quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tigre, tigre

Dia desses topei na Internet, casualmente, com uma nota sobre o livro Tigre, tigre (no Brasil, editado pela Rocco), no qual a americana Margaux Fragoso narra a própria experiência de 15 anos de abuso sexual. Minha atenção foi imediatamente despertada e não tardei a comprar o livro. Agora que acabei de lê-lo, recomendo-o para todos aqueles que sentem a necessidade de entender melhor como age um pedófilo, inclusive para proteger os próprios filhos.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que o hoje banalizado conceito de pedofilia precisa ser posto em termos. Até onde vejo — particularmente em minha experiência profissional, que me coloca diante de inúmeras ações penais envolvendo crimes sexuais contra crianças —, boa parte dessas agressões (quiçá a maioria, mas não quero generalizar, porque isso implicaria em ignorar variáveis de tempo, espaço, temperatura e pressão) acontece porque a criança está à mercê do agressor: é vulnerável e não possui, no momento, quem a defenda. São os delitos de ocasião, muitas vezes precipitado pelo consumo de álcool, mas sem dúvida influenciados, também, por uma mentalidade largamente disseminada, que coloca a mulher num papel de satisfação obrigatória dos desejos do homem, notadamente no campo sexual.
Um estuprador desse tipo não é, entretanto, necessariamente um pedófilo. Refiro-me à pedofilia como uma modalidade de parafilia, que exige uma compreensão mais técnica. Dito isto, é preciso destacar que o drama retratado em Tigre, tigre é muito diferente dos casos de violência sexual que encontramos nos noticiários, cotidianamente. O agressor ali desvelado, Peter Curren, é um pedófilo autêntico, isto é, um homem que efetivamente sente desejo sexual por crianças (oito anos é a "idade mais bonita da vida de uma menina"), em prejuízo de seus relacionamentos com mulheres adultas, embora no começo de sua relação com Margaux ele convivesse maritalmente com uma mulher. Com o passar dos anos, porém, a relação com a namorada se deteriora e ele passa a viver exclusivamente para a menina, àquela altura também envolvida com ele até o âmago.
Peter não é um abusador serial, que caça vítimas na rua. Está convencido de que entre ele e Margaux existe um amor verdadeiro e que um dia estarão casados. Mas sua mente perturbada parece pregar-lhe uma peça pois, à medida que a menina cresce, é perceptível a sua saudade de quando era uma criança. Provam-no as fotos que mantém na parede, de Margaux e outras crianças aos 7, 8 anos, mas nenhuma dela já adolescente. A essa altura, contudo, ele mesmo já está dominado por um relacionamento visceral, doentio, que envolve crises de ciúme com direito a agressões físicas. Peter estapeia Margaux várias vezes e ela sempre aceita isso. Fiquei impressionado com a passagem em que ela, referindo-se a um tapa, diz ter concluído que, cada vez mais, Peter parecia agir como se ela fosse sua esposa. Um reflexo do casamento trágico de seus pais.
Os pais de Margaux têm um enorme destaque na narrativa, porque sem dúvida são em parte responsáveis pelo drama. Este é um dos aspectos mais importantes do livro: mostrar como uma família desestruturada produz a criança perfeita para ser seduzida por um predador.
A mãe de Margaux e sua irmã foram violentadas quando tinham 6 e 8 anos, respectivamente. A irmã, mais velha, foi estuprada e, nela, o agressor introduziu os dedos na vagina até que sangrasse. Este episódio é apontado como a gênese do transtorno mental que ela desenvolverá mais tarde. Não nos é dado um diagnóstico, mas a doença é séria o bastante para que o governo a considere como não funcional, aposentando-a por invalidez e dando, todos os meses, um cheque para ela e outro para sua filha. Sua atitude é de negação e isso explicará como ela simplesmente não percebeu o que Peter fazia com Margaux, embora mãe e filha estivessem dentro da casa dele. Outrossim, sua submissão a um marido que a desprezava e agredia também contribuiu para que a menina não aprendesse a se defender. A reprodução do abuso sexual nas gerações seguintes é uma das preocupações que o livro pretende destacar.
Por sua vez, o pai de Margaux sofre de narcisismo exacerbado, oriundo de uma violenta falta de autoestima. Ele passa o tempo todo glorificando as muitas virtudes que acredita possuir e menosprezando as pessoas cujo pecado, no fundo, é não serem como ele mesmo. Mas isso passando ao largo de ser um assalariado de baixa instrução e alcoólatra (ainda que não nos níveis mais graves do alcoolismo). Quando a narrativa começa, uma Margaux de 7 anos já percebe que o pai nunca demonstra carinho pela mãe e sequer a chama pelo nome. Em seus arroubos de fúria quase diários, o pai convence Margaux de que ela é a culpada pela doença mental da mãe e aniquila toda a sua autoestima, fragilidade que será potencializada pelos anos de bullying que a garota sofre na escola.
Mas o cerne da questão é mesmo Peter Curren. Ele tem 51 anos quando conhece Margaux, de 7, o que dispara em nós imediata aversão pelo sujeito. No entanto, é preciso examiná-lo com calma. Em sua miserável trajetória de vida, estão os elementos que explicam a sua condição de abusador. Fruto de um lar destruído, viveu pelas ruas e chegou a se prostituir, permitindo-se sodomizar aos 10 anos. Curiosamente, sua mente registrou o episódio como um estupro, do qual ele se considerava vítima. Assim como também era vítima das duas dançarinas que o obrigaram a fazer sexo oral nelas, gerando um trauma nunca superado. Ele faz sexo oral em Margaux mas, quando ela se torna adolescente e muda de cheiro, não consegue mais.
Em seus últimos cinco anos de vida, Peter é um homem doente, pobre (mora de favor na casa da ex-namorada), desdentado e completamente desesperançado, pois sabe que Margaux cresceu e está saindo com jovens de sua idade, o que ele não tenta impedir senão através de muxoxos. É uma criatura triste, patética. Nem por isso, todavia, nos apiedamos dele, já que seu histórico depõe contra: consta que ele teria abusado das filhas, razão pela qual sua esposa se separou dele e o impediu de ter contato com as meninas. No período de dois anos que esteve separado de Margaux, foi preso e respondeu a um processo por "conduta imprópria" com uma de suas filhas adotivas. Durante um certo tempo, antes disso, ele adotou algumas meninas, sempre meninas, na mais bela idade de suas vidas.
Peter Curren se matou aos 66 anos, pulando de um penhasco, o que nos é revelado logo no primeiro parágrafo do livro. Não se trata de contar o final da história, mas talvez de um estímulo para que não desistamos da leitura antes do fim. Quando ele morre, deixando para Margaux seu único bem (um carro velho), ela, agora adulta e namorando um rapaz de sua idade, sente-se vazia. Afinal, como ela mesma diz, após tantos anos de convívio com Peter, não sabia mais onde ele terminava e ela começava. Muito tempo se passou até que ela superasse (quanto possível superar) e chegasse ao estágio de se casar com um bom homem e se tornar mãe. E ao se tornar mãe, desejando romper o ciclo de abusos, silêncios e sofrimentos, decidiu contar sua história.

Em tempo:
Encontrei no blog Mulher 7x7, vinculado à revista Época, uma entrevista com Margaux Fragoso. É longa, mas recomendo enfaticamente que seja lida na íntegra, porque permite uma compreensão melhor do livro, mostra os preconceitos que a autora sofreu após se expor e dá novas informações úteis a nós, que somos pais.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Censura prévia ao cinema

Eu jamais ouvira falar de A serbian film, que no Brasil ganhou o sub-título Terror sem limites, do diretor Srdjan Spasojevic (2010). E tomo conhecimento através da notícia de que o Poder Judiciário do Rio de Janeiro proibiu sua exibição pública, incorrendo assim no primeiro caso de censura prévia sobre obra cinematográfica na vigência da Constituição de 1988. O precedente era o filme Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard, mas isso ocorreu em 1985.
Antes da proibição judicial, o filme já fora eliminado do Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro (RioFan), por decisão da Caixa Econômica Federal, patrocinadora do evento.
Para piorar, a decisão judicial foi tomada atendendo a um requerimento de partido político e, pior ainda, do DEM. Políticos e magistrados não viram a obra, mas impediram a sua exibição a um público que, convenhamos, deve saber onde está se metendo. Não estamos falando de transmissão na TV aberta, mas da possibilidade de os cidadãos decidirem se querer ou não encarar o misto de terror com ficção científica.
E por que tanto estardalhaço? Eis a sinopse:

Já em fim de carreira, ator de cinema pornográfico concorda em participar de um "filme de arte", mas é levado a realizar uma produção exploratória, com abuso infantil e necrofilia.

Segundo a decisão da Desembargadora Gilda Maria Dias Carrapatoso, "não se pode admitir e permitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive, utilizando recém-natos sejam levadas ao grande público, vez que podem provocar reações adversas, às vezes, em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade. Pontue-se que o d. Ministério Público manifestou-se pela não liberação da exibição da película que constituiria uma afronta à Constituição Federal/88 e ao Estatuto da Criança e do Adolescente."

A confusão está armada, porque já começaram as reações. No final das contas, nós sabemos onde isso termina. Eu, p. ex., estou com a impressão de que o filme é dessas catarses de diretores malucos, que confundem necessidade de tratamento psiquiátrico com arte. Mas que fiquei curioso, lá isso fiquei.
 
