segunda-feira, 5 de abril de 2010

Passear em Dubai

Os deslumbrados de plantão adoram sonhar com Dubai, suas extraordinárias obras de engenharia, seus excessos visuais e a cultura de ostentação. Mas é bom que se lembrem que os Emirados Árabes Unidos são um país como qualquer outro, ou seja, possui suas próprias leis, de acordo com os seus próprios referenciais culturais, históricos e religiosos, dentre outros. E quem vai a Dubai deve se vestir como os árabes.
Um casal de ingleses, provavelmente sem a menor má intenção, mas apenas fazendo o que qualquer um de nós poderia fazer, trocou carícias em um restaurante. Consequência: foram acusados de ato sexual em público e retidos no país. Devem ser julgados nos próximos dois meses e, se condenados, sofrerão trinta dias de prisão, além da multa por consumo de álcool.
Civilizado, não? Agora me diga se vale mesmo a pena passear num lugar onde, se você beijar sua mulher para tirar uma foto, p. ex., e se o fizer na rua, pode acabar na cadeia.

Nosso Lar

E já que estamos falando de cinema de temática espírita, não há como ignorar a novidade.
Há apenas alguns dias escutei falar, pela primeira vez, que estaria em fase de pré-produção a versão cinematográfica do romance Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier e ditado pelo Espírito André Luiz (que vem a ser o protagonista da história). A notícia me chegou carregada de preocupação, porque seria um incursão da indústria cinematográfica de Hollywood sobre um assunto que não merece ser tratado de forma fantasiosa e comercial.
Nos trailers do filme Chico Xavier, eis que me deparei com uma cena que reconheci de imediato. Para minha surpresa, a produção está bem mais avançada. As filmagens foram realizadas entre julho e setembro de 2009 e estão encerradas. O trailer mostra imagens com uma qualidade condizente com versão acabada, embora decerto algumas etapas tenham sido puladas para aproveitar o momento mais adequado para vender o produto. A previsão de lançamento é para o próximo dia 3 de setembro.
Nosso Lar é o livro de estreia de André Luiz e um dos maiores fenômenos editoriais no Brasil, país que não valoriza a leitura. Lançado em 1944, já vendeu mais de um milhão e meio de exemplares. Tem grande poder atrativo de curiosos, porque sua narrativa funciona como uma espécie de curso, bastante didático, para saber como é o mundo espiritual. Esse tipo de abordagem já provou seu enorme apelo popular, através de um livro antidoutrinário e suspeito como Violetas na janela, do Espírito Patrícia, que também se tornou um fenômeno de vendas. Pelo amor de Deus, separem o joio do trigo!
O filme Nosso Lar, se está com o pé em Hollywood, continua sendo uma produção nacional, roteirizada e dirigida por Wagner de Assis, que Deus tenha piedade de nós! tem no currículo cinco filmes da Xuxa. É com terror que escrevo isto... Além desses antecedentes criminais, ele também dirigiu o banal A cartomante (2004). Sinceramente, o impacto altamente positivo das imagens grandiosas e belas do filme está prejudicado agora...
Mas vamos dar um voto de confiança. E acompanhar as notícias.

