quarta-feira, 2 de novembro de 2011

De novo, a palmada evangélica

Sou contra violência em geral e não poderia admiti-la como método disciplinar, já que contraria o bom senso que a violência possa ensinar algo de bom a alguém. Nem por isso, contudo, sou frontalmente contrário ao uso eventual e moderado de desforço físico, o que chamo cinicamente de palmada evangélica. Não acho que um recurso desses seja uma barbaridade e não acredito nessa babaquice de trauma, que inventaram há alguns anos e cuja única consequência prática é a criação dos jovens tiranos de hoje.

Tudo bem, posso pensar assim porque fui criado num lar em que a violência era empregada (inclusive sem a menor necessidade!) e, como muitos gostam de dizer, não morri. Não chego a esse nível de cinismo, mas há que distinguir entre uma ação agressiva e verdadeiros maus tratos.

Acima de tudo, confesso o meu temor quanto a esse modo de educar que trata as crianças como adultos em miniatura. Sei que devo reconhecer sua individualidade e respeitá-la como ser humano, antes de mais nada. Mas se um dia eu entrar no quarto de minha filha sem bater na porta e ela me censurar por isso, sou capaz de mandar tirar a fechadura por uma semana, só para ela aprender! Essas afetações libertárias, próprias dos americanos, levam a sandices como pagar os jovens por serviços domésticos, consistentes em limpar o próprio quarto! Comigo, não vai rolar.

Volto a este assunto por causa da possível votação, ainda este ano, de um projeto de lei que pretende vedar todo e qualquer castigo físico contra menores, já apelidado de "Lei da Palmada". Segundo a reportagem cujo link coloquei, 30 países possuem leis semelhantes, sendo que a maioria as instituiu já neste século. Correm por fora a pioneira Suécia (1979), Finlândia (1983), Noruega (1987), Áustria (1989), Chipre (1994), Dinamarca (1997), Letônia (1998) e Croácia (1999). Será que isso indica uma tendência mundial?

O fato é que, além da questão crucial (como devemos educar e a quem compete essa decisão?), não dispomos de recursos para fiscalizar o cumprimento da tal lei, se aprovada. Aliás, crimes muito mais graves nunca foram prevenidos, nem sequer remediados à altura, a despeito de termos leis para tanto, inclusive penais. Não acabaram os maus tratos, o abandono, a exploração do trabalho e a sexual, assim como o tráfico de crianças e os homicídios. Aliás, não podemos falar sequer em redução desses índices.

Então o mais provável é que estejamos trazendo mais complexidade e contingência para o sistema. Ou seja, tornando-o ainda mais inoperante. Avise-me quem souber se alguém ganha alguma coisa com isso.

4 comentários:

Victor Picanço disse...

Concordo plenamente. Será que o Estado vai colocar um conselehiro tutelar em cada casa pra fiscalizar se as crianças estão levando as palmadas pedagógicas?

Anônimo disse...

Se a filha em questão for adolescente e reclamar que o pai entrou em seu quarto enquanto ela trocava de roupa, ela está errada?!

Pais têm o direito de ver seus filhos nus, a hora que quiserem?

Yúdice Andrade disse...

Nunca, evidentemente, Victor. Mas a porta estará aberta para todo tipo de fuxico, acusações fundadas e infundadas, inferno para todo lado...

Pensei exatamente nisso enquanto escrevia o texto, das 20h00. Mas, de caso pensado, decidi não mencionar o aspecto e deixar que as pessoas pensassem a respeito, como você fez.
Para seu esclarecimento, eu me referia ao fato em si de entrar no quarto de uma criança. Mas estou plenamente consciente de que, à medida que ela cresça, bater na porta será necessário, como aliás gosto que façam comigo. E a partir do momento que a criança adquira sua consciência de pudor, é óbvio que não devemos vê-la nua. Não sou favorável a isso.
Portanto, fique tranquilo. Não defendo a exposição parental de ninguém.

Anônimo disse...

Um juiz deu uma surra na filha e foi filmado por ela.Ela colocou o video no youtube.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/11/policia-investiga-juiz-apos-filha-postar-video-de-espancamento-no-youtube.html