sábado, 19 de janeiro de 2008

Curiosidades sobre a desocupação da Presidente Vargas

Há dois dias, principalmente, uma das principais avenidas do centro de Belém, a Presidente Vargas, virou cenário da bagunça que é a cidade. Tudo porque a Justiça Federal, acolhendo pedido originalmente formulado em 2001, determinou ao Executivo municipal a retirada da favela em que se transformaram as calçadas daquele logradouro. Alguns arbítrios:

1. Desde o primeiro momento, estranhei que uma ação proposta pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos pudesse atingir toda a via. O presidente do sindicato, associação ou sei lá o que dos ambulantes que não deambulam denuncia que o pedido da EBCT dizia respeito somente ao quarteirão em que fica a sede da empresa, mas a prefeitura se aproveitou para fazer uma limpeza geral. Tem lógica. Se for verdade, a prefeitura está unindo o útil ao agradável. Só que desta vez não farei nenhuma crítica. Pelo contrário, fica aqui registrado o meu apoio.

2. Para a prefeitura, a situação é sopa no mel. Retirando os camelôs por força de ordem judicial, lava as mãos quanto aos impactos da medida. Não é minha culpa; estou apenas cumprindo ordens. Porém, quando a via estiver desimpedida (se é que um dia estará), o sedizente prefeito com certeza vai botar a carranca na TV para tomar como sua, e exclusivamente sua, essa vitória. Aí estaremos diante de uma mentira eleitoreira que, sem dúvida alguma, será explorada. Aqui está a crítica, também registrada.

3. Obrigar as pessoas a fechar suas lojas ou a abandonar suas barracas é crime. Sem mais nem meio mais. O art. 197 do Código Penal assim dispõe:

Art. 197. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça:
I — a exercer ou não exercer arte, ofício, profissão ou indústria, ou a trabalhar ou não trabalhar durante certo período ou em determinados dias:
Pena — detenção, de um mês a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência;
II — a abrir ou fechar o seu estabelecimento de trabalho, ou a participar de parede ou paralisação de atividade econômica:
Pena — detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência.

O art. 202 também prevê a invasão de estabelecimento comercial, industrial ou agrícola, "com o intuito de impedir ou embaraçar o curso normal do trabalho", cominando penas de 1 a 3 anos de reclusão e multa. Se não quiserem entender como crime contra a organização do trabalho, ainda resta o constrangimento ilegal, crime contra a liberdade pessoal, nesse caso com penas de 6 meses a 2 anos de detenção e multa, além da prevista para as violências perpetradas.
Some-se a isso a reunião de dezenas de pessoas com o mesmo desígnio criminoso, ainda por cima armada de paus e pedaços de ferro. Imagine o terror que isso provoca em quem assiste ao espetáculo.
Apesar do que acabei de expor, a polícia assiste inerte a toda a movimentação, inclusive a ROTAM, criada exatamente para operações especiais. Dois dias de obstrução de uma das vias mais importantes da cidade e nenhum manifestante foi incomodado, quando a polícia deveria ter realizado prisões em flagrante. Como se sente um cidadão sendo coagido, à mão armada, diante da polícia que nada faz? É de enlouquecer!
Chamo a isso de síndrome de Eldorado do Carajás. Pessoas mais simplórias chamariam de cagaço da polícia, pois se algum camelô sair ferido, a repercussão será triste. E com isso, ninguém cumpre o seu dever. Aguardemos a bela e poética explicação que a Secretaria de Segurança Pública prometeu dar sobre a postura de seus homens.
No final das contas, começou mesmo a limpeza de Belém? Para valer?

Serviço público municipal

Fui servidor público municipal durante seis anos, passando primeiro pelo Legislativo e depois pelo Executivo. Conheci uns tantos prédios onde funcionavam repartições municipais e sei que muitas funcionavam precariamente. Algumas eram pardieiros, em parte porque havia muitos prédios alugados e adaptados de qualquer jeito para a função desempenhada. A Câmara Municipal, onde trabalhei primeiro, era um pouco mais do que um galpão modificado nos tempos da Tv. São Pedro, recheada de divisórias meio carcomidas. Sede de um Poder Constituído, dava vergonha. Mais recentemente, estive no prédio atual, no Chaco, muito melhor, mas ainda assim bem ruim — pelo menos a julgar pelos setores por onde passei, os administrativos, onde tudo continua amontoado e na base do foi-o-que-deu-para-arranjar.
De todas as repartições municipais que conheci, porém, nenhuma é tão decrépita e desagradável quanto a CTBel, onde estive mais uma vez ontem. A área ampla, na beira do rio Guamá, poderia oferecer um visual e tanto. Em vez disso, o estacionamento é de terra batida e, neste tempo de chuvas, bastante enlameado. Não há uma delimitação precisa de onde podemos estacionar.
O prédio principal é de fato um galpão, cujas salas são definidas por divisórias velhas. O aspecto é bem deprimente. O Setor de Processamento de Multas é velho, sujo e contém os funcionários menos dispostos a sorrir que você já viu. Do ponto de vista humano, o atendimento é ruim. Tive a sorte, porém, de ser atendido pelo único servidor que parecia interessado em trabalhar. Ocupado com outra pessoa, tentava achar alguém que me atendesse. Pediu a um colega, mas esse disse que precisava tirar uma xerox e sumiu. Perguntou a outro se estava ocupado, o qual respondeu que sim, mas sua ocupação era o próprio celular, que estava recarregando. Dali a pouco, encostou-se em duas outras funcionárias e os três, de semblantes graves, ficaram conversando. O público, que espere.
A CTBel é uma síntese da caricatura de serviço público, aquela retratada no genial seriado Os Aspones, da Globo: um prédio caindo aos pedaços, um ambiente esculachado e um pessoal disposto a quaisquer chicanas para não trabalhar. Além de muita burocracia.
E o que fui fazer lá? Pedir uma cópia do auto de infração que aquele canalha lavrou contra mim, para recorrer. Lembre aqui o caso. Quando você é multado e pretende recorrer, o primeiro passo é justamente pedir uma cópia do auto de infração, pois se houver algum erro de preenchimento nele, o ato pode ser anulado por vício formal. Além do mais, você fica sabendo o nome do artista que o multou e pode, inclusive, saber se ele tem competência para realizar tal tarefa. Segundo informa Marilena Vasconcelos em blog recém criado, dos 160 agentes de trânsito de Belém, 105 são na verdade agentes da Guarda Municipal e, em princípio, não tem legitimidade para fiscalizar o trânsito. Com isso, o auto é nulo, por incompetência da autoridade.
Como disse antes, a calhordice do desgraçado que me multou foi tanta que decidi ter trabalho, me aborrecer e o que mais for preciso. Pode não dar em nada, como aliás acho que não dará. Mas está na hora de o cidadão reagir de verdade aos abusos da CTBel. Por isso comprei a briga.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Me tira o tubo!

O presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia (PT-SP), quer todos os parlamentares, assessores e funcionários da casa com os sapatos reluzentes. Abriu licitação para contratar serviços de engraxataria no prédio, num total de R$ 3.135 milhões por um ano, o que dá R$ 261 mil por mês, ou ainda, R$ 8.700 por dia. Este valor diário equivale à alimentação de 174 famílias em um mês.
(Repórter 70 de hoje)

Lembra aquele personagem do Jô Soares? Pois é. Neste país que vai pra frente, só tirando o tubo. Porque os homens do Planalto continuam nos tomando os tubos.

Explica melhor?

Manifesto a LulaOs candidatos do vestibular da FAP vão colaborar para a luta contra o desmatamento da floresta amazônica. No ato da inscrição ao processo seletivo, eles deverão assinar o manifesto “Amazônia para Sempre”, documento que, se reunir o número de assinaturas necessário, será encaminhado ao presidente da República pedindo ações mais duras no combate à devastação da floresta. Não é difícil prever que a estudantada vai querer apertar o cerco.
(Repórter Diário de hoje)

É impressão minha ou a nota acima é uma crítica aos estudantes (olha a expressão "estudantada", com cara de pejorativa)? Afinal, tradicionalmente os estudantes costumam gritar contra o governo, os americanos, os ricos, etc., tenham ou não razão. Ficou-me a impressão de que o jornal está criticando a previsível postura dos jovens, de ser contra mudanças na legislação ambiental, que facilitem a exploração florestal.
Estou errado ou o jornal está defendendo os interesses da tchurma da motosserra? Podem responder como se eu tivesse três anos.

Faculdades sob observação

Baixa produtividade ou pobreza de resultados. Este é o motivo pelo qual 29 faculdades que mantêm cursos de Direito foram gentilmente coagidas a assinar um termo de compromisso com o Ministério da Educação. Elas se comprometeram a melhorar a infraestrutura e o quadro de professores dentro de um ano e, de imediato, em reduzir a oferta de vagas.
Eis as instituições:

1. Centro de Ensino Superior de Vitória
2. Centro Universitário de Araras
3. Centro Universitário de Rio Preto
4. Centro Universitário Euro-Americano (Brasília)
5. Centro Universitário Moacir Sreder Bastos (Rio de Janeiro)
6. Faculdade de Apucarana
7. Faculdade de Aracruz
8. Faculdade de Ciências Jurídicas do Planalto Central (Brasília)
9. Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino
10. Faculdade dos Cerrados Piauienses (Corrente)
11. Faculdade Editora Nacional (São Caetano do Sul)
12. Faculdades Integradas Espírito Santenses (Vitória)
13. Universidade Castelo Branco (Rio de Janeiro)
14. Universidade de Franca
15. Universidade de Ribeirão Preto (Guarujá)
16. Universidade Metodista de Piracicaba (Santa Bárbara d'Oeste)
17 e 18. Universidade Paranaense (Toledo e Umuarama)
19 e 20. Universidade de Passo Fundo (Palmeira das Missões e Soledade)
21. Centro Universitário da Cidade (Rio de Janeiro)
22. Centro Universitário Nove de Julho (São Paulo)
23. Faculdade Aldete Maria Alves (Iturama)
24. Centro Universitário Nilton Lins (Manaus)
25. Centro Universitário Plínio Leite (Niterói)
26. Universidade Guarulhos
27. Centro Universitário Ibero-Americano (São Paulo)
28. Faculdades Integradas de Tangará da Serra
29. Faculdade Eduvale de Avaré

Como veem, nada no Pará. O critério usado pelo MEC para analisar o rendimentos dos cursos foi basicamente o desempenho dos alunos no ENADE. Sem dúvida, um critério mais quantitativo do que qualitativo, como tudo que o MEC faz em termos de avaliação. Todavia, mesmo sendo um procedimento insuficiente, devo reconhecer que ele é um parâmetro importante. Afinal, se um aluno mal consegue decorar conceitos e regras, provavelmente terá dificuldades para aplicá-los em situações concretas, que é o que reclama a atividade jurídica.
Da notícia sai pelo menos o conforto de saber que o MEC está vigilante e não permitirá que a educação superior brasileira permaneça em ritmo de oba-oba. Quem quiser prosseguir ou se lançar no mercado terá que estar mais apto e demonstrar isso. Tomara.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Colônia de férias — Resposta dada

Uma adolescente de 14 anos entrou na Colônia Penal de Charqueadas, a 55 quilômetros de Porto Alegre, sem a menor dificuldade, levando dinheiro, maconha, cocaína e crack, tudo a pedido de um cunhado preso, que lhe pediu o favor por um celular, que ele possui dentro da detenção. E ainda passou a noite se beijando com outro preso. Ela nega, mas pode ser que tenham mantido relações sexuais. Também saiu do local sem ser vista.
Pelo que se sabe até agora, ninguém ficou surpreso. Há precedentes. Só quero ver se o caso terá a mesma repercussão negativa que teve o episódio da nossa adolescente de Abaetetuba. Tudo bem, os casos são bem diferentes, mas revelam a mesma insanidade do sistema penal. Aliás, se é tão fácil entrar e sair, nem sei como ainda tem gente presa nesse local.
Se a repercussão for menor, vou achar que a imprensa nacional realmente trata o Pará com preconceito. É, vou achar, sim.

