domingo, 5 de junho de 2011

Nossos valorosos acadêmicos!

Folheava o jornal Diário do Pará, edição de hoje, quando me deparei com uma reportagem falando sobre a "preparação dos craques de que o Pará precisa". No alto, a foto dos professores e alunos integrantes do Núcleo de Prática Jurídica de Proteção Internacional de Direitos Humanos, dos quais já falei em quatro oportunidades anteriores (vide abaixo).


Os três professores (Luciana Fonseca, Paulo Klautau Filho e Bianca Ormanes) e alguns dos estudanes acima estiveram em Washington, nas últimas duas semanas, representando o Brasil na 16ª Competição de Julgamento Simulado do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, na American University Washington College of Law. Não venceram esta, mas fizeram bonito, o que se conclui pelas manifestações de admiração formuladas por professores que se encantaram com o talento e a simpatia da nossa gente.
Dá gosto ser representado por essa garotada! Como comentei mais cedo no Facebook, numa sociedade que adora hipervalorizar os sarados, descolados e badalados, é um alento e uma alegria que possamos conviver com jovens de valor real, nos quais outros jovens podem se espelhar por aquilo que fazem de útil, de grandioso e de permanente.
Eu tenho orgulho deles.

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A segunda parte da reportagem destaca o time SIFE CESUPA, que venceu a disputa nacional de universitários empreendedores, em 2009, e no ano seguinte representou o Brasil na competição internacional, na Alemanha. E este ano já venceu o Desafio SEBRAE (rodada estadual) e participará da competição SIFE Brasil no próximo mês de julho, em São Paulo.


O SIFE CESUPA é coordenado pelo professor Rafael Boulhosa, a maior fábrica de ideias que já conheci, porque não se limita a tê-las: ele as concretiza, faz acontecer. E eu também tenho um imenso orgulho de conhecê-lo e de todos os trabalhos que ele conduz, p. ex. o Projeto Sócrates.

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Uma coisa que me agradou particularmente nessa reportagem foram as manifestações dos professores Rafael Boulhosa e Sandro Simões, este último coordenador do curso de Direito. Eles deixaram claro que a instituição possui um ideal de qualidade que não se coaduna com corpo mole, o que se revela desde o slogan "o caminho das pedras". Quem vier até nós, vai ter que sua a camisa e muito (juro que faço a minha parte!). Mas as recompensas aparecem, desde a respeitabilidade de que gozam os nossos egressos até situações mais específicas, como as duas aqui retratadas.
Parabéns aos nossos valorosos professores e estudantes.

Ótimos antecedentes:

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Espírito doméstico

Dia desses decidi que seguiria três blogs de jornalistas brasileiros famosos. Os blogs, de fato, merecem atenção, mas assim que os incluí detectei uma consequência inconveniente: como os autores são jornalistas profissionais e escrevem em profusão, passaram a dominar o meu quadro de atualizações. Isso me incomodou porque precisava passar por dezenas de postagens profissionais para encontrar alguma de blogueiros como eu, domésticos, que escrevem de vez em quando e apenas por prazer.
Suportei um tempo, mas hoje, aproveitando uma folga, deixei de seguir os referidos blogs. Volto a ser seguidor público apenas de blogs de pessoas amigas, incluindo aí aqueles com os quais cruzei na própria blogosfera. Alguns dentre eles não têm a menor ideia da minha existência no mundo, mas os sigo porque seus textos e ideias me agradam.
Sempre fui apegado às pessoas de que gosto. Não me apraz impessoalizar o meu próprio blog. Prefiro acessá-lo e me deparar somente com a Luiza, o Fernando, o Antônio, o Adrian, os colegas de Flanar e outros que realmente me conhecem, nem que seja apenas virtualmente. Mas em relação aos quais há sentimentos reais.
Enfim, gosto mesmo é da minha gente.

"Me senti acolhido"

Há muitas formas de você se importar com as pessoas ao seu redor.


Algumas delas podem surpreender pela simplicidade ou parecer extravagantes. Raspar o cabelo, p. ex. Tudo é uma questão de colocar o gesto em contexto. E quando se vê o contexto dos jovens estudantes da cidade mineira de Governador Valadares, somos lembrados de que nunca sabemos ao certo o impacto que nossas ações podem ter sobre as vidas alheias.
É maravilhoso pensar que, em meio a um noticiário predominantemente concentrado no bullying, uma escola mineira produza um episódio tão bonito, alegre e reconfortante. Tomara que os adolescentes se espelhem nesses jovens, que estão de parabéns.
Boa sorte ao Arthur.

