terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Belém, 405 anos: tempo de reconstruir

Puxe pela memória: como foi o aniversário de Belém em 2020?

Foi antes da pandemia. Ainda vivíamos o antigo normal ao qual estávamos acostumados. Podíamos aglomerar e celebrar, mas não houve celebrações além da claque. Houve, sim, muitas reclamações sobre as condições da cidade. Entre os maiores queixosos, os feirantes do Ver-o-Peso, que de algum modo protagonizam essa festa, até porque estão em nosso principal cartão postal. Houve alguns eventos, mas não a entrega de obras que pudessem melhorar nossas condições de vida.

Quanto mais o tempo passa desse jeito, mais fica minada a autoestima de um povo. Esse desalento era manifesto e crescente.

Mesmo que você não aprove a atual gestão municipal, dê uma olhada no que a imprensa publicou neste 12 de janeiro, inclusive os veículos não pertencentes à família Barbalho. Novamente, a parceria entre os Executivos municipal e estadual marcou presença, com ações concretas, capazes de gerar benefícios para a população. Havia algo a ser visto e isso, com certeza, animou um pouco o coração das pessoas. O meu, pelo menos. Duvido que eu seja o único.

Homenagem do partido do prefeito.

Quando o espírito está alquebrado, comemorações parecem deboche. Hoje, não. Hoje, assim me pareceu, as pessoas estavam movidas pela esperança própria das novidades. Não sabemos como as coisas ficarão à frente. São esperadas grandes dificuldades, seja pelos efeitos da pandemia, seja pela destruição econômica do país, seja pela previsão de chuvas intensas nas próximas semanas, etc. Há muito com que nos preocupar. Por isso mesmo, sem tirar os pés do chão, é importante destacar as escolhas que estão sendo feitas por nossos governantes. Não sabemos de tudo. O que está sendo mostrado parece bastante positivo. Adiante, saberemos melhor.

Enfim, minha cidade completou hoje 405 anos de fundação. E pela primeira vez em muito tempo eu me sinto minimamente satisfeito, pois ao menos demos um passo rumo à continuidade de nossa existência.

Boa sorte para nós.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Bora Belém!

Edmilson Rodrigues mostra que evoluiu. Em seu ótimo discurso de posse, ele anunciou a apresentação de um projeto de lei criando o programa de transferência de renda apelidado de "Bora Belém", uma das mais importantes promessas de sua campanha. Já naquele momento, ele disse que poderia instituir o programa por decreto, mas que, em respeito ao poder legislativo, preferia fazê-lo mediante um projeto de lei.

Obviamente, por trás do discurso conciliador, há muito mais a ser pensado. E é isso que me faz dizer que nosso alcaide evoluiu.

Realmente, Edmilson poderia ter editado um decreto criando o "Bora Belém". Em 1997, ao assumir seu primeiro mandato, seu primeiro ato foi, por decreto, instituir o Fundo Ver-o-Sol, à época um dos carros-chefes de seu programa de governo. Agora, estamos falando de um programa de transferência de renda, que pretende pagar 450 reais às famílias pobres da cidade, ou seja, vai impactar fortemente o orçamento municipal. Verbas precisarão ser realocadas e isso é um grande desafio, à luz da responsabilidade fiscal. Além disso, como a lei orçamentária é elaborada no ano anterior, todo chefe de executivo inicia seu mandato realizando um orçamento concebido por seu antecessor, que tinha políticas diferentes (ou nenhuma). O prefeito tem um teto apertado para fazer remanejamentos orçamentários e, acima desse teto, precisa pedir autorização da Câmara Municipal. Pois bem, Edmilson já resolveu tudo isso.

Foto: reprodução do Facebook da CMB

Com uma só tacada, ele realizou todo o pressuposto jurídico para cumprir sua tão importante promessa de campanha; mostrou grande espírito público ao marchar junto com os vereadores, que aprovaram o projeto por unanimidade (quem iria pagar o custo político de ser contrário?); obteve a autorização legislativa para o comprometimento orçamentário necessário à implementação do programa; e, claro, dividiu responsabilidades. "Bora Belém" não é obra do prefeito, apenas: é de ambos os poderes. E vale lembrar que ele conseguiu isso no oitavo dia de mandato. Gênio!

No momento em que o auxílio emergencial desaparece e deixa milhões de brasileiros à própria sorte, com a pandemia rolando sem previsão de alívio, em Belém haverá ao menos um socorro financeiro aos necessitados. É uma oportunidade de outro de mostrar, aos entusiastas da direita, e em última análise ao presidente da República, a importância das políticas de transferência de renda. Daqui a alguns meses poderemos ver como se saiu Belém, frente aos outros Municípios, carentes de política semelhante.

Vale lembrar que, quando uma pessoa pobre consegue dinheiro, ela compra comida, remédio, gás, roupa, transporte, etc. Todo esse dinheiro é consumido em suas necessidades básicas, em nível local. Por conseguinte, esse auxílio é reinjetado na economia local na forma de renda para os comerciantes e outros prestadores de serviço. Todo mundo sai ganhando. Menos o idiota útil, que continua bostejando asneiras sobre "assistencialismo", "vitimização" e coisas do gênero. O lambaio que se acha capitalista sem ser dono de nenhum meio de produção ou capital financeiro.

Até aqui, Edmilson vai acertando. Quanto ao mais, o tempo dirá. Estamos de olho e, por ora, satisfeitos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

VACINA CHEGANDO!