Atualizado em 17.1.2008, às 20h54:
Já foi noticiado oficialmente que o presídio onde os fatos acima se deram será fechado. A trasferência dos presos ocorrerá gradativamente e deve estar concluída até o segundo semestre deste ano.
Ou seja, a Superintendência de Serviços Penitenciários do Rio Grande do Sul foi fulminante na resposta que lhe foi exigida pela sociedade. Diante disso, só me resta ficar miudinho, esperando o que as autoridades paraenses farão no caso de Abaetetuba. Se a condução do governo não estiver à altura, lá vai o Brasil inteiro dizer que quando os desmazelos acontecem no Brasil, a solução é pronta e satisfatória, mas que no Pará é tudo esculhambação. E se disserem isso, pode ser verdade. Aí o jeito será aguentar calado.
Aliás, a demora em dar uma solução final para o acontecido já depõe contra nós. Que lástima.

Notícias que vão mudar o mundo — 17ª edição

"Vaticano alerta sobre influência de Harry Potter na sociedade"

Rapaz, está explicado a mó di que o governo Lula vive fazendo bobagem, a presença americana não pacificou o Iraque e mais um urso polar foi rejeitado pela mãe na Alemanha. Sacanagem do Harry!
A Joanna (K. Howling) nem vai dormir esta noite, se tiver acesso à matéria.
Realmente, tem gente muito ocupada no mundo. Harry Potter pode não ter a menor ideia de quem é Bento XVI, mas Bento está chateado com ele... Será que já leu os sete livros?

Questão de modelo

A reunião do Ministro Extraordinário de Assuntos Estratégicos (???), Roberto Mangabeira Unger com empresários paraenses, missão ainda não concluída, deixou clara uma verdade que precisa ser escancarada para todos: enquanto os setores econômicos persistem em sua verborragia inútil sobre desenvolvimento, que reclama como custo inevitável o avanço sobre o patrimônio ambiental, o ministro responde com categoria: os custos ambientais são tanto maiores quanto mais incorreto o modelo de exploração adotado. O projeto do governo é adotar um modelo que seja eficiente, eficaz e o menos agressivo possível.
O fato é que a turma da grana quer lucrar ao máximo, internalizar ao máximo os benefícios e externalizar ao máximo os ônus. É imediatista e absolutamente antissolidária. Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo e a mentalidade jamais mudou. Como argumento cretino contra seus opositores, acusam todo e qualquer discurso pró-meio ambiente de ser edênico, o que não corresponde à realidade.
Somente uma parcela dos ambientalistas é edênica e corresponde, justamente, aos ecochatos. Os sensatos sabem que os recursos ambientais precisam ser explorados; sempre foram e jamais deixarão de sê-lo. Óbvio. Precisamos nos alimentar, consumir água e produzir energia, dentre outros fatores. Mas há meios e meios de fazê-lo.
Os países desenvolvidos têm em comum já terem dizimado os seus recursos ambientais ou quase isso. Quando veio a escassez, descobriram que precisavam fazer o caminho de volta. Foram tolos, claro, mas temos que lembrar que o discurso ambiental hoje em voga surgiu em 1972, com a Conferência de Estocolmo. Antes disso, o mundo inteiro estava em erro. Precisamos barrar a exploração dos países ricos, mas nem por isso podemos exigir a nossa própria quota de insanidade. Hoje, com o desenvolvimento da tecnologia, pode-se produzir com menos danos. Que o diga o Japão, um arquipelagozinho vulcânico, com quase nada de terras agricultáveis e sem uma gota de petróleo — mas podre de rico. Assim como os tigres asiáticos.
Haver gente em 2008 pedindo para derrubar florestas como condição sine qua non do desenvolvimento passou da besteira para a burrice; passou da esperteza para a suprema calhordice. Afinal, sabemos bem o que é esse desenvolvimento e quem se beneficia dele.
Boa, Mangabeira. Vamos desenvolver. Mas escolhendo o modelo certo. Não é uma decisão de governo. É uma exigência da humanidade.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Clima de montanha

Passei o dia inteiro cuidado de afazeres domésticos relevantes e urgentes, daqueles que mudam a vida de um ser humano. Dormi tarde e acordei cedo. Não parei o dia todo. Portanto, estou cansado e com os pensamentos lentos. Não dá para postar hoje.
Vim apenas dizer que estou adorando Belém do Pará assim, com esse maravilhoso clima de montanha! Se isso pudesse acontecer mais vezes!
Bom sono para todos, com esse tempinho gostoso.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Sua amiga, a cratera

Ela voltou. Está lá, imensa, na Governador José Malcher, esquina com a 14 de Abril, de frente para o Yamada Plaza. Em 2007, ela tanto abriu que a COSANPA decidiu fazer uma obra de maior vulto. Demorou meses, com infernais engarrafamentos. Demorou um tempo muito superior ao necessário para fazer a tal obra, num lugar sério. Aproveitaram para melhorar o sistema de escoamento de água naquele perímetro. Problema resolvido? Negativo. O buracão está lá, largo e profundo, segurando o tráfego.
Minha esposa sugeriu colocar uma tampa em cima. Assim, não precisariam fechar mais. Eu penso diferente: acho que deveriam transformar a cratera em atração turística. Colocar uma iluminação especial, umas placas turísticas, espalhar umas fotos pela internet, realizar uns eventos no local.
Qual a sua sugestão?

Depoimento sem dano já!

No dia 23 de março do ano passado, publiquei uma postagem que vale a pena reler para entender melhor o que se segue. Nela, expus uma situação aviltante, na qual uma criança de apenas três anos foi forçada por um juiz a descrever o abuso sexual sofrido, cujo autor era o próprio pai. Agora, lendo o número 503 da revista Época (7 de janeiro), cuja matéria de capa trata do ano de 1968, encontrei uma excelente reportagem entitulada "Em defesa das crianças", a qual explica acerca de novos procedimentos para tomar o depoimento de crianças vítimas de delitos sexuais.
Trata-se do Depoimento sem dano, metodologia instituída em caráter pioneiro na Vara da Infância e Juventude de Porto Alegre e já copiada em outras quatro capitais. A lógica é proteger a criança de contatos com o seu ofensor, o que facilita a tomada do depoimento e a descoberta da verdade. O resultado é um aumento calculado em 59% no número de condenações — seis vezes mais do que a média nacional. Isso se explica pelo fato de que, normalmente, a vítima é coagida, ainda que implicitamente, pelo agressor e acaba negando o abuso, ou prestando um depoimento frágil, que acarreta a absolvição do réu, no mínimo por insuficiência de provas. Vale lembrar que 40% dos casos de abuso sexual são perpetrados pelos pais e outros 30% por padrastos, namorados da mãe ou, enfim, pessoas muito próximas, o que intimida a criança. Basta estar na mesma sala que uma pessoa dessas e a criança perde a coragem de contar a verdade. O crime, assim, fica impune.
O Depoimento sem dano foi criado a partir de um estudo da promotora de justiça gaúcha Veleda Dobke, reunindo Direito e Psicologia na análise de depoimentos de crianças sexualmente abusadas. Funciona na seguinte forma:
1) A criança chega mais cedo e fica numa sala protegida, cheia de brinquedos. Uma psicóloga ou assistente social especialmente treinada e gasta ao menos meia hora para ganhar a confiança do pequeno e, assim, obter declarações espontâneas e realistas.
2) Somente a profissional fala com a criança. Ela elabora as perguntas, tomando o cuidado de checar antes o vocabulário da criança, a fim de que as perguntas e as respostas sejam claras para todos. Tudo é acompanhado em tempo real pela turma da audiência formal: o juiz, o promotor de justiça, o réu e o defensor, que estão em outra sala e assistem pela TV. Toda a sessão fica gravada, à disposição da justiça.
3) A criança fala no seu próprio ritmo, sem pressa. A profissional ajuda, p. ex. usando marionetes para facilitar a compreensão de como se deu fisicamente o abuso.
Serei curto e grosso: essa é a única justiça que presta, a que respeita a vítima como vítima e, antes, como ser humano. Segundo a reportagem, a metodologia em questão pode se tornar obrigatória no Brasil. Existe um projeto de lei com essa finalidade no Congresso Nacional, o qual já foi aprovado à unanimidade na Câmara dos Deputados e ora tramita (espera-se) no Senado.
É torcer para que, o quanto antes, o Depoimento sem dano se torne uma realidade no Brasil. Minha atividade profissional no tribunal de justiça permite que eu assegure: um processo mal instruído impõe a absolvição do réu. Eu mesmo já concluí pela necessidade de absolver uns tantos, por absoluta falta de certeza quanto a sua real culpabilidade.
Agora só falta os calhordas se insurgirem contra a medida. Quem são os calhordas? Todos os que, invocando a Constituição Federal e os princípios do contraditório e da ampla defesa, disserem que a criança tem que ser inquirida somente pelo juiz, que a psicóloga ou assistente social está distorcendo o depoimento, que o fato de as pessoas estarem em salas separadas retira a legalidade do ato e outras asneiras, cuja única finalidade é, sob o manto de uma legalidade exacerbada e irracional, livrar da cadeia criminosos dessa laia.