Saiba mais: http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_noticia=36956&id_filme=11658&aba=cinenews

Fé em Deus e pé na tábua

No meu primeiro semestre do curso de Direito, houve um dia em que alguns alunos pegaram uma carona com o professor de Filosofia, o conhecidíssimo José Carlos Castro. Naquela época, eu considerava difícil entabular uma conversa com ele, pois sua mente funcionava num outro nível, emendando um assunto no outro e abordando aspectos inusitados. Ele ia de um tema a outro tão facilmente, e sem qualquer aviso, que muitas vezes eu demorava a compreender a continuidade do diálogo. Naquela manhã, sem mais nem menos, quando deixávamos o campus da UFPA, ele começou a falar sobre aspectos religiosos. Aos poucos, percebi que se referia aos nomes dos simplórios estabelecimentos comerciais ao longo da Av. Bernardo Sayão, na qual predominavam nomes religiosos.
Foi Castro quem me chamou a atenção, pela primeira vez, que eu me lembre, para a relação entre pobreza e religiosidade. E hoje, ao procurar um endereço usando esta mão na roda que é o Google Maps, deparei-me por acaso com o bairro da Terra Firme, ali onde foi erguida a favela "Riacho Doce". Ao tempo em que Edmilson Rodrigues foi prefeito, houve a macrodrenagem da Bacia do Tucunduba e parte daquela área foi urbanizada, ganhando arruamento, asfalto, meio-fio e pontes.
As ruas foram batizadas com nítidas referências bíblicas: Salvação, Fé em Deus, Apocalipse, Profetas, Redenção, Arrebatamento, Cristo Rei, Rosa de Saron. Não se engane: Ômega, no contexto, com certeza tem a ver com Deus ser o alfa e o ômega. O carrão da Chevrolet é que não poderia ser.
Pelo tom, eu diria que é uma região evangélica, porque os evangélicos são mais aferrados que os católicos nessa história de arrebatamento e apocalipse.
Eu me pergunto se o referencial religioso onipresente é uma manifestação de esperança ou se o povo acha que tem a obrigação de se lembrar, todo santo dia, de certas coisas, mesmo que não sejam belas. Mas não especularei a respeito. Ainda preciso me informar melhor sobre o efeito das condições econômicas sobre a religiosidade popular.

Para viver com dignidade

"É inimaginável, para a maioria das pessoas, a dantesca realidade dos transexuais, que vivem atormentados dentro de uma anatomia física que, psicologicamente, não lhes pertence. É sensato que a Justiça cerre os olhos para o drama daqueles que, em busca da felicidade e paz de espírito, têm a coragem de extirpar os próprios órgãos sexuais? É justo que essas pessoas, que chegaram ao extremo em busca de seus propósitos, tenham negado o direito à mudança de prenome e gênero sexual em seus assentos registrários, cerceando-lhe o direito de viver com dignidade? Certamente não."

Desembargador Luciano Sabóia Rinaldi de Carvalho,
do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, ao julgar recurso e autorizar que
um transexual mude não apenas o nome, mas o gênero, em seu registro civil.

Esta decisão abre um precedente importante e mostra que a percepção social sobre os gêneros está mudando, inexoravelmente, ainda que muitos ainda se levantem em contrário, notadamente segmentos religiosos.

Sabe lá quem passou

O último exame de ordem teve suas provas de 1ª fase aplicadas no dia 17 de julho, há uma semana, portanto. Foi bem avaliado por medalhões em concursos jurídicos, como Luiz Flávio Gomes e Antônio Carlos Marcato. O primeiro considerou a prova "tecnicamente mais justa", porque elaborada sem as chamadas pegadinhas. O segundo elogiou a redução de vinte questões e a distribuição do conteúdo. Ambos concordam que quem estudou tem boas condições de passar.
Para ver o resultado da 1ª fase, a página de acompanhamento da FGV agora só permite a consulta a usuários cadastrados. Mas mesmo com o cadastro houve quem não conseguisse a informação.

Enquanto isso, segue no Senado a tramitação do projeto de lei que pretende acabar com o exame de Ordem.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Castração química pelo mundo

Impotência induzida
Castração química para pedófilo volta a agitar o mundo

Por João Ozorio de Melo

Neste domingo, entrou em vigor na Coreia do Sul uma lei que autoriza a castração química de pedófilos condenados. A lei dá aos juízes o poder de determinar o procedimento médico para punir pessoas que cometam abuso sexual contra menores de 16 anos, como anunciaram os sites The imperfect parent e MSNBC. O efeito dessa impotência induzida pode durar até 15 anos.
Também neste domingo, na Rússia, o comissário de Direito das Crianças, Pavel Astakhov, assessor direto do presidente Dmitri Medvedev, pediu a aprovação de lei semelhante no país. Ele defendeu a castração, depois que, na sexta-feira, um estuprador condenado, armado de uma faca, invadiu um acampamento de crianças e estuprou sete meninas. Na cidade de Amur Oblast, um homem estuprou uma menina de sete anos e moradores cercam a sua casa, pedindo justiça.
Na Coreia do Sul, o Ministério da Justiça informou que o país é o primeiro da Ásia a adotar esse tipo de punição, apesar de protestos de grupos de direitos humanos. Nos Estados Unidos, nove estados têm feito "experimentos com castração química"(1), segundo a Wikipédia. A Califórnia introduziu a previsão em seu Código Penal, em 1996, que autoriza a castração química em casos de abusos sexuais graves de menores de 13 anos, se o condenado obter liberdade condicional e se for reincidente. O estuprador não pode recusar o procedimento médico. A Flórida aprovou lei semelhante. Mas, a substância base do produto químico usado nunca foi aprovada pelo FDA ( U.S. Food and Drug Administration).
Outros países também experimentam o uso de drogas que induzem a impotência sexual. No Reino Unido, o cientista da computação Alan Turing, aceitou a castração química como pena alternativa à prisão(2), em 1992. Na Alemanha, os médicos usam um antiandrógeno, que inibe a atividade do hormônio sexual masculino, para o tratamento de parafilia (anormalidade ou perversão sexual). A Polônia, em 2009, e a Argentina, em 2010, aprovaram leis que autorizam a castração química. Israel já aplicou a medida uma vez como pena alternativa. A pena também é aplicada no Canadá e está em fase de estudos na França e na Espanha, segundo a Wikipédia.
Só neste ano, no Brasil, a Câmara dos Deputados recebeu dois projetos de lei para punir com castração química os condenados por pedofilia e estupro. Uma das propostas foi devolvida ao seu autor, Sandes Júnior (PP-GO), por desrespeitar dispositivo da Constituição Federal que prevê: não haverá penas cruéis (artigo 5º, inciso XLVII, alínea e). A outra também não foi pra frente. No Senado, o Projeto de Lei no 552/2007 foi arquivado no começo deste ano.
Em São Paulo, em março, a Assembleia Legislativa de São Paulo recebeu um projeto de lei do deputado Rafael Silva (PDT) que propõe a castração química de pedófilos(3). O parlamentar propõe o uso de hormônios como medida terapêutica e temporária, de forma obrigatória. A prescrição médica caberia ao corpo clínico designado pela Secretaria de Estado da Saúde. Como em outros países, é considerado um projeto de lei controvertido. E também deve ser analisado do ponto de vista constitucional, porque levanta temas como dignidade humana, tratamento degradante e vedação de penas cruéis.
Em junho, a ConJur publicou artigo em que o psiquiatra forense Roberto Moscatello se opõe à castração química. Segundo ele, "do ponto de vista psiquiátrico-forense na área criminal, a pedofilia deve ser considerada uma perturbação de saúde mental e consequente semi-imputabilidade, já que o indivíduo era capaz de entender o caráter criminoso do fato e era parcialmente ou incapaz de determinar-se de acordo com esse entendimento (perda do controle dos impulsos ou vontade). Quando associada ao alcoolismo, demência senil ou psicoses (esquizofrenia, por ex.) deve ser considerada a inimputabilidade. Em consequência, é imposta medida de segurança detentiva ( internação em Hospital de Custódia) ou restritiva (tratamento ambulatorial) por tempo indeterminado e que demonstra ser o procedimento mais humano, terapêutico, eficaz e de prevenção social".

João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Minhas impressões:
(1) É sintomático que um país como os Estados Unidos, com um sistema punitivo tão rigoroso, nunca tenha implementado a castração química. Observe-se que o único precedente não chegou a se consumar, por razões médicas. A prudência deve presidir um debate tão difícil. Observe-se, ainda, que a medida prevista na legislação da Califórnia não é generalizada: limita-se aos criminosos condenados que ganhem liberdade condicional (portanto, a finalidade é essencialmente preventiva) e sejam reincidentes (ou seja, já deram mostras de não conter as inclinações criminosas).

(2) Devido à vedação às penas crueis, imposta pela Constituição de 1988, a aceitação do réu à castração química é o modo mais simples de implementar a medida, sobretudo em países como o Brasil.

