sábado, 9 de fevereiro de 2013

Múltiplas opções de segurança

Encerrada a primeira semana do período letivo, de que estávamos desacostumados, e tendo sido dias particularmente difíceis para Polyana, nada mais merecido do que um jantarzinho a dois. Fomos a um restaurante e parei à procura de um lugar para estacionar. Apareceu então o flanelinha, que como de hábito me mandou estacionar num lugar suspeito: em frente a uma agência bancária, bloqueando o acesso a uma rampa. Notei que havia um carro estacionado adiante e respondi que não podia ficar ali. Aí começou a longa explicação, que tentarei sintetizar.

— Esse carro só sai daí depois que o senhor for embora.

Olhei perplexo para Polyana. "Como assim? O motorista do carro sabe quem eu sou? Está me seguindo?" Na verdade, ele quisera dizer que o carro sai apenas depois que o restaurante fecha, porque pertence ao segurança do estabelecimento.

— O restaurante tem o segurança lá, para evitar assalto — explicou o verborrágico guardador. — E tem eu, que estou aqui para cuidar do seu carro, do seu patrimônio e do senhor.

Já caminhando e tentando escapar da ladainha, agradeci a informação e, rindo (eu tinha que rir da convicção do rapaz), sussurrei a ela:

— Se ele disse que vai cuidar da minha esposa, meto a porrada nele!

Achei curioso o sujeito se apresentar como se fosse contratado do restaurante para atuar do lado de fora, enquanto havia uma outra pessoa dentro. E no retorno o papo furado continuou. Disse que gostava de ver os meninos dali se divertindo. Percebi que ele se referia a uma conhecida boate GLBT logo ao lado. Sem jamais fazer referência a homossexualidade, a ponto de que um interlocutor desavisado não faria a menor ideia do que ele dizia, comentou que eram rapazes muito educados, que estudam, que se divertem numa boa, enquanto em outros locais (citou points da periferia) ocorre violência, confusão, facada, etc.

Como não consigo virar as costas para uma pessoa que, por mais inconveniente que seja, não age por mal, fiquei ali escutando o rosário de elogios, de porta aberta, pensando no assaltante que podia aparecer de repente. Entrei no carro e, para encerrar a conversa, comentei que se você sai de casa para se divertir, não tem que se meter em confusão.

Entreguei umas moedas e saí, mas o insistente rapaz ainda bateu no vidro. Quando baixei, ele ponderou:

— O senhor disse uma coisa certa: se veio se divertir, não tem por que se meter em confusão!

Deveras, meu bom homem. Uma boa noite para você. E um bom sábado de carnaval para vocês.

4 comentários:

Anônimo disse...

Adorei! Tanto o texto quanto o título. Escreves contos?
Abraços.
Suellen Resende

André Coelho disse...

Figuraça o rapaz!

Alan Wantuir disse...

È professor, a cidade está cheia dessas pessoas sem emprego que improvisam de forma errada. Outro dia, um me cobrou logo, é cinco reais! Disse que não precisava reparar, a polícia já era paga por mim, aí ele vociferou, mas sabe como é né, quando vc voltar pode seu carro não estar mais aqui! Aí eu disse: Se o carro não estiver aqui tu vai ser o primeiro a descer pra cadeia! E assim vamos vivendo!!! rsrsrrsrs pra não chorar...

Ana Miranda disse...

Eh...eh...eh...

Ah, ele foi uma alegria à parte, à noite de vocês, não foi, não, Yúdice?