segunda-feira, 8 de outubro de 2018

EU ACUSO...!

Alfred Dreyfus era um oficial de artilharia do exército francês que, em 1894, foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, pelo crime de alta traição (revelar informações aos inimigos alemães) em um processo secreto e baseado em provas forjadas. O "caso Dreyfus" se tornou célebre, sendo tratado por muitos como um terrível erro judiciário, quando na verdade foi uma conspiração com pesados ingredientes de nacionalismo e xenofobia (o acusado era judeu). Com a descoberta de provas de que outro oficial francês, Charles Esterhazy, era o verdadeiro traidor, Dreyfus conseguiu um novo julgamento, mas novamente restou condenado, contrariamente às evidências. O sistema estava se protegendo.

Já famoso, o escritor Émile Zola publicou no jornal L'Aurore, em 13 de janeiro de 1898, sob o título "J'accuse...!", uma carta arrebatadora ao presidente da República francesa, Félix Faure, citando nominalmente as autoridades responsáveis pela condenação falsa de Dreyfus, que posteriormente chegou a ser inocentado e parcialmente reintegrado ao exército, tendo todavia perdido a sua honra militar. Jamais pediu ou recebeu qualquer compensação por terem desgraçado sua vida.

120 anos se passaram, mas o nacionalismo irracional e o mais bárbaro preconceito seguem mais vivos do que nunca, mesmo após a inominável experiência da II Guerra Mundial. O extremismo avança por todo o mundo e, no Brasil, claro, cresce sem parar, insuflado pelas elites econômicas e, inclusive, intelectuais. As eleições deste ano são a expressão mais sensível desse fenômeno entre nós. Como todos sabemos, o extremismo custa vidas. Elas são perdidas todos os dias, sob inúmeras formas de violência, e também são destruídas na luta contra o fascismo.

Inspirado pelo exemplo de Zola, quero lhe mostrar a foto abaixo.

Moa do Katende, mestre de capoeira, expoente da cultura negra em Salvador, BA. Foi assassinado com 12 facadas nas costas (impossibilidade de defesa) há algumas horas, na madrugada de hoje. Segundo notícias publicadas pela imprensa comum (https://extra.globo.com/casos-de-policia/mestre-de-capoeira-morto-com-12-facadas-apos-dizer-que-votou-no-pt-em-salvador-23139302.html?utm_source=WhatsApp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar), foi assassinado por um eleitor de Jair Bolsonaro, durante discussão iniciada por este, simplesmente por ter afirmado seu voto em Fernando Haddad e informado que, por ali, as pessoas preferiam o PT. Outro mestre de capoeira tentou defendê-lo e também foi ferido.

De tudo que se pode dizer contra Jair Bolsonaro, e não é pouco, o que mais me repugna é ele funcionar como um catalisador do ódio, do preconceito, da violência desmesurada de uma população que sempre odiou e violentou o negro, a mulher, o pobre, o homossexual e todo tipo de vulnerável. Uma população que tem certeza de sua superioridade e merecimento de privilégios e que deseja, acima de tudo, manter as pessoas nos lugares que acredita lhes serem destinados.

Por isso, EU ACUSO os (por enquanto) 49.275.360 brasileiros que votaram em Bolsonaro, ontem, pela morte de Moa do Katende. Esta morte, decerto, não lhes pesará na consciência que não possuem. Mas esse sangue está em suas mãos.

Moa do Katende. Primeiro nome da lista. E contando.

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