quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Toquinho no Mundo da Criança

Os anos 1980 foram os últimos em que se produziu música de qualidade para criança, música baseada na autêntica MPB, com letras ao alcance da criança, mas muito bem escritas e poéticas, e arranjos bastante sofisticados. A partir de 1986, contudo, começou a ditadura imposta pela totalizante Xuxa e a cultura foi para o ralo das iniciativas comerciais e artisticamente sem valor. Claro que seria uma asneira dizer que, de lá para cá, não se produziu nada de bom, mas iniciativas como o grupo Palavra Cantada, p. ex., ou os benefícios trazidos pela franquia Rá Tim Bum (referências citadas para comparação quanto ao tipo de produto oferecido, sem considerar outros fatores, inclusive o temporal) não podiam comparar, àquela altura, o poderio da então onipresente Rede Globo.
É um alento, portanto, podermos contar com o DVD Toquinho no Mundo da Criança, um produto de 2004, mas que provavelmente pouca gente conhece e que também pode ser encontrado em CD. Eu mesmo só me dei conta de sua existência recentemente e identifiquei, nele, um vídeo que me fora mandado por e-mail há bastante tempo.
O DVD reúne sete composições do grande Antônio Pecci Filho (64), sujeito que você só conhece pela alcunha carinhosa que lhe fora dada pela mãe, para as quais foram criados vídeos assinados por Andrés Lieban (37), desenhista e animador argentino que, com esse trabalho, ganhou três prêmios no respeitado festival Anima Mundi. Hoje, é um dos calmantes mais eficientes para minha filha Júlia, que se tornou fã de Toquinho (dia desses reconheceu sua imagem na capa de um CD, numa loja, quando passávamos casualmente) e já sabe cantar "Aquarela" na íntegra.
Os sete vídeos, que você encontra facilmente no YouTube (vale a pena assistir), são:

Aquarela. Canção famosíssima, uma das mais belas composições brasileiras para crianças. O vídeo concebido para ela é o mais famoso do DVD e chegou a ser premiado no Festival de Cinema Infantil de Chicago (2003). Dispensa apresentações, na verdade. Mas eu eu minha esposa estamos de acordo que um outro filme, criado para uma antiga campanha publicitária da Faber-Castell, conseguia ser ainda mais bonito.




O pato. Outra canção que todo mundo conhece, até porque foi utilizada em um dos antigos especiais infantis que a Globo fazia nos bons tempos. Divertida, com efeitos sonoros ao fundo, imitando o que seria um pato falando a nossa língua, ganhou uma leitura inteligente e engraçada, com destaque para a coitada da galinha, que leva a pior o tempo inteiro. Mas no final, é o pato que acaba na panela.
Júlia também canta essa e até faz graça: no penúltimo verso, substitui o pato por si mesma e canta "tantas fez a Júlia que foi pra panela".


O caderno. Nos ditos especiais infantis da Globo, na primeira metade dos anos 1980, a menina Aretha (Aretha Marcos Pensamento da Silva, hoje com 36 anos) despontava como figura onipresente. E para ela cantava o queridinho da MPB, Chico Buarque, esta comovente declaração de amor a uma menina à medida que ela cresce. No vídeo, por alguma razão que desconheço, Toquinho modifica a letra original e substitui "sofrer também nas provas bimestrais junto a você" por "te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver". Talvez alguma intenção politicamente correta.
É o meu vídeo preferido, porque os sentimentos retratados na canção me atingem pessoalmente, já que sou pai de uma menina e encaro o caderno como metáfora para alguém que deseja desesperadamente não ser jamais esquecido num canto qualquer.

A casa. Quem nunca cantarolou esta? Mais uma divulgada pelos especiais infantis da Globo, retrata um local absurdo, onde você não pode fazer absolutamente nada e mesmo assim se diverte. Uma interpretação antológica do célebre grupo vocal brasileiro MPB-4, ganha no vídeo a atuação de um simpático palhaço, que constroi seu cantinho na Rua dos Bobos, número zero.






Errar é humano. Em junho deste ano, escrevi uma crítica à canção "O bom menino", do Palhaço Carequinha. E eis que Toquinho lavou a minha alma com este manifesto pelo reconhecimento do valor que cada pessoa possui, apesar de seus defeitos. Com o mote "não é vergonha, não", ele nos fala sobre aceitação, particularmente auto-aceitação. Você não precisa ser o mais bonito, o mais inteligente, o mais hábil nos esportes e, particularmente, não deve ter medo de precisar e de receber ajuda dos outros para o que quer que seja.
Em tempos de bullying disseminado nas escolas, a mensagem é altamente oportuna e positiva.


Bicicleta. Pareceu-me banal na primeira vez em que vi, ainda na loja, mas rapidamente se tornou a preferida de Júlia. Ela sempre canta "B-I-C-I-C-L-E-T-A, sou sua amiga bicicleta!" E como bicicletar é uma das poucas atividades físicas de que gosto, a visão do menino feliz, adorando a sensação de liberdade e o vento no rosto, acabou me cativando.
Esta noite, em nosso primeiro passeio juntos, Júlia cantou modificando a letra: "B-I-C-I-C-L-E-T-A, estou andando de bicicleta com o papai!" Claro que me derreti. Está instituído mais um tema para a nossa trilha sonora pessoal.

O Mundo da Criança. Composição elaborada para o projeto, mostra circo, presentes, cores, luzes, animais, fantasia e... família, que não foi esquecida como um dos mais importantes pilares para a formação de qualquer ser humano. A letra menciona brincadeiras antigas, ao mesmo tempo que atualiza a linguagem pela inclusão dos games e pelo reconhecimento de que "o tempo é cada vez mais apressado". Mas, seja como for, o mundo da criança é iluminado, é um universo e é abençoado.

Divirta-se com Toquinho e as animações de Andrés Lieban. Vale muito a pena.

3 comentários:

caio disse...

Sou fã do Toquinho justamente desde aquele comercial da Faber Castell. Meu pai me informou que tínhamos o CD do autor da música do "sol amarelo" e escutei faixa a faixa. Dia desses inclusive citei uma delas (comentário sobre a Karlinha).

Foi um dos primeiros CDs que ouvi... tive a sorte de vê-lo nesse ano, justamente ao lado do MPB4, na Assembleia. Showzaço. Tom, Vinicius, Chico, Noel, Ben, Gonzaguinha, Nogueira, Powell, João e até Pato Donald também estiveram no repertório.

"Gago Apaixonado", "Samba de Orly", "Samba pra Vinicius", "Made In Coração", "Que Maravilha", "Bachianinha", "Cotidiano 2", "Escravo da Alagria", "Quem te Viu, Quem te Vê" e o final com "Roda Vida" foram espetaculares, mas o que realmente me amarrou a garganta foram justamente as infantis, por terem sido as primeiras dele que conheci. "Aquarela" e "O Caderno", mencionadas por você. Pena terem sido só duas horas...

(Também foi ótimo ver ele desmascarando bem-humoradamente um pouco o Vinícius para os mais novos...)

Yúdice Andrade disse...

E quem viu os shows dele disse que, de quebra, o rapaz é uma simpatia. Parece, mesmo.

Eric de Oliveira disse...

Errar é humano está na canção dos direitos da criança.




Estou mexendo no computador do meu pai.