sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sintomas de uma sociedade doente

Uma tragédia pode ficar pior? Pode, sem dúvida.
O empresário vitimado por mais um golpe da saidinha, no começo da tarde de ontem, em bairro central da cidade, foi alvejado duas vezes nas costas provavelmente apenas porque os assaltantes acharam que ele não se renderia. Os criminosos fugiram sem levar o dinheiro.
Segundo relato de um dos policiais que prestaram socorro ao rapaz, e que chegou ao meu conhecimento através da esposa do militar, foi por causa da demora da ambulância que a equipe decidiu levá-lo ao hospital na viatura da PM. Contudo, uma vez na porta do hospital (um dos mais famosos da cidade), um médico (ou mais de um, não sei tal detalhe) impediu a entrada do paciente. Ao ver um homem baleado dentro de uma viatura da PM, entendeu que era um "bandido" e não queria "confusão" ali.
Os policiais explicaram que ele era a vítima, que possuía plano de saúde e ele mesmo pedira para ser levado para aquele hospital. Nem assim o profissional mudou de ideia e recomendou que levassem o ferido para o Pronto Socorro. Um dos castrenses ameaçou dar voz de prisão ao médico, mas na pressa em socorrer a vítima, os policiais entraram no hospital e voltaram com uma maca. A essa altura, contudo, o empresário já estava morto.
Cogita-se que os familiares cobrarão responsabilidades do hospital. Acho bom que o façam, mesmo. É difícil avaliar o quanto a demora no atendimento impediu que o rapaz fosse salvo, mas a causalidade soa meio óbvia na cabeça de qualquer um. Demora da ambulância, embaraços no hospital. Some os fatores e perceba como estamos desamparados.
Para terminar este lamento, uma última provocação: o motivo de recusar um paciente baleado, trazido pela PM, talvez não seja a dicotomia mocinho vs. bandido que a nossa sociedade insiste em proclamar. Ela pode residir numa questão muito mais prosaica: esse que está aí tem dinheiro para me pagar?
Estou chocado com tudo. Com tudo mesmo.

5 comentários:

Edyr Augusto Proença disse...

Que desgraça, Yúdice. Postei no facebook a versão do amigo do rapaz, médico, que estava no Porto Dias e testemunhou todos os absurdos. Que pena.
Abs

Victor Picanço disse...

Revoltante!

Anônimo disse...

Isso é a consequência nociva de uma sociedade egoísta, discriminadora e excludente que cada vez mais se funda na lama da ignorância e da violência. Graças à mentalidade atrasada de uma elite concentradora de riqueza que pensa que o investimento em presídios, cercas elétricas e armas são mais viáveis que o investimento em educação e saúde de qualidade.
Isso é o resultado inequívoco dos últimos governos desastrosos, reacionários e corruptos, que ainda se revezam nos podres poderes e continuam agindo como assistencialistas e disseminadores de propaganda enganosa que só mostram um mundo virtual. Deixam de fora da gestão pública, o povo que hoje sofre de míopia e autismo político. Preferem o nepotismo e o compadrio.
Belém é uma cidade sem governo, uma terra sem lei, dominada por uma elite sem vergonh. Belém tá suja, barulhenta e violenta. Está inchada e de pessoas que migram do interior do estado por falta de perspectiva de uma vida melhor e que só faz piorar a qualidade de vida na cidade, por não ter planejamento e tudo parece funcionar no improviso, graças ao enorme contingente de mão de obra desqualificada.
Em Belém e no Pará, juventude está violentada e violenta, refletindo a desestruturação familiar, a falência da educação pública, o desemprego e a injustiça. Sempre bombardeada pelo consumismo caro, pelo lixo cultural dos deformadores tecnobregas das Gabi Amarantos e batidões, dos cacófonos aguias de fogo , Tupinambás e Cia. Reféns dos dois jornalões oligárquicos, das programações imundas e alienadoras da TV, tipo: barra pesada, balanço geral, metendo bronca, Silvia Gil entre outras idiotices. E o que é mais grave, rapazes e moças ao invés de ingressarem nas universidades, estão sendo recrutados e mortos pelo tráfico.
Contraditoriamente esse estado de miséria humana muito interessa aos donos do poder, pois um povo entorpecido e sem consciência de seus direitos, sem a capacidade de indignar-se é presa fácil dos abutres.
E quando bate o desespero na casa grande, a solução pra isso é correr pra Miami, Salinópolis, aos Shoppings pra gastar dinheiro desviado dos cofres públicos, encher a cara de whisky e cocaína ou ir ás igrejas para chorar, pedir perdão e pra deixar a alma mais leve. Mesmo sabendo que tudo voltará pra estaca zero.

Marcos Lopes disse...

É a tragédia nossa do cotidiano, o médico insensível diante da vida que se vai, "foi só mais uma!". Nosso pesar juntos a família entristecida. Nosso parabéns a Guarnição da PM tão criticada, mas que de forma anônima respeitou a Vida. Do triste episódio sobrou a indignação, sua e nossa, nesta sociedade doente de falta de AMOR

Maria Cristina Maneschy disse...

Nossa tolerância coletiva à barbárie é "elástica". Impressiona como nos acomodamos a uma ordem social que funciona dessse modo: não é uma ocorrência marginal, embora pareça. Mesmo que fosse, é pelo que ocorre nas margens que muitas vezes se conhece o que é central em uma sociedade.