(3) Direito Penal e processo penal são matérias de competência legislativa privativa da União. Não cabe a nenhum Estado legislar a respeito. Uma proposição do gênero, feita por um deputado estadual, tem mais efeitos midiáticos do que práticos, mas é evidentemente inconstitucional, ainda mais por impor uma medida obrigatória.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O fim de uma era


Esta bela foto, datada de hoje, eterniza o último pouso da nave Atlantis e, com ele, a última operação de um ônibus espacial, espécie de aeronave desenvolvida com a principal característica de ser reutilizável, permitindo várias missões e reduzindo os custos astronômicos (acredite, isto não foi um trocadilho intencional) que estas representam.
Não apenas os custos, mas também preocupações com segurança e o fato de os ônibus espaciais serem planejados para permanecer na órbita da Terra, sendo portanto incapazes de viagens para destinos mais distantes, explicam o abandono desse tipo de operação. Novos foguetes serão adotados para levar cargas e seres humanos ao espaço. A previsão é de que em 2015 seja apresentado um novo foguete propulsor e, em 2025, um novo veículo tripulado.
O programa começou a ser desenvolvido pelos Estados Unidos em 1972 e teve na Enterprise o seu protótipo. Mas a Enterprise não tinha motores nem carregava tripulação; voava acoplada a um Boeing 747 apenas para que se demonstrasse sua capacidade de voar e de pousar como um planador. A primeira missão espacial tripulada em ônibus espacial foi lançada em 12.4.1981, com a Columbia, que colocou em órbita dois satélites de comunicação comerciais.
Em 1983, de 4 a 9 de abril, voou pela primeira vez a Challenger, que no entanto entrou para a História de forma trágica, ao explodir 73 segundos após ser lançada para sua décima missão, em 28.1.1986, matando os sete tripulantes e provocando enorme revisão de todo o Programa Ônibus Espacial. A segunda tragédia ocorreu em 1º.2.2003, com a Columbia, que se desintegrou na re-entrada na atmosfera terrestre, matando os sete tripulantes.
Entre 30 de agosto e 5 de setembro de 1984, a Discovery cumpriu sua primeira missão. Foi ela que colocou em órbita o famoso supertelescópio Hubble, em 25.4.1990.
Em 1985 foi a estreia da Atlantis, cujo voo inaugural durou de 3 a 7 de outubro e que foi a primeira espaçonave a se acoplar a uma estação espacial (a Mir), de 27 de junho a 7 de julho de 1995. Depois dela veio a Endeavour, de 7 a 16 de maio de 1992, que pôs em órbita os dois primeiros módulos da Estação Especial Internacional, resultante de um consórcio entre quinze países.

Saiba mais: na Uol, um especial sobre ônibus espaciais.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Legislação honorífica

As últimas sete leis brasileiras não mudarão a vida de ninguém. São daquele tipo que se destina a prestar honrarias a certas pessoas e só. Algo que faz parte da História e dos valores de uma nação, sem dúvida, mesmo sem efeitos práticos. Delas, destaco duas:
  • Lei 12.446, de 15.7.2011, que inscreve o nome do paraense Júlio Cézar Ribeiro de Souza no Livro dos Herois da Pátria. Os familiares do homenageado, nossos conterrâneos, devem estar satisfeitos.
  • Lei 12.449, de 15.7.2011, que declara o ator Paulo Autran patrono do teatro brasileiro. Talvez meu irmão goste disso, mas realmente se trata de uma medida meramente laudatória ao ilustre ator carioca, falecido em 2007.
Este tem sido um ano de realizações legislativas de pouco relevo, à exceção de leis como a que alterou as prisões cautelares.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O discurso do rei

Terminei de ler O discurso do rei — Como um homem salvou a monarquia britânica, livro de Mark Logue e Peter Conradi, que baseou o filme homônimo, merecidamente laureado com o principal Oscar de 2011. E que me foi presenteado pela querida Bluma Moreira.
O livro é o produto das pesquisas realizadas pelo neto de Lionel Logue, terapeuta da fala do rei, em seu grande acervo pessoal. Dadas as relações familiares, identifica-se um certo ar laudatório no texto (observe o sub-título pernóstico), o que não deixa de ser curioso, à medida em que os autores ponderam, nas linhas finais, que o tom aparentemente bajulatório com que Logue se referia ao rei em seus escritos espelhava o temperamento de uma época, não sendo mero aulicismo.

A obra não corresponde ao roteiro do filme. Publicar roteiros é muito comum hoje em dia. O filme é apenas um recorte muito reduzido da trajetória dos dois protagonistas. Aliás, trata-se de uma grande licença poética, porque os fatos narrados na versão cinematográfica são muito diferentes da realidade.
Em ambas as versões, mostra-se que a gagueira do Príncipe Albert começou na infância e tinha relação com sua enorme timidez e dificuldade de relacionamento com o pai, a quem temia. Mas o livro é bem mais claro quanto às diferenças entre os dois irmãos reais: enquanto o herdeiro do trono tinha uma forte veia boêmia e um monte de amantes, tornando-se o Rei Edward VIII, que reinou por menos de um ano e abdicou ao trono por conta de seu amor por uma americana divorciada, Bertie cumpriu toda a liturgia da preparação de um membro da Família Real. Tanto que seu pai, ainda vivo, já o preferia e estava ciente de que seria um rei muito melhor.
Quem vê o filme pensa que Lionel Logue era um ator decadente, confundido com um falso médico (ele é tomado por um charlatão), que usou métodos heterodoxos para tratar o então Duque de York, o qual se esforçou muito para fazer um discurso específico, tornando-se rei e anunciando a II Guerra Mundial. Vencido o desafio, todos foram felizes e Lionel foi agraciado com um título de Membro da Ordem Vitoriana (legenda ao final da projeção).
A realidade foi bem outra. O livro mostra que o Rei George VI teve um total de 82 consultas com Logue, preparando-se para muitas dezenas de discursos. O que ele pronuncia por causa da guerra aparece antes da metade do livro. Em nenhum momento Logue é tratado como charlatão. Com a ajuda do rei, consegue a regularização da profissão de terapeuta da fala, categoria que, aparentemente, se dava bem com a classe médica. A cada grande discurso do rei, Logue tinha seu nome mencionado nos jornais e recebia cartas de admiradores. Foi feito Membro da Ordem Vitoriana por conta de sua amizade com o soberano, não como recompensa por um fato específico. Embora muito discreto, a partir de certo momento todos sabiam quem era o seu mais ilustre paciente.
Se você apreciou também a atuação de Helena Bonham-Carter, no papel de Rainha Elizabeth, lamente saber de seu pouco destaque no livro, embora fique claro que ela apoiava e admirava o marido e, sem sua colaboração, ele talvez não fosse tão longe.
Por fim, os métodos de Logue não eram assim tão heterodoxos. Basicamente, ele ensinou o então duque a respirar corretamente, assumindo o controle do diafragma, bem como a controlar sua ansiedade — o que, sabemos, interfere sobre a autoconfiança do indivíduo. O sucesso adveio da enorme disciplina do paciente ilustre.
O livro é muito interessante, mas devo admitir que, lá pela metade, eu já me desviara do seu assunto central. Até me aborrecia quando os autores voltavam a falar dos encontros entre Logue e o rei, para revisar e ensaiar o discurso. Era sempre o mesmo procedimento. A partir da metade, o livro mais chama a atenção (pelo menos de alguém que, como eu, gosta de História), pela narrativa que faz sobre a Inglaterra durante a II Guerra Mundial. Isso sim me prendeu, a ponto de me emocionar quando, enfim, torna-se certa a derrota nazista. Eu me emocionei pelo fato em si, já que o livro não é escrito em tom emotivo.
Enfim, O discurso do rei é uma obra cativante, que merece ser vista e lida.

Mais um inominável

Não buscarei uma palavra que sintetize o episódio do homem de 42 anos que foi agredido, a ponto de ter decepada parte de sua orelha direita, porque abraçou o filho de 18 e, com isso, foram confundidos com um casal gay. O caso aconteceu este final de semana no Município paulista de São João da Boa Vista e revela como o ódio pode estar entranhado no âmago das pessoas, já que os agressores abordaram as vítimas, escutaram suas explicações, afastaram-se e retornaram depois, com uma arma cortante, para consumar a violência.
Além disso, mutilações costumam expressar o desejo do agressor de desconstruir a vítima. Fazer alguém perder suas características físicas pode ser interpretado como um processo de despersonalização. É preciso um nível de maldade bem desenvolvido para se chegar a tanto. No caso, especulo que a mensagem exposta nessa agressão foi que a vítima deveria deixar de ser o que se pensou que fosse.
Mundinho, este nosso...
Do episódio se extrai outra lição: o homem mutilado, ao ser entrevistado, não lamenta por si; lamenta o tempo todo pelo filho. Ele perdeu quase toda a orelha, mas o filho perdeu o lazer e isso o amargura. Ou seja, há sentimentos e sentimentos, valores e valores, pessoas e pessoas.
Mundinho, não?

Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/07/nao-pode-nem-abracar-o-filho-diz-homem-que-teve-orelha-cortada.html

segunda-feira, 18 de julho de 2011

É soda!

Falando deste jeito, até eu fico receoso de colocar refrigerante na boca, alguma outra vez em minha vida! Mas nunca me senti irritadiço ou sonolento uma hora após encarar a água preta do imperialismo ou qualquer de seus primos. Não sei se a matéria está um pouco exagerada. Pelo sim, pelo não, assim que puder vou tomar uma Coca para relaxar...

Abraços

Alô, Lins Silva! Um abraço ao octagésimo seguidor do blog!
Abraços também para os grandes amigos Orlando Figueiredo e Marcelo Santos, em cujas companhias passei agradabilíssimas horas deste final de semana, eles que são leitores quietinhos do blog. Ao lado deles, tive a satisfação de ver, ontem, a seleção do Neymar se afundando. Claro que a satisfação foi só minha mas, como sempre digo, a graça do futebol está em tirar onda com a cara dos derrotados. Além do mais, a gente perde os amigos, mas não a piada!
Uma boa semana para todos.