Alguns trechos da matéria:
"O medo de falar da intimidade na frente de outras pessoas, sobretudo de homens, explica por que menos de 10% dos processos de abuso sexual de menores chegam à condenação no Brasil."
"Uma peculiaridade do abuso sexual é não deixar testemunha ou marca física. Em geral, a única evidência é o depoimento da vítima. Se for constrangida, ela se cala."
"Ouvir criança falar de sexo é difícil. A pessoa sem preparo não consegue nem elaborar as perguntas."
"Para a vítima, além da culpa, há o peso de conviver com o agressor depois da revelação. Em alguns casos, a pressão pode levar a tentativas de suicídio."
"A assistente explica diversas vezes que a criança não é culpada. Diz que não é o depoimento dela que vai fazer o adulto ser preso, mas sim o que ele fez."

Ano eleitoral: o bondinho

"Bondinho circulou no centro histórico da capital,
emocionando passageiros de todas as idades."
(Legenda da fotografia tirada por Mário Ferreira, publicada no Diário do Pará de hoje)

Ou seja, agora o bondinho emociona. Mas só agora.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Construir e desconstruir um criminoso


Confiando no cinema nacional, ontem fui ao cinema ver Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima, até aqui mais conhecido como diretor de videoclipes. Deixarei a abordagem da obra cinematográfica em si aos chatos de plantão que gostam de fazer crítica, sem me furtar de dizer que Selton Mello é um ótimo ator mas que é aquilo mesmo. Já Cléo Pires é só aquilo mesmo. O filme não chega a ser antológico e, na minha opinião, cansa um pouco na reta final, mas tenho motivos para querer falar dele aqui.
Meu nome não é Johnny retrata a evolução de um jovem de classe média nos anos 1980. A família tinha boas condições financeiras e, enfim, João Guilherme Estrella tinha tudo para ser feliz. A família só não lhe deu limites, como aliás o próprio slogan do filme revela. Há uma passagem em que João estoura um morteiro na sala de casa. O pai pensa em repreendê-lo, mas ao descobrir que o motivo do gesto foi a comemoração de um gol de seu time, endossa a conduta do filho. A mãe, cumprindo seu papel de esposa padrão de antigamente, a tudo assiste calada. O pai se revela como o principal elemento deseducador, o que se confirmará mais tarde, quando o adolescente João viver dando festanças em casa, tendo o pai recluso no quarto, tentando resistir à doença que vai matá-lo (e que o mata porque ele prefere isso a deixar de fumar).
A carreira de João começa como tantas. Um amigo — sempre há um amigo desses — propõe que ele experimente maconha. Ele recusa, mas o amigo o critica por se guiar pela cabeça do pai. Para mostrar atitude, postura típica dos adolescentes, ele fuma. E se vicia. E evolui para a cocaína. Todos os seus amigos próximos fumam e cheiram — e confiam que deixarão quando quiserem. O pior é que deixam, mesmo, menos João, que vende a primeira vez meio que por acaso, mas acaba descobrindo seu talento. Encurtando a conversa, torna-se traficante internacional. Sua única meta: torrar todo o dinheiro que ganhar.
João não tem objetivos na vida; é um sujeito vazio. É uma expressão superlativa das consequências da falta de educação e exemplo na família, apesar de algumas tentativas dos pais. Mas sua trajetória, mesmo assim, é de redenção. Não pretendo contar o final do filme, mas como se trata de uma história real amplamente divulgada pela imprensa nos últimos dias, presumo que todos sabem que João quitou sua dívida com a sociedade. Hoje é um homem livre e produtivo. Sua história já pode ser contada para exemplo dos vivos.
Posso, assim, dizer da impressão que me ficou de que Marilena Lopes, juíza encarregada de seu processo, ao condená-lo livrando-o de uma pena longa em cadeia comum, apostou alto. Ela agiu mais como mãe do que como uma juíza rigorosa. Buscou uma brecha na lei para investir em João, por acreditar que podia recuperá-lo. E conseguiu. Declarou expressamente que João é a prova viva de que ressocializar um delinquente é possível.
Chegamos ao ponto. No mundinho atual, em que os ditos cidadãos de bem querem ver mortos ou absolutamente alijados da sociedade os transgressores, querem aumento de penas, regimes mais rigorosos, abominam os benefícios de execução penal, etc., Meu nome não é Johnny permite uma boa reflexão: vale a pena acreditar na recuperação de um criminoso contumaz e nitidamente amoral?
Para fazer esta reflexão, porém, é imperioso destacar um aspecto essencial: fica fácil acreditar na ressocialização de João Estrella, branco, bem articulado, bem falante, inteligente, engraçado, vivendo no meio dos endinheirados cariocas, e ainda por cima interpretado pelo carismático Selton Mello. Quero ver alguém responder a minha pergunta tomando por base os outros presos retratados no filme: negros, desdentados, pobres, sem instrução alguma e sem perspectivas além da violência. É esse estereótipo que a sociedade consegue ver. Somente esse. E para esse tipo de gente, vale a regra: trancar numa cela para sempre ou eliminar.
Então fica a minha pergunta: podemos ressocializar um criminoso? Seja ele um riquinho desorientado ou um ferrado na vida? O sistema permite isso? O sistema existe para isso?

sábado, 12 de janeiro de 2008

Novo acesso entre Belém e Ananindeua

Depois do Google Earth, qualquer um consegue fazer uma boa matéria com imagens de satélite.
O Liberal de hoje noticia um projeto da Prefeitura de Belém para construir uma nova via de acesso entre a capital e o Município de Ananindeua, considerando que essa comunicação via Av. João Paulo II não deu certo. Trata-se de uma via ainda sem nome oficial, que aproveitaria uma antiga estrada de terra, hoje tomada pelo mato em alguns pontos, fazendo um trajeto impensável para a maioria dos munícipes: da Estrada da CEASA, passando por trás do Parque Ambiental do Utinga.
Eis o trabalho que o jornal apresentou usando os mapas da NASA e o bom e velho Paint:


Observando a imagem abaixo, extraída do Google Earth, sem qualquer edição, pode-se constatar que, de fato, a estradinha antiga é visível, mesmo a 7,97 quilômetros de altitude.



Assim, à primeira vista, parece que a proposta é mesmo viável, a ser verdade que não atravessaria uma área de preservação ambiental integral e que o trajeto poderia ser feito em apenas 10 minutos.
Imagino que muitas pessoas ficariam receosas de utilizar a nova estrada, por razões de segurança — melhor dizendo, falta dela. Naturalmente, se o projeto chegar ao fim, essa variável também será levada em consideração. Nada que uma readaptação não resolva. Afinal, seria realmente uma boa alternativa para fugir do inferno que se torna a BR-316 em certos horários.
O projeto da prefeitura está em fase de carta-consulta à Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Aguardemos.

Atualizado em 14 de janeiro de 2008:
O grande Juvêncio de Arruda não tem a menor dúvida. A ideia é um lixo. Mais um lixo do sedizente. Eis o que ele diz:

Mais uma barbaridade está sendo proposta pelo prefeito de Nova Déli. No dia do aniversário da cidade, mais uma tentativa de liquidá-la, atacando os cofres públicos. Trata-se da Rodovia Metrópole, que de acordo com a proposta apresentada, na edição da folha nariguda de sábado, 12, na página 3 do caderno Poder, seria alternativa para acesso a BR-316, já em Ananindeua.O projeto, se realmente existe como anunciado, é irresponsável e ilegal.A via proposta agride ambientalmente a Área de Preservação Ambiental dos lagos Água Preta e Bolonha, que como manancias de abastecimento de água da RMB de Belém para as próximas décadas, devem obrigatóriamente ser preservados.A APA Belém proíbe qualquer tipo de empreendimento potencialmente poluidor, como é o caso de uma via urbana, que entre outros riscos induz a ocupação desordenada e um potencial de acidentes, como vazamento de óleos e outros poluentes.Somente uma visão míope de oculista falsário tirando uma de planejamento urbano pode cogitar uma aventura dessa ordem.Mas um outro prefeito, Luís Otávio Mota Pereira, da Cidade Universitária, vizinha à APA, já está se mobilizando para enfrentar o nacional e seus cambonos, Natanel Cunha, Jean Ambiental Nunes e, claro, o marginal Paulo Castelo Branco.Quem deveria deter Duciomar, os vereadores da Casa de Noca, calam-se, acalmados.

Atualizado em 5.4.2011:
Afinal de contas, nós esquentamos as nossas cabeças com o quê? Mais de três anos se passaram e, claro, a proposta não saiu do papel. Aliás, não se ouviu falar mais dela, mesmo com a oportunidade trazida pelo Via Metrópole, executado pelo governo do Estado ao tempo da gestão de Ana Júlia Carepa, que abriu uma nova avenida rasgando um parque ambiental.
Considerando os questionamentos ao projeto, pode-se comemorar que não tenha ido adiante. Mas se não foi, o motivo é incompetência, e não compromisso com a qualidade ambiental. Especificamente quanto a isso, temos o que lamentar.

O próximo passo

Há três dias, publiquei uma postagem entitulada Crimes perfeitos?
Nela, fiz referência a casos em que, embora se tratasse de um assassino serial, o fato de ele ter parado de matar (que se saiba) levou as autoridades a jamais descobrir a sua identidade. Pode ser esse o destino do matador das matas da CEASA, segundo sugere o Repórter 70 de hoje. Uma nota afirma que a equipe policial encarregada do caso permanece a ele vinculada, "esperando o próximo passo do criminoso".
Quem disse isso foi o jornal, não a polícia, por isso tratarei da questão como mera especulação, para evitar leviandades. O fato é que se a polícia estivesse mesmo à espera de mais um ataque, para prosseguir as investigações e, quem sabe, enfim chegar ao homicida, isso provaria a imprestabilidade das investigações até o momento. E nos colocaria naquela situação absurda em que mais alguém precisa morrer a fim de chegarmos a um culpado!
Enquanto isso, saibam as famílias das três vítimas já consumadas: se ninguém mais morrer, vocês jamais terão o alento que tanto esperam.
Não é um bom prognóstico. Prefiro pensar que a polícia tem uma carta escondida e que, a qualquer momento, o malfeitor pode ser identificado e preso, sem que mais ninguém precise pegar pelas mazelas de um maníaco ou do poder público.