Uma experiência cinematográfica

Finda a exibição, um rapaz, contrito, pôs-se de pé e aplaudiu. Eu ainda estava sentado, porque sempre fui de ver a ficha técnica até o final. Enquanto os demais espectadores(*) deixavam a sala, fiquei observando a emoção daquele moço, tocado sabe-se lá em qual fímbria de sua alma.
O filme era Os vivos e os mortos (The dead, 1987, dirigido por John Huston), com Anjelica Huston no papel principal. Um filme de arte, que só atrai mesmo um público específico. Uma dessas experiências cinematográficas delicadas e raras, que você se sente privilegiado por assistir.
Até ontem, esse era o único caso, que eu presenciara, de público aplaudindo após uma sessão de cinema. E, mesmo assim, tratava-se de uma manifestação isolada. Ontem, contudo, um sujeito entusiasmado (percebi isso por sua postura durante a exibição, incomodando-nos com seus comentários tipo "isso é lindo") puxou as palmas, hesitou um instante mas, em seguida, contou com a adesão de uma boa parte do público que lotava a sala. Os aplausos foram a reação da plateia a Chico Xavier, de Daniel Filho.
Eu estava um pouco preocupado, porque desconfio do padrão global de fazer cinema. Preocupava-me não apenas desperdiçar um personagem tão relevante em uma produção tipo novelinha, apelando para a pieguice. Mas Daniel Filho calou a minha boca, realizando uma obra que já pode ser inscrita entre os maiores títulos do cinema brasileiro.
Tudo bem, sou suspeito para falar, como espírita naturalmente inclinado a me encantar com a figura de Chico Xavier. Mas o roteiro se preocupou em contar uma história com acentuados apelos dramáticos sem, contudo, incorrer no vício de enfocar demais esses aspectos. A emoção inevitável das perdas e das esperanças foi mostrada como precisava ser, numa narrativa que é essencialmente leve, permitindo-nos momentos de sorrisos e até de gargalhadas. Algumas das passagens mais pitorescas da vida do médium estão ali retratadas, como a cena do bordel, a noite em que ele manda o assistente aplicar o Evangelho com firmeza e a turbulência no avião. Mas em momento algum se exagera na comicidade. Nada é burlesco, como se percebe por ocasião dos créditos finais, quando vemos a imagem do verdadeiro Chico contando a dita experiência do avião para uma plateia que ri desbragadamente.
O diretor já começa se explicando: através de uma legenda, alerta que seria impossível mostrar todos os episódios relevantes da trajetória do biografado, assim como todas as pessoas que poderiam ser interessantes. Chama a si apenas o dever de ser fiel aos fatos. Com essa lúcida iniciativa, ele consegue se concentrar nos aspectos essenciais dessa vida ímpar, deixando-nos satisfeitos. Ele não mostra, p. ex., os últimos anos do médium, quando ele, bastante alquebrado com apenas 35 quilos e preso a uma cadeira de rodas , já nem atendia mais na Casa da Prece. Ou o lamentável dia em que Fernando Collor, não me recordo se ainda candidato ou já presidente da República, invadiu-lhe a residência, ávido por tirar uma casquinha da respeitabilidade do líder espiritual. Acertou ao encerrar sua narrativa num momento em que o médium estava plenamente ativo.
Como sempre ocorre nas produções da Globo Filmes, lá está o desfile de atores das novelas. Mas era uma elite que revelou outro momento de grande felicidade do diretor: a escolha do elenco.
Todos os intérpretes de Chico são bem sucedidos, inclusive o pequeno Matheus Costa, que no próximo dia 12 completa 12 anos. O menino já tem no currículo cinco novelas (e estará em Escrito nas estrelas, a partir do dia de seu aniversário), três especiais, um seriado, três filmes e três peças de teatro. Ele cativa como o menino tido por louco, contando com o auxílio da sempre adorável Letícia Sabatella.
Na fase intermediária, Ângelo Antônio mostra grande competência como ator, notadamente na cena em que Chico livra a própria irmã da dominação de um espírito. Ele convence com os maneirismos e a delicadeza do personagem. E, por fim, como já se podia esperar de um veterano, a brilhante caracterização de Nelson Xavier, que de óculos e chapéu ficou idêntico, além de reproduzir até a voz aguda do médium.
O que precisava ser mostrado estava lá, ainda que de modo sumário: a perseguição da Igreja Católica, a descrença de pessoas para as quais psicografou, as acusações de fraude e charlatanismo e as incursões judiciais, seja na ação movida pelo espólio do escritor Humberto de Campos, seja na ação criminal em que o réu foi absolvido graças a uma carta psicografada (no total, foram três casos). O resultado disso tudo é um filme que decerto fará bem a todos os que a ele assistirem desarmados, sem as habituais (e hoje incompreensíveis) resistências ao Espiritismo, que não é o personagem principal ali. Acima de tudo, fala-se de um homem que dedicou sua vida a auxiliar a todos quantos podia, com sacríficios pessoais e sem lucrar absolutamente nada com isso. Não há ninguém que possa apontar um só momento em que Chico tenha vivido com luxo ou prazeres mundanos. Somente por isso já se constata que foi um indivíduo extraordinário.
E quem quiser abrir mais os olhos, verá além.

PS1 O filme não é baseado em obras espíritas, e sim na biografia escrita pelo jornalista Marcel Souto Maior ("As vidas de Chico Xavier"), que é mais um exemplo de algo comum nesse meio: alguém que começou cético e terminou transformado. Não quero dizer convertido ao Espiritismo, mas convencido de que há algo mais, no mundo, do que supunha antes.


PS2 O filme já bateu o primeiro recorde de bilheteria.


(*) Leia, na caixa de comentários, uma explicação sobre este vocábulo.

domingo, 4 de abril de 2010

Bravo, senador!

