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domingo, 28 de fevereiro de 2021

Pessoas que precisam ser conhecidas #3

Parte de minha mente se recusa a acreditar que pessoas que tiveram a oportunidade de frequentar escolas desconheçam o cientista de múltiplas áreas Carl Sagan, inclusive por ter sido (que eu saiba) o primeiro e ainda hoje o mais famoso divulgador de ciência em mídias de massa. Mas, em tempos de embrutecimento (quis ser elegante e por isso não escrevi "emburrecimento"), pode-se esperar o pior.

Eu era muito criança para me concentrar nos episódios da famosa série Cosmos, exibida na década de 1980, a que meu irmão Hudson assistia com vivo interesse. Mas eu me recordo de uma cena em que o apresentador viajava pelo universo, ao som do maravilhoso tema composto pelo músico grego Vangelis, que ainda hoje me emociona. Ali eu aprendi que havia um Carl Sagan no mundo e que ele era muito importante.

O tempo passou e aprendi um pouco mais sobre ele. Vi o filme Contato (1997) e depois li o livro que o inspirou. Excelentes. Comprei outros títulos do autor, que ainda preciso ler. E confesso que não sabia tudo o que Sagan foi: sua história, seu amor pela educação e seu ativismo social. O vídeo abaixo me surpreendeu com essas nuanças e me fez respeitar muito mais esse grande ser humano.


Nossos agradecimentos, Sagan.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Pergunta pra mim!

Nunca fui abordado por algum instituto de pesquisa, para me perguntar sobre intenção de voto. E eu realmente gostaria de participar. No final da manhã de hoje, achei que minha oportunidade chegara, mas não deu.

A pesquisadora disse que ainda precisava entrevistar uma pessoa, mas precisava ser um homem na faixa etária entre 33 e 44 anos. Completei 45 há menos de 3 meses, mas por causa disso eu não me encaixava no perfil procurado. A moça se desculpou pelo incômodo (incômodo algum) e seguiu seu caminho. Naquele calor do cão, ia de casa em casa procurando um respondente adequado. Pelo menos eu a ajudei a pular uma casa, pois sei que entre meus vizinhos da direita ninguém corresponde ao tipo procurado.

O episódio ao menos serviu para demonstrar que, ao contrário do que pensa muita gente desinformada, há sim credibilidade nas pesquisas de intenção de voto. Não me refiro, claro, àquelas pesquisas encomendadas, safadas na origem, que já ajudaram a eleger muita gente. Esse tipo de fraude ficou mais difícil, creio, tanto pela criação de maiores mecanismos de controle quanto pelos poderes fiscalizatórios da internet. Ocorre que há pessoas que duvidam da estatística em si mesma, isso antes mesmo da atual era do negacionismo científico. Por ignorância, naturalmente, pois não entendem como funciona.

Hoje, tive uma pequena demonstração de como a estatística, por meio de parâmetros de sexo, idade, condição financeira, nível de instrução, etc., vai desenhando um perfil da população investigada, que torna possível o recorte ser uma expressão mais ou menos fiel do todo. Já haviam me explicado isso, mas foi interessante ver a coisa funcionar, na prática.

Só espero que chegue o dia em que eu finalmente possa responder.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Pessoas que precisam ser conhecidas

Maurice Hilleman (1919-2005), microbiologista estadunidense, o maior desenvolvedor de vacinas da História.



Sem espaço para os irresponsáveis que se opõem a vacinas, externo a Hilleman nossa gratidão.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Não é incrível que pessoas menosprezem a ciência?

Acabei de ler uma interessante matéria sobre Ignaz Semmelweis, médico húngaro que lutou pela implantação de um hábito simples ― lavar aos mãos ― como forma de evitar as elevadíssimas taxas de mortalidade nos hospitais europeus, na primeira metade do século XIX. Sua obstinação lhe custou até uma internação forçada em hospital psiquiátrico, diretamente relacionada a sua morte. Leia clicando aqui.

Eu já sabia que os profissionais de saúde se opuseram por muito tempo à teoria de que elementos invisíveis seriam os causadores de doenças e infecções, e que mortes se tornariam evitáveis com medidas tão singelas quanto manter a higiene. Hoje, causa-nos perplexidade pensar nisso, mas simplesmente pelo fato de que crescemos em um mundo em que a higiene era não apenas uma questão de saúde, mas também de inserção social. Nossos cérebros foram moldados em torno desse padrão. Para quem viveu aquela época, a ideia estava longe da obviedade.

Cerca de 180 anos mais tarde, o ato de lavar as mãos voltou ao olho do furacão ― e um furacão bem mais maldoso, porque agora falamos de uma pandemia, com efeitos globais. E lavar aos mãos por pelo menos 20 segundos, esfregando bem todas as partes delas, pode fazer uma gigantesca diferença na batalha contra outro inimigo invisível.

Ao tempo em que agradecemos a pioneiros como Semmelweis, lamentamos como o tempo passa e os loucos, imbecis ou canalhas continuam menosprezando a ciência, rejeitando todas as evidências e defendendo especulações ou sandices, tudo em nome de seus projetos pessoais ou classistas. Enquanto essas pessoas permanecerem em posições de destaque, a lucidez acabará sempre internada, maltratada e assassinada.

Felizmente, o tempo passa e a verdade se afirma.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Nosso DNA

Muita boa a matéria do Uol sobre DNA. Mostra que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, as características genéticas estão muito longe de ser determinantes no comportamento humano, havendo imperiosa necessidade de complementação por fatores ambientais. Assim, violência, comportamento antissocial, homossexualidade e outros temas polêmicos sem dúvida possuem um fundo genético, mas os genes não impõem esses atributos. A ciência reabilita o livre arbítrio, onde possível.

Confira aqui.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Maravilhosamente NASA

Em especial para a pequena astrônoma que tenho em casa, postagem do site Hypeness: oito projetos espetaculares, que a NASA está desenvolvendo.

A NASA (The National Aeronautics and Space Administration) tem dado grandes passos em prol de novas descobertas e recentemente tomou a decisão de construir a primeira nave espacial que pousará num asteroide. A revista Exame listou este e outros sete projetos bacanas da agência espacial americana que estão em andamento. Vale a pena conhecer:

1. Pouso em asteroide

No início do ano, foi autorizado o início da construção da OSIRIS-Rex, primeira nave espacial destinada a pousar num asteroide, no caso, o chamado Bennu, que se aproximará da Terra em 2018. A previsão de lançamento é em 2016 a partir do Centro Espacial Kennedy e a missão pode trazer pistas sobre a origem do Sistema Solar e das moléculas responsáveis pela vida em nosso planeta, de acordo com o material coletado por um ano.

