sábado, 27 de março de 2010

Humanos, não: monstros!

É impressionante como, durante toda a cobertura do caso Isabella Nardoni, a imprensa não aludiu nenhuma vez, e sob nenhuma perspectiva, ao fato de Alexandre e Anna Carolina serem pais de duas crianças. Já mencionei isto aqui no blog, mas hoje outras pessoas comentaram o aspecto, que passa despercebido à generalidade das pessoas.
Arrisco minhas explicações. Em relação ao público em geral, eles não são lembrados como pais talvez como uma punição pelo fato de terem traído os deveres da paternidade e da maternidade. Já no que respeita à mídia, lembrar a existência dos dois meninos poderia humanizar o casal. E eles não podem ser humanizados, já que precisam ser vistos e vendidos como monstros. Para construir essa imagem, não se lhes pode atribuir nenhuma relação com características próprias da humanidade. Eles são seres sem família, sem história e sem espaço. Assim fica fácil odiar.

14 comentários:

Anônimo disse...

Agora tem prato cheio...

Lafayette disse...

E são monstros e desumanos mesmo. E não merecem os filhos que tem. Sorte dos filhos que, pelo menos por um certo tempo, ficarão sãos e salvos.

Aliás, depois de cumprida a pena, bem que o Estado poderia afastar as crianças do convívio destes monstros e desumanos.

Sandra disse...

Sim... eles são humanos... mas talvez estar longe de seus filhos seja o melhor para os pequenos...
Eu particularmente, embora creia na culpa deles, sempre fui contra ao repudio feito contra o advogado deles.
Afinal o direito de defesa é que faz um pais livre...

Se a justiça foi feita ou nao... isso é subjetivo, haja vista nao haver a confissao...
Mas que houve um julgamento muito antes do juridico, isso com certeza...

Parabens por teu espaço

abraço

Tanto disse...

Concordo com a Sandra, e cheguei a tuitar isso: o julgamento, para a maioria das pessoas, foi desnecessário - eles já estavam condenados há muito. Exatamente por isso a mobilização policial que relatas abaixo, para o caso de absolvição: o povo não entenderia uma absolvição de pessoas já condenadas.

Yúdice Andrade disse...

Das 10h01, prato de cheio de quê?

Lafayette, eu até compreendo medidas de força, mas realmente não posso acreditar que estejas falando sério.

Sandra, obrigado por sua receptividade ao blog.
Compreendo a ideia de que a presença desses dois na vida das crianças seria perniciosa. Mas eles são os pais e as crianças conviveram com eles. O sofrimento será inevitável. Espero que os avós consigam reverter os danos.

Lafayette disse...

Seríssimo, Yúdice, seríssimo!

Sou casado há 14 anos. Buscamos, tecnologica e espiritualmente, filhos desde então, mas não conseguimos, ainda. Já se foram 8 inseminações, 5 in-vitro, em São Paulo, alguma fortuna gasta, e trezentos milhões, oitocentos e quarenta e cinco e 1/2 de método tradicional (rsrs)...

...e toda vez que vejo pais 'desdenhando' de filhos (cara, no caso o filho de uma égua pegou a Isabela, levantou-a e a atirou no chão, tendo a bichinha quebrado o pulso com o coice... Q. U. E. B. R. A. D. O. O P. U. L. S. O. !!!!!) me sai um ódio do peito.

Ontem soube de um aborto, aborto "por ser nova, apenas 20 anos, ainda tenho muita juventude para curtir". Ora, ora vai tomar no cu!!! Ou melhor, no cuzão, deu-me vontade de gritar, mas não podia no momento!!!

Estes Nardonis são safados, canalhas, monstros e não merecem ter tido filhos, e os filhos não merecem os pais que tem, e devem ser criados LONGE destes animais!!!

Ps.: Vi, Yúdice, o quanto é sério o que falei!

Anônimo disse...

