segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

As leis e a realidade

O confrade Kenneth Fleming, advogado que frequentemente me brinda com ótimos comentários, escreveu acerca da postagem "Incêndios tenebrosos", aí embaixo. Dadas as suas lúcidas ponderações, e ciente de que nem todos leem a caixa de comentários, transcrevo o texto, ao mesmo tempo em que já ma manifesto sobre ele.

Vejam como são as nossas leis. Sei que você pensa diferente, Yúdice, mas creio que o país precisa ser mais rigoroso na aplicação e no cumprimento das penas. Penas alternativas e ressocialização de presos são ineficazes, conforme prova o alto índice de reincidência criminal. 

A contrariedade ao endurecimento das leis, não apenas as criminais, como estratégia de solução dos problemas sociais decorre da percepção fática de que poucas pessoas realmente se motivam pelas leis e, ainda assim, apenas quando estão em condições ou dispostas a fazer raciocínios de custo-benefício.

Pessoas de mais baixo nível educacional, ou criadas em ambientes violentos, ou imaturas quanto a frustrações, tendem a agir contra as leis mesmo conhecendo as consequências de seus atos. Vejam-se os crimes passionais, p. ex., em que mesmo pessoas instruídas assassinam as parceiras à luz do dia, na presença de testemunhas, em locais públicos, etc. O desejo de cometer o crime é tão dominante que nada as detém. Esses, não há pena de morte que segure. Tudo bem que seja um exemplo extremo, mas na maioria dos casos o criminoso age contando com a impunidade, de modo que a dureza da lei perde seu poder dissuasório.

Preciso deixar claro, porém, que não sou contra o endurecimento das leis não penais. Nesse particular, sou até bastante favorável ao rigor, sendo o trânsito o caso mais veemente.

Concordo que devemos ser sérios e rigorosos na aplicação e no cumprimento de toda e qualquer pena, assim como outros tipos de decisão judicial e também as normas administrativas. Mas não é a eventual brandura das penas que inviabiliza a ressocialização de condenados. Os fatores são outros. No mais, a prisão é um grande paradoxo, em si mesma: como ressocializar um indivíduo por meio de sua dessocialização, e sem considerar se ele chegou a ser socializado em algum momento?

Outrossim, embora não se conheçam estudos sérios sobre o assunto, consta que o maior índice de ineficácia das penas está nas prisionais e não nas alternativas. Dentre estas, algumas são bem ruins, mas a prestação de serviços à comunidade pode ser muito positiva, tanto para o apenado quanto para a sociedade.

No caso do circo em Niterói, se houve condenação é porque houve o entendimento de que o rapaz era o culpado. Então pergunto : como é que uma pessoa responsável por 500 mortes, premeditadamente, é condenado somente a 16 anos de prisão? Brincadeira.

Prevaleceu a tese de que Adilson era o culpado, inclusive porque ele confessou. Mas se hoje em dia confissões obtidas em depoimentos policiais costumam ser cotidianamente contestadas (por causa dos métodos bastante conhecidos), imagine-se em 1961. Não estou defendendo ninguém, não. Apenas os erros judiciários são uma realidade e por isso a instrução processual deve ser muito bem feita.

Quanto ao montante da pena, no meu texto original deixei claro que foi pouco. Existem mecanismos na lei e na teoria do direito penal que me permitem afirmar que Adilson teve, no mínimo, dolo eventual em relação a todas aquelas mortes, de modo que ele poderia em tese ser condenado a uma pena de 12 a 30 anos para cada morte. Multiplicando 12 por 500, poderíamos pensar numa pena de 6000 anos de reclusão, só pelos homicídios consumados. Irreal, mas tecnicamente possível em meu entendimento. E por que ele sofreu apenas 16 anos? Não sei. Mas não é da tradição do judiciário brasileiro a imposição de penas exemplares, realidade que está mudando nas últimas duas décadas, inclusive por pressões populares comandadas pela mídia.

Mesmo nos crimes mais infames que temos presenciado Brasil afora, com premeditação, motivo fútil, formação de quadrilha, latrocínio, etc, etc, as condenações ficam em torno de 12 - 15 anos, tudo com direito a progressão de regime, saidões que montam a mais de 30 dias/ano, etc, etc.

Como disse acima, essa conjuntura está mudando. Alexandre Nardoni foi condenado a mais de 34 anos de prisão. Parece-me uma tendência. Num caso altamente controverso, Eliana Tranchesi, a finada dona da Daslu, foi condenada a 94 anos de reclusão por sonegação tributária e fraudes, em continuidade delitiva.

Quanto à progressão de regime e demais benefícios de execução penal, são justificados por motivos concretos, são úteis e necessários, não devendo ser confundidos com os desatinos de sua aplicação, perpetradas por agentes públicos por vezes despreparados ou descompromissados com os efeitos sociais de seus atos.

A propósito, as saídas a que você se refere podem chegar a um máximo de 28 dias por ano. Sei que a diferença é pouca.

Quando esses bandidos tiverem o conhecimento de que ficarão encarcerados 30 longos anos, sem direito a progressão de regime ou saidões, com certeza a criminalidade diminuirá. O que os incentiva ao crime é a certeza da impunidade, a certeza de que ficarão, primeiramente, uns 10 anos respondendo ao processo em liberdade, para só então cumprir alguns aninhos na prisão.

Sim, contar com a impunidade é sabidamente um dos fatores mais criminógenos que existem. Discordo, contudo, da premissa. Concordo com inúmeros autores que, como Beccaria ainda em 1764, afirmam que a certeza da punição é mais importante do que sua dureza. O problema é que, no Brasil, não se tem garantias sequer de que o indivíduo será punido e isso acaba se misturando com o tema da gravidade das penas. O cidadão médio acaba por tratar tudo como a mesma coisa, sujeita às mesmas causas.

O que ficam fazendo os homicidas, latrocidas, estelionatários, ladrões e corruptos enquanto "respondem em liberdade"? É claro que continuam a delinquir.

Imagino que seja isso, mesmo. Não discordo. Mas como confrontar esta sua afirmação com o fato de que, no Brasil, há mais presos provisórios do que condenados? Poderíamos propor uma questão diferente: não estamos prendendo pouco; estamos prendendo errado. E isso está longe de ser uma mera questão semântica.

Creio que essa falaciosa diretriz de que "ninguém é culpado até a decisão final" precisa ser revista. Bem como a morosidade pornográfica dos nossos tribunais. As denúncias são apresentadas à Justiça após 5-6 anos, e depois são outros 5-8 anos para uma decisão, ainda em 1ª instância.

O princípio do estado de inocência é uma conquista civilizatória, que não merece nenhum reproche se entendido em seu contexto histórico. Conseguimos, por meio dele, que as pessoas não pudessem mais ser presas, mortas, expropriadas de seus bens por meio de acusações exíguas, formuladas às vezes por adversários notórios. Trata-se de uma garantia essencial, que não pode ser abolida nem mitigada. Aqui, mais uma vez, acho que se está confundindo um tema com outro. Você aborda, com toda razão, a morosidade pornográfica da justiça. Veja que o problema não é do estado de inocência: é da burocracia estatal. É esta que deve mudar, não o princípio.

O problema da criminalidade não é falta de polícia. Até porque não há como a mesma ser onipresente. Não há efetivo para se colocar em cada esquina das nossas cidades.

Não, meu amigo. O problema da criminalidade é as pessoas não se darem conta de que a noção de crime não é natural nem está inscrita na consciência unânime de todos os seres humanos. Ela é uma escolha do Estado, de cada Estado, e sua concretização no cotidiano das ruas é arbitrária e frequentemente realizada de má fé. Quando a polícia prende um criminoso, isto não é um problema. O problema é quando a polícia prende alguém que supõe ser um criminoso e essa hipótese é tratada como verdade absoluta.

No final das contas, criminoso é quem a polícia diz que é. Ministério Público e judiciário só vão na corda depois. Estou iniciando estudos sobre esse tema.

O que falta são leis mais rigorosas e um Judiciário que se dê o respeito, trabalhando com efetividade e agilidade.

Discordo em parte da primeira assertiva (motivos acima) e concordo totalmente com a segunda, lembrando que o judiciário não pode figurar como a Geni da história. Tudo arrebenta nele, mas há muitas outras instituições, públicas e privadas, causando crimes e dificultando a persecução criminal. Você citou, p. ex., os corruptos. Corrupção não é privilégio do judiciário, certo?

Sempre um prazer debater com você, Kenneth. Volte sempre.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Incêndios tenebrosos

A tragédia medonha que se abateu sobre a cidade gaúcha de Santa Maria, em que se contabiliza até o presente momento um total de 245 vítimas fatais, é o segundo pior incêndio da história do Brasil. Totalmente ignorante sobre o assunto, achei que o primeiro era o célebre caso do Edifício Joelma (São Paulo, 1974), mas neste houve 187 mortes, bem menos do que agora.

Segundo reportagem da BandNews, que só está tratando do caso de Santa Maria, o maior incêndio ocorrido no Brasil foi o do Gran Circus NorteAmericano, poucos dias antes do Natal de 1961, no qual houve mais de 500 mortes, 120 mutilações e mais de 2000 feridos. A repercussão foi internacional.

As investigações da época concluíram que o incêndio fora criminoso. Adilson Marcelino Alves teria trabalhado na montagem da lona do circo, mas acabou despedido por ter antecedentes criminais. Como vingança, ateou fogo à dita lona, contando com a ajuda de Válter Rosa dos Santos e de José dos Santos. Estas informações adviriam da confissão do próprio Adilson, que acabou condenado a 16 anos de reclusão (eu também pensei "só?!"), mas fugiu após 11 e pouco depois foi encontrado morto.

