quinta-feira, 28 de maio de 2020

Fogo anda comigo?


Sou apaixonado pelo fogo. Ele traz uma paleta de tons de amarelo, minha cor favorita. É luminoso e eu adoro luz. Ele conversa conosco, crepitando. Ele carrega um poder imenso, avassalador e destrutivo, como poucas coisas no mundo conseguem fazer, mas também pode ser associado à renovação da vida, como acontece em terrenos varridos por lava vulcânica. O fogo é respeitado, temido, adorado ou repudiado, mas ninguém lhe fica indiferente. Provavelmente por isso ele também é um símbolo em várias culturas. O Livro do Êxodo diz que Deus falou com Moisés sob a forma de uma sarça ardente. Na mitologia grega, a fênix era um pássaro que morria em autocombustão, porém retornava de suas cinzas.

São tantos os símbolos que, quando se quer fazer um protesto, o fogo é uma linguagem recorrente. Pode-se destruir de várias formas, mas incendiar exige um nível de ousadia que sugere o tamanho da intolerabilidade daquilo contra que se protesta.

A foto acima mostra uma delegacia da cidade estadunidense de Minneapolis sendo consumida pelas chamas. A população em fúria também incendiou e saqueou diversas lojas e, perdoem o trocadilho, pôs mais combustível em uma onda de protestos que se alastra por várias cidades. Tudo começou quando a polícia daquela cidade, com sua longa lista de abusos racistas, matou George Floyd, negro, 46 anos, por asfixia. Um policial branco apertou seu joelho contra o homem já indefeso por vários minutos, provocando-lhe a morte, mesmo com ele implorando pela vida, avisando que não conseguia respirar. Asfixia, vale lembrar, provoca tanto sofrimento que é utilizada como técnica de tortura.

A imprensa está lembrando caso semelhante, de morte por asfixia, ocorrido no passado e que também gerou protestos intensos, mas o rol de brutalidade policial nos Estados Unidos é interminável e, por isso mesmo, há reação dessa espécie e nessa intensidade. E no Brasil? A letalidade policial contra negros e pobres, conceitos que se confundem em nossa realidade, é uma característica indissociável do cotidiano. Sendo que aqui temos uma obsessão por balas perdidas, supostas trocas de tiros e autos de resistência. Este ano estamos contabilizando um aumento de vítimas entre crianças e adolescentes.

O mote desta postagem é: e nós, brasileiros, protestaríamos assim? Além da experiência yankee, que clama contra a desigualdade racial, temos o exemplo dos franceses, habitués de incendiar prédios e veículos quando o governo tenta emplacar alguma medida que lhes retire direitos, trabalhistas, p. ex. O que pretendo dizer é, literalmente, mobilizar uma força extrema por uma boa causa. Não parece ser do nosso feitio. Nem as famosas jornadas de junho de 2013 tiveram essa feição.

Nossa tradição autoritária, que antecede a ditadura civil-militar de 1964-1985, gosta de enfatizar a expressão "protesto pacífico". De um modo geral, o brasileiro médio costuma tachar de vagabundo qualquer um que proteste, porque protesta por liberdade ou por direitos. Às vezes, pela vida. É como se manifestações somente fossem toleráveis quando "pacíficas". Qualquer força do ativista provoca a deslegitimação da luta, seja qual for. Assim fica fácil para o opressor. Porque este segue monopolizando a violência, inclusive e principalmente a de Estado, incensado pela opinião pública, com amplo suporte dos veículos de comunicação.

Lamento informar, contudo, que está cada vez mais próximo o dia em que os protestos levarão a atos de destruição colossais como esse da foto. Só que os incendiários não estarão protestando por liberdade, por direitos ou pela vida. Eles estarão construindo um novo período de exceção, a destruição da democracia e a aniquilação de direitos populares. São as pessoas que se vestem de verde e amarelo para mandar seus serviçais acompanhá-los nas passeatas ou carreatas. São as pessoas que disparam tiros contra um ônibus em movimento, sem se importar com quem poderia morrer, só porque lá dentro viaja um pré-candidato que odeiam. São as pessoas que agridem para fazer recuar os jornalistas. São os empresários que subjugam seus funcionários, para que se fantasiem ou se ajoelhem pela causa que impõem. São os terroristas da internet. São os incendiários da floresta. E o prédio a arder será algum que se oponha a suas intenções, p. ex. a sede de um Supremo Tribunal Federal ou a sua casa, se você tiver, p. ex., se manifestado em uma rede social contra eles.

E nós estamos deixando os cães hidrófobos tomarem conta de tudo. Pelo visto, e como sempre, não aprendemos com o nosso passado nem com a a experiência alheia.

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Usei informações publicadas em https://oglobo.globo.com/mundo/policia-de-minneapolis-acusada-de-racismo-enfrenta-ira-da-cidade-apos-morte-de-negro-24449859, mas o caso está sendo amplamente divulgado pela imprensa.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Meu novo normal?

É uma segunda-feira qualquer. Já anoiteceu.

Enquanto o bebê dorme, saio do meu cantinho de trabalho, estabelecido há anos, e desço para a sala de estar, que praticamente não usamos. Precisei fazer isso para trabalhar, já que no quarto não é possível acender luzes e fazer barulho, temporariamente, até o berço ser deslocado para o seu local definitivo, no quarto de Margot. Júlia, a primogênita, é pré-adolescente, então está fechada no quarto, fazendo as suas coisas.

Trabalho cuidando dos meus processos, por meio do processo judicial eletrônico, o famigerado PJe. O sinal de internet neste ponto da casa não é o melhor, mas está bastando. Consigo trabalhar enquanto escuto Planeta fome, disco de Elza Soares. Muitos versos fortes e necessários.