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2. Robô elástico

Com varetas metálicas flexíveis, com estrutura que alivia a tensão de impactos, o Super Ball Bot é um robô elástico adaptado para explorar planetas, considerada uma missão mais complexa e difícil. Seu desenvolvimento está em execução para que ele siga tranquilamente por terrenos acidentados e inacessíveis aos atuais jipes-robôs.

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3. Fazenda espacial

O sistema Veggie é um espaço de cultivo espacial, utilizado por astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional. Os vegetais, no caso alfaces, crescem sob luzes de LED cor de rosa para serem então enviados à NASA que vai estudar sua limpeza e saúde. Esta pode ser uma maneira interessante e mais em conta de manter a equipe em órbita bem alimentada, já que atualmente enviar 1 quilo de alimento custa 10 mil dólares.

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4. Impressora 3D de comida

A impressão 3D tem ganhado o mundo e é claro que a NASA não ficaria de fora de tamanha tecnologia. Acontece que eles investiram 125 mil dólares num protótipo que imprime comida, ideal para as longas viagens da equipe. Os cartuchos serão carregados com materiais biológicos, proteínas em pó, óleos e carboidratos, com validade de 30 anos. Testes já foram feitos com este sistema, resultando na impressão de um chocolate. O próximo passo será uma pizza.

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5. CubeSat

Com custo muito baixo, de até 3.500 reais, os pequenos satélites em formato de cubo têm ganhado a atenção da NASA. A NASA também tem investido em pequenos satélites, os CubeSats. Com apenas 10 centímetros de largura, são menores do que os convencionais, porém tão poderosos quanto, podendo ajudar as pesquisas espaciais, medindo temperaturas, dados magnéticos e tirando fotos da Terra.

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6. Drone, balões e submarino

Numa única exploração, a NASA se prepara para utilizar um submarino, drones e balões. Tudo isso é para alcançar o Titã, único astro do Sistema Solar que pode ter água além da Terra, e a maior lua de Saturno. Os drones irão estudar a superfície e a atmosfera do local, enquanto balões serão usados na expedição do satélite; já o submarino vai percorrer o Kraken Mare, um mar com 997 mil metros de comprimento e 304 metros de profundidade, ao norte de Titã.

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7. Modelos 3D de tecidos humanos

Se você é contra o uso de animais em estudos científicos, já pode se empolgar. Em parceria com aGRoK Technologies, a NASA trabalha num projeto chamado BioReplicates, modelos 3D de tecidos humanos que poderão ser usados em testes farmacêuticos, cosméticos e outros. Será esta a salvação de Beagles e ratinhos?

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8. Tecnologia Wolverine

Imagine se, assim como o mutante Wolverine, do X-Men, você pudesse se regenerar. Este pode ser o futuro segundo o projeto Scionic, tecnologia capaz de acelerar a regeneração de ossos e músculos por meio da criação de equipamentos médicos capazes de aliviar dores sem cirurgias ou remédios. Isso foi pensado, é claro, para que os astronautas não tenham problemas de perda óssea durante suas longas jornadas.

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Todas as fotos: Reprodução/Wired, Universe Today, Nasa

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pornografia vs. cérebro

Assistir pornografia é prejudicial para cérebro, diz estudo

Pesquisa alemã publicada nos EUA aponta que homens que passam muito tempo vendo pornografia na internet parecem ter menos massa cinzenta

Por: Doutíssima
Cientistas descobriram que pode haver uma relação entre o ato de ver pornografia durante várias horas por semana e o volume de massa cinzenta no lobo direito do cérebro. De acordo com especialistas do no Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, foi identificada também uma menor atividade do córtex pré-frontal.
Segundo os pesquisadores, “Esses efeitos podem incluir mudanças na plasticidade neuronal resultantes da intensa estimulação do centro de prazer”, acrescentam. O estudo foi publicado no Journal of the American Medical Association, Psychiatry.
Os especialistas afirmam que não é possível provar que esses fenômenos são causados pelo consumo de pornografia. Mas de acordo com os pesquisadores, este trabalho apresenta o primeiro indício da existência de uma ligação entre o ato de assistir pornografia e uma redução no tamanho e na atividade do cérebro em resposta à estimulação sexual.
Para a realização da pesquisa foram recrutados 64 homens na faixa etária de 21-45 anos e com boa saúde. Foi solicitado aos participantes que respondessem a um questionário sobre o tempo gasto assistindo a vídeos pornográficos, que resultou em uma média de quatro horas por semana. Eles também fizeram uma tomografia computadorizada (MRI) do cérebro para medir o volume e ver como ele reagiu a imagens pornográficas.
Os cientistas constataram que quanto mais os indivíduos assistiam a vídeos pornográficos e quanto maior era o estriado do cérebro, menor a estrutura nervosa logo abaixo do córtex cerebral.
Os pesquisadores também observaram que quanto mais elevado era o consumo de imagens pornográficas e maior as conexões entre o estriado e córtex pré-frontal, mais a camada externa do cérebro (ligada ao comportamento e tomada de decisão) foi deteriorada.
Outra conclusão do estudo afirma que “indivíduos cujo volume do estriado cerebral é menor pode precisar de estímulos externos mais para se divertir. Assim, eles buscam nos filmes pornográficos mais diversão, o que também pode levar a consumir mais, criando uma espécie de vício”.

A pesquisa mostra apenas uma relação entre um comportamento e uma característica neurológica, mas acredito que ainda seja cedo para propor conclusões muito gerais. Aguardemos cenas dos próximos capítulos.
Fonte: http://www.ormnews.com.br/noticia/assistir-pornografia-e-prejudicial-para-cerebro-diz-estudo#.VAc9h8VdX3Q

Quando a ciência se torna coisa de iniciados

"Quando um cientista pode considerar um paradigma como certo, não tem mais necessidade, nos seus trabalhos mais importantes, de tentar construir seu campo de estudos começando pelos primeiros princípios e justificando o uso de cada conceito introduzido. Isso pode ser deixado para os autores de manuais. Mas, dado o manual, o cientista criador pode começar sua pesquisa onde o manual a interrompe e desse modo concentrar-se exclusivamente nos aspectos mais sutis e esotéricos dos fenômenos naturais que preocupam o grupo. Na medida em que fizer isso, seus relatórios de pesquisa começarão a mudar, seguindo tipos de evolução que têm sido muito pouco estudados, mas cujos resultados modernos são óbvios para todos e opressivos para muitos. Suas pesquisas já não serão (...) [dirigidas] a todos os possíveis interessados no objeto de estudo do campo examinado. Em vez disso, aparecerão sob a forma de artigos breves, dirigidos apenas aos colegas de profissão, homens que certamente conhecem o paradigma partilhado e que demonstram ser os únicos capazes de ler os escritos a eles endereçados."