Apenas 3 dias após perder um grande amigo para essa maldita covid-19, vejo a emoção tomando conta da internet com o anúncio da eficácia da Coronavac, pelos pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo.

Existem outras vacinas, bem o sabemos. E pouco me importa qual será aplicada na população. Pode ser um pouco de cada, desde que haja a eficiência reconhecida pelas autoridades sanitárias. O importante é a vacinação massiva começar o mais rápido possível, apesar de todos os percalços dolosamente impostos pelo governo genocida.

A notícia conta com a emoção particular de ser uma pesquisa parcialmente realizada no Brasil, por uma instituição de pesquisa séria, relembrando a todos a importância da ciência. E essa instituição atua com recursos do SUS, lembrando a todos a imprescindibilidade desse nosso sistema, reconhecido mundialmente.

Que notícias boas! Pena que eu, por não ter prioridades, demorarei para ser vacinado. Mas o importante é ver essa esperança se materializar em realidade.

Saúde, meu povo!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Para Eduardo

Quando teus sintomas começaram, estavas certo de que não era covid-19, mas tiveste a prudência de te recolher em casa. Foi por isso que, no dia 18 de dezembro, quando fizemos nossa última reunião de trabalho do ano, e aproveitamos para fazer uma pequena confraternização interna, restrita por causa da necessidade de distanciamento social, tu compareceste de modo virtual. E todos percebemos o quanto isso te custou, pois na hora do encerramento estavas em lágrimas. E isso nos comoveu, também, claro. Não fui o único a querer te abraçar naquele momento.

Até então, tudo parecia apenas um contratempo. Não imaginávamos que, na terça-feira seguinte, estarias internado. Mas a máscara de oxigênio era mais uma cautela, porque estavas bem, no geral. Mandaste uma foto, de máscara, sorridente. Eu me sentia só um pouco chateado por estares no hospital em pleno natal. Realmente não me recordo em que hora o apartamento virou UTI. Talvez, àquela altura, tudo fosse uma necessidade contornável. Mas aí começaram a falar em possível intubação e minha inclinação pessimista acendeu todos os alertas.

Amigos queridos me lembraram da importância do pensamento positivo e eu me esforcei ― juro, meu amigo, eu me esforcei muito, porque para mim essas coisas exigem esforço ― para não pensar em nada sombrio. Eu me concentrava na tua saúde e em toda a bondade que espalhavas pelo mundo. E as notícias que chegavam eram de alguma melhora, principalmente de estabilidade. Aprendi contigo, em alguma de nossas inumeráveis conversas sobre questões médicas, que um paciente grave, porém estável, é melhor do que um não grave, porém instável.

Daí as notícias já não eram tão auspiciosas. Eu sabia que, ao teu redor, além de muitos médicos, e outros profissionais de saúde, fazendo todo o possível, havia também a rede de orações, impulsionada pelo bem que sempre fizeste a tantos, notadamente os mais necessitados, os mais pobres, os moradores de rua. Eu lutava contra um pensamento que insistia em retornar: aquela sensação angustiante que vivi em 2015, de tensão quando da atualização dos informes médicos e de eles serem sempre frustrantes. Como anos atrás, passei a ter receio de ligações telefônicas ou de mensagens de WhatsApp. E, como anos atrás, fui informado de que seria a qualquer momento.

Em 2015, o "a qualquer momento" durou uns quatro dias. Hoje, foi rápido. Sentado na beira da cama, repeti o meu velho lamento: "As coisas são como são". Era o meu exercício diário de resignação.


Essa doença atroz leva as pessoas que amamos e sequer permite que sejam cumpridos os ritos que nossa cultura desenvolveu para as despedidas. E fechamentos são indispensáveis! Felizmente, tivemos a oportunidade de fazer nosso cortejo. Fizemos a carreata do Eduardo! Um modo de obter o nosso fechamento, mostrando respeito ao teu corpo, cientes de que tua alma já está em paragens muito mais elevadas. Ninguém duvida de que ficarás muito bem. Não há outro destino para quem expressou tanto amor ao próximo e altruísmo como tu. Tomara que por aí haja umas manifestações, para poderes gritar palavras de ordem a plenos pulmões.

Vai com Deus, irmão. Se possível, não te esqueças do que te pedi na despedida. Os que vêm depois, como eu, sempre necessitam dos ensinamentos dos melhores, como tu.

E, claro, obrigado. Por absolutamente tudo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Quem teme o tapa não põe a cara na tela"

Na postagem "Pato Donald", de 10 de dezembro último, manifestei meu desagrado em relação a titulares de mandatos executivos que não comparecem à posse de seus sucessores, e portanto se negam ao ato simbólico de passar a faixa, com o que demonstram falta de espírito público e mesquinhez de caráter. Zenaldo Coutinho não quis carregar essa pecha e teve a dignidade de comparecer à posse de Edmilson Rodrigues e de praticar todos os atos previstos no protocolo. Mas ele sabia que haveria um custo e a fatura foi cobrada.

Na primeira sessão, destinada à posse dos vereadores e à eleição da nova mesa diretora da Câmara Municipal, todos estavam amiguinhos, gentis e prestativos. Coube a Fernando Carneiro (PSOL) lembrar, da tribuna, que o prefeito precisa atender os vereadores e não apenas seus apoiadores. Ele classificou a CMB, nos últimos anos, como "subsecretaria do poder executivo" (pense naquele meme do cavalo dando um coice). Ninguém protestou ou respondeu. O mais importante é que a mensagem foi dada. Zenaldo ― ironizado pelo povo como "Zeraldo" ou "Zé Nada" por sua absoluta nulidade como gestor ― pode passar oito anos fazendo nada porque tinha uma bancada de sustentação com 30 vereadores, de um total de 35. Não precisa explicar. Até onde sei, foram as piores legislaturas que Belém já teve.

