sexta-feira, 31 de maio de 2013

Faroeste caboclo: agora eu vi

No final das contas, não foi como eu pensava. João de Santo Cristo (hoje eu aprendi que Santo Cristo é sua cidade de procedência, não seu sobrenome), ao desembarcar na rodoviária de Brasília, não ficou com um sorriso bobo de criança nos lábios, mas sorriu, ainda dentro do ônibus. Um sorriso contido e algo duro, vindo de alguém que provavelmente não sorriu muitas vezes na vida. Contudo, reconheço que assim ficou mais plausível.

Faroeste caboclo já seria um bom filme se fosse apenas um filme. Se fosse apenas uma ideia do roteirista Marcos Bernstein (de novo explorando uma relação com Renato Russo, já que também roteirizou Somos tão jovens, trabalhando em ambos com o estreante Victor Atherino); ou uma ideia do cineasta René Sampaio (em seu primeiro longa).

Seria o tipo de filme que você, se aprecia o cinema nacional, não se arrependeria de pagar um ingresso, mas também não mudaria sua vida. Inevitável admitir, no entanto, que a força, aqui, reside mais uma vez na grife Renato Russo. É nossa compreensão de que estamos imersos no universo do trovador solitário que desperta emoções prévias, razão de uma legião de fãs estar ávida pela estreia, mesmo sem saber exatamente o que esperar. Mas isso não significa, de modo algum, que a obra não tenha méritos.

O maior desses méritos penso ser a decisão dos roteiristas de não tentar reproduzir a canção literalmente, sobretudo se foi declarado que o filme era uma livre criação sobre a ideia original. Assim, João nunca foi o terror das cercanias em que morava, nunca frequentou a escola nem roubou a caixinha da igreja. Não comeu as menininhas da cidade antes dos 12, não foi a Salvador, não conversou com nenhum boiadeiro. Tampouco começou a roubar sob a má influência dos boyzinhos da cidade, muito menos recebeu a visita de um senhor de alta classe com dinheiro na mão, que lhe teria feito uma proposta indecorosa e rejeitada, por princípios.

O mérito do roteiro é criar uma estória tão curta e seca quanto verdadeira, fazendo-nos pensar nos incontáveis Santos Cristos que existem por aí. Mais uma vez nos deparamos com o criminoso que foi forjado desde cedo, no ventre da brutalidade do mundo. O pai amoroso que lhe avisou "não quero filho ladrão!" foi morto na sua frente, por tiro de soldado da Polícia Militar, a partir de um motivo injustificável. Daí que o último ato do protagonista, antes de deixar sua terra, é matar esse policial. Ao contrário de uma crítica boba que li, não se trata de um crime inexplicável: é um acerto de contas com o passado e um aviso do que virá pela frente. Por essa morte, o garoto acaba no reformatório. Nada é mostrado sobre o que se passa ali, por isso não sabemos se aumentou o seu terror. Mas, com certeza, ele saiu de lá pronto para a guerra.

Em Brasília, o primo peruano Pablo vai guiá-lo no caminho do crime e fazê-lo ganhar algum dinheiro, que ele não torrou na zona da cidade porque, a essa altura, já estava apaixonado pela linda Maria Lúcia, no filme filha de um senador arrogante. Depressiva por algum motivo não revelado, a mocinha se envolve com o bandido mas, ao contrário do que possa parecer, ela não é uma porra louca sequiosa de perigos e ruínas. Ao contrário, ela é até metida a certinha e por isso rejeita o traficante playboy Jeremias, porque se recusa a namorar um traficante. João vai mentir para ela a respeito.

O roteiro costura, assim, um romance sincero, entre duas pessoas perdidas, querendo uma chance de felicidade, que acaba por se transformar numa estória de sacrifício pessoal. A pouco expressiva Maria Lúcia da canção se converte em uma heroína.

Outro mérito do roteiro é criar um contexto adequado para situações que eu, p. ex., jamais entendi só de ouvir a canção. Nunca ficou claro para mim por que Maria Lúcia se casava com Jeremias, se amava Santo Cristo (e por isso ela o defende no confronto final), e muito menos por que ela "se arrependeu depois e morreu junto com João, seu protetor". No filme, tudo se encaixa perfeitamente.

Uma cena de grande beleza plástica.
O roteiro também foi sensato ao evitar a sandice de um final no qual o duelo entre os dois marginais virava um folguedo popular. Delírio da canção. No filme, não há multidão nenhuma, nem bandeirinhas, sorveteiro e muito menos gente da TV filmando tudo por ali. Existem apenas as pessoas perdidas de antes, cujo desfecho é aquele que a canção já informava em 1987 (disco "Que país é este").

Isto faz de Faroeste caboclo um filme triste e solitário, o que pode incomodar aqueles que insistem na bobagem dos finais felizes. Mas é tudo coerente. Num mundo repleto de absurdos, de jovens alucinados, policiais corruptos e de tanto preconceito de classe e cor, o drama de João de Santo Cristo não é apenas provável: estou certo de que ele é real.

***

Em tempo, todos os atores merecem elogios por suas atuações, notadamente Fabrício Boliveira, que tem a oportunidade de se firmar num mercado onde atores negros têm poucas oportunidades. Se escapar do erro de Lázaro Ramos, ao fazer um inesperado papel de galã pegador numa novela, pode impor o seu valor e, quem sabe, chegar ao posto de protagonista na TV. Mulher protagonista já teve, mas era a Taís Araújo, que sempre se casava com um branco rico. A dramaturgia ainda está devendo à sociedade um protagonista negro que não seja motorista, secretário, nem mesmo o amigo do branco rico.

Adendo em 7.6.2013:
Excelente a crítica publicada no Diário do Pará  exceto pela referência ao retardado mental do Tarantino, mas virou moda buscar essa relação. Com todo o restante, concordo sem ressalvas. E destaco que Arthur Dapieve escreveu uma biografia consistente de Renato Russo, sobre a qual escrevi esta postagem. A "pequena biografia" a que alude a crítica em apreço deve ser uma versão resumida.

2 comentários:

Emy Mafra disse...

Adorei!!! Estou super ansiosa para assistir... Mas só depois dessa maratona de provas. Por enquanto, fico só na vontade... E uma curiosidade: no filme ele aparece como um "bandido destemido e temido no Distrito Federal"?

Yúdice Andrade disse...

Não aparece, Emy. A canção o retrata como um criminoso muito mais perigoso, essencialmente um traficante, mas que também realiza crimes de encomenda, deduzindo-se que tenha virado um matador de aluguel.
No filme, ele é quase um heroi romântico. Não passa de um traficante que vende um bagulho melhor do que o do traficante que até então reinava no pedaço e que conta com o apoio de um policial corrupto. Como ainda por cima eles querem a mesma mulher, em síntese é uma briga entre dois caras.