sábado, 25 de janeiro de 2014

Pro recalque passar longe

Qualquer pessoa que me conheça um pouco provavelmente ficará incrédula ante o conteúdo desta postagem, mas este ainda é um país livre, então vou escrever.

O grande sucesso musical do momento, no Brasil, atende pelo título "Beijinho no ombro", da funkeira Valesca Popozuda. Diante disso, você deve esperar que eu prossiga falando de como a cultura brasileira está no fundo do poço, de como traímos os grandes nomes de nossa música, de como as pessoas hoje se permitem emburrecer e coisa e tals. Todavia, contrariando quaisquer expectativas, quero registrar um elogio aos responsáveis por mais essa bobagem comercialoide sem valor cultural algum.

Classificada como sub-celebridade (é o que se pode dizer de alguém que construiu sua carreira sobre a bunda e chama seus admiradores de "popofãs"), Valesca investiu para ganhar atenção da mídia. Sua anterior incursão musical de repercussão fora o pagodinho "Mama", gravado com o também funkeiro Mr. Catra.

Mesmo não me impressionando mais com a capacidade humana de se degradar, "Mama" me surpreendeu por levar às últimas consequências a apelação sexual. Com uma letra explícita e agressiva (que me deixou repugnado com a alusão a três cuspidinhas e sem reação diante da afirmativa de que "um copo d'água e uma mamada não se nega a ninguém"), tinha o propósito único de escandalizar para chamar a atenção e, com isso, capitalizar shows, entrevistas, etc. Não sei se deu certo. Mas Valesca já chegou ao estágio de querer uma imagem mais, digamos assim, respeitável (o próximo passo é se tornar evangélica e renegar o passado). A nova estratégia, portanto, foi persistir no estilo, porém com um novo, digamos assim, padrão de qualidade. E aí nasceu "Beijinho no ombro".

A letra possui inacreditáveis 16 versos e 124 palavras (127, se incluirmos o ótimo "rala, sua mandada!"), o dobro de qualquer sertanejo, o triplo de qualquer pagode e aproximadamente 85 vezes mais do que qualquer axé (que em geral se resume a uma sucessão de grunhidos ininteligíveis, permeados por palavras como "cabeça", "ombro", "joelho" e "bundinha").

A premissa da letra parece ter saído do parachoque de algum caminhão ("Desejo a todas inimigas vida longa/ Pra que elas vejam a cada dia mais nossa vitória"), e a despeito de alguns recursos tolos, como invocar o santo nome de Deus para atrair simpatias, e buscar o jargão corrente da mídia e das redes sociais ("keep calm e alguma coisa" e "piriguete"), fiquei impressionado com a eficiência com que a moça mostra que está sem problemas de autoestima. Segura de si, petulante mesmo, ela faz a única coisa que poderia uma artista do seu tipo: assumir-se como é, gostar disso e mandar os desafetos para aquele lugar que ela, com efeito bem mais eficaz do que em "Mama", não diz. Até ri com a pouco sutil provocação "late mais alto que daqui eu não te escuto".

Acredito que o popoprojeto, que conta com um bem produzido vídeo tosco (aqui no YouTube), foi bem sucedido porque conseguiu transformar a expressão "beijinho no ombro" em um símbolo de superioridade e de menosprezo que todo mundo poderá entender (se não tiver chegado hoje ao planeta). Os anos passam e todo mundo continua lembrando que "não é brinquedo, não" era o bordão da d. Jura, assim como "expor a figura na medina" e "queimar no mármore do inferno" eram referências que se ouvia por toda parte.

Posso estar me antecipando, mas acho que o beijinho no ombro ("pro recalque passar longe"), uma espécie de exorcismo da inveja, a qual estamos sujeitos cotidianamente, no mundo real e no cada vez mais onipresente mundo virtual, também vai se consagrar. Ou talvez eu esteja superestimando os efeitos do popofunk só porque, após ver o vídeo (sim, eu o vi, por culpa das meninas do blog Te dou um dado?), imediatamente me pus a pensar em situações a que eu poderia reagir mandando um beijinho no ombro. Desnecessário dizer que, rapidamente, pensei em muitas...

Só falta agora a dinâmica Valesca aprender a cantar e reduzir um pouco aquele sotaque carioca horroroso. As duas coisas juntas, aliadas a sua voz esganiçada, fizeram com que ela não pronunciasse bem os primeiros versos e gerasse inclusive um erro de concordância (você escuta "pra que elas veja"). Mas pode ser que ela precise justamente dessas características para compor o seu personagem. Afinal, hoje em dia, imagem é tudo.

Para concluir, tenho certeza de que, se Valesca lesse esta "resenha", me mandaria um beijinho no ombro. Que é o mesmo que eu mandarei a quem me disser que eu não deveria ter produzido esta postagem. Mas você já podia esperar por isso, não é?

5 comentários:

Anônimo disse...

Este ótimo artigo me leva a uma conclusão e a uma desconfiança : você está em vias de defenestrar o José Ramos Tinhorão de seu pedestal. E a desconfiança é que estou achando que o teu doutorado é na área musical, e não penal.

De qualquer maneira, jamais diria que você não deveria ter produzido esta postagem. Fico muito feliz em adicionar aos meus parcos conhecimentos a informação de que a bunduda tem uns 2 kg de silicone . Na bunda, of course.

Dizem que quando vai à praia, gasta uns 3 tubos de protetor solar, só na bunda.

Bom domingo

Kenneth

Yúdice Andrade disse...

Kenneth, fui obrigado a perguntar ao Oráculo Google quem era o Tinhorão, porque realmente nunca ouvira falar. Mas não pretendo ocupar-lhe o posto, não. Meus conhecimento musicais pouco vão além do gostar ou deixar de gostar de algo.
Folgo em saber que a postagem foi útil! Aguardemos para ver se alguém fará a defesa do axé...
Abraços.

Anônimo disse...

Espero que um certo casal ali das bandas da Antonio Baena não se acovarde!!!

Kenneth

Anônimo disse...

Em defesa do poeta Bell Marques devo informar que o mesmo não tem próteses de silicone, não faz aplicações de botox e nem implante capilar ( daí o uso constantes das bandanas).
Quanto ao estilo musical ninguém pode negar que ele único e inigualável no uso das vogais.
Sds aos amigos.
Ramon.

axtmann disse...

Li somente hoje!!!
gostei e assino conjuntamente o arrazoado.
To be AND not to be!!!!

lou axtmann!