Vale a pena ler este texto, que detalha o ocorrido e fornece outras informações curiosas, tais como o empenho de Ivo Pitanguy e uma equipe de voluntários, para ajudar as vítimas com cirurgias plásticas, bem como o aspecto místico: um empresário teve um sonho, uma revelação divina relacionada à tragédia e, por causa disso, transformou-se no Profeta Gentileza, figura urbana conhecida no Rio de Janeiro, falecido em 1996 (homenageado por uma canção de Marisa Monte). Esta matéria também contém links para fotos do sinistro e para quatro vídeos, contendo o programa Linha Direta: Justiça, da Rede Globo, sobre o caso. Contém outro link para um blog que reúne notícias de jornal da época.

Contudo, o que mais me chamou a atenção foi um comentário ao pé do texto, no qual um indivíduo, que diz pesquisar sobre o assunto para escrever um livro, afirma que Adilson, réu confesso, não provocou o incêndio. Veja:


Caro amigo, sou de Niterói e estou escrevendo um livro que trata sobre incêndios e tenho descoberto fatos interessantes sobre o incêndio do Circo que pode mudar toda uma história no que se refere a culpa do tal “Dequinha” que na verdade não apareceu morto em um beco, e sim foi executado com dois tiros, um pelas costas e outro na nuca para conferir no próprio morro onde ele morava em Niterói.Uma das crianças da época que presenciou o assassinato, hoje adulto me confidenciou tal fato e a versão da família foi que na verdade o que provocou o incêndio foi o estouro de uma lâmpada. Um ponto que me fez acreditar nesta versão foram outros fatos ocorridos, é verdade que ele fora demitido do circo e o mesmo não pagou a ele o que deveria de direito, mais o mesmo dono do circo anos atrás perdeu outros dois circos que tinha pelo mesmo motivo, incêndio! Um se chamava Bufalo Bill Circus e o outro Shangrilar Circus.Sabemos que os circos sempre foram ambientes precários principalmente na época que não havia a prevenção, sabemos também que a polícia quando quer sabe fazer uma pessoa confessar até o que não fez e por ter sido uma tragédia muito grande precisavam de um “boi de piranha”.Será que realmente o Dequinha foi o culpado ou foi o “bucha”? Estou tentando levantar as informações do assassinato, assim que conseguir mais informações em entro em contato. Pessoal, infelizmente o homem tem o péssimo habito de manipular as informações, antes de julgar vamos ver os verdadeiros fatos.

Há partidários dessa tese. Será que o homem morreu carregando uma culpa que não era sua? Eis aí um tempero apimentadíssimo para uma teoria conspiratória. Mas será que existe alguma outra verdade para ser descoberta ou apenas alguém enganado ou, quem sabe, querendo se promover às custas do sofrimento alheio?

Quanto ao episódio de hoje, falta descobrir as causas do incêndio. Mas já sabemos que os seguranças, que fecharam as portas para impedir que as pessoas saíssem sem pagar, pois acharam que a confusão era uma briga, mesmo agindo por erro, já estão bastante encalacrados. Eu não gostaria de estar no lugar deles e, muito menos, de vocalista de banda que faz gracinha com um sinalizador.


Fontes:

  • http://pt.wikipedia.org/wiki/Edif%C3%ADcio_Joelma
  • http://nitsites.com.br/blog/incendio-circo/

sábado, 26 de janeiro de 2013

Arma de DNA

Uma ideia sem dúvida muito interessante e útil para a segurança pública: a arma que você vê aí ao lado é do tipo não letal e dispara cápsulas contendo um líquido que é, na verdade, um marcador sintético de DNA. Ao atingir roupas e pele de uma pessoa, a substância cria um mecanismo eficiente de identificação que resiste durante semanas.

Se por alguma razão não for possível a prisão do criminoso em flagrante, a confirmação da autoria delitiva poderá ser feita em momento posterior, com segurança, porque o marcador é único. Mesmo que se encontrasse outra pessoa também marcada, seria possível saber quem é quem.

No Brasil, o equipamento poderia ter uma outra finalidade: é que, por estas bandas, os policiais gostam de atirar primeiro e perguntar depois, o que implica em atingir inocentes, também. Com essas armas, que não provocam nenhuma forma de lesão (o marcador nem sequer é visível, a menos que sob luz ultravioleta), o policial brasileiro típico poderia saciar sua necessidade de mandar bala em qualquer coisa que se mexe, sem matar nem aleijar o alvo. Se não ajudar na identificação, pelo menos reduz a violência urbana, inclusive o risco de balas perdidas!

Brasileiro é criativo. Eles fazem lá e, aqui, damos um jeito de fazer algo melhor.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Aquele que não existe no Brasil

Em que pese a bancada ruralista no Congresso Nacional afirmar que não existe trabalho escravo no Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego continua alucinando e emitindo relatórios sobre fantasias e enganos. Concluídos os dados relativos ao ano de 2012, a informação é de que 2.560 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão. Sem surpresas, mais uma vez o Pará liderou o ranking, com mais de 500 resgatados. Ou seja, são 27 unidades federativas, mas apenas uma delas responde por quase um quinto do total.

Observando o quadro relativo às missões de resgate desde 1995 (na matéria indicada abaixo, há um link para esse quadro), constata-se que os números de operações e de resgates quase sempre aumentam, sendo raras as situações em contrário. Veja-se que, de 2011 para 2012, as operações caíram de 171 para 135, mas mesmo assim os resgates aumentaram de 2.491 para 2.560. Os anos de 2003, 2007 e 2008 foram os piores, com mais de 5 mil resgatados em cada. Aliás, 2007 só não atingiu 6.000 por uma cabeça.

No acumulado do período, já são 44.231 seres humanos escravizados. Isso porque as dificuldades de toda ordem impedem ações mais enérgicas das autoridades. Logo, estamos contabilizando apenas uma parte do problema.

Quem está fantasiando agora?

Fonte: http://portal.mte.gov.br/imprensa/mte-retirou-no-ano-passado-2560-pessoas-do-trabalho-analogo-ao-de-escravo/palavrachave/trabalho-escravo-grupo-movel.htm

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Precisava mesmo disso?

A imprensa está cada vez mais impossível. Comporta-se em relação à matéria criminal do mesmo modo que em relação a outros assuntos, sem o menor interesse pelas implicações. Quer os furos de reportagem e as informações exclusivas, para se colocar acima dos concorrentes. Mas com isso revela a disparidade de forças entre os pequenos veículos de comunicação e os grandes, cujo poder e/ou dinheiro permite o acesso a dados e documentos que deveriam ser sigilosos, até porque um inquérito policial é um procedimento sigiloso! Ou deveria ser.

Fico profundamente repugnado de ver que um caso de grande repercussão (o homicídio da fisioculturista Fabiana Caggiano Paes) tem sido explorado a ponto de o Portal G1 expor fotos do exame necroscópico realizado sobre o cadáver, revelando as marcas de estrangulamento.

A atitude, obviamente movida pelo interesse comercial da repercutir a notícia, denota desrespeito à memória da vítima e, sobretudo, profunda desumanidade com os familiares, os quais poderiam jamais folhear os autos do inquérito e da futura ação penal. Será, todavia, muito difícil que escapem da exposição dessas imagens pela Internet, ainda mais num mundo em que as pessoas se comprazem em mostrá-las justamente a quem não quer e não merece vê-las.

Imagine um pai, uma mãe, um irmão, um amigo tendo que se defrontar com essas imagens e com o que elas representam de imediato: a projeção do sofrimento que a moça enfrentou, em seus instantes finais. Sinceramente, podíamos passar sem essa. Isso não é informação de interesse jornalístico (bastava noticiar o fato, sem as imagens): é sadismo, mesmo.

No mais, eu realmente questiono a postura de um delegado de polícia que convoca a imprensa para antecipar informações que, repito, são em princípio sigilosas. Digo antecipar porque o destinatário do inquérito é o Ministério Público e depois o judiciário. No mínimo, estes é que deveriam deliberar sobre que tipo de elementos poderiam ser divulgados, imbuídos do máximo de bom senso. Nunca a polícia.

Mas é clássica a relação entre uma polícia exibicionista e mundocanista e uma imprensa perversa e igualmente mundocanista.

Como o mundo vai mudando

Uma discussão das mais importantes para o mundo do direito, hoje, diz respeito à solução dos casos difíceis. Vejam que exemplo interessante:

Duas mulheres, casadas uma com a outra, tiveram um filho. A criança nasceu com baixo peso e tem dificuldades para mamar. A mãe biológica não consegue amamentá-lo. Sua companheira, então, fez tratamento hormonal para assumir essa função e requereu, ao órgão público em que trabalha, licença-maternidade. O pedido foi negado, mediante a aplicação estrita da legislação vigente. Contudo, a 3ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal acolheu a pretensão, destacando que o órgão não errou, já que é obrigado a cumprir a lei. Mas que a pretensão poderia ser concedida pelo judiciário, com fundamento na necessidade de proteger a vida e a saúde do bebê.

Bacana, não? São essas coisas que me fazem adorar o direito.

Saiba mais: http://www.conjur.com.br/2013-jan-23/mulher-tirar-licenca-maternidade-amamentar-filho-companheira

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Cloud Atlas

No final de semana retrasado, tentamos ver o filme toscamente chamado, no Brasil, de A viagem. Chegamos ao Cinépolis do Parque Shopping (longe do centro da cidade) com uma hora de antecedência, pelo menos, mas a sessão das 20h40 estava esgotada. Exatamente uma semana depois, repetimos a tentativa e, chegando com apenas, meia hora de antecipação, não tivemos a menor dificuldade. O cinema estava com aproximadamente 60% de sua  lotação, no mesmo horário do mesmo dia da semana. Ainda me pergunto se a redução do público se deve ao fato de que muitos já viram o filme ou se tem a ver com a opinião, exteriorizada em diversos comentários pelas redes sociais, de que a trama seria difícil, confusa ou — infame trocadilho — de que é uma viagem, no sentido depreciativo.