You don't know Jack

Kevorkian, em 29.8.2010
Dia desses, topei com um filme na TV a cabo cuja temática me interessou de imediato. Trata-se de um telefilme da HBO, cujo título designa esta postagem, retratando uma figura altamente polêmica: o médico estadunidense Jack Kevorkian, que ganhou notoriedade há duas décadas por defender o direito de morrer de doentes terminais. Tão aguerrido nesse ideal, ele desenvolveu uma engenhoca que ficou conhecida como "máquina do suicídio", porque permitia ao próprio paciente acionar um mecanismo que lhe provocaria a morte, através de uma injeção letal. O apelido "Doutor Morte" se tornou mais conhecido do que o seu nome.
O tema do direito de morrer é um dos mais difíceis e polêmicos do mundo. Mesmo num país que se ufana de assegurar a supremacia das liberdades individuais, Kevorkian não foi aplaudido. E ainda que tenha sido, a opinião predominante era muito desfavorável. Segundo consta, ele auxiliou a morte de 130 pessoas e acabou condenado a oito anos de prisão, por homicídio em segundo grau1. Que eu me lembre, ameaçou se matar, caso fosse preso, pois só queria ajudar as pessoas a morrer dignamente. O argumento não impediu que fosse efetivamente encarcerado, mas não se matou, tendo recobrado a liberdade em 2007. Segundo o informante, sua morte, hoje, aos 83 anos, foi exatamente do jeito que ele achava que todos deviam morrer: com tranquilidade e sem dor.
Vi apenas o começo do filme, por isso ainda não escrevi nada a respeito. Mas já fiz algumas anotações mentais sobre aspectos que pretendo compartilhar oportunamente. Pena que os lotes de provas a corrigir sejam um empecilho para consumar o intento.
Para quem se interessou, o filme You don't know Jack tem Al Pacino no papel principal. Isso aumenta a curiosidade, não?

1 A nomenclatura inexiste no Direito Penal brasileiro. Como a legislação criminal nos Estados Unidos varia por unidade federativa, e considerando que a incriminação está relacionada ao fato de induzir ou auxiliar uma pessoa a se matar, acredito que o tipo penal mais próximo no Código Penal brasileiro seja o do art. 122 ("induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça").

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/06/jack-kevorkian-o-doutor-morte-morre-aos-83-anos-nos-eua.html

Coisas que não dá para entender

Folheando os autos de uma ação penal, deparei-me com a sentença, na qual o juiz afirma que "a situação econômica do réu não é das piores, pois afirma ser ajudante de pedreiro".
Você se lembra da última vez que jantou em um restaurante caro, frequentado por ajudantes de pedreiro? Ou que bateu um agradável papo na piscina de um hotel requintado, conversando talvez sobre os cuidados para o bom assentamento de lajotas?
Pelo visto, o governo está mesmo vencendo a luta contra a pobreza. Ou então alguns juízes estão precisando sair um pouco de seus gabinetes.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ele, de novo ele

Mais um capítulo na longa e interminável batalha em torno do Exame de Ordem. Anote aí, você que é acadêmico ou bacharel em Direito: sem passar no exame, você não se tornará advogado.
Palavra do Supremo Tribunal Federal.

Mal avaliados

O conceito preliminar de curso (CPC) é um dos instrumentos por meio dos quais o Ministério da Educação avalia os cursos superiores no Brasil. Ele tem provocado calafrios em muita gente por aí.
Ontem, o MEC publicou uma lista de 136 instituições que, por terem tirado notas 1 e 2 no CPC (o máximo é 5), passam a sofrer intervenção e precisam elaborar um plano de recuperação. No prazo de vigência do plano, o número de vagas ofertadas a novos alunos é reduzido (os já matriculados não são prejudicados). Ao final dele, se a instituição conseguir comprovar a melhoria de seus índices de qualidade, bom para ela. Do contrário, o curso será extinto.
Suspirem aliviados os paraenses: não há nenhuma instituição daqui da terrinha entre as penalizadas.