Mais cedo, terminamos de ver uma série que acompanhávamos. La casa de las flores. É quase inacreditável que eu me tenha dedicado a uma comédia, mas essa é mexicana e valeu a pena. Principalmente a sua inesquecível cena, no quinto capítulo da terceira temporada, em que a personagem Paulina de la Mora briga com alguém perguntando se ele é burro, se nasceu no Alabama ou se tem Bolsonaro no sobrenome. O mundo inteiro concorda comigo nesse ponto. Que fazer?

Paulina: para sempre em nossos corações

Enquanto a pandemia grassa lá fora e o Brasil, sem governo, cuidado ou decência, segue acumulando mortos, aqui no Pará as autoridades tentam nos convencer de que a curva de contágio está em queda na capital, embora aumente perigosamente no interior. Hoje foi o primeiro dia sem lockdown, após duas semanas. O povo achou que já era um liberou geral. Por ignorância, uns, e esperteza, outros.

Dito tudo isto, informo que esta postagem não possui nenhum assunto especial, não. Tenho lido postagens antigas e sentido tanto prazer em relembrar eventos passados que, talvez, este blog pouco atualizado tenha, finalmente, encontrado a sua vocação: ser o que os blogs supostamente eram quando surgiram ― diários pessoais, só que eletrônicos. Algo para que seus donos possam conservar memórias. O acesso à internet nos convenceu de que éramos todos especiais e que nossas palavras, e em especial nossas opiniões, mereciam ser difundidas mundo afora. E, pasmem, que alguém se daria ao trabalho de lê-las. A grande rede criou vários novos transtornos mentais, um deles relacionado à caça por seguidores.

Da minha parte, a esta altura da vida, só penso em uma coisa nesta noite quente, mas ainda suportável: em relação a algumas coisas, cheguei onde queria; em relação a outras, não poderia estar mais longe. Deve ser assim com a esmagadora maioria das pessoas mundo afora, aquelas que são pessoas comuns. Já deve ser um privilégio ficar na casa dos 50%.

Mas, enfim, um dia eu hei de ler estas palavras e gostar do nada que significam para você, eventual leitor, e do muito que significam para mim, já que se trata da minha vida. Da vida real. Sem qualquer fantasia. Para mim, sua existência está justificada.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Uma mente mais ou menos isolada

Já estamos na segunda quinzena de maio. Mais um pouco e se acabará o quinto mês do ano. E já se está completando o segundo mês desde o momento em que percebi que, sim, eu não devia mais sair de casa. Não que eu estivesse na rua o tempo inteiro. Ao contrário. Esposa em fim de gestação, várias atividades já suspensas (notadamente aulas e aquelas ligadas a meu trabalho como advogado). Mas eu ainda achava que podia fazer um lanche em uma padaria ou até ver O homem invisível no cinema. Essas atividades ainda funcionavam. E eu não tinha lá muita experiência com pandemias globais.

Recolhi-me em casa, então, embora àquela altura fosse um arremedo de isolamento. Por causa da gestação, havia consultas e exames do pré-natal para fazer. Polyana não saía de casa para nada além disso, mas eu saía para farmácia, supermercado e outras tarefas domésticas. Cortei o cabelo, levei o carro para lavar, coisas que ainda pareciam necessárias e não tão graves assim, tomadas certas cautelas. O Pará ainda não registrava nenhum caso oficial de covid-19. Mas ela chegou, claro, e o isolamento foi ficando cada vez mais rigoroso.

Sou um sujeito caseiro. Estar em casa com a família, cachorra inclusive, tendo acesso a meus livros, filmes e séries, e tendo trabalho para realizar via computador e internet, permitia-me ficar em paz. Estava muito focado na gravidez. Depois que Margot nasceu, obviamente, o foco era ela e suas necessidades. Entramos em um ritmo intenso de adaptação a um novo ser humano, que só se expressa por meio de choro. Foi nesse momento que a pandemia nos afetou de verdade. Tivemos enormes dificuldades para conseguir a consulta pediátrica, que as autoridades sanitárias recomendavam fazer presencialmente, mesmo no contexto do isolamento social. E nosso bebê andava febril há uma semana e meia. E eu mesmo tive uma gripe (???) forte, assim que retornamos da maternidade. Foi um terror.

Durante a consulta, a pediatra mandou a real: "Quero reavaliar Margot daqui a uma semana, mas vamos ver se estarei aqui. Os colegas estão caindo aos montes". Era isso: cada vez mais médicos doentes ou isolados.

Com nossa menina saudável, as coisas foram se ajeitando. Havia apenas as exigências normais de um recém-nascido. Complicado dizer isso, mas a pandemia acabou nos deixando em casa, em família, sem saídas desnecessárias, concentrados. Ajudou-nos a enfrentar o momento de neopaternidade. A única que deu mostras de ansiedade, em momentos pontuais, foi nossa primogênita. Júlia está com 11 anos e 9 meses (e uma inexplicável obsessão por dizer que já tem 12).

Dias atrás, precisei fazer supermercado, atividade que detesto, mas só tem eu para o sacrifício. Andando por entre as gôndolas de mercadorias, tive a sensação de atravessar nuvens de coronavírus. Peguei-me ansioso, pela primeira vez. Voltei para casa assustado. Dois dias depois (o período de incubação é de 2 a 5 dias), comecei a somatizar: tosse e pressão no peito. Disse a mim mesmo que era loucura da minha cabeça. E era. No dia seguinte, estava normal, sem sintoma algum. E assim permaneço, quase um mês e mais um supermercado depois. Nesta última ida, mantive a calma e não somatizei. O período de incubação já passou e ninguém está doente por aqui, que saibamos.