KHUN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 12ª edição, São Paulo: Perspectiva, 2013 (Debates, 115).

Thomas Samuel Kuhn (1922-1996)
À medida que avanço na leitura de A estrutura das revoluções científicas, torna-se claro por que se trata de um dos livros mais importantes já escritos, na área do conhecimento científico. A obra confirma, usando argumentos seguros, que o conhecimento se desenvolve mais graças às dúvidas do que às certezas.

As certezas têm mais a ver com o que chama de ciência normal, aquela que depende de consensos acerca de conhecimentos já produzidos (de onde surge o conceito de "paradigma", tão deturpado). Mas são as investigações sobre o que é desconhecido ou incerto que transforma ou elimina as certezas, elevando a ciência a um novo patamar.

No excerto acima, Kuhn distingue os conceitos objeto de consensos, os quais constam da literatura mais geral, dos compêndios e tratados, e orientam pesquisas cada vez mais específicas, cuja compreensão plena se restringe aos iniciados, na medida em que são apresentadas em artigos que pressupõem a familiaridade com aqueles consensos.

Eis aí mais uma razão para que, hoje, artigos especializados sejam referência teóricas mais valorizadas do que os livros.

Lembremos que Kuhn, ele mesmo um físico, construiu sua obra pensando nas ciências naturais, mas a todo momento ele se questiona sobre as relações com as ciências sociais. Até aqui, suas afirmações mais gerais me parecem passíveis de relacionar tanto às ciências naturais quanto sociais. E, sem dúvida, isso abre as nossas mentes. Vale a pena experimentar.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Exercícios mentais trágicos

Imagine a seguinte situação: em um dia qualquer, você sai de casa e sofre um acidente de trânsito ou então um assalto no qual é baleado. Como consequência, fica tetraplégico. Horrível de pensar, não? Mas existe solução? Pelo visto, existe sim: basta a seleção brasileira de futebol jogar e o Neymar fazer um gol. Aliás, segundo a imprensa, um golaço!

Ato contínuo, você se erguerá da cadeira de rodas e andará.

O brasileiro aí da foto se chama Miguel Ângelo Laporta Nicolelis, um médico e neurocientista paulista de 53 anos. Na década passada, foi apontado pela revista Scientific American como um dos 20 maiores cientistas do mundo. Premiado e reconhecido internacionalmente, lidera uma pesquisa da Universidade Duke (Durham, Estados Unidos), na área de fisiologia de órgãos e sistemas, que pretende permitir ao cérebro comandar próteses e, assim, permitir o movimento controlado e consciente a pessoas dotadas de deficiências físicas.

Segundo o seu currículo Lattes: "Atualmente é professor titular do Departamento de Neurobiologia e Co-Diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University (EUA), professor do Instituto Cérebro e Mente da Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça) e Presidente do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS). Tem experiência na área de Fisiologia, com ênfase em Neurofisiologia, atuando principalmente nos seguintes temas: informática médica, eletrofisiologia, sistemas sensoriais, sistema somestésico e próteses neurológicas."

Nicolelis deveria ser a melhor coisa da copa da FIFA no Brasil. Em minha opinião, a única coisa boa. Foi anunciado com anos de antecedência que, se tudo desse certo, na abertura do evento um paciente com deficiência usaria um exoesqueleto para chutar uma bola. Seria o primeiro chute da copa, uma demonstração dos méritos da ciência brasileira.

O chute aconteceu, no último dia 12. O voluntário Juliano Pinto, de 29 anos, usou o exoesqueleto. Mas a Globo, emissora oficial dos jogos, exibiu a cena por apenas 7 segundos, porque preferiu mostrar o ônibus da seleção brasileira chegando ao estádio. Sintomático. Pressionada nas redes sociais, a Globo culpou a FIFA pela escolha, omitindo o fato de possuir cinco câmeras exclusivas, fato de que se ufanou publicamente por muito tempo.

Assim, o cientista Nicolelis foi parar na fogueira da insanidade brasileira. A atual copa é menos um evento esportivo do que mais um capítulo na interminável, grosseira e burra guerra de pseudoideologias políticas e sociais em que estamos chafurdados. Você odeia o PT, então não pode elogiar a copa e, com isso, até uma pesquisa científica da maior relevância se tornou alvo de chacotas.

"Ideólogos" oficiais e mais conhecidos dos setores mais deprimentes da sociedade brasileira, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo tripudiaram do cientista que, felizmente, não deixou por menos e respondeu à altura (veja aqui). Mas ele não merecia ter seu nome sequer pronunciado por esses dois beócios. Para minorar um pouco os nossos pecados, este foi um caso em que mesmo a imprensa, deslumbrada e mal intencionada, sentiu que não podia ficar do lado dos maus: foi obrigada a valorizar Nicolelis e seu trabalho. Isso é um alento, sem dúvida, mesmo que amanhã somente os especialmente interessados no tema se recordem de seu nome. O restante do povo estará injetando a tabela da copa na veia.

Entusiasta da ciência, sou fã de Nicolelis, ainda que lamentando que a brasilidade de sua pesquisa dependa de políticas públicas e recursos estrangeiros, como sempre. Mas ela existe e traz o nome do Brasil na frente. Para iluminar os caminhos de quem pode vir a ser o futuro da ciência brasileira, se chegar o dia em que ela, enfim, seja levada a sério.

Até lá, os gritos de gol serão dados das cadeiras de rodas e leitos de hospital, como hoje em dia.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Uma questão de memória

Em minha ignorância, eu achava que não existia regeneração nas células cerebrais. Descubro, agora, que existe sim, mas apenas no hipocampo (ao menos no que diz respeito aos mamíferos).

Segundo Ballone*:

"O Hipocampo é uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano, considerada a principal sede da memória e importante componente do Sistema Límbico. Além disso é relacionado com a sensação espacial.