Caríssimos,
Quando penso sobre esse caso apenas fico triste. Me parece ser um emblema do quanto precisamos refletir sobre um punhado de assuntos que não podem passar incólumes.
Em primeiro lugar: é evidente que a morte de um ser humano em tais condições, quanto mais uma criança, é repugnante sob qualquer perspectiva. Partindo da premissa de que os acusados realmente o fizeram, devem ser condenados a penalidades consideradas altas. Ponto final, ninguém discorda. Compreendo que os familiares dêem declarações emocionadas, clamando por uma justiça que lhes apaziguaria minimamente a dor que sentem. Bem entendido: se eu estivesse no lugar deles me sentiria assim e talvez não fosse tão tranqüilo. Realmente eles foram submetidos a uma grande tragédia que é perder um ente querido tão jovem. É natural sentir antipatia por quem consideramos culpados e simpatia com a dor de quem perde alguém que ama. Isso porque, talvez, nos coloquemos nessa situação e pensemos que jamais seriamos capazes de cometer um ato daquela natureza e que também nós nos sentiríamos arrasados em perder alguém que amamos. Compartilho tudo isso.
Esse caso, todavia, não se resume a tal abordagem. Faz surgir reflexamente diversos temas que estão entranhados em nosso pensamento que não temos tanta segurança em sustentar, digamos assim, de modo mais amplo. Falo especificamente da intervenção e poder de manipulação da grande mídia, da falta de sensibilidade e crítica das pessoas quanto aos eventos e envolvidos, quanto ao papel que se outorga às instituições em eventos como esse, para ficar nos três principais.
Da grande imprensa assusta a apropriação que faz desse tipo de tragédia, conduzindo-a aos extremos da investigação jornalística com sua leviandade. Desde o primeiro dia de cobertura que se fez desse caso já indicava a participação dos acusados com ares não admitidos de verdade irrefutável, quando os resultados de perícias, o contraditório, os discursos ainda não haviam sido completados. Pior, apelava ao sentimentalismo, mostrando imagens da vítima em vida e da dor de seus familiares maternos, elegendo a outra família, inclusive aqueles que não cometeram crimes, como inimigos. Com isso, a ávida busca por audiência, a falta de assuntos mais rentáveis, a pressão imposta/auto-imposta aos/pelos repórteres pelo furo jornalístico levou a matérias no mínimo irresponsáveis que pintou deliberadamente os inimigos da vez, aqueles contra quem devemos nos unir e defenestrar impiedosamente. Nossa imprensa tem muitos outros incentivos para agir diferentes da ética, assim como todos nós, por isso tem de ser, em qualquer circunstância, levada em conta de maneira crítica.
Mas a crítica não parece ser uma vocação muito apreciada em nossos dias. Não falo apenas das centenas de anônimos que compareceram às portas do fórum para tomar as dores da criança assassinada e, se possível, dar um tchauzinho para as câmeras, derramar uma lágrima ou gritar pelo linchamento dos acusados. Infelizmente, nesse diapasão, não me surpreende a tentativa de agressão ao advogado de defesa e de uma outra pessoa que foi ao local para pedir que os acusados não fossem prejulgados, o endeusamento do promotor do caso, o foguetório pela condenação dos acusados. As informações da grande mídia não são nem bem entendidas e muito menos criticadas.
(continua)

Anônimo disse...

(continuação)
Não é apenas a responsabilidade dos órgãos de imprensa toda essa comoção desgovernada e, hoje já extemporânea, diante dessa questão. O que me entristece mesmo é a capacidade que temos de criar uma barreira em direção a esses personagens, em desumanizá-los, a tratá-los como monstros, em fazer análises unidimensionais sobre essas pessoas como se personificassem o que entendemos como o mal. Não buscamos entender o que se passou e que pode levar alguém ou aquelas pessoas especificamente a agir como agiram. Simplesmente condenamos. Essa lógica pode ser perfeita para o jurista que compartilha do conceito de imputação kelseniano, em que a causalidade e desvinculada do ato para alcançar uma decisão, mas não se justifica em âmbitos mais amplos de argumentação nos quais as reais perguntas a responder são: O que devemos fazer com aquelas pessoas que cometeram esses crimes? O que podemos fazer para que isso não ocorra mais? Como devemos estruturar nossas instituições para tais casos? A tragédia não é só da menina morta e da família materna, mas dos acusados, ao que tudo indica, fracos de espírito, a família daquelas pessoas, às outras crianças envolvidas. Custa-me crer que só o que podemos pensar é em desaguar nossa raiva sobre aquelas pessoas e desejar que elas padeçam no inferno. Esse sentimento é justificado e tem prazo de validade. Dividir o mundo entre bons e maus é muito perigoso porque muito dificilmente conseguiremos argumentar uns com os outros, entender nossos semelhantes, afinal, se discordam de nós, os outros são sempre maus.
Por fim, é preciso ter cuidado quando usamos esses casos como base para pautar nossas instituições. O real teste de nossa moralidade é testar nossos princípios quando postos em dificuldades. O sistema penal é construído não para os monstros, mas para todas as pessoas, que serão julgadas pelos mesmos critérios, sendo necessário parcimônia, equilíbrio, discussão e crítica para estabelecê-los. Daí porque são corretas as decisões que declaram a inconstitucionalidade de alguns dispositivos da lei de crimes hediondos, especialmente quanto a questão de progressão de regime, que violam o coração das condenações penais que é a reabilitação do indivíduo e não a vingança pública contra ele. Até entendo que a dramaturga vá a TV pedindo penas mais fortes para crimes do tipo que foram cometidos contra sua filha, ou que se busque um regime disciplinar diferenciado após os ataques do PCC em São Paulo alguns anos atrás, mas tomar essas decisões com base nos arroubos moralistas que essas situações despertam apenas depõe contra nossa própria moralidade.
Nossos sentimentos são importantes, mas não menos importantes são as decisões sobre o que devemos fazer com eles. Me entristece o fato de que, mesmo passados 2 anos do início desse drama, ainda tratemos desse caso como um mero linchamento de monstros, conferindo-lhe prosaicamente o nome de justiça. Da compreensão da complexidade das personalidades, da moral, das instituições, surge uma necessidade de revisitar velhas compreensões e nossos próprios sentimentos. No século XXI já deveríamos repudiar as fogueiras em praças públicas, deveríamos, em minha opinião, ser mais serenos no debate de nossos problemas.
Um abraço,
Daniel Silveira