Não há como passar incólume por uma experiência dessas. Não fomos atingidos diretamente, mas amigos próximos tiveram perdas terríveis. Sou solidário, obviamente. E me preocupo com o bem estar psíquico e emocional de todos. Se o contexto em si é péssimo, pior é não termos a menor noção de quanto a pandemia será contida e poderemos, ao menos, circular por aí, imersos no que agora se chama de novo normal. Como qualquer um, quero poder caminhar sem medo, ver um filme, levar minha primogênita para tomar um sorvete. Quero até trabalhar como antes! Afinal, faz parte da vida. Acima de tudo, se essas rotinas forem retomadas, isso significa que as pessoas mais vulneráveis poderão, quem sabe, lutar com seus recursos de antes, sem tantas privações quanto agora. Tomara.

Enfim, desejo a vocês saúde. Que estejam tranquilos, em paz e em condições de conviver com seus amores, mesmo que com visitas virtuais e promessas de abraços. Fiquem bem.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Breve conselho

Todos aqueles que desejem ter filhos, aceitem o conselho deste pai um pouco mais experiente:


Se der, não tenham filhos em meio a uma pandemia global.

Obviamente, esta é uma postagem irônica. Não era nem para existir uma pandemia global e ninguém desejaria algo assim. Mas o fato é que tudo se torna exponencialmente mais difícil em meio a tantas restrições de isolamento social e, às vezes, pessoal. Há muita solidão e sofrimento psíquico. Você perde apoios que estão disponíveis, mas que não podem chegar até sua casa. Você vai sempre necessitar de mais um item de farmácia e obtê-lo se torna uma tarefa complicada, como tudo mais.

O lado bom, ao que parece, é que mais gente está descobrindo o quanto precisamos uns dos outros.

Segunda comunicação de nascimento

Já falei algumas vezes sobre o silêncio que se tornou a tônica do blog, embora ele sobreviva. Desta vez, porém, tenho um motivo glorioso para apresentar: Margot nasceu, enfim, no dia 8 de abril, após uma espera que, para nós, começou efetivamente em 23 de julho passado(*).

Ela veio ao mundo com 48 centímetros e 3,4 quilos, saudável, sem qualquer complicação. Como da primeira vez, assisti à cirurgia do parto cesariano, mas me senti prejudicado pela equipe, que insistiu para que eu ficasse próximo à cabeça de Polyana e, com isso, perdi o melhor ângulo para ver a cirurgia, como me interessava. Devem achar que todo mundo é frouxo e precisa ser poupado. Parte da experiência se perdeu para mim. O videozinho de nascimento não ficou tão interessante quanto o de Júlia.

Sempre é muito intenso quando o bebê surge de corpo inteiro à nossa frente e chora. Desta vez, contudo, a sala estava cheia de técnicas em enfermagem (para que tanta gente?), cuja presença e postura retiraram a intimidade do momento. Melhorou quando nos estimularam a tirar fotos. Até o anestesiologista pegou a câmera, para que pudéssemos aparecer os três. Mas é tudo rápido, naturalmente, porque há uma cirurgia a ser finalizada. Ocorre a pega do bebê e nos dividimos entre um afastamento de segurança e momentos de fotos, que as próprias técnicas sugerem. Fotografar a criança pelada durante a primeira pesagem é um clássico.


Uma das técnicas estava sendo treinada, o que achei ótimo, pois a pediatra ia explicando o passo a passo das verificações que estavam sendo feitas, perguntando a finalidade de cada uma, etc. Isso foi bom, porque constatei pessoalmente a expertise com que minha criança estava sendo avaliada naquele momento crucial.

Agradecemos à equipe médica, capitaneada pelo anestesiologista Antônio Carlos, contando com o tocoginecologista e cirurgião Aloísio Marques e com a pediatra Elisa Alves. Desta feita, a tia de Polyana, também pediatra, Maria de Jesus Malheiros da Fonseca, não pode estar presente para acompanhar o parto, pois trabalha em emergência e, por isso, está gravemente exposta ao risco de contaminação por covid-19. Temos recebido seu apoio remotamente, desde o nascimento.

A mãe está tendo uma excelente recuperação. A filha passou relativamente bem, alternando dias bons com outros, mais ou menos. Infelizmente, tivemos um susto por aqui, com febre e outros sinais incertos, o que nos obrigou a retornar à maternidade. Ela foi internada, para nossa grande aflição. Felizmente, contudo, foi devidamente avaliada e os resultados foram bons, permitindo a sua alta logo no dia seguinte. Estamos recomeçando por aqui, com novas estratégias. Mas a pandemia não nos permite contar com o apoio direto de pessoas que adorariam estar aqui conosco. Paciência. É a nossa realidade atual.


Não posso dizer ainda com quem Margot se parece, mas posso afiançar que não se parece com um joelho! Aliás, sem vaidades e exageros, acredito que é uma recém-nascida linda, que veio ao mundo menos enrugada do que a irmã, que por sua vez já não era tão enjoelhada. Tem um rostinho mais arredondado e um cenho franzido que nos parece tão familiar!

Para escrever esta postagem, peguei a "Comunicação de nascimento", que postei em 24.7.2008, e escrevi por cima, de modo que vários trechos são rigorosamente iguais. Foi de propósito, isso. Estou dizendo às meninas que ambas estão enredadas em uma mesma história, no roteiro de nosso amor familiar.

Fiquemos todos em paz.

PS   Quando será que surgirá a primeira "crônica de Margot"(**)?

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(*) Se algum preciosista fizer as contas, provavelmente não vai entender estes números. Melhor não tentar. É uma longa história.

(**) Se não entendeu, clique no marcador "crônicas de Júlia" e aproveite. Eu gosto bastante, mas sou suspeito.

domingo, 12 de abril de 2020

E não é que funciona?

