quarta-feira, 23 de junho de 2010

O novo cenário do trabalho (II)

O episódio de ontem e outros dos quais tomei conhecimento recentemente me provocam uma inquietação. Não é a primeira vez que assaltantes se referem à atividade criminosa como o trabalho deles. Um amigo que, em companhia de duas outras pessoas, sofreu um sequestro-relâmpago há poucos dias, relatou que os criminosos aprovaram a obediência das vítimas e, em reconhecimento, permitiram-se algumas gentilezas, tais como devolver os documentos e pedir desculpas "por qualquer coisa". Sabe como é, esse é o nosso trabalho...
As pessoas, em geral, tomam essas frases como simples deboche dos criminosos. Mas eu conto com outra possibilidade, por sinal, bem mais grave: a de eles realmente acreditarem nisso!
São tantas as loucuras neste mundo, que há muito tempo perdemos referenciais que antes nos pareciam até óbvios sobre certo e errado, bem ou mal. Assim como jovens ditos "bem nascidos" não veem problema algum em queimar seres humanos que dormem na rua, a título de brincadeira, ou espancar mulheres que supõem ser prostitutas; assim como grupos se reúnem para trocar socos na rua e encaram isso como lazer; assim como molecotes se aproveitam dos bailinhos de debutantes para disputar quem toma o maior porre; há pessoas que, num cenário de total falta de oportunidades, de descrédito generalizado da sociedade neles e vice-versa, podem realmente ser levados a crer que o crime é uma carreira, dentre as tantas disponíveis. Sabem que não é uma atividade normal, mas é uma atividade possível. E numa sociedade que cada vez mais se afunda na competitividade e mede o sucesso pessoal por critérios quantitativos, monetários, o importante é o quanto você lucra, sem interessar qual a origem do dinheiro.
E aqui chegamos a uma diferença essencial: esse pensamento está entranhado nas classes altas e baixas. Só que, nas altas, o sujeito pratica sofisticadas operações fraudulentas, sonegação tributária, evasão de divisas; envolve-se em negociatas governamentais, corrupção, tráfico de influência e diversos crimes de colarinho branco. Além de explorar o trabalho alheio, sem a devida contraprestação. Ficam riquíssimos às custas de todo tipo de chicana, mas são homenageados naquelas festinhas onde se pode comprar um título de qualquer coisa do ano, em outdoors, em colunas sociais e em seus meios de convivência. São o crème de la crème da sociedade, mesmo que se saiba como chegaram ali.
Já nos níveis de baixo, a mesmíssima filosofia é empregada, só que se materializa em condutas acessíveis a indivíduos grosseiros, de baixa ou nenhuma instrução e sem acesso a recursos diversos. São crimes violentos, sangrentos, que chamam muito mais a atenção. Para estes, é feita a censura que deveria ser feita também aos primeiros.
No final, conscientes desses dois pesos e duas medidas, o sujeito se defende como pode e como acha que deve. Aí ele vai à luta. E como em qualquer guerra, a bomba explode em cima de quem não tem nada ou quase nada a ver com a história.

5 comentários:

Ana Miranda disse...

Uma única coisa a ser dita: Você disse tudo!!!

Yúdice Andrade disse...

Eu mesmo acho que só disse o começo da história. Espero que os comentaristas me ajudem a melhorar as ideias.

Luiza Duarte disse...