Cloud Atlas (o título original é muito mais cheio de intenções e possibilidades do que a paupérrima versão nacional) é a longa (são 172 minutos) adaptação do romance homônimo (2004) do escritor inglês David Mitchell1, que tem uma relativamente curta porém respeitada carreira. Se tivéssemos que escolher uma classificação, melhor seria enquadrá-lo como ficção científica, que é o que mais se adequa ao que foi exibido na tela e também corresponde aos prêmios recebidos pelo romance.

Muito em síntese, a trama conta seis estórias paralelas, cujos personagens seriam reencarnações (o vocábulo foi usado pelo próprio autor do livro; v. nota 1) — aspecto que por sinal me incomoda, como espírita, porque insiste no velho clichê de que as pessoas reencarnam em corpos iguais aos que possuíam antes. Mas deixemos o aspecto espiritualista para depois. Iniciando no século XIX e indo até uma futura sociedade pós-apocalíptica, você vê trajetórias que se cruzam porque tudo está conectado. Essa parece a grande premissa metafísica do filme.

Os pontos de contato entre cada capítulo podem ser extremamente frágeis e indiretos (o livro de Adam Ewing apoia um móvel de Robert Frobisher e ele se registra na espelunca como Mr. Ewing) ou mais profundos e indefiníveis (o físico Isaac Sachs se apaixona pela jornalista Luisa Rey assim que a vê, e coloca sua vida em risco por isso, pois acredita haver uma ligação entre eles; a jornalista escuta uma peça musical rara, mas tem certeza de já a ter ouvido antes).

A maior parte dessas ligações, portanto, é verdadeira, porém não conduz a nenhuma epifania ou descoberta existencial. A ênfase acaba pairando sobre o amor entre os personagens de Tom Hanks e Halle Berry, que atravessa os séculos. O que de modo algum compromete a qualidade dessas tramas, capazes de provocar valiosas reações emocionais do público. O romance, e o roteiro dele decorrente, são belas obras ficcionais e não tratados de filosofia moral, pelo que se pode afirmar que cumprem muito bem seu papel, se a isso se limitarem.

Mas, no Brasil ao menos, estão tentando de todo jeito relacionar o filme à doutrina espírita, o que eu, como espírita, não endosso de modo algum. Talvez isso explique o título imbecil, que remete à novela da Rede Globo, de temática espírita e que fez sucesso nas duas versões. Mas esta particularidade será objeto de uma próxima postagem.

A viagem não tem nada de difícil. Apenas conta seis tramas paralelas sob edição fragmentada. Se cada estória fosse contada por capítulos, ficaria patente como é mais simples do que parece (e perderia quase toda a graça, porque depende dessas idas e vindas para estimular reflexões em quem assiste). Se apenas isso força demais os neurônios do sujeito, honestamente, ele está passando um veemente recibo. Nesse caso, melhor mesmo ficar em casa vendo aqueles programas em cuja concepção reina o raso, o vazio, o medíocre e o mais profundo individualismo.

***

A viagem contou com uma publicidade adicional, decorrente da mudança de sexo do outrora Larry e agora Lana Wachowski, um dos diretores. Saiba mais sobre o caso nesta postagem feminista. Muita coisa mudou desde Matrix.

E nem tudo são flores na trajetória do filme. Na China, nada menos do que 40 minutos da projeção foram cortados. Saiba mais aqui.

No mais, agradável a crítica de Pablo Villaça.

1 Fiz uma busca e, aparentemente, o romance não foi editado no Brasil, ainda. Vi sites brasileiros vendendo o livro em inglês e uma versão para o português editada em Portugal, por sinal com o péssimo título Atlas das nuvens, que parece uma tentativa de tradução literal e absolutamente desinformada. O próprio autor explicou o título, que deveria ser entendido de forma literal: nuvem Atlas ["Literally all of the main characters, except one, are reincarnations of the same soul in different bodies throughout the novel identified by a birthmark... that's just a symbol really of the universality of human nature. The title itself 'Cloud Atlas', the cloud refers to the ever changing manifestations of the Atlas, which is the fixed human nature which is always thus and ever shall be", cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Cloud_Atlas_(novel)].

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pediatras contra os andadores

Não é de hoje que tenho conhecimento de que os andadores infantis (aqui no Pará costumam chamar de anda-já) são perniciosos ao desenvolvimento do bebê, por forçá-lo a realizar ações para as quais o seu corpo - o seu sistema nervoso, sobretudo - não está preparado. Por isso, acho bastante salutar que a Sociedade Brasileira de Pediatria decida, agora, encampar uma campanha contra o uso do equipamento.

Pessoalmente, acho que essa campanha de conscientização não dará muito certo. Afinal, o andador é uma enorme conveniência e as pessoas, hoje em dia, querem conveniência para tudo, inclusive para criar filhos. Pode-se largar o moleque lá, sentadão, enquanto você se ocupa de coisas mais importantes. Lá o estorvinho pode brincar, dormir (se vencido pelo cansaço ou pelo tédio) e explorar o mundo (hipótese em que os pais acham que estão fazendo grande coisa pelo pequeno). Há uma outra questão que merece lembrança: muitos pais hiperestimulam seus filhos, na perspectiva de que andem, falem e façam coisas especiais o mais rápido possível.

Depois que vi uma amiga altamente instruída, profissional da educação e tendo no currículo experiência com portadores de necessidades especiais, colocar o rebento num andador desses, percebi que apesar de termos muito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. A esmagadora maioria dos pais simplesmente não vê mal nenhum no equipamento e considera essas advertências exageros injustificáveis, quando não rematadas asneiras. Escutar sobre desenvolvimento do cérebro não é para qualquer um.

Faço uma comparação que pode soar absurda, mas que acredito pertinente. No passado, muita gente amarrava a mão esquerda de crianças sinistras (termo correto para "canhotas"), a fim de que elas não tivessem escolha e escrevessem com a mão direita, o que era considerado o "certo", o padrão desejável, sabe-se lá por quê. Com os avanços da neurologia, descobriu-se que - falando sumariamente - cada hemisfério do cérebro (direito/esquerdo) controla o lado oposto do corpo. Na verdade, há áreas do cérebro específicas para cada função, de modo que não é uma agressão dessas que poderia corrigir o suposto problema. Em caso de acidentes com perda dos movimento da mão, p. ex., pode-se ensinar a outra mão a escrever, mas isso pressupõe um método organizado que estimule as áreas corretas do cérebro e não simplesmente forçar o uso imediato da habilidade que o indivíduo não possui. Isto poderia até trazer-lhe prejuízos.

O uso do andador pode, em tese, implicar em prejuízos nesse nível, do desenvolvimento cerebral. Mas vá explicar isso para o cidadão comum...

Caso eu tenha dito alguma impropriedade no texto, por favor me alerte. Caso os pediatras estejam equivocados, justifique-se. Caso você seja adepto do andador porque conhece inúmeras crianças que o utilizaram (ou pior: só uma ou duas) e nenhuma morreu nem ficou doida e por isso considera tudo isto balela, saiba que sua preguiça mental é lamentável. Caso você seja adepto apenas por causa da conveniência, lamento por seu filho.

Não é que usar o andador vá trazer danos tão diretos (isto é uma possibilidade em tese). Mas é como fumar. Tal prática dá certeza de que o fumante terá câncer? Não. Mas aumenta (e consideravelmente) o risco. Então eu não faço. E acho que meu filho merece essa deferência.

Para conhecer outra abordagem, leia aqui.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sebastião & Clotilde

Todo dia de São Sebastião eu penso naquela que foi tão importante em nossas vidas e partiu, assim bruscamente, no começo de dezembro de 2004, pouco mais de um mês antes do meu casamento. Bruscamente no sentido de um dia ela estar, no outro não, porque a despeito de seus probleminhas de saúde aqui e ali, não estava doente que soubéssemos. Foi rápido e muito triste. Mas ela não era nenhuma garotinha: se viva estivesse, estaríamos completando hoje nada mais, nada menos que 100 anos.

Ou seja, hoje poderia ter sido o dia de uma festa grandiosa, mas será apenas um dia de saudade. Mais um. Um dia do qual talvez possamos extrair forças para saber que essas separações são inevitáveis e em alguma medida necessárias, por isso precisamos aprender com ela. Precisamos nos fortalecer, porque outra virão e não há nada que se possa fazer para mudar isso.

A dor de amar é que em algum momento você sentirá uma grande saudade. Mas sem nada disso, não seríamos humanos. Não seríamos nada.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O dinheiro do brasileiro

A foto está meio desfocada, mas creio ser possível identificar a mochila e a bolsa térmica com tema da Merida, protagonista do filme Valente, da Disney/Pixar, atual paixão de minha filha (uma delas). A partir da próxima semana, Júlia irá com esse conjunto para a escola. Mas como isto aqui não é o Facebook nem eu tenho o ridículo hábito de postar fotos de bens de consumo para me exibir (até porque fazer firula com uma mochila é coisa de pobre), há uma razão que me parece decente para tratar de um assunto que, em princípio, ninguém quer saber (como no Facebook: ninguém quer saber se você já vai dormir ou se foi à boate da modinha).

A mochila aí ao lado não é comercializada no Brasil ou, ao menos, consultando inúmeros sites de comércio eletrônico, além das lojas de Belém, ele não foi visto. Os modelos de mochila com o tema Merida disponíveis têm outras imagens. E custam, fácil, mais de 200 reais, chegando em alguns lugares bem perto de 300. Absurdo mesmo é o preço da mochilinha que acompanha, que na verdade é a lancheira: em torno de 120 reais. O conjunto, portanto, chega fácil a 350 reais por estas bandas.

Mas minha consumidora semicompulsiva (a esposa, claro) adquiriu tudo por 104 reais (se, para facilitar, usar o câmbio de 2 reais para o dólar). A depender do câmbio, poderíamos contabilizar menos. É isso que quero explicar como se deu.