Este simpático coelhinho pascoano  de máscara para se proteger do coronavírus, e batendo panela para se proteger da maior ameaça enfrentada por este país , mostrou-me pela primeira vez o funcionamento de uma novidade do WhatsApp: o controle de replicação de mensagens. Conforme anunciado, e implementado desde o último dia 7, qualquer publicação considerada frequente (assim entendida como enviada por meio do aplicativo ao menos 5 vezes) somente poderá ser encaminhada para um único contato por envio, em vez do limite de 5 contatos, que é o padrão.

A medida foi tomada para combater a massificação das fake news, que hoje constituem um dos procedimentos mais comuns dos canalhas, em seus projetos insanos de poder. De quebra, também pode coibir a aplicação de golpes que constituam crimes comuns. Uma iniciativa ditada pela necessidade, que chega em boa hora, impulsionada pela pandemia que divide os seres humanos daqueles que insistem em seguir o seu mito (vulgo "transmito"), não importa o que ele faça.

Quando li a notícia sobre a medida que os gestores do WhatsApp tomariam, imaginei que daria certo porque, a julgar por mim mesmo, o aumento de trabalho para o cumprimento de uma tarefa gera, de fato, um desestímulo. Bastou eu tentar replicar o coelhinho para dois contatos e receber a mensagem de restrição do aplicativo e já não tive mais ânimo para enviar a mais ninguém. Fiz dois envios e pronto. Afinal, era apenas uma brincadeira. E não estou a fim de trabalho para uma brincadeira.

A decisão do WhatsApp é claramente um paliativo, mas terá consequências positivas. Afinal, os bandidos das fake news agem por meio de seus robôs, que replicam alucinadamente todo tipo de podridão, das mamadeiras de piroca ao ódio contra vacinas. Essa tarefa está prejudicada. Os vagabundos terão que se readequar. E os alucinados que escolheram o lado da maldade não serão impedidos de prestar o seu culto, mas o farão com mais trabalho e gastando mais tempo. Se acham que essa luta vale a pena, morram por ela. 

No mais, feliz páscoa, gente.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A árvore não cai longe do pé

Despreparados, canalhas, hostis, desprovidos de inteligência emocional (além das outras), cegos ao interesse dos brasileiros, etc. Assim é a malta que compõe o primeiro escalão do governo federal hoje em dia (não me refiro aos demais, porque não conheço os titulares). E nem poderia ser diferente, pelo motivo indicado no título desta postagem.

Ainda que repugnado, consigo entender um Chicago boy tomando decisões econômicas que beneficiam os mais ricos e destroem os mais pobres. Consigo entender um ministro do meio ambiente abrindo a porteira para o agronegócio dizimar os recursos naturais do país. Consigo entender uma ministra do que deveria ser a pasta de direitos humanos implementando pautas religiosas canhestras. Entendo tudo isso, porque era o projeto anunciado e que foi eleito em 2018, sob os aplausos do que há de mais sórdido em nossa sociedade.

Mas esses desgraçados sempre estiveram aí, colonizando o Brasil. Não é novidade. Ocorre que, no passado, eles sabiam se comportar. Eram educados, polidos, sofisticados, loquazes, repletos de titulações, com sobrenomes quatrocentões, etc. A aristocracia viva em plena república. Agora, o governo federal é composto por um bando de animais hidrófobos, cuspindo e rosnando sem parar, e tomando atitudes de inacreditável infantilidade. Mas uma infantilidade nível bullying. Nível filme adolescente da Sessão da tarde.

Como explicar que o ministro da educação publique a sua já famosa tirinha? Abaixo:

Postagem de Weintraub que causou polêmica com chineses

A expressão é de uma criança que não foi além do nível da alfabetização. Mas o conteúdo é gravíssimo, pois reforça ofensas que já foram destinadas a China antes, por membros do governo. Tudo movido pela batalha ideológica. Comentários capazes de apavorar os empresários, que sabem muito bem o que significa irritar o maior parceiro comercial do Brasil.

Mesmo com os sustos anteriores, o tal de Weintraub se permitiu a publicação acima. E quando as consequências começaram a aparecer, ele se saiu com uma resposta que praticamente obriga os chineses a uma retaliação (leia aqui). Ou mais uma retaliação, haja vista que o Brasil já começou a pagar por seu mau comportamento, com a perda dos respiradores que compraria daquele país. Em vez de se retratar, o ministro reforça todos os argumentos pseudocientíficos que configuram o cerne da acusação de xenofobia e ainda impõe condições ao governo ofendido.

Honestamente, é tudo muito além de qualquer compreensão. E sem consequências no âmbito do governo. Claro: Weintraub está alinhado com o chefe. Enquanto seu staff renova as diabruras, o dublê de presidente segue pendurado nos testículos do canalha Trump, a quem deu a dispensa de vistos, a promessa de uma base militar no Maranhão e outras benesses, mas tomou apenas a falta de apoio para a candidatura do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU, a deportação humilhante de brasileiros, a manutenção de medidas econômicas protecionistas e, agora, a negociação com a China, em torno dos materiais de que nós estamos precisando. Imagine se não fosse Brasil acima de tudo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Exercício de futurologia, sempre para o mesmo lado

Nos mais de 11 anos que passei como assessor de um desembargador no Tribunal de Justiça do Estado do Pará, contribuí para a concessão de um número de liberdades provisórias e de ordens de habeas corpus muito superior ao padrão local, simplesmente porque... cumpríamos a Constituição de 1988! A liberdade é a regra; a prisão é a exceção. Este brocardo, óbvio de doer, estampa qualquer manual de processo penal e inúmeras decisões do Supremo Tribunal Federal proferidas na vigente ordem constitucional, mas é solenemente ignorada, deturpada e ridicularizada na praxe judicial.