Azul rosa

O amigo, poeta e blogueiro Ivan Daniel Amanajás, decerto lembrando que já publiquei sobre a Azul Linhas Aéreas mais de uma vez aqui no blog, pensou em mim no último dia 30, ao avistar esse avião que aparece na imagem abaixo:



A aeronave foi recaracterizada porque a empresa aderiu à campanha de prevenção ao câncer de mama. Segundo Ivan, o registro foi feito no Aeroporto de Confins (MG), para me mandar. Agradeço e publico.
E já que falamos na empresa, merece registro que, desde ontem, estão em operação os novos voos saindo aqui de Belém: direto para Manaus e para Fortaleza.

Boa viagem.

Além da tolerância

Se há uma pecha da qual os sodalícios profissionais não se livram de jeito nenhum é o de corporativismo. Nenhum escapa. Por isso, o Conselho Regional de Medicina é frequentemente assacado com acusações do gênero, de modo que, segundo o senso comum, é muito difícil e improvável que um processo ético-disciplinar nele instaurado termine com a punição do médico e, se isso chegar a acontecer, a sanção será moderada. Pessoalmente, vejo exagero nesse tipo de teoria, mas também não posso ignorar que, muitas vezes, tais agremiações (OAB, CREA e outras; não vamos incomodar somente os médicos) dão motivo para que se pense assim.
Entretanto, para tudo há um limite. E ele foi extrapolado no caso do ginecologista José Chiapetta (foto de Paula Lourinho), proprietário de uma clínica em Belém onde, além dos atendimentos lícitos, há muitos anos eram realizados abortamentos clandestinos (segundo investigações policiais). O próprio Chiapetta realizava tais procedimentos e acabou alvo de uma reportagem da Rede Globo, na qual aparecia muito satisfeito explicando aos repórteres, disfarçados de possíveis clientes, como era interrompida a gestação, como tudo era simples e seguro, etc.
Abortamento sempre é um tema motivador de escândalos. Mas o que realmente me instiga nele é a hipocrisia de muitos, pois a prática é largamente disseminada entre todos os níveis sociais. Você só não pode falar abertamente a respeito, porque o padre fica chateado. Mas por baixo dos panos há um nível de permissividade e conivência que surpreenderia, se viesse a público. E assim me refiro porque sou contrário ao abortamento voluntário. Que fique claro, o voluntário.
O interessante é que a imprensa destacou não o caso em si, mas a singularidade de o CRM do Pará, em 59 anos de existência, ter cassado um de seus médicos pela primeira vez há apenas quatro dias. E por maioria de votos. Nem quiseram insinuar nada com isso...
O mestre Eugenio Raúl Zaffaroni explica que o Direito Penal (estou estendendo o raciocínio à responsabilidade profissional) é adrede formulado para atingir os segmentos vulneráveis da sociedade: os pobres, os sem instrução, os "sem cobertura" (cobertura é, p. ex., uma proteção classista, frequentemente mal intencionada, que ocorre entre membros de uma mesma profissão ou entre os nossos valorosos parlamentares). Os bem sucedidos dificilmente são atingidos pelo sistema punitivo, o que acontece devido a alguma situação especial, p. ex. a perda da cobertura (sabe quando o Congresso Nacional cassa um político que está demonizado na mídia, para vender a imagem de honestidade, embora na verdade um terço de sua composição seja de investigados/processados pelos mais diversos delitos?) ou a prática da criminalidade tosca, que desperta reações excessivas e exige uma resposta à opinião pública (caso do Pimenta Neves, que foi processado porque matou e isso está além da tolerância; os crimes de colarinho branco, ao contrário, são perpetrados impunemente).
Valendo-me da doutrina zaffaroniana, e adotando para fins de argumentação a tese de corporativismo profissional, um médico poderia escapar da punição em inúmeros casos de erro, de negligência, de imperícia, até mesmo quando aberrantes. Contudo, fazer do abortamento um meio de vida não dá. Assim não há cobertura que aguente! E com isso, Chiapetta fez história. Mas aposto que não gostou nada disso.

PS — Há um erro na reportagem. Segundo o texto, se Chiapetta for malsucedido em seu recurso ao Conselho Federal de Medicina, "também passará a responder a uma ação criminal. Nesse caso, o Ministério Público Estadual (MP), baseado em inquérito policial, poderá denunciar Chiapetta à Justiça". O texto dá a entender que a denúncia criminal depende da decisão do CFM, o que é uma tolice. Imagine se o MP, que tem a competência constitucional de titularizar a ação penal pública, precisa ser autorizado por um órgão de classe para exercer suas atribuições!
Já existe um inquérito policial em andamento (aliás, já deu tempo de sobra para sua conclusão). O MP pode denunciar, se já dispuser de elementos para tanto. A imprensa podia ser um pouquinho mais bem informada, se quisesse.