Anônimo disse...

JANIO DE FREITAS (FSP 30 de março 2010)

Em torno do tribunal

Nas cercanias do fórum do julgamento Nardoni-Jatobá tivemos uma visão de como são compreendidos os direitos


AS CIRCUNSTÂNCIAS do julgamento Nardoni-Jatobá, embora não o julgamento propriamente, constituíram uma agressão aos direitos civis e aos direitos humanos que deveria servir como advertência ou, ao menos, motivo de muitas reflexões sobre suas fontes e seu significado. O que houve nas cercanias do fórum não foi só o que está considerado, a partir das raras vezes em que mereceu alguma consideração, como um descontrole emocional coletivo.
Durante cinco dias, familiares dos réus, que jamais perderam a compostura nos dois anos do seu sofrimento de inocentes, foram ferozmente assaltados por urros de "assassinos, bandidos, criminosos", e mais os palavrões de praxe.
Os advogados de defesa não se tornaram menos "assassinos, bandidos, criminosos" e, além dos palavrões de praxe, ainda "mercenários, vendidos, ladrões". A eles não foi suficiente entrarem por portões secundários: também precisaram usar um carro diferente a cada dia, para fugir à agressão física iniciada, logo em sua segunda chegada ao fórum, contra o equilíbrio profissional demonstrado pelo defensor Roberto Podval.
Tudo sob a indiferença das autoridades políticas e policiais, todas com pleno acesso às cenas, ao vivo e em vídeos, de dia e à noite, da obsessiva TV. Não importa se indiferença por ignorância do sentido tão claro do que ali se passava, em relação às leis de direitos civis do Estado democrático, tão claras, por sua vez, na Constituição e na legislação brasileiras; ou se indiferença feita de descaso e desleixo, do pior oportunismo, ou de contribuição deliberada à pressão sobre o julgamento em que a defesa questionava a eficiência policial. Em qualquer das hipóteses, o que resultou foi pressão. Física, até. Tanto que o fórum, na medida de sua possibilidade, providenciou um modo também físico de atenuar a pressão, com um gradil.
Foi admirável que a defesa não cedesse à intimidação, da qual o advogado Roberto Podval e sua coadjuvante têm a consciência, só podem tê-la, de que os seus riscos de problemas não terminaram com o julgamento. E se o gradil, que não é exemplo de resistência, cedesse à fúria quando Podval concedia uma de suas entrevistas coletivas e abertas, nada teria ocorrido que não fosse o provável e o previsível.
Não ficou nem o mais sutil indício de que o julgamento, propriamente, deixasse de estar integral e permanentemente imune ao que se passou nas cercanias do fórum. Isso não diminui, porém, a conivência com a turba por parte dos que, só para as horas finais do quinto e último dia de julgamento, providenciaram a segurança policial devida. Segurança que não foi nesse momento, nem seria antes, só para os que entravam ou deixavam o fórum, mas também para as regras de direitos civis e direitos humanos que protegem o direito de defender tanto quanto o de ser defendido
Em torno do fórum tivemos uma visão de como ainda são compreendidos os direitos. E um pouco do potencial presente na maneira como são compreendidos.

Lafayette disse...

Tudo muito bom, muito bonito. Num quadro na parede, numa mobília da sala fica uma beleza...
...mas um anjinho foi torturado, espancado e jogado de mais 20 metros de altura.
Fico pensando o terror que esta criança, bebê ainda, sentiu. Será que ela percebeu, num átimo de segundo qualquer, que ia morrer? O que será que se passou naquela cabecinha vendo o seu próprio pai lhe matando ?
Desculpem-me os filósofos, os de bom coração, os doutos...
...mas são monstros, com ou sem mídia!