A mochila foi adquirida junto a uma fornecedora na Inglaterra, através do eBay. Numa troca de e-mails com a vendedora, Polyana tirou suas dúvidas e foi sempre atendida cordialmente. Como a lancheira não aparecia na página da vendedora, Polyana perguntou se poderia incluir, pois ela queria aproveitar o frete. O que fez a vendedora? Deu a lancheira de brinde! Exatamente o que faria um empresário no Brasil.

Na verdade, nós estamos convictos que a vendedora deve ter achado Polyana muito doida por se submeter a comprar uma mochila por 27 dólares (isso mesmo: 27 dólares apenas!) e pagar um frete de 25 dólares, praticamente o mesmo valor. Talvez ela tenha pensado que o Brasil é um país estranho, onde não se fabricam mochilas. A inocente súdita da rainha certamente desconhece a voracidade do governo e dos capitalistas brasileiros.

Em suma, ela vendeu uma mochila bonita, de ótima qualidade (e que, de quebra, ainda será exclusiva, para os que se importam com isso), presenteou com uma bolsa térmica grande o suficiente para guardar até o almoço de um adulto e despachou tudo numa encomenda com rastreamento. Aqui, aliás, um detalhe: o rastreamento só funciona no exterior. A partir do momento em que a carga ingressou no Brasil, o sistema dos Correios não permitiu mais que se acompanhasse a movimentação. Pode isso, Arnaldo?

O último aspecto da questão diz respeito à tributação. Compras até 50 dólares não são tributadas; logo acima disso, a Receita Federal morde por amostragem (o que sempre me reforça a sensação de que a coisa não é séria). No nosso caso, não foi cobrado o imposto de importação. Se fosse, a covardia do governo seria da ordem de 60% (isso mesmo, 60%!) sobre o valor da mercadoria. E essa foi a lógica de Polyana ao fechar o negócio: se eu tiver que pagar 160 reais, ainda sairei no lucro em relação a uma compra no Brasil.

A insignificante compra de uma mochila escolar acabou, para mim, servindo de demonstração de como o brasileiro padece. Espoliado pelo governo através de impostos extorsivos, espoliado por empresários alucinados que pretendem lucrar 50 vezes em cima de um só produto, maltratado por um sistema de entrega que não permite o rastreamento e apresenta uma embalagem avariada (por isso tivemos que ir buscar a encomenda no centro de distribuição, um trabalho adicional), por funcionários ineficientes que não abrem a porta um segundo antes do início do expediente (mas também não abrem 10 minutos depois, exceto se você for lá perguntar o que está acontecendo) e que, de quebra, pedem a sua identidade como condição para encontrar a mercadoria, embora a caixa seja identificada pelo código dos Correios e não pelo nome do destinatário (o cara sabe o que está fazendo?), etc.

Tudo é caro e tudo é difícil, sem necessidade. Brasileiro sofre. Nós devemos ser muito doidos, mesmo, por concordarmos com tudo isso.

Esse carro sou eu

Já faz uma semana, mas eu havia me esquecido da foto tirada com o celular, portanto somente agora publico.


O bonitão aí da foto, um reluzente Mitsubishi Outlander (em minha opinião, feioso como todo carro prata), queria estacionar na Rua Boaventura da Silva, quase esquina com a Almirante Wandenkolk, um trecho sempre muito carregado, e não teve dúvidas: não apenas subiu a calçada, mas se encarregou de bloqueá-la de ponta a ponta, só para mostrar quem é que manda.

Mensagens transmitidas por meio dessa atitude: "Pedestre, você é um merda" e "Eu faço o que quero. Vai encarar?". Tão Belém, isso.

Ah, sim, a foto foi tirada por volta das 19 horas, um horário em que deve ter bastante gente andando pelas ruas. Literalmente pelas ruas, porque pelas calçadas está difícil.

A nova relação empresas & mídia (adendo)

Em 30 de agosto do ano passado, publiquei uma postagem falando sobre como a Internet está mudando a forma de agir das empresas. Acabei de acrescentar uma breve atualização ao texto, para indicar que ele ganhou um novo e divertido capítulo. Leia lá na última linha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ativistas diplomáticos

Não se pode recriminar a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais de requerer ao Ministério das Relações Exteriores que sejam fornecidos passaportes diplomáticos a representantes seus, fato divulgado pela imprensa hoje.

Não se pode recriminar, primeiro, porque a associação não mentiu; ao contrário, deixou claro que o seu requerimento é uma reação à recente divulgação de que pastores evangélicos conquistaram tal privilégio. O fato também foi amplamente divulgado e causou reações negativas, creio que posso dizer, em todos os setores da sociedade. Como evangélicos e homossexuais mantêm uma guerra fria (às vezes um confronto aberto) permanente, a ABGLT decidiu firmar a sua posição. Não se trata de espezinhar o adversário, simplesmente, mas de questionar por que o governo agiu com protecionismo ao adversário, mormente no contexto de um Estado laico (aquele conceito que, no Brasil, não significa merda nenhuma).

Outro motivo pelo qual não se pode recriminar a atitude — embora se reconheça nela um factoide, com o objetivo de disseminar um debate e forçar o governo a uma resposta, sem real pretensão de obter os documentos — é que, no regulamento para concessão de passaportes diplomáticos, foi utilizada uma cláusula genérica, que permite esse benefício a quaisquer pessoas que devam tratar dos "interesses do país" no exterior. Se por "interesses do país" podemos entender a promoção dos interesses de certas igrejas — interesses corporativos, em meu entendimento —, então a ABGLT também faria jus, porque atua na proteção dos direitos humanos, sendo essa uma causa presente e organizada, segundo alega, em 75 países. A associação mencionou até a existência de sete países em que se aplica pena de morte por crimes relacionados à homossexualidade.

Em suma, a casinha está armada. Um requerimento oficial deve ser respondido e, com os olhos da imprensa em cima, terá que ser, realmente.

É como sempre digo: não há nada, por melhor que seja, que o Brasil não esculhambe. Há não muito tempo, eclodiu um escândalo sobre parentes de políticos, especialmente do ex-presidente Lula, passeando por aí com passaportes diplomáticos, numa demonstração do absurdo patrimonialismo que sempre caracterizou a política brasileira. Como de alto a baixo da sociedade a reação foi de repulsa, os documentos foram recolhidos (segundo consta) e novas regras foram criadas, para fins de moralização. Qual foi o resultado? Os espertos passaram a usar as novas regras para auferir benefícios ilegítimos. E colou, claro.

Só espero que, uma vez mais, a sociedade de posicione de maneira clara e o governo se veja coagido a cassar também esses passaportes, que são outra vergonha. Não me interessa se a igreja A, B, C ou D possui trabalhos humanitários pelo mundo afora, se é que os possui: isto não é um assunto do país. E o governo brasileiro não pode empenhar seu nome nisso, inclusive porque a Constituição veda expressamente.

No mínimo, traz à tona uma situação esdrúxula, que expõe o país ao ridículo internacional.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Twitterítica XXVII

Eu também critico demais. Contudo, conheço o elogio. E a gratidão.

Um mundo doente

Eu não sei se a Internet piorou as coisas ou se apenas abriu a possibilidade de qualquer um ver que a humanidade vai mal, muito mal, por razões que já teria consigo independentemente das tecnologias de comunicação. Refiro-me ao fato de que, agora, qualquer pessoa pode comentar as notícias publicadas nos portais. De vez em quando, eu me permito ler alguns comentários, mas em geral o resultado é bastante desalentador.

Não interessa o assunto. Quando as pessoas se manifestam, na esmagadora maioria dos casos é para fazer algum comentário cruel (não maldoso, exagerado, provocativo: é cruel, mesmo); é para espezinhar ou humilhar alguém; é para demonstrar o máximo de menosprezo ao semelhante, a total ausência de empatia. As táticas são diversificadas: uso ostensivo dos palavrões mais cabeludos; julgamento de pessoas e situações mesmo sem informações sobre eles; generalizações absurdas; conclusões tiradas sabe-se lá de onde, processadas como verdades indiscutíveis. E por aí vai.

Há também os clichês: se o alvo é uma mulher, ela é vagabunda, puta, piranha ou mal comida; se a matéria versa sobre algum tipo de crime, propõe-se e festeja-se o extermínio e se distorce qualquer ponderação sobre fatores criminógenos diversos da simples vontade do agente; se a matéria envolve política, tudo é PT x PSDB e o adversário sempre é o mais baixo da escala evolutiva; se se fala em dinheiro, transforma-se a coisa numa absurda luta de classes; se o escrito é sobre ciência, aparece logo um religioso e, em instantes, a pancadaria entre os que odeiam a fé e os que odeiam a ciência está feita. Também é comum criticar acidamente atitudes que o crítico provavelmente teria ou fazer exigências que ele provavelmente não cumpriria.

O governo é corrupto, o acusado é obrigatoriamente culpado, o vizinho é um canalha, a explicação sempre é mentirosa, o filme/livro/novela/seriado/peça é sempre um lixo e tudo, por melhor que seja, tem sempre um defeito a ser destacado. Aparecem, como notáveis exceções, matérias que, deliberadamente, destacam alguma boa ação humana, como vi hoje, uma lista de 26 belas ações praticadas em 2012 que ganharam a imprensa. Nesses casos, os comentaristas costumam entrar no clima da reportagem (que destoa do padrão jornalístico cotidiano) e deixam mensagens bonitinhas. Fico até emocionado quando vejo textos com agradecimentos, homenagens, orações e votos de felicidade. São uma minoria constrangedora.

Em um dos livros espíritas que li, sabe lá qual e quando, aprendi que um dos problemas do mundo é que os bons são tímidos, enquanto os maus são audaciosos. Tive inúmeras oportunidades de constatar o quão verdadeira é tal assertiva. Isso pode explicar por que não surgem os lúcidos, os generosos, os conciliadores nessas horas. Eles estão por aí, mas não pretendem remar contra a maré, porque sabem que serão tragados por ela. Devem pensar, também, que os males da Internet se acabam no mundo virtual e, o mais das vezes, não doem nem geram consequências (sim, eu sei que há exceções).