Caso de estupro de vulnerável

Esta vai especialmente para os meus alunos de Direito Penal IV, que nesta sexta-feira (3 de junho) farão prova abordando os crimes contra a dignidade sexual.
No Estado do Rio de Janeiro, um homem de 61 anos foi flagrado num quarto de motel de estrada na companhia de uma menina de 12 anos. A polícia chegou até ele acionada pela mãe da menor, que estranhou o comportamento da menina e viu que ela possuía dinheiro, cuja procedência desconhecia. Acabou descobrindo que a garota mantinha um relacionamento com um homem, que lhe pagava após os encontros.
O idoso vai responder pelo delito de estupro de vulnerável, mas há uma questão da maior importância a ser considerada, e que esbarra no altamente controverso tema da relativização do crime, pelo comportamento da suposta vítima. Antes de mais nada (e sobretudo porque este blog é lido por leigos em Direito), preciso esclarecer que não estou fazendo nenhum juízo de valor sobre o caso. O que pretendo é destacar, para meus alunos, uma particularidade técnica. Afinal, formalmente falando o crime está plenamente configurado (houve atos libidinosos, provavelmente conjunção carnal, em mais de uma ocasião e a menina era menor de 14 aos), mas é preciso observar que a menina, aparentemente, concordou com o relacionamento e aceitava recompensas.
Eu lhes pergunto: isso muda alguma coisa? O crime deve ser desconsiderado? Pode-se dizer que, aos 12 anos, essa menina realmente consentiu? Não seria mais correto afirmar que a cooptação por meio de dinheiro não é uma forma de explorar a inexperiência de uma menina tão jovem e insegura quanto aos abusos que sofre?
Como podem ver, o tipo penal é bastante simples, mas a solução do caso não. A vida nunca é assim tão simples.
Meus valorosos estudantes, pensem a respeito. Vai que eu decido colocar exatamente esse caso na prova?

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/06/02/homem-de-61-anos-preso-em-flagrante-em-motel-com-menina-de-12-anos-924589884.asp

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Kardec racista???

O Espiritismo foi codificado, em meados do século XIX, pelo filósofo e educador Hippolyte Léon Denizard Rivail (cognominado Allan Kardec), através de cinco obras literárias que, pela sua importância, são conhecidas como as Obras Básicas. São elas: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Posteriormente, surgiu O que é o Espiritismo, uma compilação que pretende introduzir o neófito de maneira mais simples, havendo inclusive a recomendação de que seja lido antes de O Livro dos Espíritos. Por fim, houve a publicação de Obras póstumas.
Com surpresa, acabei de tomar conhecimento de que um cidadão acusou este último livro de possuir "conteúdo racista" e, como tal, ser lesivo ao patrimônio histórico e cultural. Sob essa premissa, ele ajuizou ação popular contra o Instituto de Difusão Espírita (editor da obra) perante a 3ª Vara da 8ª Subseção Judiciária Federal, em Bauru (SP), invocando a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e pedindo o recolhimento ou a busca e apreensão dos exemplares, sob pena de multa diária, além de indenização por danos morais causados à coletividade! O pedido foi fundamentado no art. 20, § 3º, I, da Lei n. 7.716, de 1989.
Felizmente, o juiz federal Marcelo Freiberger Zandavali rejeitou o pedido liminar. Após sustentar, com acerto, que "as liberdades de expressão e de crença não podem servir de escudo para a prática de crimes de racismo", o magistrado ponderou que a obra foi publicada em 1890 e o falecimento do autor, em 1869, de modo que "não é de espantar que as afirmativas de Allan Kardec refletissem o espírito de seu tempo, em relação às pessoas de cor negra", citando eventos históricos daquela época, capazes de demonstrar que a compreensão geral sobre os negros era extremanente desfavorável. Ponderou, também, que a obra não pretende menoscabar direitos das pessoas negras, tanto que, em nota explicativa ao final da publicação, manifesta "o mais absoluto respeito à diversidade humana [...], sem preconceitos de nenhuma espécie: de cor, etnia, sexo, crença ou condição econômica, social ou moral". Afirmou estar evidente que a intenção dos editores era "divulgar, sem mutilações, o pensamento kardecista, sem, para tanto, elevar a distinção baseada na cor da pele em ideologia discriminatória".
A ação prosseguirá, ou seja, a questão está longe de uma solução. Seu número, para consultas futuras, é 3015-78.2011.4.03.6108.
Se por um lado a Justiça Federal rejeitou em princípio o reconhecimento de uma prática racista, por outro há que se questionar que razões levaram um cidadão a acusar Allan Kardec de racismo.
Lembrem que, recentemente, houve uma barata voa aqui no Brasil, quando Monteiro Lobato sofreu idêntica acusação, por referir-se a Tia Nastácia como "macaca de carvão" e por outros trechos pontuais de suas obras. Como Lobato está arraigado no imaginário popular como bonzinho e uma referência para crianças, não faltaram defensores furiosos para ele. Pouco tempo depois, porém, a divulgação de correspondência pessoal do escritor a amigos causou enorme susto em seus admiradores. Vejam alguns trechos, que foram apontados como apologia do racismo e da eugenia:

“Mulatada, em suma. (…) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; (…) Tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” Em carta a Arthur Neiva, Nova York, 1928

“Os negros da África (…) vingaram-se do português de maneira mais terrível, amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã . (…) Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? A Godofredo Rangel, 1908

“A escrita é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente.” A Renato Kehl, 1930

“ (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas ideias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha.” A Renato Kehl, 1930

“Meu romance não encontra editor. (…). Acham-no ofensivo à dignidade americana. (…) Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” A Godofredo Rangel, sobre o romance “O presidente negro”
Deixo claro que não estou chamando Lobato de racista. Sei que ele foi defendido mesmo após a divulgação dessas cartas. Acima de tudo, não sou estudioso de sua vida e obra, por isso não me arvorarei a tirar conclusões. E, de todo modo, não estou nem um pouco preocupado com Monteiro Lobato. Minha questão é: Allan Kardec era racista? O fato de expressar pensamentos de sua época minimiza a sua responsabilidade?
Anos atrás, participava de um grupo de estudo espírita e nos defrontamos com uma passagem, salvo engano de A Gênese, que mencionava os negros como feios, devido aos seus traços grosseiros. Havia uma sugestão de que o processo evolutivo tornaria a aparência física dos indivíduos mais delicada, ou seja, mais caucasiana. O excerto nos causou espanto e começamos a tratar justamente de um possível cunho racista ali, que não tributamos a preconceito do autor, mas à mentalidade da época.
Devido aos anos já passados, não me recordo mais da conclusão a que chegamos, se é que chegamos. Só sei que o tema é importante para quem se preocupa com a dignidade do Espiritismo ou quem se importa com o impacto das doutrinas de largo alcance.
Tocarei no assunto com pessoas mais abalizadas na Doutrina Espírita e outra hora voltarei ao assunto.

Saiba mais:

terça-feira, 31 de maio de 2011

Maio acabando

Já faz tempo que não ando tão afoito por postar no blog como em seus primeiros tempos. Creio que, quando comecei, sofria de uma ansiedade maior por temer que a iniciativa durasse pouco, que o interesse esmorecesse e eu tivesse mais um item a incluir na minha imensa lista de coisas malogradas. Passados quase cinco anos e com mais de quatro mil postagens, mantendo um nível de atualização razoável, sinto que o blog já tem uma função resolvida em minha trajetória e que ele persistirá, ainda que mais devagar.
Observo, p. ex., que este mês de maio teve uma quantidade de postagens muito inferior ao padrão. Há anos que não terminava um mês tão ocioso. Mas pudera! Com tantas doenças e problemas outros desestabilizando corpo e mente, não havia como escrever. Não dava nem vontade, que dirá a concentração necessária para, ao menos, produzir um texto decente.
Os problemas vêm e vão. Curiosamente, às vezes tenho a impressão de ter entrado naquele tal inferno astral prévio ao aniversário. Se for isso, Deus me livre, porque ainda falta quase um mês e meio! Já não estou na melhor esportiva para novos contratempos. Prefiro acreditar que, enfim, as coisas entrarão nos eixos. Pelo menos a saúde está em condições satisfatórias.
Chegou a hora de me despedir de maio, o que é bom, pois junho é o meu mês favorito, devido à quadra junina e seus manjadíssimos e deliciosos apelos gastronômicos, que adoro. Enquanto houver um bom mingau de milho e um bolo podre bem feito, há de restar esperança no mundo!
Feliz junho para vocês.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Lição do dia

As pessoas fazem melhor negócio quando pensam com a própria cabeça e agem de acordo com a própria vontade. Podem até não alcançar tudo o que esperavam, mas certamente experimentam maior sinceridade consigo mesmas, quaisquer que sejam as consequências de suas decisões.

sábado, 28 de maio de 2011

O sujo...