Questão de escolha

Décadas atrás, o governo federal brasileiro decidiu que o principal modelo de transporte a ser desenvolvido no país seria o rodoviário, mesmo havendo imensidões territoriais (propícias ao ferroviário) e mesmo sendo o território retalhado por muitos e caudalosos rios (recomendando o hidroviário). Não se compara a capacidade de carga do maior dos caminhões em relação a um bom navio. No final, foi escolhida a opção mais inconveniente, sobretudo do ponto de vista ambiental. Mas assim foi feito porque atendia aos interesses dos Estados Unidos, exportador de petróleo, império do qual já éramos súditos e capachos.
Governos tomam decisões, muitas vezes, de costas para o interesse público. Neste país, historicamente, ganham os governantes do momento e a escumalha com que se relaciona, em detrimento de todos.
Este pensamento nasceu de uma postagem no 5ª Emenda, criticando as tentativas da Câmara Municipal de Belém de modificar a legislação urbanística, com vistas a permitir a construção de edifícios mais altos, com benefícios imediatos e exclusivos para a indústria da construção civil. Não importa que isso desfigure a cidade, interrompa o fluxo dos ventos, comprometa o conforto ambiental, gere ilhas de calor, oculte as paisagens naturais ou os bens tombados. O que importa é uma indústria canalha lucrar com isso e só.
Em julho de 1999, passei alguns dias em São José dos Campos, SP. Lembro-me de chegar à Via Dutra e meus anfitriões me mostrarem, de um lado, o caminho para o Estado do Rio de Janeiro; de outro, a capital paulista — neste caso, destacando-se por um céu cinzento e opressivo. Era inverno, tempo propício à inversão térmica.
Visitando a capital, acompanhei aqueles termômetros de rua indicando a qualidade do ar: razoável ou ruim. Estive em um edifício residencial e fui até o telhado. Lá de cima, olhando em todas as direções, via uma coisa só: prédios, prédios, prédios. Uma paisagem intimidadora e árida. Pensei que, das sacadas de Belém, podia-se ver um horizonte mais belo.
Ainda se pode. Mas se prevalecer a escalada edilícia na cidade, hoje embalada por empresas paulistas, é coisa breve.
Na postagem a que me referi, uma leitora perguntava porque a indústria do turismo não se esforçava por barrar esse fenômeno, a fim de lucrar com a exploração de nossas belezas naturais. Uma sugestão curiosa, mas creio que fora da realidade. Turismo, no Pará, não tem indústria; no máximo, uma vendinha na esquina. Não há entidades governamentais ou não-governamentais com cacife para enfrentar o poderio econômico de construtoras. E quem teria interesse? E quais seriam as potencialidades econômicas para o turismo, se uma tal batalha fosse travada e vencida? Há quem interessa se uma fila de espigões, lado a lado, na Pedro Álvares Cabral, acabará com a visão da Baía do Guajará, se felizes proprietários terão garantido um belo por-de-sol?
Creio que a saúde da cidade, naquilo que possa ser afetado pela verticalização excessiva, somente poderá ser mantida se tal preocupação brotar na consciência de cada cidadão, para cobrar o impedimento das iniciativas das construtoras, que possam ser consideradas como abusivas. E, claro, com o engajamento do poder público, não permitindo modificações calhordas na legislação, tomando decisões com base em argumentos realistas técnicos (e não políticos ou econômicos) e implementando uma política ambiental séria.
Que desgraça seria a outrora Cidade Morena, Cidade das Mangueiras e da chuva das duas, que não pode faltar transformada em cidade cinza-concreto, cidade dos arranjos em condomínios e da falta de ventos, para aliviar o calor já inevitavelmente causticante.

O bom do Brasil

Bastava que houvesse mais gente parecida com este brasileiro aqui.

E ela faz aniversário


Pode ser que haja festa, mas reina uma tristeza no coração da morena. Cansada de abandono, cansada de mentira, cansada de ser prostituída pelos maus. Ela só queria ser a menina faceira que poetas e incontáveis canções sugerem. Queria que as gotas da chuva não fossem lágrimas. Que as suas mangas não fossem o único alimento do dia para ninguém.
Queria que seus filhos a amassem tanto quanto dizem, o que já evitaria tanto lixo espalhado. Queria que esses mesmos filhos reconhecessem seus encantos, em vez de maldizê-la sempre e repetir a cantilena de que lá fora é que é bom, lá fora é melhor.
Não é culpada, coitada. Ela é o que fazem dela.
Hoje completa 392 anos. Após passar mais de um ano apontando aspectos que, talvez, pudessem torná-la um lugar melhor para se viver, este é o momento de hipotecar publicamente o meu amor.
Feliz aniversário, terrinha. Haveremos de conhecer dias melhores, se Deus quiser!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Notícias que vão mudar o mundo — 16ª edição

"José Dirceu faz implante de 6.710 fios de cabelo"

Ele retirou da nuca e implantou no cocuruto! Jesus Cristo!
Poucos dias depois da publicação de uma reportagem que comprometeu o PT, deu munição para a oposição e que já vai engrossar os processos nos tribunais superiores, a coisa mais importante que a imprensa tem a dizer sobre o sujeito que, diziam alguns, era o verdadeiro presidente do Brasil no início do governo Lula é que ele fez microtransplante de unidades foliculares, no Hospital Memorial do Recife, pelas mãos do cirurgião plástico pernambucano Fernando Basto. E a notícia é importante, dado o alto grau de precisão da manchete.
Tem horas que eu me arrependo de ler jornal. Mas não sei passar sem.
Resolução de ano novo: vou implantar 6.711 fios de cabelo! Aguardem as fotos.

Tô pagando pra ver

...a pantera remexer. Em duas notas, manda o Repórter Diário de hoje:

Eleita pelo IBGE como a capital brasileira do barulho, Belém será obrigada a jogar duro contra a poluição sonora. Ontem, os promotores Nilton Gurjão das Chagas e Daniella Dias, da Promotoria de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, declararam guerra contra a zoeira patrocinada por bares, restaurantes, boates e similares que transformam a cidade em gigantesca caixa acústica. Os promotores recomendaram à Secretaria Municipal de Meio Ambiente que, em dez dias, cancele todas as licenças que autorizam a balbúrdia otológica, silenciando as parafernálias sonoras. As licenças, dizem os promotores, são nulas de pleno direito.

Treme-terraÀ prefeitura, os promotores lembram que recomendação do Ministério Público não é ação judicial, mas pode virar. Aos barulhentos de plantão, incluídos donos de carros transformados em treme-terra para infernizar o sossego público, sujeitos à legislação penal, o MP rememora estudos científicos que provam que o ruído a partir de 55 decibéis provoca estresse, evoluindo para graves doenças a partir dos 65 decibéis, como desequilíbrio bioquímico, riscos de infarto, derrame cerebral, otites e osteoporose.


Quero ver dar certo a iniciativa nesta cidade, a capital mundial do egocentrismo, onde a histeria parece ser virtude cultural. Se você não sofre de idolatria a barulho, muitos palavrões lhe estão reservados.
Evidentemente, torço para que os dois promotores levem a medida até o fim e sejam bem sucedidos. Se criticamos tanto a inércia do Ministério Público, temos que louvar as suas boas iniciativas e contribuir, inclusive com nossos bons augúrios. Afinal, é a saúde de todos que tem a ganhar com isso. Boa sorte e botem para quebrar. Inclusive com as igrejas que prestam culto ao deus surdo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Notícias que vão mudar o mundo — 15ª edição

"Preta Gil leva 'caldo' em Ipanema"

Mais uma catástrofe ambiental no Brasil. Aqui em Barcarena, uma empresa de mineração transformou os rios em um lamaçal de caulim. No Rio de Janeiro, a cantora-atriz-filha de ministro onipresente da mídia de celebridade transformou um dos cartões postais da cidade numa imensa canja. As autoridades temem que a contaminação atinja outras praias e advertem o público para não consumir a canja, pois a água do mar é salgada e seu consumo pode provocar hipertensão.
Pressão alta, aliás, é o que sofro quando vejo, diariamente, essa sucessão de inutilidades nas primeiras páginas...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Crimes perfeitos?

Há quem afirme que não existe crime perfeito: todos podem ser elucidados. De minha parte, acho que isso é conversa de policial idealista. Querer não é poder. Se todos os crimes podem ser solucionados, o fato é que nem todos o são. Aliás, as constrangedoras estatísticas brasileiras demonstram isso. Se não se chega a um culpado, o crime foi perfeito, sim. Por mais tosca e aberrante que tenha sido a sua execução.
A revista Mundo Estranho deste mês traz uma lista de dez crimes sem solução, até o momento, alguns deles ainda considerados solucionáveis, outros já na conta dos perfeitos. Eis a relação:

1. Jack, o estripador, claro. De cinco a nove prostitutas brutalmente assassinadas no subúrbio londrino de Whitechapell, em 1888.

2. Um "maníaco do alfabeto" atacou na cidade industrial americana de Rochester, entre 1971 e 1973. Estuprou e assassinou três meninas de 11 anos, mas as autoridades demoraram a perceber a repetição de um modus operandi, que se baseava na letra do nome das vítimas e no local do ataque: matou Carmen Colon em Churchville, Wanda Walcowicz em Webster e Michelle Maenza em Macedon.

3. Um homem nunca identificado atacou três adolescentes que acampavam às margens do lago Bodom, na Finlândia, em 4.6.1960. Apenas um sobreviveu. O crime chocou o país. O enredo incluiu confissões falsas e uma vítima virando suspeito, mas a verdade jamais apareceu.

4. Em 17.6.1934, um baú abandonado na estação ferroviária de Brighton, litoral sul da Inglaterra, foi aberto. Dentro dele, o tronco de uma mulher, sem a cabeça e os braços (que facilitariam a identificação). Na estação King's Cross, em Londres, um segundo baú continha as pernas. A polícia descobriu apenas que a vítima estava grávida e que, talvez, a bagagem tenha sido despachada na cidade de Dartfort. Mais nada.

5. O assassinato da "Dália Negra", uma aspirante a atriz com fama de prostituta em Hollywood, janeiro de 1947. A vítima foi serrada ao meio, na altura da cintura. Entre os suspeitos, Norman Chandler (famoso dono de jornal), o gangster Bugsy Siegel e até Orson Welles. O caso foi levado aos cinemas em 2006 pelas mãos de Brian de Palma. O filme meia boca inventa uma teoria mas não convence.

6. Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, sequestrado no Rio de Janeiro em 2.8.1973. Alguém pediu resgate, mas a imprensa deu ampla publicidade ao bilhete. No dia do pagamento, o local do encontro estava cheio de curiosos. O criminoso, claro, não apareceu e isso pode ter selado o destino da criança. Ninguém sabe até hoje o que aconteceu.