O problema é que a rede é um microcosmo (micro?), um espelho de nossas relações reais. Nela, o sujeito escreve todos os desaforos que têm dentro do coração porque o anonimato e a distância física o protegem. É fácil ser canalha quando se está protegido de toda reação. Na vida real, o sujeito teria medo de respostas, particularmente das que implicassem em socos. E quem faz esse tipo de coisa é essencialmente um covarde. Mas este é o ponto: se o sujeito só não mostra quem é por medo ou conveniência, isso não muda o que ele de fato é. Portanto, na vida real, provavelmente estamos cercados por pessoas que só não nos dizem e fazem o mal porque acham que não podem ou que não vale a pena para elas.

Não é uma perspectiva nada simpática. O pior é que, não sei se por pessimismo deste escriba, não vislumbro a menor chance de esses sentimentos melhorarem.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Exame catastrófico

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil divulgou hoje o resultado da primeira fase do IX Exame de Ordem Unificado. Este é o resultado após o julgamento dos recursos e a anulação de três questões.

Pessoalmente, considero um absurdo que sempre haja tantas anulações. É raro, mas já elaborei provas objetivas umas tantas vezes e não tive problema algum na grande maioria dos casos. Os alunos podem até questionar resultados, mas erros crassos que forcem uma anulação, quase nunca aconteceu. Ressalte-se que faço todo esse trabalho sozinho.

No caso da OAB, há tantas pessoas envolvidas que o mínimo que se pode exigir é que as questões mandadas por cada professor não contenham erro algum. Os elaboradores deveriam revisar o seu trabalho para garantir que não houvesse problemas. Posteriormente, na hora de montar a prova, uma comissão criteriosa faria a necessária revisão, para que o documento final estivesse impecável. Tenho convicção de que isso é possível e nem tão difícil assim. Além do mais, é uma exigência, considerando o tamanho da responsabilidade.

Mesmo assim, em todas as edições, sem exceção, há sempre um sem número de questionamentos e umas tantas anulações. Muito, muito feio, porque sugere amadorismo e incapacidade de aprender com os próprios erros.

E com tudo isso, no final das contas quem mais merece um puxão de orelha são os candidatos: o índice de aprovação foi de irrisórios 16,67%! Como são dados do Conselho Federal, referem-se a todo o país. Menos de 17% de aprovados em todo o Brasil! É realmente constrangedor e força uma grande e séria reflexão. Espero que uma reflexão de todos: candidatos e instituições de ensino, mas acima de tudo da própria OAB, que ainda não conseguiu convencer a sociedade da importância desse filtro, do qual eu, lembro mais uma vez, que sou totalmente a favor. E nem, mais especificamente, de que realiza essa tarefa da melhor forma que poderia.

Fonte: http://www.oab.org.br/noticia/25033/ix-exame-oab-registra-16-67-de-aprovacao-na-prova-objetiva

Os 8 anos, de novo

Frequentadores antigos do blog devem se lembrar que eu sou um homem que se casou duas vezes, com a mesma mulher, no espaço de dois dias. Isso rende umas piadinhas todos os anos.

Com efeito, no sábado, 15 de janeiro de 2005, foi celebrado o nosso casamento civil, aqui em Belém. A separação de cerimônias em cidades distintas serviu para, na explicação nada prática da noiva, atender a dois públicos familiares diversos. E como tinha que ser numa relação a dois, ela gostou mais de lá, eu gostei mais de cá.

Este ano, pela primeira vez, passamos a data separados, já que ela se encontra fora da cidade a trabalho e somente retornará amanhã. É chato, mas são as contingências da vida. Enquanto isso, vou me ajustando por aqui, junto com a filhota. Sairemos para comemorar outra hora.

Tiro para o alto, sanidade para baixo

É impressionante o despreparo das autoridades em nossa cidade e Estado. A imagem ai ao lado mostra o momento em que um guarda municipal efetua um disparo para o alto, a fim de intimidar um motorista que furou um bloqueio e fugiu. O caso aconteceu neste último final de semana, na nova orla da cidade, consoante reportagem do Jornal Liberal e vídeo disponível no Portal G1.

O disparo foi efetuado em via pública, num logradouro apinhado de gente. Mas os ensandecidos acham que atirar para cima não é um problema porque, talvez, o maior risco seja acertar um urubu. Apartados das aulas de Física, ignoram que tudo que sobe, desce, inclusive projéteis de arma de fogo. Eles sobem, perdem a força, atingem velocidade zero e começam a cair, sofrendo a aceleração da gravidade até atingir o solo, ou um corpo humano, com velocidade suficiente para matar.

Não é só burrice, não: é arrogância também. As autoridades, neste país, não suportam sofrer qualquer tipo de questionamento. São suscetíveis ao extremo. Com tudo se ofendem e em tudo veem desacato. Reagem com ameaças, humilhação, retaliações absurdas e, se têm uma arma na mão, à bala. Se é verdade que o condutor fugitivo quase atropelou os agentes, isto só patenteia ainda mais o sentimento de vindita: agiu contra mim, tenho que puni-lo. Não é legítima defesa nem estrito cumprimento do dever legal: é excesso, puro e simples.

Atirar ao menor movimento é praxe de nossas autoridades. Logo no começo deste ano, um amigo entrou numa farmácia, aqui em Belém, quando ela foi tomada de assalto. Um policial à paisana decidiu trocar tiros com dois assaltantes armados. E tome tiro com um monte de inocentes pelo meio. E esse policial, provavelmente, deve se achar um heroi, porque arriscou a vida. Arriscou, sim, mas não com inteligência.

Nem vou entrar no mérito de um guarda municipal estar armado. O uso de armas de fogo por guardas municipais, que não são policiais, já gerou muitos e acalorados debates aqui em Belém e não é assunto exatamente pacificado. Mas se nos concentrarmos nas polícias propriamente ditas, a prática de atirar antes e perguntar depois é tradicional, "cultural" e encarada com a maior naturalidade. Inclusive pela população.

Será que ninguém mais considerou esse tiro um absurdo, a reclamar punição? Só eu, mesmo?

Paliativo antipático e de duvidosa eficiência

Em dezembro, trafegando pela BR-316 até Marituba, pude perceber equipamentos de controle de velocidade em fase de instalação. Ainda inoperantes, sua simples presença, aliada às placas indicando os limites de velocidade, provocava reações nos motoristas, que na dúvida procuravam se enquadrar ao limite, tornando o tráfego lento em diversos trechos. Na primeira semana deste ano, numa viagem um pouco maior, com alguma surpresa constatei que os equipamentos vão longe, estando instalados até em Santa Isabel do Pará. Veja aqui uma reportagem a respeito.

Na ocasião, agradeci a Deus pelo fato de só muito raramente trafegar pela estrada em questão, mas pensei em amigos e alunos que residem ou trabalham em Castanhal, p. ex., e amargarão um trajeto com mais engarrafamentos.

Sim, eu compreendo perfeitamente as razões de segurança. Motoristas brasileiros, e paraenses em particular, são naturalmente inclinados à sociopatia e fazem questão de expor a si mesmos e a todos em redor a grandes perigos. Vi coisas absurdas nesta minha viagem de janeiro, particularmente dois sujeitos, ambos dirigindo Fiat Mille, portanto veículos de baixíssima potência e desguarnecidos de proteção como air bags, ultrapassando filas de veículos, caminhões no meio, numa pista não duplicada, numa situação em que eu nem começaria a ultrapassagem mesmo que estivesse a bordo de um foguete.

Para piorar, a BR-316, nesse trecho a que me referi, está sendo rapidamente tomada por empreendimentos imobiliários. Quanto mais perto da capital, maior também a quantidade de estabelecimentos comerciais. A antiga paisagem verde de ambos os lados está com os dias contados. A conurbação entre diversos Municípios chegou para valer também por aqui.

Diante disso, tolice supor que a velocidade máxima das rodovias federais (110 Km/h) possa ser mantida. Mas eu, do alto de minha ignorância em matéria de engenharia de trânsito, questiono com sinceridade se radares e sensores são, realmente, a melhor alternativa, ao menos do trecho que abrange Ananindeua e Marituba, pela alta densidade tanto de tráfego quanto de pedestres. Os engarrafamentos que nos enlouquecem diariamente em Belém já são uma rotina também na estrada.

Vale lembrar que a preocupação aqui não é com os carros particulares: num engarrafamento, quem mais sofre são os passageiros de ônibus, espremidos ainda antes de começar um dia de trabalho e espremidos de novo após o expediente. Sofrem os trabalhadores em veículos de serviço, os rodoviários, os caminhoneiros, sofrem os pacientes em ambulâncias que precisam chegar a um hospital na capital. Sofrem os habitantes em geral, porque engarrafamentos aumentam o nível de poluição do ar. Todos saem perdendo, inclusive em matéria de segurança, porque não há real garantia de que os acidentes serão evitados.

Em 2010, tive a oportunidade de viajar de carro, de Florianópolis a Gramado, ida e volta. Boa parte do trajeto foi feito na BR-101, uma das mais importantes rodovias federais do país, responsável pelo escoamento de um sem número de mercadorias essenciais à economia brasileira. Intensamente utilizada, é cenário de um sem número de acidentes fatais. Há quase uma década, vem sendo duplicada a passos de cágado, graças ao fator Brasil.

Para fins de suposta lisura (gargalhando), decidiu-se que a rodovia seria loteada e as licitações seriam feitas de acordo com esses lotes. Assim, quando passei por lá, o que vi era meio caótico: a rodovia toda em obras, mas em diferentes níveis de execução, alguns bem incipientes, outros adiantados. A todo momento precisávamos sair para acessos laterais e fazíamos zigue-zague. Nos trechos não reparados, o asfalto comprometido obrigava-nos a pisar no freio.