Sei que não se deve dar cartaz para essa briguinha de comadres, mas não pude deixar de achar divetidíssima a cobertura que o Diário do Pará deu à marcha contra a corrupção organizada pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará, hoje. Leia.
É como eu sempre digo: a retórica é uma arte!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Bloqueio criativo

Dei uma boa olhada nas principais notícias de hoje e — meu Deus do céu! — me deu um cansaço, uma vontade de ficar alheio a tudo... Quem dera eu pudesse!
Até qualquer hora dessas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ainda acredito na disciplina

O bullying está mesmo na moda. Em Campo Grande, aconteceu um caso interessante. Um menino de 13 sofria ameaças há um ano e, para não ser agredido, começou a fazer as tarefas escolares do agressor. Depois passou a comprar-lhe lanches e, por fim, a dar-lhe dinheiro. Em seus cálculos, já perdeu mais de mil reais com isso. Cansada, a vítima decidiu gravar os diálogos e entregou as gravações para a polícia. Um flagrante foi armado e o agressor acabou apreendido pela prática do ato infracional de extorsão.
O que me chamou a atenção, nesse caso, foi um detalhe narrado pela delegada de polícia: "Quando foi feita a abordagem, o menino urinou. Não esperava ser repreendido."
Urinar de medo é, em princípio, uma reação infantil. Imaginar que um adolescente acostumado a agredir se comporte dessa forma me sugere que ele não é um verdadeiro criminoso, mas um bobalhão, um covarde ridículo, que só fica por cima quando do outro lado está alguém mais frágil. Contudo, não tem estrutura emocional para enfrentar as implicações de seus atos, como um adulto, como um homem.
Fico com a firme impressão de que um moleque desses tem conserto e que nada disso aconteceria se a família tivesse um mínimo de responsabilidade, de senso disciplinar. Com poucas lições e um tanto de exemplo, o jovem compreende que o seu semelhante merece respeito e consideração. Chegar a esse ponto se torna uma demonstração cabal de fracasso, mas um desses fracassos perfeitamente evitáveis, que ocorrem pelo cultivo de maus valores ou de valor nenhum.

Fonte: http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2011/05/vitima-de-bullying-teria-pago-mais-de-mil-reais-para-nao-apanhar-diz-policia.html

Lutando contra o Diabo

Vocês já me viram escrever, aqui no blog, mais de uma vez, que os bancos são os legítimos representantes de Satanás na Terra. Ratifico a afirmação. A finalidade dos bancos é seduzir os incautos com vantagens que somente eles podem oferecer mas que se destinam, unicamente, a fazer o indivíduo perder a própria alma.
O que me surpreende é que haja alguma reação contra isso. Mas houve e partiu do Banco Central do Brasil. A instituição desenvolveu novas regras para a utilização de cartões de crédito, que se destinam a forçar o cliente a controlar seus gastos, prevenindo o superendividamento. A medida é oportuna porque o indivíduo comum, por necessidade ou falta de bom senso (seja o que for, dois bons fatores de vulnerabilidade para ser tragado pelo capiroto), tende a consumir todo o seu limite de crédito e a pagar o valor mínimo da fatura mensal, enredando-se nos juros extraordinários que as financeiras cobram.
Ainda mais surpreendente é a proposta (ainda não em vigor) de limitar as 80 tarifas cobradas hoje pelos meliantes para apenas 5: anuidade, emissão de 2ª via do cartão, saque em espécie, pagamento de contas e pedido de avaliação emergencial de limite de crédito.
Para saber um pouco mais sobre o que deve mudar, leia aqui. A matéria termina com um link para uma cartilha elaborada pelo BC.

Acréscimo em 1º.6.2011: As novas regras sobre uso de cartão de crédito começam a valer hoje.