7. Entre 1968 e 1969, um maníaco atacou três casais de namorados, matando cinco pessoas. Depois telefonou para a polícia de San Francisco (EUA) admitindo os crimes. Também mandou para os jornais uma carta criptografada, assinando-se "Zodíaco". No último crime, foi visto por testemunhas e desapareceu sem deixar rastro.

8. Desde 1993, a Ciudad de Juarez, no México, já teve 370 mulheres assassinadas, contas da Anistia Internacional. Pelo menos 137 vítimas sofreram abuso sexual. Muitos suspeitos já foram presos, mas os crimes continuam acontecendo na miserável cidade. Existe a possibilidade de os delitos estarem associados a algum tipo de culto satânico.

9. Em 1971, Dan B. Cooper embarcou num voo comercial em Portland. O cara mostrou uma suposta bomba para a aeromoça e sequestrou a aeronave, um Boeing 727. Cobrou 200 mil dólares de resgate e, recebido o dinheiro, saltou de para-quedas, mesmo tendo dois caças em sua cola! Caiu numa região montanhosa, fria e cheia de florestas mas, ao contrário do que se pensava, nem sequer o para-quedas foi encontrado. Mas de mil suspeitos depois, o FBI jogou a toalha. De Cooper, o único vestígio encontrado foi um punhado de cédulas, em Vancouver, oito anos mais tarde, de acordo com a numeração das notas.

10. O décimo e último caso é o da pequena Madeleine McCann, desaparecida desde 3.5.2007, no balneário de Luz, em Portugal. Sequestrada por uma rede de pedófilos e levada para o Marrocos (versão dos pais)? Morta acidentalmente pelos pais, que forjaram um seqüestro e perderam o controle das consequências (versão da polícia portuguesa)?

Não repita isso na sua vara!

Os nossos aqui já são maluquinhos o suficiente, mas um juiz americano passou dos limites em termos de excentricidades e abusos. A informação vem da adorável seção "Contando ninguém acredita", da revista Mundo Estranho deste mês:

James Michael Shull tem um histórico e tanto de bizarrices no tribunal. Já chamou um adolescente de "filhinho da mamãe", aconselhou uma mulher a casar com o namorado que abusava dela e decidiu a custódia de uma criança jogando uma moedinha para cima — isso mesmo, no cara ou coroa. Mas a maior façanha dele aconteceu no caso em que uma mulher fazia um pedido de ordem de proteção contra o parceiro — alegava que o marido já tinha inclusive esfaqueado sua perna. Foi um prato cheio para o juiz maluco aprontar mais uma das suas: mandou a mulher abaixar as calças para verificar a cicatriz. Não contente com uma primeira olhadinha, Shull se aproximou da mulher e pediu para ela abaixar as calças mais uma vez, para determinar há quanto tempo os pontos tinham sido feitos. Depois desse caso, as autoridades caíram na real e afastaram James Michael Shull do cargo. Felizmente não deu tempo de ele passar de juiz a réu em nenhum caso.

Se fosse no Brasil, as garantias constitucionais da magistratura não permitiriam que o meliante perdesse o cargo por tão pouco. No máximo, seria removido para outro lugar, seria posto em banho-maria, essas coisas. Aqui, punições exemplares são apenas para casos extraordinários. Vale lembrar que a máxima punição a um juiz é a aposentadoria com proventos proporcionais ao tempo de serviço. Pelo menos até segunda ordem. Por isso, espero sinceramente que o exemplo de Shull não faça escola por estas bandas.

Telas do MASP recuperadas

O lavrador de café, de Cândido Portinari, e Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso, voltarão ao acervo do Museu de Arte de São Paulo — MASP, 20 dias após terem sido furtadas. Se a operação criminosa transcorreu com precisão cirúrgica, a polícia decidiu não ficar atrás: agiu com responsabilidade, discrição e eficiência.
Dez dias atrás, um dos suspeitos já fora preso, mas o fato foi mantido em sigilo, para não atrapalhar as investigações. Daí se afunilou a busca, até ser montado um esquema de vigilância no Município de Ferraz de Vasconcelos, região metropolitana de São Paulo, onde foram recuperadas as telas e presos outros criminosos. Parabéns à polícia paulista pela excelente trabalho.
Quando houve o furto, surgiram aqueles tradicionais comentários depreciativos ao Brasil, como se o furto de obras de arte não ocorresse em nenhum outro país. Pelo contrário. Há obras valiosas desaparecidas há anos, das quais não se têm notícias. E sumiram de museus dos mais respeitados. Ou seja, o MASP não foi o primeiro nem será o último. Além do mais, dada a natureza da res furtiva, esse tipo de crime costuma envolver quadrilhas bem organizadas, de alcance internacional e com as costas largas, representadas por gente milionária e sem caráter, que deseja as telas para si. A condenação de dinheiro em excesso sem nenhuma ética tem custado caro ao mundo.
Mas o Brasil deu mostra de competência e em menos de um mês o patrimônio foi recuperado. Logo, estará disponível aos admiradores da arte.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Você paga para ver

Grande novidade. Os canais educativos da TV paga perdem para outro assunto de maior interesse nacional.
Não me surpreende o fato. Nem as consequências.

Culto ao vazio

Anônimos nem tão anônimos assim. Comportamentos espontâneos nem tão espontâneos assim. Acompanhamento integral em horários limitados. Herois nacionais instantâneos. Dramáticas situações do passado — inventadas, claro. Novos agentes sendo contratados para oferecer presença VIP, a altos preços. Novas capas da Playboy.
O culto ao vazio recomeça hoje e prenderá a atenção da família brasileira por intermináveis meses.
Pode entrar, que a casa é sua. Vá dar a sua espiadinha. Mas não me convide.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A insustentável leseira do ser

O Portal Globo.com publicou, às 12h45 de hoje, uma notícia sobre um navio cargueiro ancorado que teria atropelado um tubarão baleia de 7,5 metros, matando-o, nas Filipinas. Destaque para o fato de que se trata de um animal em extinção.
Tudo bem, a notícia é estranha. Eu mesmo tento entender como um navio ancorado pode "atropelar" um animal. Seria mais sensato entender que o tubarão colidiu com a embarcação? Ok, a coisa está mal explicada. Mas em menos de três horas, a tal notícia atraiu 114 comentários, que correspondem a uma verdadeira seleção de gags, dando a entender que não existe vida inteligente na internet.
Percorrendo os comentários, o mais impressionante é ver uns trouxas culpando o comandante da embarcação pelo acidente. Como se o comandante pudesse, a sabe-se lá quantos metros de altura, enxergar um animal embaixo d'água! Ninguém pensou em quantos metros o navio ainda prossegue, abaixo da linha do mar? E o pobre do comandante é ofendido, chamado de "cego", "Steve Wonder" e coisas do gênero. Uma cretina chega a dizer que não se tratava de um camarão e era impossível não ver esse "gigante dos mares"!
Alguns comandantes de navios se manifestaram, tentando explicar o assunto tecnicamente, mas não adiantou. O fato é tratado como um crime ambiental, dando margem aos delírios dos ecochatos. E, claro, os erros português!!! Uma pequena mostra:
- "submergindo subtamente"
- "ele fica submerço"
- "a matéria relata sobre um lamentávio acidente"
- "que comer o tobarão baileia"
- "que se pode enchergar um animal a distancia"
- "antes ele duque eu!!"
- "ele esta em extinçao e fizerao isso com ele!"
- "Ta na hora de colocar cinalização no mar também"

Além dos erros de português, o povo brasileiro também mostra sua cultura quando o elemento pergunta, com veemência, se tubarões possuem esqueleto! Para que não pairem dúvidas, resposta da Discovery Channel: "Contrariamente a outros peixes, os tubarões têm o esqueleto principal feito de cartilagens, no lugar de ossos. Seu esqueleto é reforçado em certos pontos por placas especiais denominadas 'tesserae', feitas de duros sais de cálcio."
É por essas e outras que eu só comento notícias em sites de conhecidos...

20 anos sem Henfil

"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."

Você já ouviu essa pensata em algum lugar, com certeza. É, provavelmente, a citação mais famosa de Henrique de Souza Filho, o Henfil, um dos maiores cartunistas brasileiros de todos os tempos, cuja carreira se deu em plena ditadura militar, a "página infeliz de nossa História", como registrou Chico Buarque.
Há três dias, foi aniversário de falecimento do artista, que morreu no Rio de Janeiro, em 4 de janeiro de 1988. O blog Caneta sem Fronteira dedicou-lhe uma bela postagem, cuja leitura recomendo. Clique aqui.
E já que vai até lá, não deixe de ler a postagem Exploração, sobre trabalho infantil. Primorosa.

Belém desgovernada

2008 carrega o aborrecimento de ser um ano eleitoral. Por isso, estaremos o tempo todo à mercê das atitudes canalhas daqueles que têm interesse direto e pessoal no resultado das eleições, particularmente no que tange a condutas caracterizadoras de abuso de poder político ou econômico.
Chamei a mim o dever de cidadão de alardear todas as situações que provam a tragédia que é a atual gestão do Município, nas mãos do nacional que se diz prefeito. É uma gota no oceano, mas é a gota com que posso contribuir. Por isso, usarei o título "Belém desgovernada" para indicar as postagens cujo teor sejam relacionadas ao estado em que a cidade se encontra. Elas se originarão de notícias da imprensa ou de situações que eu mesmo presencie, mas que correspondam a fatos. Quero ser o menos valorativo possível, limitando-me a apontar situações que facilmente se percebam como irregulares, absurdas ou abusivas. Se algum leitor quiser apontar alguma situação que se encaixe no contexto, será bem vindo.
Começo hoje com as notas do Repórter Diário:

Quem precisou chegar ao campus da UFPA ontem mais cedo, para o exame do Processo Seletivo Seriado (PSS), encontrou um verdadeiro caos no trânsito em todas as vias de acesso, principalmente na Perimetral, Augusto Corrêa e Bernardo Sayão.

Inúmeros carros estacionados em fila dupla, longos engarrafamentos, fila de ônibus nos dois sentidos e nenhum, mas nenhum mesmo, agente da CTBel ou da Guarda Municipal.