O sistema punitivo, como denunciamos sem cessar ao longo de mais de 20 anos de docência, com respaldo em um número imenso de pesquisadores sérios (criminólogos, historiadores, sociólogos, filósofos, psicólogos, etc.), de diferentes matizes e nacionalidades, existe para punir os pobres e funciona por meio da autolegitimação de suas práticas segregadoras. É extremamente fácil decretar e manter prisões, mas é extremamente difícil conseguir a restituição da liberdade de um indivíduo, mesmo com todo o arcabouço jurídico criado para impedir isso.

Um dos motivos que nos fazia determinar a soltura do preso era a especulação. Sim, juízes se sentem absolutamente à vontade para praticar a vidência jurisdicional, mantendo o acusado preso porque existe a possibilidade de ele fugir, de coagir testemunhas, de praticar outros delitos, etc. A mera possibilidade, que "fundamenta" tantas decisões, resume-se à noção de que algo é possível simplesmente porque não é impossível. Nesse sentido, é perfeitamente possível que qualquer um de nós morra ainda hoje, que ganhe na loteria, que escorregue no chão molhado do banheiro. Quando a "fundamentação" judicial se resumia a esse tipo de despautério, nós concedíamos a liberdade, se nada houvesse nos autos, de concreto, indicando risco de fuga (p. ex., o acusado comprou uma passagem aérea), de coação a testemunha (ele ao menos tentou manter contato efetivo com a pessoa) ou da prática de outro delito (ele foi flagrado em situação sugestiva de atos ao menos preparatórios de crime).

Muitas vezes escrevi que ao juiz não cabe especular. A liberdade individual é coisa muito séria para depender de caprichos e fantasias.

Anos se passaram e a situação somente se agravou. O punitivismo e o encarceramento foram naturalizados a um nível tão extremo que qualquer ponderação em contrário é imediatamente rejeitada, tratada como má-fé, ingenuidade ou burrice. A "Operação Lava Jato" consolidou a prática de fins que justificam os meios; o STF legitimou diversas violações à Constituição; todo brasileiro no botequim virou especialista em direito e processo penal e a mídia... É, a mídia não mudou. Continua fazendo o que sempre fez. Mas agora com a concorrência da internet, onde todos são especialistas e cospem sangue pelos olhos.

Esta longa introdução foi motivada por reportagem que li há pouco, dando conta de que uma juíza, na comarca de Guararema, a 80 Km da capital paulista, negou liberdade provisória a um preso hipertenso porque ele poderia violar a quarentena! Veja que fofa a "fundamentação": "é lógico, e não precisa grandes elucubrações argumentativas para se concluir isso, que aquele que está preso por violar norma penal (...) não teria muita dificuldade, ou freios internos para violar regras sanitárias para permanência em domicílio". Pronto. Simples assim. E para a magistrada é simples mesmo, tanto que ela já dá o seu argumento como "lógico" e evidente. Aqui o link para a reportagem: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/juiza-supoe-que-preso-descumprira-quarentena-do-coronavirus-e-nega-pedido-de-liberdade.shtml.

Afora tudo o que já escrevi acima, muita coisa poderia ser pensada para refutar o exercício de futurologia da juíza. A começar pela rejeição da falsa premissa de que as pessoas agem movidas por critérios decisórios óbvios e comuns a toda a gente. O sujeito está preso porque tentou matar alguém, supostamente. Mas qual a relação entre esse fato e a conclusão de que ele não teria medo de expor a si mesmo ou a seus familiares ao risco de contaminação? E se ele possuir um pai ou mãe idoso, que pretende proteger? E se a hipertensão o tornou excessivamente cuidadoso com a própria saúde? Estou especulando, eu sei. Mas é só para mostrar que especulação é isso: tem para todos os gostos e não é garantia de nada.

Só que a minha especulação em postagem de um obscuro blog não gera os danos do achismo aposto a uma decisão judicial. E mesmo assim tento ser responsável pelo que escrevo. Por que outras pessoas não fazem o mesmo?

terça-feira, 31 de março de 2020

Você precisa conhecer o Efeito Dunning-Kruger, porque o vê toda hora e padece dele, também

O vídeo abaixo apareceu de repente em minha frente e, de imediato, decidi compartilhá-lo. Trata-se de uma explicação simples, mas bem precisa, de um fenômeno que, em alguma medida, diz respeito a todos nós.


Em meus diferentes meios de convivência, deparei-me com pessoas que se superestimam ao extremo (embora não possamos perder de vista que o Efeito Dunning-Kruger também é uma explicação para aqueles que se menosprezam). Meus ambientes profissionais são campos particularmente propícios para essa falta de autopercepção. O que não falta nos mundos jurídico e acadêmico, repletos de excelências e doutores, é gente que se acha a última bolacha do pacote, a última revolução científica, o último grito de carnaval da filosofia ou da arte.

Nos últimos tempos, infelizmente, a arrogância insana pulou para a rotina das relações humanas; virou quase a tônica do cotidiano. Qual a diferença entre um cara que acha que seu rosto será invisibilizado por suco de limão e um terraplanista? Nenhuma. Como tolerar que conhecimento científico seja tratado como nada diante do que o sujeito sente ou acha? Trata-se de um comportamento extremamente perigoso.

Doenças estão retornando porque gente inominável acha que vacinas são maléficas. E todo dia a democracia morre um pouco, por causa dos iluminados que acham que populismo, exploração da fé e disseminação da ignorância são caminhos desejáveis. Sabemos aonde isso nos levará. Ou deveríamos saber.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Não é incrível que pessoas menosprezem a ciência?

Acabei de ler uma interessante matéria sobre Ignaz Semmelweis, médico húngaro que lutou pela implantação de um hábito simples ― lavar aos mãos ― como forma de evitar as elevadíssimas taxas de mortalidade nos hospitais europeus, na primeira metade do século XIX. Sua obstinação lhe custou até uma internação forçada em hospital psiquiátrico, diretamente relacionada a sua morte. Leia clicando aqui.