Yúdice Andrade disse...

Lafa, passo a encarar a veemência de tua crítica como um reflexo da questão que nos revelas: o desejo ainda não saciado de ter um filho, que provoca perplexidade e ira em relação aos que possuem e não aproveitam isso. Pior: destroem o que para ti seria a realização de um sonho.
Mas este viés pessoal não deveria dominar todos os aspectos da análise. Uma afirmação do texto do Daniel me chamou particularmente a atenção, quando ele menciona análises unidimensionais. Obviamente, nem ele nem eu pretendemos minimizar o crime nefasto que vitimou uma criança de 5 anos. Só o que queremos é não perder a razão e levar em conta outras variáveis.
Observa como começou este nosso debate: com a tua afirmação de que o casal jamais deve se aproximar dos filhos de novo. E eu apenas me pergunto: e esses filhos? Será que não querem os pais de volta, hoje ou no futuro?
Para refletir.

Lafayette disse...

Mas, porém, todavia Yúdice, através de estudo e laudo científico (viu, voltei à racionalidade! rsrs), o Estado não poderá (ou deverá) intervir e afastar as crianças destes Pais? Claro que sim.

E, se ficar comprovado o dano, ou potencial dano, às crianças, o "querer" delas não será (ou deverá) levado em consideração.

Não ter filho pesa no meu sentimento do caso, assim como pesa, por exemplo, quando vejo pais levando criancinha, entre eles, em motos, pai correndo com seu carro cheio de filhos... são todos uns imbecis!

Ps.: Já li aqui e vários outros lugares, as análises externas deste julgamento: público irado, ataques aos familiares, aos advogados, até aos jornalistas...

...concordo que a mídia caça, prende e julga... mas, no caso do Nardoni e Jatobá, nem precisava, são monstros mesmo!

Sakura-chan disse...

Deveras a rotulação do casal foi bem clara,um crime deve ser punido sim, mas acho que nessa situação (e mudando um pouco o rumo) outras pessoas além do casal acabaram sendo como "aqueles que apoiam os assassinos", tais como os pais que foram vítimas de hostilidades infundadas! Agora com relação às crianças, é fato delicado, porque caso a família (creio eu os avós) não saibam trabalhar na mente das crianças o fato que os pais delas estão presos e os motivos que os leveram a ficar presos, acho que a concepção de "monstros" pode afetar a formação dessas crianças de tal maneira que elas podem desenvolver diversos problemas psicológicos e também podem se fechar para o "mundo"!
Todavia, acho que o fato do casal possuir filhos não os tornar mais ou menos "humanizados", exceto se ficasse provado que eles eram pais carinhosos, então, eu acredito que não é o fato de ter filhos, mas a conduta deles como pais que poderia "humanizá-los", pelo contrário, caso ficassem divulgando o fato de eles também serem pais, outra crítica iria se estabelecer: o perigo que essas crianças poderiam estar passando nas mãos "desses monstros". Acho que, no fim, tudo iria cair no mesmo "buraco", a comoção pública foi grande demais para que houvesse o contrário, e diga-se no popular "ai daquele que defender esses assassinos".
No fim, foi justa a condenação, mas acho que os pais do nardoni não deveriam ter sido hostilizados, ficando a preocupação com o "futuro psicológico" das crianças: "meus pais são os monstros que mataram minha irmã", e agora? "eu sou um nardoni", nome manchado pelo sangue, "como vou conviver com isso". Será que algum dia eles irão relizar estes mesmos questionamentos? São também eles vítimas da situação?

Polyana disse...

Uma coisa é analisar os fatos sob várias óticas, é não se deixar levar por tudo o que a mídia diz. Outra é, nas palavras do Daniel, tentar entender o que os levou aquelas ações. Entender? Não há como entender. Não há justificativa para entender como alguém machuca uma criança que vivia consigo, que conhecia, que protegia, que ... amava? Não sei. Mas se vejo alguém me dizendo que porque não quero entender o que eles fizeram isso me joga do outro lado da moeda, como alguém que só vê essas pessoas pelo que fizeram em um único dia das suas vidas, eu não concordo. Sei que eles devem sentir muita falta dos filhos e devem ficar muito felizes com cada visita deles. E é bom que seja assim, para que paguem pelo sofrimento que impuseram à mãe de Isabela e à menina. E a todos ao redor deles. Se não sofrem, se não refletem, de que adianta? Tomara que não sejam monstros, para que tenham a capacidade de sofrer e refletir sobre tudo isso.