quinta-feira, 11 de março de 2010

The Classe Média Way of Life

Navegando pela Internet, uma hora dessas, topei com um blog que não conhecia, mas que compartilha comigo opiniões sobre vários aspectos da sociedade brasileira. A começar pela ironia do título: The Classe Média Way of Life.
Inúmeras postagens aqui no Arbítrio abordaram a egolatria, a arrogância, a falta de solidariedade e a capacidade de defender ideias sobre as quais não se tem uma noção real, bem como de matraquear teorias sustentadas pela mídia televisiva ou por periódicos do naipe da revista Veja, dentre outras características desse segmento social em expansão assim descrita, claro, numa generalização mordaz. Já precisei até prestar esclarecimentos a um comentarista raivoso, o qual me "lembrou" que eu também pertenço à classe média, considerando que os economistas, nos últimos anos, flexibilizaram muito as exigências para você entrar nesse clube.
Apesar de não concordar com todas as "dicas" de reconhecimento do médio-classista, e até considerar algumas tolas e injustificáveis como é bastante natural em se tratando de um blog centrado no humor , o blog acerta a mão em alguns momentos luminosos, como na dica 36: "Achar que a pena de morte não é má ideia".
O blogueiro, cujos textos costumam ser bastante comentados e ganharam repercussão na revista esquerdista Carta Capital, traça um cenário bastante realista da mentalidade atual sobre o combate à violência, quando ela bate na nossa porta, especificamente, ou ao menos chega bem perto. Como tratei do tema esta semana, eis aí um outro viés para abordá-lo. Lúdico, mas válido.

11 comentários:

Luiza Duarte disse...

Professor, o blog é HILÁRIO! Às vezes, até meio constrangedor, confesso, porque consegui me enxergar em algumas das "dicas" (e olhe que só cheguei até a 20, por enquanto).

Prêmio máximo até agora para o "running" (porque "corrida" é o que pobre faz atrás do ônibus) e a crença real de que pobre para de trabalhar porque ganha R$80,00 no Bolsa Família.

Já adicionei o site aos meus favoritos!!!

Luiza Duarte disse...

Quanto mais eu leio, mais eu fico deprimida. Porque eu não tive essa idéia antes? Estou com tanta inveja do autor! haha

Artur Dias disse...

O meu comentário tem e não tem a ver com a postagem, mas como o tema é escracho com a classe média, tomo a liberdade.
é que hoje, logo cedo, recebi o impacto da morte do grande Glauco Vilas Boas, e de seu filho, Raoni. Os dois tiveram a casa invadida por ladrões, em Osasco, São Paulo, esta madrugada.

Em minha adolescência, a revisa "Chiclete com Banana", que Glauco fazia junto com o Angeli e o Laerte, foi uma referência em termos de humor inteligente. Ele escrachava com o homem urbano, principalmente o de classe média, mostrando suas paranóias, seus preconceitos, sua pequenez. Inspirado na teoria freudiana do Complexo de Édipo, criou o Geraldão, o onanista compulsivo que queria traçar a mãe de qualquer maneira. Tinha o Vicente Tarente que, apesar de ter rendido menos tiras que outros personagens, me divertia bastante, por ser a descrição exata de meia dúzia de figuras que eu conhecia. Tinha a dona Marta, paulistana balzaquiana, sempre tentando consumar sua ninfomania, mesmo que para isso precisasse usar golpes baixos, tipo, encomendar uma pizza e atacar o entregador. Tinha o casal Neuras, bem anos 80, com seus cortes de cabelo estilosos e a briga pelas coisas mais insignificantes possíveis. Ridicularizando essas categorias, Glauco e sua turma ofereceram a seus leitores outras visões de mundo. Mesmo que a intenção não fosse de politizar, havia um discurso crítico, que se acentuou no Angeli, nos anos seguintes, por exemplo.

Ao mostrar as baixezas do Ser Humano, Glauco nos colocava diante do espelho (desculpem o clichê) para nos revelar a nós mesmos em toda a nossa fragilidade. Porque rir das tiras do Glauco era um sinal dessa consciência.

Uma mente criativa, silenciada pela estupidez de assassinos ignorantes do valor de sua vítima: até onde esse abismo que cria pessoas destituídas de compaixão vai se abrir?

Yúdice Andrade disse...

Mas nós somos da classe média, Luiza, por isso nos reconheceremos em algum momento. O que eu critico é assumir, como referencial de vida, a mentalidade e os hábitos desse segmento social. Isso é que pode se tornar um grande problema, pois me refiro ao individualismo, à arrogância e falta de solidariedade com o semelhante (que não se reconhece como tal).

Análise oportuna, Artur. Glauco mostrava à sociedade brasileira muitas de suas mazelas. Curiosamente, era publicado há 30 anos na "Folha de S. Paulo", veículo que assume uma função lapidar na reprodução do que há de pior nas práticas sociais brasileiras.

Luiza Duarte disse...