Esta estrutura parece ser muito importante para converter a memória a curto prazo em memória a longo prazo. A mágica que transforma informações em memória acontece em duas regiões do cérebro ao mesmo tempo: o Hipocampo (bem no centro do cérebro, na altura dos lobos temporais) e o córtex frontal (a massa cinzenta que reveste a fronte do cérebro). Cada vez que uma pessoa se lembra de algo, essas áreas sofrem um aumento de metabolismo e, consequentemente, do fluxo sanguíneo."

A descoberta recente dá conta de que, ao longo da vida, os neurônios do hipocampo vão sendo substituídos por outros, novos. Isso é bom, mas tem um senão: quando um neurônio se vai, leva consigo as memórias nele gravadas. E assim está explicado por que não nos recordamos de nossa infância. Com esta nova informação, os neurocientistas podem corrigir a crença de que a regeneração neuronal otimizava a memória e o aprendizado, abrindo novo campo de pesquisas. Quem sabe não podemos usar essa condição como estratégia para aprendermos mais?

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/novos-neuronios-podem-substituir-antigos-limpar-memoria-12480413

* http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicionario=602

quarta-feira, 19 de março de 2014

Implante para orgasmo

A manchete trombeteia: "Implante que leva ao orgasmo deve ser testado em mulheres ainda este ano". Logo abaixo, esta imagem, aqui reproduzida, reforça a curiosidade imediatamente nascida. Mas somente lendo a matéria você percebe que a coisa não é exatamente como supôs, na pressa. Não se trata de um aparelho por meio do qual toda e qualquer mulher possa provocar orgasmos, e sim de um verdadeiro tratamento de saúde, indicado exclusivamente para pacientes com diagnóstico de anorgasmia.

Leia a matéria para entender a parte técnica da questão. Esta postagem tem outro mote. Eu me pergunto se, uma vez homologada a maquininha, como tantas outras coisas que não deveriam cair em qualquer mãos mas caem, este invento não acabaria popularizado. Assim como não é difícil encontrar médicos que receitem anabolizantes ou que façam cirurgias plásticas desnecessárias e até inconvenientes, também não seria muito difícil encontrar um para implantar a maquininha do prazer em pacientes ansiosas e dispostas a pagar.

Se isso ocorrer, imagino que o equipamento entraria na lista dos sintomas destes tempos doentes. É como os remédios de que as pessoas se entopem hoje em dia, principalmente para transtornos (ou supostos transtornos) mentais ou comportamentais: o sujeito transfere para as pílulas a solução de problemas que deveriam ser enfrentados com autoestima, autoconhecimento, responsabilidade, etc. Afinal, tomar um comprimido e ficar leve é muito mais fácil, rápido e eficiente, além de que traz muita grana para a indústria farmacêutica, que é quem fomenta essa triste realidade, com a conivência da Medicina.

De modo semelhante, segundo consta, um aparelho desses garante o prazer, dispensando o indivíduo de construir relações baseadas no respeito, mesmo que o objetivo seja apenas sexo casual. E interagir com pessoas sem precisar reconhecê-las como pessoas é bem mais fácil. Aldous Huxley já nos falava sobre isso em seu livro Admirável mundo novo (que é de 1932!). O escritor inglês se preocupou em mostrar como seria o sexo nesse outro mundo e ele não era nada íntimo.

A bem da verdade, um aparelho desses dispensa até mesmo um parceiro, o que torna a coisa ainda mais interessante. Prazer garantido sem ter que aturar as manias e bizarrices alheias. Não é um sonho? Para mim, um pesadelo. A trama proposta por Huxley me incomodou profundamente na adolescência. Odiei o cenário e por isso não terminei de ver o filme e nunca me animei a ler o livro. Agora pretendo fazê-lo.

Espero que os testes sejam bem sucedidos e as mulheres que precisam desse apoio tecnológico possam ter maior qualidade de vida e felicidade. Quanto ao mais, o tempo dirá.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

História e ciência 3

Em fevereiro deste ano, eu me empolguei com o uso da ciência para recontar a História do Brasil, em relação à exumação dos corpos de três integrantes da antiga família imperial brasileira, submetidos a exames sofisticados. Na primeira postagem, manifestei meu desejo de que outras empreitadas do gênero fossem realizadas. Na segunda postagem, mencionei que resultados preliminares já esclareciam particularidades concretas sobre as vidas (ou mortes) daquelas pessoas.

Peritos se reúnem em frente ao túmulo de Jango
(foto de Márcio Luiz/G1)
Desejo atendido, novamente temos a História sendo revista pela luz da ciência. O protagonista da vez é o ex-presidente João Belchior Marques Goulart, oficialmente morto devido à cardiopatia de que sofria há anos, mas candidato a assassinato por envenenamento, supostamente por ordem dos criminosos encastelados no poder após o golpe militar de 1964.

A exumação dos restos mortais de Jango está acontecendo neste exato momento, no Município gaúcho de São Borja. É instigante acompanhar a História em tempo real.

Jango assumiu a presidência do Brasil em 8 de setembro de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, em uma demonstração evidente da democracia de fachada vivida por nosso país. Já aplicando um golpe, os militares tentaram impedir a posse do vice-presidente, como determinada a constituição, por suas ligações com a esquerda. Para se tornar presidente, Jango concordou que a constituição fosse alterada para instituir o parlamentarismo no país, de modo que ele, podendo exercer plenos poderes com base no melhor direito, preferiu esvaziá-los, dividindo-os com o primeiro-ministro, Tancredo Neves. Este episódio é muito bem contado pelo jornalista Mário Magalhães, na biografia de Carlos Marighella, na qual Jango e Quadros são retratados em cores pouco alegres.

Aguardemos novas notícias ao longo do dia.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Rorschach

Muito legal o doodle do Google de hoje. Trata-se de uma homenagem ao 129º aniversário de Hermann Rorschach, psiquiatra suíço (1884-1922) que pesquisou sobre o tema psicodiagnóstico.

O teste de Rorschach, baseado na interpretação que o analisado dá a imagens aparentemente abstratas em um papel, formadas por manchas simétricas de tinta, é muito conhecido.

Pessoalmente, gosto muito de psicologia e me interessa esse tipo de assunto. Mas olhei as diferentes imagens que se sucedem no doodle e não me decidi sobre o que poderiam representar. Será que há algo de errado comigo? :)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um sonho a caminho da realização?

O meu próprio condicionador de ar portátil?

Parabéns aos estudantes do famoso Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Espero que a criação deles chegue ao mercado o mais rápido possível. E que seja possível adquiri-la, claro.

