segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quero aprender com teu pequeno grande coração

Eu realmente não gosto de postar nada que possa redundar em elogios, porque isso me soa como um simulacro de auto-elogio e, como aprendi com meu mestre de direito penal, Prof. Hugo Rocha, "elogio em boca própria é vitupério". Mas hoje abrirei uma exceção, porque o elogio não é para mim e eu quero guardar esta data.

Estava chegando a um restaurante perto de casa, junto com minha filha, quando ela avistou um rapaz dormindo no batente de uma porta. O cheiro dele era perceptível de longe, mas Júlia não pareceu notar ou não se importou. Apenas olhou o homem e disse que precisávamos ajudá-lo de algum modo. Perguntei o que ela achava que poderíamos fazer e me respondeu: dar um pouco de dinheiro ou de comida. Então lhe fiz uma proposta.

Fizemos nossa refeição. Questionei se ela realmente gostaria de levar a comida e me disse que sim. Então fui preparar uma quentinha, com alguns itens que me pareceram adequados: arroz, saladinha de feijão, carne. E acrescentei um refrigerante, porque sou contra a ideia de que doações devem se limitar a sopa e água. A gente não quer só comida. Também precisamos de um pouco de prazer, especialmente aqueles para quem a vida não costuma concedê-los.

Saímos do restaurante e eu expliquei para Júlia que aquele gesto, para nós, talvez fosse muito pequeno. "Mas, para aquele homem, certamente significará muito. Não se trata de comida: é fazê-lo ver que alguém se importou. Talvez, se em algum momento ele pensar em fazer algo ruim  roubar, p. ex. ―, ele se lembre que ainda existe gente como você." Então lhe passei a sacola, porque era essencial que ela mesma fizesse a entrega.

Nesse momento, havia um rapaz de bicicleta, conversando. Do pouco que escutei, pareceram palavras de incentivo. Aproximamo-nos e eu introduzi o assunto: "Passamos por aqui e lhe vimos. Minha filha gostaria de lhe dar algo para comer." Júlia então entregou a sacola e os dois homens reagiram com alegria. Desejaram coisas boas na vida de minha filha e não tive como não me emocionar muito. Veio-me à mente a lembrança de minha mãe, que ficaria maravilhada vendo sua netinha tendo aquela atitude  ― ela, que passou tantas privações na vida.

Desejei boa noite e seguimos nosso caminho. Júlia disse que sempre quis praticar uma boa ação como aquela. Eu a abracei e lhe disse que ela ainda fará muitas outras na vida. E eu espero que faça, mesmo. Que ela tenha tempo e oportunidades de fazê-lo e que nunca lhe falte o desejo sincero no coração de fazê-lo.

Foi a primeira vez que me senti de novo perto de minha mãe, conectado a ela de algum modo, através da criatura que ela mais amava na vida. Estou tentando cumprir minha promessa. Hoje, parece que algo funcionou.

4 comentários:

Isabelle Rodrigues disse...

Curti mil vezes!!!

Anônimo disse...

Belo gesto e excelente aula à Júlia. A boa índole passa de mãe à filho, e de filho à filha, e de avó à neta.
Kenneth

Yúdice Andrade disse...

Minha mãe me ensinou muitas coisas sobre certo e errado. Com o tempo, aprendi a separar o que me servia e o que não. Afinal, éramos de gerações muito diferentes. Mas a essência estava lá: a noção de não prejudicar os outros. A necessidade da honestidade. Agora sou eu que preciso repassar isso, em um mundo que se mostra refratário a bons valores, ao contrário daquele que eu conheci, que eram bem mais acessível a eles, por mais difícil que tudo fosse.

Jean Pablo disse...

Que gesto espetacular primo.

Quem dera todas as crianças pudessem crescer com esta noçāo de civilidade.

Enorme abraço primo.