sábado, 16 de abril de 2016

Belém - São Luís - Belém

Decidimos em família passar o feriado da Semana Santa em São Luís, visitando amigos queridos. Também era uma forma de sair um pouco de casa (da cidade), pela primeira vez desde que estamos de luto. A necessidade de espairecer quanto possível estava aí há tempos, sem ser atendida. Também decidimos fazer a viagem por via rodoviária.

Minha primeira deliberação foi não fazer a travessia de ferry boat, porque em 22 de setembro do ano passado houve um acidente envolvendo a embarcação Cidade de Alcântara, da empresa Internacional Marítima. Segundo informa um blog de São Luís, e também notícias da mídia tradicional, o casco do navio furou no meio da viagem. Sem escolha alguma, o comandante decidiu prosseguir até São Luís, sob imenso risco, e felizmente chegou a tempo de evitar uma tragédia. Mas as notícias que se seguiram deram conta de que o serviço de travessia entre a capital maranhense e a Ponta da Espera (Porto de Cujupe) está péssimo, com duas empresas operando embarcações velhas e com problemas de manutenção. Como minha relação com navegação é bastante hostil, nem hesitei: nada de ferry boat!

Optei, assim, por fazer o trajeto de quase 800 quilômetros integralmente pela estrada, apesar do desestímulo do Google Maps, apontando 12 horas de viagem. Confiei, porém, na informação de que havia apenas um trecho ruim, após o Município maranhense de Santa Inês. Mas a realidade que se apresentou foi bem diferente e muito pior. Mas vamos por partes.

Em que pese o vexame de a BR-316 não ser duplicada até hoje, a despeito de sua importância para o escoamento de mercadorias e para o turismo, a rodovia está em boas condições. Pode-se viajar sem susto, embora sentindo falta de acostamentos adequados e lamentando as enormes distâncias com mato de ambos os lados, ou seja, em caso de emergência, é difícil pedir ajuda. À medida que nos aproximamos da fronteira com o Maranhão, os sinais de celular e de internet caem e ficamos incomunicáveis. Mas isso não é nada perto do que vem depois.

Passando do Município de Santa Inês, saímos da BR-316 para a BR-135 e aí a desgraceira começa. São cerca de 250 Km que poderiam ser vencidos com facilidade, não fosse o fato de a rodovia parecer o resultado de um bombardeio. Há poucos trechos em que podemos ganhar alguma velocidade, mas não há segurança nisso, porque nunca sabemos quando um buraco vai aparecer. E são buracos do pior tipo: profundos e de tamanho suficiente para abocanhar o seu pneu, destruí-lo e causar danos estruturais ao veículo. Cair em um buraco desses, ainda que em velocidade moderada, é fim de viagem. E isso ainda pode ser considerado sorte.

Quanto mais nos aproximamos da capital, pior a situação fica. A empresa de abastecimento de água está fazendo uma dessas obras intermináveis e, devido a isso, acaba o asfalto, sobram depressões na pista e os motoristas, aturdidos, começam a se jogar uns sobre os outros, à procura de um lugar para passar. Formou-se um engarrafamento (felizmente para nós, no sentido de saída da cidade) de muitos quilômetros. Eu via aqueles veículos parados, muitos com crianças, e não conseguia imaginar quantas horas ficariam presos ali. E ninguém sabia o tamanho do problema. Para alguns, informei.

Honestamente, chegar em São Luís pela BR-135 foi uma experiência horrível. Acho que nunca mais vou reclamar da região metropolitana de Belém, com seus engarrafamentos absurdos. Comparado, é quase um paraíso. Então decidi que não retornaria àquela estrada. Decidi enfrentar meu medo e fazer a viagem de volta pelo ferry boat. Ainda que reticente, foi a decisão mais acertada. A travessia foi tranquila e rápida, fazendo-nos economizar um pouco mais de 200 quilômetros de chão. O lado ruim é que as embarcações são barulhentas e cheiram muito mal. Uma arma contra alérgicos. Mesmo assim, é a melhor alternativa, no contexto.

Os menos de 200 quilômetros entre a Ponta da Espera e o Município de Governador Nunes Freire estão em boas condições, embora alguns trechos estejam danificados e exijam atenção redobrada. No entanto, pode-se viajar em paz, lamentando, mais uma vez, a incomunicabilidade, as longas distâncias vazias e a falta de sinalização. Chegar de novo à BR-316 pode ser um alívio, mas o problema são os cerca de 370 quilômetros que ainda nos separam de casa.

Para nosso infortúnio, do Cujupe até Belém a viagem foi feita quase toda sob chuva. Ora pancadas, ora uma chuvinha tolerável. À noite, contudo, já no Pará, ela desabou sem trégua, tornando nossa viagem bem mais perigosa, pela baixa visibilidade e outros motivos.

Espero que este texto, longo para os padrões internéticos, sirva de orientação para alguém que esteja pensando em se deslocar entre as capitais paraense e maranhense por via rodoviária. Prefira a travessia de ferry boat, faça uma boa revisão em seu veículo, leve provisões e, de preferência, divida a direção com alguém, para diminuir o sacrifício. Mas se der mesmo, vá de avião. Doravante, é o que farei. Como não podemos esperar que os governos melhorem e se preocupem de verdade com os brasileiros, essa é uma viagem que não pretendo mais fazer por terra.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá Yúdice. Entrava muito nesse blog, mas a falta de tempo e as novas redes sociais, me impediram de voltar a acessa-lo. Acabo que entro mais no face e no zap zap. No mais, é sempre um prazer ler esse blog. Achei muito interessante o relato.
Em setembro, viajei com minha esposa para São Luis. Decidimos ir de avião. Apenas 40 minutos sem stress. Não tenho coragem de ir pela estrada. Acho muito perigoso. Mas, a cidade nós achamos que está bem cuidada, pelo menos na parte onde ficamos, as ruas estavam limpas e asfaltadas. Infelizmente, Belém está abandonada e qualquer capital do nordeste está melhor. Abraço. Márcio Farias