No momento em que Carneiro discursava, contudo, Zenaldo ainda não estava no plenário. Ele entrou depois, já para a segunda sessão, destinada a dar posse ao prefeito e seu vice. Quando o presidente da casa, Zeca Pirão, decidiu conceder a palavra aos vereadores que não puderam falar na anterior, o clima pesou. O primeiro que assomou à tribuna foi logo dizendo que a periferia de Belém está abandonada. Também manifestou sua "frustração" porque, durante todo o seu mandato, não conseguiu ser atendido pelo prefeito uma vez sequer.

Foi o que bastou para Zenaldo se lembrar de que tinha "uns afazeres" (palavras de Zeca Pirão) e pedir para sair. A transmissão da faixa foi antecipada e se acabou a era Zenaldo Coutinho, com um discurso no qual ele apelou para as muitas crises que o teriam atrapalhado e para as muitas obras que ele afirma ter feito. Reclamou que, no calor das disputas políticas, as pessoas falam palavras que ferem. E assim ele contará a sua versão dos fatos doravante. Esse é o seu legado. Não me parece algo para se orgulhar.

Ainda que Zenaldo tenha saído pela porta da frente, saiu correndo (falo no sentido figurado, mas ainda assim é deselegante e sintomático). Fugir foi bom para ele, pois o vereador seguinte veio com mais força. Chegou classificando o vazante como o pior prefeito da história de Belém, incompetente e habituado a perseguir seus opositores. 

Sob nova direção, o tom dos discursos deixou as amenidades e passou ao enfrentamento da realidade. Isso muito embora Edmilson tenha feito um discurso bastante conciliador e amistoso. Todavia, ele desmentiu Zenaldo em dois aspectos da maior gravidade. Zenaldo disse que realizou plenamente a transição dos governos, apresentando todas as informações e documentos necessários (que supostamente estariam no sítio eletrônico). Edmilson disse que as informações, p. ex. sobre a situação financeira do Município, não foram repassadas. Antes dele, Ivanise Gasparim, que será Secretária de Saneamento, também se queixou de omissão de informações em sua pasta.

O segundo ponto é que Zenaldo afirmou ter deixado 24 milhões de reais de superávit no caixa da Prefeitura, porém Edmilson falou sobre dívidas que somam 200 milhões de reais, para desembolso iminente. Alegou ter ficado "um pouco aliviado" com as informações do antecessor. Está um doce, o rapaz. Mas quem estará com a verdade, afinal?

Infelizmente, a transmissão da CMB (de péssima qualidade, por sinal) foi interrompida. Não pude ver o final do discurso e o que mais ocorreu. Mas tudo bem. Vamos à vida. Em uma coisa todos concordam: Edmilson está lascado, pois tem que reconstruir uma terra arrasada. Boa sorte para ele e, claro, para todos nós.

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Os versos "Quem teme o tapa/ não põe a cara na tela" integram a canção "O hacker", de Zeca Baleiro.

Depois de 16 anos, Belém tem prefeito novamente!

Edmilson Rodrigues e meu ex-professor, Edmilson Moura, tomaram posse na tarde de hoje, respectivamente como prefeito e vice-prefeito de Belém. Em sessão anterior, os vereadores eleitos no último mês de novembro também foram empossados, sendo 18 fora de situação de reeleição, o que implica grande renovação da Câmara Municipal de Belém, uma necessidade premente. Dentre os edis, Bia Caminha, em quem votei. Por conseguinte, estou satisfeito como há milênios não me sentia.

Crédito: reprodução do Facebook


As sessões de posse dos vereadores, primeiro, e da chapa do Executivo, depois, foram marcadas pela emoção de alguns que se manifestaram e pelo tom de cordialidade e até de brincadeira, com direito a vereador empossado sendo liberado para se concentrar com o time, pois é goleiro.

Eleita também a nova mesa diretora da Câmara, como esperado, Zeca Pirão, o mais bem votado de todos os eleitos e membro da maior bancada (do MDB, partido do governador Hélder Barbalho), é o novo presidente da Casa, o que é bom para o prefeito, já que o governador ofereceu parceria ao novo governo municipal. Vale lembrar que Hélder postou uma foto, em rede social, no dia do segundo turno da eleição, em que ele e a esposa apareciam trajando camisas de cor lilás, a cor de campanha da chapa PSOL-PT. Para bom entendedor...

O novo prefeito citou explicitamente a oferta de parceria, em seu discurso. Portanto, isso confirma que Edmilson chega a seu terceiro mandato em um cenário brutalmente diferente ao do período 1997-2004. Em 1996, ele foi eleito como azarão e teve contra si uma campanha implacável que reunia o governo do Estado (à época, na pessoa de Almir Gabriel, dono de uma fama de perseguir inimigos), a Assembleia Legislativa, a Câmara Municipal, outras instituições (que não deveriam funcionar como puxadinhos do governador), a mídia (à frente, as Organizações Rômulo Maiorana, que funcionavam como "diário oficial" do PSDB) e o empresariado. Agora, Edmilson retorna bem mais experiente, com avanços pessoais (a continuidade de sua formação acadêmica) e políticos (sua combativa atuação como deputado federal). Seu tom é mais conciliador e se abre para uma Câmara Municipal repleta de pessoas prometendo apoio ou, pelo menos, "oposição de qualidade", um governo do Estado amistoso e a simpatia, ao menos, do grupo de comunicação da família Barbalho. Se bem que o tom das ORM parece bem leve, também.