Um exemplo de obras de arte (no sentido da engenharia)
destinado à segurança de todos, ainda em Santa Catarina.
Mas o projeto da rodovia prevê que, em todos os trechos urbanos, haja elevados: quem segue pela BR sobe, enquanto os habitantes das cidades interioranas trafegam por vias secundárias abaixo e há retornos para todos os lados. Há também espaços especialmente reservados para pedestres. Pode-se atravessar a pé de um lado a outro da rodovia com a mesma tranquilidade de quem anda pela calçada. Uma solução obviamente mais cara, muito mais cara, porém muito mais definitiva e sensata.

Sejamos francos: se o DNIT realmente quisesse melhorar as estatísticas funéreas da BR-316, deveria pensar em alternativas como esta em alguns trechos da região metropolitana, o primeiro deles logo após o Shopping Castanheira, fator atrativo de trânsito e que sobrecarrega a rodovia com veículos à procura de um retorno porque, ainda por cima, uma grande quantidade deles foi simplesmente fechada. Deve haver uma razão para isso, suponho, mas o fato é que, se um retorno é fechado, você obriga os condutores a permanecerem na estrada e... aumenta o tráfego! Não me parece inteligente.

Quem for mais instruído do que eu no assunto, por favor me ilumine. Mas eu realmente acredito que os benefícios dos radares são baixos. Existem, mas não são tão louváveis assim. Motoristas vão começar a frear bruscamente, ocultar placas, sair para o acostamento e, em cada ação dessas, um acidente pode acontecer. Radares não mudarão o fato de que os pedestres continuarão atravessando onde bem entenderem. Acidentes fatais podem acontecer mesmo que o automóvel esteja em velocidade baixa. Logo, precisamos de uma solução melhor.

domingo, 13 de janeiro de 2013

8 anos

No dia 13 de janeiro de 2005, uma quinta-feira, por esta hora, eu estava numa situação curiosa. Tinha um dos maiores compromissos de minha vida prestes a acontecer, mas não tinha absolutamente nada a fazer até lá, exceto esperar. E esperar diante de algo importante é no mínimo desconfortável. Some-se a isso o calor exaustivo e incontrolável que vínhamos enfrentando desde a véspera.

À noite, elegantemente trajado, puseram-me diante da principal igreja de Santarém, para aguardar a hora da minha entrada. Eu havia sido muito claro quanto a atrasos, mas algo de realmente estranho aconteceu naquela ocasião. Houve um atraso gigantesco, motivado, segundo consta, por falta de energia na cidade. Por isso as horas iam se passando e nada acontecia mas eu, por mais estranho que seja, simplesmente não me dei conta de quanto tempo se passou. Talvez porque a sensação de corpo derretendo por baixo da roupa não me permitisse.

Eis que, enfim, permitiram a minha entrada. E logo depois veio a noiva, ao som da marcha nupcial interpretada ao vivo, na íntegra, um privilégio decorrente do fato de a família dispor de uma orquestra inteira para a execução.

É difícil de acreditar, mas oito anos se passaram. E, naturalmente, muita coisa mudou de lá para cá, da minha aparência à alma. A mais importante de todas essas mudanças caminha por aqui, hoje em dia, com seus cabelos cacheados, tagarelando sem parar.

Preciso agradecer publicamente a paciência de Polyana em me aturar por tanto tempo. Sem dúvida, trata-se  de um enorme feito e não dito isto para causar uma impressão óbvia em ninguém. Só ela que sabe. Mas a graça e a beleza de um casamento no mundo real é, justamente, não viver contos de fadas, mas persistir a cada dia, em meio a todas as dificuldades, as que independem de nós e as que nós mesmos criamos. Quando um mundo de opções se abrem, em tese, a nossa frente e nós queremos, simplesmente, seguir em frente.

Aprendi que devemos apostar na simplicidade. Em tudo, o que inclui o amor. Então temos aqui a nossa casa, a nossa filha, os nossos sonhos, as nossas mazelas, as nossas lutas e todo um futuro pela frente, que sempre foi acompanhado e apoiado pelos amigos, para os quais transmito esta relevante constatação: continua valendo a pena!

sábado, 12 de janeiro de 2013

O aniversário do alívio

12 de janeiro, aniversário de Belém.

Gostaria de dizer coisa melhor, mas a sensação que tenho é a de que nossa cidade está, neste momento, como alguém que acabou de passar por um grave acidente, machucou-se e ainda está com uma medonha taquicardia, plenamente consciente de que poderia ter morrido e, se tal não ocorreu, pode-se por na conta do milagre. Ainda não dá para conversar, para racionar com clareza; apenas ficar parado, com os olhos muito arregalados, esperando as capacidades físicas e mentais retornarem, no seu tempo.

Nesta data, o que temos em quantidade são necessidades e um desejo de melhorar, de virar essa página marcada pela compreensão de que nada funciona, nada acontece e que isso certamente deve ser muito conveniente para alguém, que não os habitantes da cidade.

Hoje é o dia do cidadão comum, aquele que nasceu aqui ou depositou neste endereço a sua vontade de viver. Hoje é o dia daqueles que não repudiam esta cidade; que quando criticam, é porque almejam um lugar melhor para todos. É o dia dos que encontram belezas ocultas nas árvores, nas construções antigas, nos túneis de mangueiras, na visão do rio. É o dia dos que sabem o que fazer para se divertir por aqui mesmo. É o dia dos que amam a chuva.

Hoje é o dia daqueles que entenderam que amar, a gente ama de graça. E agradece porque aqui existe alagamento, mas não inundação; porque terrenos planos não são sujeitos a deslizamentos de encostas. E acredita de que estes habitantes acomodados e espaçosos começaram a perceber que a cidade pode ser melhor e como se pode chegar a isso, em ações individuais, mais do que em medidas de governantes que não necessariamente farão alguma coisa.

Hoje é o dia de parabenizar Belém por seus 397 anos e assumir algum compromisso com ela. Pode ser qualquer coisa simples. Pode-se prometer não fechar mais os cruzamentos nem parar em fila dupla; não jogar lixo na rua; não obstruir as calçadas que se destinam às pessoas; cuidar bem dos jardins, dos gramados e das árvores; cultivar flores em locais visíveis; não promover poluição sonora; respeitar as nossas tradições e heranças culturais; cuidar bem do patrimônio público; orientar as crianças e impedir os adultos de violar essas regras. Pode ser qualquer uma dessas coisas. Com qualquer delas, e outras semelhantes, todos sairemos ganhando.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sociais e adictos

Segundo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - INMETRO, estes aqui são os carros mais econômicos à venda no Brasil: http://noticias.r7.com/carros/fotos/veja-os-carros-mais-economicos-do-brasil-segundo-o-inmetro-20130109-1.html#fotos

E estes são os bebuns: http://noticias.r7.com/carros/fotos/veja-os-carros-mais-beberroes-do-brasil-segundo-o-ranking-2013-do-inmetro-20130110-25.html#fotos

O meu não aparece em nenhuma das duas listas, o que é uma pena, pois eu realmente gostaria que ele estivesse na primeira.

Omertà

O vocábulo "omertà", da língua italiana, significa conspiração ou proteção. Tornou-se famoso, entretanto, como designação do código de honra da Máfia, envolvendo tanto o dever de silêncio quanto, sobretudo, o de absoluta ausência de colaboração com investigações criminais. A desobediência a esse código não escrito deve ser punida com a morte. Há desdobramentos, inclusive de fundo ético, mas podemos ficar até aqui.

Motivo de minha atenção? É que todo governo é sempre assacado de acusações de improbidade administrativa, quando não da mais desbragada corrupção, em alguns casos envolvendo supostas organizações criminosas de grande vulto, do qual o esquema notabilizado como "mensalão" seria a versão mais conhecida.

Mas se o governo é assim tão corrupto, na medida em que ele seja sucedido por outro que com ele não esteja alinhado politicamente, seria natural que o novo gestor determinasse rigorosa apuração dos desmandos e crimes. Essa medida seria do seu maior interesse, não apenas ético, mas também no sentido mais pragmático. Um governo corrupto deixa dificuldades para o sucessor: dinheiro faltando, contratos a honrar, responsabilidade civil, demandas sociais, etc. Como não tenho cabeça de político, continuo acreditando que a atitude mais compreensível seria, agora que estou no comando, produzir o maior volume possível de provas contra o bandido que me antecedeu e entregá-las às autoridades competentes: polícia, Ministério Público, tribunais de contas. Não fazer isso, por sinal, poderia constituir crime de prevaricação.

A realidade, contudo, desmente esse raciocínio. Diz-se que Hélio Gueiros mandou retirar até as telhas francesas de um prédio histórico da Almirante Barroso e usou-as para embelezar sua própria residência. E outros episódios de patrimonialismo. Edmilson Rodrigues, contudo, não determinou nenhuma devassa. Como o malsinado Duciomar Costa, que entrou no Palácio Antônio Lemos acusando Edmilson até da extinção dos dinossauros, também não tomou nenhuma providência específica em relação a tantos pretensos descalabros.

Ana Júlia não escarafunchou os 12 anos da era tucana e Simão Jatene, por sua vez, não acertou as contas estaduais com a petista. Ao contrário, convalidou e ampliou o contrato com a suspeitíssima empresa Delta, envolvendo locação de viaturas para a Polícia Militar. Os tucanos consideravam esse um dos mais evidentes atos de malversação do governo petista mas, tão logo retomaram o poder, trataram de melhorar as coisas para a empresa de Fernando Cavendish.

No âmbito em que a bandalheira assume dimensões titânicas, o federal, não é diferente. Fernando Henrique Cardoso não pegou no pé de seus antecessores nem foi incomodado por Lula. Mas o Príncipe FFHH esteve no centro do maior escândalo de corrupção de que se tem notícia neste país: a compra da emenda da reeleição (afirmo isto porque a ordem constitucional brasileira foi modificada para atender a interesses pessoais e partidários, abstraindo o montante de recursos envolvidos porque, obviamente, não se conhece tal informação). Afora isso, houve outros escândalos-satélite, digamos assim.