Saiba do que se trata lendo aqui.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Eu, em pontos polêmicos

Em 24.11.2006, quando o blog nem chegara aos três meses de existência, publiquei uma postagem informando minhas posições a respeito de certas matérias controversas, propositalmente sem fornecer quaisquer argumentos acerca de minhas escolhas. Em 28.8.2007, o primeiro aniversário do blog me fez revisitar algumas postagens, tendo eu ratificado os meus pontos de vista.

Decidi voltar à questão. Passados seis anos, contudo, algumas coisas mudaram. Felizmente. As questões do abortamento de fetos anencéfalos e das pesquisas com células-tronco embrionárias foram objetos de julgamentos pelo Supremo Tribunal Federal e, em ambos os casos, a decisão foi favorável, como eu preferia. No que tange à divisão do Estado do Pará, a longa perlenga foi objeto de plebiscito em 11.12.2011. Prevaleceu a integridade do território, como eu preferia. Mas não se trata de uma questão definitiva.

Também me manifestei favoravelmente ao controle externo do Poder Judiciário. Naquele momento, o Conselho Nacional de Justiça já estava ativo, mas ganhou força ao longo dos anos, contribuindo muito para o aprimoramento do judiciário. Infelizmente, como toda e qualquer instituição que precisa legitimar a sua existência, tem seus momentos de equívoco e excesso. Não mudei de opinião sobre o controle externo. Só acho que o CNJ precisa manter o foco. A cobrança de metas de produtividade dos juízes, exteriorizadas em relatórios absurdos, é uma das demonstrações mais contundentes de seus equívocos.

Disse não à posse ou porte de arma de fogo pelo cidadão comum, situação prejudicada pelo referendo de 2005, um dos casos mais indecorosos de poder econômico interferindo no processo democrático. Prevaleceu a tibieza do Estatuto do Desarmamento, financiada pela indústria armamentista. Vale a pena permanecer vigilante, porque já se está falando em flexibilizar ainda mais o estatuto. Já se sabe quem ganha com isso.

Eu disse não às quotas raciais em universidades e concursos públicos. Quanto aos concursos, ainda mantenho minha objeção, mas em relação às quotas em universidades, o passar dos anos mostrou que a questão afrontou as certezas da classe média brasileira. Em abril deste ano, a revista IstoÉ publicou uma contundente matéria de capa (reportagem eletrônica aqui) defendendo que a controversa política pública deu certo, elevando a qualidade do ensino e reduzindo a evasão. O suposto nivelamento por baixo não aconteceu. Mesmo lutando contra várias dificuldades, p. ex. a educação prévia em escolas mais frágeis, a diferença de rendimentos acadêmico entre alunos quotistas e não quotistas é bastante similar. Foi, como disseram, um "tapa na cara da hipocrisia brasileira". Adorei isso. Inclusive como mea culpa.

Eu disse não à pena de morte, redução da maioridade penal e endurecimento da legislação penal em geral. Quanto a isso, mantenho minhas posições. Quanto mais estudo a respeito, mais me convenço.

E disse sim à clonagem humana para fins terapêuticos, à efetiva laicização do Estado, com a supressão de quaisquer práticas ou símbolos religiosos em órgãos públicos; ao reconhecimento pleno das uniões homoafetivas e ao financiamento público de campanhas eleitorais. Mantenho minhas posições.

Mostrei-me indeciso e dependente de convencimento quanto ao fim do "voto obrigatório" e à comercialização de transgênicos. Quanto ao primeiro tema, existe uma reforma política engatilhada no Congresso Nacional, que pouco avança, por razões óbvias. É um assunto que pretendo acompanhar com interesse.

Já no que tange aos transgênicos, a questão é científica. Acredito na ciência. Tomarei minha decisão assim que alguém me apresentar argumentos consistentes. Até segunda ordem, não sou avesso aos transgênicos. Até porque, hoje em dia, praticamente que se consome ou que se faz é ilegal, é imoral ou engorda.

Falta compor a minha nova lista de temas controversos. Estou pensando a respeito.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Aquela do panda


Coisa ainda mais rara é a imprensa brasileira entender que pandas não são ursos! Esta é velha, mas nunca perde a atualidade.

Vamos esclarecer: entre os mamíferos, existe a família dos ursídeos, que abrange os ursos propriamente ditos e os pandas, que são ailuropódeos. Dentre estes, são conhecidas quatro espécies de pandas, mas apenas os pandas-gigantes existem hoje em dia. As diferenças são definidas pela genética.

Qualquer Wikipedia da vida informa:

Classificação científica
urso
panda
reino
Animalia
Animalia
filo
Chordata
Chordata
classe
Mammalia
Mammalia
ordem
Onívora
Carnívora
sub-ordem
Caniformia
—
infraordem
Arctoidea
—
superfamília
Ursoidea
—
família
Ursidae
Ursidae
gênero
—
Ailuropoda


Vale destacar, para evitar que me apontem como erro, que os pandas pertencem à ordem dos carnívoros e têm características genéticas e digestivas de carnívoros. Contudo, o panda-gigante tem hábitos de herbívoros e se alimenta quase exclusivamente de bambus, como provavelmente você sabe.

A ratada estava na home page da Folha de S. Paulo, agora mesmo. Só vou dar um desconto porque os pandas-gigantes também são chamados de ursos-panda, mas o fato de isso ser popular não significa que seja certo. Fosse assim, eu começaria a me chamar de Brad Pitt, George Clooney, Bradley Cooper. Duvido que fizesse alguma diferença...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lombroso lives

