quarta-feira, 23 de maio de 2012

O improvável aconteceu

O lado do bem comemora.
Foto: Renato Araújo
E não é que a Câmara dos Deputados votou mesmo, e ainda por cima aprovou, ontem, a PEC 438/2001, a famosa "PEC do trabalho escravo"? Fiquei passado, mas é verdade.

Tratando-se de proposta de emenda constitucional, há necessidade de duas votações em cada casa legislativo. O Senado já tinha aprovado e a própria Câmara, em primeiro turno, esta ocorrida em agosto de 2004 (e mesmo assim à custa de uma chacina, do contrário não teria passado). Foram necessários quase oito anos de malandragens para que a tchurma da criminalidade no campo, aboletada em mandatos políticos conseguidos graças a dinheiro e não por mérito ou interesse público, perdesse a quebra de braço intensificada nas últimas semanas.

A guerra, contudo, ainda não terminou, porque o texto da PEC foi alterado e isso exige nova tramitação perante o Senado, onde as forças do mal certamente farão as suas ofertas. Mas como devemos viver um dia de cada vez, pelo menos hoje temos o que comemorar. Inclusive porque ninguém precisou ser assassinado, desta vez.

A par disso, as declarações dos ruralistas deixam claro o que eles são e que interesses representam. Quando um deles diz que apenas 29 comparsas tiveram "coragem de assumir seu voto" em vez de ceder à pressão pública, mostra de uma só vez que a bancada ruralista conhece os anseios sociais mas não se importa com eles, e que se acovarda diante das consequências político-partidárias, ainda mais em se tratando de um ano eleitoral. Quando outro sentencia com um "perdemos", deixa claro qual é o jogo que jogam. Uma vergonha.

O que eu acho mais engraçado é que, no meio dessa cambada, há gente que abre a boca para dizer que não existe trabalho escravo no Brasil. Que tudo quanto se diz a esse respeito é deturpação das esquerdas e irresponsabilidade de certos setores da imprensa. Mas se eles estiverem certos, então não há motivos para preocupação, porque nesse caso a PEC nunca será aplicada! Simples assim. Se todos os agroempresários são honestos, bonzinhos e humanitários, nenhum explora seres humanos e nenhum perderá suas terras.
Lindo, não?

Fonte: http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/TRABALHO-E-PREVIDENCIA/418078-CAMARA-APROVA-PEC-DO-TRABALHO-ESCRAVO.html

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Para que você tenha uma ideia do meu interesse sobre o tema, existem atualmente 66 postagens neste blog classificadas sob o marcador "trabalho". Destas, nada menos do que 12 versam sobre trabalho escravo (agora, claro, 67 e 13):
 Dá para perceber minha indignação com esse delito nefando e minha satisfação de hoje.

4 comentários:

Adelino disse...

Todo mundo feliz pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo.
Eu acho triste que o Brasil precise reeditar a Lei Áurea sucessivas vezes para abolir a escravidão.

Anônimo disse...

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/1094447-apos-ser-multado-advogado-espalha-cartazes-avisando-de-radares-em-ribeirao-preto.shtml

Olha a revolta contra a "Indústria da multa".
Isso pode encaixar em algum tipo penal, uma vez que o indivíduo tá usando os recursos pra dificultar o cumprimento da atividade estatal?

Yúdice Andrade disse...

Mais triste ainda, Adelino, é pensar que, com essas e outras medidas, ainda assim a escravidão continuará e muita gente permanecerá apoiando!

Das 6h01, não consigo ver a atitude extremada do cidadão como obstrução a uma atividade estatal, porque a atividade, em si, não é multar infratores, e sim disciplinar o trânsito. Por conseguinte, se o sujeito avisa sobre o radar e os condutores reduzem a velocidade, altera-se uma dinâmica, sem dúvida, mas a atividade pública continua sendo realizada normalmente.
Naturalmente, não há crime algum a ser apurado. Há, sim, o indivíduo reagindo a práticas do poder público que entende injusta. Esse tipo de questionamento precisa ser feito.

Anônimo disse...

Caro Yúdice

Pois é, finalmente a PEC do Trabalho Escravo recebeu sua alforria na Câmara dos Deputados. Para você ter uma idéia, trabalhei intensamente nela ainda nos idos de 1995-1996, quando trabalhava na Câmara. Lá se foram 17 anos. Só na CCJ, o então deputado Abi-Ackel(lembram da figura?)a escravizou em suas gavetas por anos.

Evidentemente que a sua existência não interessa a uma grande parte do empresariado rural, que se locupleta do uso de mão de obra escrava, além de se beneficiar de financiamentos a juros mínimos e que quase nunca são pagos. Veja-se, ano a ano, a "rolagem" das dívidas dos produtores rurais.

Agora, é esperar mais alguns anos pela decisão do Senado.

Como dito acima, é uma vergonha que tenhamos que lutar pela edição de um artigo constitucional para coibir uma barbárie já extinta em quase todo o mundo.

Adianta ser a 6ª economia do mundo com um empresariado rural desses? Tirante o perdimento da área, algum proprietário das terras já foi preso? Claro que não.

Aí entra aquele ponto que sempre bato : a impunidade. Ponham alguns desses tubarões na cadeia e a coisa muda.

Kenneth