Desconheço a rotina de serviço da CTBel, se é que existe uma. Mas se por um lado os briosos agentes de trânsito precisam descansar, como qualquer trabalhador, por outro a cidade não pode ficar completamente desguarnecida. Se os condutores irresponsáveis souberem que aos finais de semana o espaço urbano vira terra de ninguém (justamente quando mais se precisa de vigilância), o índice de acidentes aumentará vertiginosamente.
Todo mundo sabe, todo mundo mesmo, que o vestibular provoca complicações no trânsito nas imediações dos locais de prova, principalmente dos mais importantes, como a própria UFPA, a qual já padece de péssimas condições de acesso. Em dezembro, fui deixar lá uma prima para fazer a primeira prova. O trajeto pela Perimetral foi complicado, congestionado, mas chegamos sem maiores delongas. Ontem, pelo visto, foi o caos. Em dezembro, vi quatro agentes de trânsito, já no portão da universidade (o da estação de ônibus), mas nenhum durante o percurso, inclusive nenhum em frente ao NPI.
Então a CTBel não sabe que o vestibular é daqueles eventos que exigem ampla fiscalização de tráfego, nos locais de prova? Não sabe que a UFPA precisa de atenção especial? Onde estavam os diligentes agentes de trânsito nessa hora? Em casa, descansando, para começarem com todo gás, em frente aos bancos e locais onde multam até a própria mãe?
CTBel é espelho do desgoverno de Belém.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Primeiro domingo do ano

O primeiro domingo do ano veio ensolarado — até demais. Bom para quem está na piscina ou aproveitando uma praiazinha, por exemplo na nossa querida Ilha do Mosqueiro. Importante lembrar do filtro solar.
Quem está aproveitando o braseiro na cidade, mesmo, teve a opção de passear no Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves, embora esse seja um programa mais familiar, sobretudo para quem tem crianças. A proteção das árvores e a possibilidade de escolher um canto para ficar quieto são atrativos.
Quem gosta de uma caminhada ou dos benefícios da bicicleta pode preferir o Parque do Utinga, andando ou pedalando pelas vias arborizadas, com direito a descanso na beira dos lagos Bolonha e Água Preta, paisagens agradáveis e reconfortantes. Recomendo, porém, cuidado com eventuais malfeitores, que gostam de pular do mato repentinamente. Não é programa para se fazer sozinho, especialmente mulheres.
Mas a manhã deve mesmo ter emplacado a já tradicional e desgastada feirinha da Praça da República. Digo "desgastada" e "feirinha" porque a antiga Feira do Artesanato, que conheci na minha infância, acabou faz tempo. Seus elementos ainda estão lá, claro, mas sufocados pela favelização de camelôs vendendo todo tipo de tranqueira. É um programa para quem gosta de calor e multidões. Se for seu caso, aproveite.
Quando o sol der uma trégua, mais tarde, e se a chuva permitir, as pedidas se deslocam para o Complexo Feliz Lusitânia e a Estação das Docas (onde a chuva não é impeditivo). Há também o Ver-o-Rio e as muitas praças da cidade, particularmente Batista Campos, com suas barraquinhas de água de côco competindo para ver qual a mais limpa.
E para quem não dá a mínima para a natureza, só quer sair de casa e adora um lugar fechado, opressivo, lotado e barulhento, há os shoppings. Nesse caso, por favor, não me convidem.
Mas se houver um por-do-sol com direito a sorvete da Cairu, tô dentro.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Araras polêmicas

Chama-se Paulo Francis Castilho de Alencar a primeira vítima fatal relacionada à atual leva de araras, ou salva-vidas do trânsito, como queiram, instaladas pela nossa briosa e irrepreensível CTBel. No dia 31 de janeiro, ao parar seu veículo na confluência da Antônio Barreto com a 14 de Abril, foi abordado por assaltantes e acabou morto a tiros.
Melhores informantes no contexto, os moradores da área reconhecem que a instalação da arara, naquele ponto, reduziu a quantidade de acidentes, mas alegam que aumentou a de assaltos. Afinal, devido à falta de policiamento, a bandidagem ali ataca todo mundo, inclusive pedestres. Portanto, o maior problema não é a arara, mas a insegurança pública.
Com fiscalização de trânsito responsável — coisa que, definitivamente, não existe em Belém do Pará —, os equipamentos eletrônicos seriam dispensáveis em pontos considerados de maior risco de assalto. E com policiamento ostensivo, não ocorreriam os assaltos. Mas isso num mundo perfeito, certo?
Sem dúvida, a polêmica vai longe.

Homem-Aranha salva mais um

Primeiro foi Riquelme Wesley Maciel dos Santos, de 5 anos, que entrou numa casa em chamas usando uma fantasia de Homem-Aranha e resgatou um bebê de pouco mais de um ano, no Município catarinense de Palmeira — fato que teve repercussão internacional. Agora foi a vez de Gustavo Ferreira Veloso, 4 anos, envergar uma máscara e sandálias do heroi aracnídeo e, debruçando-se na borda de uma piscina, puxar de volta, pelos pés, a irmã de 1 ano e 3 meses. O fato se deu em Franca, a 400 quilômetros da capital paulista.

No primeiro caso, Riquelme, em seu imaginário infantil, deve ter posto na cabeça que a roupa lhe dava superpoderes. Na pequena cidade e até na capital, Florianópolis, virou uma espécie de celebridade, a tal ponto que psicólogos se manifestaram, advertindo ser perigoso estimular na criança o sentimento de heroísmo. Ela não tem noção do perigo nessa idade e, influenciada pelo reforço positivo dos adultos, pode se envolver em outros eventos perigosos, vindo a ferir-se ou coisa mais grave. Nas fotos publicadas pela imprensa, Riquelme aparecia mostrando o muque (ao lado) e declarava que o Homem-Aranha não tem medo de nada.

Não sei se o mesmo fenômeno ocorreu com Gustavo, mas a reportagem informa que ele não tira mais a indumentária. Logo, deduz-se que está fascinado com o seu grande feito e os adultos aparentemente estão deixando que ele se sinta assim, talvez por gratidão. Porém, da mesma forma, isso é perigoso.

É maravilhoso que crianças tão pequenas tenham a iniciativa e a capacidade de salvar vidas. Todavia, uma exceção só confirma a regra e a regra, neste caso, é que crianças não são nem devem ser tratadas como herois, por sua manifesta incapacidade de dosar o perigo. Se até adultos ignoram que, num incêndio, morre-se pela inalação da fumaça, mesmo que as labaredas não alcancem a vítima, imagine uma criança. Quanto a Gustavo, poderia ter sido puxado para dentro da piscina, ao tentar içar a irmã.

Não existe lugar inteiramente seguro para crianças. É por isso que elas têm pais e responsáveis. Evidentemente, em algum momento a vigilância vai falhar. Isso é humano. Mas se nossos pequenos empreendedores resolverem a parada, é importante que sejam esclarecidos sobre o perigo que correram e, na próxima, chamem um adulto. Herois, só na TV, cinema e quadrinhos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Planos de saúde: cerco fechando

Se o seu plano de saúde se recusar a cobrir despesas de certo procedimento, indevidamente, corre o risco de ser condenado ao pagamento de indenização por dano moral, baseada no fato de que isso "agrava o estado psicológico e de angústia do segurado". Esse é o entendimento da 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, mais uma vez colocando os interesses dos consumidores acima do interesse de lucro das empresas que atuam no ramo de saúde.

Aliás, nesse campo, não se pode falar em relações de consumo, pura e simplesmente, mas em defesa da própria vida. Afinal, uma coisa é você querer um carro novo; outra, completamente diferente, é você precisar de uma cirurgia, exames ou tratamentos específicos, etc.

Há menos de um mês, o STJ decidiu que a carência dos planos de saúde deve ser afastada em caso de doenças graves, porque o que prepondera é a proteção da vida e saúde, conforme noticiei aqui. Com isso, fica evidente que aquele tribunal está sanando alguns dos problemas mais freqüentes na difícil relação entre as empresas que operam os planos e nós, meros mortais que adoecemos. Felizmente, as batalhas têm sido a nosso favor. Que assim prossiga.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

10 semanas

Consulta com o tocoginecologista e, graças a Deus, está tudo bem. A gestação segue saudável, os resultados dos exames são "muito bons" e nenhuma recomendação especial foi feita, além de se evitar carnes mal passadas, já que a verificação de toxoplasmose deu completamente negativa. A par de evitar açúcar, "não é hora de fazer dieta".

Prosseguiremos, pois, sem maiores novidades, até provavelmente dia 18 de janeiro, quando deve ocorrer a segunda ultrassonografia. Pelo visto, o negócio fica mais animado quando acaba o primeiro trimestre. Por enquanto, comemoramos a ausência de enjoos e desejos inoportunos.

Será o mico?

"Mentiroso" e "sem vergonha" foram alguns dos predicados usados pelo falastrão-mor do mundo, Hugo Chávez, para se reportar ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, ao ser por este desautorizado como porta-voz e mediador na libertação de prisioneiros pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia — FARC. Bem ao seu estilo, prosseguiu fazendo o que queria, legitimado por sabe-se lá que poder mundano ou supramundano legitima tudo o que ele faz.

Mas o tempo está passando, o ano mudou, a entrega das reféns foi adiada e agora se especula que um dos prisioneiros prometidos, uma criança de aproximadamente três anos nascida no cativeiro, sequer é verdadeiramente refém. Ou seja, parece que alguém está fazendo Chávez de besta.

É o caso de perguntar ao Ungido venezuelano: Por que no te explicas?

Terá ele caído no conto do terrorista? Aliás, quem acredita em negociação com terrorista? Só lamento, e muito, pelas vítimas.

Saída temporária natalina

Saudações. Feliz 2008.

Comecemos a pauta deste ano do blog por aquilo sobre que posso me arvorar a falar, que são os temas de natureza jurídico-penal. E como dia desses um dono da verdade veio aqui me esculhambar porque defendi a saída temporária de presos, eis o que pincei da coluna Repórter Diário de hoje:


A Superintendência do Sistema Penal abriu ontem contagem regressiva para a volta de cerca de 600 presidiários autorizados pela Justiça em todo o Estado a passar as festas de Natal e Ano Novo com as famílias. A juíza Tânia Batistello, da Vara de Execuções Penais da Região Metropolitana de Belém, fixou o retorno dos presos às cadeias públicas da RMB para 17h de ontem. Nas comarcas do interior, segundo o superintendente da Susipe, coronel Sandoval Bittencourt, há prazos variados que vão até sexta-feira. No retorno, os condenados passam por revista para impedir a entrada de armas e drogas nos presídios. A Susipe divulga o balanço na segunda.


Regressão da pena
As autoridades judiciárias revelam que a série histórica registra baixo índice de evasão de presidiários nas saídas temporárias. Premiados por bom comportamento, os presos condenados não têm arriscado sofrer novas sanções justamente quando estão mais perto de deixar definitivamente a cadeia. Quem não retorna, passa a ser considerado foragido de Justiça, perde os benefícios conquistados, inclusive com regressão da pena, como reza a lei.