Eu já sabia que os profissionais de saúde se opuseram por muito tempo à teoria de que elementos invisíveis seriam os causadores de doenças e infecções, e que mortes se tornariam evitáveis com medidas tão singelas quanto manter a higiene. Hoje, causa-nos perplexidade pensar nisso, mas simplesmente pelo fato de que crescemos em um mundo em que a higiene era não apenas uma questão de saúde, mas também de inserção social. Nossos cérebros foram moldados em torno desse padrão. Para quem viveu aquela época, a ideia estava longe da obviedade.

Cerca de 180 anos mais tarde, o ato de lavar as mãos voltou ao olho do furacão ― e um furacão bem mais maldoso, porque agora falamos de uma pandemia, com efeitos globais. E lavar aos mãos por pelo menos 20 segundos, esfregando bem todas as partes delas, pode fazer uma gigantesca diferença na batalha contra outro inimigo invisível.

Ao tempo em que agradecemos a pioneiros como Semmelweis, lamentamos como o tempo passa e os loucos, imbecis ou canalhas continuam menosprezando a ciência, rejeitando todas as evidências e defendendo especulações ou sandices, tudo em nome de seus projetos pessoais ou classistas. Enquanto essas pessoas permanecerem em posições de destaque, a lucidez acabará sempre internada, maltratada e assassinada.

Felizmente, o tempo passa e a verdade se afirma.

quinta-feira, 19 de março de 2020

É preciso calá-los

Algumas verdades são evidentes a qualquer um que não esteja contaminado pelo mais perigoso agente patológico em circulação no país: o bolsonarovírus. Por exemplo: a economia, única coisa que parece importar ao brasileiro médio, não melhorou, mesmo após 1 ano, 2 meses e 19 dias de governo salvacionista. Não apenas não melhorou como tem matado do coração muitos investidores internos e afastado os externos, porque não sentem segurança alguma em investir por aqui. E isso mesmo com as "reformas" que, desde 2016, somente serviram para suprimir direitos de cidadania.

No entanto, o pior governo civil da História segue como sempre: inócuo em toda e qualquer área; comprometido com a supressão de direitos; medíocre e agressivo em todas as suas manifestações; incapaz de manter aliados mesmo no próprio partido; eficiente apenas em submeter o Brasil a humilhações internacionais cada vez mais dramáticas. E, claro, governando por tweets estúpidos, que mostram como estamos sob o comando de um valentão de escola, que quer resolver tudo na porrada, mas se cerca de jagunços para isso, porque ele mesmo não consegue fazer sequer uma flexão. As hoje onipresentes fake news e as grosserias colossais, que ajudaram a colocar essa escumalha no poder, são também uma estratégia de governo. Basta surgir uma situação embaraçosa ou um indicativo desfavorável e o Bolso Pai, ou um dos Bolsos Filhos, dispara uma lacração diferente, aplaudida pela claque, e que mobiliza não apenas a sociedade civil, mas também a classe política, a imprensa, as organizações ativistas, etc., para tentar impedir o desvario da ocasião.

Aliás, o Brasil surreal implantado em 2018 conta com essa característica inédita e singular: a de ser o único país no mundo em que o governo fala não apenas por seu titular e por um porta-voz, mas também pelos filhos do primeiro, proporcionando um show à parte na inacreditável competição para se saber quem é o mais intelectualmente indigente e emocionalmente desequilibrado. Dos três rebentos, o mais ativo nessa disputa é o tal de Eduardo, vulgo "03", por se prevalecer de um mandato de deputado federal para dar vazão aos seus arroubos.

A mais recente, e que motivou esta postagem, foi o tweet acusando a China de omitir informações relevantes, o que seria causa da perda de controle da situação, a ponto de termos, agora, uma pandemia. A resposta da embaixada chinesa foi mordaz e contundente, aludindo, inclusive, à postura lambe-botas que o clã presidencial tem em relação aos Estados Unidos do outro nojento, o tal de Trump.

Quando li sobre isso, já sabia o que aconteceria. E não deu outra: a turma da bancada ruralista, aboletada no Congresso Nacional, reagiu desautorizando a fala do abestado. Lógico. Embora os ruralistas atuem para implodir os direitos trabalhistas e ambientais, liberando a exploração ilimitada dos recursos naturais para maximização de seus lucros no mínimo de tempo possível, eles não são burros. Se bem que qualquer um que não tenha preocupações ambientais, no final das contas, é um completo idiota, porque todos vivemos no mesmo planeta. Digamos diferente, então: eles são coerentes com suas agendas e conseguem raciocinar com clareza (habilidade ausente naquela família lá). Se a China é o maior parceiro comercial do Brasil na atualidade, deve ser tratada com respeito. Se os chineses decidirem retaliar o país, aí a desgraça não terá precedentes, inclusive porque não será sentida apenas pelos pobres.

Vale lembrar que, ainda no começo do desgoverno, quando o presidente bostejava a todo momento contra a legislação ambiental, contra o IBAMA, contra a ciência que mostrava o nível de desmatamento, contra as reservas indígenas, contra a Amazônia, etc., a bancada ruralista já acendeu a luz vermelha. Porque, para os países do chamado Primeiro Mundo, a preservação ambiental é importante, ao menos no nível em que eles podem deixar de comprar produtos de indústrias predatórias. Ali os safardanas sentiram que o governo que eles ajudaram a eleger podia acabar com eles, por suas péssimas escolhas e por sua incapacidade de calar a boca. O episódio de hoje é apenas uma lembrança disso, se é que alguém esqueceu.