Meu protesto

Para conter um pouco a marcha lenta das últimas semanas, importo do meu outro blog uma crítica contra o comportamento dos políticos do Sudeste, em relação à divisão do Pará.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Condicional aos 12

Por causa de um delito que expressa uma irresponsabilidade bem adolescente, uma menina de 12 anos foi processada nos Estados Unidos e acabou condenada à liberdade condicional.
Naquele país, o fato não deve causar maior repercussão, chamando a atenção, talvez, mais por desvelar o risco de responsabilização criminal por atos relacionados às redes sociais. Mas os brasileiros certamente reagirão, de imediato, comparando a legislação de lá com a de cá. Aqui, o fato dificilmente teria qualquer consequência superior a uma eventual ação de indenização por danos morais. Bem entendido, haveria crime em tese (na verdade, ato infracional), mas não é costume do brasileiro acionar criminalmente um menor, exceto nos casos de crimes realmente graves. É o elemento cultural do Direito. Aqui, seria mais provável que a vítima e seus familiares amargassem calados a humilhação sofrida. Lá, o cidadão, consciente de que existem mecanismos mais intensos de reação e que eles funcionam, com alguma agilidade, tem uma tendência maior a reclamar.
Isto nos leva à questão: é a lei brasileira que deve ser mudada, para que as pessoas comecem a cobrar seus direitos, ou são as pessoas que precisam mudar, para que a legislação as acompanhe?

Raciocínio de criança

Veja este vídeo aqui.

Como já dizia Gonzaguinha, "eu fico com a pureza da resposta das crianças".

Só falta uma coisa

Esta vítima que você vê aí ao lado — sim, é um ser humano de verdade, embora pareça uma boneca de plástico de tão artificial e tenha esse olhar de quem já perdeu a infância — é Eden Woods, tem 6 anos e teve a sua "aposentadoria" anunciada.
Só se aposenta quem trabalha, certo? O "trabalho" da pequena era participar de concursos de beleza infantil. Foram mais de 300. Se supusermos que ela não participou de nenhum no primeiro ano de vida, quando ainda não podia atender aos comandos de seus algozes, dividiríamos 300 por 5 e teríamos uma média de 60 concursos por ano ou 5 por mês.
Não é difícil concluir que a mãe e empresária, Micki Wood, não possui outra atividade profissional além de empresariar a filha. Ela não teria tempo para exercer qualquer trabalho e dar conta da rotina de viagens, cuidados corporais, aulas de postura e etiqueta e tudo o mais que gira em torno do deprimente mundo dos concursos de beleza. Ainda mais considerando que a modelo tem lá as suas limitações naturais, próprias da idade.
Uma das razões pelas quais sou avesso ao povo americano é a sua "cultura" de sucesso. E um sucesso diretamente relacionado a poder aquisitivo (o que já chegou por estas bandas também, é claro). Você nasce para ser lindo, rico e, mais recentemente, uma celebridade. Trabalhar não é necessário. E já que esse é um objetivo de vida, deve começar o mais cedo possível. A TV por assinatura transmite um programa sobre esses concursos de beleza infantil. Vi apenas a chamada, que durou não mais do que alguns segundos, o suficiente para me enojar a um tal ponto que não me dispus a assistir, apesar de, aparentemente, a produção ser crítica. Nem me recordo o nome do programa.
Enfim, a pequena Eden (que nome, hein? será que ela é o paraíso da mãe?) se livrou da rotina de concursos. Mas permanecerá, claro, na carreira artística. Só falta agora botar essa mãe na cadeia. E o pai, se houver um.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O que é demais já não é o bastante

Amiga que mora em um edifício na Av. Castelo Branco me contou que, ontem à noite, os moradores se assustaram com um estrondo. Ocorrera um acidente em frente ao prédio: alguém perdera o controle do veículo e atingira outro carro, que estava estacionado junto ao meio fio. A mãe dessa minha amiga, que desceu para conferir, relatou os piores aspectos do acontecido.
Ao chegar na rua, ela se deparou com uns molecotes, bêbados, pulando em cima do carro, um Fusion preto. O pirralho motorista gritava que queria uma perda total, pois assim "o papai vai me dar um branco".


Um brinquedinho que não sai por menos de 83.660 reais.
E que mata.
Obviamente, o jovem brasileiro causador do acidente não estava nem um pouco impressionado com o risco que correra de ferir a si mesmo, um de seus colegas ou algum transeunte. Nem estava minimamente preocupado com o prejuízo causado ao dono do carro avariado. Pensar nesses detalhes deve ser coisa de gente idiota. Felizmente, não havia nenhum agente de trânsito ou policial no local, senão seria necessário colocá-lo em seu devido lugar. Afinal de contas, o papai... Sabe como é.
Você já entendeu onde quero chegar. Mas nem tenho ânimo para tecer críticas. Deixo ao bom senso o papel de pensar nelas.

Grandes enigmas da humanidade: dentistas

Por qual razão os dentistas, durante o atendimento — quando você está lá, com a boca escancarada —, insistem em conversar com o paciente, inclusive fazendo perguntas? Até entendo que a intenção seja nos relaxar, mas eu e outras pessoas que conheço ficamos ainda mais agoniados por não podermos responder.
— Como vai a família?
— Aaaaaaaaah...
— Aproveitando as férias?
— Hmmmmm...
No mínimo esquisito.

Outros grandes enigmas:
Atualização em 13.9.2015:

Hoje me deparei com um vídeo que me pareceu fidedigno. Veja aqui.

Ética na propaganda

Pelo perfil de internauta que imagino você possui, deduzo que já deve ter ao menos ouvido falar do CONAR: Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária.
A entidade é uma organização não governamental, sustentada pelos principais veículos publicitários brasileiros e seus filiados (anunciantes, agências e veículos), que surgiu da ameaça de que o setor fosse regulamentado, em fins da década de 1970, por uma lei que impunha censura prévia à publicidade, que só poderia ser veiculada se autorizada pelo governo, o que trazia o risco não apenas de patrulhamento ideológico, mas de burocracia e corrupção. Para obstar o surgimento da lei, o setor optou por se autorregulamentar e criou o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, adotado até hoje. Posteriormente, foi criado o CONAR, que fiscaliza se a publicidade está respeitando os seguintes princípios:

* todo anúncio deve ser honesto e verdadeiro e respeitar as leis do país
* deve ser preparado com o devido senso de responsabilidade social, evitando acentuar diferenciações sociais
* deve ter presente a responsabilidade da cadeia de produção junto ao consumidor
* deve respeitar o princípio da leal concorrência
* deve respeitar a atividade publicitária e não desmerecer a confiança do público nos serviços que a publicidade presta.

Considero uma iniciativa excelente o meio publicitário ter decidido aparar suas arestas entre os próprios interessados, reconhecendo autoridade para que um órgão não oficial imponha regras que todos devem observar, no interesse da sociedade. Eu não sabia, entretanto, que o CONAR funciona quase como uma espécie de tribunal, julgando as demandas trazidas pelos próprios publicitários, pelas empresas e pelo cidadão comum. Nunca me ocorrera que qualquer pessoa podia formular a sua reclamação e ser atendida.
Lendo esta matéria do Consultor Jurídico, você percebe como o sistema funciona, limitando a liberdade absoluta de expressão e estabelecendo comandos éticos para o setor. Veja a variedade das reclamações: carros com vidro muito escuro, cadeirinha de bebê na posição incorreta, estímulo ao endividamento, suposto apelo infantil em publicidade de cerveja, desconformidade entre o anúncio e o produto ou serviço, etc. As soluções também são as mais variadas: advertência, modificação da publicidade ou até mesmo a vedação de sua divulgação. E funciona: no ano passado, p. ex., foram instaurados 376 processos, que resultaram na sustação de 221 anúncios. Pelo visto, aqui o corporativismo não é uma doença.
Vale a pena visitar o sítio institucional (de onde tirei as informações aqui expostas) e conhecer os casos analisados e as decisões proferidas.
Se você quiser se queixar de algum anúncio, acesse a página do CONAR e clique em "reclamações". Você encontrará um pequeno formulário, que lhe permitirá processar o seu pedido. Gostei e já quero experimentar. Infelizmente, como é raro eu assistir comerciais, não sei quando ocorrerá. Mas no dia em que eu me queixar, conto para vocês.

Regime penitenciário menos gravoso: repercussão geral

O Supremo Tribunal Federal reconheceu a Repercussão Geral em casos de possibilidade de o condenado cumprir a pena em regime carcerário menos gravoso quando o Estado não fornecer vaga para o cumprimento no regime originalmente estabelecido na decisão penal. O Recurso Extraordinário foi levado ao Supremo pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul.

O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, manifestou-se pelo reconhecimento de Repercussão Geral da questão constitucional. Como a discussão alcança grande número de interessados, ele acredita ser necessária a manifestação da corre para a pacificação da matéria.
O órgão questiona acórdão do Tribunal de Justiça gaúcho, que substituiu o semiaberto pela pena privativa de liberdade em prisão domiciliar enquanto não houver vaga em estabelecimento prisional que atenda aos requisitos da Lei de Execuções Penais. De acordo com o MP-RS, essa impossibilidade “não autoriza, por si só, o Poder Judiciário a conceder o benefício da prisão domiciliar fora das hipóteses contempladas em lei, devendo o recorrido cumprir pena da mesma forma que cumprem os demais apenados em idêntica situação, sob pena de afronta ao princípio da legalidade”.
Os requisitos estabelecidos legalmente para a concessão da prisão domiciliar estão previstos no artigo 117 da LEP. De acordo com o MP-RS, eles “visam justamente a atender situações particulares que demandam a aplicação de tal regime prisional, com o que não pode ser concedido de forma indiscriminada a todo e qualquer apenado, como tem sido feito pela 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça gaúcho”. Com informações da Assessoria de Comunicação do STF.