Grafite

LEI Nº 12.408, DE 25 DE MAIO DE 2011


Altera o art. 65 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, para descriminalizar o ato de grafitar, e dispõe sobre a proibição de comercialização de tintas em embalagens do tipo aerossol a menores de 18 (dezoito) anos.


A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:


Art. 1º Esta Lei altera o art. 65 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, dispondo sobre a proibição de comercialização de tintas em embalagens do tipo aerossol a menores de 18 (dezoito) anos, e dá outras providências.

Art. 2º Fica proibida a comercialização de tintas em embalagens do tipo aerossol em todo o território nacional a menores de 18 (dezoito) anos.

Art. 3º O material citado no art. 2º desta Lei só poderá ser vendido a maiores de 18 (dezoito) anos, mediante apresentação de documento de identidade.

Parágrafo único. Toda nota fiscal lançada sobre a venda desse produto deve possuir identificação do comprador.

Art. 4º As embalagens dos produtos citados no art. 2o desta Lei deverão conter, de forma legível e destacada, as expressões “PICHAÇÃO É CRIME (ART. 65 DA LEI Nº 9.605/98). PROIBIDA A VENDA A MENORES DE 18 ANOS.”

Art. 5º Independentemente de outras cominações legais, o descumprimento do disposto nesta Lei sujeita o infrator às sanções previstas no art. 72 da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998.


Art. 6º O art. 65 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 65. Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.


§ 1º Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 (seis) meses a 1 (um) ano de detenção e multa.

§ 2º Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.” (NR)


Art. 7º Os fabricantes, importadores ou distribuidores dos produtos terão um prazo de 180 (cento e oitenta) dias, após a regulamentação desta Lei, para fazer as alterações nas embalagens mencionadas no art. 2º desta Lei.

Art. 8º Os produtos envasados dentro do prazo constante no art. 7º desta Lei poderão permanecer com seus rótulos sem as modificações aqui estabelecidas, podendo ser comercializados até o final do prazo de sua validade.

Art. 9º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. [DOU de 26.5.2011]

Brasília, 25 de maio de 2011; 190o da Independência e 123o da República.

A única diferença na redação do art. 65 da Lei de Crimes Ambientais, antes desta mudança, era a presença do verbo "grafitar" no preceito primário. Os artistas de rua agradecem.

Um pedaço da verdade

MPF irá digitalizar documentos da ditadura militar

Redação Portal IMPRENSA

O Ministério Público Federal de São Paulo vai disponibilizar na internet um milhão de páginas de 707 documentos e processos abertos contra presos políticos no período da ditadura (1964-1984), informa a Folha de S.Paulo, nesta segunda-feira (23).
Orçado em R$380 mil, o processo de digitalização dos documentos está previsto para começar em junho, e informações serão publicadas em 2012. Os documentos, que originaram o projeto "Brasil: Nunca Mais", serão publicados na íntegra, sem tarjas sobre os nomes, como é feito atualmente nos autos para consulta no Arquivo Nacional, ligado ao Ministério da Justiça. Será possível acessar nos depoimentos e relatos, detalhes sobre as torturas empregadas pelo Estado contra os dissidentes políticos.
Uma iniciativa do bispo Dom Paulo Evaristo Arns e do reverendo Jaime Wright, o "Brasil : Nunca Mais", foi idealizado em 1980 e é o mais completo relato sobre a violência empregada pelo Estado contra a resistência à ditadura."O projeto se insere nesse momento em que o país quer tornar pública a sua história", afirmou Marlon Weichert, procurador da República que coordena o projeto, à Folha.

Parabéns ao MPF paulista e aos religiosos que, após mais de três décadas, finalmente veem o poder público levar adiante uma iniciativa tão importante.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Merecem admiração

Conviver com uma doença crônica não é uma experiência simples e, decerto, todos passaríamos ao largo dela, se pudéssemos escolher. Quem foi selecionado precisa encontrar caminhos para lidar com suas dificuldades e seguir a vida adiante, da melhor maneira possível.
Suscetíveis que somos às pessoas públicas — hoje designadas pela epíteto "celebridade", que me soa algo pejorativo —, ficamos ainda mais impressionados quando uma delas declara publicamente os seus problemas. Eles acabam se tornando, querendo ou não, exemplos de superação, embora o mais das vezes estejam apenas fazendo o que qualquer um faria: tentando sobreviver com dignidade. Contudo, conscientes de que muitos se espelham neles, procuram manter uma atitude positiva que acaba por servir de exemplo de superação.

