sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Aterrorizante

Já falei muito bem da Santa Casa aqui no blog, por conhecimento pessoal (veja aqui e aqui). Mas não conheço a realidade daquele hospital, tendo-me referido a um serviço que vi, que utilizei, e que posso afiançar foi excelente. Mas eu não conhecia até esta noite o outro lado.

Circunstâncias burocráticas de planos de saúde e falta de compromisso da Marinha (o pior aspecto do serviço público...) levaram uma jovem de minha família à Santa Casa, hoje, para ter o seu bebê. Pelo que pude perceber, a equipe até se esforça por fornecer um atendimento humanizado, mas há dificuldades que não podem ser transpostas. Refiro-me à infraestrutura.

Precisei ir até à enfermaria onde a colocaram e, meus queridos, o que vi foi, em uma palavra, aterrorizante. Começo pelo estilo de acomodação dos hospitais de antigamente, nos quais os pacientes eram atendimentos em enfermarias enormes, para muitas pessoas simultaneamente. Não se tinha a percepção do grande perigo que representa reunir, no mesmo ambiente, pessoas em diferentes condições de saúde.

Caminhando por um labirinto de enfermarias, o que vi foi um cenário de guerra. O prédio, gravemente deteriorado, apresenta até infiltrações. As enfermarias abrigam mais de 20 pacientes e, devido às acompanhantes, o que resulta são salões cheios, barulhentos, abafados (nem todos os ventiladores funcionam) e com algo que sempre me incomodou demais em hospitais: um cheiro peculiar, ruim, angustiante. Só consigo pensar em cheiro de doença.

Juro para vocês, eu, que não sou dado a faniquitos, só queria sair dali o mais rápido possível. De preferência correndo. E agora desejo muito que minha prima possa sair de lá. Honestamente, não sei como uma criança pode nascer naquele ambiente tão profundamente insalubre e sobreviver.

Enquanto aguardava notícias do lado de fora (só um acompanhante por pessoa), fiquei olhando o prédio vistoso da "Nova Santa Casa", orgulho político do Sr. Governador Pescador, que nada mais tem a oferecer. O letreiro é iluminado, para ser visto de longe. Um funcionário, ao meu lado, telefonava insistentemente para diferentes pessoas tentando que alguém fosse buscar "os cadaverezinhos" (sic), porque já estavam em decomposição. Então me acerquei do segurança e perguntei se o novo hospital estava funcionando ou se era apenas propaganda do governo. Respondeu-me que está funcionando, que os pacientes estão sendo transferidos aos poucos.

Espero que sejam transferidos, mesmo. O quanto antes. Porque é absolutamente impossível encontrar dignidade numa estrutura que não se conserta com pintura nova. Não se conserta mais.

Esse é o Pará que não aparece na milionária publicidade institucional do governo do Estado. Uma realidade que você não vai querer conhecer.

4 comentários:

Hudson Andrade disse...

Temos vivido essas políticas de fachada, de cala-boca, de mesquinha comiseração que sem oferecer qualquer solução, tentam nos fazer de otários. A palavra é essa: otários! Babacas! Idiotas! Por termos votado neles. Ou por sofrê-los.

Artur Cruz disse...

Desejo que tudo tenha ocorrido bem apesar das dificuldades. Só quando nos deparamos com essas situações, podemos sentir e perceber o que passam dezenas de pessoas todos os dias nesse lugar. Os que buscam esses lugares querem acolhimento, tratamento, humanidade. Encontram desrespeito e descaso com algo tão precioso; a Vida. E a responsabilidade do descaso não é dos médicos como muitos acusam. E há interesse para que se pense assim, pois desvia-se o foco de quem realmente deveria cuidar da saúde pública. Agora, lançando mão dessa experiência, podemos nos fortalecer para modificar o quadro. Senão, de nada vale se indignar se dessa indignação não sobrevier uma transformação. Bjs no coração

edu disse...

saúde pública é assim. a sants casa de sao luis é em pior estado. a questão da infraestrutura é o gargalo da saúde pública, não apenas médicos.

Anônimo disse...

Esse é um tratamento absurdamente desumano...

Não sou contra os direitos humanos, mas acredito que é por essa violação de direitos que os defensores deveriam lutar continuamente e não apenas por indivíduos, fora da lei, que aterrorizam a sociedade com suas barbáries.

Pessoas tem seus direitos constitucionais violados costumeiramente dentro de construções insalubres, vulgarmente chamadas de hospitais.