quinta-feira, 20 de junho de 2013

Onda de retratações

Havia uma coisa em comum entre Geraldo Alckmin, governador do Estado de São Paulo, e Fernando Haddad, prefeito da capital paulista, e não eram as gravatas da cor de seus respectivos partidos. Eram os semblantes desgastados e constrangidos que exibiram ao anunciar, juntos, a redução do preço das passagens de ônibus naquela cidade, estopim da ebulição que agita o país há duas semanas.

Eles bateram o pé, soltaram seus argumentos, mas ao final e ao cabo recuaram, chamuscados perante seus eleitores e seus partidos. Se mais não houver de resultado prático de tudo quanto está acontecendo, ao menos este deleite merecemos: todos os que se locupletam de nosso país, de nosso povo, de nossas riquezas, ano após ano, estão baixando as cristas habitualmente arrogantes.

A Globo se retratou. Discretamente, mas mudou o tom. O surtado do Datena. O retardado do Ronaldo "Fenômeno" (do quê?). O detestável do Pelé. E outros, além dos políticos. Um após o outro, foram experimentando a insólita sensação de dever satisfações a terceiros, a estranhos, àqueles que costumam usar como massa de manobra. Deve ser um choque, para todos. E uma grata surpresa, para o cidadão comum, descobrir uma obviedade sempre lembrada, mas não praticada: a de que ele tem, sim, algum poder, alguma voz.

A redução das tarifas de transporte têm um custo? Lógico que tem. Afeta os próprios recursos públicos? Provavelmente. Porque capitalistas apresentarão suas faturas ao governo, claro. Essa gente nunca perde. Em São Paulo, estão calculando o montante dos subsídios, que custarão cortes em investimentos. Essa é a chantagem. Os tais subsídios são necessários? Talvez. Mas também se pode cortar do lucro dos empresários, dos impostos extorsivos, das verbas de propaganda, das torneiras jorrantes da corrupção, etc. Talvez nem fosse realmente necessário cortar investimentos. A questão passa a ser: quem, no final das contas, vai perder?

Mas dinheiro não é tudo. A sensação de que nada será como antes não tem preço. Oxalá não seja mera impressão. Oxalá ela crie raízes entre nós. Era hora de um pouco de civilização chegar por estas bandas.

7 comentários:

Gabriel João disse...

Fazia muito tempo que não vinha por aqui, o blog continua ótimo, parabéns!

ps:Senti falta de algum comentário sobre a PEC-37.

abraços.

Pedro Ivo.

Emy Mafra disse...

Isso tudo parece um verdadeiro "banho de água fria" sobre os brasileiros para despertar para a realidade. Um contexto de crise é certo. Só não consigo pensar como será a nova realidade depois disso tudo. É o que tenho me perguntado. É muita coisa pra se resolver... Por onde começar?

Tiago Damasceno disse...

Em relação às passagens de ônibus, fico indignado ao ouvir, direta ou indiretamente, a seguinte frase: É, vamos reduzir as tarifas mas isso afetará outro setor. ORA, quer dizer que a não redução asseguraria a eficácia e eficiência desse suposto outro setor?....ou é pura chantagem barata?
Outra coisa revoltante é a capacidade camaleônica de discursar sobre o quanto o governo “banca“ dos custos do transporte: 1/3 é pago pelos empresários, 1/3 é pago pelo poder público e 1/3 pelo usuário. Veja que informação mais simples e suave. Só há um erro: 2/3 são pagos pelo cidadão!

Anônimo disse...

Na mosca.
Kenneth

Yúdice Andrade disse...

Gabriel João, que também se assina Pedro Ivo (curioso isso), de fato não escrevi sobre a PEC 37. Sou contra, por convicção. E se não escrevi a respeito foi porque o tempo anda escasso, o que explica o blog estar sendo atualizado devagar este ano.
Pode ser que, mais à frente, eu escreva sobre o tema.

Já começou, Emy: pelo reconhecimento do cansaço, da raiva e da frustração. É como em outros processos emocionais. Começa pela raiva, depois por atitudes concretas. Então eu acredito, nessa linha de raciocínio, que as pessoas começarão a buscar mecanismos concretos de mudança. Isso repercutirá de maneira inédita nas eleições do próximo ano.

Chantagem, sem dúvida, Tiago. Transporte público é uma coisa curiosíssima. O exemplo de Belém é sintomático: os empresários vivem chorando miséria e clamando aos céus por terem uma vida tão miserável, mas ninguém larga o osso. Ora, se uma empresa dá prejuízo, o dono fecha e tenta outro ramo, não? Por que isso não ocorre no transporte, hein? Meditemos.

Certos cenários são bem previsíveis, Kenneth.

Anônimo disse...

Isso mesmo Yudice, os empresários estão caaldos, mas devemos estar atentos se eles estão repassando aos preços a respectiva desoneração fiscal que a presidenta concedeu a produtos da cesta básica e combustíveis, pois senão eles vão embolsar como lucro para si. Olho vivo neles também.

Yúdice Andrade disse...

Empresário "bom" não se mete em confusão, das 22h58. Fica quietinho no seu canto, só contando dinheirim. Enquanto as pessoas discursam, protestam e se estapeiam, eles estão lá, dando um jeito de continuar lucrando.
Ai de quem não prestar atenção neles.