Outro mérito de Edmilson é ter como vice uma pessoa que nós sabemos quem é o que fez nos últimos anos. Edilson Moura tem uma atuação política respeitável e está à altura do cargo hoje assumido. O mesmo não se podia dizer da maioria dos vices anteriores (exceção, talvez, a Orlando Reis, por seus muitos anos como vereador, atuação que nos faz saber quem é, mas não angariar meus elogios). O nefasto Duciomar Costa teve como vice um político de carreira que mudou o domicílio eleitoral para concorrer ao cargo, pois sua base sempre fora o sudeste do Estado, ou seja, oportunismo. E o inoperante Zenaldo Coutinho teve uma vice que eu nunca soube de onde saiu. E caso o prefeito hoje fosse o delegado especial de classe especial, seu vice era um sujeito tão sem noção e desagradável quanto o titular.

Enfim, hoje temos algo a comemorar. Já era tempo!

Começando 2021

Antes de mais nada, meus sinceros votos de que o novo ano seja realmente feliz. Estamos todos sob a pressão da pandemia do novo coronavírus, o que coloca a saúde no topo das intenções que normalmente são feitas nesta época. Ratifico isso, pensando também em nossa necessidade de redescobrir a empatia, a bondade e a serenidade. Se assim o fizermos, o resto há de vir.

Neste dia dedicado à confraternização universal, feriado, os que podem aproveitam uma preguicinha boa, com esse clima ameno que está fazendo. Outros tantos não têm a mesma sorte e estão na batalha pela sobrevivência. Meu respeito a estes. Meu respeito, também, àqueles que não se aglomeraram nas festividades de fim de ano, tentando proteger a si mesmos e aos demais do risco de contágio. Meu bairro estava quieto e as imagens que vi no telejornal mostravam uma cidade vazia. Espero que não seja por motivo de aglomeração em outro lugar. Tomara que a retomada da consciência estavam, enfim, acontecendo.

Boa sorte para todos nós. Estamos precisando.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ok, um pouco de diversão não custa nada e faz bem

Para que não fiquemos apenas entre as sombras de nossas almas, porque ninguém suporta isso por tempo demais, vamos encerrando o ano com música animada, dança e ciência.


Desejo a cada um de vocês um dia tranquilo, uma noite de celebração, uma oportunidade de reflexão, um insight de necessidade de empatia, além, é claro, muita saúde. Que haja união com seus amores, do modo que seja possível. Sejam felizes.

Retrospectiva 2020

Janeiro. Ano começou comigo de luto, passando uns dias em Santarém, ansioso em relação ao futuro.

Fevereiro. Vendo as pessoas comemorarem o carnaval enquanto o mundo falava cada vez mais do novo coronavírus.

Março. A pandemia se tornou uma realidade por aqui. Começou o isolamento nesta família e todos fomos afetados pelos serviços públicos e privados sendo descontinuados ou tornados virtuais.

Abril. Nasceu Margot, nossa segunda filha e uma alegria exuberante em meio ao caos.

Maio. Já cansado de ouvir falar em lives, mesmo tendo assistido a poucas delas. Vivi a estranha experiência do lockdown, tendo que explicar a policiais militares o que eu estava fazendo na rua (havia ido ao supermercado). Eu me senti dentro da distopia.

Junho. Lamentando a perda das festividades juninas. Aquelas comidinhas que amo, sabe?

Julho. Completei 45 anos me perguntando o que diabos estou fazendo aqui.

Agosto. Mês do desgosto? Como assim, "mês", durante um ano que já era odiado pelo mundo afora? Atividades retornando, mas não retornando exatamente.

Setembro. Administrando uma adolescente se declarando surtada pelo isolamento em casa, embora, claro, sem se dar conta dos privilégios que a vida lhe permitiu.

Outubro. Todo o respeito às pessoas que lamentaram não ver o Círio de Nossa Senhora de Nazaré nas ruas de Belém. A cidade se beneficia da energia das pessoas que vivem esse momento de união.

Novembro. Em uma eleição adiada, corremos risco real de ver nossa cidade ser entregue a mais um projeto oportunista e canalha, mas pelo menos disso escapamos. Passei o mês muito empenhado em um antigo e importante projeto pessoal.

Dezembro. Com um grande amigo internado com covid-19, em estado muito grave, vejo os brasileiros apertarem com convicção o botão do foda-se, porque não podem deixar de celebrar suas vidas miseráveis. Aguardando resignado as consequências.

Muita gente aguarda ansiosa pelo fim de 2020. O fato é que, de acordo com as convenções, o ano acabará inelutavelmente, daqui a menos de 14 horas. Mas o que esperar de 2021, se as condições são as mesmas? Vacina. Por ora, esta parece ser a única variável capaz de fazer alguma diferença.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Quero ser saudável

Jiddu Krishnamurti (1895-1986) foi um filósofo, escritor e educador indiano, cujo pensamento não chegou à maioria de nós porque, desde sempre, fomos educados para conhecer e valorizar apenas a cultura ocidental, primeiramente a europeia e, segundamente, a estadunidense. Também nada sei sobre ele. Apenas me deparei com esta lição profunda, verdadeira e perfeitamente adequada aos tempos que vivemos:

"Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente."