Quanto à era PT, associada ao "mensalão" mas contendo igualmente outros escândalos-satélite, pouco se pode dizer, já que o governo atual é do mesmo partido e a presidente Dilma Rousseff teve em Lula o seu principal fiador e padrinho político.

Merece destaque, ainda, o fato de que as ações movidas contra ex-gestores resultaram de procedimentos investigatórios originados no Ministério Público ou em outros órgãos de controle externo, estes exercendo funções de rotina, ou ainda devido a denúncias vergastadas pela imprensa, ou, como no caso de Collor, Celso Pitta e do "mensalão", devido a picuinhas familiares ou disputas de poder partidário. Mas não especificamente por decisões tomadas pelos sucessores no cargo. O atual governante pode até prestar informações e fornecer documentos, porque é sua obrigação, sob pena de responsabilidade, mas não me consta que qualquer deles tenha montado um dossiê e encaminhado para apuração, como seria seu dever legal e moral.

Já que a moda é denunciar enquanto se está na oposição, mas depois guardar um silêncio obsequioso em relação ao colega que partiu, o que esperar de Zenaldo Coutinho, em relação ao pior governo municipal que Belém já teve em todos os tempos, sentidos e dimensões? Não se trata de uma valoração pessoal minha. A alegação pode sustentar-se, p. ex., no fato de que os ex-governantes até respondem a ações por improbidade administrativa (e supostamente têm suas razões para demonstrar a própria inocência), como é o caso de Edmilson, Ana Júlia e Jatene, mas nenhum ex-prefeito antes de Duciomar se tornou réu em uma ação criminal por malinagens com dinheiro público. Duciomar fez melhor: tornou-se réu não em uma, mas em duas ações criminais perante a Justiça Federal, em relação a fatos perpetrados logo no começo do primeiro mandato. Rápido ele, não?

Como os tucanos parecem muito empenhados em jogar a sujeira para baixo do tapete, é fundamental lembrar, o tempo inteiro, que foram eles (e o seu partido-mordomo, o DEM) os grandes responsáveis pelo sucesso de Duciomar Costa. Apoiaram-no para senador. Apoiaram-no nas eleições de 2000 contra Edmilson, quando perceberam que o mesmo Zenaldo não dava conta de se eleger nem síndico do prédio. E o apoiaram aguerridamente em 2005, quando finalmente conseguiram elegê-lo, mergulhando Belém na sua fase mais sinistra. Quando se aperceberam do tamanho da m...aldade, adotaram o discurso da traição, da surpresa, e se fizeram de oposição.

Nas últimas eleições, eram oposição ferrenha, claro. Mas tacar pedra em Duciomar é a coisa mais fácil a fazer. O que realmente importa é que, durante tantos anos, seus partidos mantiveram tratativas e tretas, todas funcionando para eles. Não são adversários, não; sabem se dar muito bem.

Ou eu sou muito tolo, ou existe um pacto de silêncio e mútua cooperação entre os gestores. E o atual capítulo dessa triste e inacabável novela não será diferente. Espere para ver.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Caroço de felicidade

Um dia chamei para Júlia de "caroço" e, naturalmente, tive que me explicar. Disse a ela que "caroço" era uma pessoa chata. Ficou indignada e não aceitou ser chamada assim. Desde então, criei o hábito de fazer-lhe perguntas sucessivas, do tipo "quem é o amorzinho do papai?" (ou a garotinha, a bonequinha, a florzinha, etc.), para que ela responda "eu". No meio das perguntas, pergunto quem é o carocinho do papai, mas ela nunca se deixou enganar: sempre responde "ninguém!", com convicção — primeiro aborrecida, hoje em dia divertida.

Com o tempo, passei a adotar estratégias para tapeá-la, mas não dão certo. Já tentei, p. ex., perguntar "quem é a coisinha arredondada, que fica dentro da fruta, do papai?" Na primeira vez, ela me olhou surpresa, mas entendeu. Das posteriores, ficou mais fácil.

Hoje, fiz mais uma tentativa infrutífera. Num arroubo provocativo, cheia de si, olhando-me diretamente, ela disparou:

— Eu sou um caroço de felicidade!

E depois ainda se disse um "caroço de manga" — minha fruta favorita —, só para concluir: "porque você me ama!"

E é isso mesmo.

Uma postagem dedicada ao crescente número de leitores que dizem que as melhores postagens do blog são as crônicas da Júlia.

A rosa radioativa, estúpida, inválida

Passados mais de 67 anos, uma imagem rara e tenebrosa é encontrada:


Para nunca esquecer.

Dúvidas técnico-geográficas

Deve ter sido assim: o estagiário tirou o dia para pedir a oportunidade de escrever ele mesmo a matéria. É um rapaz e está na editoria de carros, portanto a empolgação vai mais longe do que os veículos. De tanto apurrinhar, conseguiu produzir ao menos a manchete. Mas ela saiu assim:


Aí ficam as dúvidas: Se eu comprar esse carro aqui no Brasil, vou conseguir estacioná-lo? Ele estacionará sozinho aqui? Se eu mandar o carro estacionar aqui no Brasil, ele tomará automaticamente a direção da Inglaterra para completar a tarefa?

Que tal "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208 que estaciona sozinho". Ou, para ficar realmente bom: "Peugeot lança na Inglaterra compacto 208, que estaciona sozinho". A elegância de um vírgula, essa ilustre desconhecida!

Para quem se interessou pelo carro (mulheres, provavelmente): http://caranddriverbrasil.uol.com.br/noticias/fabricantes/peugeot-lanca-208-que-estaciona-sozinho/3992


***

Outras ratadas, de variados tipos, dos barbarismos à má compreensão do próprio assunto abordado, além de absurdos engraçadíssimos como "cacho de abelhas" e dizer que o pirarucu é um mamífero:

  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/06/acredito-que-esta-perdida.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/06/eles-estao-cada-vez-melhores.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/05/alo-redacao.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2012/03/desembargo.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/11/imagena.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/11/seria-facil-nao-confundir.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/08/mais-uma-da-imprensa.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/03/objeto-nao-identificado.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2011/02/pobre-flor-do-lacio.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/09/em-plena-capa.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/05/reportagem-bem-informada.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/03/ex-cave.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2009/03/meu-amigo-puccini.html (Esta é muito bacana!)
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/12/ambigidades-da-notcia.html (Também gosto muito desta)
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/patrulha-da-imprensa.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/como-assim.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/08/ah-ltima-flor-do-lcio.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2008/05/manchete-de-duplo-sentido.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/10/do-dicionrio-eletrnico-hoauiss-cacho.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/08/essa-vai-para-o-xingatrio.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/08/mamfero.html
  • http://yudicerandol.blogspot.com.br/2007/01/com-certeza.html

Finalmente! Ciência é tudo!

Minha vida, que estava estacionada desde tenra infância por conta dessa dúvida atroz, finalmente vai seguir em frente! Eu encontrei a verdade:

http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2013/01/09/cientistas-descobrem-por-que-os-dedos-enrugam-na-agua.htm


Vamos à próxima dúvida existencial.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Eu e o artigo do mestrado

Tenho três prazos para cumprir para a próxima segunda-feira, no mestrado. Entre eles e eu, mora um abismo no qual se esparrama a minha terrível dificuldade de concentração. E não adianta botar a culpa na internet e outras tecnologias de comunicação: é coisa minha, mesmo. Quando criança, numa era pré-internet, eu já era intensamente dispersivo.

Quando ando na rua, olho as pessoas, os letreiros, as fachadas, os cantos obscuros. Tudo pode me chamar a atenção; o problema é que ao mesmo tempo.

No meio de uma frase, conversando com qualquer pessoa sobre qualquer assunto que seja, inclusive os mais importantes, posso me interromper sem mais nem menos e disparar um comentário sobre algo que passou pelos meus olhos de repente. Na maioria dos casos, consigo retomar o que dizia antes, mas nem sempre. Minha esposa ainda se incomoda com essa minha característica, embora já devesse estar acostumada.

Durante uma aula, posso interromper qualquer explicação importante para declarar minha percepção da roupa, do penteado ou de alguma atitude de um aluno ou aluna. Para a alegria das mulheres, sou do tipo que percebe mudanças no cabelo ou detalhes colocados para impressionar. Estudar um pouco antes de entrar em sala é um recurso que me ajudar a manter o foco e não transformar o desvio num desastre acadêmico.

Enfim, meus dedos correm o teclado com alguma rapidez, mas sempre tem um passarinho pousando na sacada, uma árvore farfalhando ao longe, um som diferente. Aí o pensamento voa, o corpo reclama, não quer ficar sentado diante do computador por mais do que uns poucos minutos. Paro a fim de tomar água, olhar o relógio, consultar alguma coisa (que poderia ser postergada), vejo o que minha filha está fazendo, folheio uma revista — cedo, enfim, a qualquer influência marota, inclusive a internet, que está lá, à disposição na mesma máquina. Só não cedo à televisão. Programas de televisão não me desencaminham: só assisto a eles quando me decido a fazer isso, especificamente.

Entre idas e vindas, passei o dia hoje diante deste computador, lendo e escrevendo, consultando e redigindo, corrigindo e especulando. Ainda falta um bocado, mas meu cérebro se recusa a prosseguir. Sabe que são muitas horas oficialmente dedicadas à mesma atividade, portanto ele se rendeu. Quer algumas horas de repouso e alheamento, para amanhã recomeçar consultando o texto escrito por mim, de ponta a ponta, a fim de verificar a sua coerência e homogeneidade. Aí entra o segundo fator problemático: o texto precisa ser perfeito. E não pode ser amanhã, não: ele tem que nascer irrepreensível. Vê-lo capenga me provoca ansiedade.