É preciso que se entenda — caso se tenha boa vontade, evidentemente — que a saída temporária, e de resto todos os benefícios de execução penal, atende a uma lógica de prêmio-punição. Quem se comporta bem, recebe prêmios que tornam mais leve sua passagem pela prisão e podem antecipar a sua liberdade. Quem se comporta mal não goza dessas "benesses" e pode sofrer novos males, como a regressão de regime penitenciário e até o famigerado regime disciplinar diferenciado (RDD). Pretende-se, assim, convencer o condenado ao bom comportamento.

Como já insisti umas tantas vezes, esse sistema pode não ser o melhor. Contudo, sem ele, as finalidades da pena, de prevenção do crime e ressocialização do criminoso, tornam-se inviáveis.
Nas notícias acima, destaquei dois pontos que me parecem essenciais: a comprovação de que o índice de evasão sempre é baixo, para desmentir a alegação dos desesperados, de que a maioria não retorna à prisão. Isso jamais foi verdade. A segunda falácia é de que se põe na rua condenados sem nenhum critério, o que é uma asneira. O critério é o bom comportamento, aferido pela própria instituição penitenciária, e dependente ainda do cumprimento de uma parte da pena (nunca menos que um sexto).

Portanto, que os críticos se informem melhor antes de lançar seus vitupérios. Aguardemos a próxima segunda-feira, quando teremos os números deste ano e poderemos formular melhor juízo a respeito.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Soneto XXX de Via Láctea

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura do teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Este é o soneto XXX da célebre Via Láctea, de Olavo Bilac. Para quem pretende amar intensamente em 2008.

Soneto a quatro mãos

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

Este Soneto a quatro mãos foi composto por Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos em 12 de agosto de 1945. Consta da antologia do Poetinha chamada Jardim noturno — Poemas inéditos, publicada pela Companhia das Letras em 2001.
Nada como iniciar um novo ano com poesia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O último dia do ano

Ele estendeu o ramalhete mixuruca e confessou um "Eu te amo". Mais tarde, quando ela contou o fato à melhor amiga, disse que ele declarara seu amor enquanto lhe entregava um monte de flores.

Nós somos assim. Muitas vezes, os fatos cedem à leitura que deles fazemos. Que importa se o amado deu apenas umas cinco florzinhas, se a ansiada declaração veio justamente naquele momento? Os olhos apaixonados viram uma enormidade de flores, porque o importante, realmente, era a emoção experimentada.

Hoje é segunda-feira, um dia não muito popular. Após a meia-noite, terça-feira, um feriado, como volta e meia surgem feriados às terças-feiras. O tempo segue seu curso, como sempre. Mas colocamos na cabeça que um ciclo se fecha. E nós precisamos de ciclos. Precisamos crer na mudança, na novidade, condições que nos estimulam a prosseguir em nossos objetivos ou eleger outros. São, por assim dizer, as sem razões dos seres humanos, essa gente complicada!

É muito bom o clima de conclusão, mesmo com a consciência de que podíamos ter feito mais e melhor. Se há ou não um fechamento, pouco importa. Nós acreditamos nele. Nós o desejamos. Nós podemos extrair algo dele. Se possível, algo de bom. Para nós e para o restante do mundo.

Feliz 31 de dezembro de 2007. Que um sentimento de fulgurante alegria e de enorme paz tome conta de você quando os fogos e luzes da virada chegarem. E o ano novo encontre você nesse clima, para assim conduzi-lo por todos os seus dias. Deus os abençoe.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Previsões para 2008

Há coisas que não falham no final de ano. Reportagens sobre o primeiro bebê nascido no novo ano e as previsões de astrólogos, videntes ou sei lá o quê, por exemplo. Como a imprensa insiste em dar espaço aos prescientes, seguem aqui as minhas próprias previsões. Ou você acha que não sou capaz? Pois anote o que digo e, em 31.12.2008, veremos se eu tinha ou não razão.

1. O ano de 2008 começará com fortes e frequentes chuvas. Porém, a partir de março ou abril, elas diminuirão e cederão lugar a uma onda de calor.

2. Em julho, o tempo estará muito quente e as emissoras de TV e rádio, além dos jornais, dirão que estamos no "verão".

3. Artistas de renome nacional se casarão, mas o casamento não completará um ano.

4. Artistas de Hollywood serão presos por dirigirem embriagados.

5. Chuvas intensas no Rio de Janeiro provocarão deslizamentos de encostas e mortes.

6. A imprensa brasileira gastará quase metade do seu tempo noticiando o Campeonato Brasileiro de Futebol.

7. Escândalos envolvendo políticos, principalmente os que forem candidatos, explodirão de todos os lados. Mesmo assim, suas candidaturas não serão impugnadas pela Justiça Eleitoral.

8. A Globo lançará uma novela de época no horário das seis e, no das nove, uma trama elogiando o Rio de Janeiro.

9. Crimes bárbaros ocorrerão por todo o país. Boa parte deles não será solucionada.

10. Dissensões internas farão o Congresso Nacional não votar uma grande quantidade de matérias de interesse nacional.

E tenho dito.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Calmaria de fim de ano

A letargia que se abateu sobre a blogosfera, nestas bandas, acabou me atingindo também, embora não fosse minha intenção. Tudo está meio parado, aguardando que o novo ano chegue com festas e alegria.
Pessoalmente, estou preocupado com as comemorações. Se no Natal, que é uma festa mais familiar, já tivemos um incremento do número de acidentes de trânsito, no país todo, imagine no réveillon, quando o único compromisso parece mesmo ser com Baco e seus asseclas! Como evitar que a comemoração dê lugar a novas tragédias, se as pessoas agem com a firme convicção de que está tudo bem, de que não beberam demais, de que não acontecerá nada?
Amigos, cuidado nas estradas. E, por favor, manerem na bebida. Vale a pena começar o ano feliz, para que todo o ano seja feliz.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O jardineiro fiel

John le Carré, pseudônimo de David John Moore Cornwell (1931-), é um famoso escritor inglês, notabilizado por suas obras centradas no tema da espionagem. Certamente, para escrevê-las, aproveitou-se de sua própria experiência, já que passou pelo serviço diplomático inglês. O jardineiro fiel, p. ex., revela essas pessoalidades, na medida em que o protagonista, Justin Quayle, era um diplomata de segundo escalão e um típico "etoniano", ou seja, egresso do Eton College, onde o escritor chegou a lecionar.
O jardineiro fiel, romance escrito em 2000, tornou-se mais conhecido por estas paragens em 2005, quando o cineasta brasileiro Fernando Meirelles realizou, com grande liberdade criativa (segundo ele mesmo), a versão cinematográfica. Belíssima, um dos melhores filmes do ano. Um provável injustiçado do Oscar, sem qualquer bairrismo.
A premissa é ótima: um diplomata de segunda categoria, com fama de abestado e conhecido por sua dedicação à jardinagem, casa-se com uma linda mulher, cerca de 20 anos mais nova. Tessa é pura adrenalina e se envolve com assistência social no Quênia, para onde Justin é mandado. Mas não a assistência de coluna social que as mulheres de diplomatas costumam fazer. Ela é obcecada por justiça e, em sua sanha, compra briga com uma multinacional farmacêutica, que usa os miseráveis africanos como cobaias de uma nova droga contra a tuberculose. Acaba estuprada e assassinada (esse é o começo da história), além de difamada.
Justin, então, sai em busca de verdade e descobre quem era a mulher que ele teve pouco tempo para amar.
Sem pieguice, a história é excelente. Porém, se quiser um conselho, veja o filme. A versão cinematográfica é bem melhor do que o romance, não apenas pelas belas atuações de Ralph Fiennes e Rachel Weisz, mas porque o roteiro de Jeffrey Caine é muito mais centrado na investigação do amargurado Quayle. Enquanto o romance perde um tempo enorme com tolices (como as aspirações pessoais de Sandy Woodrow, um personagem secundário que domina as primeiras 100 páginas, ou os detalhes de uma festa diplomática), o filme se concentra nos elementos que fazem sucesso no gênero: a coleta de provas, peças de um grande quebra-cabeça, aumentando a cada momento o perigo que correm os envolvidos.
No filme, existe um trabalho de investigação. No romance, Quayle apenas precisa entrevistar as pessoas certas. Fica parecendo que ele, como uma espécie de marido traído, era o único que desconhecia a verdade.
Não deixe de ler o livro, claro. Nada substitui o prazer de uma boa leitura. Mas realmente acho que John le Carré deve agradecimentos a Fernando Meirelles e sua equipe.

Monarquia à brasileira

Você acredita numa briga em família para se resolver quem tem legítimo direito ao trono... do Brasil? Pois acredite: os herdeiros da antiga família real brasileira não chegam a um consenso sobre quem deve ser o imperador!

Em meio a essa mixórdia surreal, resta apenas a lucidez do historiador Milton Teixeira...

Este é o Brasil...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Herois

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, "heroi" é um vocábulo que comporta, dentre outras, as seguintes acepções: "indivíduo notabilizado por seus feitos guerreiros, sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade etc." e "indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p.ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem". Portanto, parece apropriada a lista de herois feita pelo G1, a fim de mostrar os anônimos que se notabilizaram por seus grandes feitos em 2007.
Tem menino de 9 anos, vestido de Homem Aranha, salvando um bebê. Tem avô lutando por meia hora com uma sucuri, para libertar o neto de 8 anos. Tem estudante mordendo um pit bull para resgatar o irmão, também de 8 anos. Tem militar abrindo com a mão a mandíbula de rottweiler (mordida mais forte entre os cães), a fim de soltar uma menina de 3 anos abocanhada na nuca. E tem gente que se arrisca até por desconhecidos.
Situações extremas levam a atitudes extremas. Mas nem sempre. Nem todo mundo possui esse altruísmo elevado, a ponto de por em risco a própria vida, em benefício alheio. Obviamente, ninguém deve sair por aí procurando grandes feitos. Mas penso que se deva homenagear quem o fez.
Felicidades em 2008 para os fantásticos seres humanos comuns que se importam com o semelhante.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Eita, coisa boa!

Mensagens, telefonemas, visitas, rabanadas, presentes, votos de paz, esperança e um monte de coisas boas! Se tem algo maravilhoso nesta época é este congraçamento todo! Além das rabanadas, claro.

Hoje é dia de Natal. Muitas felicidades a todos.

E muitas rabanadas, também.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Já é Natal na China

Num apropriado esplendor vermelho.