Uma entrevista com o psiquiatra britânico Adrian Raine publicada na edição desta semana da revistaVeja mostra que o mundo os fatores neurológicos envolvidos no comportamento violento das pessoas. O especialista discorre sobre a possibilidade de as pessoas serem julgadas com base em suas imagens cerebrais, capazes de dizer se são predispostas ou não a terem comportamento violento.
Raine fala também sobre o amadurecimento do cérebro, que traz questões como a maioridade penal à baila. Segundo o psiquiatra, a idade de amadurecimento do cérebro é 20 anos. "Adolescentes de 15 e 16 anos são impulsivos, não controlam suas emoções, porque seu córtex pré-frontal não está completamente desenvolvido", explica.
Leia trechos da entrevista:
Existe uma predisposição genética para a violência? O que nós já sabemos é que cerca de 50% da variação nas taxas de violência pode ser atribuída a fatores genéticos. Toda uma geração de pesquisas, realizada com irmãos gêmeos e filhos adotivos, mostrou que os fatores hereditários são, sim, importantes. A próxima geração de pesquisas é a molecular, que já começa a identificar quais os genes envolvidos. Até agora o mais estudado é o gene da monoamina oxidase A (MAOA), que, quando produz uma baixa quantidade de sua enzima, atrapalha o funcionamento de neurotransmissores. Indivíduos com essa mutação são particularmente suscetíveis ao comportamento antissocial, principalmente quando sofrem abusos na infância. Mas é muito importante destacar que nunca vamos descobrir um gene que seja, sozinho, responsável pela violência. Descobriremos vários, que serão associados a muitos outros fatores sociais. O ambiente também é importante por alterar o modo como os genes funcionam. O DNA é fixo, mas o modo como ele se expressa — e como afeta o cérebro — pode ser alterado pelo ambiente.
O comportamento violento pode ser prevenido? 
Nós sabemos que, se pudermos melhorar o funcionamento do cérebro, podemos melhorar o comportamento. E existem estudos que colocaram isso em prática. Em um deles, enfermeiras visitaram mães durante sua gravidez e nos dois primeiros anos de vida da criança. Elas aconselhavam as mulheres a parar de beber e fumar, ensinavam qual a nutrição adequada, mostravam as necessidades psicológicas dos bebês. Ao comparar o resultado dessas crianças com o de um grupo de controle, que não recebeu as visitas, os pesquisadores descobriram que a delinquência juvenil caiu pela metade. Nós fizemos um estudo com crianças de três anos, no qual fornecemos uma melhor nutrição, mais exercícios físicos — que resultam no desenvolvimento de novas células nervosas — e exercícios cognitivos durante dois anos. Oito anos depois, essas crianças tinham melhores funções cerebrais, elas estavam mais alerta e atentas e seus cérebros pareciam ser pelo menos um ano mais maduros do que o grupo de controle. Não é só isso: seguimos essas crianças até os 23 anos e vimos uma redução de 34% no número de infrações penais. Há uma última técnica que pode ser útil, que é a meditação. Estudos mostram que ela melhora o funcionamento do lóbulo pré-frontal — uma área cerebral que sabemos estar disfuncional em indivíduos violentos. Essa técnica ainda não foi testada em prisioneiros. Isso porque os cientistas relutam em reconhecer que existem bases cerebrais para o comportamento violento. Espero que meu livro abra as portas para esse novo campo de pesquisas.
Do ponto de vista da neurociência, quando o cérebro está maduro e a pessoa pode ser julgada como um adulto? 
Essa questão é bastante debatida em todo o mundo. O que sabemos é que o cérebro humano não está completamente maduro até os 20 anos. Os adolescentes de 15 e 16 anos são impulsivos, não controlam suas emoções, porque seu córtex pré-frontal não está completamente desenvolvido. Em alguns casos, ele demora até os 30 anos para se desenvolver, e sabemos que disfunções nessa região são encontradas em criminosos. Acho que faz sentido levar em conta o desenvolvimento cerebral para analisar conceitos como a responsabilidade penal, mas não existe uma linha mágica. Há pessoas de 19 anos com cérebros funcionando como o de indivíduos de 16 anos, mas também existem pessoas de 15 com cérebro de 20. No futuro, poderemos usar outras medidas de maioridade neural, que usem imagens cerebrais para analisar se uma pessoa é responsável por seu comportamento. Mas é claro que hoje temos de ser práticos e decidir uma idade de corte. Nesse caso, fixá-la em 18 anos não me parece ruim.
O sistema judiciário pode usar imagens cerebrais para julgar alguém ou prever suas chances de cometer crimes?
É possível, mas nós ainda não podemos colocar isso em prática. Pesquisas iniciais, feitas neste ano, mostraram que imagens cerebrais ajudam a prever melhor quais criminosos podem voltar a cometer atos violentos nos próximos três ou quatro anos. Atualmente, a justiça usa fatores demográficos como idade, gênero, emprego e histórico para prever quais indivíduos são mais perigosos. Os juízes têm de fazer isso o tempo todo, quando decidem se condenarão alguém a trabalhos comunitários ou à cadeia. As técnicas de imagem cerebrais estão começando a nos dar mais informações que podem ajudar a saber se determinado indivíduo é um perigo para a sociedade.
O senhor não tem medo que isso leve a algum tipo de abuso, com indivíduos sendo presos por causa de seu perfil cerebral?
Na verdade, sim – como no caso do filme Minority Report. Nele, a polícia impede os crimes antes que aconteçam. Um grande medo que tenho é que no futuro usemos a genética, as imagens cerebrais e outros fatores neurobiológicos para prever a violência e aprisionar as pessoas antes mesmo de elas cometerem qualquer crime. Isso me preocupa.  Até porque minhas imagens cerebrais se parecem com a de um criminoso que matou 64 pessoas — eu tenho o cérebro de um serial killer. Além disso, tenho outros fatores biológicos para o crime, como baixa pressão sanguínea, e tive problemas de nutrição e no parto. Se esse cenário acontecer o futuro, eu seria um dos primeiros a ser preso. Acho que devemos tomar muito cuidado nessa área. Existe uma tensão entre proteger as liberdades civis — e não prender ninguém por probabilidade — e  a necessidade de proteger a sociedade. Essa é a tensão que teremos de enfrentar no futuro.
O senhor falou sobre a influência do cérebro, da genética e do ambiente no comportamento. Onde fica o livre-arbítrio?
Esse é outro desafio da minha área de pesquisas que costuma deixar muitas pessoas desconfortáveis. Pense em um bebê inocente, cuja mãe fumou e bebeu na gravidez, que teve uma nutrição ruim e problemas no parto, com genes que podem resultar em mau comportamento, com problemas de habitação e de educação durante seu desenvolvimento. Nós sabemos que essa criança tem muito mais chances de se tornar um adulto violento. Uma pergunta que surge a partir disso: será que essa pessoa tem livre-arbítrio? Ela é responsável por seus atos? Em meu livro, eu digo que o livre-arbítrio é reduzido em algumas pessoas, logo no começo de suas vidas, por influências que estão além de seu controle. O livre-arbítrio tem vários tons: a pessoa pode ter total livre-arbítrio, pouco, ou quase nenhum. Acho que devemos levar isso em conta no sistema judicial, na hora de punir as pessoas. Existe um caso real de um indivíduo que teve um tumor em seu córtex pré-frontal que o transformou num pedófilo. Os médicos retiraram o tumor, e seu comportamento voltou ao normal. Será que ele era tão responsável por seus atos quanto alguém que fez a mesma coisa e não tinha o tumor? Essa é a dificuldade e a tensão desse campo de estudos, e elas não serão superadas de modo fácil. Em um nível, é importante reconhecer os fatores de risco que conspiram para diminuir o livre-arbítrio. Mas também temos de levar em conta a igualdade e a justiça, buscando uma lei igual para todos. Não tenho respostas no momento. Esse é um debate aberto.
Como a neurocriminologia pode ajudar a explicar os casos extremos de violência? A neurocriminologia é uma nova disciplina que estou começando a desenvolver nos Estados Unidos, que envolve a aplicação de técnicas da neurociência para entender as causas do crime. Nós tentamos juntar tudo que aprendemos nos últimos anos — na genética, técnicas de imagem cerebral, neuroquímica, psicofisiologia e neurocognição — para explicar porque algumas pessoas crescem para se tornar criminosos violentos. Queremos entender o cérebro por trás não só dos criminosos comuns, mas também o de psicopatas, criminosos de colarinho branco e homens que batem em suas esposas. Nós estudamos todo o leque de comportamento antissocial e observamos que, não importa a forma, existe uma base biológica para todos eles.
Todas essas formas diferentes de violência têm a mesma base cerebral?Há diferenças. Por exemplo, minha equipe estudou psicopatas — os criminosos que não têm empatia nem remorso. Já sabíamos que eles têm um baixo funcionamento da amígdala, o centro emocional do cérebro. Nossa pesquisa mostrou ainda mais: que nesses indivíduos a estrutura física dessa área é 18% menor do que no resto da sociedade. Com o centro emocional reduzido e sem funcionar direito, os psicopatas passam a não sentir medo.  É por isso que eles quebram as regras da sociedade – pois não têm medo da punição. Quando estudamos homens que batem em suas esposas, no entanto, descobrimos que suas amígdalas são muito ativas, mas o córtex pré-frontal não funciona direito. O córtex pré-frontal é a área que regula as emoções. Nossa conclusão é que a alta atividade da amígdala resulta em reações exageradas a estímulos leves, como receber críticas da esposa — o que os deixa mais agressivos. Esses homens que respondem exageradamente aos estímulos não possuem os recursos cognitivos para controlar essa emoção. São formas diferentes de comportamentos antissociais, com tipos diferentes de predisposições biológicas.
Como se explica que problemas em áreas cerebrais específicas possam levar a comportamentos violentos?
Quando temos de tomar uma decisão moral e pensamos em quebrar a lei (e todos nós já pensamos em fazer algo errado), ficamos ansiosos, com um pouco de medo. Esse é o freio de emergência que nos impede de quebrar as regras da sociedade. Mas esse freio não funciona direito nos psicopatas. Eles sabem o que é certo e errado, mas não têm o sentimento correspondente. E é esse sentimento, e não o conhecimento, que nos faz frear nosso impulso. Isso traz uma questão que me fascina. Como os psicopatas têm o motor emocional quebrado — e eles não têm culpa de possuírem essa disfunção —, será correto culpá-los e castigá-los por seu comportamento? Essa é uma questão que teremos que discutir no futuro.
Revista Consultor Jurídico, 14 de julho de 2013
Fonte: http://www.conjur.com.br/2013-jul-14/fatores-hereditarios-influenciam-comportamento-criminoso-psiquiatra
No site da revista "Veja": http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/dentro-da-mente-dos-criminosos