De repente, comecei a valorizar o fato de ter-me sentido deslocado a vida inteira.


domingo, 27 de dezembro de 2020

A fome, que retorna convicta

Vários anos atrás, quando eu era adolescente, a "revista semanal de domingo" da Rede Globo, o Fantástico, exibiu uma reportagem longa e contundente sobre a fome no Brasil. O trabalho jornalístico teve enorme repercussão e, sobre mim, um efeito devastador. À medida que a reportagem avançava, eu me sentia mais e mais sufocado, até não conseguir mais reprimir o choro. Quando terminou, eu me sentia péssimo, sobretudo por não vislumbrar nenhum prognóstico de mudança, embora estivesse claro para mim que acabar com aquela realidade era possível e, talvez, mais simples do que parecia.

Há dois dias, tomei conhecimento do documentário Histórias da fome no Brasil (dir. Camilo Tavares) lançado em dezembro de 2017. Sim, há 3 anos, mas somente agora soube dele. Provavelmente, pouca gente conhece, daí a importância de divulgá-lo. Abaixo, você pode assistir.


Impossível tocar em um assunto tão sensível sem dar margem a que as histerias ideológicas explodam, pois constitui fato objetivo que o Brasil saiu do Mapa da Fome, da Organização das Nações Unidas, durante o governo de Luís Inácio Lula da Silva. E também é fato objetivo que, desde 2017, quando o documentário foi lançado, o país corria o risco de retornar a ele. Agora, com a pandemia e a quase ausência de políticas de auxílio aos necessitados, o cenário é mais do que assustador.

Não farei apologias e muito menos brigarei com os fatos. Deixarei o negacionismo àqueles a quem essa doença aproveita. Só quero dizer que o documentário comprova minhas ideias adolescentes: acabar com a fome era uma questão de iniciativa. A famosa vontade política. Enfrentar a seca do Nordeste poderia ser feita com a construção de cisternas, uma tecnologia simples e barata. Não é a solução única ou definitiva, mas um exemplo de como os governantes poderiam ter agido décadas antes, se quisessem. A bilionária transposição do Rio São Francisco também é apenas um exemplo, necessário, porém não suficiente. Enfim, incontáveis vidas poderiam ter sido poupadas. Uma quantidade atroz de sofrimento poderia ter sido evitado.

Documentário recomendado. Você vê, julga e decide o que lhe parecer mais sensato.

Terminando. Ou não. Provavelmente não.

Falta pouco mais de 4 dias para 2020 terminar. Difícil encontrar quem vá sentir saudade. Muita gente por aí está dizendo que se trata do pior ano de todos, e não apenas no Brasil, embora por aqui precisemos conviver com o pesadelo permanente do nosso desgoverno genocida. Claro que essa fatura vai para a fatura do novo coronavírus, que ceifou milhões de vidas pelo planeta, isolou as pessoas e causou um sem número de danos, materiais e emocionais. É a maior emergência sanitária da História, se pensarmos no aumento da população mundial e no maior risco de contágio, devido às possibilidades de deslocamento entre os países.

Para mim, não foi o pior ano já vivido. Deixo esse demérito para 2015, com um profundo desejo de que nunca mais precise enfrentar nada parecido. Em relação às ações humanas, a maior violência que sofri remonta ao ano de 2019. Logo, 2020 ficará marcado como o ano de nascimento de minha segunda filha, tão ansiada e intensamente buscada. E mesmo que o isolamento nos tenha afetado a todos, também nos deu, no caso específico de nossa família, a oportunidade de estar em casa, ao lado dela, acompanhando o seu desenvolvimento. Finalmente, a ideia de tirar partido dos reveses funcionou para mim.

Contudo, o alerta vermelho está aceso. Neste momento em que escrevo, um grande amigo, uma das pessoas mais generosas que já conheci, encontra-se internado em UTI com covid-19, em estado grave, intubado. Passo os dias monitorando o celular, com medo de que alguma mensagem do WhatsApp traga informações de que não estamos precisando neste momento. Conheço essa sensação de medo permanente do telefone, do mensageiro. Estamos em uma grande corrente de vibrações positivas. É nisso que precisamos nos concentrar.

No mais, o ano ― essa convenção humana ― acabará em breve, porém o mundo seguirá sendo como é. E nós precisamos desesperadamente que ele mude: que haja mais decência e bondade, pois muita gente renunciou voluntariamente a esses valores, por pura escolha. Precisamos nos reencontrar com nossa humanidade. E estes eventos de fim de ano costumam ser propícios a tais reflexões. Só espero que não sejam promessas de fim de ano. Até porque não estou vendo ninguém prometer nada.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Pato Donald

É meio sem sentido comentar sobre a vida alheia, mas como este é um blog de opinião e é meu, lá vai.

Acabei de ler matéria informando que o ainda presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou mais uma aventura jurídica, desta feita perante a Suprema Corte do país, por meio da qual pretende cassar, suspender, ignorar, por para escanteio ou sei lá o quê milhões de votos, em quatro Estados nos quais, obviamente, ele perdeu, alegadamente por mudanças de regras eleitorais devido à pandemia do coronavírus (v. https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/09/trump-pede-que-suprema-corte-dos-eua-bloqueie-milhoes-de-votos-em-4-estados.htm). O argumento parece novidade, embora o moleque pimbudo costume resumir tudo ao argumento de "fraude", nunca comprovado.