Julgamentos mais importantes do ano

O Superior Tribunal de Justiça fez uma listagem dos julgamentos mais importantes de 2007. São matérias que passam pelo Direito de Família, previdência social, saúde, meio ambiente, relação de consumo e, claro, penal. Algumas dessas decisões foram comentadas no blog.
Vale lembrar que, com o absoluto descompromisso do Congresso Nacional em votar matérias de interesse da sociedade, se isso não lhes for render nada pessoalmente, há muito tempo que já se comenta, nos meios jurídicos, que o Poder Judiciário tem cumprido uma função de renovar e recriar o Direito. Ou seja, enquanto a lei não vem, os juízes vão decidindo de acordo com os princípios aplicáveis. Para os estudiosos do Direito, uma prática louvável, mas que torna evidente a necessidade de cobrar dos legisladores que cumpram o seu dever. Afinal, se lei houver, fica mais fácil atender a certas necessidades sociais, mormente naqueles casos em que apenas os Tribunais Superiores têm peito suficiente para dizer o Direito de que realmente precisamos. E para uma causa chegar aos Tribunais Superiores, passam-se anos.
Conheça a lista. E torçamos para que 2008 nos traga outros tantos e grandiosos avanços.

Civilidade

Ontem, eu e minha esposa precisamos entrar num shopping para comprar um presente de última hora. Fomos a O Boticário, sabidamente um dos locais de maior apelo público nesta época. Estava cheio, claro. A certa altura, a funcionária que nos atendia pediu que ficássemos na fila do caixa enquanto ela agilizava a embalagem. Aquiescendo, fomos para o rabo da bicha. Comprida, não sei quanto tempo perderíamos ali. Então perguntei, falando somente com minha esposa:

— Será que existe prioridade para grávida?

Um casal que estava à frente virou-se abruptamente dizendo:

— Mas é claro! (ele)

— Tem que haver! (ela)

E fixaram os olhos em nós com tanta expectativa que me senti obrigado a tomar uma atitude, ainda mais quando a moça disse que devíamos fazer valer os nossos direitos. Nesse momento, percebi que, querendo ou não, era meu dever de cidadão requerer o privilégio, mesmo que a gravidez de minha esposa ainda não seja evidente. Assim fiz. Curiosamente, a própria vendedora não soube o que fazer diante do nosso questionamento. Uma outra, decerto mais experiente, soprou-lhe que era só avisar a funcionária do caixa. Enfim, pagamos logo depois do cliente que estava sendo atendido.

Ninguém disse nada. Só o sujeito que estava na boca do caixa pareceu meio contrariado. Tudo bem, eu também ficaria. Mas prevaleceu a prioridade da gestante. E isso em Belém do Pará, a capital mundial do egocentrismo!!

Confesso que fiquei orgulhoso dos nossos novos cidadãos. Faça valer seus direitos, amigo.

Véspera de Natal

Chegou a hora de desejar a todos os amigos, visitantes, pessoas que chegaram aqui por engano e até mesmo as que decidiram me detestar, um feliz Natal. Considerando as novidades dos últimos dias, ninguém duvidará se eu disser que estou cheio de graça, com o coração transbordante, de um jeito completamente novo e arrebatador.
Trata-se de um momento de esperança, de projetos, de desejos, de renovação. Tudo aquilo que se menciona por ocasião dos festejos natalinos, desta feita é real para mim. Por isso, tendo compartilhado um pouco dessas emoções com os amigos, venho trazer-lhes o meu enorme abraço, o meu carinho, as minhas esperanças.
Feliz Natal, companheiros. Deus os abençoe imensamente.

Arbítrios pré-natalinos

Não sei o que leva uma pessoa ao hábito de navegar pelos incontáveis blogs disponíveis na internet. Meu maior interesse tem sido informação sobre fatos ligados ao meu cotidiano mais próximo, como o que ocorre neste Estado, nesta cidade, ou assuntos que me toquem mais de perto. Não sei o que move os demais. Por isso, não sei que o leva as pessoas a virem aqui, especificamente neste que escrevo.
Por isso mesmo, só posso agradecer àqueles que me acharam merecedor de um pouco de sua atenção, especialmente os que voltam. Quanto aos que se tornam visitantes habituais, deixam-me a sensação de que esta experiência é realmente válida, mesmo que, aqui e ali, surjam alguns psicopatas sem tratamento, ávidos por insultar. Quando surgem, ficam alguns dias lendo as postagens e comentários, procurando todas as brechas para me atingir. Soltam-me impropérios, dizem palavrões, questionam o meu espírito democrático! Como se eu tivesse alguma obrigação de ser democrático neste blog! Teve um que, por ter lido sobre meu desejo de ser pai, rogou-me uma praga de que tal desejo não se realizaria tão cedo! Com que alegria vejo que a praga não durou além de minha deliberação de ser pai.
Gostaria muito que essas pessoas em sofrimento pudessem ver minha cara quando leio suas mensagens. Qualquer dia fotografarei meu sorrisinho de canto de boca. Depois de ler suas manifestações de desespero, com um só clique no mouse, mando-os para o lugar que merecem. E passo a publicar os comentários amigos, alguns até elogiosos. Acabei de publicar um. Se duvidar, dê uma olhadinha na caixa de comentários da postagem "Notitia criminis".
Meus caros, minha terapia está em dia. Em mais de um ano e três meses, não houve um só comentário ofensivo que tivesse perturbado o meu espírito. Alguns eu até mostro para a família e nos pomos a gargalhar, pensando no pobre anônimo, em algum lugar, teclando com ódio palavras que não chegam até meu coração.
Meu coração está em festa, em júbilo, como jamais esteve antes. Por isso, poupem os seus petardos. Definitivamente, escolheram o pior momento, o mais improfícuo, para tentar me aborrecer. Esta noite, comendo rabanadas, proporei em família um brinde aos atormentados do mundo.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Comparação

Muita festa para a inauguração da primeira etapa do Projeto Vila da Barca, que marcou a entrega de moradias para 136 famílias. Até o final de 2008, espera-se que o restante das unidades habitacionais seja entregue. Trata-se de uma medida de alto impacto urbanístico, já que melhora as condições de vida de milhares de pessoas até então morando em palafitas e, por isso mesmo, degradando o meio ambiente, a par do aviltamento humano.
Esse grandioso projeto custa 80 milhões de reais. Uma pequena fração dos 486 milhões de reais que custará a nova sede do Tribunal Regional Federal da 1ª Região em Brasília, cujos custos foram peremptoriamente justificados pelo ordenador de despesas. Necessidade pura.
Ou seja, uma sede de tribunal permitiria que se fizesse seis vezes o Projeto Vila da Barca, ou que projetos congêneres fossem realizados em outras cinco cidades, além de Belém. E ainda sobrariam 6 milhões de reais de troco.
Sei que criticar as obras do TRF já virou lugar comum, mas eu não podia deixar essa passar. Como é mesmo aquela musiquinha?

Este é um país que vai pra frente!!

Experiências únicas

Ontem foi o dia da primeira ultrassonografia que minha esposa fez, como parte de seu pré-natal. Não pretendo traduzir em palavras as diversas e intensas emoções que a ocasião proporcionou. Seria tolice minha. Fica, então, a imagem de uma parte do que vi:


Saco gestacional, embrião e vesícula vitelina — os três componentes do que existe, neste momento. O embrião, um feijãozinho de 1,79 cm, que muda os cálculos anteriores e amplia a gestação para 8 semanas e 3 dias (hoje), mais do que pensávamos, antecipando a previsão de nascimento para 31 de julho.

E o que é escutar o coração batendo pela primeira vez? Aquele som intenso — 140 batimentos por minuto —, vindo de dentro d'água.

Os amigos gostarão de saber que todos os elementos investigados pelo médico estão normais — o mesmo em relação aos 17 exames laboratoriais requisitados, cujos resultados também ficaram prontos ontem. Portanto, temos uma gravidez saudável, o que nos deixou extremamente aliviados e felizes. Além de gratos a Deus, por tudo estar correndo tão bem. Isto que é um natal, não?!

Vez em quando venho aqui deixar meus devaneios, neste caleidoscópico diário de bordo. Maiores novidades no segundo ultrassom, por volta de 18 de janeiro. Abraços.

Outra aula da saudade

Ontem, a tarde foi uma delícia. Em meio a uma garotada maravilhosa, que adoro como poucas vezes gostei tanto de uma turma. Era a aula da saudade de uma turma que se formará daqui a um mês e que me deu a honra de ser seu paraninfo. Homenagens sempre nos deixam enlevados, mas neste caso especificamente é ainda mais saboroso, pois estar entre eles é como estar em casa.
Na sucessão de professores que usaram da palavra, as lições dos mais velhos, o ensinamento de um filósofo sobre o compromisso que esta geração tem de mudar o Direito e sua prática e, sem exageros, emoção, inclusive por referências feitas a famílias de pessoas presentes. Foi realmente muito bonito.
Pela primeira vez, deixei minha mensagem no ar. Estava numa condição cômoda, pois é o paraninfo quem discursa na solenidade de formatura, então deixei para mais tarde aquilo que vai no meu coração. Até para que eu possa refletir melhor sobre essas ideias e sentimentos e, quem sabe, possa externá-las com mais clareza quando chegar a hora de mandar esses valorosos jovens para a sua nova vida.
Olha aí as carinhas bonitas:
Felicidades, meus amores! Sempre e sempre! Deus os abençoe!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rosnando

Rosnam os finados tucanos e suas muitas viúvas, com certeza. O motivo é o filme publicitário de final de ano do governo do Estado do Pará. Belas imagens, tendo ao fundo um jingle para lá de óbvio, com o insuportável regionalismo de sempre, aquela coisa de compor citando nomes de frutas e pontos turísticos. Uma letra banal e cansativa, mas palatável se você faz o gênero bairrista. Muito bairrista.
O problema mesmo é o ritmo brega do jingle, capaz de escandalizar os tucanos, com sua habitual aversão a popularismos. Agora o governo do Estado usa a linguagem do povão para impor a sua marca. Coisa de petista. Se bom ou mau, não sei. Como não gosto de brega, achei o filme, no geral, bem ruinzinho. Ainda mais pelo estilo da cantora: Gaby Amarantos, com certeza, pois é ela que adora rosnar enquanto canta, talvez uma inspiração distante de Elza Soares.
Novos tempos, sem dúvida. Uma coisa, porém, devo apontar como positiva e aí tanto o publicitário quanto o governo estão de parabéns: em momento algum aparece a cara da governadora ou de qualquer político. O filme é impessoal. Como deveria ser toda publicidade supostamente institucional (porque no governo não existe publicidade estritamente institucional).