Então o psiquiatra Adrian Raine se considera criador de uma nova área do conhecimento, a Neurocriminologia. Interessante, muito interessante. Pessoalmente, sou fascinado pelo mundo das neurociências e da psicologia. Fico na expectativa de ler o livro lançado pelo rapaz. E sei que o tema costuma provocar entusiasmo em mentes jovens e antenadas com o admirável mundo novo. Mas há muito em que pensar.

Desde o seu surgimento, a Criminologia é verdadeiramente obcecada pelo tema do comportamento criminoso, sendo essa a principal orientação entre os autores estadunidenses, como bem destaca Philippe Robert em Sociologia do crime. Poucos assuntos foram investigados com tanto afinco e tanta convicção acerca de sua cientificidade. Mas assim como conquista adeptos, arrebanha também opositores furiosos, alguns dos quais munidos de argumentos igualmente respeitáveis.

À medida que a Criminologia se desenvolveu, a ênfase no comportamento individual arrefeceu um pouco (sem jamais desaparecer), sendo substituída pela influência de fatores exógenos — ambientais, econômicos, políticos, geográficos, etc. Atualmente, parece prevalecer a ideia de que o crime é disparado por uma conjugação de fatores internos e externos, mas subsiste a rejeição a teorias que aspiram à certeza e precisão. É difícil explicar com base nelas, p. ex., o delito de ímpeto, aquele praticado num rompante emocional, com o sujeito por vezes agindo em total desconformidade ao seu temperamento, tal como a pessoa dócil que, sem  mais nem menos, comete uma violência desmesurada.

Não seria demais, penso, apostar em explicações paralelas, tais como crimes determinados por motivos predominantemente individuais; crimes determinados por motivos predominantemente exógenos; crime precipitados pela influência de multidões (outro aspecto que desperta especial interesse), etc. Mas tudo privilegiando o caráter mais indicativo do que determinista.

À medida que a ciência avança, surgem novos conhecimentos e novos exames médicos, que se tenta aplicar ao mundo do crime. Publiquei aqui no blog, em novembro de 2010, a postagem "Investigação da verdade", que dá um exemplo disso. A Neurocriminologia seria uma versão muito mais sofisticada dessa tendência porque, oferecendo parâmetros supostamente confiáveis de propensão criminosa, ela se torna um conhecimento prospectivo, capaz de subsidiar o poder público a medidas preventivas. E é aí que o terror de Estado eclode. Temos razões fartas e concretas para temer conjunturas como essa. Felizmente, o próprio Raine deixou claro esse risco, ao dizer que ele mesmo possui um cérebro com várias características "criminosas". Mas ele é um cientista; sabe ser cauteloso. E políticos querendo dar as famosas respostas à sociedade?

Outra crítica veemente que não pode ser esquecida é a que repudia a psiquiatrização da justiça penal. Tem-se muito medo de que recursos (pseudo)científicos desumanizem a aplicação do direito, assim como que juízes e demais agentes se tornem vassalos de laudos de todo tipo, tornando a função jurisdicional mera receptora de decisões e análises pretensamente técnicas.