O pior de tudo é que acho que é uma situação generalizada. A classe média brasileira é caricata e uma fonte inesgotável de críticas (e piadas), para um bom observador. O blog já conseguiu fazer mais de 40 posts depreciativos com situações recorrentes na sociedade e ainda tem muito mais!

O triste (ou, se serve de consolo, sei lá) é que a classe média como um todo, em vários países, é um poço de alienação, arrogância, futilidade e solidariedade seletiva. Não à toa, os Simpsons tiveram mais de 10 temporadas, retratando a mediocridade da classe média americana.

Anônimo disse...

Não vejo razão para excluir a revista Veja como uma publicação séria, ou pelo menos menos válida do que a Carta Capital. Aliás, as publicações esquerdistas assumem com muito mais frequencia o tom panfletário. Nada a favor do tom moralista da Veja, mas identifico boas reportagens e alguns bons colunistas como a do Mailson da Nobrega, por exemplo (acompanho com interesse a argumentação dele sobre a questão dos modelos de exploração do petróleo). Uma coisa é concordar com o que se fala, outra é se interessar por diferentes perspectivas. Abraço, Daniel Silveira

Yúdice Andrade disse...

Daniel, que a "Veja" não é séria é o que se diz de ponta a ponta do Brasil.
De minha parte, esclareço - com base em outras postagens, que podes encontrar através do marcador "imprensa" - que nada tenho contra publicações classistas. Só que elas deveriam dizer a que senhor servem. O que me deixa fulo é que o desgraçado defende os seus parceiros, mas jura pela fé da mucura que é imparcial.
Nesse sentido, as publicações esquerdistas são bem mais honestas. Não por serem esquerdistas, mas porque você sabe exatamente qual é a ideologia do jornalista. Ela pode até escamotear isso, mas o perfil já se antecipa, como um cartão de visitas. Quem lê "Carta Capital" sabe que encontrará elogios à esquerda e críticas à direita, porque esse é o perfil da publicação. Mas quem lê "Veja" é apresentado a críticas à esquerda muitas vezes montadas, irresponsáveis, e que pecam por omitir as mazelas da direita. E sempre com o estandarte do "compromisso com a verdade". Esse é o meu ponto.

Anônimo disse...

Esclarecido, Yudice. Bastante ponderado, como sempre. Tens muita credibilidade exatamente por causa disso.
Concordo em parte, permita-me. Que há sempre inclinações (deliberadas ou não), não duvido. Que a Veja serve aos patrocinadores, tampouco. Também acho odioso proclamar a própria imparcialidade ou sugeri-la. Mas declarar de antemão as próprias inclinações é tarefa que eu mesmo não estaria disposto a fazer, mesmo sabendo que quando alguém me lê percebe minhas inclinações.
Não cobro isso da Veja ou da Carta. Não cobro nem mesmo a honestidade das críticas. As opiniões me servem como pontos de um debate sobre o qual quero me posicionar.
Claro que o poder da mídia é algo a se considerar e é horrivel observarmos, impotentes, seu uso abusivo. Mas se a Carta fosse do tamanho da Veja, suspeito que a criticariamos da mesma forma. Não que ela fosse se proclamar imparcial, mas seu alcance e poder de manipulação nos inquietariam da mesma forma.
Grande imprensa, pequena imprensa, média imprensa, blogs como o seu, vivemos a era da informação pulverizada, nenhuma pode ser desprezada a priori. Sei que não defendes o contrário disso, somente especifico mais meu ponto de vista para vermos que não pensamos tão diferente assim.
Forte abraço, Daniel

Rodrigo Cordeiro (RUCordeiro) disse...

Olá, o blog (Classe Média)passou a ser privado...
Gostaria de ser convidado.

Anônimo disse...

O que descreve-se no blog da classe média pode não retratar as realidades de outros estados, mas de São Paulo e Rio, sem dúvidas o faz.

Procurando pelo blog da classe média para mostrar a um colega deparei-me com este, que também parece-me interessante.

De qualquer forma cada um tem um ponto de vista. E o meu é que a classe média tem sim suas ridicularidades.

Djionatan – Cabo Verde

Yúdice Andrade disse...

Caro Djionatan, sendo você de Cabo Verde, não sei o quanto está familiarizado com o jeito de ser do povo brasileiro. Por aqui, o que você chama de ridicularidades chegam ao ponto de profunda perversidade, por desconsiderar a própria humanidade daqueles que são nossos semelhantes. Ou deveriam ser.
Ontem mesmo um aluno de minha esposa disse a ela (também professora universitária, como eu), por causa de uma questão de prova, que não considerava moradia um direito humano; no máximo, seria um direito de quem pode pagar! Espumei de ódio quando ela me contou isso. Mas sabe o que é melhor? O aluno em questão não é nada rico. Pelo contrário, estuda em instituição privada graças ao FIES, programa de crédito educativo do governo federal. Pois é: brasileiros são assim; querem tudo para si, mas menosprezam os outros pelo que desejam. Vai entender.
Grande abraço.