Infelizmente, foi nos Estados Unidos. O senador Eric Adams assumiu uma campanha que deveria ser uma bandeira para todos nós:


Pelo amor de Deus, seus [impublicável], levantem as calças!!!
Será possível que ninguém copia a ideia aqui no Brasil?

sábado, 3 de abril de 2010

Ocasos em Santorini

E já que eu procurava algo suave e doce para postar no blog, eis aqui: o hotel Dreams Luxury Suites tem a audácia de prometer o por do sol mais belo do mundo. Não sei se ele exagerou na publicidade, mas convenhamos que o poder de fogo do lugar é extraordinário.

O hotel fica no famosíssimo arquipélago de Santorini, na Grécia, banhado pelo mar Egeu. Isso é suficiente para proporcionar uma visão anciã do mundo, mágica em si mesma.
Se for o seu estilo de viagem, coloque aí na sua lista de passeios a fazer antes de morrer.

Notícias que não deveriam ocupar o nosso sábado

Eu pensei em escrever alguma coisa sobre o morador de rua que foi vítima, com certeza, de algum playboyzinho dando vazão a sua testosterona e sua visão sobre classes sociais, e amanheceu pintado de prateado, mas me deparei no mesmo portal jornalístico com esta notícia aqui, sobre a menina de 7 anos oferecida pela própria irmã, que acabou sofrendo estupros múltiplos, e perdi a vontade.
Agora vou procurar alguma coisa bem suave e doce para salvar o sábado.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Chico Xavier

Sou espírita há mais de 21 anos. Cheguei à União Espírita Paraense, ou mais exatamente ao Departamento Fonte Viva, em março de 1989, quando alguns dos meus leitores sequer haviam nascido. Fui levado por meu irmão, que frequentava há um ano, movido sobretudo pela curiosidade. Considerava fascinante a visão de mundo e as explicações sobre a vida, o universo e tudo mais que a doutrina oferecia e que me chegavam através de meu irmão, sempre sequioso de compartilhar comigo as coisas que aprendia. Devo a ele uma boa parcela do pouco de cultura geral que possuo. Enfim, cheguei à casa espírita sem precisar atravessar a porta da dor.
Com dificuldade para assimilar mudanças, dizia-me católico, porque até então era tudo o que eu conhecia em matéria de religião. Cheguei um pouco desconfiado, mas fui ficando, gostando, aprendendo. Fiz ali, e naquela época, algumas das mais autênticas amizades que possuo. E fui me encantando particularmente com a possibilidade de, pela primeira vez, ver-me livre de dogmas, livre do Diabo em que há muito não acreditava, poder questionar o que diziam os livros inclusive as Obras Básicas de Allan Kardec , e compatibilizar minhas convicções religiosas com a ciência. A ciência! Para mim, sempre foi um deleite ler o frontispício de O Evangelho segundo o Espiritismo: "Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade."
Tenho uma pequena lista de as escolhas certas que fiz na vida. Tornar-me espírita foi uma delas, aliás a primeira, numa classificação por ordem cronológica.
Como espírita, nada mais natural que tenha um enorme carinho pela figura de Francisco Cândido Xavier (Pedro Leopoldo, MG, 2.4.1910 Uberaba, MG, 30.6.2002). O mais famoso médium do Brasil que por sua vez é o maior país espírita do mundo participou de minha trajetória através dos livros e mensagens que psicografou, mas acima de tudo através de seu exemplo. Um exemplo que, reconheço, eu seria incapaz de seguir, mesmo que de longe.
Hoje é o centenário de nascimento de Chico. Em alusão a isto, justamente hoje ocorre o lançamento do filme biográfico dirigido por Daniel Filho, uma produção mais cara do que a maioria dos filmes brasileiros, inclusive com a garantia de distribuição internacional e a estreia numa quantidade de salas maior do que o padrão. A indústria está funcionando de carona em um personagem real que sempre soube vender alucinadamente, sem no entanto guardar para si os louros e os lucros desse sucesso. Além do filme, as revistas estão se multiplicando nas bancas.
Engana-se, porém, quem supõe que isso seja apenas marketing. Chico Xavier foi um dos brasileiros mais extraordinários que já existiu. E suas ações, independentemente de enfoque religioso, serão lembradas para sempre, assim como as de Zilda Arns ou as de Herbert José de Sousa, o Betinho. Ou Gandhi, num nível internacional. Porque foram brasileiros regidos, acima de tudo, por um amor desmedido pelo semelhante, capazes de dedicar uma preocupação constante em relação às mazelas do mundo. Uma preocupação que não se externava em discursos e protestos vazios, mas num amor ativo e proativo, que vem a ser o que chamamos de caridade. Felizmente, um amor capaz de arregimentar soldados.
Como espírita, não sou proselitista. Não me interessa seduzir as pessoas para a minha religião. Não me interessa construir templos, sentar à mesa das autoridades ou perseguir vagas nos poderes executivo e legislativo. Interessa-me apenas que Chico Xavier seja lembrado como um homem bom, que fez a diferença por seu trabalho na concretização dos ensinamentos de Jesus. Os aspectos sobrenaturais (vocábulo que rejeitamos) relacionados à mediunidade ou ao outro mundo não são o mais importante e podem ser deixados de lado. Porque o trabalho no bem se faz aqui, neste mundo, por homens e mulheres de carne e osso.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma brincadeira fora de moda?