É o caso, p. ex., da atriz e comediante carioca Cláudia Rodrigues, que no próximo dia 7 de junho completará 40 anos. Diagnosticada em 2000 com esclerose múltipla após uma ressonância magnética, chorou o que pode. Tentou manter suas atividades, mas acabou forçada a se afastar do trabalho por mais de um ano para se tratar. Cláudia diz que se apoiou na filha Iza, de 9 anos, e nos amigos. Sua recomendação é manter uma atitude positiva diante da vida. E, claro, tomar a medicação, especificamente o remédio Natalizumabe, ao qual tributa sua recuperação. Ela afirma que sua memória melhorou bastante.
A esclerose múltipla, muito em síntese, é uma doença progressiva do sistema nervoso central provocada pela perda de mielina, feixe de camadas lipoproteicas que envolvem as fibras nervosas (axônios), comprometendo assim a transmissão dos impulsos elétricos. As consequências são distúrbios visuais e da fala, dificuldades de locomoção, do equilíbrio e da força, dormência e às vezes dor. De causas pouco esclarecidas, tem evolução imprevisível e em casos mais graves pode ser fatal.
Site da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla: http://www.abem.org.br/

Outro que merece menção é um dos maiores atores brasileiros, o gaúcho Paulo José (74), que foi um ativista da causa de regulamentação da profissão de ator, o que ocorreu em 1978. Ele sofre do mal de Parkinson, diagnosticado há 16 anos. Seguindo à risca uma rotina de medicamentos e de atividade física — e tendo se submetido a uma cirurgia experimental para colocar um eletrodo em seu crânio, para conter os movimentos involuntários —, ele aposta no bom humor e na ironia para tocar em frente.
O mal de Parkinson é uma doença idiopática (sem causa definida) degenerativa do sistema nervoso central, que incide principalmente em maiores de 60 anos. Neurônios secretores de dopamina degeneram-se ou morrem, prejudicando a transmissão de comandos conscientes oriundos do córtex cerebral para os músculos. Em consequência, o paciente sofre tremores e movimentos involuntários, comprometendo a sua movimentação geral (a lentidão dos movimentos é o maior empecilho prático à qualidade de vida do doente). A doença pode evoluir para rigidez muscular, provocando inexpressividade facial e deterioração da fala, além de outros sintomas. Não afeta, entretanto, a capacidade intelectual do paciente.
Site da Associação Brasil Parkinson: http://www.parkinson.org.br/explorer/index.html

Uma terceira experiência marcante é a da atriz carioca Isabel Fillardis (37) mas, neste caso, não na condição de paciente, e sim de mãe de uma criança com síndrome de West. Isabel já era ativista da causa ambiental, tendo fundado em 2003 a ONG Doe Seu Lixo. Mas com a doença do pequeno Jamal Anuar, hoje com 7 anos, a partir de 2006 engajou-se na causa dos acometidos pela mesma doença que seu filho e, a partir daí, por meio da campanha "A Força do Bem", auxilia pessoas com necessidades especiais de todo tipo.
A síndrome de West é uma forma grave de epilepsia que acomete crianças, de causas diversas, normalmente associadas a disfunções cerebrais ocorridas antes, durante ou após o parto. Estima-se que ocorra em um a cada 4000 ou 6000 nascimentos, sendo que o número de atingidos do sexo masculino é o dobro do feminino. Caracteriza-se pelo atraso do desenvolvimento motor e espasmos intensos. Evolui com déficit intelectual, complicações respiratórias e deformidades, principalmente nos membros inferiores e superiores.

Estas são pessoas cujas experiências deveriam ser conhecidas e valorizadas.

Referências:
Cláudia Rodrigues: http://celebridades.uol.com.br/ultnot/2011/05/25/sigo-em-frente-pronta-para-trabalhar-viver-e-ser-feliz-diz-claudia-rodrigues-sobre-luta-contra-a-esclerose-multipla.jhtm; http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI226490-15228,00.html

Paulo José: http://contigo.abril.com.br/noticias/entrevistas/paulo-jose-mal-parkinson-bom-humor-550365; http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYP0-5271-234316,00.html

Isabel Fillardis: http://www.deficienteciente.com.br/2010/07/exemplo-de-superacao-isabel-fillardis.html