quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Haja shoppings!

Ainda me recordo de que no dia 27 de outubro de 1993 a cidade de Belém apareceu no noticiário nacional. Mas o motivo me fez corar de vergonha. É que naquela data foi inaugurado o primeiro shopping center da cidade e o povo, deslumbrado com a novidade, acorreu em peso para olhar a novidade, que ficou tão entupida que mal dava para as pessoas caminharem. Houve tumulto e até depredação de vitrine, mote para fôssemos tratados como índios pela imprensa de fora.
Tratava-se do Iguatemi, que chegou englobando as lojas importantes da época, na cidade, e complicando o trânsito de uma região já vulnerável nesse quesito. Seu pioneirismo foi ofuscado pelo projeto mal ajambrado, já que o prédio foi construído num terreno irregular, adaptando-se como dava. Só depois de alguns anos foi possível comprar imóveis em volta e melhorar, um pouco, a aparência do conjunto.
Em 2008, questões comerciais levaram à mudança da marca e o empreendimento passou a chamar-se Pátio Belém, embora muita gente insista em ignorar isso. O slogan, contudo, permanece o mesmo: "o shopping do coração da cidade", para se diferenciar do primeiro concorrente, construído na periferia, na divisa com o Município de Ananindeua.
Com 18 anos recém-completados, o shopping hoje possui 183 lojas (segundo a Wikipedia, porque o site oficial não fornece tal informação!), com mais de 36 mil metros quadrados de área bruta locável (ABL) distribuídos em quatro pavimentos, incluído o sub-solo.
A exclusividade durou pouco. Em 30 de novembro do mesmo ano inaugurava o Castanheira, empreendimento local que lutava por provar a sua credibilidade, financeira inclusive, já que naquele momento não dispunha de marcas de renome> Elas chegaram anos depois, ao mesmo tempo que as marcas locais também cresceram.
Quase 18 anos depois, vive em meio a uma expansão interminável, que mais parece obra do governo. E sua fachada, hoje, está comprometida pelo Pórrrrrrrrtico Metrópole. Atualmente, possui 180 lojas, além de 33 quiosques (números oficiais). Seus quase 39 mil metros quadrados de ABL estão distribuídos em quatro pavimentos. E a fama de shopping de periferia colou e nunca foi embora.
Durante mais de uma década, vários empreendimentos se assanharam para entrar no ramo, o mais importante deles sendo o IT Center, que anunciou a sua conversão em shopping, mas adiou sem data esses planos, durante a crise econômica que fez evolarem-se os diversos outros anúncios do gênero e que, agora, voltam aos poucos.
Nesse meio tempo, mais especificamente em 17.11.2009, Belém ganhou o Boulevard, nascido para ser o endereço das compras da classe mais alta da cidade. Para tanto, fixou-se no atual endereço mais sofisticado, a Av. Visconde de Souza Franco, aquela do canal mal-cheiroso.
Indiscutivelmente mais bonito do que os precedentes, mas com um estacionamento esquisitíssimo e uma disposição calhorda das escadas rolantes (para obrigar o visitante a caminhar, induzindo-o a comprar), conta com 250 lojas, em 112 mil metros quadrados de área construída e 10 pavimentos (números oficiais). Sua construção  impressionou pela velocidade e trouxe suspeitas quanto ao açodamento na inauguração, que pretendia assegurar o faturamento do Natal de 2009.
Um grande mérito do Boulevard foi libertar o público frequentador de cinema do monopólio daquela empresa ordinária de Campinas. E já está lançada a expansão, que dotará o empreendimento de mais 53 lojas e reduzirá o estacionamento, mostrando que o capitalista não está nem um pouco preocupado com o conforto de quem lhe dá dinheiro.
Em agosto de 2010, o mesmo grupo do Boulevard anunciou um segundo empreendimento na cidade, o Parque, atualmente em obras aceleradas e com inauguração marcada e orgulhosamente confirmada para 25.4.2012. O objetivo é ocupar o principal endereço da maior área de expansão de Belém, o corredor da Av. Augusto Montenegro (que tem o pundonoroso epíteto de "Nova Belém", dado pela indústria imobiliária), onde abundam condomínios verticais, que não param de chegar, além de ser um meio de cultura de prédios residenciais, supermercados e engarrafamentos.
Tem anunciadas, em seu site, 200 lojas (mas você conta 232 na Wikipedia, se somar as âncoras e as operações da praça de alimentação), mais os cinemas. São mais de 28 metros quadrados de ABL, no padrão que está na moda: shopping horizontal, que declaradamente reduz despesas operacionais.
E ontem, enfim, após quase um ano de atraso, foi lançado comercialmente o quinto shopping da cidade, o Bosque Grão Pará, que deve ser erguido na Av. Centenário (aquela que deveria continuar se chamando Dalcídio Jurandir e representa um dano ambiental não esquecido na história da cidade), também integrante da "nova Belém", e promete ser "o maior, o mais moderno e mais bem equipado da região Norte", segundo o site que acabou de entrar no ar e ainda se encontra desatualizado. O projeto, muito bonito, também segue o padrão horizontal.
Segundo a imprensa, hoje, serão 45 mil metros quadrados de ABL, em três pavimentos, sendo um de lojas (num total de 225) e um apenas para as seis salas de cinema. Ouvi dizer, mas não posso confirmar, que seriam explorados por empresa diversa da Moviecom e Cinépolis, o que é bom, por aumentar a concorrência. A previsão de início das obras é agora em novembro, mas a inauguração deve ocorrer só no final de 2013, se o mundo não tiver acabado.
Escuto muitas pessoas questionando se Belém, com seu apertado nível socioeconômico, dá conta de manter tantos shopping centers. Os cinco estabelecimentos supracitados representam, juntos, mais de mil lojas. E a imprensa anunciou a construção de dois empreendimentos novos em Ananindeua. Isso, sem dúvida, demonstra que os empresários do setor estão apostando suas fichas na capital paraense e não o fizeram sem uma prospecção de mercado. É nesse sentido que se manifestam os empreendedores do Bosque Grão-pará. Quero acreditar, portanto, ainda que com medo de errar, que as nossas condições econômicas estão melhorando aos poucos, o que indicam também outros setores em crescimento.
Quem sabe, daqui a mais algum tempo, as pessoas possam viver com dignidade em Belém. Mas as pessoas em geral e não apenas um feudozinho de felizardos.