Quando eu era criança, o dia 1º de abril era mais famoso. Pessoas de todas as idades pregavam as suas peças, a maioria delas bem inocentes. Eram apenas lorotas, para ver a reação dos demais. Alguns revelavam a piada imediatamente, outros deixavam rolar.
O tempo passou e não sei se fui eu que parei de prestar atenção me parece que o dia da mentira deixou de chamar a atenção. Não vejo mais as pessoas contando as suas mentirinhas, muito menos disputando para ver quem prega a maior peça ou engana o maior número de pessoas. Estes tempos, pelo visto, não são mais de jogos inocentes.
Minha esposa esteve em uma agência dos Correios hoje e o atendente, puxando assunto, comentou que "antigamente o dia 1º de abril costumava ser o dia da mentira". Falando comigo, ela estranhou e perguntou "E não é mais?" Achei o questionamento interessante e resolvi testá-lo. Somando-se a isso o fato de que de repente me vi em um 1º de abril sem honrar a data há tantos anos, não quis perder a chance.
Peço que não me levem a mal. Foi apenas, tal como nos meus tempos de infância, uma lorotinha banal. Eu não fui o único, é claro. Os dinamarqueses, p. ex., deram-se ao trabalho de montar o esqueleto da pequena sereia para exibição pública, como você pode ver neste giro pelo dia da mentira pelo mundo.




Então é isto. Tanto não quis tapear maliciosamente ninguém que desde o primeiro momento publiquei os comentários reveladores de que a pequena trapaça fora identificada. Agradeço, claro, as manifestações de carinho. Mas acho que ainda vamos ficando um bom tempo por aqui.
Abraços.

Foi bom enquanto durou

Eu realmente não pensei que fosse durar tanto, mas chegamos a três anos e meio. Acreditem: eu me diverti muito. Entretanto, chegou a hora de parar. Comunico aos amigos que este blog será desativado.
Um enorme abraço em todos!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Exercício de vitimologia

Em Londrina, Paraná, uma adolescente de 13 anos foi estuprada por pelo menos três indivíduos, supostamente por estar usando uma "pulseirinha do sexo", justamente uma preta, que dá direito àquilo naquilo.
As autoridades locais estão dando a atenção necessária ao caso. Afinal, uma menina sofreu uma terrível agressão. Mas se houver um julgamento, já saberemos o que será alegado pelo advogado de defesa.
O que me surpreende é que tenha demorado tanto para aparecer o primeiro caso. E mais não digo...

Tailândia

O Município de Tailândia foi apontado como o terceiro mais violento do país, segundo o "Mapa da Violência 2010", uma pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Sangari. O índice é determinado de acordo com o número oficial de homicídios. Oficial, bem entendido, porque não há como superar a terrível cifra negra, o quantitativo de delitos que jamais chega ao conhecimento das autoridades.
O mesmo Município ocupara triste posição de destaque na verificação anterior, salvo engano a mesma terceira colocação, perdendo apenas para duas cidades do Estado do Mato Grosso caracterizadas pela mais rotineira pistolagem. Do tipo, abriu a boca, levou bala na cara. Portanto, se a posição no ranking já é ruim, a comparação com as cidades à frente (não sei se ainda são as mesmas) torna as coisas ainda mais aflitivas.
Na avaliação estadual, o Pará pulou da vigésima para a sétima colocação em dez anos, graças ao incremento de 130,3% no número de mortes! Não dava para esse reajuste ser equivalente ao do salário mínimo, p. ex.?

O Instituto Sangari, fundado em 2003, tem o objetivo de "mobilizar a opinião pública para a importância de democratizar o acesso ao conhecimento científico". Em seu sítio oficial, você encontra com destaque o "Mapa da Violência 2010 - Anatomia dos homicídios do Brasil", com a possibilidade de fazer download de sua versão integral.

Visões de um julgamento: que sirva de advertência

E um comentarista anônimo me recomendou esta outra lúcida análise. Por ela, agradeço.

