sábado, 17 de dezembro de 2011

A brutalidade do momento

As pessoas, no geral do tempo, são apáticas. Saem dessa apatia quando algum acontecimento particularmente grave lhes impressiona. O raciocínio vale para a criminalidade também. Todos os dias, muitas pessoas são assassinadas neste país. Segundo dados que vi em reportagem da Bandnews ontem, o número de homicídios caiu nas capitais ao mesmo tempo em que quase duplicou no interior. Uma das razões é a interiorização do narcotráfico, acossado por ações policiais nas grandes cidades.

Mesmo com o enorme índice de homicídios e a maioria deles envolvendo jovens, raramente um desses crimes ganha repercussão totalizante. É preciso que um pai seja acusado de matar a própria filha de 6 anos, junto com a esposa; ou que uma jovem mande assassinar os pais a pauladas e abra a casa para os agressores; ou que o sujeito mate a ex-namorada após quase uma semana de cárcere privado; ou que se incendeie um índio vivo; ou que se arraste uma criança por quilômetros, num carro. Se não for assim, a novela e o noticiário de futebol continuam dominando a atenção do grande público.

É por isso que me impressiona o horror disseminado na sociedade brasileira pelo vídeo da mulher que brutalizou um cachorro da raça yorkshire, fato trazido à baila esta semana, mas que já aconteceu há mais tempo. Vi o vídeo agora e claro que detestei. Quem me conhece sabe o quanto gosto de cachorros e, mesmo que não gostasse, abomino a violência, porque não vejo sentido nela. Mas ainda que sufragando a indignação geral, não posso admitir os protestos que invadiram as redes sociais, pedindo até a morte da enfermeira de 22 anos que cometeu essa sandice. E não posso refrear uma pergunta honesta: como alguém consegue sentir todo esse ódio pela morte do cachorro sem tremer, com fúria semelhante, com as perdas humanas diárias, para a violência doméstica, para a direção embriagada, para a miséria, para a inércia dos governos, etc.?

Minha indignação é por tudo isso. O cachorro, felizmente, morreu e está livre. Penso mais detidamente na criança, de apenas 2 anos, que assistia à "tortura" sem reagir, talvez por já estar acostumada às cenas. Não reagia, mas as lembranças estão lá, nem que seja no inconsciente. Isso pode ter consequências.

Com a repercussão do caso esta semana, os advogados já estão funcionando. Meus colegas advogados, maravilhosos eles! A enfermeira agora mudou de casa, para ter um pouco de privacidade. Está deprimida e chora o tempo todo. Claro, uma tese de defesa precisa ser construída.

Vale lembrar que, se ela está deprimida, mesmo, ainda se pode perguntar se é por reconhecimento da culpa ou apenas porque se sente molestada pela execração pública. Afinal, tem gente que não admite seus erros. Só não quer ser censurada por eles. Qual é o caso da moça?

A propósito, sem cinismo algum, destaco que eu não gostaria de ser cuidado, num hospital, pela pessoa em apreço. Não seria legal se ela pensasse que eu dou muito trabalho.

8 comentários:

Anônimo disse...

Tinha acabado de conversar sobre o assunto com meu marido quando acessei seu blog e me deparei com o seu artigo externando também a dificuldade em entender como as pessoas conseguem se horrorizar muito mais com a morte de um cachorro do que com a de um ser humano.Não vi reação semelhante por exemplo,com a chacina que vitimou recentemente seis jovens em Icoaraci.Aliás sobre este caso ouvi pessoas apoiarem a barbaridade sob o argumento de se tratarem de adolescentes infratores,informação até hoje não confirmada.Algo de muito grave está acontecendo com a sociedade e confesso que temo pelo futuro da humanidade.

Luiza Duarte Leão disse...

Muito obrigada pela postagem! É bom ver racionalidade sobre o assunto! Tive vontade de dizer isso desde o primeiro momento, mas, os ânimos estavam TÃO acirrados que ATÉ EU tive medo (e um pouquinho de preguiça) de criar polêmica.

Maira Barros de Souza disse...

Nossa, foste preciso! Conseguiste sintetizar mais ou menos a reflexao que eu havia feito sobre o assunto.
ps: desculpa a falta de pontuacao, mas eu nao sei mexer nesses teclados daqui =)

Grande abraco!

Anônimo disse...

Caro Professor,
Receio que o ocorrido se torne rotina.
Veja o caso da jovem que tentou terminar a faculdade de medicina pela UEPA via transferência.
A atitude de pedir o que já foi deferido anteriormente para outras pessoas - vide jurisprudência do TJ/PA -, deixou em completo estado de "trancada no quarto chorando" neste momento.
O que será da vida da jovem agora?
O que ela fez de errado?
Será que a vida pública de seus pais impediu que ela tivesse uma vida normal?
Será que a decisão, no mínimo questionável, do magistrado não foi o fato mais reprovável?
Temo que a utilização desenfreada e desordenada das "mídias sociais" tornem rotineiras essas execrações públicas.

Anônimo disse...

Acho que o anônimo das 17:00 horas está equivocado.A decisão do magistrado contrariou toda a jurisprudência existente sobre o assunto.Existe inclusive decisão do Supremo Tribunal Federal que foi solenemente ignorada pelo juiz.Tanto é verdade que ele próprio voltou atrás e "reconsiderou" sua decisão revogando a liminar.A prevalescer tão absurda decisão grave precedente teria sido aberto para favorecer somente os que não têm competencia para ser aprovados no vestibular.

Ana Miranda disse...

Isso fez-me lembrar daquela história, lá pelos anos 1990, quando uma criança, na escola de Base de Brasília, insinuou ter sido molestada pela direção e um professor (não me lembro bem) e quase toda a população - inclusive eu mesma - julgamos-os culpados e quando baixou a poeira da euforia da imprensa, descobriu-se que os "réus" eram inocentes, mas aí já era tarde, suas vidas estavam destruídas, a escola fechada e um casamento desfeito.

Sei que com a enfermeira "maluca" um vídeo prova tudo, mas acho que sua imagem tinha que ter sido preservada e ela julgada como merece. Pagar por seu crime, mas sem a necessidade da execração pública.

Acho, sim, monstruoso o que ela faz, mas os atos de violência oral contra ela também não me parecem sensatos...

Anônimo disse...

Ao anônimo das 20:22:
O deferimento da liminar do juiz Castelo Branco foi ilegal mesmo, contrariou a jurisprudência das cortes superiores sobre o assunto, mas se você digitar "transferência" e "universidade" na consulta jurisprudencial do site do TJ/PA, verá casos idênticos do ora debatido deferidos.
Não se está defendendo a jovem ou a liminar deferida, agora reconsiderada, mas sim ha uma preocupação com a execração pública pelos surfistas de rede social.

Yúdice Andrade disse...

Meus caros, agradeço o apoio. Procurei deixar claro que não minimizo essa brutalidade irracional, mas não posso deixar de ver a indiferença com que tanta gente sofrendo é tratada todos os dias. Isso não entra na minha cabeça.