sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um acadêmico, um cidadão

O meu afastamento da Internet, provocado pelas férias, retardou em oito dias esta postagem, mas eu não poderia omitir um registro acerca do fato.

Na sexta-feira da semana passada, 16 de dezembro, ocorreu a defesa da monografia (trabalho de curso, como chamamos) de Antônio Reis Graim Neto. Se você faz parte da comunidade acadêmica do CESUPA, deve ter ouvido falar dele. Afinal, ele foi monitor por três anos (oficial de uma disciplina e, por certo tempo, voluntário de outra, simultaneamente), organizou e proferiu palestras, sempre ajudava nos grandes eventos que a instituição realizava e, enfim, sempre deixou a sua marca em cada atividade que desenvolvia. Um acadêmico nato.

Eu, Antônio, Sandro, Adelvan, Luciana e Bárbara.
A banca do Antônio, claro, não poderia ser igual às outras. Havia um co-orientador para a monografia e um membro a mais na banca avaliadora. Isto porque ele fugiu dos lugares comuns e decidiu escrever sobre um tema diferente, a partir de um enfoque muito particular.

Decidiu tratar do punitivismo, que vem se desenvolvendo a passos largos pelo mundo afora e com especial eficiência em países de baixa eficácia dos mecanismos de defesa da cidadania, como o Brasil. E para tanto decidiu aplicar a teoria dos sistemas, de Niklas Luhmann. Uma decisão corajosa e rara.

Oficialmente, eu era o orientador, mas como disse no dia, ele nunca precisou de mim para elaborar o trabalho. Ele o faria de todo jeito, porque tem competência e horas de estudo suficientes para isso. Quem realmente lhe ajudou foi Sandro Simões, co-orientando no que tange ao universo luhmanniano, que na banca foi avaliado por Adelvan Olivério. O resultado foi uma monografia instigante, defendida com a precisão de um professor predestinado, obtendo uma nota máxima tão esperada quanto merecida.

Já fiz postagens antes sobre trabalhos que orientei e bancas de que participei. Nunca, porém, citando alguma tão especificamente. Mas precisava fazê-lo agora, até como parte do ritual de despedida. Antônio foi meu monitor por nada menos do que três anos. Nunca foi meu aluno. Eu o conheci no dia da primeira entrevista, após corrigir uma prova de monitoria que me impressionou pela evidente familiaridade com teorias críticas e autores relevantes. Nos anos seguintes, submeteu-se novamente às seleções e sempre mereceu cada recondução à função. Escutei de pessoas da Coordenação de Graduação que ele estabeleceu um novo padrão de qualidade na monitoria de Direito. Também acho. E muitos alunos que foram diretamente auxiliados por ele decerto concordarão também, até porque uns tantos só lograram aprovação graças a esse apoio.

No dia da banca, falei sobre isso para seus pais, namorada e um amigo-irmão que lá se encontravam. É maravilhoso poder dizer essas coisas para as famílias mas, neste caso, havia uma emoção especial porque perco um parceiro efetivo. Alguém que faz tanta diferença que levou a querida Profa. Luciana Fonseca a comparecer à defesa e, ao final, fora do protocolo, pedir a palavra para homenagear Antônio, não mais como aluno, porque isso já fora evidenciado. Homenageá-lo como cidadão, um rapaz sempre generoso, sempre disposto a ajudar os colegas. E de fato, vinculado que é à Cruz Vermelha, ele ainda encontra tempo para ajudar a quem precisa. Essa é a sua vida. Ele é um exemplo.

E foi assim que o corpo docente do CESUPA, contando ainda com a presença da coordenadora de monografia, Bárbara Dias, despediu-se de um aluno único, que fará muita falta. A mim, particularmente. E aos alunos que ainda têm muito que se entender comigo, numa disciplina que se desenvolve ao longo de dois anos inteiros.