Pessoalmente, acho ridículo o chefe de Executivo que não transmite a faixa ao seu sucessor. Tudo bem que não depende do vazante a transmissão do poder, mas considero a passagem da faixa um ato simbólico bastante educado, civilizado, que deveria transmitir a mensagem de estabilidade das instituições. Portanto, quando um molecote deixa de comparecer ao ato, mais do que evidenciar a sua babaquice, ele demonstra quão mal das pernas vão as instituições, tratadas como valhacoutos pessoais.

O caso de Trump é ainda pior, porque o mundo inteiro, literalmente ― o mundo que conta, portanto excluídas repúblicas bananeiras comandadas por escrotinhos insignificantes ―, já considera notícia velha a eleição de Joe Biden, que está prestes a ser confirmada com a votação dos delegados. Mesmo assim, o sujeito cuja aparência sempre furiosa e alaranjada já é por si só repugnante, insiste no negacionismo, hoje uma característica marcante dos ultradireitistas. A imagem que tenho comigo é a de um fulaninho tentando se agarrar na água enquanto desce por um ralo óbvio e inevitável. Eu realmente não consigo pensar em um precedente de chefe de Estado que, em ambiente democrático, vá deixar um governo tão pela porta dos fundos desse jeito  ― e por culpa exclusivamente própria.

Está feio, mas há de piorar. E aguardemos as cenas dos próximos capítulos, porque há uma certa colônia abaixo da linha do Equador que adora copiar tudo que os Estados Unidos fazem... de ruim. Ouvi dizer que, por lá, os apoiadores do tiranete agora fazem passeatas de meia dúzia de revoltados, exigindo um tal de voto impresso.

Vendo essa coisas, só consigo pensar que o coronavírus está matando as pessoas erradas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Eterna vigilância contra o inimigo

Ontem eu me deparei com uma reportagem considerando inadmissível mulheres ainda terem câncer de colo de útero. Considerei a manchete contundente e, por razões pessoais, decidi ler o texto. Por sinal, um exemplo cada vez menos frequente de matéria bem feita, porque devidamente explicada (e não reduzida a dois parágrafos, para os preguiçosos fazerem um esforço de ler), detalhada, subsidiada na Medicina e, mesmo assim, com uma linguagem leve, talvez para reduzir o incômodo do assunto. Abaixo o link:

https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/lucia-helena/2020/12/03/nao-e-aceitavel-que-tantas-mulheres-ainda-tenham-cancer-de-colo-de-utero.htm

Como disse acima, tenho razões pessoais para me sentir mexido por esse tema.

Minha mãe morreu em decorrência de um câncer uterino. Faz 5 anos e 2 meses, agora. Ela tinha pavor de câncer. Sequer pronunciava o termo. Chamava de "aquela doença feia". A mãe dela morreu de câncer no estômago e isso aumentou o medo que ela já sentia. Ela se cuidava, fazia preventivo todos os anos. Mas só depois do diagnóstico descobrimos que o preventivo investiga apenas câncer de colo do útero, não da cavidade uterina. E o tumor dela surgiu no fundo (que, contraintuitivamente, é a parte de cima). Eis a ironia: passou anos se protegendo, mas não sabia que a proteção era meramente parcial. 

Pessoas como eu, estudadas em alguma área e com acesso às internets da vida, supõem compreender razoavelmente bem diversos assuntos. Aí vem a realidade e nos atropela, mostrando que somos bem mais ignorantes do que pensávamos. Diante disso, resolvi compartilhar a reportagem com amigos e aqui no blog, pois realmente nunca mais quero ver alguém passar por aquilo.

Cuidem-se. Saúde. Abraços.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O ano acaba, mas o pesadelo não

Ao tempo em que inicio estas mal traçadas linhas, faltam 28 dias, 1 hora e 7 minutos para o ano de 2020 terminar. Para uma quantidade imensa de brasileiros, ou pelo menos considerando aquilo que vejo, foi um ano horroroso, para muitos o pior já vivido. Claro que a pandemia do coronavírus figura como vilã preferencial dessas manifestações, pois roubou nossas vidas e acabou com a tal vida normal, impondo muitos e singulares desafios.

O problema é que 2020 acabará sem que a pandemia tenha passado. Já se fala bastante na proximidade da vacina, mas ainda não há confirmação de liberação pelas autoridades sanitárias, tampouco notícia sobre plano de vacinação. Notícia que li falava em vacinar toda a população até o final de 2021. Então tá.

Mas para quem é brasileiro, coronavírus pouco é bobagem. Nós temos o pior governo de todos os tempos e todas as dimensões, excluídos os regimes de exceção. Se você acha que Trump é pior, saiba que para ele era, supostamente, "America first". Por aqui, com certeza, é "America first". Só que nós não somos a tal America. Por aqui, o "Brasil acima de tudo" foi só um ridículo slogan de campanha, que jamais pretendeu ser verdadeiro. Aliás, a dobradinha SARS-CoV-2 e governo Bozo são a causa do número alarmante de mortos que tivemos na pandemia e de uma tal segunda onda que se confunde com a primeira.

Mas por aqui se morre a rodo por outras razões, também, Morre-se por causa da fome, de doenças facilmente tratáveis, de uma quantidade colossal de acidentes e de muita, muita violência, dentre outros fatores. E aí entra o governo, aumentando a miséria e o desemprego, não contendo a inflação, demolindo todos os sistemas de proteção de direitos ou do meio ambiente, estimulando a violência e muitas mazelas mais. Não é engano nem acidente: é projeto de morte. Basta ver que, volta e meia, a imprensa publica uma notícia no sentido de que o governo não gastou todo o orçamento disponível para certo setor. Por toda a minha vida, vi a desculpa ser dada em termos de "não temos dinheiro". Nesta era das trevas, há dinheiro, porém ele não é gasto. Fica evidente que são decisões sendo tomadas para ferrar com tudo.