Enfim, segundo analistas, o isolamento do governo continua aumentando. E nem assim o clã muda de rota, até porque, provavelmente, não conseguem mesmo. São limitados demais até para isso. E de desvario em desvario, vão arrostando o país para uma situação cada vez pior. Por isso abri este texto inventando um "bolsonarovírus". Uma doença que ainda acomete uma quantidade inacreditável de brasileiros, como as manifestações do último dia 15 mostraram. Gente tão empedernida que não enxerga para onde estamos indo e que os danos ora causados demorarão muito para ser corrigidos, se possível, e a um custo inimaginável.

Enquanto os Bolsos e os doentes que os apoiam falarem, estaremos a caminho da falência múltipla de órgãos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Há mais alguém insone por aí

Publico um texto em plena madrugada e, vejam só, alguém o visualiza logo em seguida.

Curioso este mundo virtual. Eu e outra pessoa estamos no mesmo lugar, ao mesmo tempo, mas esse lugar existe apenas em uma codificação de zeros e uns. É um não estar. Sabe lá quem é essa pessoa e que motivos a mantêm desperta a uma hora dessas.

Seja como for, o corpo precisa repousar. Eu lhes desejo bom descanso e uma feliz quinta-feira.

A segunda garota

Júlia surgiu em minha vida ao raiar do dia 6 de dezembro de 2007, uma quinta-feira, quando uma animadíssima Polyana, não suportando mais esperar, me acordou para contar que o teste de farmácia dera positivo. "Você vai ser papai", foram suas palavras, com olhos luminosos e úmidos. A partir dali, tudo se tornou Júlia. Tudo passou a ser ela e por ela.

Vivíamos o tempo dos blogs. Antes de se limitarem às redes sociais, muitas pessoas se expunham em seus próprios blogs, nos quais palpitavam sobre qualquer coisa ou sobre temas em particular. O Yúdice falastrão e opinioso daquela época se expunha aqui e registrou a novidade na postagem "A maior de todas as aventuras começa", que continha apenas um anúncio abrupto e empolgado. Uma semana depois, na quarta postagem que fiz sob o marcador "paternidade", eu já me questionava: "Será que meu filho um dia se aborrecerá de ter sido exposto à curiosidade pública desse jeito?" Recordo-me que, à época, alguém me disse para relaxar, pois as crianças que estavam nascendo já chegavam a um mundo conectado, então para elas essa exposição seria natural.

O tempo foi passando e, seguindo a concepção de blog como um diário, eu registrava de vez em quando o avanço da gestação. Aqui e ali, um ser humano patético despejava sobre mim e meu bebê os seus tumultos íntimos. Naquela época, eu respondia. Felizmente, não me abatia, porque estava muito cercado de amor por todos os lados, o que também foi devidamente anotado.

A insônia da madrugada me trouxe às postagens antigas e constatei que Margot não teve nada disso. Teve, é claro, um anúncio, propositalmente intitulado "A maior de todas as aventuras se repete", para criar um laço com a gestação anterior. Mas esse anúncio foi feito apenas em 23.10.2019, quase três meses após o início da gestação. Àquela altura, já sabíamos que estávamos à espera de mais uma garotinha, exatamente como queríamos, e seu nome estava escolhido. Esta é a segunda postagem que lhe dedico, neste momento em que estamos no limiar da 35ª semana gestacional. Meu questionamento atual pode ser: será que minha filha um dia se aborrecerá de ter sido menos comentada do que a irmã? Espero que não. O que mudou?

Basicamente, tudo mudou. Se não podemos banhar-nos duas vezes nas águas do mesmo rio, que dirá voltar a mergulhar com uma diferença superior a 11 anos! A era dos blogs acabou, substituída pelas facilidades das redes sociais e sua busca alucinada por ostentar sucesso e felicidade. Eu também caí nessa esparrela. Afinal, era jovem e tolo. Atualmente, não sou mais tão jovem... As redes sociais começaram a minar este blog, mas nada que se compare às mudanças que se operaram em mim. O Yúdice de 2019 ainda conservava a saúde física, mas a espiritual... Deixemos isto para lá. Não é o tema.

Margot foi tão planejada e desejada quanto Júlia. A diferença é que precisamos lutar por ela. E você deve saber como é: lutas vencidas são dádivas, mas sempre deixam marcas. Houve inúmeros percalços no caminho, então esta garotinha vai encontrar um pai mais velho, mais calejado, mais comedido, mais silencioso, mais realista. Cheio de saudade e tristeza, também, mas quero crer que as perdas serão compensadas por outros atributos, especialmente algum know how para, quem sabe, ser um pai melhor. E até uma pessoa melhor, nesse aprendizado de calar, sorrir, entender que as pessoas são como são e deixar o mundo seguir seu curso. Alguém, enfim, que economiza energia para as batalhas que realmente vale a pena travar.

A espera está sendo longa e ainda não acabou. Uma trajetória muito diferente e cheia de curiosidade. Mas que está, enfim, se encaminhando para o seu... recomeço! É uma vida que vem à luz, então não cabe falar de fim. Vamos ao mais novo ato deste grande teatro do qual somos todos atores, uns mais mambembes do que outros. E a mim basta ser espectador das duas meninas que coloquei no palco, junto com Polyana. Para mim, divas supremas da mais bela ópera.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O ápice da irracionalidade de Estado

Quando se pensa em filmes com temática de oposição à pena de morte, é possível que o primeiro título que venha à mente seja A vida de David Gale (The life of David Gale, dir. Alan Parker, 2003). Na trama, um professor e ativista contra a pena capital é condenado à dita cuja, pelo estupro e assassinato de uma amiga. Está em questão, como sempre, um possível erro judiciário, mas o roteiro tenta oferecer mais do que isso como solução para o drama.