Embora sejam questões distintas, penso que a nova legislação sobre prisões cautelares, que é regida pela lógica do menor encarceramento, pode influenciar a tomada de uma decisão favorável à possibilidade de aplicar regime penitenciário menos gravoso, nos casos de insuficiência de vagas.

Notícia original: http://www.conjur.com.br/2011-jul-12/supremo-reconhece-repercussao-geral-regime-penal-gravoso

terça-feira, 12 de julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Só pode ser piada

Não me atreverei a falar da Islândia, país do qual só sei que é frio pra caramba, mas em termos de Brasil a ideia de condicionar a venda de cigarros a receita médica me soa como uma grande piada.
Vou esperar para saber o que o parlamento islandês decidirá sobre esse curioso projeto de lei. Mas, desde já, manifesto minha enorme simpatia à audácia do povo islandês. Isso que é não ceder à vala comum das coisas que são de um jeito simplesmente porque sempre foram daquele jeito.

A fita branca

Muitas foram as recomendações que recebi para ver o filme A fita branca (Das weisse Band, dir. Michael Haneke, 2009), uma coprodução alemã, francesa, austríaca e italiana, que naquele ano venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Imagino que as pessoas que me sugeriram se inspiraram em postagens de cunho humanista que publiquei aqui no blog. Este final de semana, finalmente, pude conhecer essa curiosa obra, que retrata um vilarejo anônimo alemão, às vésperas da I Guerra Mundial.
Como se pode imaginar, o ambiente é essencialmente rural e gira em torno da produção agrícola do barão, único empregador das redondezas. A religião, no caso evangélica, domina cada suspiro de todo e qualquer ser humano que habite por ali. Um modelo social rígido, em que todos possuem seus papeis bem definidos e nenhum falta é perdoada, por menor que seja. Uma sociedade absolutamente opressiva, que o diretor usa como metáfora para, segundo as críticas que li, tentar explicar como foi possível que a sociedade alemã aceitasse o nazismo e todo o horror que provocou.
Em síntese, acontecimentos estranhos tomam conta do vilarejo: um atentado contra o médico local, um incêndio, dois ataques violentíssimos contra crianças. O culpado jamais é identificado, embora ao final algumas explicações convenientes (para os habitantes) sejam propostas. Pessoalmente, tenho a impressão de que a teoria do professor (não contarei qual é; veja o filme), que não chega ao conhecimento geral, está mais perto da verdade. A certa altura, eu já encarava com desconfiança o grupinho sobre o qual recai a suspeita do professor.
Mas o pano de fundo tem a ver com a forma como a comunidade trata as suas crianças, notadamente o pastor, maior autoridade espiritual daquelas bandas. A fita branca que nomeia o filme (e que você pode ver no cartaz) é amarrada às vestes de seus filhos para lenbrá-los da pureza que deveriam ter, mas perderam devido a algum pecado cometido (se é que foi cometido). 
Fiquei impressionado com a cena em que ele, com um estoicismo de doer, avisa aos filhos que, por uma falta cometida, será obrigado a puni-los com dez varadas, a fim de que, com o tempo, não se perca o respeito entre todos os membros da família. Mas o castigo será aplicado na noite seguinte, para que eles tenham tempo de refletir sobre seus atos. As crianças são dispensadas sem jantar e beijam a mão (imagem à direita) que as espancará em breve. Fez-me pensar na metodologia da punição que Michel Foucault descreve em seu Vigiar e punir.
Outra cena interessantíssima é a da conversa do pastor com seu filho (o garoto do cartaz), na qual o religioso conta a história (estória?) de um outro menino da mesma idade, que um dia começou a ficar ensimesmado, fisicamente cansado, num quadro que evoluiu para úlceras pelo corpo e perda da sanidade, até um óbito miserável. O motivo, você deve ter deduzido, foi ter tocado em si mesmo, "lá onde Deus levantou as barreiras do pudor". Acho que nunca esquecerei essa.
Num filme que une drama, crime e algum suspense, Haneke parece interessado em teorizar sobre a maldade humana, tomando um microcosmo como parâmetro para analisar o mais trágico episódio da História recente. Afinal, os jovens ali mostrados comporão a sociedade que legitimará o nazismo, duas décadas mais tarde. Mas não é uma análise simples. Confesso que, quando o filme terminou, fiquei sem entender exatamente a mensagem. Senti-me meio burro, admito. Por isso fui atrás de algumas críticas, para compreender melhor o que me fora oferecido, mas nenhuma me satisfez. Assim, recomendo o filme (já vale pelo prazer de escutar os personagens falando alemão), mas avisando que você precisará tirar as suas próprias conclusões sobre a alma humana, suas características próprias e as influências que sofre do meio.

***

O cineasta e roteirista austríaco Michael Haneke (62), cuja formação acadêmica reúne Psicologia, Filosofia e teatro, é conhecido por seus filmes sobre temáticas violentas, que retratam a humanidade com extremo pessimismo. Venceu a Palma de Ouro de melhor direção em 2005, com Caché. No Brasil, seu filme mais conhecido é A professora de piano (2001), uma obra não comercial com uma boa carga erótica.

As montanhas de Buda

Bastou uma breve indicação, feita por uma pessoa que estava lendo a obra, para eu me interessar por As montanhas de Buda, do escritor madrilenho Javier Moro.
O livro retrata duas histórias paralelas, mas absolutamente interligadas. Os capítulos ímpares são dedicados ao drama das monjas tibetanas Kinsom e Yandol, presas pelo governo chinês nos anos 1990 por terem cometido o crime de gritar, em público, "Viva o Tibete livre!". Já os capítulos ímpares retratam a vida de Tenzin Gyatso, o décimo quarto dalai-lama, desde os exames feitos pelos religiosos para encontrar o paradeiro da reencarnação de Buda até a sua condição atual, no exílio, que já dura décadas.
O modelo educacional implantado no Brasil é etnocêntrico e excludente, de modo que nossas escolas pouco ensinam sobre o Oriente. Moro nos faz entender um pouco sobre o Tibete — o país das neves, o teto do mundo —, um lugar peculiaríssimo, onde a religião domina a vida das pessoas a ponto de subsistir a unidade entre os poderes religioso e temporal, onde o dalai-lama — Oceano de Sabedoria ou simplesmente a Presença — é o Deus Rei e comanda tanto a religião quanto o governo. Mas ao contrário da ideia que usualmente possuímos sobre governos teocráticos, no Tibete a preocupação principal é com a espiritualidade, com a busca pela iluminação, com a compreensão de que precisamos ajudar também os outros a alcançar a plenitude. Comandados por uma ética que respeita toda forma de vida, os tibetanos são adeptos da não-violência, postura da qual Tenzin Gyatso não abriu mão e, ainda muito jovem, sofrendo imensamente a dor de seu povo, partiu para o exílio vendo a destruição de seu país, no processo de "Revolução Cultural" promovido pela China a partir do final da década de 1950, revolução que na verdade pode ser resumida em uma única palavra: genocídio.
Claro que houve resistência violenta, através dos khampas, um povo guerreiro das montanhas. Mas a convicção religiosa centrada na paz prevaleceu e tornou o Tibete um alvo facílimo de dominar e de manter até hoje. Florestas dizimadas, templos arrasados, vedação ao exercício religioso, patrulhamento ideológico, cerceamento total das liberdades individuais, prisões, isolamento, torturas alucinantes. O cenário é de horror. É por isso que passam Kinsom e Yandol.

Sua Santidade,
o 14º Dalai-Lama
Moro, entretanto, conta a história sem apelar para dramaticidades. Você se aflige com o que lê porque as informações são dolorosas. O que os policiais fazem com as monjas usando cassetetes elétricos, p. ex. Qualquer alma minimamente sensível se condoi de ler isso. Mas Moro não parece interessado em horrorizar ninguém, apenas informar, numa linguagem que é mais jornalística do que romanceada. Especulo que ele assim agiu por assimilar um pouco da filosofia budista, tendo inclusive entrevistado pessoalmente os personagens dessa odisseia real, dentre eles o dalai-lama. É que, para o budismo, o bem e o mal que nos acontecem são ingredientes necessários em nosso caminho para a iluminação, de modo que não podemos nos agitar demais com o primeiro, nem sofrer demais com o segundo. Cada pessoa tem sua cota dos dois e precisa de serenidade para retirar, de ambos, o necessário para o seu crescimento espiritual.
Não é uma leitura fria, entretanto. Após acompanhar a trajetória do grupo de refugiados, a pé pelas montanhas do Tibete rumo ao Nepal, dormindo ao relento sob temperaturas torturantemente baixas, você não tem como passar indiferente pelo desfecho de suas histórias. A cena do encontro das monjas com o dalai-lama é emocionante.
As montanhas de Buda é uma leitura bonita e útil, não apenas por seus componentes espirituais, mas também pelos políticos, lembrando-nos que o mundo não pode mais aceitar o imperalismo que escraviza povos para subjugá-los literalmente até a alma ou, se não, dizimá-los.