JANIO DE FREITAS (FSP 30 de março 2010)Em torno do tribunalNas cercanias do fórum do julgamento Nardoni-Jatobá tivemos uma visão de como são compreendidos os direitos

AS CIRCUNSTÂNCIAS do julgamento Nardoni-Jatobá, embora não o julgamento propriamente, constituíram uma agressão aos direitos civis e aos direitos humanos que deveria servir como advertência ou, ao menos, motivo de muitas reflexões sobre suas fontes e seu significado. O que houve nas cercanias do fórum não foi só o que está considerado, a partir das raras vezes em que mereceu alguma consideração, como um descontrole emocional coletivo.
Durante cinco dias, familiares dos réus, que jamais perderam a compostura nos dois anos do seu sofrimento de inocentes, foram ferozmente assaltados por urros de "assassinos, bandidos, criminosos", e mais os palavrões de praxe.
Os advogados de defesa não se tornaram menos "assassinos, bandidos, criminosos" e, além dos palavrões de praxe, ainda "mercenários, vendidos, ladrões". A eles não foi suficiente entrarem por portões secundários: também precisaram usar um carro diferente a cada dia, para fugir à agressão física iniciada, logo em sua segunda chegada ao fórum, contra o equilíbrio profissional demonstrado pelo defensor Roberto Podval.
Tudo sob a indiferença das autoridades políticas e policiais, todas com pleno acesso às cenas, ao vivo e em vídeos, de dia e à noite, da obsessiva TV. Não importa se indiferença por ignorância do sentido tão claro do que ali se passava, em relação às leis de direitos civis do Estado democrático, tão claras, por sua vez, na Constituição e na legislação brasileiras; ou se indiferença feita de descaso e desleixo, do pior oportunismo, ou de contribuição deliberada à pressão sobre o julgamento em que a defesa questionava a eficiência policial. Em qualquer das hipóteses, o que resultou foi pressão. Física, até. Tanto que o fórum, na medida de sua possibilidade, providenciou um modo também físico de atenuar a pressão, com um gradil.
Foi admirável que a defesa não cedesse à intimidação, da qual o advogado Roberto Podval e sua coadjuvante têm a consciência, só podem tê-la, de que os seus riscos de problemas não terminaram com o julgamento. E se o gradil, que não é exemplo de resistência, cedesse à fúria quando Podval concedia uma de suas entrevistas coletivas e abertas, nada teria ocorrido que não fosse o provável e o previsível.
Não ficou nem o mais sutil indício de que o julgamento, propriamente, deixasse de estar integral e permanentemente imune ao que se passou nas cercanias do fórum. Isso não diminui, porém, a conivência com a turba por parte dos que, só para as horas finais do quinto e último dia de julgamento, providenciaram a segurança policial devida. Segurança que não foi nesse momento, nem seria antes, só para os que entravam ou deixavam o fórum, mas também para as regras de direitos civis e direitos humanos que protegem o direito de defender tanto quanto o de ser defendido
Em torno do fórum tivemos uma visão de como ainda são compreendidos os direitos. E um pouco do potencial presente na maneira como são compreendidos.

Visões de um julgamento: a falta de equilíbrio

A respeito da postagem "Humanos, não: monstros!", recebi este maravilhoso texto do comentarista Daniel Silveira, que assumo como minha posição oficial sobre o tema. Negritei os trechos que me pareceram mais relevantes:

