sábado, 10 de outubro de 2015

Sobre as almas humanas

No sábado passado, precisamente, a esta hora da manhã, fazia menos de três horas que minha mãe havia partido. Eu estava plenamente consciente de tudo, calmo, apto a tomar as providências do velório enquanto meu irmão ajudava na preparação hospitalar do corpo. Após cinco dias de internação e um quadro de sofrimento agudo, não responsivo e não comunicativo, não havia lágrimas a derramar; apenas a certeza de que precisávamos tomar os últimos cuidados com o corpo de nossa mãezinha. Ela mesma não estava mais ali.

Salvo inevitáveis comoções em alguns momentos, normalmente ao entrar em contato com pessoas queridas, algumas das quais eu não via há bastante tempo, fiquei sob controle, conseguia conversar, raciocinava com clareza. Mas houve um momento em que a surpresa me provocou uma reação mais intensa e não pude reprimir as lágrimas. Eu falava com uma família amiga, que se esforçava por me animar, quando reparei, de soslaio, a chegada de uma coroa de flores. A faixa nela dizia: "Abraços e consolações. De seus eternos alunos da DI6TA."

Para quem não sabe, a disciplina que eu leciono (direito penal) se desenvolve ao longo de quatro semestres letivos, o que me permite uma longa convivência com as turmas. É possível criar laços profundos, se você estiver aberto a isso. Esses alunos, portanto, entraram em minha vida em agosto de 2013, quando eu era feliz e não sabia. Foi em janeiro de 2014 que recebemos a notícia sobre a doença de nossa mãe. E depois do susto e de alguns meses de suposição de cura, a partir de outubro as más notícias começaram a chegar. E não pararam mais. Mergulhamos na mais avassaladora rota descendente que se pode imaginar.

Resulta daí que esses alunos acompanharam todas as fases do nosso tormento. Eles me acolheram em dias preocupados, em dias ruins e em dias piores ainda. Houve ocasiões em que eu entrava em sala no automático, para conseguir ministrar minha aula, mas não conseguia conversar além disso. No último mês de junho, eles me proporcionaram uma linda despedida, que aliviou meu coração em um momento em que ainda lutávamos contra o câncer, mas já sabíamos que nossa mãe estaria conosco por pouco tempo e, inclusive, já nos perguntávamos se ela chegaria até o natal, p. ex. As outras duas turmas de penal IV tiveram idêntico carinho, preciso registrar.

E em 3 de outubro de 2015, mais de três meses após o término dos nossos trabalhos, esses alunos me enviam uma consolação, levada pelas mãos de Ana Carolina Albuquerque, que ali se encontrava para falar comigo. E eu precisei chorar, porque era como se alguém agarrasse meus ombros e me admoestasse, dizendo "Pare de reclamar! Ainda existe muito amor a sua volta e você só sabe se lamentar!"

O significado daquele gesto talvez nunca seja expresso aos meus eternos alunos. Ainda nem pude ir até a sala deles para agradecer, porque provavelmente não conseguiria falar. Então, neste dia que marca a primeira semana do nosso luto, cumpro o meu dever de registrar este agradecimento, que a Internet leva sem o comprometimento trazido pelos soluços que ficam por trás do teclado.

Aí veio a segunda-feira e um monte de gente me instava a não trabalhar, a começar por minha esposa. Afinal, a lei me confere o direito de gozar a licença-nojo, decorrente do luto por um parente próximo. Mas qual seria a alternativa? Ficar em casa remoendo pensamentos? Sei exatamente onde isso acabaria. Então me levantei e fui ministrar minha aula.

Agora o cenário é outro. Saíram as três turmas de penal IV e entraram três de penal I. São alunos novos, no curso e na vida. Conheceram-me na fase do desalento, quando eu já nem falava mais sobre a doença de nossa mãe, para não incomodar ninguém com minhas sombras. Quando estritamente necessário, eu mencionava "problemas de doença na família", mas de algum modo, claro, eles souberam que esses problemas eram um pouco mais sérios do que sugerido por minhas meias palavras.

Havia uma certa agitação na sala, naquela tarde, enquanto eu explicava a teoria da equivalência dos antecedentes causais. Isso me atrapalhava um pouco, mas não sou de ficar reclamando: sigo minha aula para quem quiser. E foi ótimo eu não ter reclamado, porque os alunos não me estavam atrapalhando. Muito ao contrário, estavam me ajudando. Eles correram folhas de papel, para que mensagens me fossem escritas. Ao final da aula, vieram me entregar. A voz na minha cabeça se manifestou de novo: "Eu não disse?Eu não disse?"

Agradeci com um movimento de cabeça, porque não poderia falar. Estava decidido a ler somente em casa, pois intuía que ficaria sem condições para a aula seguinte. Mas a curiosidade venceu e li as três folhas de papel. E elas me fortaleceram. Deixaram-me um pouco mais apto a seguir com a aula seguinte e a outra e o resto da semana. E o resto da vida. Agradeci a eles na aula seguinte. Guardarei as três folhas de papel como se fossem uma medalha por alguma coisa importante que fiz. Mas a única coisa que fiz foi ter a sorte de ser acolhido por tanta gente boa e generosa.

Como tenho dito, jovens que renovam minha esperança quanto ao futuro do mundo. Alunos de ontem e de hoje, que reforçam uma das poucas certezas que nunca foram questionadas em minha vida: eu precisava ser professor. Com a docência, gerações de seres humanos se sucedem, permitindo-me estar sempre ao alcance dessa energia renovável magnífica: a alma verdadeiramente humana.

2 comentários:

Gilda e Manuela disse...

Yúdice, meus sentimentos...
Ainda há muito amor ao redor...
Beijos
Gilda

Unknown disse...

Professor, pouco sei o quanto uma mãe faz falta na vida e nem imagino o quão angustiante seja perdê-la. Acompanhei sua dor um pouco distante, mas sei o quanto lutou com sua família até que chegasse o momento do descanso.
Já ouvi dizer que a saudade é o amor que fica. Só há saudade de quem se ama. Tenho certeza que sua mãezinha levou amor e deixou amor. E esse sentimento é visível para nós, seus alunos. E ele se multiplica entre nós. És um exemplo de coragem, força e de humanidade e não é difícil nos afeiçoarmos ao senhor.
Neste Círio, incluí vocês em minhas orações, rezei por sua mãezinha, para que descanse, e para que sua alma se renove para alegrar outras almas, outros corações, onde quer que esteja.
Não sou muito de demonstrar sentimentos, mas saiba que senti muito sua perda e desejo, como sempre, o melhor para o senhor e sua família. Conte comigo sempre! Um grande abraço.