Mentalmente cansado, vou capitular. Mas já sei que acordarei novamente às seis da manhã, sem qualquer despertador, acionado pelo brotar de uma frase pronta dentro da cachola. Tem sido assim.

Que vida estranha esta que tenho levado...

Só quando chove

Ontem à tarde, em meio aos meus trabalhos urgentes, fiquei sem telefone e sem internet. Felizmente, o celular ainda funcionava. A informação não é oficial, mas me disseram que outras operadoras também estavam em pane por causa da chuva! 

Meus caros, se ficarmos sem serviços de comunicação toda vez que chover forte em Belém, estamos fadados a morrer afogados sem poder pedir socorro.

Mas o valor das contas não cai...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Primeira pausa do ano

Meus queridos, já que estamos em recesso, vou aproveitar para passar três (e apenas três) dias fora de Belém, a partir de amanhã. Nada de especial, estarei por perto. Espero que o hotel me forneça internet decente, para que eu possa acessar de vez em quando, inclusive para me manter informado. Bem de vez em quando, porque há necessidade de recolhimento para escrever meus trabalhos do mestrado. Mas não quero ser o último a saber da morte do Hugo Chávez.

Caso eu suma por completo, não é rescaldo do fim do mundo que não aconteceu, nem simulação de sequestro, nem desespero por haver tantos governos tucanos ao meu redor. É só uma tentativa de oferecer à pequena Júlia uns dias diferentes. Enquanto ela brinca, eu tento trabalhar.

Não me deixem só! Na pior das hipóteses, no domingo hei de estar de volta. Abraços calorosos.

Azerbaijan Tower

Muito dinheiro no bolso e pouca coisa na cabeça leva as pessoas a delírios de grandeza. Nos últimos anos, temos visto uma curiosa disputa pelo edifício mais alto do mundo. Nem bem anunciam um, em outro país aparece outro maior ainda.

Já nos acostumamos aos desvarios de Dubai e outros árabes, turbinados pelos petrodólares, que a todo momento anunciam alguma coisa grande, inédita ou mais sofisticada do que qualquer congênere no mundo. Mas o que se pode dizer de pessoas que mandam construir artesanalmente automóveis cobertos de ouro, ao mesmo tempo que mandam para a cadeia marido e mulher estrangeiros, que trocaram um selinho em um restaurante?

Já que se trata de uma disputa por poder, a China tinha que estar no páreo. Aquele país tem anunciado uma série de construções portentosas, algumas compreensíveis (como pontes gigantescas), outras altamente questionáveis, como o maior edifício do mundo em desenho horizontal (a velha e claustrofóbica proposta de viver, trabalhar e fazer tudo no mesmo lugar). Na jogada, os Tigres Asiáticos também dão lances audaciosos. Confesso, porém, a minha surpresa em saber que o Azerbeijão decidiu entrar no páreo, lançando o que deve se tornar o maior prédio do mundo, muito mais alto do que o atual detentor do título, o chinês Sky City One. Um arranha-céu com mais de um quilômetro de altura.

A Azerbaijan Tower deve ser o ápice de um complexo imobiliário com dezenas de edifícios e áreas de lazer, edificado sobre ilhas artificiais a um custo equivalente a 100 bilhões de reais. O início da obra está previsto para 2016 e em apenas três anos deve ser entregue o prédio famoso. O complexo todo deve ser concluído em 2022, ou seja, em apenas 6 anos. Enquanto isso, no Brasil, as obras da copa do mundo não andam. Em Belém, o estreitamento de um canteiro de avenida demora dois anos e um pórtico sobre uma rodovia, quase sete.

O que me impressionou foi desconhecer (tudo bem que seja pura ignorância minha) que a República do Azerbaijão, outrora uma das Repúblicas Socialistas Soviéticas, possuía bala na agulha para um empreendimento tão megalomaníaco. Mas o Google acabou de me informar que por lá existem generosas jazidas de petróleo, cobre e ferro. Aí comecei a entender. A verdade é que o pais, com seus quase 10 milhões de habitantes, possui IDH elevado e 99,5% dos cidadãos são alfabetizados. O PIB  e a renda per capita também são confortáveis.

Então tá. Como bem sabemos, dinheiro existe. O problema é quem toma conta dele...

Nepotismo e a velha técnica

E o prefeito Zenaldo Coutinho já chega mostrando serviço: nomeou o irmão Augusto César Neves Coutinho para a importante Secretaria Municipal de Administração, dando-lhe naturalmente o controle de uma unidade orçamentária muito bem dotada.

Não bastasse isso, a Fundação Cultural do Município de Belém será gerida por Heliana da Silva Jatene, parente do governador, apoiador-mor da candidatura do prefeito.

Parabéns, Zenaldo. Você começou bem.

Mas para que não digam que só faço críticas, deixo registrado o meu elogio à nomeação de Maria Cristina César de Oliveira para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Minha queridíssima professora de Direito Administrativo, responsável por eu ter-me apaixonado pelo Direito Ambiental, foi também orientadora da minha monografia de conclusão de curso. Professora de carreira da Universidade Federal do Pará, com doutorado inclusive, vem emprestar o seu enorme preparo e competência à gestão municipal, numa área em que tem domínio.

***

E para confirmar que é um perfeito tucano, Zenaldo também anunciou que reduzirá em 30% o número de cargos comissionados do Executivo municipal. Almir Gabriel e Simão Jatene também fizeram isso. Um ano depois, havia mais assessores especiais do que antes de tomarem posse.

O problema não é o número de cargos comissionados, mas onde essas pessoas estão lotadas, as razões pelas quais foram nomeadas, seus sobrenomes e ligações partidárias e, acima de tudo, se trabalham de fato, se trabalham bem. Mas estas questões são sempre jogadas para baixo do tapete porque, afinal de contas, o que interessa para o governante do momento é passar a imagem de probidade e eficiência, apostando no velho apotegma de que a primeira impressão é a que fica.

Mais do mesmo.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Fotonovela

Há dias em que tudo parece nebuloso. Todos precisamos de um tempo sozinhos. Aquele era um desses dias. Furtivamente, retirei-me e caminhei para um lugar onde achei que poderia suportar a dor de viver.


Foi quando ele apareceu. Chegou e foi logo pondo a mão e puxando conversa. A princípio, limitei-me a dizer-lhe que eu precisava daquele tempo e sugeri que fosse ao encontro dos outros.


Ele simplesmente sorriu com ironia e continuou conversando, como se eu nada tivesse dito. Enervei-me. Instintivamente, inclinei-me para o lado, mas o folgado, sem se importar, continuou se chegando.


Com a maior desfaçatez, abraçou-me e propôs pilhérias. Falou nas gatinhas. Senti em seu hálito que o dia dele começara bastante cedo. Aquilo já era demais. Não queria chegar a esse ponto, mas meu limite havia sido ultrapassado. Fui obrigado a dizer-lhe que, se tinha tanto interesse em empregar seu tempo comigo, poderia começar pagando a grana que me devia.


Resultado imediato. Ele repentinamente se lembrou de uns "compromissos inadiáveis", deu-me as costas e foi-se saindo tão de mansinho quanto chegara. Tudo então voltou a ser como era.


O dia estava nebuloso e eu precisava daquele tempo sozinho. Felizmente, encontrei um lugar onde poderia suportar a dor de viver.

Fotos e inspiração obtidas em http://noticias.terra.com.br/ciencia/animais-em-dezembro-avestruz-coloca-predador-para-correr,653c6ceccbedb310VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html [Acesso em 1º.1.2013]

Mega da virada

Um dos assuntos mais comentados do final de ano é a "Mega-Sena da virada", sorteada no dia 31 de dezembro e que paga muito mais do que qualquer sorteio regular. Era só passar pela frente de uma casa lotérica e ver a fila gigantesca, maior do que as dos caixas do Banco do Brasil.
Às 20h00, pelo horário de Brasília, a Caixa Econômica Federal sorteou as dezenas e 14, 32, 33, 36, 41 e 52. Se eu jogasse, mais uma vez teria perdido, porque não jogaria números seguidos. Mas, enfim, eu não jogo mesmo.
Agora chega a notícia de que três apostas foram contempladas, duas de São Paulo e uma de Goiás. Cada uma receberá a bagatela de 81,5 milhões de reais. Espero que saibam fazer bom uso. Se bem que muitas pessoas acreditam piamente que a "Mega-Sena da virada" é um jogo de cartas marcadas. Não penso assim. Para o bem de todos, é preciso que alguma seja realmente o que parece.
Feliz dinheiro novo, para os que o receberam.

E logo mais, à tarde...

...o pior prefeito de todos os tempos vai deixar o cargo (e perder o foro privilegiado)! Cada rojão que estourou esta madrugada na nova orla serviu para comemorar esse grande acontecimento, esperado com sofreguidão há mais de 8 anos.
Quem me conhece sabe que eu não caio no discurso tucano e de Zenaldo Coutinho espero, apenas, que nos tire da indigência. Crescer não iremos, porque isso não é coisa com que o PSDB se ocupe, vide a situação do Pará, que continua com seus índices de desenvolvimento pífios e, tirando a propaganda (esta sim, a grande realização de todo tucano), não se ouve falar de nada relevante acontecendo por estas bandas.
Mas correrei o risco de acreditar que pior do que está não fica. Além disso, precisamos viver um momento de cada vez. O que será amanhã, não sei. Mas hoje, hoje é o dia que aquele farsante vai parar de arrebentar a minha cidade!
E isso vale muito. Feliz ano novo, Belém.

Com o que importa

A grande maioria dos meus amigos de Facebook postou fotos do réveillon em reuniões com familiares, amigos, namorados. Boa parte dessas fotos foi tirada dentro de casa. Ficou-me a impressão de que essas tantas pessoas dispensaram os excessos, tão comuns nesta época, para aproveitar o que realmente conta e começaram 2013 ao lado das pessoas mais valiosas, em meio aos sentimentos mais importantes.
Feliz 2013 para cada um de vocês.