Daí lembramos que 2020 terminará e o governo mais alucinado da história, não. Isso me dá mais angústia e raiva do que qualquer vírus, ainda mais quanto vemos uma tribo insistir em apoiar esse projeto, com toda a irracionalidade possível, como acabamos de rever nas recentes eleições municipais. Um fulano qualquer pode surgir dizendo que vai governar para empresários e tapar todos os canais de Belém e, ainda assim, ganha mais de 48% dos votos válidos, só porque não era de esquerda. A galera resolveu brincar de roleta russa todo dia, uma roleta russa modificada, em que há mais de uma bala no tambor.

Mas é o que temos para hoje. Precisamos de encerramentos, porque acreditamos na força dos ciclos. Pensar que estamos em um novo ano, em uma nova fase, em uma nova condição nos ajuda a disfarçar que estamos no mesmo pesadelo. Pelo menos por ora. O futuro, quem sabe?

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

As novas cores do beco

Estive em São Paulo pela última vez há pouco mais de dois anos. Era julho e tiramos alguns dias de férias. Eu estava decidido a conhecer o famoso Beco do Batman, mas seria um passeio que faria sozinho, porque caminhar olhando grafites em paredes não animou as minhas crianças. O fato é que, sendo curta a estadia e tendo algumas programações concebidas justamente para as crianças, acabei desistindo. Lamentei na época e lamento ainda mais agora.



O Beco do Batman é a típica proposta para me agradar, porque não é mainstream. Nada contra vernissages em galerias requintadas, mas a ideia de algo que não foi pré-determinado, que surgiu em um repente e foi renovado, e renovado, e que reúne uma arte popular, diversa e colorida, gerando um cenário tão bonito em um local que poderia ser simplesmente mais uma viela em um bairro não lembrado pelas sucessivas administrações tucanas. É simplesmente fantástico.

Espaço adorado pelos artistas e por um público mais despintado, ganha novas pinturas periodicamente e mobiliza a própria comunidade para garantir a conservação da galeria a céu aberto. Ou seja, é mesmo uma iniciativa para ser admirada. Sobretudo porque dá visibilidade ao grafite, técnica para a qual os ortodoxos torcem o nariz, dizendo não configurar arte. Porque arte, nós sabemos, é uma banana presa a uma parede com um x de fita crepe. Mas é justamente aí que está a mensagem: a arte popular merece estar nas ruas e ser vista por todos.

Tudo poderia ser perfeito, se não estivéssemos em um país onde a vida vale muito pouco, quase nada. Na madrugada do último sábado (28 de novembro), Wellington Copido Benfati, o NegoVila, 40, um dos artistas do beco, foi assassinado por um policial à paisana, quando tentava apartar uma briga. Morreu tentando fazer o certo. Segundo os relatos, foi uma execução. Dois tiros, um no peito. Em honra ao colega e como protesto por mais esta tragédia, os artistas pediram autorização aos colegas e cobriram as paredes do beco com tinta preta. Nelas, somente mensagens alusivas ao ocorrido, para ninguém esquecer o que houve ali.


A manifestação não durará para sempre. NegoVila era artista e certamente não ia querer isso. Ele há de preferir o beco repleto de grafites, com seus signos, seus protestos, sua esperança. Em algum momento, o Beco do Batman voltará a ser rosto colorido de um povo que resiste. Mas será um espaço bem diferente, com pinturas novas e, certamente, muitas homenagens a NegoVila, que teve sua vida desperdiçada, mas que vai virar inspiração.

É preciso coragem e desprendimento para um artista abrir mão de sua obra assim, de chofre. Mas os do beco sabem o que está em jogo e, por isso, expresso minha mais profunda admiração e respeito por eles. Estamos cansados, precisando de paz. Precisando não sentir medo, que é a essência da liberdade, segundo a cantora Nina Simone.

Meus pêsames. Força sempre.

Consultei:

  • http://cidadedesaopaulo.com/v2/atrativos/beco-do-batman/?lang=pt#:~:text=Sua%20hist%C3%B3ria%20come%C3%A7ou%20na%20d%C3%A9cada,galeria%20de%20paredes%20totalmente%20cobertas
  • https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/11/30/beco-do-batman-amanhece-de-luto-apos-artista-ser-morto-policial-foi-detido.htm

Uma nova legislatura?

Levo muito a sério a política municipal. Afinal, é no Município que vivemos. São as decisões locais que afetam de modo direto o nosso cotidiano, nas coisas mais simples e necessárias, como abastecimento dos mercados, transporte, iluminação, saneamento, etc. Por quase 4 anos, entre 1997 e 2000, fui assessor na Câmara Municipal de Belém. E por 2, entre 2001 e 2003, fui procurador jurídico do Município de Belém. Ou seja, passei cerca de 6 anos de minha vida lidando diariamente com aspectos da gestão municipal, seja no Legislativo, seja no Executivo. Fiquei muito mais interessado na questão. E conheci de perto alguns rostos e nomes.