Mas não podemos esquecer-nos do excelente Os últimos passos de um homem (Dead man walking, dir. Tim Robbins, 1995), baseado no livro da freira Helen Prejean, contando a experiência real que teve como guia espiritual de um condenado à morte. Embora o julgamento se baseasse em provas questionáveis, a verdade por trás da sentença leva a um contundente discurso sobre quão errado é matar, não importam as circunstâncias.


Podemos recordar até o maravilhoso À espera de um milagre (The green mile, dir. Frank Darabont, 1999). Drama com realismo fantástico baseado em romance de Stephen King, a princípio tem mais a ver com poderes sobrenaturais e suas consequências sobre as vidas afetadas. Mas pode ser bem explorado por um criminólogo, já que ali temos um negro considerado ameaçador por seu porte físico e sua condição de forasteiro (estereotipização) e o empenho da comunidade em condená-lo simplesmente porque tudo indica que seja culpado e não há outro suspeito.


A lista acaba de ser honrosamente ampliada com Luta por justiça (Just mercy, dir. Destin Daniel Cretton, 2019). Aqui temos a inusitada história real de Bryan Stevenson, um jovem negro americano que saiu de uma infância de grande pobreza para a oportunidade de cursar Direito em Harvard (ainda gostaria de saber como pagou por seus estudos). Idealista, abdicou da possibilidade de uma carreira como quase todos buscam (de satisfação pessoal e sucesso financeiro) pelo objetivo de prestar assistência legal a condenados à morte no Estado do Alabama, uma região especialmente racista em um país essencialmente racista, como são os Estados Unidos. E como somos nós.


O filme, baseado no livro de Stevenson, se concentra no caso de Walter "Johnny D" McMillian, condenado à morte pelo assassinato de uma jovem branca de 18 anos. Todavia, a intenção não é narrar mais uma história de um Davi negro contra o Golias-Estado, com sua eterna cantilena sobre "justiça" e "respostas para a sociedade". O objetivo é denunciar, mais uma vez, um sistema concebido para punir os negros simplesmente por essa sua condição. Isso explica o promotor de justiça dizer que tem certeza da culpa do réu só de lhe olhar a cara. Isso também explica o forjar de provas, a coação de testemunhas, a fabricação de falsos depoimentos, a perseguição ao advogado e a quem possa auxiliá-lo, bem como a tranquilidade com que o judiciário insiste em ignorar provas ou a falta delas. Um grande mais do mesmo que precisa ser repetido à exaustão, já que vivemos hoje como há 10, 20, 50 anos atrás e, aparentemente, a maioria de nós prefere assim, nem que seja por omissão.


O maior mérito de Luta por justiça (não gosto do título em português, mas reconheço que tem coerência com as falas dos personagens), contudo, não é mostrar a defesa que falha ou a que dá certo; nem mesmo a previsível reação da população branca, e particularmente da polícia, ao trabalho em prol dos condenados mais odiados. Mas dar o devido destaque a um dentre os diversos movimentos em atuação nos Estados Unidos, para garantir uma defesa tecnicamente competente e o efetivo respeito aos direitos constitucionais, penais e processuais (ou, como preferem os estadunidenses, os "direitos civis") de uma população vulnerável e intensamente perseguida. Pessoas que, nas palavras de Johnny D, já nascem condenadas.

Os verdadeiros McMilian e Stevenson

No caso de Stevenson, a organização se chama Equal Justice Iniciative, fundada em 1989 e ainda em atividade. Aliás, foi um bálsamo, para mim, saber que Stevenson, hoje com 60 anos, segue vivo e atuante, à frente de uma grande equipe de advogados, que já conseguiu reverter mais de 140 condenações à morte. Se o número assusta, as legendas finais também informam que, de cada 9 condenações à morte, 1 acaba revertida, provando de modo cabal que o sistema punitivo impõe sofrimento extremo e irremediável com absolutas tranquilidade e irresponsabilidade. Nada mais natural supor que, com um pouco mais de boa vontade, a estarrecedora estatística de "erros" judiciários seria ainda mais alarmante.

O objetivo desta postagem não era fazer uma crítica sobre o filme, tarefa que deixo aos que realmente entendem do riscado, os quais dividirão espaço com os inúmeros donos da verdade que habitam a internet. Mas, ainda sob o efeito da sessão que compartilhei com minha filha, quis trazer à baila a importância de filmes como este, que não precisam ser originais ou inovadores, porque a repetição de certas fórmulas e temáticas é a prova, que nos soca a cara, do quanto insistimos em não melhorar enquanto humanidade, preferindo os discursos vazios com que pretendemos legitimar o olho por olho como expressão de justiça ainda em nossos dias.

[Post scriptum]

Expliquei a minha filha que essas tantas iniciativas estadunidenses de assistência jurídica a condenados surgiram por causa da pena de morte, uma realidade diferente da brasileira. Ela me questionou se temos pena de morte no Brasil. E aí chegamos ao vespeiro. A Constituição de 1988 dispõe que somente condenados por crimes de guerra, em situação de guerra declarada, poderiam sofrer a tal pena capital (que, segundos muitos, nem pode ser considerada como "pena", já que não possui idoneidade ressocializadora nem preventiva, resumindo-se a mera vingança).

Mas entre as intenções legisladas e a realidade cotidiana do extermínio negro nas ruas de cada cidade brasileira medeia um abismo tão horrendo que, ouso dizer, somos bem piores do que a pior máquina de gastar gente (termo de Darcy Ribeiro) do Ocidente, que é o sistema punitivo daquela que se autoproclama "America". Porque sequer nos damos ao trabalho de fingir uma aparência de legalidade. Vamos pela via da execução sumária, mesmo. Notória, legitimada pelo silêncio obsequioso das agências punitivas e aclamada, com todo o entusiasmo, pelos aplausos da gente de bem.