terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Relação médico-paciente

No curso da conversa com o meu amigo neopai, ainda falando sobre os preconceitos instalados na cabeça de pessoas que, por sua profissão, deveriam comportar-se de maneira mais sensata, ele me contou sobre uma cidadã que, mãe solteira, foi a uma maternidade pública dar à luz. Depois que o bebê nasceu, o médico lhe estendeu a mão e disse "Até o ano que vem".
A moça estranhou e perguntou por que "ano que vem".
Numa demonstração de preconceito, grosseria e despreparo para lidar com o público — quiçá despreparo para ser médico —, o indigitado esculápio respondeu que mãe solteira era daquele jeito: tinha um filho por ano. Ele estava convicto de que a veria de novo nos próximos meses. A jovem deixou o hospital humilhada, porém decidida: foi organizar a vida. Deu um duro danado para criar seu filho sozinha e só engravidou novamente sete anos mais tarde, quando já possuía uma situação familiar e financeira melhor.
Talvez o médico, com seu repugnante comportamento, tenha ajudado de algum modo aquela mulher, o que não minimiza nada o ocorrido. Quantas outras pacientes não terão sido ridicularizadas, num momento de vulnerabilidade, e só lhes restou a vergonha?
Eu me pergunto o que as universidades, em seus cursos de Medicina, e os conselhos de classe fazem de concreto em relação ao dramático tema da relação entre médicos e pacientes.

4 comentários:

Luiza Duarte Leão disse...

Isso não é uma preocupação das universidades. Não há uma cadeira para isso. E mesmo se houvesse, da forma como o Brasil ensina, talvez fosse inócua. Humanidade e respeito não se aprende em aulas sobre ética (que o digam os advogados).

Anônimo disse...

O que as universidades, em seus cursos de Medicina, e os conselhos de classe fazem de concreto em relação ao dramático tema da relação entre médicos e pacientes? Infelizmente nada Yudice.Por que nada? Vá reclamar por la se algum dia uma situação dessa lhe acontecer e verá que a apuração dos fatos será favorável ao médico. Minha família já foi vítima de preconceito por parte de médicos. São despreparados, só sabem - e quando sabem- lidar com seus remedinhos e resultados que as maquinas lhes dão.Meu irmão não resistiu e faleceu após 3 meses de intensas e incessantes manifestações nossas em apontar o modo ridículo que lhes dispensavam.

Yúdice Andrade disse...

Luiza, assim como no curso de Direito, no de Medicina há uma disciplina de Deontologia, que imagino como um campo propício para reflexões sobre a prática profissional. Mas, pelo visto, assim como entre nós, a oportunidade está sendo desperdiçada.
Quando advoguei para o Sindicato dos Médicos, participei de um evento no qual eles próprios deram as mãos à palmatória e reconheceram seus problemas de relacionamento e mencionaram a ausência de formação humanística nas universidades. Aliás, o que escrevi aqui adveio dessa lembrança. Pena que o grupo em questão fosse restrito e não tenha feito de uma indignação uma atitude concreta.

Meus respeitos, das 16h36, pelo drama vivido em sua família.
Na esteira do que escrevi acima, como advogado e depois com base na experiência que tenho analisando processos verídicos no Tribunal de Justiça do Estado, verifico que uma quantidade enorme de casos de erro médico não poderiam ser assim classificados. Mas a quantidade de situações em que isso ocorre de verdade é tão grande, e a forma de lidar com isso tão incorreta e desumana, que a consequência é plantar em toda a sociedade esse sentimento de descrédito, medo e revolta.
Todos saímos perdendo.

Anônimo disse...

Há muito tempo Médico não é mais sinônimo de intelectualidade e polidez.

Alexandre