Quando penso sobre esse caso apenas fico triste. Me parece ser um emblema do quanto precisamos refletir sobre um punhado de assuntos que não podem passar incólumes.
Em primeiro lugar: é evidente que a morte de um ser humano em tais condições, quanto mais uma criança, é repugnante sob qualquer perspectiva. Partindo da premissa de que os acusados realmente o fizeram, devem ser condenados a penalidades consideradas altas. Ponto final, ninguém discorda. Compreendo que os familiares dêem declarações emocionadas, clamando por uma justiça que lhes apaziguaria minimamente a dor que sentem. Bem entendido: se eu estivesse no lugar deles me sentiria assim e talvez não fosse tão tranqüilo. Realmente eles foram submetidos a uma grande tragédia que é perder um ente querido tão jovem. É natural sentir antipatia por quem consideramos culpados e simpatia com a dor de quem perde alguém que ama. Isso porque, talvez, nos coloquemos nessa situação e pensemos que jamais seriamos capazes de cometer um ato daquela natureza e que também nós nos sentiríamos arrasados em perder alguém que amamos. Compartilho tudo isso.
Esse caso, todavia, não se resume a tal abordagem. Faz surgir reflexamente diversos temas que estão entranhados em nosso pensamento que não temos tanta segurança em sustentar, digamos assim, de modo mais amplo. Falo especificamente da intervenção e poder de manipulação da grande mídia, da falta de sensibilidade e crítica das pessoas quanto aos eventos e envolvidos, quanto ao papel que se outorga às instituições em eventos como esse, para ficar nos três principais.
Da grande imprensa assusta a apropriação que faz desse tipo de tragédia, conduzindo-a aos extremos da investigação jornalística com sua leviandade. Desde o primeiro dia de cobertura que se fez desse caso já indicava a participação dos acusados com ares não admitidos de verdade irrefutável, quando os resultados de perícias, o contraditório, os discursos ainda não haviam sido completados. Pior, apelava ao sentimentalismo, mostrando imagens da vítima em vida e da dor de seus familiares maternos, elegendo a outra família, inclusive aqueles que não cometeram crimes, como inimigos. Com isso, a ávida busca por audiência, a falta de assuntos mais rentáveis, a pressão imposta/auto-imposta aos/pelos repórteres pelo furo jornalístico levou a matérias no mínimo irresponsáveis que pintou deliberadamente os inimigos da vez, aqueles contra quem devemos nos unir e defenestrar impiedosamente. Nossa imprensa tem muitos outros incentivos para agir diferentes da ética, assim como todos nós, por isso tem de ser, em qualquer circunstância, levada em conta de maneira crítica.
Mas a crítica não parece ser uma vocação muito apreciada em nossos dias. Não falo apenas das centenas de anônimos que compareceram às portas do fórum para tomar as dores da criança assassinada e, se possível, dar um tchauzinho para as câmeras, derramar uma lágrima ou gritar pelo linchamento dos acusados. Infelizmente, nesse diapasão, não me surpreende a tentativa de agressão ao advogado de defesa e de uma outra pessoa que foi ao local para pedir que os acusados não fossem prejulgados, o endeusamento do promotor do caso, o foguetório pela condenação dos acusados. As informações da grande mídia não são nem bem entendidas e muito menos criticadas.
Não é apenas a responsabilidade dos órgãos de imprensa toda essa comoção desgovernada e, hoje já extemporânea, diante dessa questão. O que me entristece mesmo é a capacidade que temos de criar uma barreira em direção a esses personagens, em desumanizá-los, a tratá-los como monstros, em fazer análises unidimensionais sobre essas pessoas como se personificassem o que entendemos como o mal. Não buscamos entender o que se passou e que pode levar alguém ou aquelas pessoas especificamente a agir como agiram. Simplesmente condenamos. Essa lógica pode ser perfeita para o jurista que compartilha do conceito de imputação kelseniano, em que a causalidade e desvinculada do ato para alcançar uma decisão, mas não se justifica em âmbitos mais amplos de argumentação nos quais as reais perguntas a responder são: O que devemos fazer com aquelas pessoas que cometeram esses crimes? O que podemos fazer para que isso não ocorra mais? Como devemos estruturar nossas instituições para tais casos? A tragédia não é só da menina morta e da família materna, mas dos acusados, ao que tudo indica, fracos de espírito, a família daquelas pessoas, às outras crianças envolvidas. Custa-me crer que só o que podemos pensar é em desaguar nossa raiva sobre aquelas pessoas e desejar que elas padeçam no inferno. Esse sentimento é justificado e tem prazo de validade. Dividir o mundo entre bons e maus é muito perigoso porque muito dificilmente conseguiremos argumentar uns com os outros, entender nossos semelhantes, afinal, se discordam de nós, os outros são sempre maus.
Por fim, é preciso ter cuidado quando usamos esses casos como base para pautar nossas instituições. O real teste de nossa moralidade é testar nossos princípios quando postos em dificuldades. O sistema penal é construído não para os monstros, mas para todas as pessoas, que serão julgadas pelos mesmos critérios, sendo necessário parcimônia, equilíbrio, discussão e crítica para estabelecê-los. Daí porque são corretas as decisões que declaram a inconstitucionalidade de alguns dispositivos da lei de crimes hediondos, especialmente quanto a questão de progressão de regime, que violam o coração das condenações penais que é a reabilitação do indivíduo e não a vingança pública contra ele. Até entendo que a dramaturga vá a TV pedindo penas mais fortes para crimes do tipo que foram cometidos contra sua filha, ou que se busque um regime disciplinar diferenciado após os ataques do PCC em São Paulo alguns anos atrás, mas tomar essas decisões com base nos arroubos moralistas que essas situações despertam apenas depõe contra nossa própria moralidade.
Nossos sentimentos são importantes, mas não menos importantes são as decisões sobre o que devemos fazer com eles. Me entristece o fato de que, mesmo passados 2 anos do início desse drama, ainda tratemos desse caso como um mero linchamento de monstros, conferindo-lhe prosaicamente o nome de justiça. Da compreensão da complexidade das personalidades, da moral, das instituições, surge uma necessidade de revisitar velhas compreensões e nossos próprios sentimentos. No século XXI já deveríamos repudiar as fogueiras em praças públicas, deveríamos, em minha opinião, ser mais serenos no debate de nossos problemas.

