terça-feira, 30 de março de 2010

Controvérsias poéticas

O comentarista Artur Dias, a respeito da postagem "Cinquentenário do poeta", registrou a sua crítica:

Um exame mais atento das letras do Renato Russo esfriam rapidamente o ímpeto de classificá-lo como "gênio". Pelo menos eu, já no fim dos anos 80, não entendia como o Renato Russo podia criar tanta rima pobre, tropeçar tanto no português e não ser criticado por isso. Dentro de sua moldura de classe média sim, ele tem méritos, ao fazer leituras dos conflitos familiares e expressar as angústias juvenis, mas nada além disso. É só comparar com o Cazuza: ele tinha plena consciência da sua condição de pequeno-burguês, e isto sim, era motivo dos maiores sarros. Acho que o Cazuza só deu uma escorregadela quando achou de cantar Bossa-Nova, o que, felizmente, não durou.

Minha resposta a ele:

Caríssimo Artur, no exercício do mais lídimo contraditório, permite que eu te diga que a tua crítica se baseia mais na forma do que no conteúdo. Tu criticas o Renato porque ele "tropeçava no português" e usava rimas pobres. Mas quem disse que isso suprimia a sua genialidade?
O cara era filho do punk rock. O que se podia esperar dele? Composições parnasianas? Ao contrário. Ele mesmo disse:

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito
Não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes


Não acho que era uma desculpa esfarrapada para justificar as próprias limitações. Renato era um sujeito culto, do tipo que lia clássicos. Mas pertenceu a um tempo em que a ordem era protestar e desconstruir. Daí porque o português algo titubeante e as rimas pobres que, por sinal, são um recurso estilístico bastante comum a partir do Modernismo.
Eu te proponho uma outra leitura: que tal procurar o lirismo, a profundidade emocional e as imagens poéticas valiosas que ele construiu?
Um exemplo de cada:

Lirismo
Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Profundidade emocional
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Detalhe: o "aonde" está mal empregado.

Imagens poéticas
Será que você vai saber
O quanto penso em você com o meu coração?

Se não bastasse tudo isso, devemos lembrar os constantes apelos do poeta a que fizéssemos alguma coisa por nossos sentimentos, por nossas vidas, para que pudéssemos ser mais felizes. Isso não é digno de valor?
E você, acha o quê?

PS Os excertos transcritos pertencem, respectivamente, às canções "Meninos e meninas", "Metal contra as nuvens", "Vento no litoral" e "O descobrimento do Brasil".

PS2  É interessante como sempre comparam Renato Russo a Cazuza. Mas Cazuza era um farsante: dizia odiar a burguesia, mas era um filhinho de papai que adorava se locupletar do estilo de vida que criticava. Não fosse o talento musical, seria um sujeito vazio. O Artur diz que ele tirava um sarro disso. Eu vejo como cinismo. E acho que o interesse dele pela bossa nova foi positivo. Questão de gosto?

5 comentários:

Artur Dias disse...

Yúdice, você é danado mesmo, hein?? Se eu fosse um adversário num tribunal, talvez estivesse agora com os globos oculares metade pra fora das órbitas... (brincadeira). Não é que eu não tenha gostado da Legião Urbana ou do Renato Russo, eu apenas nunca consegui levar a sério as tentativas do Renato Russo em questionar a existência, os valores morais etc. Eu passei da adolescência e encontrei visões mais profundas, ficando a Legião como uma lembrança boa, mas não como uma referência. Quanto ao Cazuza, não conheço elementos que o tornem um cínico. Debochado, sim, e muito. E bon- vivant, uma espécie de versão rica do malandro carioca.
Abração

Lafayette disse...

Eras, Yúdice, até que fim, nestes últimos momentos, concordamos! réréréré

Anônimo disse...

Yúdice, também concordo com você.
Bjs,
Anna Lins

Jean Pablo disse...

Bom,

Eu nunca fui fã de Renato Russo, no entanto, é inegável o talento e facilidade com as palavras.

As vezes o uso equivocado, porém proposital, do português serve para dar mais ritmo, rima e musicalidade à cansão. É algo poético em muitos casos.

Enfim, aceito a condição de grande músico e de grande importância, até porque o contrário seria impossível heheh

Mas prefiro um Rock mais sujo e crítico dos anos 70 heheh

Um grande abraço

Yúdice Andrade disse...

O contraditório é uma arte adorável de se exercitar, Artur! E está sendo ótimo debater contigo. No final das contas, nossos pontos de vista nem são tão diferentes assim.

Já não era se em tempo, Lafa!

Obrigado, Anna. Sempre bom te reencontrar por aqui.

Ora pois, Jean: se preferes um rock "mais sujo e crítico", não há como criticar o Renato que, nessa perspectiva, era até bem suave.