5 comentários:

Anônimo disse...

Realemtne o crescimento econômico de Belém fica patente com informa~ções passadas pelo blogueiro o que me causa espécie é não verificar este suposto crescimento junto a polis de nossa cidade, espero estar enganado quanto a previsões de futuras quebradeiras.

Yúdice Andrade disse...

Não sei se esse crescimento fica patente, mesmo, anônimo. Há um fomento a certas atividades econômicas, mas não encaro o desenvolvimento somente por isso. É um sintoma, decerto, mas pode ser um falso sintoma, como você mesmo especula, ao mencionar "previsões de futuras quebradeiras".

Victor Picanço disse...

Só quero ver quando a bolha de crédito estourar.

Artur Dias disse...

Concordo inteiramente com a sua definição para a distribuição das escadas rolantes do S.B. Estive lá a primeira vez para comprar o livro "o caso Cesare Battisti: a palavra da corte", na Saraiva, mas escadas, placas indicativas, cadê? Ainda bem que a livraria fica na boca de uma escada não-rolante.

Yúdice Andrade disse...

Victor, eu espero ver a tal bolha não estourar. Senão sobre para todo mundo...

Pois é, Artur. Mas dependendo de por onde você entre, não há como escapar de atravessar o shopping. Em suma, se a intenção é visitar uma loja e tomar um refrigerante que seja, você provavelmente será obrigado a passear.
Azar o deles comigo, porque eu não presto atenção às vitrines, a menos que esteja procurando alguma coisa. Nesse caso, só olho para as lojas que possam ter o tal produto.