terça-feira, 29 de junho de 2010

Salve geral


Lúcia se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Tornou-se professora de piano. Enfrenta com ares depressivos as perdas em sua vida, com mais paciência do que seu filho Rafael, 18 anos, revoltado com a perda das comodidades financeiras. Uma noite, Rafael mata uma pessoa e acaba condenado a uma pena (por sinal módica) de 8 anos de reclusão. Vai parar numa penitenciária do Estado de São Paulo, dominada pelo Primeiro Comando da Capital, e acaba enredado nos eventos traumáticos do dia das mães de 2006, quando a maior mobilização criminosa do país não apenas deflagrou rebeliões em mais de 20 prisões quanto gerou atentados a delegacias de polícia, quarteis de bombeiros e contra civis, notadamente através do incêndio de ônibus. Nesse meio tempo, Lúcia vai se transformando: movida pelo único objetivo de resgatar seu filho, ingressa em atividades criminosas que rejeita moralmente, mas que executa com a convicção dos que possuem objetivos claramente delimitados.
Esta é a minha sinopse do filme Salve geral (dirigido por Sérgio Rezende, 2009), a que assisti ontem. Trata-se de uma obra interessante, mostrando uma Andréa Beltrão sofrida, mas forte, em mais uma convincente atuação. Contudo, algo me incomodou durante toda a trama: tudo parece muito limpo, asséptico, organizado. Os diálogos parecem muito corretos, enxutos. O filme não passa verossimilhança, sendo todavia uma boa reconstrução artística da realidade. Uma versão romanceada, como fica claro, sobretudo em cenas como aquela em que Lúcia, numa delegacia limpíssima, vazia e silenciosa, é atendida por um policial que pode ser considerado atencioso e que chama o jovem preso em flagrante de homicídio de "menino". "Traz o menino aqui". Fala sério.
Alguns dos líderes do PCC, também, são articulados demais, falam corretamente e organizam ideias num nível sofisticado. Sabemos que existe gente assim nesse meio, como Marcola. Mas não se pode generalizar a exceção. O discurso de Pedrão, anunciando os planos do PCC e advertindo os demais detentos que participar não é uma escolha, soa altamente artificial. A carga ideológica é compreensível, mas os termos não. Um juiz (federal?) sendo assassinado na rua, enquanto dirige sozinho um carro oficial, após se expor na rua sem qualquer segurança, também não me soou plausível.
Vendo o filme, porém, um adjetivo se fixou em minha mente: didático. Salve geral é didático para comunicar o que pretende. Ele mostra como um jovem de classe média (ainda que empobrecido), e portanto considerado pelo ideário coletivo como bem nascido, bem educado e cheio de oportunidades, se transforma em um criminoso num único e brevíssimo momento de irreflexão e sangue quente, o que talvez seja a mensagem mais profunda que me ficou, pois mostra como, de fato, qualquer pessoa, sem exceção, pode vir a tornar-se autora de um delito grotesco.
Mostra como a corretíssima e comedida Lúcia passa a representante do "partido", tornando-se emissária de recados que podem levar pessoas à morte, introduzindo celulares na prisão, participando de atividades para financiar a organização criminosa e até se apaixonando por um dos líderes do movimento (este um dos momentos mais artificiais da trama, eis que o tal líder, o "Professor", culto e bem falante, apaixona-se também).
Mostra um sistema contaminado até a raiz, com corrupção aguda e com bizarros acertos entre a polícia e os criminosos, estes últimos ajudando o sistema a "mostrar serviço" e aparecer com uma falsa imagem de eficiência perante a opinião pública.
Não há muito o que dizer sobre Salve geral. Assista. Ele funciona como um modo de apresentar, às pessoas que jamais pensaram no assunto, um pouco do trágico universo que é o sistema penitenciário. E pode conduzir a reflexões sobre questões cruciais para a sobrevivência da sociedade brasileira. Mas o filme não faz estas reflexões. Nós é que precisamos ter a sensibilidade para chegar até elas.
Quem sabe, em sala de aula.

2 comentários:

Waldréa disse...

Penso 2 vezes antes de assistir um filme como esse! Não pela qualidade, mas por que as imagens perduram em minha mente... E eu não consigo esquecer que eu estou aqui bem(muito bem) e eque eles continuam lá :x

Yúdice Andrade disse...

Compreendo a resistência, Waldréa. Mas, curiosamente, esse filme não tem a capacidade de provocar todo esse efeito emocional no público. Ele é muito asséptico.