dez anos deverão ser transportados nos bancos traseiros usando individualmente cinto de segurança ou sistema de retenção equivalente, na forma prevista no Anexo desta Resolução.


§ 1º Dispositivo de retenção para crianças é o conjunto de elementos que contém uma combinação de tiras com fechos de travamento, dispositivo de ajuste, partes de fixação e, em certos casos, dispositivos como: um berço portátil porta-bebê, uma cadeirinha auxiliar ou uma proteção anti-choque que devem ser fixados ao veículo, mediante a utilização dos cintos de segurança ou outro equipamento apropriado instalado pelo fabricante do veículo com tal finalidade.
§ 2º Os dispositivos mencionados no parágrafo anterior são projetados para reduzir o risco ao usuário em casos de colisão ou de desaceleração repentina do veículo, limitando o deslocamento do corpo da criança com idade até sete anos e meio.
§ 3º As exigências relativas ao sistema de retenção, no transporte de crianças com até sete anos e meio de idade, não se aplicam aos veículos de transporte coletivo, aos de aluguel, aos de transporte autônomo de passageiro (táxi), aos veículos escolares e aos demais veículos com peso bruto total superior a 3,5t.
Parágrafo único. Excepcionalmente, nos veículos dotados exclusivamente de banco dianteiro, o transporte de crianças com até dez anos de idade poderá ser realizado neste banco, utilizando-se sempre o dispositivo de retenção adequado ao peso e altura da criança.

Art. 2º Na hipótese de a quantidade de crianças com idade inferior a dez anos exceder a
capacidade de lotação do banco traseiro, será admitido o transporte daquela de maior estatura no banco dianteiro, utilizando o cinto de segurança do veículo ou dispositivo de retenção adequado ao seu peso e altura.

Art. 3° Nos veículos equipados com dispositivo suplementar de retenção (airbag), para o passageiro do banco dianteiro, o transporte de crianças com até dez anos de idade neste banco, conforme disposto no Artigo 2º e seu parágrafo, poderá ser realizado desde que utilizado o dispositivo de retenção adequado ao seu peso e altura e observados os seguintes requisitos:
I – É vedado o transporte de crianças com até sete anos e meio de idade, em dispositivo de retenção posicionado em sentido contrário ao da marcha do veículo.
II – É permitido o transporte de crianças com até sete anos e meio de idade, em dispositivo de retenção posicionado no sentido de marcha do veículo, desde que não possua bandeja, ou acessório equivalente, incorporado ao dispositivo de retenção;
III - Salvo instruções específicas do fabricante do veículo, o banco do passageiro dotado de airbag deverá ser ajustado em sua última posição de recuo, quando ocorrer o transporte de crianças neste banco.

Art. 4º Com a finalidade de ampliar a segurança dos ocupantes, adicionalmente às prescrições desta Resolução, o fabricante e/ou montador e/ou importador do veículo poderá estabelecer condições e/ou restrições específicas para o uso do dispositivo de retenção para crianças com até sete anos e meio de idade em seus veículos, sendo que tais prescrições deverão constar do manual do proprietário.
Parágrafo único. Na ocorrência da hipótese prevista no caput deste artigo, o fabricante ou importador deverá comunicar a restrição ao DENATRAN no requerimento de concessão da
marca/modelo/versão ou na atualização do Certificado de Adequação à Legislação de Trânsito (CAT).

Art. 5º Os manuais dos veículos automotores, em geral, deverão conter informações a respeito dos cuidados no transporte de crianças, da necessidade de dispositivos de retenção e da importância de seu uso na forma do artigo 338 do CTB.

Art 6º O transporte de crianças em desatendimento ao disposto nesta Resolução sujeitará os infratores às sanções do artigo 168, do Código de Trânsito Brasileiro.

Art 7º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeito nos seguintes prazos:
I – a partir da data da publicação desta Resolução as autoridades de trânsito e seus agentes deverão adotar medidas de caráter educativo para esclarecimento dos usuários dos veículos quanto à necessidade do atendimento das prescrições relativas ao transporte de crianças;
II - a partir de 360 ( trezentos e sessenta ) dias após a publicação desta Resolução, os órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito deverão iniciar campanhas educativas para esclarecimento dos condutores dos veículos no tocante aos requisitos obrigatórios relativos ao transporte de crianças;
III - Em 730 dias, após a publicação desta Resolução, os órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito fiscalizarão o uso obrigatório do sistema de retenção para o transporte de crianças ou equivalente.