Bem que eu gostaria de ajudar, mas acho que também não tenho o que acrescentar. Tenho certeza que algumas pessoas julgam que este é um "trabalho", assim como poucos vêem algo de errado com os outros crimes que o senhor comentou. O descrédito é tão grande, a impunidade é tão recompensadora, que se perdeu mesmo a noção do que é razoável.
Além disso, mesmo quando o "creme de la creme" sai da esfera dos crimes usualmente cometidos por eles e descambam para assassinato, estupro e pedofilia, o tratamento é diferente.
O deputado que recentemente foi condenado por crime de pedofilia, por exemplo, frequenta a mesma academia de ginástica que eu. Certa vez, ele pediu para usar um aparelho junto comigo e o que era uma prática usual no lugar me levou a uma profunda reflexão: ali estava um homem acusado de pedofilia (ainda não tinha sido julgado), um crime odioso; ele estava sendo simpático e gentil comigo, como parecia ser com todos, e eu agi da mesma forma.
Fiquei pensando se eu agiria assim com um homem pobre que tivesse cometido um crime bem menos violento, como um assalto à mão armada, sem maiores consequências. Será que eu seria gentil com ele também? Ou me incomodaria pelo simples fato de ele estar no mesmo ambiente que eu?
Fiquei pensando sobre a solidariedade entre os membros da mesma classe social. Todos ali sabíamos que aquele homem podia ter acabado com a infância e a inocência de uma criança; que podia ter arruinado seu futuro, por conta das consequências psicológicas graves. Ainda assim, ele estava no mesmo ambiente que eu e eu não via a menor possibilidade de ele ser insultado ou tratado mal por alguém e eu nem gostaria que fosse, a despeito de desejar que, sendo ele culpado, cumpra a pena merecida.
Por outro lado, não tenho essa complacência com uma situação semelhante: incomoda-me que membros de organizações criminosas circulem livremente por festas na periferia e ainda sejam admirados por grande parte dos frequentadores, pelo seu "poder" e “sucesso" material.
Então, a censura só ocorre nas classes mais altas. Os assassinos e assaltantes podem não comprar prêmios e espaços em outdoors, mas recebem honrarias correspondentes, nos espaços em que frequentam.
Odiei constatar que sou injusta e que, ao menos e algumas situações, posso ignorar as condições sociais e econômicas que levam ao crime e à violência e ser mais crítica e severa com um homem pobre do que com um abastado.

Artur Dias disse...

Yúdice, aproveito o comentário da Luíza Duarte para lembrar o dia em que conversei com um pequeno empresário que dizia estar em diálogo com o ex-deputado - o pedófilo- porque ele achava que apoiando o dito cujo, garantiria mais facilmente contratos de prestação de serviços com o setor público. Eu relatei a ele os horrores cometidos pelo abusador, insistindo na necessidade urgente de uma punição dura e exemplar, para que não se confirmasse o dito popular de que "rico não vai pra cadeia". Ele tentou defender o abusador, e ainda me sugeriu ir a uma reunião com o canalha. Eu lhe disse que talvez não conseguisse ficar frente a frente com tal pessoa, sem atracar os dedos em seu pescoço até deixá-lo roxo. O meu interlocutor sorriu amarelo, mas segui firme em sua convicção. É por isso que concordo com sua análise, que coincide com as reflexões que faço constantemente. Há uma disposição muito grande das pessoas em violar normas, e isso se dá em diferentes graus. Vai desde o ciclista que anda na calçada, ou na contramão, avançando sinais, passando por aqueles que compram trabalhos de faculdade, até os grandes fraudadores dos cofres públicos. Uma sociedade que nasce fundamentada na violência e na falta de solidariedade, na destruição dos bens naturais, na opressão dos diferentes, tem dificuldades para superar uma idéia torta do ser humano e da vida em comum.

Luiza Duarte disse...

Artur, também achava que teria a mesma reação que você. Talvez hoje tivesse, depois de ter acesso à sentença e aos relatos repugnantes. À época, era só uma denúncia, que eu pouco sabia a respeito.
De qualquer forma, tirar proveito da situação, como o caso que você relatou, estava fora de cogitação. Só não senti necessidade de destratá-lo ou de perguntar o que se passava na minha cabeça que era se ele não tinha vergonha de sair na rua.
De qualquer forma, fiquei intrigada ao constatar que nós, classe média, também vivemos no meio de criminosos e contraventores de todas as espécies, em festas, academias e restaurantes, tal como os bandidos das classes mais baixas desfilam impunemente pela periferia. Só que, via de regra, só nos chocamos com estes últimos.
Só posso concluir que isso acontece em razão de uma certa solidariedade entre as classes sociais. É quando paramos pra pensar que os "monstros" estão perto de nós e poderiam ser alguém do nosso convívio. Tal solidariedade é percebida, por exemplo, quando morreu um membro da classe média.
Nos deslizamentos em Angra dos Reis, no início do ano, morreram algumas dezenas de pessoas, mas toda a comoção foi em torno da filha dos donos da pousada. As pessoas identificam nela alguém que poderia ser sua filha, irmã. Percebem que não estão encasteladas, atrás dos vidros e grades. São obrigadas à constatar que os mundos de pobres e ricos não são paralelos; eles se cruzam, a todo instante.