Passados 17 anos, eu simplesmente não tenho ideia de quem são muitos dos atuais vereadores de Belém. E alguns eu só sei que existem porque foram citados aqui e ali, por alguma razão, inclusive as estúpidas, como fazer um projeto de lei instituindo o "dia do orgulho heterossexual". E olha que eu tento ser minimamente informado. Por outro lado, alguns vereadores que já estavam aboletados na Câmara Municipal nos meus tempos de assessor ainda estão por lá! Mais de duas décadas transformando a vereança em carreira, porém sem compromisso de produtividade, porque simplesmente não se escuta, não se lê, não se vê nada que esses caras tenham feito, a não ser sustentar prefeitos vergonhosos.

Veja quem são os atuais vereadores de Belém (por seus nomes parlamentares e, mesmo assim, é possível que você jamais tenho ouvido falar de vários deles): Adriano Coelho, Altair Brandão, Amaury da APPD, Bieco, Blenda Quaresma, Celsinho Sabino, Dinely, Dr. Chiquinho, Dr. Elenilson, Emerson Sampaio, Enfermeira Nazaré Lima, Fabrício Gama, Fernando Carneiro, Gleisson, Henrique Soares, Igor Andrade, Joaquim Campos, John Wayne, Lulu das Comunidades, Marciel Manão, Mauro Freitas, Moa Moraes, Nehemias Valentim, Neném Albuquerque, Nilda Paula, Paulo Queiroz, Pablo Farah, Professor Elias, Professor Wellington Magalhães, Rildo Pessoa, Sargento Silvano, Simone Kahwage, Toré Lima, Wilson Neto e Zeca Pirão.

A primeira vergonha é que só há quatro mulheres na câmara, de 35 vagas. Em azul, os que se reelegeram: são 16 no total. Eu sempre espero uma renovação maior, mas não adianta. Estar no cargo proporciona inúmeras conveniências, em alguns casos nada republicanas. No entanto, preciso destacar que há, sim, nomes cuja reeleição me deixa muito satisfeito. No geral, é bom que tenhamos uma renovação superior a 50%, com 19 calouros: Allan Pombo, Augusto Santos, Bia Caminha, Dona Neves, Emerson Sampaio, Fábio Souza, Goleiro Vinícius, João Coelho, Josias Higino, Juá Belém, Lívia Duarte, Matheus Cavalcante, Miguel Rodrigues, Renan Normando, Roni Gas, Pastora Salete, Túlio Neves, Vivi e Zeca do Barreiro.

Agora são 6 vereadoras. Uma vergonha, uma lástima. A ausência de representatividade segue a toda, ainda mais se pensarmos que tem muito classe média se metendo em política pensando em projetos pessoais, porque não possui uma verdadeira base eleitoral. Alguns só têm um curral, mesmo. E os nossos vícios permanecem: eleger jogador de futebol aposentado de time ruim, os onipresentes evangélicos, etc. Mas há o que comemorar, sem dúvida. Há candidaturas que se forjaram nas ruas e conquistaram mandato sem dinheiro de papai, de empresário, de político que não podia apoiar mas apoiou, etc. Encaro como um avanço minúsculo, mas um avanço. Só de pensar que os vereadores vintenários vão finalmente pegar o beco e, junto com eles, o sargento (bolsominion arrependido) e o truculento apresentador de programa mundo-cão. São pequenas alegrias da vida adulta, parafraseando Emicida.

Ao conceder entrevista após o anúncio de sua eleição a prefeito, Edmilson Rodrigues disse ter sido procurado por 20 vereadores eleitos, dando a entender que essa será a sua base de sustentação. Do outro lado, seriam 15 edis na oposição. É numericamente maioria, mas vale a pena lembrar que é da natureza de muitos desses partidos negociar apoio. Logo, mesmo que seja esse o cenário, Edmilson não deve governar em céu de brigadeiro. Mas já seria bem melhor do que em seus dois mandatos anteriores, sendo sabotado por todos os lados. Pessoalmente, acredito que essa tensão é positiva, porque obriga o Executivo a vigiar sempre, a escutar, a ponderar, a se justificar, a ser mais humilde. Coisa muito diferente do que fez um prefeito medíocre como Zenaldo Coutinho, sustentado por 30 vereadores. Assim se consegue tudo, mesmo que isso afunde a cidade, como afundou.

Assim como o Congresso Nacional desceu ao nível mais degradante de sua já não honorável história, a Câmara Municipal de Belém também dá vergonha. Mas tudo muda quando se tem um governo de esquerda. Os acomodados se levantam, a imprensa se torna superfiscalizadora, as instituições públicas não dormem, à caça da mínima improbidade. Enfim, as forças se alinham, tudo se conflagra para que o projeto dê errado.

Seja como for, prefiro navegar nesses mares revoltosos do que nas águas plácidas da direita. Quando o povo se cala, a imprensa finge não ver, as instituições cruzam os braços e a politicalha intenta golpes, tudo parece no lugar. Mas nós, povo, estamos perdendo. Com a esquerda no poder, ninguém dorme. E essa é a única oportunidade de algo bom acontecer para quem vive em uma cidade combalida como Belém.

Em tempo: Após esta publicação, tomei conhecimento de que a vereadora eleita Vivi Reis assumirá o mandato de Edmilson Rodrigues na Cãmara dos Deputados, pois é sua suplente. Em seu lugar, a Enfermeira Nazaré Lima assumirá um segundo mandato como vereadora. Portanto, será mantido o número de mulheres e a identidade partidária, pois ambas são do PSOL. Serão, portanto, 17 vereadores reconduzidos e 18 calouros, mas isso não mudará a relação com o futuro prefeito.