Art. 8º Transcorrido um ano da data da vigência plena desta Resolução, os órgãos executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, bem como as entidades que acompanharem a execução da presente Resolução, deverão remeter ao órgão executivo de trânsito da União, informações e estatísticas sobre a aplicação desta Resolução, seus benefícios, bem como sugestões para aperfeiçoamento das medidas ora adotadas.

Art. 9º O não cumprimento do disposto nesta Resolução sujeitará os infratores às penalidades prevista no art. 168 do CTB.

Art. 10. Fica revogada a Resolução n.º 15, de 06 de janeiro de 1998, do CONTRAN.

A obrigatoriedade do uso de equipamento de proteção para crianças, nos automóveis, começa nesta quarta-feira, dia 9 de junho. Todavia, os três primeiros dias serão dedicados a campanha de conscientização dos adultos. As multas começarão a ser aplicadas no sábado, dia 12, exceto pelo DETRAN do Pará, que decidiu postergar as multas para 1º de julho, ficando nesse período apenas com a ação preventiva.

Talvez seja algo difícil perceber, mas você é o adulto dentro do carro. É sua obrigação zelar pela segurança das crianças. Acabe com essa babaquice de achar que não tem problema colocar a criança no seu colo, principalmente se você é o motorista! Ou a babaquice maior de ceder a uma chantagenzinha da criança. Ou a babaquice suprema de achar que não vai acontecer nada, porque é rapidinho, porque é o caminho de sempre e coisa e tal. No trânsito, basta uma fração de segundo para você ter o que lamentar.

Faça como a Júlia: viaje na cadeirinha...




...tranquila, segura e feliz.

Uma campanha de utilidade pública do Arbítrio do Yúdice. A modelo doou o seu cachê para o Fundo Familiar de Aquisição de Morangos.

sábado, 5 de junho de 2010

Lógica tautológica

— Cadê a vó Fatica, mamãe?

— Ela está num retiro, filha. Você sabe o que é um retiro?

— Sei.

A mãe estranha. A palavra deve ser inédita para a pequena.

— Então o que é um retiro?

Um momento de silêncio pensativo.

— É o lugar onde a vovó está!

Pode não ser um conceito. Mas que está certo, lá isso está.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Academia à brasileira

Estou no centro universitário no qual leciono. Há pouco, entrei no elevador onde já estavam três alunas que desconheço. Segue-se o que escutei, contextualizando que hoje é uma sexta-feira imprensada pelo feriado de ontem.
— Todas as faculdades de Belém estão sem aula. E nós vamos ter que fazer prova! — reclama uma.
— Um absurdo! — arremata outra.
Ergo meus olhos para o alto, clamando aos céus. Um detalhe: acabara de aplicar uma prova e estava a caminho de começar outra.
— Tomara que, pelo menos, a gente se livre antes da copa — torna uma delas. — Quando é, mesmo? Dia 11?
Pensei no enorme interesse que a acadêmica tem de estar livre antes que os jogos da copa comecem. Ela parece tão envolvida com isso que sequer sabe a data de abertura da competição. Talvez fosse interessante medir o conhecimento dela na área perguntando os nomes de alguns jogadores importantes, por seleção, mas além de que não valia a pena, eu jamais saberia se as respostas estariam corretas. Acima de tudo, saber dizer os nomes dos jogadores de um time ou de uma seleção sempre foi interpretado, por mim, como uma prova de que a teoria de que a evolução é uma constante está errada.
Por mais que me esforce, não consigo compreender a falta de prioridades da juventude e a sua incansável busca por... Pelo quê, mesmo?