***

Formado em História e Antropologia, Javier Moro (56) tem-se notabilizado por sua literatura engajada, que desnuda tragédias pelo mundo afora, que conhece por meio de viagens para conhecer, in loco, as tramas e seus protagonistas. Também atua no cinema e na televisão, tendo vivido seis anos nos Estados Unidos. Seu primeiro livro, Caminhos de liberdade, foi sobre Chico Mendes. Uma de suas obras mais conhecidas é O sári vermelho.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A saga de um brasileiro estudante

Uma reportagem bacana da Uol mostra como é difícil para um estudante carente cursar universidade no Brasil, no caso a USP. Se, por um lado, a USP tem um nível de exigência superior a outras instituições, por outro oferece oportunidades que poucas dão, p. ex. o cursinho preparatório. Aliás, a alusão ao cursinho me deixou comovido, porque mostra o protagonista desta história trabalhando como voluntário, pois quer fazer por outros o que um dia fizeram por ele. Sem o apoio desse cursinho (e muita força de vontade, é óbvio), ele não teria logrado aprovação em três importantes universidades.
Desejo toda a sorte do mundo ao Júnior, de São Paulo. E a outros que, como ele, sabem que fora da educação, não há salvação.

Justa advertência

"O nosso sistema tem uma robustez no trato estatístico que a OAB não tem nem a pretensão de ter. Porque ela avalia o candidato, não a instituição. Não devemos misturar os dois procedimentos."
Fernando Haddad, ministro da Educação,
explicando por que a lista da OAB, sobre instituições que não aprovaram um só aluno, não serve de parâmetro para avaliar a qualidade de cursos de Direito. Metodologia, meus caros. O ministro tem razão.

De volta à Terra Média

Nem só de Game of thrones vivem os aficcionados por grandes estórias de aventuras. Aquele que pode ser considerado o maior expoente do gênero está prestes a voltar às telonas: J. R. R. Tolkien, desta feita com O hobbit, livro que iniciou a saga que tem em O senhor dos aneis o seu apogeu. Esta semana, Peter Jackson, diretor dos filmes, atiçou a curiosidade dos fãs, ao colocar em seu perfil no Facebook a primeira foto dos anões que dominam a primeira trama da Terra Média.


Na imagem, vemos os atores Jed Brophy, Adam Brown e Mark Hadlow caracterizados como Nori, Ori e Dori, respectivamente. Lembre (ou saiba, caso não conheça a mitologia tolkeniana), que anões da mesma família costumava ter nomes parecidos.
Para quem não sabe, O hobbit narra uma grande e inesperada aventura vivida por Bilbo Bolseiro, não por vontade própria (porque hobbits só querem saber de boa vida, comida, canções e de fumar uma ervinha suspeita), mas empurrado pelo mago cinzento, Gandalf. Bilbo acaba tomando gosto por viver situações audaciosas e é em uma delas que encontra o perigosíssimo Um Anel, ficando com ele após derrotar Gollum numa disputa de adivinhações. O novo filme destacará essa passagem da saga, cuja continuidade foi mostrada na famosa trilogia.
Desde que O retorno do rei foi exibido, em 2003, a New Line (produtora responsável) tem a intenção de lançar O hobbit, mas parece que existe uma cabeça de burro no projeto, alimentada por interesses econômicos. Uma hora eram os herdeiros de Tolkien, outra hora era o próprio Peter Jackson. Todo mundo queria mais dinheiro dos lucros de O senhor dos aneis, para avançar no novo projeto. Após anos de confusões, parece que agora a coisa vai. Contudo, ainda não se conhece uma previsão de estreia do filme.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O oposto da causa própria

O mesmo Congresso Nacional que se mostra favorável a licitações para obras colossais, como estádios para a Copa do Mundo de 2014 e aeroportos, às vezes surpreende. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou, ontem, um projeto de lei que aumenta em um terço as penas de crimes praticados por agentes políticos, relacionados ao exercício de suas funções.
A medida alcança os chefes do Poder Executivo em todos os níveis federativos, os membros dos Poderes Legislativo e Judiciário, dos tribunais de contas e do Ministério Público, além de chefes de missões diplomáticas permanentes, desde que tenham o poder de ordenar despesas. O projeto de lei foi originalmente proposto em 2005 pelo já falecido senador Jefferson Péres, que tinha fama de honesto e diligente em defesa da coisa pública.
Como o Código Penal já prevê majoração de um terço da pena para os casos de crimes contra a Administração Pública perpetrados por ocupantes de cargo em comissão ou de direção ou de assessoramento, o relator do projeto declarou ser absurdo que as penas previstas para os subordinados sejam menores do que as aplicáveis aos titulares dos cargos mais altos. Convenhamos, ele tem razão.
No entanto, em que pese possamos achar ótimo que as penas sejam aumentadas, vale lembrar, uma vez mais, que não é a dureza das sanções que tem o poder de frear a criminalidade. O Brasil, como todo dia se diz, é a pátria da impunidade. De nada adianta aumentar penas se os grandes canalhas da República não são alcançados pelo Direito Penal, porque escapam às investigações. Quando investigados, não são denunciados. Quando denunciados, são excluídos da ação penal. Quando processados, os processos nunca chegam ao desfecho. Se são concluídos e há condenação, os recursos impedem a execução das sentenças, promovem prescrição ou, até mesmo, reformam as sentenças. Vale lembrar que Paulo Maluf pode tomar posse como deputado porque foi absolvido em processos nos quais sofrera condenações, em primeiro grau, o que lhe permitiu esfregar na nossa cara que, no Brasil, não existe ficha mais limpa do que a dele.
Bem feito para nós.

Fonte: http://www.senado.gov.br/noticias/projeto-do-senado-que-aumenta-pena-para-crime-cometido-por-agente-politico-avanca-na-camara.aspx

Controle de velocidade

Entrou em vigor hoje, data de sua publicação, a Lei n. 12.436, de 6.7.2011, que "veda o emprego de práticas que estimulem o aumento de velocidade por motociclistas profissionais". É, você entendeu: trata-se de uma lei para coibir as loucuras que os motoboys perpetram no trânsito, de olho em recompensas econômicas. Eis as normas:

Art. 1º É vedado às empresas e pessoas físicas empregadoras ou tomadoras de serviços prestados por motociclistas estabelecer práticas que estimulem o aumento de velocidade, tais como:

I - oferecer prêmios por cumprimento de metas por números de entregas ou prestação de serviço;
II - prometer dispensa de pagamento ao consumidor, no caso de fornecimento de produto ou prestação de serviço fora do prazo ofertado para a sua entrega ou realização;
III - estabelecer competição entre motociclistas, com o objetivo de elevar o número de entregas ou de prestação de serviço.

Art. 2º Pela infração de qualquer dispositivo desta Lei, ao empregador ou ao tomador de serviço será imposta a multa de R$ 300,00 (trezentos reais) a R$ 3.000,00 (três mil reais).
Parágrafo único. A penalidade será sempre aplicada no grau máximo:
I - se ficar apurado o emprego de artifício ou simulação para fraudar a aplicação dos dispositivos desta Lei;
II - nos casos de reincidência.
A lei em apreço é inócua e, de quebra, vai irritar o consumidor. A partir de agora, todo dono de delivery poderá alegar, como escusa para eventual demora, que a culpa é da lei. Uma falácia, claro, mas é como vai ser.
No final das contas, a lei é ruim para o próprio poder público, obrigado a fiscalizar mais uma determinação inexequível. Além de ser uma boa oportunidade de maus fiscais negociarem uma propinazinha.

Sem querer ser pessimista, você acha mesmo que essa lei tem algum futuro? Aquela velha história da "potoca" parece que vai acontecer de novo. Afinal de contas, nenhum empregador manda que seu funcionário cometa infrações de trânsito ou cause acidentes. Mas ele exige pressa e aí, fazendo um raciocínio elementar e instintivo, o motociclista vira cavalo do cão. Algo semelhante ocorre com os motoristas de ônibus que, mesmo não ganhando nada pela velocidade, são compelidos a cumprir horários, haja o que houver. O resultado é sabido: direção perigosa, avanço de sinais, passageiros abandonados nos pontos, etc.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um milhão de olhares


O telescópio espacial Hubble completou um milhão de observações. Muito já se aprendeu sobre o universo graças a ele. E, como de praxe, imagens astronômicas costumam ser belíssimas.