Não bastasse tudo isso, não podemos ignorar que análises neurocriminológicas (admitamos o termo, para facilitar) podem ser eficientes para explicar ações violentas, mesquinhas, impulsivas ou reiteradas. Ou outros grupos de ações bastante características. Mas os tipos penais vão muito além disso. Existem condutas tipificadas como crimes que simplesmente não podem ser associadas a essas posturas, porque resultam de juízos de valor do poder legisferante, impostos como fatores de moralização, tais como certos delitos sexuais. Existem condutas que só são crimes por opções políticas do poder vigente (questionar o regime, p. ex.). Estaria a Neurocriminologia apta a enfrentar essas nuanças?

Se alguém achou que estamos chegando ao tempo de resolver o problema do crime, fracassou miseravelmente. Quanto mais ciência tivermos, mais as armas se erguerão numa guerra que é fortemente política e ideológica. E por isso mesmo, talvez, sem fim.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Dia Nacional da Matemática

Entrou em vigor hoje, quando de sua publicação, a Lei n. 12.835, de 26.6.2013, que institui a data de 6 de maio como Dia Nacional da Matemática. Legal, não? Mas talvez você se pergunte: a novidade serve para quê, mesmo? Respondo: para que o Poder Executivo incentive "a promoção de atividades educativas e culturais alusivas à referida data". E só. Esse é todo o conteúdo da lei.

Aliás, leis instituindo dias disso e daquilo são abundantes em todos os níveis federativos e têm em comum o fato de que não servem para nada.

Vale ao menos destacar que o dia 6 de maio foi escolhido por marcar o aniversário de nascimento de Malba Tahan. Os poucos brasileiros que já escutaram esse nome certamente o relacionam ao famoso livro O homem que calculava. Esses poucos brasileiros talvez acreditem que Malba Tahan era algum pensador indiano ou coisa que o valha.

Na verdade, Malba Tahan é o pseudônimo do matemático, professor e escritor Júlio César de Mello e Souza, nascido no Rio de Janeiro em 1895 e falecido no Recife, em 18.6.1974. Este grande e pouco conhecido (pelo público em geral) compatriota ganhou renome internacional por difundir o conhecimento da Matemática de modo leve e lúdico, através de mais de uma centena de livros.

Suas tramas reuniam aventura e recreação matemática, consideradas muito instigantes para fins educacionais.Você pode saber mais sobre ele no site específico, que por sinal disponibiliza desafios matemáticos. Um doce entretenimento para quem gosta e tem cacife.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

História e ciência 2

Novidades a respeito da ambiciosa pesquisa abordada na postagem "História e ciência", de 19 de fevereiro último, sobre a exumação dos restos mortais de d. Pedro I e suas esposas (sucessivas, por favor).

A ressonância magnética já havia demonstrado que a Imperatriz Leopoldina não apresentava sinais de fraturas ósseas, derrubando o boato de que ela morrera em decorrência de uma agressão do marido. Foi oficialmente divulgado ontem, porém, que a imperatriz contraiu uma doença ainda desconhecida, que lhe provocou um abortamento e em seguida uma acachapante sepse (infecção generalizada), sendo esta a causa de sua morte. Na reportagem, é possível conhecer detalhes dos últimos dias da pobre mulher.

Muitas outras informações ainda advirão desta importante e instigante pesquisa. Estou curioso.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Tecnicalidades da execução penal

A partir da sentença imposta ao ex-goleiro Bruno Fernandes, há algumas horas — e é sempre bom explicar um assunto, em sala de aula, usando um caso concreto e conhecido de todos; os alunos tendem a se interessar mais e se sentem mais confiantes em relação ao aprendizado —, o blog Para entender Direito publicou uma postagem analisando a estranha afirmação, feita pelo defensor do réu, de que em menos de 3 anos este poderá progredir para o regime semiaberto.

Na postagem, analisam-se detalhadamente os procedimentos de cálculo do tempo de progressão de regime. Muito útil para os estudiosos da matéria, especialmente para os estudantes de Direito Penal II. De quebra, acabei ganhando uma explicação para a mania irritante que os desavisados possuem de gritar aos quatro ventos que, no regime semiaberto, o apenado fica livre durante o dia e apenas se recolhe para dormir, o que não verdade são características do regime aberto. Veja:

Juristas de São Paulo e Rio de Janeiro estão acostumados a verem o regime semiaberto como o momento em que o condenado passa a circular pelas ruas. Isso porque, nesses dois Estados, há poucas colônias (para cumprimento do regime semiaberto) e casas de albergados (para cumprimento do regime aberto). O condenado não pode ser prejudicado pela inação do Estado. Logo, a Justiça acaba concedendo a liberdade condicional. Na prática, o condenado vai do regime fechado direto para as ruas.
Como os brasileiros de certas regiões do país sofrem de um problema gravíssimo de egolatria e só enxergam os próprios umbigos, os juristas de lá acabaram tomando uma característica local (por sinal decorrente de falhas do sistema) como regra e se convenceram de que a coisa é como eles veem. Mas a verdade é que, no regime semiaberto, o apenado continua preso, apenas é transferido para uma casa penal cuja estrutura é menos opressiva, relaxando um pouco as regras de disciplina e adquirindo acesso, supostamente, a novas atividades para passar o tempo. Mas as saídas para o trabalho ou estudo externo dependem de condições específicas, previstas na Lei de Execução Penal, e que não se aplicam a todos indistintamente.

Critico o texto, no entanto, na parte em que faz esta afirmação: "Um dos pontos mais frustrantes para os estudantes de direito é que ele não é uma ciência exata."

Não duvido que muitos acadêmicos se sintam assim. A busca de segurança e solidez de respostas em âmbito acadêmico (e até fora dele) é uma inclinação das pessoas. Mas a ausência de exatidão não é um defeito do direito, como o texto dá a entender; ao contrário, é o que torna desafiante e belo. Se um conjunto de regras o mais das vezes artificiais fosse ainda por cima exato, o direito seria uma grande porcaria, chato ao extremo. Felizmente, essa exatidão nem sequer é possível.

Aliás, a exatidão não existe, como muitos pensam, nem nas ciências exatas. Estas também são muito mais ricas e variadas do que supõem as pessoas que abrem a boca para fazer comentários toscos como "direito não é matemática". Quer irritar a minha esposa? Diga uma bobagem dessas para ela.