Se fosse coisa boa, não daria ibope

Os mais chegados já devem saber que eu fujo de tudo que é massificado. Não gosto de modas ou tendências e isso se estende até aos assuntos eleitos para o blog. Assim, se está todo mundo falando do rebolation ou baculation (que diabo é isto?) imposto por policiais a três adolescentes que, até o presente momento, nem sequer sei se realmente cometeram alguma transgressão, meu interesse logo se desvanece. É como se estivéssemos numa profusão de vozes. Por que alguém escutaria logo a minha?
Neste caso em particular, fico ainda mais desmotivado diante da constatação — tão triste e lamentável quanto verdadeira — de que é impossível colocar o debate em termos, já que o nível dele é inevitavelmente tão baixo, rasteiro e medíocre, que aspirar a um mínimo de racionalidade é se expor ao ridículo: as pessoas tendem a ridicularizar aquilo que simplesmente não estão aptas a compreender. Que o digam as risadinhas no cinema, em meio a um filme que é tudo, menos uma comédia.
Como já escrevi em outra ocasião, a minha política de tolerância tem limites definidos hoje em dia. Escuto, comento, analiso e até respeito opiniões diametralmente opostas às minhas, desde que tenham um mínimo de fundamento ou lógica. Mas há um nível abaixo do qual eu simplesmente me recuso até a conversar. Frases de efeito ou expressões clichê são um bom sintoma de que não vale a pena perder tempo. Repetição de ideias prontas sobre as quais claramente não se refletiu, idem.
No caso de um tema como este, se o sujeito menciona "o pessoal dos direitos humanos" (sic), interrompo a comunicação imediatamente. É um caso perdido, assim como quando escuto alguém dizer que não vota em certo candidato porque "ele é comunista" ou que "no tempo dos militares era melhor". Eu abstraio essas afirmações como se os seus autores (rectius: reprodutores) fossem apenas um delírio de minha mente após o consumo de drogas pesadas. E eu nem as consumo!
De uns tempos para cá, inclusive como forma de lidar com as resistências que meus alunos trazem para dentro de sala de aula, produtos que são de nossa sociedade, tenho modificado meu discurso sobre direitos humanos. Passei a enfatizar sobretudo os aspectos técnico-legais. Falo menos de ética e mais da redação exata da Constituição de 1988 e das leis. Tais como a norma que proíbe a exposição vexatória da imagem de menores, inclusive quando delinquentes. Ou a norma que criminaliza a detenção imotivada e o retardamento da comunicação ao juiz, aos pais ou responsáveis. Ou as normas que definem como agentes públicos deveriam pautar-se quando em serviço, envergando ou não um uniforme militar.
Digo aos meus alunos que é compreensível que se deseje a mudança das leis. Mas enquanto elas estiverem em vigor, devem ser cumpridas, em respeito a algo que é maior do que a lei: os valores que presidem a organização de uma Nação, quaisquer que eles sejam. Mas isso é muito difícil de ser compreendido.
Sobretudo por quem não está nem aí.

PS — Tenho uma sugestão de punição para os policiais que fizeram essa palhaçada: eles devem cantar o Hino Nacional Brasileiro. Todinho. Sem erro. Com a mesma desenvoltura com que mandaram aquela pérola da música brasileira. Porque não se admite um policial militar que desconheça a letra do hino nacional. Caso o sujeito não saiba, deverá dançar o rebolation só de shortinho de ginástica, no pátio do quartel. Com direito a YouTube. Uma dancinha por erro.
Sou ou não sou misericordioso?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Para acabar com as filas

Parece coisa do seriado Numb3rs. Um professor universitário de Taiwan anunciou o desenvolvimento de uma fórmula matemática para otimizar o atendimento em estabelecimentos de grande aporte de público, com vistas a diminuir o tempo de espera e, portanto, as famigeradas filas.
Excelente iniciativa, infelizmente ela não funcionaria no Brasil. Claro. Primeiro porque, aqui, as instituições públicas se esforçam diuturnamente por piorar o atendimento aos usuários. E as privadas agem como se prestassem um favor aos consumidores e sentem prazer na humilhação dos mesmos. Além do mais, nesta terra se criam deliberadamente dificuldades para se vender as facilidades. E quem ganha dinheiro madrugando em filas para vender a vaga, depois, precisa sobreviver, né?

Sobre votar em Marina Silva

Iniciei uma discussão sobre isso há quase um ano, no meu outro blog. E hoje ela teve continuidade. Dê uma olhada lá.

Mudando a paisagem

Você já pensou? Após um dia comum de trabalho, você volta para casa e descobre que ela...




...sumiu numa cratera de 60 metros de profundidade?
A perspectiva é aterradora.