quarta-feira, 19 de julho de 2017

MP sem pudor?

Tenho escutado com alguma frequência, por parte de estudiosos de viés crítico, que os canalhas têm perdido a vergonha. Com efeito, foi-se o tempo em que as pessoas tentavam disfarçar a canalhice, a maldade, a burrice, o preconceito e outras vilanias. Agora está na moda mostrar tudo isso, porque você se alinha ao "pensamento" e ao sentimento reinantes no país.

Começou a repercutir na internet o anúncio de um seminário a ser realizado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 15.9.2017, sob o tema "Segurança pública como direito fundamental". Basta o título para entendermos a proposta: o negócio é parar com esse papo de direitos humanos, porque o direito fundamental que realmente interessa é o tal à segurança. O resto é balela de intelectualoides esquerdistas.


Como não se deve acreditar no que se vê na internet, dei-me ao trabalho de acessar o sítio do MPRJ. Naveguei por ele e encontrei o link "Eventos". Clicando nele, fui redirecionado a uma página contendo quatro atividades, datadas para julho e agosto. Nada sobre setembro, nada sobre o deboche aí em cima. Mas é importante ressaltar, em favor daquela instituição, que as pautas confirmadas envolvem questões técnicas sobre obras públicas, uma audiência pública sobre segurança e os dois eventos de agosto são relacionados à justiça restaurativa: um com o belo tema "Perdão e resiliência" e o outro é um relato de experiência da Promotoria de Justiça de Petrópolis sobre álcool e outras drogas.

Importante ressaltar, portanto, que há trabalho sério e honesto sendo realizado no MPRJ. Nem tudo está perdido. Mas voltando ao tal seminário, não encontrei nada sobre ele no sítio institucional, por isso decidi dar uma googlada. Obtive alguns resultados, inclusive estudos acadêmicos, mas simplesmente não surgiu nada sobre o tal seminário. Observei, então, um selo com a legenda "Movimento de Combate à Impunidade". Procurei por ele e encontrei uma página do Facebook, que se apresenta assim: "Cansados de ver a impunidade que impera e que traz enorme desânimo aos cidadãos do Brasil, Juízes e Membros do MP se uniram para debater e reagir."

Nessa página, contudo, também não há qualquer alusão ao seminário. Em consequência, sou forçado a duvidar da veracidade da iniciativa, apesar de algumas pessoas respeitáveis, como o criminólogo Pedro Abramovay, estarem registrando seus protestos.

Eu teria algumas coisas a dizer, afinal, se por um lado há alguma sutileza em discursos do tipo "direito penal da vítima", por outro causa perplexidade ver subtemas como "Desencarceramento mata" e "Bandidolatria e democídio", que são absurdos tão escandalosos que, honestamente, me puseram incrédulo desde que vi o tal prospecto pela primeira vez. Seria o alinhamento descarado de uma agência de segurança pública à mais deliberada violência institucional contra direitos fundamentais. Seria o MP capaz disso?

Seria, sim. Nós todos sabemos que seria. As agências de segurança pública, em países de democracia combalida como o Brasil, discursam em nome do tal bem comum, que obviamente não existe, da proteção de bens jurídicos e, justamente, dos direitos fundamentais, mas sua praxe é violentamente oposta a todos eles. E nestes tempos em que mergulhamos fundo e convictamente no fascismo e no mais descarado escárnio contra valores humanos, seria uma ocasião oportuna para iniciativas como esta.

Mas para não correr o risco de cair na pegadinha, fico por aqui. Caso esse seminário seja verdadeiro, mesmo, teremos mais o que dizer sobre ele.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Houve um tempo

O tempo dos blogs acabou faz tempo. Mais de 10 anos atrás, estavam no auge. Qualquer pessoa, inclusive insignificâncias como eu, criavam os seus e se danavam a falar sobre tudo e mais um pouco. Mas o curioso é que havia audiência e reciprocidade. Criei um grupo muito seleto de amigos na blogosfera. Mais de uma década depois, seguem tão amigos e tão virtuais quanto antes.

Mas a internet é impiedosa e as ferramentas vão se sucedendo e mudando as práticas. As redes sociais são um fator relevante. O finado Orkut nem tanto, talvez porque as pessoas se organizassem em torno das comunidades. Mas o modelo do Facebook privilegia as postagens individuais, a emissão de opiniões, de modo que aquelas ideias que você compartilhava em seu blog começaram a migrar para a plataforma do Zuckerberg, por ser mais rápida e proporcionar maior alcance.

Também surgiram outras redes, como o Twitter, esmagando a expressão na banalidade de seus 140 caracteres. As pessoas, que já liam pouco, ficaram cada vez mais convictas de que qualquer coisa com dois parágrafos já é um "textão". É ridículo e triste, mas as pessoas hoje em dia pedem desculpas por escrever dois parágrafos! Sem dúvida, o mundo empobreceu.

Com tantas redes sociais, nas quais as pessoas se danaram a publicar de tudo, inclusive as maiores tolices e desimportâncias, como o passo a passo do próprio dia ou os check ins e check outs de qualquer coisa, além de mergulhar na fantasia da felicidade, mostrando ao mundo apenas os lados mais recortados da vida real, blogs não tinham mais espaço e foram se requalificando. Os que permaneceram ganharam objetos mais delimitados, à exceção talvez dos jornalísticos, que seguem versando sobre qualquer coisa. Hoje, sucesso na internet é ser youtuber. Mas você também pode ser um blogueiro bem sucedido se publicar sobre coisas importantes, como moda e maquiagem. Obviamente, há elevadas doses de ironia aqui.

A par dessa reconfiguração, eu também mudei. E muito. Perdi o élan para a ação virtual, bem como a disposição para os conflitos que frequentemente surgiam. Também percebi que não preciso ter opinião sobre tudo e, mesmo tendo, não preciso compartilhar todas. Nem me animo mais as afirmações contundentes, que me colocavam tão dono da verdade, o que ninguém é. Nesse ponto, acho que melhorei. Em meio a isso tudo, claro, houve os meus dramas familiares, que me roubaram quase toda a disposição. Com tudo isso, este blog entrou em estado terminal e, a despeito dos esforços, nunca mais saiu.

Volta e meia, sinto vontade de mantê-lo vivo. Afinal, há umas postagens bem interessantes nele; algumas até engraçadas. Acima de tudo, ele poderia ser requalificado como um blog de interesse para estudiosos das ciências criminais. Por isso ele vai ficando. Uma hora, eu acerto a mão. E de vez em quando alguém passa por aqui e me lê. Às vezes de muito longe. Isso é realmente legal.

O blog é um arquivo de quase 11 anos de uma vida. Isso pode não significar nada para quase ninguém, mas significa para mim. Acredito que justifique sua permanência. Mesmo com esta sensação de escrever para mim mesmo. Mas vai que alguém aparece por aqui? Que seja bem vindo, então. Receba meu abraço.