terça-feira, 30 de março de 2010

Controvérsias poéticas

O comentarista Artur Dias, a respeito da postagem "Cinquentenário do poeta", registrou a sua crítica:

Um exame mais atento das letras do Renato Russo esfriam rapidamente o ímpeto de classificá-lo como "gênio". Pelo menos eu, já no fim dos anos 80, não entendia como o Renato Russo podia criar tanta rima pobre, tropeçar tanto no português e não ser criticado por isso. Dentro de sua moldura de classe média sim, ele tem méritos, ao fazer leituras dos conflitos familiares e expressar as angústias juvenis, mas nada além disso. É só comparar com o Cazuza: ele tinha plena consciência da sua condição de pequeno-burguês, e isto sim, era motivo dos maiores sarros. Acho que o Cazuza só deu uma escorregadela quando achou de cantar Bossa-Nova, o que, felizmente, não durou.

Minha resposta a ele:

Caríssimo Artur, no exercício do mais lídimo contraditório, permite que eu te diga que a tua crítica se baseia mais na forma do que no conteúdo. Tu criticas o Renato porque ele "tropeçava no português" e usava rimas pobres. Mas quem disse que isso suprimia a sua genialidade?
O cara era filho do punk rock. O que se podia esperar dele? Composições parnasianas? Ao contrário. Ele mesmo disse:

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito
Não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes


Não acho que era uma desculpa esfarrapada para justificar as próprias limitações. Renato era um sujeito culto, do tipo que lia clássicos. Mas pertenceu a um tempo em que a ordem era protestar e desconstruir. Daí porque o português algo titubeante e as rimas pobres que, por sinal, são um recurso estilístico bastante comum a partir do Modernismo.
Eu te proponho uma outra leitura: que tal procurar o lirismo, a profundidade emocional e as imagens poéticas valiosas que ele construiu?
Um exemplo de cada:

Lirismo
Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Profundidade emocional
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Detalhe: o "aonde" está mal empregado.

Imagens poéticas
Será que você vai saber
O quanto penso em você com o meu coração?

Se não bastasse tudo isso, devemos lembrar os constantes apelos do poeta a que fizéssemos alguma coisa por nossos sentimentos, por nossas vidas, para que pudéssemos ser mais felizes. Isso não é digno de valor?
E você, acha o quê?

PS Os excertos transcritos pertencem, respectivamente, às canções "Meninos e meninas", "Metal contra as nuvens", "Vento no litoral" e "O descobrimento do Brasil".

PS2  É interessante como sempre comparam Renato Russo a Cazuza. Mas Cazuza era um farsante: dizia odiar a burguesia, mas era um filhinho de papai que adorava se locupletar do estilo de vida que criticava. Não fosse o talento musical, seria um sujeito vazio. O Artur diz que ele tirava um sarro disso. Eu vejo como cinismo. E acho que o interesse dele pela bossa nova foi positivo. Questão de gosto?

Pena de morte no mundo em 2009

A Anistia Internacional, maior organização de defesa de direitos humanos do mundo, divulga nesta terça-feira (30/3), seu relatório anual sobre pena de morte. O dossiê indica que, em 2009, 714 pessoas receberam a pena capital em 18 países, e que pelo menos 2001 pessoas foram executadas em 56 países. “Convocamos a que a China torne público os seus números, porque nosso levantamento não inclui as centenas de execuções perpetradas na China, onde os dados sobre pena de morte continuam sob segredo de estado”, diz o relatório. Como represália a este silêncio chinês, a Anistia resolveu excluir do dossiê os dados que apurou, parcialmente, naquele país — sabedora de que seriam irreais.
Depois da China o país que mais executou condenados, segundo o relatório, foi o Irã, com pelo menos 388 execuções, seguido do Iraque, com 120 casos, depois a Arábia Saudita, com 69 execuções, e finalmente, em quinto lugar, os Estados Unidos, com 52 casos.
O recorde de execuções em menor espaço de tempo foi para o Irã, com 113 casos em apenas oito semanas, aquelas situadas entre as eleições presidenciais de 12 de junho e a data em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad tomou posse em seu segundo mandato, em 5 de agosto.
Em 2009, dois países aboliram a pena capital: Burundi e Togo, o que eleva para 95 o número de nações que abominam a pena de morte. Na Europa, onde não ocorreram execuções em 2009, apenas Belarus mantém a pena capital.