Eu realmente acredito que existem pessoas insubstituíveis. Profissionais, líderes, professores, etc., todos podem ser substituídos. Mas pessoas não podem. Assim, só me resta desejar que Antônio volte logo à comunidade acadêmica do CESUPA. O mais rápido possível.

Sucesso e felicidade sempre, meu amigo.

4 comentários:

Rafaela Neves disse...

Postagem muito bonita, sincera e merecida. Fui sua aluna e foi por esse modo que conheci o Antônio, e posso lhe dizer que se não fosse a sua ajuda, ainda teria problemas com Direito Penal. O diferencial do Antônio, sem dúvidas, é a sua generosidade aliada com a vocação para o Magistério. Torço muito pelo seu sucesso e pela sua felicidade!
PS: Antônio é gente boníssima mesmo. Hahaha
Beijão

Antonio Graim Neto disse...

Professor,
fico sem palavras por esta homenagem. Saiba que aprendi muito, nesses três anos, onde mais observei do que me expressei. Com certeza, cada palavra dita em aula ficará em minha memória para quando, um dia, realizar meu sonho de ingressar na carreira do magistério, possa demonstrar minha clara influência yudiceana.

Sou muito grato a tudo o que o CESUPA me proporcionou e espero poder retribuir. Sentirei muita falta da monitoria. Espero que o próximo monitor possa lhe dar muito mais apoio do que eu fui capaz.

Grande abraço do amigo de sempre.

André Coelho disse...

Lamento ter dado aulas a ele como aluno por apenas um semestre. Como aluno, nunca foi menos dedicado que o que foi descrito de seu trabalho como monitor. Quero enfatizar uma coisa que acho que deveria ser destacada na postagem: Que exemplos como os do Antônio (e estendo o mesmo a outros, no meu caso em especial, à Fernanda Costa, que também foi assim) também fornecem aos alunos um novo referencial do que significa vivenciar plenamente a experiência da universidade. Infelizmente, a visão comum (que nós, como professores, às vezes acabamos por reforçar) é de que as coisas especiais que esses alunos especiais fazem são superrogatórias, isto é, são o tipo de coisa que não se deve ou não se pode esperar de qualquer um. Isso é falso. Basta perguntar a eles mesmos, e veremos que eles não se entendem nem como herois nem como mártires, mas como pessoas que viram as oportunidades que o mundo acadêmico oferecia e não queriam simplesmente deixá-las passarem. Eles viram oportunidades que, de certa maneira, também estavam abertas para os demais, mas que os demais ou não viam como importantes ou até as viam assim, mas, com nossa ajuda, consideravam que o esforço para elas era superrogatório. Penso que deveríamos ter um registro no CESUPA da vida discente dos bons alunos, um "hall da fama" dos alunos que representam algum tipo de referencial do que gostaríamos que todos os demais também percebessem e também vivenciassem na sua própria medida. E o Antônio estaria nele, com certeza. E merecidamente. Parabéns a ele e parabéns a você, Yúdice, por ter participado dessa experiência e formado com ele esse caminho de amizade e de aprendizado.

Adrian Barbosa e Silva disse...

É muito bacana de se ver essa sua paixão, professor, pelo seu grande aprendiz (não o único!).
Como comentei no Facebook, a felicidade não é apenas de vocês dois, ela é coletiva, e, de fato, todo o corpo docente e discente do CESUPA deve ficar feliz por ter um grande mestre, como o sr., ocupando a "cátedra" de Direito Penal da Instituição, e, conjuntamente, um grande monitor ("perpétuo" como diziam alguns... haha) que foi o Antônio - pessoa essa bem conhecida por mim. É como o sr. mencionou já faz algum tempo, ainda sobre o Prof. Eduardo e a grande experiência que teve com ele também "trata-se não de ambição, mas de se fazer o que se gosta com competência e amor, e, por via de consequência, alcançar bons frutos disso, naturalmente".
Compartilho da sua felicidade.
Um forte abraço à vocês! Sucesso e Feliz Natal.