Bella vita

Caylee Anthony
Uma criança de apenas dois anos de idade, linda e angelical como convém a uma criança, morre e tem seu cadáver abandonado no mato. A mãe segue sua vida normalmente, sem transparecer nenhuma preocupação. Muda-se para a casa do namorado, frequenta festas, participa da um concurso de beleza e faz uma tatuagem com a inscrição "Bella vita", talvez porque sua vida, naquele momento estivesse muito bonita.
31 dias mais tarde, a descoberta de evidências traz à tona a tragédia. Pela primeira vez, a mãe reporta o desaparecimento de sua filha, que teria sido sequestrada por uma babá. Tese interessante, considerando o absoluto desinteresse da mãe pela suposta refém. Mais um pouco e se descobriu o cadáver. A mãe, Casey Anthony, tornou-se a principal suspeita do homicídio e entra no centro de um dos mais rumorosos casos criminais da história recente dos Estados Unidos. Passou a dizer que a criança morrera acidentalmente, afogada na piscina de casa. Seu corpo fora descartado por medo.
Execrada pela imprensa e pela opinião pública, a mãe cognominada "monstro da Flórida" passou as últimas seis semanas sob julgamento e, por fim, acabou inocentada das acusações principais. Responderá apenas por mentir às autoridades sobre um crime inexistente, o que pode lhe render uma pena de no máximo quatro anos de prisão, dos quais três já foram cumpridos (Casey está presa desde 2008).
Veredito anunciado: absolvição inesperada
pela sociedade estadunidense
Fosse no Brasil, todo mundo, a começar pelos brasileiros, diria que isso aconteceu porque era no Brasil. Uma bobagem, porque em qualquer lugar onde o processo penal tenha algum caráter de justiça, um réu não pode ser condenado por homicídio se são desconhecidas as causas da morte da pretensa vítima. A morte da pequena não foi esclarecida pelos legistas. Se não se sabe por que ela morreu, não se pode imputar homicídio, muito menos doloso.
Por maior que seja o estarrecimento do público, a decisão do júri é tecnicamente correta. Os jurados, por sinal, deram prova de julgar com a própria consciência e não movidos por um desejo cego de atender à pré-condenação midiática. Fosse no Brasil, temo que os jurados acabassem condenando por esse motivo, mas não tenho certeza se tal ocorreria.
No final das contas, Casey Anthony será condenada por um crime menor, mas um em relação ao qual se tem certeza que praticou. No Brasil, responderia também por ocultação de cadáver. Quanto às certezas que cada pessoa possui em seu coração sobre a culpa dessa mulher, na verdade não são certezas. São inferências altamente plausíveis a partir de comportamentos que parecem totalmente incondizentes com o contexto. Plausibilidade não é conhecimento, porém.
Eu também acho que Casey Anthony matou sua filha e, provavelmente, fê-lo para curtir a vida. Mas é apenas isso: eu acho. Pode-se protestar o quanto for, mas no final a única certeza que podemos ter é esta: uma criança morreu. Não há como esta história terminar bem.

Mais: http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/07/06/absolvicao-de-mae-acusada-de-matar-filha-de-2-anos-gera-comocao-nos-eua.jhtm

Vá a pé

Atenção: esta postagem é do mês de maio deste ano. Ao corrigir um defeito no marcador, ela foi transportada para o dia de hoje. Enquanto não descubro como corrigir o problema, ela fica aqui, deslocada.

Não sei mais quantos anos eu tinha quando prestei atenção pela primeira vez numa eleição municipal, mas sei que naquele momento os candidatos já falavam sobre a necessidade de melhorar o transporte público na cidade, através de ônibus novos e limpos, melhor distribuição dos itinerários, regularidade nos horários e os famosos terminais de integração. Mais de duas décadas depois, nada aconteceu. Só o que mudou foi o nome de algumas linhas, alguns itinerários e a pintura (ou adesivos) dos veículos. Ah, sim, a tarifa muda uma vez por ano e ontem foi anunciado um valor de dois reais.
Dois reais!
Certa vez escrevi aqui no blog que ter um carro acabaria se tornando mais barato do que andar de ônibus. A assertiva foi questionada por algumas pessoas que, lucidamente, ponderaram que o custo do transporte em automóvel particular deve levar em conta, também, o IPVA, o seguro, a manutenção veicular, etc. Se reuníssemos todas essas despesas ao longo do ano e dividíssemos pelos dias rodados, constataríamos que ter um carro ainda sai mais caro.
Será mesmo? Continuarei a minha provocação lembrando que, como tudo o mais, custos também são relativos. As pessoas aceitam pagar mais por comodidade e conforto, desde que, é claro, disponham de  recursos para fazê-lo.
Na conjuntura que se apresenta, um cidadão que tome duas conduções para ir ao seu trabalho passará a gastar oito reais por dia (abstraindo o bilhete único que, segundo anunciado ontem, será implantado graças a uma iniciativa do augusto prefeito destas plagas), custo que, sinceramente, acredito rivalizar — e com perdas — em relação ao do proprietário de um carrinho barato, que rode poucos quilômetros por dia. Se ainda assim minha teoria não se confirmar, penso que ter uma motocicleta é a opção mais em conta para o bolso.
No final, a corda arrebentou naquele lombo mais previsível de sempre.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Índice zero

Repercute amplamente no meio jurídico, como seria inevitável, mais um resultado pífio e assustador no último exame de Ordem, realizado em dezembro passado. Desta vez, o índice de reprovação ficou em impressionantes (mas não inesperados) 88,275%. As consequências são as mesmas de sempre: gente esbravejando contra a falta de qualidade dos cursos de Direito, que proliferaram como praga nos últimos anos, e a mercantilização irresponsável de instituições privadas, tratadas genericamente, como se todas fossem farinha do mesmo saco. Além, é claro, dos pedidos de providência da OAB ao Ministério da Educação. Já vimos esse filme diversas vezes.
O alarde agora está sendo feito sobre cursos que amargam o vexame de não ter conseguido aprovar um aluno sequer. Das 90 instituições de ensino nessa situação (veja a lista completa), apenas duas são paraenses, ambas situadas na capital. Mas é preciso dar a César o que é de César: uma delas é a Escola Superior Madre Celeste, que inscreveu apenas um aluno no certame. Ele não passou (na segunda fase) e isso deu à ESMAC o estigma de aprovação zero. Convenhamos, esse não deve ser o julgamento. Também podemos dizer que a ESMAC teve apenas um aluno reprovado no exame, o que talvez lhe conferisse o menor índice de reprovação do país! Há várias outras instituições que também registraram apenas um acadêmico inscrito.
A segunda IES paraense da lista é o Instituto de Ensino Superior do Pará, que inscreveu 16 egressos, dos quais apenas 14 compareceram para fazer a primeira prova. Todos reprovaram sem acesso à segunda fase. Já é motivo para acender todos os sinais vermelhos.
Não há como minimizar o vergonhoso desempenho dos candidatos, mas também é preciso destacar — e a própria OAB está ciente disso — que a grande maioria dessas instituições inscreveu poucos alunos. O pior desempenho foi da Faculdade Campo Limpo Paulista, que inscreveu 73 alunos, sendo que 71 compareceram à primeira fase e 10 chegaram à segunda. Sem dúvida, de corar o rosto, mas demonstra que as entidades que inscrevem centenas de candidatos não chegam a uma situação tão adversa, felizmente.
Enfim, o índice de aprovação é acintosamente baixo e isso deve ser combatido. O diagnóstico é velho mas, a bem da verdade, o tratamento também. É uma questão de fazer a lição de casa. Instituições e bachareis.

 PS — Vale lembrar que a primeira fase do Exame de Ordem compreendia, até sua última aplicação, 100 questões objetivas com um conteúdo muito diversificado e extenso. Como em qualquer concurso, funciona como uma degola, matando os candidatos pelo cansaço. A segunda fase, já concentrada em uma área específica, era composta por uma peça processual e 5 questões discursivas. Consta que, a partir do certame deste mês, as questões objetivas serão reduzidas para 80 e as discursivas, para 4, mantida é óbvio a peça processual.

Perfil do público

Assinantes de canais eróticos são pais de família, discretos e que gostam de ver pornografia em casa. Esse é o retrato de uma pesquisa recente realizada com assinantes pela Playboy do Brasil, programadora de canais eróticos da TV paga como Sexy Hot e Private.

A informação é da coluna Outro Canal, assinada por Keila Jimenez e publicada na Folha desta terça-feira (5). A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL.
Desenvolvida pela Quantas, que faz estudos para o mercado, a pesquisa, que envolveu mil participantes em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Campinas, mostrou que 91% das pessoas preferem ver conteúdo erótico em casa.

Convenhamos, sair à caça de pornografia em estabelecimentos acessíveis ao público não é coisa de quem quer apenas assistir, não acha?

Notícia original: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/938957-assinantes-de-canais-eroticos-sao-pais-de-familia-diz-pesquisa.shtml

Uso consciente da linguagem jurídica

Este é o tipo de postagem que se sairia melhor fora do período de férias acadêmicas, quando os alunos estão (ainda) mais preocupados com as questões mundanas da vida (não é uma crítica; todos nós somos habitantes deste mundo). Mas como a ideia me ocorreu agora e eu costumo deixar de lado os temas que não desenvolvo de imediato, vamos lá.
Em maio de 1994, o Conselho de Justiça Federal publicou um trabalho intitulado "O que não deve ser dito: notas de linguagem forense e algumas observações práticas", de autoria do juiz federal Novély Vilanova da Silva Reis. Não me recordo como o documento chegou às minhas mãos, mas ele pode ser encontrado na Internet. Assim que li, passei a seguir suas diretrizes na elaboração dos trabalhos que desenvolvo. Afinal, sempre fui preocupado com precisão técnica e, acima de tudo, gosto de entender por que as coisas são como são, a fim de não me tornar uma pessoa que somente executa.
De saída, gostei de ver a apresentação, redigida pela hoje Ministra do STJ Eliana Calmon, à época juíza do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mencionando que "o consenso atual na magistratura brasileira sinaliza para a necessidade de buscar-se maior aproximação dos juízes com os jurisdicionados". Tenho cá a minha suspeita de que o tal "consenso" é mais uma visão pessoal da magistrada, que já deu mostras de sua ousadia quando assumiu a Corregedoria Nacional de Justiça, comprando briga com seus pares.
Não creio que a realidade seja como ela afirma. Pelo contrário. Mas concordo que esse deveria ser um dos maiores objetivos do Judiciário. Para implementá-lo, uma das medidas precisa ser a simplificação da linguagem jurídica, como pensam também Calmon e o juiz Novély Reis.
Referindo-se à "volúpia da palavra", o autor pondera que "por uma questão cultural, a linguagem forense é profusa e rebuscada, comprometendo a objetividade do texto". Os exemplos de abusos que ele cita merecem ser lidos, mas quem acompanha este blog deve recordar que, volta e meia, apresento aqui alguns desatinos da vida forense local (como este, este, este e este, além desta remissão). O autor informa que, durante o Fórum de Debates sobre a Justiça Federal, realizado naquele ano de 1994, foi extraída a recomendação, aos juízes, de que "utilizem, nos atos judiciais, linguagem acessível aos jurisdicionados".
Seguem-se, então, vários vícios de linguagem forense. O autor explica por que são errados ou, ao menos, inconvenientes. São informações necessárias para quem trabalha nesse meio e tem que enfrentar esses desatinos diariamente, quando não os comete. Alguns exemplos:

"Peça vestibular"
O autor sugere que se use, apenas, petição inicial — e não "peça vestibular", "peça exordial" ou "peça preambular" —, pois é esse o termo empregado pelo art. 282 do Código de Processo Civil. "Todos vão entender melhor", assevera. Pode ser. Mas é da natureza de todo escritor (e até somos levados a isso, nas aulas de redação) evitar a repetição de termos, que tornam o texto cansativo e pobre. A mim não parece problemático buscar alternativas a "petição inicial", até porque "vestibular" e "preambular" são expressões que qualquer pessoa razoavelmente educada deveria conhecer. Não as entender é um sintoma preocupante. "Exordial" é mais incomum, com certeza.
Seja como for, na hora de variar "petição inicial", é escolha do comunicador usar uma alternativa acessível ao interlocutor ou aloprar, como normalmente acontece. Caso daqueles que insistem em chamar a denúncia de "exordial increpatória".

"União Federal"
Novély Reis ensina que não existe União Federal, mas tão somente União, como sempre constou de todas as constituições brasileiras. "Federal" é a forma do Estado brasileiro, lembra ele, invocando o art. 18 de nossa Carta Política. Tem razão. Não há qualquer motivo para essa adjetivação, já que não existe outra União que não seja, justamente, a organização política da própria Nação (ou seja, o todo).
Neste particular, vale lembrar que todo mundo fala em "Constituição Federal", até para diferenciar das cartas estaduais. No entanto, a expressão é incorreta. O documento se chama "Constituição da República Federativa do Brasil" ou, simplesmente, "constituição", como ela mesma se designa. Mais uma vez, constata-se que federal ou federativa é a República, não a sua constituição. A famosíssima sigla "CF" deveria ser substituída por "CR".

"Justiça Pública"
Esta é ótima. O autor do texto afirma que tal expressão não deve ser mencionada em caso algum. Afinal, o autor da ação penal é o Ministério Público ou o ofendido. Aludir-se a uma "Justiça Pública" com função acusatória passa, ao leigo, a ideia de que existe uma justiça privada, o que não se admite.
Novamente ele tem razão. Não existe nenhum órgão chamado "Justiça Pública" e, como a palavra "justiça" se confunde com "Poder Judiciário", a conclusão elementar a que se chega é que tal órgão seria judicial, cumulando as funções de acusar e julgar — sabidamente uma das maiores excrescências de outras épocas.
Curiosamente, essa expressão injustificável continua sendo largamente utilizada no Judiciário local, a sugerir que o comunicador médio não pensa no significado daquilo que enuncia. Algo semelhante acontece com quem ainda se reporta a "promotor público", expressão há décadas substituída por "promotor de justiça".

Qualquer hora dessas, volto com outras ponderações do gênero.

Cantilena do mal

Eu repito tanto que a imprensa brasileira cumpre, ainda que às vezes sem dolo, um papel de deseducação da população, notadamente em certas áreas (como no que tange a crimes e Direito Penal), que dizer isso de novo já irrita até mesmo a mim. Mas como deixar de esclarecer ao menos aquela meia dúzia de abnegados que acompanham este blog?
Ontem quem aprontou foi a Bandnews. Em matéria sobre a bola da vez (a Lei n. 12.403, de 2011, que alterou o Código de Processo Penal e restringiu as hipóteses de prisão cautelar), falou que cerca de 100 mil pessoas deveriam ser postas em liberdade (não me recordo em qual área geográfica esse número seria alcançado).
A primeira ratada foi dada na abertura da matéria, quando o narrador mencionou "condenados cumprindo pena". Ora, caríssimos concidadãos, se o indivíduo está condenado e cumprindo pena, sua prisão não é cautelar e sim definitiva. A lei em apreço não vem ao caso, e sim as regras de execução penal.
Em seguida, dão destaque a um taxista que se queixa das consequências. Afirma que, antes, já era difícil trabalhar porque essas pessoas estavam roubando muito. Agora, ficará muito mais difícil. Ou seja, para o desavisado que vê a reportagem, a conclusão imediata é a de que ladrões serão postos na rua a rodo, já que o autor da matéria não corrigiu o erro do entrevistado. O curioso é que a própria matéria menciona que a prisão será mantida para crimes graves, categoria em que se inclui o roubo, delito que envolve violência contra a pessoa e cuja pena varia de 4 a 10 anos de reclusão, podendo ser elevada para 5 anos e 4 meses a 15 anos, nos casos habituais de uso de arma e concurso de agentes.
É preciso combater essa fúria emburrecedora de certos segmentos da imprensa, que se esbaldam em desinformar, quiçá em enganar de propósito. Até o presente momento, não soube de nenhuma distorção praticada por qualquer autoridade, com fundamento na nova lei.
Francamente...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cadáver eletrônico

Meus primeiros esforços para recuperação dos dados do meu HD restaram improfícuos, o que me deixou tão desgostoso que não tive ânimo para me sentar na frente de um computador por todo o final de semana, qualquer que fosse o motivo. Tenho, em tese, outras duas alternativas antes de proclamar a perda total. E antes de tentar a primeira, não posso reviver o equipamento por outros meios.
Enfim, as postagens continuarão incipientes até segunda ordem.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A cabeça do brasileiro

A novela Vale tudo, fenômeno de audiência durante sua exibição original, em 1988, e novamente agora, reprisada pelo canal Viva, tinha um casal de lésbicas, interpretado pelas atrizes Lala Deheinzelin e Cristina Prochaska. Mesmo sem nenhuma cena mais evidente, o simples conhecimento da homossexualidade das personagens provocou reação negativa do público, a ponto de o autor, Gilberto Braga, a contragosto, matar uma das garotas. E foi uma morte expressiva da histeria preconceituosa: um acidente de carro com direito a explosão. A destruição do corpo da moça me parece um símbolo, algo que bem poderia ser estudado por psicólogos.
Sete anos depois, em A próxima vítima, Sílvio de Abreu explorou a relação entre dois rapazes, vividos por André Gonçalves e Lui Mendes. Não havia intimidade entre eles, mas a homofobia foi escancarada e rendeu uma agressão de verdade ao ator André Gonçalves.
Em 2003, Manoel Carlos criou polêmica com um romance adolescente defendido por Alinne Moraes e Paula Picarelli, na obra Mulheres apaixonadas. Havia histeria na família da personagem de Alinne, mas o autor quis vender seu peixe. Receoso das consequências, apelou para o escapismo: no final da novela, numa encenação escolar de "Romeu e Julieta", um imprevisto levou Rafaela (Picarelli) a fazer o papel de Romeu e, com isso, deu um selinho na amada.
Dois anos depois, Glória Perez usou sua América para mostrar a homossexualidade de Júnior (Bruno Gagliasso), cuja mãe envidava todos os esforços para convencê-lo de que era macho. Até um casamento e um filho aconteceram, mas no fim foi divulgado com estardalhaço o que seria o primeiro beijo gay da TV brasileira. Quem apostou que a conservadora Globo refugaria, acertou. Na última hora, os dois rapazes aproximam os rostos e a cena foi cortada, para frustração e ira de muitos.
Nos últimos anos, personagens gays viraram rotina nas novelas. Parece até que implantaram uma espécie de política de cotas. Mas a existência deles atende a válvulas de escape: de um lado, são personagens burlescos, que servem de alívio cômico para a trama. De outro, se houver um relacionamento, é o mais asséptico possível, como se viu em Páginas da vida (de Manoel Carlos, 2006), com os atores Carlos Casagrande e Sérgio Abreu, que eram casados mas não se tocavam sequer respeitosamente.
Agora é a vez do SBT. Em sua ânsia por melhores índices de audiência, tomou da Record o autor Tiago Santiago, famoso não sei por quê (sempre o odiarei por ter inventado aquela patética trilogia dos mutantes), e apostou em Amor e revolução (por que toda novela do SBT tem "amor" no título?), centrado na ditadura militar e que recorreu ao apelo fácil das relações homossexuais. Veio então o estardalhaço do primeiro beijo gay da TV brasileira, estrepitoso, mas que não rendeu audiência. E foi entre duas mulheres (as atrizes eram Luciana Vendramini e Gisele Tigre). Satisfeito com a boa repercussão, o autor anunciou para breve um beijo masculino. Dúvida no ar: o SBT terá coragem?
Não teve. A cúpula da emissora cortou as asinhas do autor e o tal beijo foi sumariamente eliminado. Além disso, o homossexualismo de um personagem que é padre também foi vetado. A preocupação é com o público mais conservador.
Em suma, o máximo que se consegue tolerar é o beijo entre duas mulheres, o que para muitos é fetiche. Mas entre dois homens, nem pensar. Os mais intensos valores da tradição, família e propriedade não permitem de modo algum. E assim segue a cabeça do brasileiro.

Outras novelas e personagens gays em novelas da Globo: http://acapa.virgula.uol.com.br/cultura/conheca-os-personagens-gays-que-fizeram-historia-nas-novelas/3/4/1511