Fonte: http://www.conjur.com.br/2010-mar-29/2009-714-pessoas-foram-condenadas-pena-morte, onde você encontra um link para ler a íntegra do relatório da Anistia Internacional, em inglês.

Nos primórdios da obsessão midiática brasileira pelo crime

Pelo visto, vou virar freguês do Domisteco, Fernandel. Pelo segundo dia consecutivo, indico uma postagem de lá. Desta vez, trata-se de um caso criminal sempre citado em minhas aulas, o assassinato da atriz global Daniella Perez por seu colega de elenco, Guilherme de Pádua, e a esposa deste, Paula Thomaz. Ele pode ser considerado um precursor, no Brasil pós-redemocratização, da obsessão midiática por explorar o mundo-cão e criar vilões perpétuos no imaginário coletivo.
Antes de prosseguir, leia aqui.
Minhas considerações:

1. O termo "bobagem" utilizado por Pádua para se referir ao homicídio não deve, necessariamente, ser encarado como cinismo. Apesar de infeliz e reducionista, o vocábulo pode exprimir a dificuldade que ele mesmo tem de encarar o seu pecado. Seja por convicção própria, seja pelas consequências sociais do crime, ninguém quer ser reconhecido o resto da vida como assassino. A "bobagem" pode ser uma forma inconsciente de suportar os próprios dilemas íntimos.

2. Ambos os réus foram condenados a 19 anos de reclusão, mas Paula Thomaz conseguiu, através de recurso, a redução de sua pena, salvo engano para 17 anos. Ao tempo em que o crime foi cometido 29.12.1992 , já existia a Lei de Crimes Hediondos, porém esta, em sua redação original, não alcançava o tipo de homicídio. Somente através da Lei n. 8.930, de 6.9.1994, tornou-se hediondo o crime de homicídio, "quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado". Trata-se do único caso de lei de iniciativa popular em matéria penal que efetivamente entrou no ordenamento jurídico brasileiro.

3. O crime que mudou a Lei de Crimes Hediondos não foi alcançado pelas mudanças nela, devido ao princípio constitucional que veda a retroatividade da lei mais gravosa. Graças a isso, os condenados puderam progredir de regime e acabaram obtendo a duras penas, porque foi preciso enfrentar a opinião pública, tendo à frente a Rede Globo e sua contratada, Glória Perez o livramento condicional, após cumprirem mais de um terço da pena.

Honestamente, achei lúcida a explicação de Pádua sobre considerar-se um assassino. Cada um se agarra no que quer. E se defende como pode.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Irena

A adorável velhinha que você vê nesta fotografia foi muito mais do que adorável. No cenário dantesco da II Guerra Mundial, ela contabilizou o salvamento de 2.500 crianças. Conheça sua história no Domisteco, Fernandel.

sábado, 27 de março de 2010

Humanos, não: monstros!

É impressionante como, durante toda a cobertura do caso Isabella Nardoni, a imprensa não aludiu nenhuma vez, e sob nenhuma perspectiva, ao fato de Alexandre e Anna Carolina serem pais de duas crianças. Já mencionei isto aqui no blog, mas hoje outras pessoas comentaram o aspecto, que passa despercebido à generalidade das pessoas.
Arrisco minhas explicações. Em relação ao público em geral, eles não são lembrados como pais talvez como uma punição pelo fato de terem traído os deveres da paternidade e da maternidade. Já no que respeita à mídia, lembrar a existência dos dois meninos poderia humanizar o casal. E eles não podem ser humanizados, já que precisam ser vistos e vendidos como monstros. Para construir essa imagem, não se lhes pode atribuir nenhuma relação com características próprias da humanidade. Eles são seres sem família, sem história e sem espaço. Assim fica fácil odiar.

Cinquentenário do poeta

Renato Manfredini Júnior

27.3.1960 - 11.10.1996


Todos nós sempre precisamos de um pouco de atenção.

Todos nós temos, em alguma medida, essa necessidade de provar para todo mundo que não precisamos provar nada para ninguém.

E, enfim, todos queremos ser felizes, ao menos.

Por tudo isso Renato Russo, que hoje teria completado 50 anos de idade, foi o maior compositor da música brasileira em sua geração. E como uma geração é um intervalo de 25 anos, também da minha. Por isso, adoradores de Chico Buarque, não me queiram mal. Mas as palavras que saíram de seu coração e de sua pena nunca foram sequer igualadas. Como lamento aquelas que nunca chegaram a ser ditas!

Precedentes: "Os bons morrem antes", caso do próprio Renato; "Mais uma vez"; "Renato Russo".